sábado, 30 de agosto de 2014

Fresh Fruit for Rotting Vegetables

Continuando ...

Como eu havia dito no post passado comprei 2 livros que merecem uma certa atenção em postagens separadas.

O livro de hoje chama-se “Fresh Fruit for Rotting Vegetables - Os Primeiros Anos” e conta os bastidores desse disco que com certeza fez a cabeça de muita gente.



Se você tem mais ou menos a minha idade, 33 anos, e já teve um skate, no mínimo você já batucou na carteira da escola o inicio da música California Über Alles, com certeza você já deixou desenhado em seu caderno ou seja lá  aonde for o  famoso símbolo DK.



Eu fiz tudo isso, e muito cedo, pois na época eu havia enfrentado a minha primeira mudança de casa, e se você já fez isso sabe o quanto é ruim deixar amigos para trás, e se enturmar para fazer novos.

Mas o Dead Kennedys me deu uma força.

Nessa nova vila havia 5 caras que viviam em cima de um muro cantando que nem uns loucos as músicas do Dead Kennedys, ou ficavam andando de skate escutando Dead Kennedys, só que penei muito para conseguir me aproximar e fazer amizade, pois eu era uns 5 anos mais novo que os caras,

Minha estratégia foi ir pelas beiradas, fiz amizade com o irmãos de um deles,que também era influenciado pelas músicas, e aos poucos fui conhecendo os caras, mas entre conhecer e fazer parte do grupo foram uns 10 anos rss

Hoje realmente somos amigos, montamos um coletivo de Djs juntos, devo uma grande parcela do meu conhecimento musical a esses caras, e todo o perreio que passei foi valido rss.

Ah o Livro, então é uma das melhores bandas punks que existiu, logo é direto e reto, assim como todo movimento foi.
Contem muitas fotos, todas tiradas pelo Ruby Ray conhecido por ter muitos registros da cena punk do final da década de 70 e inicio da 80.

Uma coisa que não é comum em biografias, mas não poderia faltar nesse livro são as ilustrações feitas pelo Winston Smith que é nada menos que o inventor do logo de banda mais famoso que existe (sim eu acho que o logo do DK supera o logo dos Stones) Winston Smith também é conhecido por ser um dos grandes nomes da técnica de colagem punk.

Bem é isso ai, se você tiver o vinil Fresh Fruit for Rotting Vegetables  (um dos mais cobiçados ) parabéns coloque-o em sua vitrola e boa leitura, se não tiver vai no cd, mp3, etc e boa leitura.


Abs

Jeff

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

2014

o ano que não acaba nunca.
o estado letárgico que não se vai,
a curiosidade sem fim na crise enrustida,
a esperança que não cessa com o despontar inevitável,

sim não tenho jeito, sou tola, ainda acredito na força do povo.
mas estou atrasada para desenrolar os pormenores,
talvez venha domingo,
se não conseguir mês que vem é nois : >)


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O Minhocão e suas dinâmicas urbanas

“Art. 375. Ficam desde já enquadradas como ZEPAM:
I - os parques urbanos municipais existentes;
II - os parques urbanos em implantação e planejados integrantes do Quadro 7 e Mapa 5 desta lei;
III - os parques naturais planejados.

Parágrafo único. Lei específica deverá ser elaborada determinando a gradual restrição ao transporte individual motorizado no Elevado Costa e Silva, definindo prazos até sua completa desativação como via de tráfego, sua demolição ou transformação, parcial ou integral, em parque.” 
(DIÁRIO OFICIAL, 1º de agosto de 2014 - LEI Nº 16.050, DE 31 DE JULHO DE 2014: Aprova a Política de Desenvolvimento Urbano e o Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo e revoga a Lei nº 13.430/2002.)


O Elevado Presidente Artur da Costa e Silva, o Minhocão, nunca foi exatamente um dos pontos mais amados de São Paulo: desde sua inauguração em 1971, as críticas a respeito de sua implantação sempre foram contundentes. Considerado uma “cicatriz urbana” por muitos, é o símbolo de uma administração impositiva, na qual interesses escusos eram sobrepostos às necessidades da população.

Desde a década de 90 foram discutidas possibilidades de “revitalização” da área afetada pelo Minhocão, sendo, majoritariamente, propostas de demolição do mesmo. O atual Plano Diretor Estratégico de São Paulo, entretanto, engloba perspectivas diferentes.

Partindo do ponto de vista daqueles que são favoráveis à demolição, encontramos argumentos diferentes, mas com um fundo em comum: a deterioração do parque imobiliário e o “perigo” da região. E quando há o contra-argumento do entulho gerado, uma das frases repetidas em meio acadêmico é que “o Minhocão é feito de elementos pré-moldados, logo, pode ser desmontado sem gerar entulhos”.

Indo um pouco além dessa discussão, é conveniente questionar se a área ao redor é realmente tão degradada quanto se fala. Evidentemente houve a deterioração do espaço, dada principalmente pela poluição visual, sonora e a fuligem, comprometendo a qualidade de vida dos moradores – o que acarretou em uma desvalorização imobiliária do entorno. Há a presença de cortiços, mas isto é uma característica do centro de São Paulo e seus edifícios abandonados; e a presença de moradores de rua é mais uma consequência das políticas públicas inadequadas da cidade do que a presença do elevado em si, embora ele acabe agindo como elemento de atração para os moradores sem teto.

