segunda-feira, 30 de maio de 2016

Jangada

chuva, biscoitos e novos cheiros que vão se assomando à vida
de repente nos vemos em uma jangada de pedra...
E a vida não começa quando nascemos... pode começar nos cachos dela. 

domingo, 29 de maio de 2016

33

NÃO. Nenhuma mulher merece ou quer ser estuprada;
NÃO. Ainda mais sendo uma adolescente de 16 anos;
NÃO. Tenha um/dois/três filhos etc, seja casada ou solteira;
NÃO. E seja Zé ninguém sem dinheiro ou Zé ninguém com dinheiro;
NÃO. Moradora de favela ou de bairros com renomes;
NÃO. Esteja cursando ensino fundamental/básico/universidade;
NÃO. Ou apenas cursando a vida em bailes: funk, rap, forró, jazz etc;
NÃO. Que use substâncias psicoativas, ou leia drogas ilícitas;
NÃO. Ainda que use drogas lícitas;
NÃO. Seja a que mais faz sexo na comunidade;
NÃO. Ainda que tenha consentido estar aqui ou acolá com o “ficante”;
NÃO. Ou que “esteja num relacionamento sério com a “boca”;
NÃO. Tenha “rodado” a banca;
NÃO. Como querem e insistem justificar;
NÃO.  Não existe “suruba” desacordada ou dopada;
NÃO. Principalmente se for com 33 homens;
NÃO. Em estado de perda de sentidos, movimentos e ações voluntárias;
NÃO. Isto não é sexo consentido/aceito/aprovado;
NÃO. O nome disso é estupro.
NÃO. Nem adianta tentar argumentar;
NÃO. Nestas desculpas de casos isolados;
NÃO. O estupro é a expressão mais grave da misoginia e poder;
NÃO. E dos ataques diários contra as mulheres;
NÃO. Veja que quem se atreve a sair do lugar de obediência é escorraçada;
NÃO. Senhora Dilma por exemplo foi se meter na política e nos espaços de poder;
NÃO. No lugar de sexo comprado, com adolescentes inclusive;
NÃO.  Mas ao invés de igualdade: ofensas, um “vai tomar no cu” em rede nacional;
NÃO. Também adesivo ofensivo, estimulando e propagando o estupro;
NÃO. O louvor ao lembrar o seu terror na ditadura:Carlos Alberto Brilhante Ustra;
NÃO. O sim mais estridente no meio político para a cultura do estupro;
NÃO. E ganhou recentemente o impeachment através de mais um golpe;
NÃO. Um golpe que não é somente nela(s);
NÃO. Mas na democracia que as mulheres acham/creem/acreditam participar e ter alguma representatividade. Cabe perguntar aonde?

sábado, 28 de maio de 2016

a violência banalizada

*Links no final do artigo

Em tempos de extremos, é comum tirar os agressores de sua condição humana, colocando-os no patamar de monstros e doentes. Também é comum o outro lado da moeda tentar silenciar discussões a respeito, por questão de não assumir sua pretensão de justificar o injustificável. Não há nada que legitime um estupro, que desculpe uma morte. E quando isto ocorre aos milhares?

Para ilustrar isto, vamos voltar à época da Alemanha nazista, o exemplo clássico.

Justificar o holocausto era justificar o injustificável. Para tanto, os debates a respeito eram proibidos. A classe média em peso apoiou esta medida. O holocausto era brutal, e um debate mostraria a fragilidade disto. Logo, tanto para a população quanto para o governo, era preferível coibir a discussão e o pensamento a respeito, do que assumir a brutalidade de seus atos, de sua conivência.

Hannah Arendt, ao acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, falou que esperava encontrar um monstro, mas, no final, o que encontrou foi um homem comum, um burocrata preocupado apenas em seguir ordens, nenhum questionamento. Um homem, como tantos outros, colocado em uma situação de violência generalizada e banalização do sofrimento – que deu brecha para o pior que há no ser humano. Ao declarar isto, chegou a ser rechaçada pela comunidade judaica, como se estivesse perdoando Eichmann por seus atos quando, na verdade, além de apoiar a punição do assassino, também apontava o sistema que o gerava.


