segunda-feira, 30 de março de 2015

Sobre o Tempo

E eu que envelheço desde que nasci, observei que o tempo não passa e sim nos consome.

























Abs
Jeff

domingo, 29 de março de 2015

como treinar o seu dragão ou o lobo de wall street

Quando algumas situações mostram-se complexas de compreender, faço uso de alguns filmes para desanuviar e sair daquela sensação de completa confusão ou incapacidade intelectual de absorver o que tentam explicar-me.

Tem um desenho muito criativo e sensível que basicamente trata da convivência com diferenças e defeitos que ajuda muito a discernir quando é o momento de fazer novas escolhas, sem medo. Refiro-me ao primeiro título.

Quando assisti fiquei encantada com o garoto feio, magrelo com pai gordo e com jeito estranho que ao longo de choros, fugas, amigos, treinos e conversas com o pai compreendeu que existem outras escolhas. Identificando que melhor é agregar e mostrar o equívoco de séculos do que continuar a matar dragões quando simplesmente pode treiná-los e conviver harmoniosamente.

Invejo quem teve a brilhante ideia de trabalhar temas tão complexos de forma tão simples através do desenho, para crianças sabe, pois se buscar inclusão vai encontrar se respeito às diferenças ainda mais e se quiser revolução é basicamente a centralidade do filme. Vejo revolução quando identifico que um menino com ausência da figura materna ensina algo para o pai, pertencente à geração de adultos com velhos princípios, e com certa dificuldade inicial acaba modificando toda uma cultura de séculos ao demonstrar que matar dragões não é divertido, honroso. E de forma alguma é símbolo de poder, mas decadência.

Não faço ideia quem seja o idealizador da estória e não quero procurar, mas posso dizer que gostei. Principalmente ao imaginar que o autor devia estar com os pakovás cheios e com muito tédio de histórias e contos bestas, com todas personagens perfeitas de tão magras ou musculosos, narizes finos, cabelos lisos, altos como varas paus, com aquele ar de monarquia e homens de guerra que travam lutas infindáveis para reafirmar tradições de séculos passados e vencem sem sofrerem nenhum arranhão ou desajuste no penteado.

Não veja a série que acaba sendo um pouco entediante para sábados de manhã, assista ao filme. Só não tente fazer qualquer semelhança com esta sociedade ou o século XXI. Aviso que encontrar algo parecido principalmente com o final é praticamente impossível porque em terra de homens os dragões são seres malignos apenas mencionados no livro do Apocalipse quando surgirá dos mares com uma mulher usando diademas na cabeça para devastar as nações. E assim dizem amém e comparecem ao ato.

Neste século não espero a reconsideração de velhos conceitos e princípios geracionais, nada disso. E perdão por ser tão cética, mas prefiro compreender deste modo a entregar-me a desilusão e processo depressivo da atual conjuntura. A prova mais fiel e cabal está na comemoração do domingo dia 15, aliás, achei que fosse ter hoje, pois teve jogo do Brasil. Então, não foram para as ruas por quê?

Não disponibilizaram as sacadas do escritório da paulista para comemorar o jogo de hoje por quê? O metrô não liberou as catracas? Poxa vida, que tal fazer uma reclamação, talvez atenda ao pedido para o próximo ato.

Entendo a necessidade de tempo para discernir e compreender algumas coisas, mas vamos combinar que desde junho de 2013 pra cá, um ano e oito meses é o suficiente para compreender o básico.

Na verdade pouco importa, pelo menos por aqui, se para ir à manifestação a cor da sua roupa é amarelo da cor da seleção, rosa pink, verde oliva, azul turquesa, se é cantado o hino nacional ou do Palmeiras, do Corinthians, do São Paulo, do Flamengo, da igreja ou dos loucos (ou anarco-comunista-cristão) o que de fato interessa é a pauta, reivindicação e finalidade coletiva.

Em junho de 2013 foram diversas bandeiras, muita insatisfação e não se tratava apenas com o governo federal, tanto que todos correram para aprovar isso aquilo outro. O pavor de todos os políticos era evidente, pasmados ao reduzir as tarifas e aceitar a vontade popular. Significa que antes acostumados apenas a impor foram obrigados a obedecer, na prática as estruturas políticas e institucionais em todas as esferas foram abaladas para benefício coletivo e isso é o mais importante e o que de fato interessa.

Sendo, tratar apenas da corrupção e saída da presidenta não altera muito coisa principalmente quando determinado investigado reafirma várias vezes que essa conversa de doação para campanhas eleitorais não existe, o que existe é empréstimo, seja pago antes ou depois, doação é conversa fiada. Então isso vale apenas para um partido?

Engraçado é que ninguém observou ou atentaram-se quando alguns candidatos disseram várias vezes nas eleições de 2014 o propósito e programa, enfatizando que não eram financiados por nenhuma construtora. Por acaso receberam muitos votos? De fato nos preocupamos com a corrupção?

Será que todos querem mesmo acabar com o que tanto arrotam? Posso entender que todos estão dispostos a eliminar com a ilegalidade de todas as fronteiras da cidade? E finalmente torná-la legal por todas as vias. A começar em não sonegar imposto e desviar sagazmente dinheiro para bancos europeus (HSBC) e Alpes Suíços? Em vetar o contrabando ali, bem próximo de nós na rua mais famosa da cidade a Vinte e Cinco que coincidentemente é de Março. Ao não subornar ninguém para ter privilégios, seja para fins de segurança, saúde ou patamar social, como exemplo o guarda quando vai multá-lo.

Ninguém nunca se perguntou por que de fato existiu o mensalão? Por que foi preciso comprar o congresso para trabalhar ou como queiram dizer manter-se no poder e formar uma ditadura petista? (ri alto quando li tem filosofo que a cada fala na tevê ou no jornal é um flash né?)

Por que as construtoras brasileiras simplesmente preferem comprar licitações ao invés de concorrer [inclusive] com as estrangeiras que são mais econômicas e dispõem de recursos mais modernos? Será incompetência ou desvantagem?