Na contramão das opiniões demolidoras, existem outros pontos a serem considerados: a parte de baixo do Minhocão pode não ser a mais segura de São Paulo, mas não é uma das mais perigosas (vide o site ondefuiroubado – no qual os internautas registram os assaltos ou furtos sofridos). A rua é movimentada e há a presença de edifícios de uso misto (comércio no térreo e habitação nos andares superiores) – em suma: há a presença de pessoas. Em seu livro "Morte e Vida de Grandes Cidades", Jane Jacobs, jornalista e ativista norte-americana, discorre a respeito da dinâmica das ruas, argumentando que, quanto mais olhares uma rua recebe, mais segurança ela terá – a presença de transeuntes gera a sensação de proteção. Mesmo os bairros considerados tranquilos podem se tornar perigosos, e não é um guarda municipal ou um vigia que mudam as ocorrências na rua.

Entre outros pontos, é crucial entender a apropriação que ocorre à noite, aos finais de semana e feriados. Em São Paulo faltam espaços públicos de qualidade e a existência de um ambiente que deixe de privilegiar o automóvel é rapidamente absorvido pela população, carente de infraestrutura. No Minhocão a dinâmica é algo auto-regulável: vendedores ambulantes, trupes de teatro, famílias, ciclistas, skatistas, transeuntes indo para as feiras, moradores, que ficam na sacada observando o movimento, surgem e dominam o ambiente naturalmente. O espaço urbano é apropriado por olhares e ganha vida.

No artigo 375 do novo Plano Diretor Estratégico é prevista a gradual restrição ao transporte individual motorizado no Elevado Costa e Silva, definindo prazos para sua completa desativação – demolição ou transformação parcial ou integral em parque – como via de tráfego. Para uma aplicação inteligente das diretrizes do atual plano é importante não apenas considerar os interesses da população, mas também suas necessidades - que nem sempre estão alinhadas. O Elevado requer, enquanto um elemento híbrido e integrado à dinâmica urbana, uma abordagem que trabalhe com estratégias igualmente complexas e que, de preferência, estejam interligadas, garantindo assim uma resposta à altura das necessidades daqueles com quem se relaciona.

O Minhocão é tido como cicatriz e símbolo de administrações deficientes, mas também pode ser convertido em elemento de integração, resultado de uma nova conexão entre a população e a cidade. Transcender este estigma e analisá-lo a partir de uma ótica de potencialidades é ação primordial para a concepção de novas estruturas urbanas.

https://www.flickr.com/photos/fore/

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O começo

Sempre tive problemas com o início. Sempre. Aliás, muitas coisas em mim são assim: desde sempre. Ainda não me decidi se isso é bom ou ruim. Pode ser autenticidade, mas também pode ser pouco desenvolvimento, evolução. Não sei, não sei...

Mas voltando ao problema, os inícios sempre foram assim, difíceis. Quando criança, era um martírio chegar às festinhas de família, “quando a gente vai embora, mãe”? Então quase sem perceber, já estava enturmada e o auge era o final, “ah... mãe! Justo agora temos que ir”? E saía com um sorriso me despedindo dos novos amigos, olhando pela janela animada, pensando porque não tinha sido legal assim desde o princípio. Simples, porque era o começo.

E os primeiros encontros? Amizade ou romance, eles me causam arrepios! Os silêncios constrangedores, as perguntas bestas e óbvias, o balançar nervoso das cabeças... No mundo da escrita também: os primeiros parágrafos são tão complicados, reescritos diversas vezes, nada me parece bom até eu vencer e chegar ao terceiro ou quarto. E os títulos? O começo dos começos, um parto!  Terrível!

Isso sem falar no primeiro dia de trabalho... Você não conhece ninguém, não entende nada do novo ambiente, não sabe o que deve fazer, as pessoas te olham com desconfiança, você sabe que está sendo analisado. Depois fica tudo bem (ou não). Costumo dizer que há dois momentos realmente empolgantes no mundo do trabalho: quando se é contratado e o último dia. Sinto quase aquela sensação quando ia embora das festinhas, “até que foi legal, poderia ter ficado mais”.

E cá estou eu em mais um começo. Primeira vez aqui no blog. Primeira vez escrevendo “em público”. Ainda não estou muito confortável, mas espero me sentir mais desinibida depois.

É isso, dias 27 aí vou eu!

domingo, 24 de agosto de 2014

Aquele beijo

E é como se fosse um filme ruim, a que eu continuasse a ver porque gosto de filmes ruins. Com a diferença que este não acaba de repente quando a luz acende e sobem os créditos. Não, o problema aqui é que ele acabou mas a vida continua, de um jeito ou de outro. Mesmo que a gente não queira exatamente continuar com a vida que a vida nos dá, mas o que se há de fazer? Aliás, isso foi uma coisa que eu nunca perdoei em você. Sua profunda incapacidade de compreender as regras dos jogos de palavras. Isso e sua paixonite adolescente pelo Tom Cruise. Porra, logo o Tom Cruise? Deus do céu. Tanto ator melhor por aí. Ainda se fosse o Clint Eastwood. Vá lá, dá pra entender toda a mulherzice em torno da figura dele e o cara ainda é um puta ator. Mas o Tom Cruise? Deus do céu.

