segunda-feira, 29 de setembro de 2014

perfume

infelizmente não disponho de tolerância suficiente para simplesmente ignorar comentários ignorantes e bestiais. confesso tenho problemas sérios com isso e para não perder o costume e personalidade porque faz parte ter uma resposta tão idiota quanto ou pouco menos ignorante aceito algumas provocações e até me permito o luxo e riqueza de rir alto com alguns comentários.


sempre gostei de perfumes, tenho uma relação íntima para não dizer quase louca com cheiros sejam dos mais estranhos e esquisitos; por exemplo cheiro de mato queimado, de banho, de chuva em terra seca, de folhas e flores molhadas com garoa, de tijolinho à vista em casa nova ou velha com chuvas torrenciais, de casa limpa ou até suja desde que seja a minha, de shampoo no cabelo seco, de esmalte, de acetona, de tintas, de gelo seco, de brisa, de mar, de cachoeiras e quedas dágua em pedras, cheiros de quase tudo me causa sensações de alquimia pura.


talvez tenha o olfato apurado ou não talvez apenas goste de apreciar os cheiros. quanto se trata de perfume isso remete diretamente para minha mãe pois não existe mulher mais cheirosa no mundo pode ter a certeza; com ela aprendi a escolher os perfumes a saber qual tem 100% de entrada e saída, qual fica melhor na pele e quais lugares devem receber várias borrifadas.


aprecio sem moderação perfumes e se pudesse teria vários com ou sem marca um para acordar outro para dormir, gosto tanto de um certo cheirinho para dormir, aninhar num peito e ficar, sentir aquele cheiro de banho no pescoço, tão bom e gostoso.


se me perfumo leio e se leio viajo. desta vez fui para áfrica e a viagem iniciou já no pegar o livro e ao sentir o cheiro. sabe cheiro de papel velho, gasto, onde traças passearam e deixaram aquele amarelado do tempo, um cheiro de ideologia do passado de esperanças passadas. 


em mayombe é quase impossível imaginar cheiros que não sejam das árvores, folhas e flores, rios e terra. como também é inconcebível imaginar homens de guerrilha com empenho total em tomadas de terras e tribos e na realização da revolução preocupados com os cheiros do sovaco a ponto de parar o conflito e pedir licença para descarregar uma borrifada de desodorante x ou z ou pingar uma gota da essência francesa. 

então imagine o operariado na metade do conflito na comuna ou o che ou hugo chavez em reunião de acusações da onu pedindo pausa para fazer o ato de se perfumar para guerra e quem sabe vencer o inimigo pelo cheiro. pior do que isso é imaginar que neste século comentários se prestam ao desfavor do conhecimento ao tentar desconstruir uma ideologia que se pauta na equidade e justiça social embora contenha todos erros históricos ainda que menores ao que está posto hoje.


em tempos eleitorais a distorção de fatos e propostas ganham proporções assustadoras em simples comentários, entrevistas e debates; chega a ser ridículo para não dizer absurdo, cansa e estarrece. e para jamais estagnar o conhecimento, a curiosidade e a esperança sigo as letras do querido pepetela com o cheiro de mayombe.


(...) quando alguém afirma que tem de acreditar no desinteresse de alguns homens, porque isso corresponde a ideia que ele tem de humanidade, mesmo que os fatos mostrem o contrário, então que é isso? tem-se uma ideia preconcebida do gênero humano, uma ideia otimista. por isso, recusa-se toda realidade que contrarie essa ideia. é o esquematismo da política. é um aspecto religioso, uma concepção religiosa da política. infelizmente é a maneira de pensar de muitos revolucionários. 

- mas, camarada comandante não achas que há camaradas que estudam desinteressadamente? 

- crês que haja alguma coisa que se faça desinteressadamente da vida?

lutamos pensou que encontrava apoio do comandante. sentiu coragem para proferir. 

- é por isso que não estou de acordo com o comissário que nos obriga a ir à escola. (...)


as pessoas devem estudar, pois é a única maneira de poderem pensar sobre tudo com a sua cabeça e não com a cabeça dos outros. o homem tem de saber muito, sempre mais e mais, para poder conquistar a sua liberdade, para saber julgar. se não percebes as palavras que eu pronuncio, como pode saber se estou a falar bem ou não? terás de perguntar a outro. dependes sempre de outro, não és livre. por isso toda gente deve estudar, objetivo principal duma verdadeira revolução é fazer toda gente estudar. (pepetela, 1982:78-79)

domingo, 28 de setembro de 2014

Culpabilização e a Falácia do Mundo Justo

Escrever um texto, mesmo que superficial, sobre alguns dos temas em pauta nos discursos feministas, como a culpabilização da vítima, não é exatamente uma tarefa simples. Primeiro porque sinto que me falta embasamento suficiente (e, creio que sempre irá faltar), então acredito que o texto ficaria incompleto. Segundo, porque, de certa forma, enquanto branca, hétero e de classe média, pertenço a um grupo primordialmente opressor, e não passarei pelas mesmas situações que uma mulher negra ou alguém trans*. Racismo e transfobia são potencializados, quando associados à misoginia, e a luta deles é ainda mais difícil que a minha.