Acredito na segunda opção, mas não aceito ok, por que na reprodução das relações de trabalhos os capitalistas dizem que a concorrência é inteiramente saudável e produtiva, normalmente elimina os fracos, desinteressados, preguiçosos e incompetentes.

Então posso compreender que o fato de empresas com selo de qualidade e/ou auditorias ter o enorme interesse no mercado brasileiro justifica-se por querer investir e participar ativamente desta economia, quer dizer boquinha? Ou comer deste bolo? Saem às brasileiras entram as estrangeiras? 

Fala sério, quando começa a guerra do capital interno e externo? Notei que foi identificado potencial na saúde, agora por onde mais? O petróleo? Mas poxa, essa já é velha vai, quando não participaram do leilão do pré-sal ficou evidente, ainda mais quanto divulgado a espionagem americana, com ênfase na empresa brasileira tornou-se marca registrada a estratégia desvalorizar para comprar.

Não parece um filme de péssimo gosto? Sei, mas o importante mesmo é indignar-se apenas e somente com a corrupção, sem avaliar por que permitem que exista e qual a finalidade capitalista para deixá-la evidente apenas quanto é benéfico para alguns setores, normalmente o financeiro.

Mas podemos também identificar outras alucinações, fruto de muitos filmes. Por exemplo que não existe crise, o euro é hiper valorizado a negociação da dívida grega é birra, afinal não existe risco para demais países afundarem, o Japão não está com a economia decadente, a China continua dominando e ultrapassará os EUA conforme previsto daqui uns 5/10 anos (só que não) e vejam apenas a moeda americana é valorizada. E por quê? Ora eles são competentes, trabalhadores e terrivelmente honestos. De novo, só que não, são racistas, machistas, homofóbicos, corruptos e terrivelmente capitalistas, mas o culpa é só do presidente?  

E as empresas e os investidores que apenas priorizam a especulação quando não citados a identificação do tal imperialismo torna-se superficial e acaba sendo direcionado ao presidente, mesmo que ameaçado pelo congresso nos dizeres que iria arrepender-se de governar através de decretos. Não sei por que mas lembrei da situação do Maduro, mas ao contrário sabe. E no quesito política empresarial/estado são corruptos igual ou mais, vide a concorrência pela espionagem.

Será que basta simplesmente aderir à manifestação que se diga tem ótimas intenções como todo inferno, mas sem saber de fato quem são os organizadores, o que desejam e principalmente se recebem ajuda de custo ou são financiados.

Também achar que a sigla MBL uma replica descarada do MPL – Movimento Passe Livre são a mesma coisa e defendem as mesmas causas e bandeiras é o suficiente para adesão do ato?

E que se diga falta de criatividade infinita e ao quadrado em coleguinhas?!

Mas vamos combinar que o movimento social imitado não se importou muito, porque sem nota de esclarecimento de não participação (somente após o ato, mencionado no twitter que não compartilham das ideias e manifestação conservadora, não sei se houve notas noutras redes) ou repúdio na descarada imitação. E como a sigla é semelhante com certeza afeta o inconsciente e pra quem não tem hábito é tudo jogado no mesmo balaio.

A título de esclarecimento, pois não custa tentar, o MPL- Movimento Passe Livre de fato é um movimento social, com sete anos de estrada composto por estudantes que defendem necessidades e demandas de estudantes e trabalhadores na questão do transporte público e às vezes apoiam demais causas sociais que são negligenciadas pelo estado mínimo ou para fácil entendimento pela sociedade capitalista.

O MBL sabe-se lá quem é e o que defende e sinceramente não quero saber, uma coisa é certa ao escolher o tema genérico como a corrupção sem qualquer proposta de alteração estrutural, mas apenas individual e de interesse próprio e com caráter de movimento social para não dizer outra coisa é no mínimo esquisito. 

E prefiro gentilmente colocá-los no patamar de mobilização social e só, tratá-los como movimento social conforme nomeado pela mídia é ridículo e desrespeitoso com quem reivindica ações coletivas e de fato realizam enfrentamentos de ordem política e econômica, e na maioria das vezes tratados como vândalos.

Não aceito. Somos roubados em quase tudo na vida, agora até as características da esquerda querem tomar pra si? Ora poupe-me!

Pior ainda julgar que tirar a presidenta do cargo e eliminar o seu partido resolverá uma questão estrutural como é a corrupção. Ainda sabendo que a corrupção é muito necessária para manutenção do capital e sem mencionar outros partidos tão participantes quanto é falácia e conversinha fiada!

Os Lobos de Wall Street quem o digam, aliás, outro filme interessantíssimo, mas que não é desenho, é baseado em fatos reais. Enfatiza que quando os lobos agem com certeza não estão interessados em demandas como transporte público, exploração do trabalho, terceirização de setores da indústria, habitação e demais assuntos sociais.

O filme  vale muito a pena apesar das três horas de duração, é a história do corretor da Bolsa de Valores americana condenado há vinte anos de prisão pelos crimes de fraude bancária e sonegação de imposto ao estado, a meu ver o principal motivo pela prisão e prova contundente da “seriedade do estado americano” quando se trata de sonegação de imposto ao estado.

Os assuntos de consumo de drogas, compra deste ou daquele empregado ou empresa (corrupção) e prostituições são tratados no filme como assuntos secundários, a relevância está no fato de sonegar ao estado americano sendo o principal motivo da prisão.   

Enquanto isso, os desavisados ou ingênuos ou inocentes ou tolos aceitam o coro destes “movimentos sociais” atuais que não arriscam reivindicações de enfrentamentos do capital e seguem no coro do vem pra rua que estamos interessados em combater a corrupção e limpar o país do mar de lama. 