Tontura. Eu sinto até tontura de pensar no dia em que fui ao motel com outra mulher e lá estava o seu quadro favorito. Parecia que tinha alguém zombando de mim, era só isso que parecia. Como o Show de Truman, mas sem os comerciais de manteiga no meio dos diálogos. Claro, era apenas uma cópia fajuta do quadro, mas naquele momento tudo que eu estava vivendo era uma cópia fajuta do que tínhamos vivido, enquanto tentava em vão capturar o vento e me agarrar às últimas lembranças do suco de limão, do seu dedão do pé e da sua risada de porca. Engraçado perceber que são essas coisas que ficam. 

Então, o quadro. Quando o vi minha reação não foi chorar, nem foi fugir e também não foi brochar. Não, mas eu ri. Ri da ironia daquilo tudo, da maldade inocente completamente despropositada daquilo tudo. Era só uma forma de me agredir e nada mais. Faz tempo e  já senti mais falta, é verdade, mas ainda guardo essa memória comigo. Gostaria de poder esquecê-la. Qual o oposto do Alzheimer? Sofro dessa condição, a incapacidade de esquecer. Hoje não acordo mais de madrugada e fico revivendo arrependimentos, mas sei que é questão de tempo. Isso e de encontrar novamente com seu quadro por aí.

sábado, 23 de agosto de 2014

53 Coisas que estão acontecendo agora

1. Alguém está muito orgulhoso de você
2. Alguém está pensando em você
3. Alguém te quer bem
4. Alguém sente sua falta
5. Alguém quer falar com você
6. Alguém quer estar com você
7. Alguém espera que você não esteja em apuros
8. Alguém é grato pelo apoio que você deu
9. Alguém quer segurar sua mão
10. Alguém espera que tudo acabe bem
11. Alguém quer que você seja feliz
12. Alguém quer que você o/a encontre
13. Alguém está comemorando o seu sucesso
14. Alguém quer te dar um presente
15. Alguém acha que você É um presente
16. Alguém deseja que você você nao esteja com muito frio, nem muito calor
17. Alguém quer te abraçar
18. Alguém admira sua força
19. Alguém está pensando em você e sorrindo
20. Alguém quer o seu ombro para chorar
21. Alguém quer sair e se divertir com você
22. Alguém pensa no futuro com você
23. Alguém quer te proteger
24. Alguém faria qualquer coisa por você
25. Alguém quer ser perdoado
26. Alguém está grato pelo seu perdão
27. Alguém quer rir com você
28. Alguém esta rezando por você
29. Alguém valoriza seus conselhos
30. Alguém quer compartilhar seus sonhos com você
31. Alguém quer te segurar em seus braços
32. Alguém quer que você a segure em seus braços
33. Alguém gostaria de parar o tempo por sua causa
34. Alguém reza pela sua amizade e amor
35. Alguém ama o jeio que você o faz se sentir
36. Alguém quer que você saiba que pode contar com ele
37. Alguém está contente por ter sua amizade
38. Alguém queria ser igual a você
39. Alguém quer ser seu amigo
40. Alguém ficou a noite toda pensando em você
41. Alguém está vivo por sua causa
42. Alguém está desejando que você o note
43. Alguém quer te conhecer melhor
44. Alguém quer estar perto de você
45. Alguém sente falta dos seus conselhos
46. Alguém queria estar no seu lugar
47. Alguém tem fé em você
48. Alguém confia em você
49. Alguém precisa do seu apoio
50. Alguém precisa que você acredite nele
51. Alguém vai chorar quando ler isso
52. Alguém ouve uma música que lembra você.
53. Alguém te ama. Mesmo que ainda não te conheça.

(Inspirado no http://sneakykitchen.com/Inspirations/60_things.htm )

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A greve e os dias

Todas as manhãs pai e filha iam juntos à repartição. 

O pai em questão era um funcionário dedicado, cumpridor de horários e boa praça. A filha em questão tinha recém completado seu primeiro aniversário e acabara de ingressar à creche da repartição. Nada mais conveniente. O pai deixava a pequena menina na creche e seguia tranquilo para seu posto de trabalho, onde cumpria zelosamente às suas atividades em prol do bem público. Por mais trivial que este trâmite cotidiano possa parecer, esta rotina tinha aproximado pai e filha. A pequena ainda estava ensaiando seus primeiros passos, então o pai a levava agarrada ao corpo, numa dessas curiosas invenções humanas que se apropriam da engenhosa anatomia marsupial. 

Faziam a  maior parte do caminho a pé ("faziam" é modo dizer, já que era somente o pai quem efetivamente caminhava) uma vez que a repartição ficava num desses pequenos oásis da urbe onde ainda existem árvores - considerável parte delas frutíferas - e animais de boa índole em quem se pode confiar. A menina, a despeito do mau humor e rabugice que uma caminhada matutina possa sugerir para alguns, espalhava sua simpatia infantil manifestada por um sorriso ainda banguela e por um insistente e terno chacoalhar de mãos, para todo aquele ou aquela que cruzasse seu caminho (e quando digo "todo" estou sendo literal, já que a menina não fazia qualquer tipo de distinção e cumprimentava até os menos cumprimentáveis, arrancando sorrisos até de pessoas que aparentemente não tinham este hábito e que o praticavam  pela primeira vez em séculos). 