Entretanto, ainda sou mulher, ainda estou inserida numa sociedade que prima por um discurso machista e onde ter comportamento feminino é algo ruim. E acredito que começar a falar sobre isto abertamente é um primeiro passo.

Fomos criadas e condicionadas a uma cultura de medo revestida de “boa educação”, uma lógica de negação das coisas básicas, de "garotas não devem jogar futebol" a evitar usar uma roupa curta num dia quente, para não sofrer assédio – e ainda assim, o pior acontece: mesmo quando você toma as.... “medidas preventivas”... e sofre o assédio, há a acusação: sua roupa, seu comportamento, sua vida sexual... justificando a violência, a responsabilidade recai sobre a vítima, não no agressor. A brutalidade é minimizada a qualquer custo.

Creio que o pior disso é que, não basta você se sentir podre por ter passado por aquela situação, sofrer a tensão diariamente, ainda vem algum idiota e te culpa e, se você não tiver a cabeça no lugar, começa realmente a achar que o problema é com você. Isto é a chamada falácia do mundo justo, a crença de que sistema em que vivemos é justo e cada um tem exatamente o que merece. Como uma punição universal, só que adaptada para valores individuais.

Mas, acredite, o problema não é você.

The Victim, by KkFranca: http://kkfranca.deviantart.com/art/The-Victim-408071661

Este mês foi julgado o último envolvido no caso de estupro coletivo das mulheres de Queimadas, crime ocorrido em fevereiro de 2012, as famílias das vítimas ainda sofrem agressões por parte da população – as garotas mereciam, ora porque eram prostitutas, ora porque se faziam de difíceis.

Em outubro de 2013, em Goiânia, Fran teve vídeos íntimos vazados na internet pelo ex-namorado, e foi publicamente hostilizada por ter feito sexo e ter permitido que ele gravasse. No mesmo ano, outras garotas que sofreram com situação semelhante, optaram pelo suicídio.

Em março de 2013, Simone Lima, uma professora, foi esfaqueada por um estudante, Thomas Hiroshi Haraguti, de 34 anos; ele foi condenado a 16 anos de prisão por homicídio duplamente qualificado – o advogado de defesa pretende recorrer da decisão, alegando Síndrome de Misoginia Involuntária.

Em fevereiro de 2011, na zona rural de Pindorama, um fazendeiro foi pego em flagrante com duas adolescentes, uma de treze e outra de quatorze anos, ao ser detido, alegou que havia pago pelo sexo – foi detido, acusado de favorecimento à prostituição e estupro de vulnerável, foi absolvido há dois meses atrás.

São alguns casos famosos, mas a história se repete em vários lugares e de maneiras absurdas, às vezes entre quatro paredes, às vezes a céu aberto. Existem mulheres que conseguem se erguer e dizer basta, existem outras que ajudam e as que são ajudadas, e, infelizmente, aquelas que são silenciadas.

A mulher que morre no aborto clandestino (uma a cada dois dias), a que apanhou do namorado lutador (e o título da matéria estampa que ele levou “arranhões em briga com a namorada”), a garota que sofreu abuso por não ter usado o vagão rosa, a mulher trans* que foi retirada do vagão rosa e foi destratada pelos seguranças do metrô, a mulher que deixa de conseguir emprego porque está grávida... Infinitos casos escondidos e nenhuma destas pessoas é menos importante, só porque teve menor visibilidade. São vítimas de uma sociedade doente.


Já sofri abuso sexual.

Já fui assediada ao andar na rua.

Já mudei de roupa antes de sair de casa.

Já me culparam por ter sido assediada.

Fizeram brincadeiras sobre o abuso.

Já desisti de sair, por não querer correr o risco de passar por alguma situação desconfortável.

Não garanto que tudo isto vá se repetir amanhã, mas, certamente, vai se repetir. É um fato.

É justamente por isto que é preciso falar. Cada vez mais. Cada vez mais alto.

Ser conivente não é uma opção.

sábado, 27 de setembro de 2014

Brasil, o país em que nada dá certo?

"Ouvi dizer que no Brasil todo mundo é feliz"

Desprezar a história é produzir verdades com a experiência limitada de vida de qualquer pessoa. Em tempos de eleição, a política ganha espaço no cotidiano. Mudam alguns atores, esse ou aquele candidato, mas me parece que uma coisa permanece: a baixa autoestima dos brasileiros.

É comum ouvirmos por aí “o Brasil é um lixo”, “aqui nesse país nada dá certo”, falas que carregam aquela ideia de que o problema está no outro, de que quem fala não é responsável também, não é sujeito, mas vítima, objeto. A síntese genial é “você não está no trânsito; você é o trânsito”.

Há pouco mais de um mês terminou um festival que gosto bastante, o “Anima Mundi”. Trata-se de uma importunidade rara de ser apreciar toda sorte de técnicas de animação, curtas e longas metragens, de toda parte do mundo. No último dia do festival, há a premiação dos melhores filmes, em diversas categorias. Durante o anúncio de um dos ganhadores, pude ouvir “ah... é brasileiro? Deve ser uma merda!” 