Seguimos. Sem depressão, com pouca fé, alguma esperança e música, neste caos cabe apenas a Lola do Rock.


sábado, 28 de março de 2015

Sangue e instagram

Durante a semana fiz várias anotações dos possíveis temas de hoje. De Paraisópolis e sua estruturação dentro da cidade (e isto enquanto uma condição física, a favela se desenvolve paralelamente à cidade), a questionamentos sobre as manifestações que ocorrem agora, em comparação às de junho de 2013 (e que muita gente acha que são a mesma coisa, mas não, não são).

Entretanto deixarei esses temas bacaninhas em segundo plano, o que chamou a atenção, no final, foi Rupi Kaur e sua foto excluída do instagram.

Afinal, nada é mais aterrorizante e ofensivo para as pessoas do que uma mulher com uma marca de sangue de menstruação nas roupas. Algo pra ser jogado embaixo do tapete. Ao menos é isso o que foi dado a entender.



Estudante da Universidade de Waterloo, Rupi Kaur estava realizando uma série de fotografias para um trabalho acadêmico, e utilizando o instagram como meio. Entretanto, esta foto foi excluída pelo servidor, por “violar suas normas de conduta”. 

A estudante não se calou, ao contrário, repostou a foto, com os dizeres:
“Thank you @instagram for providing me with the exact response my work was created to critique. You deleted a photo of a woman who is fully covered and menstruating stating that it goes against community guidelines when your guidelines outline that it is nothing but acceptable. The girl is fully clothed. The photo is mine. It is not attacking a certain group. Nor is it spam. And because it does not break those guidelines I will repost it again. I will not apologize for not feeding the ego and pride of misogynist society that will have my body in an underwear but not be okay with a small leak. When your pages are filled with countless photos/accounts where women (so many who are underage) are objectified. Pornified. And treated less than human. Thank you. ⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀
This image is a part of my photoseries project for my visual rhetoric course. You can view the full series at rupikaur.com⠀⠀
I bleed each month to help make humankind a possibility. My womb is home to the divine. M source of life for our species. Whether I choose to create or not. But very few times it is seen that way. In older civilizations this blood was considered holy. In some it still is. But a majority of people. Societies. And communities shun this natural process. Some are more comfortable with the pornification of women. The sexualization of women. The violence and degradation of women than this. They cannot be bothered to express their disgust about all that. But will be angered and bothered by this. We menstruate and they see it as dirty. Attention seeking. Sick. A burden. As if this process is less natural than breathing. As if it is not a bridge between this universe and the last. As if this process is not love. Labour. Life. Selfless and strikingly beautiful.”

Tradução (livre e com falhas, mas feita com amor e carinho <3):
“Obrigada, @instagram, por me fornecer a resposta exata ao que meu trabalho foi criado para criticar. Vocês deletaram a foto de uma mulher que está completamente coberta e menstruada, alegando que isto vai contra as normas de conduta, quando esta foto não é nada além de aceitável. A garota está totalmente vestida. A foto é minha. Não está atacando um determinado grupo. Tampouco é spam. E, justamente por não ir contra nenhuma destas políticas, irei postá-la novamente. Eu não iriei me desculpar por não contribuir com o ego e orgulho desta sociedade misógina que teria meu corpo em trajes mínimos, mas não está ok com um pequeno vazamento. Enquanto suas páginas estão recheadas com inúmeras fotos/contas onde mulheres (e tantas menores de idade) são objetificadas. Erotizadas. E tratadas como menos do que um ser humano. Obrigada.
Esta imagem é parte do meu projeto de série de fotos para meu curso de retórica visual. Você pode ver a série completa em rupikaur.com.
Eu menstruo todo mês para que a humanidade seja uma possibilidade. Meu útero é lar para o sagrado. Uma fonte de vida para nossa espécie. Escolha eu criá-la ou não. Mas poucas vezes é visto desta maneira. Em civilizações mais antigas, este sangue era considerado sagrado. Em algumas ainda é. Mas a maioria das pessoas, sociedades e comunidades evitam este processo natural. Algumas ficam mais confortáveis com a erotização da mulher. A sexualização da mulher. A violência e degradação da mulher. Mais confortáveis do que com isto. Eles não se importam em manifestar seu desgosto em relação a estas coisas, mas ficam irritados e incomodados por isto. Nós menstruamos e eles veem como uma sujeira. Falta de atenção. Doença.  Um fardo. Como se este processo fosse menos natural do que respirar. Como se isto não fosse uma ponte entre este universo e o outro. Como se este processo não envolvesse amor. Trabalho. Vida. Algo altruísta e de uma beleza impressionante.”

O Instagram deletou a foto novamente, e houve outra repostagem (confira a saga aqui).

Enfim, a pertinência desta postagem não reside apenas no texto escrito pela universitária, mas  em sua repercussão, a atitude do servidor e, sobretudo, a reflexão acerca da visão do corpo feminino. Até onde uma mulher vai para ignorar ou suprimir o funcionamento natural do próprio corpo, como se o organismo estivesse errado? Seja para se adequar à uma visão de sociedade, seja para se enquadrar no mercado de trabalho.

No caso da imagem e sua exclusão, o útero e sua manifestação foram tratados como algo de ofensa moral pública. Como se fosse extremamente repulsivo e perigoso. Anti-ético, praticamente.

Entretanto, como alega a autora, há séries de imagens e contas que priorizam a objetificação feminina, enquanto um elemento de atração sexual – e, reforçando, muitas delas com garotas menores de idade. “É interessante apontar como o sangue de menstruação pode deixar tanta gente desconfortável em um mundo onde há uma exposição constante que são sexualmente explícitas, violentas e beiram a repulsão. Assistimos jornais e reportagens sobre guerra e maratonas de ‘Law & Order: SVU’ sem nem piscar, mas não há uma única propaganda de absorvente que utilize o vermelho para simbolizar o sangue da menstruação”, disse a estudante, em entrevista ao Huffington Post.