Eram tempos bons e aprazíveis, mas um espectro rondava a repartição. Em todo corredor se falava da iminência da greve. A administração da repartição mudara de mãos nos últimos meses e muitos concordavam que a mudança não era algo que se pudesse chamar de boa. O novo dirigente era, em verdade, um velho conhecido de todos. O senhor de cabelos brancos e olhar afável tinha ocupado um cargo importante na gestão que o precedeu e, como a lógica nos induz a supor, conhecia de antemão os problemas que a instituição padecia e estava preparado para enfrentá-los. A realidade, no entanto, nem sempre é lógica, sobretudo quando estamos tratando de aspectos políticos da realidade. Ao assumir o posto de comando da repartição, o dirigente continuou com cabelos brancos mas tornou o olhar menos afável. Negou a gestão anterior como Pedro negou a Cristo, com a diferença de que o fez bem mais do que três vezes. Sua gestão - gabava-se - serviria para tirar a repartição da lama a qual a gestão anterior a tinha lançado e, como primeira medida, teve a brilhante ideia de congelar o salário de todos os funcionários, a despeito do processo inflacionário ditado por nossa Economia.

Tal como fogo num pavio, a noticia do congelamento salarial foi se alastrando por todos os cantos da repartição. "Mais valia não ter me esforçado tanto" - dizia um - "mais valia ter ficado em casa" - afirmava outro - "mais valia era ter mandado este desditoso senhor congelar o salário da boa senhora que o concebeu" - vociferava um escriturário um pouco mais exaltado - "mais vale entrarmos em greve!" - decidiu a Maioria - esta senhora sempre tão democrática - em assembleia. E a greve se iniciou. No dia seguinte ninguém trabalhou.

Nem mesmo o pai, que como já se disse e é sempre bom que se repita, era um funcionário dedicado, cumpridor de horários e boa praça. Mas não era trouxa. Agora, ele também era grevista. Aqueles que cuidavam da menina enquanto o pai trabalhava não eram menos dedicados, tampouco deixavam de ser cumpridores de seus horários e também eram - por que não? - boas praças, mas, assim como o pai da menina, também não eram trouxas. Agora, eles também eram grevistas. O pai e a menina continuariam a ir todos os dias à repartição, só que agora como legítimos militantes da classe trabalhadora!

As idas à creche cederam lugar às idas às assembleias. O destino mudou, mas a simpatia da menina continuava a mesma. Seu público, no entanto, se ampliou bastante. Agora, a menina brincava entre os mais variados tipos e já não usava suas mãozinhas apenas para dar tchau aos passantes, mas também para bater palminhas sempre que algum companheiro da classe trabalhadora se inflamava ao microfone. Foi numa dessas ocasiões, inclusive, que a menina pronunciou sua primeira palavra: "precarização", para grande surpresa de todos que estavam ao redor.

A greve e a menina pareciam ter sido feitos um para o outro. O pai, que no incio estava receoso, foi logo ficando mais relaxado e permitindo que a menina transitasse livremente entre a massa de grevistas. Ela ia de colo em colo e recebia o mimo de todos. De um ganhou uma bandeira vermelha a qual aprendera a manusear com maestria, de outro ganhou um apito que utilizava sempre nos momentos em que a massa se exaltava. Era o mascote da greve.

Com o tempo a menina foi percebendo que seu vocabulário era modesto demais para que pudesse participar plenamente daqueles importantes acontecimentos, por isso, tratou logo de ampliá-lo. "Sucateamento", "neoliberalismo" e "repressão" vieram logo na primeira quinzena da greve. "Liberdade", "reacionário" e "pelego" vieram na sequência. Os verbos, conjunções e preposições necessários para unir tudo isso foram vindo com o tempo. Ao fim do segundo mês de greve, a menina já se comunicava com eloquência e já podia dialogar de igual pra igual com qualquer sindicalista das antigas.

Quem não queria saber de dialogar com ninguém era o dirigente da repartição. Para ele, a greve não fazia nem cosquinhas e ele seguia declarando para a imprensa que não aumentaria um tostão furado o salário de ninguém! E era bom que parassem de brincar de greve e voltassem logo ao tronco porque, do contrário, não receberiam nem o pouco a que tinham direito!

Tamanha intransigência e inabilidade administrativa serviriam para desanimar qualquer pessoa de ideias frouxos, mas este não era o caso. A greve continuava ainda mais forte. "Não tem arrego! Não tem arrego", gritavam todos. "Arrego", foi logo incorporado ao já sofisticado vocabulário da menina.

Ao término do sétimo mês de greve, a menina completou toda sua dentição (com exceção, é claro, dos chamados "dentes do siso", ainda que juízo não fosse algo que faltasse à menina"), motivo pela qual abandonou completamente sua dieta composta essencialmente de alimentos pastosos e de fácil deglutição e passou a ingerir, sem medo, alimentos mais consistentes. A noticia foi recebida com alegria por todos, que agora poderiam oferecer-lhe toda a sorte de sanduíches e outras guloseimas que o sindicato disponibilizava em todas as assembleias, os chamados X-Greve. Não tem arrego! Não tem arrego!

Com o irrestrito apoio do governador do estado, o dirigente da repartição começou a endurecer as coisas. As prisões, episódios apenas pontuais no inicio da greve, transformaram-se em acontecimentos rotineiros. A policia estava autorizada a prender por qualquer motivo e até mesmo por motivo nenhum, caso o policial não fosse com a cara do suposto meliante. O movimento grevista teve que se fortalecer para a libertação dos presos políticos. A massa grevista tomou as ruas e foi pedir apoio da população. "Não tem arrego! Não tem arrego", diziam os cartazes. "Não tem arrego! Não tem arrego", gritavam os grevistas.