Durante a última Bienal do Livro o consagrado fotógrafo mineiro, Sebastião Salgado, foi convidado para um bate-papo com o público. Em dado momento, ele chamou a atenção para o fato de que, em geral, nós brasileiros tentamos esconder nosso passado indígena. Ele até brincou dizendo que em São Paulo todo mundo era descendente de italiano! Somado a esse exemplo, basta observar a tentativa do Brasil de querer diferenciar-se do restante da América Latina, como se não compartilhássemos nada. “A Bolívia é indígena, nós não”, só pra ficar entre vizinhos.

Com o livro “O povo brasileiro”, temos uma ótima oportunidade de ser menos ignorantes com relação ao nosso passado. Nele, Darcy Ribeiro discute a criação da colônia, desde a invasão (e não descobrimento) dos portugueses até o século XX. Não podemos nos esquecer de que quando os portugueses invadiram, não trouxeram consigo as portuguesas; logo, as índias foram as mães dos chamados brasilíndios. Interessante notar é que esse sujeito ficou perdido, sem identidade. Por um lado, ele era desprezado pelo pai, que não o reconhecia como europeu, branco; por outro, desprezava a mãe indígena, considerando sua cultura subalterna. A introdução da cultura negra é igualmente considerada menor, sob essa perspectiva.

Séculos se passaram desde então. Muitas mudanças, mas essa percepção de hierarquia, ao que parece, permanece intacta. É claro que não podemos nos esquecer de que com o fim da Segunda Guerra, a cultura produzida nos EUA foi elevada ao mesmo patamar da cultura europeia (talvez num status até maior) e continua a ideia “a grama do vizinho é sempre mais verde”. Qual é? Não se trata de nacionalismo irracional, mas já está mais do que na hora de melhorarmos a nossa autoestima!

Eu não acredito em nacionalismo porque é fácil cair no fanatismo e se esquecer da solidariedade entre os povos, já que o resto do mundo não presta, entre muitas outras coisas, mas é importante desenvolver um olhar mais generoso para conosco. É óbvio que temos um montão de problemas, que tem gente corrupta, oportunistas de toda ordem, injustiças, violências, mas isso não significa que seja próprio do nosso DNA. Quanto mais nos livrarmos da ideia de que as coisas sociais são naturais, melhor. Nascemos assim ou fomos levados a agir desta ou daquela forma?

Particularmente acho triste esse ódio ao Brasil quando ele vem da boca de jovens. Muitos deles sequer cruzaram a fronteira. As notícias que chegam do estrangeiro são da internet, filmes, séries televisivas, boatos e etc. Para alguns, pode ser chocante imaginar que nos EUA há pobres ou que só se tem atendimento médico quem tem um seguro saúde (algo como nossos convênios particulares). Veja, não estamos falando em atendimento de má qualidade, não existe atendimento médico para quem não pode pagar, simples assim. Vale a pena lembrar que muitos brasileiros contribuem para o desenvolvimento da ciência e das artes no exterior, por exemplo, mas o que se sobressai é o país que financia.

Acredito que enquanto seres humanos podemos  –e devemos!- nos inspirar nas boas ações de outros povos, buscando viver num país melhor. A troca é saudável, inteligente. Minha avó dizia que só não tem solução para a morte. E quais alternativas estão sendo pensadas por você? Não dá para ter resultados diferentes com as mesmas ações.  


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Carta a Alguém

Os diálogos que tive contigo desde que decidir virar as costas e ir embora, foram inúmeros. Ainda rio de algum comentário sarcástico que você faria, do jeito empolgado que cantaria músicas antigas ou a utilização do pretérito perfeito em qualquer frase.
Demorei a entender que a verdade estava escancarada enquanto o irracional acobertava. Era nítido que o encontro de nossos caminhos seria breve e é por este motivo que escrevo a carta de despedida à você,  Alguém.
Sou muito grata por ter me tirado do lixo que me escondi com o meu último pseudo relacionamento, proporcionando o que tinha esquecido: a reciprocidade de afeto, mesmo que por um curto período. Nossas afinidades imediatas carregaram as baterias de possibilidade da paixão. A paixão veio e com ela, seu tempo limitado. Como a maioria dos encontros na vida adulta, há sempre três na relação a dois. Seja um fantasma, um amor mal resolvido, uma porta aberta. Não foi diferente contigo que entre duas pessoas, acabou arrastando uma terceira pessoa: eu.
Na falta do amor próprio e com as migalhas alimentando as poucas borboletas que ocupavam o estômago, segui esta dieta por um ano. As borboletas acostumaram e não havia fome ou gula, apesar de vez ou outra, o estômago embrulhar pedindo novos alimentos, como no dia que eu vi vocês dois atravessando a rua sem querer,  ou passando por mim na tarde que deveria ser apenas minha. Antes, enxergava como coincidência e hoje, percebo o quanto fui teimosa em não olhar os sinais que o universo me enviou sobre a brevidade da sua vida na minha.
Fui tão culpada quanto você neste relacionamento velado. Era cômodo para ambos, compartilhávamos nossas angústias, desejos, ríamos de besteiras no período de segunda a sexta. Não tinha cobranças e por qual motivo, teria de existir algum se não tínhamos nada? A parte boa, você guardava para ela. Os beijos, o sexo e os carinhos trocados. Os problemas e o ombro, poderiam esperar até segunda, quando eu estava de volta à sua rotina.
Adorava não precisar arriscar nada além de algumas noites com qualquer outro homem. Tinha você e eles supriam algumas carências físicas. Nas comparações, você sempre ganhava. A zona de conforto era meu espaço conquistado. Vez ou outra, recordava de como por um triz, quase fui a escolhida. Diversos dias, revirei na minha mente o que foi que eu fiz de errado para ser a segunda e não, a primeira.
Mas, como todo relacionamento a três, depois de muito treinar e ensaiar, percebi que poderia escolher e deixar de ser a escolhida. Um dia, a gente cansa da segunda opção e percebe que isto e nada são a mesma coisa no ponto de partida, do nada a qualquer lugar que ainda não conhecemos. Foi assim que virei as costas e fui embora sem ao menos te dizer tchau, Alguém.
Doeu você não vir atrás, dizer que sentia minha falta e que gostaria de me ter de volta. Tempos depois, senti alívio por isto não ter acontecido. Diante das minhas fraquezas, era capaz de puxar a cadeira na zona confortável e continuar assistindo ao teu relacionamento, me sentindo um lixo por não ter o meu contigo ou com outro alguém. Os meses passaram e o tempo ajudou a amenizar a saudade e abastecer a confiança de tentar novamente. Ainda não encontrei o que procuro, mas mantenho firme que olhar para trás não é opção.
Espero que você esteja feliz, Alguém. De maneira ingênua, acho que não fez por mal. Que talvez tenha se embolado tanto quanto eu dentro deste novelo. Do lado de cá, quase caí em outra armadilha parecida com a tua. Obrigada por me ensinar que este não é o caminho.
Hoje, minha fome não se contenta com migalhas e as borboletas, esperam mais.
Um beijo,
Ninguém.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Férias!