Na mesma reportagem, ela ainda afirma que não é uma questão de começar a idolatrar o sangue e fazer um círculo para honrar nossas deusas interiores e fingir que menstruar é uma coisa linda e mágica – as cólicas são um saco. Mas sim diminuir a vergonha que rodeia a menstruação é um objetivo válido, e que necessita nossa aceitação de que sangue acontece. Todo mês. “Nossos corpos são esquisitos e confusos, mas são os únicos que temos, então seria uma boa se aprendêssemos a amá-los”.




sexta-feira, 27 de março de 2015

Bailarina



A bailarina gira, salta, faz graça no ar. Ela segue por instinto o que tem vontade de fazer e é feliz. Para ela, ver outros bailarinos hesitantes ou parados é um enigma, ela não faz ideia de como se pode ter medo de algo tão simples quanto brincar e seguir em frente. Ela não se detém em observá-los, pois o gozo da dança é mais sedutor do que a tristeza alheia.

Certo dia, entre um giro e outro, a bailarina se deu conta de que estava sob cordas num abismo. O seu olhar perdeu o horizonte e, desde então, o precipício tem sido mais atraente. Ela conheceu o medo e o prazer que emana dele. O mistério agora era como alguém podia saltar, girar, seguir em frente, sendo que abaixo de si havia um abismo, um passo fora da corda e a imensidão absoluta pronta para devorar.

Então, quando não entorpecida pela falta de ar do pânico de cair, ela dá passos curtos e cuidadosos, mas nem um pouco emocionantes. Ela sabe que não pode continuar assim, pois já não é mais feliz. Mas sabe também que uma vez que se olha para o abismo, impossível ignorar a sua existência e voltar ao que era antes.

Podia ser um dia qualquer, mas como costuma ser com os dias fabulosos, começou despretensioso para subitamente se revelar paradigmático. A bailarina olhava para baixo pensativa, quando num impulso suicida saltou alto, com braços e pernas esticados, pronta para enfrentar o vazio. Mas o que ela não podia imaginar era que havia outros níveis de cordas, abaixo, acima, ao lado. O vento assopra por todas as direções.

terça-feira, 24 de março de 2015

Dose

Uma dose. Mais uma dose é o que eu preciso para engolir melhor o que ela me disse antes de levantar pra ir ao banheiro. Lavar o rosto e retocar a maquilagem, ela disse. Assim mesmo, com esse L. Não está errado, eu sei, mas também não precisava. Era só mais uma das dezenas de coisas em que ela é irritantemente preciosista. Precisar é preciso, está escrito na capa de couro do seu caderno. Caderno. Porque fazer as coisas usando as mãos era sempre melhor, como dizia, com um sorrisinho malicioso que era mais piada do que realmente malícia. Mas eu brincava junto, só para não estragar a brincadeira.

Aliás, eu levava bem a sério. Entrava na dança. Porque sempre foi assim que funcionamos. Saímos, conversamos, bebemos, rimos, pedimos alguma porção para tentar quebrar o efeito das bebidas e pedimos mais umas doses para cortar o efeito da comida. Repentinamente, estamos aos beijos, pouco ligando para o que as pessoas ao redor vão pensar. Ora, existem pessoas ao nosso redor? Muitas vezes os garçons faziam algum comentário mais incisivo para percebermos que passamos dos limites, com os quais nos importávamos tanto quanto nos importaríamos com o aumento do preço do leite. 

E agora, morar juntos. Tantos anos depois, tantas investidas depois - quase o mesmo tanto de recusas e desistências -, é ela quem me chama para morar na mesma casa. O que isso implica? Acreditar nela. Não sei se consigo. Não depois de tantos anos. Foram muitos os porres e os amigos de saco cheio de me verem de cara fechada, obstinado com a ideia de ficarmos juntos e indignado com o fato de não termos ficado juntos, vez após vez. Passei a ser chamado de o burro das lamentações. Mas eu insisti em ficar com ela, também vez após vez. Mesmo que ela aparecesse com um anel na mão direita. Mesmo que sumisse e só aparecesse meses depois. Mesmo que desaparecesse por anos para ressurgir noiva de um sujeito que "poderia ter sido eu por uma questão de dias", como fez questão de contar por e-mail. Mesmo nome, mesmos jeitos, mesmo signo - eu nunca havia dado a mínima para signo até ouvir isso. Li mais sobre signos do que tenho coragem de admitir hoje. Se pudesse desaprender alguma coisa (não que seja algo que se aprenda, veja bem), seria isso. Informações astrológicas ocupando espaço no meu cérebro.

E agora, cá estamos de novo. Mais velhos, é verdade. Mais experientes, blá blá blá, mas o quanto realmente dessa experiência pode ser considerada conhecimento apreendido? Porque estou aqui, orbitando ao redor desse convite dela. Eu não confio que dará certo, não acho que seja o momento, se alguma vez foi, não faço a menor ideia do que esperar se dividirmos o mesmo teto, mas estou considerando a ideia. Porque ela chorou e se fechou completamente quando eu disse não ter certeza. E foi aí que me pegou. A armadilha se fechou ao meu redor. Porque tenho medo de perdê-la. Porque o último sujeito, o que poderia ter sido eu por uma questão de dias recusou. Desmanchou o noivado, disse que se sentia sufocado. E eu, para não magoá-la - sério? -, estou considerando a ideia. Idiota.

Como posso conhecer uma pessoa há tanto tempo sem conhecê-la de verdade? Não sei o que esperar. Não vejo como isso pode dar certo e, ainda assim, estou considerando a ideia. Porque é o que eu mais quis, tantos anos atrás. Não sei se ainda é o que eu quero. Mas ela vai voltar do banheiro com a maquilagem retocada e o L destacado e vai querer voltar a conversar sobre isso. Ou ir embora. E eu vou ficar com medo de perdê-la de novo e vou fazer alguma merda. Como jogar minha chave na mesa e dizer "é tua". Idiota duas vezes.

