sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Era outra vez

As roupas coloridas balançam feito bandeiras no varal. No chão do quintal de terra um redomoinho de folhas atiça o gato cinzento que cochilava por ali. O vento uiva como em sinal de mau agouro e embaralha os cabelos da mulher que recolhe as roupas. Todos a chamam de Cida. Ela é alta, magra e parece ter bem mais do que os vinte anos que tem. Hoje é noite de quermesse na igreja da padroeira e ela ainda precisa trabalhar muito se quiser chegar a tempo, se quiser que Dona Célia a deixe sair mais cedo. Cida passou os últimos dias todos com a cabeça longe dali, imaginando como seria bom dançar com Jacó, o jardineiro da igreja que a chama de princesa. Um forte trovão a apressa. A manhã inteira fora gasta com aquelas roupas e ela não pode perder tudo agora, não gosta nem de pensar nisso. Até mesmo porque as roupas são para a noite de hoje, para o casamento da sobrinha de Dona Célia e a patroa quer que tudo esteja impecável.

E ainda tem a comida. Amanhã é domingo, sua folga, e ela precisa hoje mesmo deixar tudo pronto para o almoço de família, o famoso almoço de domingo, umas dez pessoas ou mais. Panquecas. Ela tem de fazer panquecas, porque o Seu Arnaldo gosta de panquecas e a mãe de Seu Arnaldo também gosta de panquecas, das de carne, das de frango e sobretudo, das de brócolis com ricota. Também precisa preparar a saladinha com croutons de Dona Célia e o macarrão para os meninos. Uma pena não comerem todos a mesma comida, é o regime de Dona Célia, a fase de crescimento dos meninos, as vontades de Seu Arnaldo, mas ela não se importa. Trabalha lá desde criança, desde quando ia acompanhar sua mãe, e acabou por aprender o serviço. A mãe morreu ali mesmo na cozinha e desde então Cida mora lá com eles, no quartinho dos fundos, já que também seu pai há tempos havia morrido. Era muito grata à Dona Célia e ao Seu Arnaldo por tê-la adotado, por tê-la amparado, quando o coração de sua mãe deixou de caber no peito. Eles sempre diziam que Cida fazia parte da família.

O vento está cada vez mais forte e Cida quase se enverga com o cesto de roupas. Ela consegue recolher tudo e os primeiros pingos de chuva a fazem correr em direção da casa. São pingos grossos, decididos, com vocação de dilúvio. Cida corre. Tem um jardim inteiro pela frente. Ela se esquiva com habilidade do gato que quase a atropela na corrida. Célere, consegue desviar das gotas mais grossas que caem da copa da mangueira. Uma lástima os meninos deixarem aqueles brinquedos cheios de rodinhas pelo caminho, Dona Célia vivia reclamando, qualquer hora iam acabar se machucando. Um passo em falso, o peso arquejante do cesto de roupa, e lá vai Cida ao chão, a roupa limpa e seca se misturando aos prelúdios de lama que o jardim molhado coleciona. Cida solta um urro de dor.

Dona Célia aparece pela porta dos fundos com o olhar carregado de desespero. A roupa, santo Deus, a roupa. A roupa de toda a família, a roupa do casamento de hoje a noite! Como você pode ser tão desastrada? Cida levanta trôpega, tenta disfarçar a dor. Está sangrando. Ao redor, roupas espalhadas nadam na lama já bastante encorpada. Dona Célia se transfigura, gesta o demônio nos olhos, esbraveja que agora vai ter de comprar roupas novas, mais uma tarde no shopping, meu Deus, e que correria vai ser. Aos berros, diz que Cida terá que lavar tudo de novo, peça por peça, e depois estender, nem que tenha que passar a madrugada toda trabalhando. E que nem ouse se esquecer do almoço de amanhã. Panquecas, o Seu Arnaldo quer panquecas.

Dona Célia entra xingando, os meninos gargalham lá dentro, acham graça dos nomes ditos pela mãe. A chuva não passa. A tarde já avança e Cida não sabe o que fazer para dar conta de tudo. A carne. A roupa. O frango. O brócolis. Os croutons. Recolhe uma a uma as roupas espalhadas na lama, meias, vestidos floridos, chapéus, a gravata de seda de Seu Arnaldo. Ouve a porta batendo com força, depois o motor do carro, é Dona Célia e Seu Arnaldo saindo com os meninos para as compras. Jamais ousaria pedir para sair mais cedo. Tonta! Tonta! Tonta! Por que tinha de ser tão desastrada?! Justo hoje que queria ir a quermesse, justo hoje que veria Jacó, o rapaz que tanto a fazia se perder em distrações. Mas ela iria. E como iria. Não seria um acidente, um estúpido acidente, que a faria desistir. As vizinhas. As empregadas das vizinhas. É sábado a tarde e a uma hora dessas as patroas nunca estão, saem sempre em comitiva para fazer as unhas, para arrumar o cabelo, para depilar os pelos e para tantos outros importantes compromissos. Só costumam voltar no começo da noite. E o que falar dos patrões? São homens ocupadíssimos em suas atividades recreativas de sábado à tarde. Esses nunca estão mesmo. É isso, pedirá ajuda pras vizinhas. As vizinhas jamais falham.