Passei uma semana em Gramado/RS e o que mais me chamou a atenção na cidade foi o chocolate a falta de semáforos. 
O pedestre coloca o pé na rua e o carro para. Simples assim. 
Acho que nem se passasse um ano lá me acostumaria. 
Nas primeiras vezes não acreditei. Achei que fosse pegadinha do Mallandro. Comecei a reparar nos outros pedestres e todos faziam o mesmo: atravessavam a rua. E os carros paravam. Incrível!
Tive vontade de abraçar os motoristas. Foi emocionante. E no meu país!
Não sei se foi isso ou a overdose de chocolate, mas restaurei minha fé na humanidade..


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

40 pequenos prazeres da vida

Felicidade se acha é em horinhas de descuido...
(Guimarães Rosa)

01. Cheirar página de livro novo.
02. Arrancar casquinha de ferida.
03. Estalar os dedos, um por um, enquanto se ouve aquele barulhinho.
04. Fazer bolas de sabão bem sucedidas.
05. Estourar plástico bolha.
06. Comer a cabeça de uma Tortuguita.
07. Raspar com uma moeda uma raspadinha.
08. Colar figurinhas num álbum.
09. Encontrar uma peça difícil num quebra-cabeças.
10. Soprar no canudinho e ver a água borbulhar no copo.
11. Acertar uma bolinha de papel em cheio no alvo.
12. Bocejar.
14. Surpreender alguém falando bem de você pelas costas.
15. Conseguir lembrar o nome de todos os 7 anões.
16. Descobrir que alguém gosta da mesma coisa estranha que você.
17. Receber o primeiro jato de água de um banho quente.
18. Arrotar depois de beber refrigerante.
19. Descobrir catupiri no meio da coxinha que você achava que era só de frango.
20. Completar uma página de cruzadinhas.
21. Fazer um trocadilho perfeito.
22. Achar dinheiro na rua.
23. Brincar com a vela quando falta luz.
24. Conseguir puxar uma salva de palmas.
25. Encontrar uma casinha de João de Barro.
26. Pisar descalço na areia.
27. Apertar massa de pão.
28. Ganhar alguma coisa num sorteio (qualquer coisa).
29. Cantar no chuveiro.
30. Encontrar lugar vazio no ônibus (ou isso deveria estar na lista dos "grandes prazeres"?).
31. Fazer bigode em fotos de revista.
32. Cantar "Faroeste Caboclo" inteira e sem errar (e aumentando a voz no "tem baguio bom aí").
33. Abrir presente.
34. Descer pela frente no busão porque o cobrador estava sem troco.
35. Dar-se conta de que é sábado e que o despertador está tocando por engano.
36. Fazer um strike.
37. Dormir com barulho de chuva.
38. Conseguir acertar qual vai ser o final de um filme.
39. Atirar pedra na água.
40. Ler listas alheias.

E você? Com quais itens desta lista você se identifica? Qual a sua lista de "pequenos prazeres da vida"? Compartilhe-a conosco nos comentários!

domingo, 21 de setembro de 2014

A loirinha do ponto

Àquela hora da tarde, o sol já estava estalando no céu.

Graças às pessoas que iam embora no coletivo, todas ao mesmo tempo, era corriqueiro o fato de ele ter de ir a pé.

Mas eis que uma visão do céu o animou!
Uma linda loira estava parada no ponto central.
Ela não ia tomar o ônibus no qual ele estava, mas o fato de poder ver tal anjo o animou e tirou dele um sorriso!

Seus pensamentos foram longe!
Já imaginou a jovem moça dentro de um vestido de noiva!
Quem sabe o destino não faria algo no mínimo sobrenatural para que se conhecessem uma hora dessas! 