Peço mais uma dose. Cadê esse garçom? Não, não. Preciso me manter sóbrio. Como se essa última conversa não tivesse me curado de qualquer embriaguez. Pulei direto pra ressaca homérica do dia seguinte. E do outro. E do outro. Ansiedade é viver no futuro. Sofrer à vista o que foi parcelado em 60 vezes. A vida é mesmo muito curta para penar assim, eu digo pra mim mesmo. E chamo o garçom. Traz logo um triplo, que já enfiei a cara inteira na jaca. 

segunda-feira, 23 de março de 2015

Adultos

Quando eu tinha 5 anos eu nem sabia o que era ser esperto e responsável.
Quando eu tinha 10 anos eu achava que todo adulto era esperto e responsável.
Quando eu tinha 15 anos eu achava que eu era adulta, esperta e responsável.
Quando eu tinha 20 anos eu descobri que eu não era nada disso.
Quando eu tinha 25 anos eu descobri que quase nenhum adulto é esperto e responsável.
Quando eu tinha 30 anos eu achava que estava velha demais para ser tão perdida.
Quando eu tinha 35 anos eu comecei a não me importar tanto em ser esperta e responsável.

domingo, 22 de março de 2015

Curriculum Vitae

Acho que a primeira vez que tive que decidir o que seria pro resto da minha vida, foi quando fui conhecer a escola em que faria o Ensino Médio. A escola em questão era profissionalizante, de modo que eu faria o ensino regular no período da manhã e teria que escolher entre algum curso técnico para fazer no período da tarde: Eletrônica ou Administração de Empresas. Julguei a primeira opção mais divertida e enveredei por este caminho "Quero ser técnico em eletrônica" afirmei pra minha mãe na fila da matricula. Minha mãe, que tinha mesmo muitas coisas lá em casa precisando de um conserto, aceitou satisfeita esta minha vocação e marcou "x" no quadradinho correspondente ao curso escolhido. E assim se fez.

Deste tempo eu guardo a lembrança de muitos choques, de minha mãe reclamando da mesa queimada com o calor do ferro de solda e da blusa de nylon novinha que eu furei pelo mesmo motivo. Jamais consertei um radinho a pilhas e ainda quebrei outros tantos, na tentativa de entender como funcionavam. Entretanto, nem tudo foi um desastre. Minha classe tinha 36 meninos e 4 meninas, uma delas era a Carol, a menina que salvava meus projetos, impedindo que eles virassem catástrofes ainda maiores! Ela ficou tão compadecida e preocupada que não me largou nunca mais. Nossa projeto mais recente se chama Júlia, que já aprendeu a nos chamar de "Papai Fê" e "Mamãe Talól".

Com um diploma de Eletrônica em mãos, nada mais óbvio do que procurar um emprego... numa farmácia. Na verdade, lá foi onde eu acabei indo trabalhar, mas também fui aceito como "o-moço-que-fica-andando-de-patins-pelo-supermercado-para-resolver-pequenos-pepinos-com-mais-velocidade", mas como nunca soube andar de patins, acabei indo pra farmácia mesmo. Lá aprendi coisas interessantes como, por exemplo, a diferença entre gel, pomada e creme, a diferença entre Viagra, Cialix e Levitra e o significado da palavra enema. Com estes úteis conhecimentos em mãos, evidentemente, fui prestar vestibular para... Ciências Sociais.

Passei e posso dizer que gostei muito do curso. Gostei tanto, que nunca consegui me decidir em qual área me especializar. Fiz minha Iniciação Científica em "Sociologia do Trabalho", fiz meu trabalho final de metodologia em "Antropologia Urbana", fiz monitoria no "Núcleo de Estudos da Violência" e montei pré-projeto de mestrado em "Sociologia da Educação". Achei todos eles interessantíssimos!

Tão interessantes quanto os estágios que fiz durante minha graduação para ver se descolava uma graninha: um na Faculdade de Saúde Pública, outro na Medicina, um terceiro no Instituto de Saúde e, para finalizar, um no Hospital Universitário! Mais um pouco e tirava meu CRM!

Isso sem falar nos cursos de desenho, ilustração e violão que fiz no meio de tudo isso, para me acalmar.

Depois de passar por tantas áreas de minha Universidade, eu criei apego e resolvi ser funcionário dela. Trabalho na área financeira e, uma vez por semana, assisto aula como ouvinte no curso de "Literatura Infantil e Juvenil". Estou cheio de ideias na cabeça e ainda sem saber o que quero da vida, ou melhor, sabendo que quero muitas coisas dela! 

   

sábado, 21 de março de 2015

Mals aí, gente...

... mas minha vida tá tão corrida que só hoje lembrei que era dia 21.
Na verdade, nem poderia estar aqui agora, redigindo isso!
Mas fiz um break especialmente pra não deixar mais um dia 21 em branco.
Acho que já aconteceram duas vezes...

O fato é que não quis deixá-los ao léu!

Curtam o som aí!
É da Sia! Chandelier!
Quem viu a performance dessa música no Grammy desse ano, sabe que foi um arraso!
Ótimo início de outono pra vocês!

P.S.: Estou com uma webradio, na qual estou ao vivo todos os dias, de segunda à sexta, às 09:00!
É de temática católica, músicas "de Igreja"! Pra quem de repente curtir, será muito bem-vindo!

Clique aqui pra acessar a fanpage! ^^

E agora, Sia!
Até o mês que vem!



sexta-feira, 20 de março de 2015

Jacaré nada de costas ou usa boi de piranha?

O PMDB nasceu do antigo MDB, que resumidamente era o único partido autorizado a fazer oposição durante a ditadura militar. Nenhum governante gosta da oposição, mas se os militares torturavam e assassinavam alguns opositores, não é difícil deduzir que a oposição do MDB era bem restrita para que se mantivesse, literal e metaforicamente, viva.

Com o fim da ditadura o já PMDB foi colocado no poder pelos militares. Uma escolha ruim com uma alternativa péssima, já que a outra opção era o PDS de Paulo Maluf. Tancredo, avô de Aécio, morreu e a presidência caiu no colo do vice, José Sarney, que fez um governo tão desastroso quanto Tancredo teria feito.