Em 2015, o tema do ENEM foi “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. Tema atual, mas pouco discutido, seja em âmbito familiar, seja no ambiente escolar. A alegação para evitar discutir violência de gênero é a mesma usada para bloquear a discussão a respeito da diversidade sexual (tema igualmente importante): família, moral, bons costumes, “mimimi”, valores, vitimismo... 

A sociedade brasileira tem uma certa resistência a discutir a violência contra a mulher pelos mesmos motivos que a Alemanha nazista evitava discutir o holocausto: ocorre, mas somos coniventes. É preferível culpar a vítima e, adotar medidas para esconder os sintomas do que atacar o problema em si.


Para a mídia o homem mata por amor, por ciúmes. Nunca porque tem ódio e acha que a mulher tem que ser subordinada às suas vontades. A maioria dos crimes contra a mulher ocorre no âmbito familiar, ou com conhecidos próximos da vítima: homens que cresceram acreditando que tinham direito sobre o corpo desta, sobretudo quando ela não se encaixava em algum padrão – e convém ressaltar, estupro não se trata de sexo. Por mais que se tente romantizar, estupro é uma agressão com base na dominação, é uma relação de poder.

Essa distorção do que é a violência contra a mulher, somado a outros fatores como a culpabilização da vítima, falta de espaço para discussões sérias a respeito do tema (e o sistemático silenciamento, perseguição e ridicularização de quem dá a cara a tapa) formam o ambiente propício para o surgimento de indivíduos que praticam atos abusivos sem considerar suas consequências, uma vez que a vítima, para eles, é um objeto.

Recentemente uma jovem de 16 anos foi vítima de um estupro coletivo, 33 homens. A violência do ato era tão naturalizada para os agressores, que eles se sentiram não apenas no direito de “punir” (sic) a garota como também de expor isto, gravaram e colocaram na internet para apreciação. Vingança, traição ou tipo de vida: o motivo não interessa, o que aconteceu foi uma monstruosidade.

Costumamos colocar indivíduos que cometem atos de barbárie numa categoria à parte da humana. Ao retirar a qualidade de humanos, também abstraímos a responsabilidade por seus atos. Porque não queremos assumir que, como nós, estes seres também são pessoas, e fruto dos valores disseminados em uma época. Que “aquilo” existiu porque uma parcela da sociedade e/ou governo foi conivente, quando não apoiador. O que muitos não percebem é que a monstruosidade não é necessariamente o produto de um humano isolado, mas é mantida por um sistema.

Não é questão de absolver criminosos. Que eles paguem por seus crimes. Entretanto, o mal maior não está na presença de doentes e desequilibrados mentais que se divertem com o sofrimento alheio. O mal maior, a banalização, está na violência sistemática, cotidiana. Estupradores são monstros? Doentes? Cometem monstruosidades, de fato. Mas ato de barbárie maior é a naturalidade com que cometem a violência.
Retirar estupradores da categoria de monstros nos tira o prazer do ódio desmedido, mas isto é importante. É importante porque o ódio é uma ferramenta de manipulação, que nos cega e nos leva a apoiar medidas extremas. 

É o ódio que leva uma multidão a ficar histérica quando vê alguém de vermelho passar na rua, ameaçando e atacando; é o que leva fanáticos a matarem homossexuais; é o que leva uma multidão, com um falso boato, a linchar uma mulher inocente; é o que nos faz achar que a violência é uma medida corretiva coerente; é o que permite que Bolsonaros e Felicianos se multipliquem.

A manipulação do medo alimenta a onda conservadora. O temor e o ódio geram propostas que nem sempre são condizentes com a realidade, que não alterarão em nada o status quo, apenas aliviarão a sensação de risco e servirão a um ódio irracional.  

Já é possível visualizar medidas extremas sendo propostas, como porte de armas, pena de morte, castração química... porque nem sempre é fácil olhar além e perceber que o problema não reside apenas no assassino, no estuprador – está nos superiores de mãos limpas que alimentam um sistema que permite que pessoas banais reproduzam atos brutais. 






[MULHER É ESTUPRADA...]



[MULHER É MORTA...]