A repartição deixara  há tempos de manter suas atividades mínimas e agora estava às mínguas. A greve se radicalizara depois de 7 anos de infrutíferas tentativas de diálogo e o novo dirigente, escolhido pelo governador do estado, seguia a mesma linha intransigente de seu antecessor. A situação estava até confortável para ele já que a repartição estava economizando bastante com a interrupção geral dos serviços.

O pai e a menina, é fundamental que se diga, mantinham-se firmes na luta. A menina, que completara toda sua alfabetização criando os cartazes utilizados nas manifestações, tratara de ampliar de uma vez por todas seu universo cultural e substituíra, por conta própria, o seu acervo literário. Os livros coloridos de autores como Monteiro Lobato, Ziraldo e Tatiana Berlinky cederam lugar a obras de maior densidade e intenso conteúdo político: Bakunin, Proudhon, Thoreau, Lenin e outros. Como presente de aniversário de 10 anos, a menina pedira de presente a seu pai uma coleção dos escritos de Marx e Engels e organizou um grupo de estudos entre os grevistas. O pai passou a não acompanhar mais o raciocino da filha - eram poucos que conseguiam - mas sempre a apoiava em tudo.

Foi quando apareceu uma ponta de esperança. Após 17 anos de tentativas frustradas de diálogo com a direção da repartição, um dirigente enfim apareceu em uma reunião de negociação. Sua proposta era a de que todos os presos políticos seriam soltos imediatamente, com a condição de que todos os grevistas voltassem aos seus postos de trabalho na manhã seguinte. Aquilo era golpe baixo! A luta não poderia acabar daquela maneira. "Não tem arrego! Não tem arrego!" - foi a resposta de todos em assembleia.

A greve só crescia e agora contava com o apoio dos filhos dos grevistas que iniciaram a greve. A menina tinha o cuidado de introduzir estas crianças nos estudos revolucionários e organizava rodas de leituras dos clássicos da desobediência civil. Já não eram grevistas. Eram uma comunidade. Muitos abandonaram sua antiga família e passaram a viver definitivamente nos acampamentos montados nos jardins da repartição. Antropólogos e jornalistas do mundo começaram a se interessar por aquela nova forma de viver e passaram a ser figuras constantes no local. O enterro do principal líder sindical, no inicio da terceira década de luta, foi noticia em jornais do mundo todo, que destacavam o curioso conteúdo de seu epitáfio: "Não tem arrego! Não tem arrego".

O pai da menina já não se lembrava mais porque a greve tinha começado mas, mesmo já tendo se aposentado, continuava acompanhando a filha às manifestações. A menina era agora uma mulher que já entrava nos quarenta e tinha sido eleita por ampla maioria de votos a nova presidenta do sindicato. Agora ela era a voz da greve, a líder sindical, aquela que levaria todos à iminente vitória! "Não tem arrego! Não tem arrego!" - disse ela em seu inflamado discurso de posse.

No dia seguinte, pai e filha iriam juntos à repartição...

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Claro feito água (da Cantareira)

Pergunta: Candidato, sua campanha exalta a meta de crescimento econômico, como o senhor pretende cumprir essa meta?
Resposta: Ótimo. Eu e minha equipe vamos trabalhar do começo ao fim do meu governo. Vamos investir em áreas fundamentais, cortar os gastos supérfluos – doa em quem doer –, temos todo um planejamento voltado para a área de logística, que vai reduzir os custos e maximizar os lucros. Viajando por aí eu vejo o potencial que estamos desperdiçando e não vou deixar que isso continue do jeito que está.

Pergunta: O senhor fala em corte de gastos. Sendo mais específico, quais áreas seriam alvo destes cortes?
Resposta: Muito bem. Nós temos uma equipe econômica muito competente que está preparando um pacote de intervenções. Eu não quero adiantar nenhuma medida de forma prematura, mas durante toda minha vida eu aprendi com meu saudoso pai a ter planejamento, a não dar um passo maior do que a perna e ter metas ambiciosas. É assim que meu governo será pautado.

Pergunta: E os investimentos aos quais o senhor se refere, vão sair de onde, candidato?
Resposta: Exato. Veja bem, nós temos um potencial muito grande que vem sendo mal aproveitado. O eleitor está cansado de ver tanta riqueza mal investida. No meu governo a população vai ver um governo baseado no planejamento estratégico, que vai alocar os recursos de maneira mais inteligente e proveitosa.

Pergunta: E esse crescimento econômico, candidato, partindo do princípio que o senhor vai atingir suas metas, como ele vai chegar até a população?
Resposta: Perfeitamente. A população vai ficar feliz em ver que o país está no rumo certo. Recentemente nós tivemos a Copa do Mundo, que colocou o país em notoriedade. Todos ressaltaram a qualidade do povo brasileiro, um povo acolhedor, generoso e hospitaleiro. O povo brasileiro sentiu muito orgulho de si mesmo durante a copa, com a economia do país crescendo toda essa euforia terá também um amparo econômico.

Pergunta: O senhor citou a Copa, antes do mundial havia um receio muito grande em relação à segurança. Como acabar com essa sensação de insegurança da população?
Resposta: Exatamente. Veja bem, quando eu era criança a gente brincava na rua sem preocupação. Eu saía de manhã para brincar com os meus amigos e só voltava a noite, meus pais não se preocupavam porque sabiam que estava tudo bem. É essa sensação de segurança que precisamos recuperar. O povo tem que se sentir seguro no país que é dele, temos que investir na segurança para ter esse resultado.