Ao deixar o executivo Sarney, até então o principal nome do PMDB, apoiou Collor, apoiou Itamar, apoiou Fernando Henrique – duas vezes –, apoiou Lula – duas vezes – e apoia Dilma. Agora diz que está se aposentando. É bem provável que nem ele se aguente mais. Porém essa tribo ainda tem muitos caciques.

Com presença garantida entre os partidos que mais tiveram candidatos barrados pela lei da ficha limpa, juntamente com o PSDB – partido formado por seus dissidentes –, o PMDB só perde para o DEM no número de políticos cassados por corrupção. Ainda assim, há 30 anos marcando presença no executivo é evidente que se o próximo presidente, a ser eleito em 2018, não for do PMDB, terá apoio do partido.

Dedutível que, com um espectro de atuação tão amplo e com bastidores tão enlameados, ninguém faz aliança com o PMDB porque gosta, ou porque tem afinidade ideológica, ou porque pensa no bem maior da democracia. Fizeram aliança (Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma) porque precisaram. Com o presidencialismo de coalizão, sem o PMDB não se governa.

Na teoria a política é muito mais fácil e simples. Quem quer governar bem escolhe os melhores aliados, que contribuirão para um governo satisfatório, cujos benefícios agradem a população – e ponto final. Na prática o PMDB detém o maior número de senadores e segundo maior número de deputados, isso lhe garante além da vice-presidência, que já não é pouco, a presidência da câmara e do senado.

Da fossa séptica que se formou no congresso, vale destacar a tríade Michel Temer, Eduardo Cunha e Renan Calheiros. Formam, nesta ordem, a linha de sucessão presidencial, caso Dilma seja impedida de governar. Todos citados nominalmente no escândalo da Petrobras. Todos raposas velhas, dispostos a usar todo o capital político que têm para salvar o próprio pescoço e, quem sabe, virar a mesa.

O ‘salve-se quem puder’ que se instalou em Brasília não se restringe aos três. Políticos e empresários envolvidos no escândalo vigente fazem o que podem para salvar o que conseguirem, sendo que alguns terão sorte se salvarem a própria liberdade enquanto outros contam com capital social e político fortes o suficiente para serem esquecidos pela mídia e consequentemente pela população.

Enquanto batem panelas onde se cozinha os bois de piranha, o restante do rebanho passa tranquilo, formando uma base aliada cada vez mais fiel à oposição para barrar qualquer atitude racional que se possa dar para a atual crise política. Em time que está há mais de trinta anos ganhando, definitivamente não se mexe.

domingo, 15 de março de 2015

Um carneirinho, dois carneirinhos...


Umas das lembranças mais vívidas que tenho da minha infância são das noites que passava em claro toda véspera de início de ano letivo. Não era nada demais. Eu não odiava ir à escola, nem tão pouco era apaixonada por aquele ambiente que hoje entendo como uma guerra fria mirim. Mas eu não conseguia pregar os olhos. Era capaz apenas de ficar imaginando como seria escrever no caderno intacto, quem seria a nova professora e se eu faria alguma amizade diferente, enquanto torcia para amanhecer logo e ouvir minha mãe levantando para fazer o café, sinal de que eu poderia sair da cama.

Não que dormir tenha sido fácil durante os outros dias do ano. Eu sempre precisei de, no mínimo, meia hora para pegar no sono, independentemente do cansaço. Parece que na hora que vou deitar todo tipo de pensamento aflora e eu simplesmente não consigo me desligar. Sem contar que um dos braços sempre parece estar sobrando. Dormir a tarde também sempre foi ficção científica. A não ser que algo esteja errado. Se deitei a tarde e dormi, de duas uma: ou vai me dar gripe ou eu estou ressaqueada.  Em ambos os casos, é bom ter uma aspirina por perto. 

Quando estava na faculdade, além das vésperas de início das aulas, as noites inteiras de insônia passaram a ser enfrentadas semanalmente, aos domingos. No início desta época, cheguei a consultar um médico que me orientou a não tomar bebidas ricas em cafeina depois das 4 horas da tarde, mas adiantou pouco. Talvez fosse a vinheta do Fantástico ou o finzinho da ressaca (hepática e moral) de alguma das festanças universitárias. Minha mãe costumava dizer que isso era uma angústia nata que acomete quem nasceu na segunda-feira (meu caso e o dela), mas a teoria que mais acredito hoje é a de que as madrugadas de domingo se tornaram as únicas oportunidades nas quais eu não tinha escapatória: ficava só, comigo e com meus pensamentos, sem poder fujir do balanço (quase nunca positivo) periódico da minha vida. Após muita raiva e muitas segundas-feiras de mau humor, aprendi a conviver com as madrugadas de domingo pacificamente, lendo um livro, relendo velhos diários e cartas ou ouvindo música e amenizando tudo ao tomar muito café na manhã seguinte. 

Hoje as insônias dominicais deram trégua e não tenho tido mais noites em claro injustificadas, mas dormir continua sendo um ritual chato e demorado. E eu escrevi tudo isso só para confessar uma coisa: quando vejo alguém dormindo rapidamente, tipo o meu namorado aqui ao meu lado, tenho a maior vontade de bater tampas de panela, estourar balões ou soltar fogos. Sim, eu tenho inveja de quem encosta e dorme. Sério mesmo. Me julguem.



sábado, 14 de março de 2015

O dia em que eu quase esqueci de postar

O dia 14 de março de 2015 foi um dia de sol.

Foi um dia de mistério,  por mais que o sol deixasse tudo claro.

 A sensação de que vivo uma experiência que ficará como um ponto. Um ponto qualquer na linha da minha memória.  Mas também um ponto fundamental.  Como aquele jogo em que vc liga os pontos para formar um desenho. Um ponto como uma pequena estrela, que se juntando as demais forma  uma constelação.

Não é que tenha sido só mais um dia, ao contrário, mas sinto como se estivesse perto demais para conseguir ver.