[MULHER É AGREDIDA...]


sexta-feira, 27 de maio de 2016

A linguagem universal

Para a minha menina.

Na noite de 27 de setembro de 2015, as redes sociais voltaram sua atenção para o eclipse lunar, a chamada “lua de sangue”. Mas como acontecia com qualquer outro evento, o destaque durou pouco, restringindo-se a belas imagens e comentários superficiais sobre o assunto. A vida prosseguiu.
Estava eu com 20 anos. Tinha acabado de ingressar no curso de psicologia. Apesar da enorme alegria em ser aprovada no processo seletivo, esse sentimento durou pouco tempo. Já no primeiro semestre, tinha constantes crises de ansiedade. Minha avó (você teria gostado dela) dizia que o problema era minha arrogância e ambição, nunca estava contente com o que tinha. Eu achava que ela estava certa, mas não conseguia evitar.

No segundo semestre, minha saúde mental se agravou. Apesar de resistir a ideia, para conseguir conviver socialmente precisei fazer uso de medicamentos. Até então, acreditava que apenas eu era problemática, mas quanto mais interagia nos espaços que frequentava, mais descobria que a instabilidade psicológica estava disseminada: de marginais a religiosos praticantes, ninguém escapava.  Às vezes, saia uma matéria ou artigo nos jornais a respeito do aumento do uso de drogas psicotrópicas, porém o assunto permanecia tabu. Sentia que alguma coisa estava acontecendo. Uma crise existencial se espalhava por toda a sociedade, centros urbanos e rurais, interior e capital. A multidão estava à beira do colapso e caminhava em direção a ele, anestesiada.

Então a lua sangrou. Quem poderia imaginar que aquele era o sinal dos novos tempos? As coisas mais importantes acontecem debaixo do nosso nariz, sem nos darmos conta. Há muito tempo a humanidade tem conhecimento sobre outras formas de consciência e diferentes meios de transcendê-la. Naquela época, cientistas já sabiam da existência da molécula DMT, um composto simples, facilmente encontrado na natureza, e que tem profundos efeitos na consciência humana. No mundo ocidental capitalista, todavia, o único estado mental que interessa é o de alerta para produzir e consumir mais e mais, daí a falta de interesse em estudar o assunto.

Ocorre que o DMT (ou dimetiltriptamina) é um transmissor que permite a comunicação entre nós, seres da natureza. Enquanto ficávamos distraídos lutando contra os regimes fascistas que ascenderam naquele ano de 2015, o plano de eliminar uma parcela da humanidade estava em curso. Primeiro foi o clima: a água se mostrou um bem finito, secaram as principais represas do Estado de São Paulo e de Minas Gerais, foi por esse motivo que tivemos que rumar para o norte. Também foi nessa época que conheci o teu pai. Muitos amigos morreram nos anos seguintes, porque quem não teve condições de fugir do sudeste foi obrigado a viver em condições precárias.

O surgimento da “lua de sangue” foi o sinal para o golpe da natureza contra nós, humanos, a última tentativa dela nos deter: a insanidade mental generalizada, a qual não podia mais ser controlada por medicamentos sintéticos. A nossa sorte, minha e do teu pai, foi conhecer o Zé Pedro, pois foi ele que nos protegeu. Como você deve saber, o Zé é do povo Poyanawás e nos convidou logo que chegamos ao setor para participar de rituais xamânicos. Naquela época, a ayahuasca (ou yagé) nos salvou!

Faz um mês que descobriram que foram as plantas, qualquer planta, as responsáveis por nos enlouquecer.  E hoje soube da notícia de que a ordem dos líderes mundiais é eliminar toda vida que não seja humana. Temo pelo que virá. Temo por você. Resolvi escrever essa mensagem porque não sei por quanto mais tempo viverei e não quero que você seja privada da história, do começo de tudo isso. Desejo que essa notícia seja falsa, mas creio que não seja. Saiba que o meu amor vive em você.

Anna Ma.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O "Não relacionamento"

Quando é que a gente sabe que está num relacionamento? É preciso verbalizar? 

Relacionar-se precisa de um aval?