Pergunta: Desculpe candidato, mas acho que não ficou clara a sua proposta para segurança.
Resposta: Pois bem. O país tem muitos problemas. A população se sente abandonada. Ela paga muito através dos impostos e recebe pouco em retribuição. É função do Estado realocar esses recursos para que a população receba de volta o que ela investe no Estado. Quando eu viajo em campanha as pessoas me procuram angustiadas, se sentem desprotegidas, querem melhorias nos serviços de segurança, saúde, educação, etc.

Pergunta: O senhor falou em educação. Existe alguma proposta concreta para essa área?
Resposta: Sem dúvida. Basta pensarmos que antigamente a escola pública era um orgulho para a sociedade. Os pais ficavam felizes por verem seus filhos estudando em uma instituição pública, ia para a escola particular aquele aluno que não conseguia ser aprovado pelo Estado. Hoje em dia é o contrário, mesmo a população mais carente se sacrifica para tentar pagar a educação dos filhos. Isso não está certo.

Pergunta: E como inverter esse quadro, candidato?
Resposta: Exatamente. Esse é um ponto chave no nosso plano de governo. As pessoas mais velhas têm muito orgulho de terem estudado na escola pública e nós vamos resgatar esse orgulho. O orgulho dos alunos, o orgulho dos professores, o orgulho dos pais dos alunos. Vamos reerguer a escola pública para que ela tenha o valor que merece.

Pergunta: Em relação à saúde, candidato, o que o senhor pretende fazer?
Resposta: Perfeitamente, a população demanda atenção na área da saúde. Precisa de médicos, de leitos, de equipamentos, de profissionais qualificados. A saúde no país anda muito mal e precisa melhorar. Nossa população hoje em dia não tem nem o direito de ficar doente porque sabe que não vai ter atendimento de qualidade. Um país que quer crescer não pode deixar sua população amontoada em corredores de hospitais. E é por isso que eu conto com o SEU voto, para que possamos, juntos, resolver esses e outros problemas. O país quer mudanças, o país quer melhoras e eu sou a pessoa certa para esse cargo.


terça-feira, 19 de agosto de 2014

Secret

O aplicativo mais polêmico da atualidade dispensa apresentações detalhadas. Lançado nos Estados Unidos com o objetivo de "incentivar as pessoas a compartilhar seus pensamentos e sentimentos mais profundos, gerando conversas genuínas que seriam impossíveis de outra forma", o Secret acabou seguindo por caminhos menos altruístas.
Poder gritar ao mundo seus segredos e desejos sem que seja julgado por isso é extremamente sedutor, e segundo os criadores do aplicativo, o objetivo era esse. Mas não é dessa forma que o mesmo tem sido usado. O Secret é o principal disseminador de um dos novos males do século, o Cyberbullying.
Por definição, cyberbullying é "quando a internet, telefones celulares ou outros dispositivos são utilizados para enviar textos ou imagens com a intenção de ferir ou constranger outra pessoa." Segundos especialistas, o cyberbullying é pior que o bullying por si só, pois a pessoa afetada sofre da sensação de que "todo mundo já sabe", não tendo opções de escolha de fuga, como mudança de colégio, cidade, ou desmentir a mensagem disseminada através do próprio divulgador da mesma. O autor desconhecido se mantém "protegido" sob o anonimato garantido pelo aplicativo.
Defensores dizem que o aplicativo é divertido e que o usam como método de descontração. Quem já teve sua intimidade divulgada no mesmo, discorda. Em uma era em que o que o tema "exposição pública" tem sido tão debatido, o aplicativo chega para atrapalhar. Pais, conservadores e defensores da ética se agrupam em um time que tenta convencer as pessoas a não se exporem tanto na internet, uma vez que perde-se o controle do que foi publicado no segundo em que o post é feito. No caso do Secret isso é ainda pior, uma vez que qualquer um pode postar qualquer coisa a seu respeito, sendo verdade ou não, não tendo necessidade de provar o que foi dito. Recentemente um amigo, que nem sequer possui o aplicativo teve sua foto publicada no mesmo. A legenda era elogiosa, mas apesar da boa intenção do autor, os comentários não seguiram todos pela mesma linha.
O resultado disso, como era de se esperar, foi parar na polícia. Uma pilha crescente de processos têm sido abertos contra o aplicativo. Os criadores se defendem dizendo que os posts são apagados após denúncias, mas sabe-se que é impossível conter a velocidade dos danos causados. A polícia adverte que os casos serão investigados e que os usuários não contem com a segurança do anonimato uma vez que cadastros são necessários para se usar o aplicativo ou qualquer outro acesso à rede, e que, caso descobertos, os autores sofrerão as devidas punições penais.
Casos como esse não são tão comuns em outras redes sociais, onde tem-se foto e nome identificando o autor, o que gera opiniões revoltadas como as de quem dizem ser um aplicativo covarde e desrespeitoso. 
Concordo em partes. Não acho que o problema esteja diretamente no aplicativo. O problema do Secret está em ser usado pela única raça que não se importa em disseminar a crueldade deliberadamente e ainda se divertir com isso.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

No Meu País...