Pedia à Deus que tivesse a oportunidade de poder saber qual seria a linha que ela utilizaria.
Geralmente, no ponto onde se encontrava, as pessoas tinham a tendência de serem mais lerdas mesmo. Quando o coletivo parava ali... Podia esperar que ia demorar uma eternidade para dali sair.

Mas naquele dia ele não se importava nem um pouco.
De repente, surge no horizonte o ônibus pelo qual a moça estava aguardando.

"Aaaaah, então ela é de lá!" - pensou, quase que em voz alta.

Fitava aqueles fios loiros esvoaçantes do cabelo da princesa que ensaiava adentrar ao veículo, quando nota que ela faz uma cara de espanto, e tira do seu delicado bolso um iPhone 5S branquinho como algodão.

O semblante da jovem moçoila então se transforma. 
Exibe um belo sorriso, desiste de entrar no ônibus, e volta para a proteção contra o sol, do ponto onde estava.

Olhava ao longe, como quem procura alguém.

E foi assim que ele começou a aceitar que aquela talvez não seria um dia a mãe de seus filhos. Não seria ela a menina que se apaixonaria pelo seu lado romântico. Nem seria com ela o jantar de aniversário de três anos juntos, numa bela união, dali a três anos.

Sentiu então um forte chute no seu calcanhar.
A dor foi intensa. Quem causou aquilo estava munido de uma bota com bico de aço ou titânio, não saberia dizer.

O "agressor" pediu desculpas, e ele, com aquela cara de sofrimento, gemeu um "não tem problema" e decidiu voltar-se para a cena que há pouco tomava toda a sua atenção.

Mas espera aí... Cadê a moça?

O ônibus que ela quase utilizou há muito saíra dali. 
No ponto, ela não estava.
"Será que ela entrou nesse?" - Devaneou ele, num súbito lampejo de esperança!

Mas que nada.

Viu, um pouco mais atrás, que ela estava envolta nos braços de um moleque que faria jus à promoção "Colírios" da Capricho.

Mais uma que não seria dele.
Mais uma que alimentou seus sonhos, em aproximadamente cinco minutos de pessoas vagarosas adentrando o busão no qual estava.

O namoro, o noivado, o casamento, os filhos e os netos teriam de esperar um pouco mais.
Não seria a loirinha do ponto sua namorada, sua noiva, sua esposa.

Não quis continuar olhando para o jovem casal que desfrutava de um bonito momento de afeto, abaixo daquela palmeira, que ficava pertinho da Igreja Matriz.

Nem teve muita chance mesmo.
O coletivo arrancou, e ele deu sequência para mais uma tarde de descanso.
Ainda solteiro.
E pensando, quem sabe, numa possibilidade de num desses ônibus da vida, encontrar alguém que topasse viajar com ele.
Rumo ao desconhecido que a vida é.

sábado, 20 de setembro de 2014

Imprevistos previsíveis

Segunda-feira: Choveu na metrópole. O fato deveria ser encarado como uma grande sorte. A seca acima da média associada à falta de investimentos do governo fizeram com que os reservatórios atingissem os níveis mais baixos da história. Apesar disso as notícias não foram boas. A chuva em pleno começo de semana atrapalhou o trânsito, que ficou caótico em toda a cidade. Não chegou a ser uma tempestade, mas não precisa muito. Semáforos falharam, o número de automóveis aumentou ainda mais por conta dos que não queriam chegar molhados ao serviço, a prudência de motoristas no asfalto molhado, entre outros fatores, fizeram o trânsito parar.

Terça-feira: O sol voltou a brilhar forte, os semáforos foram consertados e a cidade estava seca – até demais – novamente. Neste dia manifestantes reunidos através do sindicato aproveitaram que o tempo havia melhorado para fazer um protesto por melhores salários e condições de trabalho mais dignas. Já estavam em greve há várias semanas, tinham apoio de outros setores, obtiveram vitórias na justiça contra supervisores intransigentes e seguiam em uma luta dura por seus direitos. As notícias giraram em torno do caos gerado nas ruas bloqueadas, transformando rapidamente o trânsito da cidade em um verdadeiro inferno. Não somente onde havia bloqueios, mas também nas ruas ao redor os carros não tinham como avançar, gerando uma reação em cadeia. Tudo parado.

Quarta-feira: Sol forte, nada de manifestações. Em uma das vias mais importantes da metrópole um motoboy corria contra o relógio para tentar cumprir os prazos cada vez mais curtos de entrega. Não fazia ideia que poucos metros adiante alguém mudaria de faixa sem dar seta. A cidade perdeu um motoboy. Ele, que passara a vida correndo feito louco para não deixar os patrões esperando, teve agora que esperar pelos peritos, que chegaram sem a menor pressa, várias horas depois do acidente. As notícias correram rapidamente: o trânsito parou. Só o acidente já havia bloqueado três faixas das cinco que formam a via, não bastasse isso os curiosos ainda passavam bem devagar, complicando o trânsito, travando as ruas adjacentes, gerando impacto nas grandes avenidas ao redor. Um caos.