Eu que sempre fui do "deixa a vida me levar, vida leva eu" me senti incomodada recentemente por estar num "Não relacionamento"

Estar com a pessoa é maravilhoso, o silêncio à distância não é. Já estive em "não relacionamentos" alimentados por longas conversas sem estar perto fisicamente e é como se eu sentisse a conexão com a pessoa. Aquilo me dava uma falsa segurança de estar próxima a quem tem muitas coisas em comum comigo. Também já estive nesses modelos tradicionais de relacionamentos que, às vezes, se mostram falidos no meio de tantos estímulos atuais. É oferta pra lá, conquista pra cá e você descobre que não há certeza pra nada. E se não há certeza, por qual motivo não viver o tal "Não relacionamento" no modo -deixa a vida me levar, vida leva eu-?

Cá estou, tentando e incomodada. 
No fundo, eu faço parte daquele time que prefere ter a ilusão de que ~tá tudo bem, é só você que eu quero~ vestido do status "Relacionamento".


domingo, 22 de maio de 2016

Post Scriptum

Querido Papai, querida Mamãe,

Sentem-se e leiam.
(um chá de camomila nunca é demais... uma pena a Rosa não vir hoje)
Finalmente temos alguns minutos pra conversar:

Devolvo a vocês o meu corpo.
Que nunca chegou a ser mesmo meu.
O retalho por fora
Assim como vocês o retalharam por dentro.

Desculpe-me fazê-lo na sala de jantar
As manchas de sangue custam a sair.
Mas não deixem de fotografar e contar pra toda família
Finalmente o bibelô de vocês
Fez algo realmente notável!

Nunca tive medo de morrer.
Tenho medo é de seguir vivendo.
Medo de um dia me olhar no espelho e enxergar vocês.
Medo de viver num mundo de aparências
Conveniências,
Novela das seis

Não viverei pra ser genial, engenhoso, engenheiro.
Não viverei...
Se não posso construir minha vida
Construo sim minha morte!
Se queriam me ver doutor
Ajo agora como doutor de mim mesmo

Vou-me cedo.
Quase sem ter chegado.
Viro a chave duas vezes
E parto sem olhar pra trás.

Viver dói.
Viver cansa.
Viver dá câncer.
Me autoproclamo inadaptado à vida!

Guardem esta carta. 
E leiam-na. 
Leiam-na até decorá-la. 
E vejam na podridão que há em cada linha
O reflexo da podridão que há em vocês.

Com amor,

Eu

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Precisamos salvar a economia

Que a economia de um país é assunto importante, ninguém duvida. Independente de ideologia, classe, estilo de vida, ou qualquer outra coisa, vivemos em um mundo em que cedo ou tarde precisaremos de dinheiro até para os consumos essenciais à vida. O quanto esse assunto é importante, já abre espaço para interpretação.

Diariamente vemos jornais e telejornais abrindo amplo espaço para taxa Selic, inflação, cotação do dólar, Fitch, Moody's, Standard & Poor's, etc. É bem provável que se ao invés de martelar porcentagens que a maioria da população mal compreende os jornais abrissem espaço para a discrepância salarial entre gêneros ou entre cor de pele (!) esse aspecto da economia, que atinge muito mais diretamente os trabalhadores, seria encarado com mais relevância.

Claro, ainda que os aspectos técnicos da economia não sejam plenamente compreendidos por leigos, em tempos de crise eles chegam com força na vida da população. Com a inflação em alta o salário encurta, com o desemprego em alta o salário some, levando junto uma série de bens materiais e imateriais.

O papel do governo na economia de um país é sempre complexo. Deve alocar recursos de forma eficiente, sofrendo pressões por todos os lados. Quando a economia vai bem o mérito é do trabalho, quando vai mal o demérito é do governo, e não há frase mais apreciada por um político recém-empossado do que “precisamos salvar a economia”.

Sobretudo em um país tão heterogêneo quanto o nosso, o que significa “salvar a economia”? Em relação ao trabalhador assalariado o governo não tem nenhuma medida para que seu salário aumente, mas poderia muito bem atuar para reduzir seus gastos, fornecendo serviços básicos de qualidade, como saúde, lazer, educação e cultura – duas coisas distintas.

