terça-feira, 22 de agosto de 2017

Você não pode sentir

Você não pode sentir, mas a lateral da caixa é áspera e a linha que o palito de fósforos faz nela é a minha linha da vida. Sabe, acho que não foi muito prudente ter me avisado que não tranca a porta quando sai de casa, sobretudo quando se tem um porteiro tão facilmente ludibriável quanto o seu. Você está fazendo escola, não é mesmo? Você sempre foi a minha grande referência quando o assunto é engambelar pessoas, a não ter o menor escrúpulo para ter qualquer um aos seus pés.

Você não pode sentir, mas já está começando a esquentar. O álcool parece ter sido o bastante, acho que sou realmente bom em causar estragos, ao menos é o que você sempre diz. Sempre foi assim, desde aquele dia quente, muito quente, em que nos conhecemos, daquela foto, a primeira, em que você aparece com a camisa toda mijada e com cara de nojo. A foto, assim como o álbum que a continha, foi a primeira coisa que atirei no fogo, você não faz ideia de como nossa família é inflamável! Foi só aproximar o fósforo da ponta que logo aquele plastiquinho amarelado começou a engruvinhar todo, a se retorcer que nem gato atropelado, se misturando a todos aqueles sorrisos de cera, que o fogo foi desmanchando ao menor contato. Uma pena você não ter visto, mas a vovó ficou muito bem chamuscada. 

Você não pode sentir, mas já está começando a feder bastante. Você não tem ideia de como todas estas coisas fedem. Se soubesse, talvez não tivesse acumulado toda essa bugiganga. O cheiro de tinta de sua coleção da Quatro Rodas me fere as narinas e os efeitos pirotécnicos que fez seu computador ao explodir fariam inveja a qualquer um daqueles filmes que você assiste. Sim, seu escritório, o imaculado, já foi inteiramente consumido. Daqui posso ver que as chamas já avançam para a sala e logo chegarão ao seu quarto. Demorou, mas finalmente consegui ter um lugar entre suas coisas e logo mais, não haverá escapatória - está tudo trancado e há grades nas janelas - eu me misturarei a todas elas, serei cinzas como elas, tão importante pra você como elas.

Você não pode sentir, mas meus olhos já ardem com toda essa fumaça. E não sou o único que sofre. Daqui da mesa da cozinha, único cômodo onde o fogo ainda não visitou, posso ver o desespero de seu gato siamês vindo da sala, os olhos esbugalhados, desenhando no chão uma trilha negra, feita com seu rabo em chamas. Mas estou certo de que você irá suportar bem isso, homem forte que sempre foi. Eu é que sempre fui um viadinho, não é mesmo, que chorava feito uma mocinha quando o gato do vizinho comeu o periquito australiano, não era assim que você dizia?

Você não pode sentir, mas o desespero já toma conta do prédio todo. Ouço gritos vindos dos cinco andares que estão acima e dos cinco andares que estão abaixo. Ouço vozes e passos desesperados dos que se atropelam nas escadas tentando fugir. Ouço também o porteiro, que a essa hora já percebeu o logro, e bate tresloucado a porta da sala. O fogo já se alastrou por todo o apartamento, aquele pra onde você fugiu quando concluiu que era perfeito demais para nós, ocupado demais para nós, probo demais para nós. Demais para nós. O calor me afoga, o fogo me circunda. Já não há mais tempo para muito, antes de lhe enviar isto e me desfazer também deste aparelho, única coisa que ainda me atrela ao mundo que divido com você.

Você não pode sentir.

Aliás, pai... você nunca sentiu nada. Mas eu sim. Eu sempre senti e agora... agora não há mais tempo. Fique apenas com minhas cinzas e com esta nossa primeira carta de amor.