 No meu país, a crise de identidade, o fracasso social, político e educacional faz de nós uma nação de cidadãos revoltados, cansados, alienados e sem perspectiva de melhora.
 No meu país a classe privilegiada se encontra muito bem acomodada cheia de conservadorismo e avessa a mudanças, explorando a classe desabastada que crê fielmente em sua função no mais fiel estilo “Alexei Stakhanov”.
 No meu país quem não tem dinheiro está á mercê da própria sorte e é submetido diariamente ao desrespeito que nós lhe oferecemos, queremos inconscientemente abafa-los, chutá-los, tentando a todo custo tapar os olhos a essa desgraça que nos assola noite e dia desde 1500. E isso, porque julgamos de maneira insensata esses reféns que não se adéquam a sociedade feita para os ricos, porque, claro, são pobres. O Brasil foi idealizado, projetado para uma elite, aristocrata, branca, europeia e monopolizadora, onde aparentemente nunca existiu um regime escravocrata.
 No meu país permite-se a venda de sapatos, celulares e roupas a preços absurdos em lugares onde há pessoas passando fome, sem teto para morar, sem condições de sobrevivência.  E como resposta a isto a burguesia coloca a culpa no esforço individual. Quem é capaz de me responder o faça. Por que uma criança que nasce numa carente condição, num barraco de favela, sem escolas na proximidade, sem saneamento básico, vendo os familiares saindo 05H00hrs da manhã e voltando 10H00 da noite do trabalho, quase escravizados para no fim do mês faltar dinheiro pra comida... Onde está o estímulo, a perspectiva e coragem de crescimento dessa criança, onde ela buscará isso? Na TV? Certamente não. E não adianta esperar pelo governo, pois ele não se responsabilizará.
 No meu país quando há greves a classe trabalhadora se divide e se volta contra si mesma, invés de se unir e lutar pelo direito de um trabalho mais digno. E enquanto isso o governo assiste tudo de camarote com uma segurança que devia nos proteger e não nos atacar e reprimir.
 No meu país o preto, a empregada, o índio, a mulher, o gay, o pobre, o nordestino não se sentem representados na mídia. Como um país de maioria pobre e negro é representado por brancos e ricos? Não nos perguntamos como isso é prejudicial a nossa sociedade?
 O meu país é lindo naturalmente, é onde ouço as mais lindas canções, é aqui que encontro o povo mais sorridente e amável. Ficamos com o resto daquilo que nos foi roubado e mesmo assim não desisto de ser brasileira, porque somos um povo sem pernas, mas que ainda caminha!

https://www.youtube.com/watch?v=DkFJE8ZdeG8

Fabiana LeMasque

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Sobre lembrar

Lembranças e memórias impedem a porta de fechar.

Atrasam as horas, o tempo se arrasta e o passado se espalha no presente, como uma onda se espalha pela praia quando quebra na areia. 

Ver você de novo. Reviver. Até mais forte do que antes, até mais real?

Como o vento que não se vê...reviver de olhos abertos.

Um jogo de luzes....qual é a real cor se a luz que incide transforma aquela natureza?

Lembrar também é criar. Sentir o cheiro daquela casa, sentir alegria, angústia e até frio.

Reconstruir cenas inteiras.

Viver é infinito...

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Sei lá

Tenho chorado muito - Disse ao terapeuta.
- Você tem chorado por alguma coisa pontual ou é simplesmente chorar as pitangas? Perguntou-lhe o calmo homem:
Depois de alguns minutos, respondeu:
- São coisas pontuais, mas com o passar do tempo, elas vão se juntando, os problemas vão se organizando em fila indiana e entrando um a um depois que a porta se abre.
Daí quando vou falar...sei lá.
- Sei lá o que?
- Sei lá.
Silêncio total
- São tantos problemas pontuais que sempre quando vou falar sobre eles. viram lamúrias, queixas. choramingo...chorar pitangas...então a única resposta é "sei lá".
-Sei lá, o quê?
- Sei lá...sabe os filmes da Sofia Coppola?
- Qual? 
- Lost in translation, Somewhere...
- O que tem eles?
- Ah, sabe...
- O quê?
- Ah, sei lá




segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Sabor do Clima

Você, branquela azedo, que pensou que ia sair da praia vermelho picante, vai ter que saborear o amargo cinza do nublado dos céus!

sábado, 9 de agosto de 2014

Sobre o medo


Sugestão: ler ouvindo "Pequeno Mapa do Tempo", de Belchior 



Todos nós temos, em um grau ou em outro, algum medo. Quando crianças, temos medo do escuro, do bicho papão, da mãe descobrir que a gente aprontou, do homem do saco. Quando adolescentes, temos medo de levar um fora do/a carinha/mocinha que gostamos, de tirar nota vermelha na escola, de não sermos aceitos no grupo. Quando adultos, temos medo de perder o emprego, de assalto, do fracasso, da solidão.



Algumas pessoas possuem medos estranhos, como de pássaros, de lugares cheios ou apertados ou amplos, de dirigir, de altura, aranha, avião, espíritos, palhaços, etc... 
Aprendi que o medo pode ser benéfico por nos alertar de perigos eminentes. Mas ele também pode ser ruim, quando se torna fator limitante de nossas potencialidades. É claro que o conceito de perigo pode ser bem relativo, assim como a diferença entre o cara prudente e o cagão (sem falar nos medos patológicos).
Lembro de uma frase muito bonita que li uma vez (não lembro a autoria, deve ser Clarice Lispector ou Chico Xavier): "Tenho medos bobos e coragens absurdas".  Deixando a coragem para um outro mês, assumo que tenho vários medos... Um deles é de ETs; um outro é o de não ter tempo suficiente nessa vida pra fazer tudo que desejo - Os desejos também posso compartilhar com vocês no dia nove de algum outro mês.
Outro medo está relacionado com a ameaça que tenho sentido de perder minha liberdade. Podem me chamar de exagerada, mas estou cada dia com maior impressão de que estamos em um Estado de Exceção: Prisões arbitrárias, projetos de lei criminalizando protestos, toque de recolher... Como diz Belchior, "eu tenho medo que chegue a hora que eu tenha que entrar no avião" para me exilar em outro país. Caso seja necessário, já fiz minha escolha: vou pro Uruguai. Bora?