O problema é que essas medidas vão na contramão da visão mais imediatista que se tem da economia. Em meio às sutilezas da linguagem, investimentos em áreas voltadas para a população são noticiados como gastos e o corte nesses investimentos vira redução de gastos do governo.

A tal salvação para a economia costuma ser a mais ortodoxa, aumentar juros que atraem capital de especuladores, conceder isenção de impostos a quem já paga uma quantia ínfima sobre a própria renda e cortar os tais “gastos sociais”. Dependendo do ponto de vista, em pouco tempo a economia está salva.

Seguindo essa receita podemos voltar ao início do texto, ou seja, o crescimento aumenta, o dólar cai – não muito, para não prejudicar os empresários –, a confiança sobe e o noticiário pode indicar a recuperação da economia, afinal os números não mentem, antes estavam vermelhos e agora estão azuis.

O problema são os efeitos colaterais dessa receita tão simples. A conta é paga de forma unilateral. Superada a crise os trabalhadores terão média salarial reduzida e terão de enfrentar mais gastos com setores básicos, enquanto detentores de grandes fortunas continuarão contribuindo proporcionalmente muito menos para a recuperação.

Quem já tinha dinheiro de sobra para cuidar da própria cultura, educação, saúde, segurança e uma série de outros serviços indispensáveis, segue em frente como se nada tivesse acontecido. Enquanto isso à ampla maioria resta apertar o cinto e abrir mão de itens essenciais, tudo pelo bem da economia.


quarta-feira, 18 de maio de 2016

Amigos serão Amigos


Talvez seja rotineiro pra quem trabalha só, naquela pausa pro café admirar pela janela o horizonte cinza quebrado por incontáveis prédios, ver carros e vidas passando de longe e pensar:

"E eles? como eles estão? quanto tempo... já se passaram meses e nem percebemos! as conversas, sorrisos e ombros parecem tão recentes, mas será que o tempo passa tão rápido só aqui pela janela ou é assim lá do outro lado, atrás de tantos prédios? Espero que estejam bem. Saudades."

Claro, o mundo de hoje facilita notícias e conversas, mas a facilidade nos afasta da essência. E que bom a essência do que é verdadeiro sempre se manter dentro de nós, junto com as lembranças dos sorrisos e das batalhas vencidas juntos.

Até o próximo reencontro, onde sorriremos igual, riremos de tudo e sempre acabamos compartilhando algo. Até quando chegar o dia em que diremos, com tristeza, que "agora" nosso amigo será eterno. mas que até lá, tudo seja bem vivo dentro de nós e entre nós.

Afinal, amigos serão sempre e simplesmente amigos!

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Sangue Meu

Tudo sangue meu,
Embebedou-se de meu doce,
Se esqueceu de fugir,
Se esqueceu de voar,
Era tão doce que parecia amar.
O amor tem dessas coisas,
Te dá sangue doce,
Te faz esquecer de viver,
E de repente te mata,
Te faz devolver tudo o que engoliu.
E seu dono em desprezo,
Não quer mais saber de retomar.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Não sei.

Escrevi uma carta, não foi entendida.
Gravei um áudio, não foi bem explicado.
Pensei em desenhar, chorar, exemplificar de alguma maneira, mas não adiantava.
O que eu sentia não era coisa fácil de explicar.
Sentei ali na varanda, fiquei pensando em todas as vezes que pensei ter entendido um sentimento alheio e de repente, tudo se tornou um vazio.
Até dos meus pouco entendia.
Não havia como explicar, ou havia e eu que não sabia.
Pensei em todos sentimentos conhecidos por mim, os bons, os ruins, os maravilhosos e os ''malacabados'', percebi que só sei mesmo sobre esses porque por mim foram sentidos.
Nunca se sabe exatamente sobre os outros.
Não me dei por vencida, fui ali no dicionário e procurei sentir, foi infantil achar que ali descobriria.

Desisti.

É verdade, senti impotência sobre esse clichê, mas sentimento só se sabe quando se sente.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Arrisque-se



Chegou a hora de arriscar-se.

Correr o risco,
Riscar de sua vida o comum,
o supérfluo, o esperado.




É chegado o dia de pagar para ver
de saltar, sem recear a altura do tombo.
De ir mais longe, de ir além.
De aumentar a aposta, de dar o all in.