Quinta-feira: O sol brilhava – insuportavelmente – na metrópole. Nada de manifestações e nenhum acidente grave havia sido registrado. No centro da cidade a polícia militar deu início à desocupação forçada de um edifício, dada à necessidade que este permanecesse desocupado, como nos últimos dez anos. As famílias, dezenas delas, que não queriam ceder a moradia à especulação imobiliária, reagiram. Foram paus e pedras contra cassetetes, bombas de gás, spray de pimenta, escudos, blindados, balas de borracha. As notícias repercutiram pelo país inteiro. Mais de 30 linhas de ônibus foram interrompidas e as ruas do centro totalmente interditadas. O trânsito sofreu os impactos por toda a cidade. Com o centro parado as principais avenidas começaram a travar, estendendo o engarrafamento para as ruas menores e parando toda a cidade. Um caos.

Sexta-feira: O sol apareceu novamente, não houve nenhuma manifestação, nada de acidentes de grandes proporções nem ações de reintegração de posse. Nada atrapalhava o trânsito a não ser, é claro, o excesso de carros. As ruas teimavam em permanecer engarrafadas, com buzinas em uníssono produzindo o som que parecia um grito de socorro atendido por ambulâncias que tentavam, sem sucesso, abrir caminho em meio ao caos. As notícias encontraram um caminho próprio e provavelmente definitivo. Deixavam claro como as novas faixas exclusivas para ônibus e, sobretudo as novas ciclovias passaram a fazer com que o trânsito da metrópole vivesse um estado de caos permanente. Não havia mais solução. De agora em diante os motoristas seriam obrigados a suportar, cada um dentro de seu próprio veículo, os congestionamentos monstruosos formados entre ciclovias e faixas de ônibus.



quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Papo entre amigos

Estou fazendo um intercâmbio e estou há 1 mês sem comer o nosso arroz e feijão e em uma conversa depois do almoço eu e meus amigos começamos a falar de traição, então surgiu a pergunta: Porque ela acontece? E a resposta foi "Como já estamos habituados a comer sempre a mesma coisa não vemos mais graça naquilo e então surge o hambúrguer prometendo toda aquela delícia que não resistimos. Mas depois de comermos hambúrguer todo o santo dia não aguentamos mais vê-lo, ai dizemos "Queria tanto o arroz e feijão da minha mãe!" Portanto, o cotidiano faz nossa chama acalmar mas a distancia faz ela arder intensamente e o mesmo acontece com o nosso companheiro, como comemos ele todo dia já não há a vontade da primeira vez, porém se ficamos longe percebemos que é o feijão com arroz que amamos.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Indiana

Andei pensando nas lembranças que terei daqui a alguns anos, quando não morar mais na maior cidade da América do Sul.
 
Listei mentalmente 
As pessoas maravilhosas que já conheci e ainda vou conhecer
Os lugares fantásticos
Os lugares ordinários
As pessoas ordinárias que já conheci e ainda vou conhecer
As experiências extravagantes
As gargalhadas no metrô
As lágrimas na chuva (drama) 
Os domingos sobre duas rodas
As segundas sob muletas
As terças chuvosas
As lágrimas nas terças chuvosas
As quartas maravilhosas
As quintas extravagantes
As sextas fantásticas
Os sábados ensolarados
E as filas. 

Sim, as filas. Eu, enquanto paulistana, fui feita de filas. Para filar qualquer coisa, ou mesmo pagando caro, para qualquer coisa, filas para que te quero. As filas que não quero. Filas que emendam uma na outra, filas que se perdem, filas para nada. Um paulistano atrás do outro forma uma fila, que forma a pergunta: "para que essa fila?" que aumenta a fila em ordem aritmética, geométrica, em milhas, a perder de vista. A fila em São Paulo é uma instituição. Justamente no lugar em que menos se pode perder tempo, os cidadãos se dispõem mecanicamente, cordeiramente, um atrás do outro, acreditando que é preciso, organizadamente ou não, esperar alguma coisa. São Paulo espera. São Paulo é feita de esperas. Espero não cansar logo.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Sobre a arte de não se adaptar e de se sentir confortável com isso

Para ler ouvindo:





Bem, este é o primeiro texto que escrevo para o blog e eu tinha sérias dúvidas se eu conseguiria me adaptar a este espaço, visto que não sou muito boa em enxergar a tal poesia do dia a dia. 

Depois de refletir por um tempo, cheguei à conclusão de que a questão principal não é a dificuldade em me encaixar no blog, que conta com vários indivíduos únicos e especiais, cada um a seu modo, e sim a dificuldade em me encaixar na vida. Acredito que me tornei profissional nessa arte, pois, desde que me entendo por gente, tenho dito pra mim mesma que não há problema em ser diferente, que não sou obrigada a pensar ou agir como todo mundo. Outra coisa que me incomoda é essa falsa noção de “todo mundo”, nove letrinhas são muito pouco para dar conta de alguns bilhões de pessoas, logo, acho muito pretensioso quando um grupo começa a vender uma ideia do que é ser normal, baseada em padrões inatingíveis, que causam muitos danos àqueles que se aventuram a tentar segui-los. 

Felizmente, a cada dia que passa, mais pessoas tem tido a coragem de se assumir como elas realmente são e de sentir orgulho disso, e isso tem ocorrido em várias esferas, que abarcam desde etnias até a orientação sexual.