Quer ler mais?
Sobre leis que preveem criminalizar protestos políticos: http://www.brasildefato.com.br/node/27847

terça-feira, 5 de agosto de 2014

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Carta de término.


Então, enfim, acabou.
Tanta coisa vivida, sentida, obtida e colorida. Mas deu, já era, faz parte de outro tempo. Um tempo em que a gente era a gente, e não você do teu lado e eu do meu.
Mas, olha, quero te fazer um pedido, dado que tô com crédito na casa: 
Sai de perto de mim.
Sai de perto dos meus amigos.
Sai de perto da minha família.
Sai de perto daquilo que forma o que chamo de eu. 
Você não mais faz parte disso. 
Sai.

Acho o cúmulo você querer sair da minha vida levando aquilo que obteve sem merecer. Das coisas ok, vai, leva. Isso eu consigo de volta, de outro jeito. Até bom que você leve, e leve com as coisas a possível lembrança que ficaria de ti se ficassem suas coisas.

Não meus amigos. Isso você não leva. Aqueles que foram contigo não voltam mais. Que te consolem, que riam com você, que vivam com você. E que não me procurem mais. Num momento de fim, não se acompanham dois enterros. 

Não minha família. Se você fosse a mulher que todos pensavam que você era, você estaria casada comigo. É inquestionável que você foi bacana com todo mundo, mas não, tenha respeito pela dor alheia. Pela família alheia. 

Leva teu espólio. E sai. 

Ah, só para não esquecer: sai pela porta da frente. 
Porta dos fundos é só para quem é de casa. 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

ex bom é ex vivo(a)

teoricamente já é dia 2, mas como ainda não dormi ainda é dia 1, ou seja, meu dia, portanto segue aí meu post.

muita gente diz que ex bom é ex morto, mas discordo. ex bom é ex que, mesmo quando não vira best friend, a gente pode encontrar e dizer pelo menos oi. é ex que quando a gente se encontra, mesmo com o boy novo a gente dá beijinho no rosto e abraço e diz "bom te ver". é ex que, quando a gente ouve uma novidade boa sobre ele, sorri contente, independentemente de como foi o término. ex bom é ex que a gente não quer ter perto, mas quer saber que está bem.

nos últimos 5 meses encontrei 3 exes. os 3 com que mantive maior intimidade e tempo juntos. o ex 1 encontrei no rio de janeiro, quando peguei uma rua errada para ir à uma festa. ficamos no dia seguinte e foi ótimo. o ex 2 encontrei numa festa quando eu estava com o ex 4 e ele (o ex 2) foi bem antipático, como lhe é de costume. o ex 3 encontrei hoje, ontem e antes de ontem, na flip, em paraty, com o atual dele (acho). o ex 4 não encontro faz tempo, mas adoro, nos falamos quase que diariamente. e o ex 5, bom, o ex 5 digamos que tem outra relação (séria) e só me contou meses depois, quando eu estava quase me entregando por completo. do atual não vamos falar, pois o assunto hoje é ex (mais precisamente o ex 3) e espero que, se virar ex (o atual), que seja daqui a uns 70 anos.

há uma história envolvendo o ex 3 e o ex 4 que não consigo entender, muito menos explicar, portanto - resumindo - preciso dizer que o atual do ex 3 é ex do ex 4. e eu sou ex do ex 3 e do ex 4 e o ex 4 é ex do atual do ex 3. enfim, tudo isso pra dizer que encontrei ex 3, depois de uma última vez não tão boa e foi incrível. 

nada de papo sério, apenas amenidades. apenas assuntos do cotidiano, arte, literatura, trabalho, como tem de ser papo com ex quando não se quer discutir erros do passado, nem relembrar bons momentos. talvez porque ainda não seja hora, talvez porque seja só isso mesmo, talvez porque não há nada que se falar, além de amenidades. 

claro que há uma curiosidade em saber como está, o que está fazendo, o que está comendo, o que está vendo, ouvindo, mas não quando se encontra de repente e inesperadamente e com o atual. de qualquer forma é bom saber que o atual do ex parece ser legal, fofo e bonitinho, com o qual também houve uma conversa de amenidades. no inconsciente uma vontade de chegar e falar vem aqui amigo, deixa eu te dar umas dicas, mas o bom senso disse cala a boca. claro que passaram mil cenas pela cabeça, uma coisa boba de pensar como dormem, o que fazem na cama, o que conversam no chuveiro num dia frio. mas aí vem o bom senso de novo e fala cala a boca.

mas o bom, o bom mesmo, é que depois de tanto tempo, quase um ano pós-término, não haja nada pra discutir. é perceber que o que ficou é isso mesmo, o desejo de que estejam todos bem e a saudade da gata, nada mais. e poder encontrar na rua, dar um abraço e se despedir depois de 5 minutos de conversa boba.

e o melhor é ter a plena certeza de que tudo isso é verdadeiro.