Está em tempo de seguir em frente.
Seguir seus sonhos.
Cegar o passado, passar por cima.
Sentir o soprar de novos ventos.




É o momento de não temer.
De tragar audácia, tanger o medo. 


Porque uma rosa me disse um dia 
que a vida esquenta e esfria, 
aperta e daí afrouxa, 
sossega e depois desinquieta, 
e o que ela quer da gente é coragem!




Para ouvir:
Bandeira- Zeca Baleiro






domingo, 8 de maio de 2016

Milagres

  Educado paciente psicótico chega e me pede:

  -Você pode fazer uma ligação pra mim?
  -Pra quem?
  -Esqueci o nome do cara...
  -Sabe o número?
  -Não sei.
  -¯\_(ツ)_/¯.


  

sábado, 7 de maio de 2016

T r a v e s s i a

Acordou as três da manhã com uma dor insuportável no braço. Ao despertar, teve consciência de que a dor física havia invadido o sono. Lembrou-se do sonho de minutos antes. Parecia que estava inserida na pintura de uma tela devido a intensidade das cores. O cenário era um aglomerado de pequenas grandes referências que foi acumulando em seus anos de travessia: verdes gramados da Mantiqueira, árvores retorcidas do cerrado, maritacas conversando quando o sol aponta e desponta lá no meio do céu, o marcante cheiro de bosta de vaca no capim seco. Passeava pelo pomar e provava de mexericas e pitangas suculentas. Uma serpente saiu dos entremeados das árvores e, diferente da passagem bíblica, não lhe incitou comer a maçã, afinal, todas as frutas ali já haviam sido provadas. 

A dor foi intensa e o braço ganhou uma coloração avermelhada. Logo após a picada, a cobra deslizou até o chão e rodeou seu pé, até morder a própria cauda. Oroboro. já havia visto aquele símbolo em algum lugar. Ao sair dos devaneios, acendeu a luz para examinar o que havia ocorrido em seu braço: uma torção ou picada de "pórvas" - afinal, ali não havia cobras, não devia ser grande coisa. Não conseguiu identificar o que poderia ser protagonista da sua dor. A vermelhidão foi se roseando, até quase não deixar vestígios.

Depois de uma semana de sonos sem sonhos, acordou de madrugada novamente, com o braço latejando de dor. Além da vermelhidão ela viu formar em seus braços pequenas teias pretas. Naquele momento não podia fazer mais nada além de se acalmar e esperar um horário apropriado para buscar um médico. Não conseguiu voltar a dormir. Pegou um livro na estante e travou duelos sangrentos entre a leitura e a mente que custou a se concentrar. Leu dez, vinte, cinquenta páginas. Imersa no enredo não percebeu que as teias pretas haviam aumentado e esboçado uma sequência de letras. 
Sessenta, oitenta, cento e vinte páginas. O braço continuava a latejar mas ela havia se proposto a não olhar mais, esperar o dia amanhecer. Cento e trinta, cento e cinquenta, cento e setenta páginas. 

Os vestígios coloridos do dia invadiram o quarto. Fechou o livro e foi se aprontar para a visita ao médico. Ao olhar seu braço, as pequenas teias de antes haviam adquirido contorno e desenhado formas. Lembrou-se do sonho da semana anterior. Foi até a estante e buscou no dicionário a palavra "oroboro". Ciclos, vida e morte, infinito, o sem começo nem fim. Ao terminar de ler, como em um passe de mágica, a dor parou. Ao olhar novamente o braço o que viu não foram mais teias, mas a t r a v e s s i a eternizada.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Fatinha do bolo negro

Ela só quer um pouco
do dobro do dobro do dobro 
do pão com ovo que tem pra almoçar.
Um pouco do muito, alcançado, 
por parte de um povo, 
que torturou seu próprio povo,
até chegar lá.

Ela também quer curtir e aproveitar.
Só tem 15 anos, 
mas já trampa e ainda vai estudar, 
Nasceu ouvindo que um pouco do dobro 
é a metade de tudo que vai alcançar.

Segue em frente.
Ela mostra pro povo,
que um pouco do ouro, 
é muito para quem queria só um jantar.