Contudo, esse avanço traz com ele uma série de problemas seríssimos em decorrência da intolerância e quando digo isso não me refiro apenas aos vários casos de espancamento contra homossexuais ou aos estupros em que a vítima é transformada em culpada por usar uma saia curta demais. A intolerância está tão arraigada em nossa sociedade que todos os dias vemos pessoas que se dizem esclarecidas e livres de preconceito fazendo piadinhas ou comentários maldosos sobre gays, por serem muito “afetados”; sobre pessoas acima do peso, “por só fazerem gordices”; sobre mulheres que optam por não manter relacionamentos sérios, por não serem moças “decentes”; sobre meninas que não alisam o cabelo, “por terem o cabelo ruim”. 

Enfim, eu poderia continuar essa lista por muitas linhas, mas acho que já é o suficiente para perceber que qualquer um que resolva abraçar sua individualidade em um mundo de aparências e opressão merece aplausos, e não tapas, elogios, e não ofensas. Então, não! Não vou mudar, nem me adaptar às regras sociais estabelecidas bem antes de eu nascer. E quem realmente gostar de mim vai ter de aceitar isso.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Parlenda Low Carb

Um, dois;
pareço um peixe-boi.
Três, quatro;
vou cortar carboidrato.
Cinco, seis;
já faz quase um mês.
Sete, oito;
mas sou muito afoito.
Nove, dez;
acabei com os canapés.

ad infinitum.




domingo, 14 de setembro de 2014

Formação

_________________________________________________________________________________

Não sou lutadora de judô.

Não sou pintora, nem sei tocar violão.

Não falo inglês fluente, nem francês. Não sou atriz. Nem socióloga, antropóloga ou cientista política.

Não sou ginasta olímpica. Não sou cantora, nem bailarina de lindy hop ou de ballet clássico.

Não toco piano. Não sei jogar capoeira.

De todas as coisas que fiz e que me fizeram. De todos os abandonos, impermanências, desistências.



Não sou casada.

Não tenho filhos.

Não moro sozinha.

De todas as escolhas que fiz e que me fizeram.



Não fiz intercâmbio pra Europa. Não li tantos textos. Não planejei.

De todas as escolhas que não fiz, sonhos que não realizei.

_________________________________________________________________________________


Sim. 

Esses nãos formam sins.

Sou pouco, quase nada. Sou no que deu.

Sim! Do tipo "tipo medíocre".

Sou o que sou por que também sou o que não sou.

Tudo o que se pode fazer é ser. Sem comparações.  
Completamente diferente e único e por isso mesmo tão igual a todos.

Ser o que se é. O ideal vem sempre de fora. O mapa está dentro.
Olhar pra dentro, mesmo quando está tudo escuro. Não ter medo do escuro.

Felicidade, sucesso, reconhecimento: pra quem? O que é pra você?

Para mim sucesso é poder escrever e enviar esse texto sem ficar me culpando por não ter pensado nele antes, por não ter me dedicado e escrito antes. Aceitas a imperfeição. O ideal não alcançado. A foto não encontrada. Desejar que o próximo seja melhor, mas agora é isso! Viver é aqui e agora. Tem sido isso e eu respeito, mas talvez um dia mude.

Que um dia eu mude? Que um dia eu melhore? 
           Só se for para ser mais parecida comigo mesma.
______________________________________________

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Porque eu sumi

De vez em quando eu sumo e alguém me pergunta ''por que você sumiu?''.
Não sei o que dizer. Queria ter boas explicações, dizer que estava do outro lado do mundo, no gelo, estudando focas ou talvez em algum país perdido trabalhando de voluntária. Mas meus sumiços não têm motivos nobres nem humanitários, eu sumo porque a cidade na qual moro, São Paulo, me engole e levo tempo para voltar a superfície. Me perco nas beiradas da existência urbana e acabo sumindo, mas estou ali como todo mundo, no panorama onde todos os rostos são iguais.

Meu sumiço é tão comum que todos os dias tenho a mesma rotina e mesmo assim consigo desaparecer nela, como se eu não passasse por essa ponte.

Talvez isso aconteça porque nunca me achei aqui e acabo sumindo no desenho da cidade, como se ela não absorvesse minha vida, parece que não existo neste chão cinza, fico invisível para todos. Dura uns dias, semanas, meses e anos, mas eu volto a aparecer como se nada tivesse acontecido. Em uma cidade maluca e sem tempo posso mandar um ''oi'' sem data, todos os ''oi'' são iguais para quem mora aqui. Desconfio que não sou a única a desaparecer na rotina e sumir no cinza da cidade, a frequência de pessoas que saem do meu radar é tão grande que parece ser uma cidade de ''sumidos''.
Eu sumi, mas já apareci novamente. Só não sei por quanto tempo.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A Esperança

Me lembra muito um bichinho de estimação! A gente alimenta todos os dias, trata, faz carícias, brinca até cansar.

Assim como os bichinhos, não é racional, mas às vezes parece que pensa, leem nossos pensamentos, faz charme, interage como se estivesse falando conosco, mas de repente, sem motivo, ataca. Dói, machuca e deixa tristezas e mesmo assim, alimentamos-a.

Confesso que há dias que tenho vontade de abandonar na rua, deixar pra trás, mas acaba a vontade quando o desejo de alimentá-la predomina e isso me faz resistir.