Pequena estrela de luz fraca.Talvez essa mensagem seja como ela.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Gatos de Schrödinger

I'll see you in another life... when we are both cats)

Não foi nessa. 
Talvez não será. 
Ficou pra próxima? 
E se não houver? 
E se for pior? 
E se forem piores? E se não for? 

Não foi nessa. 
Talvez não será. 
E se não formos nós? 
E se não formos eles? 
E se for tudo outra vez? 
E se for destino, carma, carga, herança, evolução, maldição? 

Não foi nessa. 
Talvez não será. 
E se for um fraco? Gato escaldado, rato, sola de sapato? 
E se for dor? E se for mais dor? 
Se formos elas ou eles? 

Se formos fake? 
E se não formos nós mesmos? 
Talvez remake? 
E se eu for você e você for eu, fadados aos enganos, aos egos, ao frágil, aos berros.
E se estivermos e não formos?
...e se repeat ou rewind?

Não foi nessa, mas e se...




quinta-feira, 12 de março de 2015

Os fantasmas sociais


Assistia um programa  de televisão quando eles mostraram uma pegadinha. Em uma modelo fizeram o penteado e maquiagem de Samanta Morgan, um personagem conhecido pelo filme  ''O chamado''.


Colocaram a modelo parada na saída de um metrô movimentado aqui de São Paulo, que tem um túnel meio sinistro.


Não vi o filme, mas conheço o personagem de tanto que aparece por aí.

Talvez em qualquer outro país algumas pessoas dariam pulos de susto se ao sair do metrô à noite se topam com essa figura assustadora. Mas aqui em São Paulo as pessoas não se assustaram tanto e cheguei à conclusão que isso se deve ao fator social.

Se eu saio do metrô à noite e vejo uma moça estranha parada na porta, meu primeiro pensamento é que deve ser uma usuária de crack, talvez bêbada, perdida na cidade maluca, mas não penso que é o fantasma de um filme americano.

E a pegadinha ficou pouco engraçada por isso, as pessoas reagiam desviando da moça, não a viam como um fantasma maldito, a maioria ainda falava com ela, imagina, falar com fantasma!


É a maneira como se vive em uma cidade caótica, se vemos alguma coisa estranha ou alguém, pensamos que são bandidos ou armadilha, quantas pensam que podem ser fantasmas? Na paisagem urbana sobra o cinza, cachorros sem dono nas ruas, mendigos, moradores de rua, prostitutas, pessoas correndo de um lado a outro, se por acaso se encontra ali algum fantasma os olhos de quem vive aqui  já não consegue enxergar.


Já a Suécia começou a ser assombrada por um fantasma social, nos últimos tempos os suecos estão meio estressados com uma nova tinta que apareceu no panorama deles, os mendigos. Na verdade são imigrantes, vindos dos países do Leste Europeu, mas ao chegar na Suécia não dominam o idioma, os abrigos estão lotados e não conseguem se integrar a sociedade, terminam morando nas ruas e pedindo dinheiro.


A situação ficou tão critica que outro país, Noruega, apertou e criou uma lei que proíbe a mendicância. Os suecos ainda não adotaram essa lei mas já caminham para isso, estão elegendo políticos com projetos anti-imigração e  querem cortar todos os benefícios. Reclamam discretamente do que chamam de  ''praga de verão'' a cidade cheia de moradores de rua durante a única época que se pode sair, já que a Suécia tem um dos invernos mais duros do mundo.

Hoje dizem que cada supermercado na Suécia tem de dois a três pedintes na porta, coisa comum no Brasil, mas por lá é um fator novo.


Os suecos também reclamam que ficam com medo de caminhar à noite, pelo alto número de moradores de rua. E pode parecer preconceito, mas entendo eles, moro perto de um viaduto e lá estão muitos moradores, conheço a maioria, porque existe muita rotatividade, não tenho problema nenhum em passar por lá, mas em alguns momentos sou obrigada a atravessar a rua ou pegar outro caminho porque os vejo bebendo e usando crack e isso é perigoso demais, as pessoas começam a alucinar e vão pra cima de qualquer um.


Mas eu nasci em São Paulo, vejo isso desde criança, imagina um sueco que nunca viu ninguém dormindo na rua ou nos carros.


O lado humano da questão sempre me perturba um pouco, os suecos não parecem incomodados com a desgraça humana, finalmente ninguém é mendigo porque quer, mas estão irritados com a ''nova paisagem'', ou seja ''essas pessoas sujam seu lindo panorama''.


O problema dos moradores de rua é a indiferença de todos em relação a isso e a ausência do Estado. Daqui a pouco os suecos vão estar como os paulistas, se acostumam e não percebem mais se tem ou não morador, eles se integram a paisagem como se fossem um objeto.


Moradores de rua e mendigos não são uma  ''coisa'' que suja a paisagem, mas a prova concreta da falência de todos os sistemas políticos do mundo, inclusive do sueco. O problema não são os imigrantes do Leste Europeu, mas o fato de vivermos em um planeta desigual e injusto, não é só no Brasil que tudo isso acontece. O mundo passa por uma crise humanitária e são milhões de pessoas fugindo de seus países empurradas pela fome e guerras. E países ricos se fazem se justos e corretos, mas escondem seu passado, suas ligações clandestinas com os países pobres e a rota da exploração. Não existe um só país rico no mundo que não tenha feito sua fortuna a base de trabalho escravo e explorando os recursos naturais dos países pobres, a Suécia esconde e nega, mas os primeiros comerciantes de escravos na África foram os suecos. E agora que os países pobres estão no seu limite e as pessoas fugindo, os países ricos fecham as fronteiras e dizem ''aqui não''. Tivessem pensado nisso antes de roubar os outros! Muito fácil ficar rico com ouro alheio! 


Se for colocar a questão carmática no meio, se pode dizer que os imigrantes estão apenas retornando para pegar o que um dia foi roubado deles.