Sente o frio, que queima a pele do povo
nas ruas, largados pra lá.
Pros lados de cá, nos morros,
o dobro do povo quer alcançar,
os postos do pouco do povo que pode chegar lá. 

Ela tem consciência, 
que da ponte pra cá,
a paciência é a melhor arma, 
para ninguém se matar. 

Se tiver sapiência, 
vai por na cabeça do povo, 
que dividir e compartilhar, 
é mais lindo que quando você conquistar e postar 
uma foto num lugar
onde a comida custa o dobro do dobro do dobro
do preço de um prato com ovo 
que a maior parte do povo tem pra almoçar.

E ela quer viajar, 
visitar os seus pais,
Passar as férias de Julho, 
no interior de Goiás.

Ela quer conhecer o mundo, 
e que o mundo a conheça. 
Sem prepotência...
só quer dividir o que tem na cabeça, 
e às vezes pesa a consciência.

Ela só quer um pouco
do dobro do dobro do dobro 
do pão com ovo que tem pra almoçar.
Um pouco do muito, alcançado, 
por parte de um povo, 
que torturou seu próprio povo,
até chegar lá.

Seu povo tem cor, mas a multidão é colorida. 
Ela luta pelo preto, pelo branco 
e por quem nem sabe o que é cor ainda.

Ela quer sua merenda, 
cansou de ser oprimida.
Sai por ai com seus bolos e planos,
ganhando sua própria vida.

Quando ela pega o microfone, 
fala tudo que tá na cabeça.
Faz calar William Boner,
e bota as cartas na mesa.

"_É que a polícia diz que faz seu papel,
defendendo quem pega na caneta,
para deixar estudante com fome, 
e nossos pais na sarjeta.
Se o Estado oprime uma criança, 
alguns pais se abstêm da defesa.
Como querer um país mais justo, 
se o tal "pessoal do bem" 
não tem atitude coesa?
Eu quero lápis, caderno, 
e mais comida na mesa."

Ela só quer um pouco
do dobro do dobro do dobro 
do pão com ovo que tem pra almoçar.
Um pouco do muito, alcançado, 
por parte de um povo, 
que torturou seu próprio povo,
até chegar lá.

terça-feira, 3 de maio de 2016

A verdade que meus lábios não pronunciam


A verdade se abriga no silêncio. Ela está nas mensagens não enviadas. Ela é os abraços apertados. Ela é o eco dos pensamentos gritando enquanto os lábios permanecem imóveis. Ela se denuncia no olhar. Ela se aconchega nas saudades. Ela está no arrepio que vem da alma sempre que largo tudo pelo "vou ser feliz e já volto...". Ela está nas dúvidas que surgem quando volto desse "fui ser feliz...". Ela está no aroma daquele café que prefere o silêncio como melodia. Ela dança despojadamente com tudo o que ficou nas entrelinhas. É, a verdade está no que meus lábios não pronunciam...

Nos abraços apertados e nos olhares silenciosos, entre meus silêncios, meus pensamentos, minhas saudades e o que eu não disse durante o café, não consigo fugir, de verdade, de tudo o que sinto. Essa é a verdade mais genuína, assim como o meu sentir e, definitivamente, eu sinto muito, muito mesmo...

O que é verdade: o que se vive ou o que se sente?

A verdade é que eu sinto muito, muito mesmo, sinto tanto que me sufoco! E para viver a verdade que sinto, muitas vezes, troco os pés pelas mãos, mas não consigo deixar de abraçar a verdade do que sinto...

Entre o que sinto e o que vivo quantas verdades eu carrego! Tento abraçar o mundo nessa sede de viver de verdade, seguindo livremente pelo mundo, na rota traçada pelo meu instinto, pelo meu coração.

Conheço intimamente cada uma das minhas verdades, elas seguem comigo o tempo todo e, por isso, não sei lidar com meias verdades. E a verdade é que eu sinto muito, muito mesmo, sinto tanto que transcrevo a verdade, não pronunciada pelos meus lábios, na minha poesia. 

"Antes que a tarde amanheça e a noite vire dia, põe poesia no café e café na poesia."LEMINSKI, Paulo