domingo, 22 de janeiro de 2017

Totonho

Totonho era alguém com muita esperança. Totonho sabia esperar. E desde pequeno Totonho esperava. Esperar sempre foi sua única brincadeira. Enquanto os meninos corriam, Totonho ficava num canto pensando. Pensava em como seria bom ser adulto, ter sua própria casa-carro-emprego. Ser dono do próprio nariz. Que bom seria poder dormir na hora em que bem entendesse e não precisar comer rúcula. Detestava rúcula. Que ótimo não ter mais que suportar os meninos que lhe cuspiam no lanche e que lhe chamavam de nomes nada elogiosos.  Por isso Totonho tinha um calendário e nele contava. Contava os dias que faltava para seu próximo aniversário. E pro próximo. E pra outro e pra mais um. Somente assim, numa sucessão de aniversários, chegaria enfim o dia em que Totonho seria adulto. E este dia enfim chegou. A infância era enfadonha, mas uma hora acabava. Totonho percebeu quando assinou o papel. Antônio Carlos Vieira de Camargo. Logo abaixo de um contrato de emprego. Totonho estava empregado. No começo foi difícil. Pessoas estranhas. ambiente idem. Hora pra chegar, hora pra sair. A bunda de Totonho desacostumada com isso de sentar tanto, logo começou a reclamar. Mas Totonho era alguém com muita esperança. Totonho sabia esperar. Sabia que isso logo ia mudar. Bunda se acostuma. Totonho também. Depois de um mês, era o que todos lhe diziam, já estaria enturmado, já estaria acostumado, já estaria até gostando. Por isso Totonho contava. Contava os dias para o fim daquele mês. Um depois do outro, até se acostumar. Comprou uma almofada e um despertador. E sobretudo comprou um relógio. Agora sim. Agora Totonho controlaria melhor o seu tempo e o tempo que faltava para tudo melhorar. Totonho não gostava do trabalho, é verdade, mas com ele conseguia comprar. E Totonho gostava de comprar. Até casa-carro Totonho comprou. Saiu da casa dos pais. Foi morar sozinho. Agora Totonho já podia chegar mais rápido no trabalho. No trabalho que não gostava. O bom é que Totonho era alguém com muita esperança. Totonho sabia esperar. Logo pela manhã, ajustava o seu relógio e começava a contar. Contava os minutos que faltavam para a hora do almoço, hora em que Totonho dava uma pausa no trabalho e começava a pensar no que faria a noite, quando por fim chegasse em casa. O expediente era enfadonho, mas uma hora acabava. E ao final do expediente, Totonho comemorava. Mais um dia que acabava. Logo a sexta-feira chegava. Sexta-feira ia ser bom. Sexta-feira era legal. E Totonho contava. Um dia depois do outro, até que a sexta chegava. A semana era enfadonha, mas uma hora acabava. E Totonho ia pra casa. Não gostava de cinema. Não gostava de teatro. Não gostava de sair. Nem mesmo de sexta-feira gostava. Mas contava. Contava que gostava. Mas o que gostava mesmo era de dormir. Dormir muito. Dormir tudo o que não podia dormir durante a semana. Dormia tanto que se cansava. Sábado era bom. Domingo menos. Domingo não acabava. Faustão-Futebol-Faustão-Fantástico. Sorte da bunda que já estava treinada. Silvio Santos-Tele Sena-Teleton e Totonho contava. Contava os minutos pro domingo acabar. E o domingo não acabava até acabar. O domingo era enfadonho, mas uma hora acabava. Mais uma semana iria começar e depois outra e mais outra. Até que era rápido, Totonho contava. Totonho era alguém com muita esperança. Totonho sabia esperar. Bom mesmo seriam as férias. Elas chegariam e aí tudo ia melhorar. Mas precisava esperar. Doze meses. Cinquenta e duas semanas, intercaladas por cinquenta e duas sextas-feiras, das quais não gostava mas fingia gostar, e por cinquenta e dois domingos que nunca acabavam. O bom é que o ano era enfadonho, mas uma hora acabava. As férias chegavam. E Totonho paralisado, não sabia o que fazer com tanto tempo livre. Viajar-acampar-saltar-mergulhar. Que trabalheira. Fazer mala, desfazer mala, comprar passagem, reservar hotel. Que cansaço. Trabalhar cansava menos. Nas primeiras férias viajou, depois só dizia que viajava, com o tempo passou a só tirar os vinte dias obrigatórios por lei. Trinta dias era demais. Trinta dias era maçante. O bom é que as férias eram enfadonhas, mas uma hora acabavam. E pro trabalho voltava. Ano a ano. O mesmo trabalho. A mesma cadeira. O mesmo rangido. Formulários-Processos-Arquivos. Mas Totonho era alguém com muita esperança. Totonho sabia esperar. E sabia, que logo mais, com um pouco de paciência, com um pouco de preserverança, conseguiria se aposentar. Daí sim tudo ia melhorar. Sem trabalho, sem chefe, sem horário e com dinheiro pra comprar. Logo Totonho que nem gostava mais tanto assim de comprar. E Totonho contava. Ano após anos, até o dia de se aposentar. O bom é que a carreira era enfadonha, mas uma hora acabava. E essa hora chegou. Totonho percebeu quando assinou o papel. Antônio Carlos Vieira de Camargo. Logo abaixo do formulário da Previdência Social. Totonho estava aposentado. Foi bom ter esperança. Foi bom ter esperado. Agora sim. O mundo era só de Totonho. O dia inteiro só para ele. Pra curtir com os amigos, pra curtir com a família, pra fazer o que gostava. Mas Totonho não tinha amigos. Da família não se lembrava. E de gostar, não tinha nada. Nem de dormir Totonho gostava mais. Só gostava de contar. Mas não havia o que contar. Foi então que lhe disseram. Era um domingo e lhe disseram. Que noutra vida, nessa não. Na outra vida é que Totonho ia ver o que era bom. E Totonho só contava. Contava os dias, um depois do outro, pra que a outra vida enfim chegasse. E a vida... a vida é enfadonha, mas uma hora acaba. E uma hora acabou. Dá pra ver lá no papel. Antônio Carlos Vieira de Camargo. Primeira linha do atestado de óbito. E lá está Totonho. Encolhidinho. As duas mãos sobre o peito. Parece até sorrir. Porque Totonho era alguém com muita esperança. Totonho sabia esperar.