O mundo se recusa a enfrentar seus ''fantasmas'' sociais e fingindo que não existem. Talvez por isso essa fantasminha da Samanta Morgan não assuste ninguém. Quem conhece a ruas sabe que tem coisas mais assustadoras do que mil Samantas.








quarta-feira, 11 de março de 2015

B-Day - As Histórias de Minha Vida


"Um dia a mais é um dia a menos."

Então venha Morte, faça tuas contas e me some de novo por aí.

Por aqui eu me subtraio com honra e dignidade, com responsabilidade e glamour a vida que me fora dada. Celebro este negativo, assim como todos os outros já negativados.

Venha morte ao meu encontro, sei de tua ansiedade para esse dia. Imagino o quão parco deve ser tua experiência desse teu lado. Tão parco que és obrigada a ouvir que "a Morte vive da vida dos outros".

Não sei se isto se torna enfadonho aos teus olhos, mas por agora não é digna essa resposta para o meu saber. Por enquanto, venha, não desanime, faça tuas contas. Minha hora vai chegar e com prazer, ei de encontrar-lhe feliz. Contar-te tantos anos subtraídos aqui, me faz querer viver ainda mais. 

"Carpe Diem" é o que dizem por aí. Clichê ou elementar, é assim que vou me subtraindo. E a cada dia que subtraio, me faz ainda mais feliz saber que, feliz lhe farei ao justificar tua espera por mim. 

Imagino em teu semblante um sorriso largo ao ouvir os contos dos meus dias vividos. No chá da tarde, no almoço ou na janta, companheira que será, contar-lhe-ei todas as desventuras e aventuras da vida que me fora dada.

Não sei o motivo dos que a temem. Ver-te sentada em uma cadeira de balanço, com vossa foice acomodada em uma parede qualquer, ao som das músicas que aprendi a ouvir me parece agradável e gratificante. Mais uma vez, o sorriso largo em teu semblante paira em minha mente.

Mas não sofra de ansiedade, tudo tem seu tempo. Mantenha-te calma e conte. Minha hora há de chegar e quando chegar, não hesitarei em seguir-lhe até teus aposentos, acomodar-me, assim como tu e começar a narrar-lhe as histórias de minha vida.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Inferno astral e Retorno de Saturno

Imagem: Nasa

Sugestão: ler ouvindo Hold on por Tom Waits

É fato: o inferno astral existe. E não é negando sua existência que você estará livre dele.
É aquele período antes do seu aniversário onde tudo tem 90% de chance de dar errado. Azar é pouco! 

Os astrólogos afirmam que o inferno astral corresponde ao período em que o Sol está transitando pelo signo anterior ao seu, quase terminando um percurso de 360 graus. Por estar no final do seu ciclo, ocorre um decréscimo natural das características solares, tais como energia, autoconfiança, estabilidade emocional e um sentido de direção. O que afeta as pessoas de diversas maneiras.

Neste meu inferno astral, fiquei doente. Como nunca havia ficado. Duas semanas de molho em casa, quatro kg a menos e sentimento de tristeza. Além das dores e fraquezas causadas pela enfermidade, bateu uma fragilidade emocional... 
Esse meu período de clausura e introspecção me permitiu uma reflexão sobre a minha vida, sobretudo dos meus relacionamentos. E, não coincidentemente, é isso que o inferno astral nos trás; reflexão e avaliação para o início de um novo ciclo!

Meu inferno astral é apenas uma demonstração de tudo que está por vir. Após meu aniversário estarei com as energias renovadas para um ano inteiro de avaliação, pois completarei 29 anos, período do primeiro retorno de Saturno. 

Saturno demora cerca de 29 anos para completar o ciclo completo em volta do sol e formar uma conjunção consigo mesmo. Para a Astrologia Saturno simboliza o limite. Assim, o retorno de Saturno pode ser compreendido como sendo o momento em que tomamos consciência de nossas limitações, daquilo que podemos ou não fazer e daquilo que devemos ou não manter conosco, sejam hábitos, objetos ou relacionamentos.

O sofrimento desse período vem do reconhecimento das nossas limitações e em ter que abrir mão daquilo que temos por costume, mas não deve permanecer conosco, o que gera frustrações. Mas, sabendo lidar com isso, tudo se resolve da melhor maneira possível (dedos cruzados rs). Com certeza será um ano foda, com muitas mudanças e desapego.  

No fim das contas, seja você um crédulo em astrologia ou não, ocorre de tempos em tempos essa necessidade de reflexão sobre a vida, o futuro, os relacionamentos.... e isso é sempre saudável, pois nos damos a oportunidade de mudar o que não está legal, e de investir no que realmente importa. Além disso, sempre tem algum aprendizado.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Eu devia escrever um texto, eu sei...

... mas hoje vou apresentar uma ideia melhor. Eu sou um cartomante e uso meu baralho de forma criativa - muitas vezes, quando não faço a menor ideia do que escrever, eu embaralho um dos meus baralhos e, à medida em que vou virando as cartas, vou escrevendo as linhas. Ou então, abro um livro ao acaso, pego um parágrafo, abro mais uns cinco, pego um parágrafo de cada um e depois estruturo as cinco ideias fragmentadas em uma colcha conto de retalhos.
Não chegou em tempo hábil o livro que eu queria resenhar - Roube como um Artista [adianto uma resenha bacana aqui] - que fala justamente sobre esse processo, e eu já falei antes sobre o Faça Boa Arte, do Neil Gaiman. São esses os referenciais criativos que tenho no momento [bem, Gaiman é tatuado no meu miocárdio...] 
Porém, sempre acho coisas novas, e quero deixar aqui marcada minha mais nova descoberta, mais um brainstorm fantástico: as Estratégias Oblíquas.
Para quem não é cartomante como eu, é uma fagulha. Para gente como eu, como a gente, que tem um pé no cotidiano e outro nas estrelas, é um incêndio na floresta.
Atente - não é um oráculo. É um desafio.
Nesse ano pesado de carregar, é bom receber lufadas de ar puro.
E sim: eu tenho lido livros curtos, e me divertido muito mais com eles. Isso é grave.