Já ouvi tanta gente dizer que é verde, mas nunca vi cor, na verdade, não tem cor. Eu, particularmente, a visto de verde só porque cai bem, sabe?

E é engraçado como podemos com um único termo definir o lado bom e lado ruim de tê-la: "Ela é a última que morre."

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Sobre a lua



Sugestão: Ler ouvindo "Lua, lua, lua, lua", na voz de Gal Costa



O satélite natural da Terra, aquela que influencia as marés e os cortes de cabelo, que inspira os poetas, a protetora dos amantes, morada de São Jorge e seu dragão, testemunha das mais lindas promessas de amor, que quase nunca se cumprirão.
Da astronomia à astrologia, da força das marés às mudanças de humor, da corrida espacial ao eclipse, a lua está sempre presente em nossas vidas.  
Ela povoa o imaginário popular e me afeta de uma forma tão grande, que sempre que vejo a lua cheia sinto um aconchego no peito difícil de explicar, uma sensação boa, que conforta, dá esperança, e antes que eu perceba, um sorriso já brota em meus lábios...
A noite passada ela me acompanhava enquanto eu caminhava de volta para casa, me observava enquanto eu a admirava, tão grande, tão branca, tão iluminada que eu só desejava parar qualquer desconhecido que cruzasse meu caminho apenas para dizer "você viu como a lua está linda hoje?". Mas, apesar da noite quente, o clima de São Paulo não é muito convidativo para qualquer interação despropositada do tipo. Tive receio de ouvir algo desagradável em troca, ou de receber um olhar recriminador, ou de desprezo, então permaneci em uma admiração solitária, lamentando pelos que não puderam desfrutar de tão bela companhia.



P.S: Lembro-me da última lua cheia que teve, estava na casa da minha mãe e fui para o quintal com ela e minha irmã para admirá-la e, de tão linda que estava, começamos a cantar para ela, cada qual, uma música diferente (ou mais, afinal, música com lua é o que não falta)... "tendo a lua aquela gravidade aonde o homem flutua...", "tá vendo aquela lua que brilha lá no céu?", "tomo um banho de lua..", "o verme passeia na lua cheia..."; "a lua que brilha no céu sela o nosso amor"; "lua de São Jorge brilha nos altares..."; "ó lua de cosmos no céu estampada..."; "lua vai iluminar os pensamentos dela..." e por aí vai...  
   

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

X X

  Sempre digo que gostaria de ser homem, ser mais simples. Seria atraente aos 45 sem ter que tingir os cabelos brancos ou gastar meia hora por dia tentando pintar a cara.

  Ontem vi na praia duas meninas, com menos de seis anos, disfarçadamente enchiam o biquíni com areia e riam maliciosamente. 

  Eu ri junto, por um minuto larguei mão de querer ser simples homem, lembrei a graça de ser ser bem mais complicado, insuportável e interessante. 

sábado, 6 de setembro de 2014

Também vou deixar minha alma nua!

Afastei por diversas vezes a ideia de estar aqui.

Eu sabia que todo dia 1 poderia virar um desespero crescente, todo dia 5 uma agonia e todo dia 6 uma vergonha.

"Um simples post 1x ao mês"... nunca é tão simples assim. Isso eu já aprendi faz tempo.

Tem alguma forma de fazer isso e não se sentir completamente nu? 

Qual é mesmo o problema em ficar nu?...




sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O Carlinhos pedia esmola no sinal do Derby. Ele olhava para mim com tanto amor. Os olhinhos brilhavam. Um dia eu 

De onde você é? 
A moça sabe a ponte? 

Fiquei sem fala. Fechei a janela e pisei no acelerador. Hoje, é zelador do prédio. Um homem que dá bom dia boa tarde boa noite. Meus filhos adoram o Carlinhos. Ele troca lâmpada, ajeita cano e às vezes até dorme no apartamento. 

(Cleyton Cabral)

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Da Arte e dos Chifres - em três atos.

Rubens. Dois Sátiros. 1619.


[1]

Eu estou muito interessado no filme Horns. Além de ser de um gênio do suspense concebido com o DNA de outro gênio - filho de peixe, peixinho é, filho de pesadelo não poderia ser diferente - e fico pensando no mote do filme: quando todos que você ama te abandonam, ser o Diabo não é tão ruim assim.

[2]

Eu te invoco e eu te chamo,
Força da noite,
Chifres e cascos,
Sussurro das matas,
Medo dos homens.

Quando o silêncio se instaura, Você está lá.
Os pêlos se eriçam. 
A garganta seca.
A voz some.
As pernas tremem.

Eu te invoco e eu te chamo.
Vem? Vem!
Caminha e corre, 
Desliza e sibila,
Nada e salta,
Comigo.

[3]

Chifres. Antes símbolos de poder, hoje símbolos de traição e mal. Na Arte, os chifres são símbolos do masculino, do falo, do contato fecundante entre Céu e a Terra. Eles são o símbolo d'Ele, que se oculta no suave hálito que antecede o beijo. Todos nós já fomos, cedo ou tarde, tocados por essa potência instintiva que nos instiga a ir além, a enfrentar os limites, superar os medos e temores. Ou seguir com eles, se não houver opção.
Porque só crianças fazem xixi na cama. 
Homens fazem xixi nas calças, mesmo.