E é isso que Cida faz. Limpa-se como pode, entra em seu quartinho e telefona para cada uma das empregadas vizinhas que conhece. São sempre elas que atendem. Como ela previa, os patrões nunca estavam. São três as que aparecem. Não demora e tudo começa a acontecer. A carne moída na panela, o frango desfiado, os pães secos de ontem virando croutons. Enquanto as três se redobram na cozinha, Cida lava a roupa na área de serviço. Elas precisam ser rápidas. Não demorará muito até os patrões chegarem das compras. Os ovos vão sendo quebrados, a lama se despregando das roupas, a alface lavada na pia junto aos tomates cereja. Barulho de carro na frente da casa. O grito dos meninos disputando o celular de Seu Arnaldo. São os patrões. Correria na cozinha, as empregadas de branco feito pombas se esvoaçavam em direção ao portãozinho dos fundos. Dona Célia, Seu Arnaldo e os meninos entram pela porta da frente.

Se Dona Célia tivesse caminhado até a cozinha, veria que Cida havia trabalhado por quatro e que a roupa está quase toda lavada e a comida já bastante adiantada para amanhã. Dona Célia, no entanto, está tão atarantada, tão concentrada em seus preparativos, que apenas grita de seu quarto, pra onde se dirigiu assim que entrou, que Cida não ouse em sair de casa enquanto tudo não estiver pronto. E diz que quer tudo bem caprichado, sem desmazelo, porque ela certamente perceberá. Ah, e se percebesse qualquer sinal de coisa mal feita, Cida que se preparasse para procurar outro lugar pra viver, não toleraria gente desleixada e sem responsabilidades, logo com ela que sempre lhe deu tudo. Diz isso e sai rumo ao casamento.

Tonta! Tonta! Tonta! As ameaças de Dona Célia golpeando seus ouvidos e a fazendo apurar o serviço. Dona Célia é tão boa, Dona Célia é uma mãe, se levantou a voz, se fez ameaças é porque tem suas razões. Agora Cida está sozinha pra terminar o trabalho. Ainda bem que teve ajuda. Sem aquelas três, não teria aquilo tudo tão adiantado. Sabia que sempre podia contar com elas. Patroa ajuda patroa, empregada ajuda empregada, era o que sempre lhe dizia Dora, a mais velha das três.  Tonta! Tonta! Tonta! A mãe se envergonharia com tanto desmazelo, se lamenta Cida, a mão espalmada dando tapinhas na testamas não é hora para lamentos, ela tem de terminar o trabalho. Com a ajuda que teve ainda conseguiria pegar o finalzinho da quermesse, ainda conseguiria ver Jacó.

Faltando alguns minutos para as dez, Cida consegue sair, a roupa lavada, a comida pronta para amanhã. Com sorte conseguiria pegar o ônibus das dez e chegar a tempo. O problema é que não poderá ficar muito, já que a linha que precisa pegar para voltar pra casa só funciona até meia-noite. Depois disso somente andando uns bons quarenta minutos a pé naquelas ruas que tanto a amedrontam. O caminho é longo, um tanto deserto e as noticias do que costuma ocorrer ali por perto não são  nada animadoras. Mas Cida quer ver Jacó, quer alguma coisa boa pra terminar o dia. E é com esse pensamento que entra no ônibus das dez.

O ônibus trota pelas ruas esburacadas da cidade. É noite, mas ainda assim há trânsito, muito trânsito e Cida não consegue entender porque. Olha ao redor e todos parecem bastante tranquilos, alguns conversam baixinho, a senhora ao seu lado tricota um cachecol, a netinha dorme em seu colo, um doce de abóbora pela metade nas mãos. Viver em cidade grande é se acostumar com um engarrafamento até mesmo depois das dez, pensa Cida. Ela não consegue ficar tranquila. Tudo aquilo pra não conseguir chegar, pra não conseguir ver Jacó.

Já passa das onze quando o ônibus pára de vez. Buzinas. Buzinas por todos os lados orquestram a sinfonia de uma cidade em caos, as luzinhas miúdas dos prédios de apartamentos como tímidas expectadoras. Burburinho no ônibus, a menina ao seu lado acorda, alguém sugere um acidente. Celulares de todos procurando por notícias. As buzinas aumentam e só são abafadas pelas sirenes da ambulância que passa apressada ao lado do ônibus, os carros abrindo caminho. Acidente, terá sido um acidente? A menina ao lado começa a chorar e Cida não sabe o que fazer. Pensa em descer e continuar o caminho a pé, mas ainda está bem longe pra isso. Mesmo com os ânimos se esfarrapando, o cansaço que lateja, Cida está decidida. Irá a quermesse ou ao que sobrar da quermesse, tentará ver Jacó, irá pra casa a pé se for preciso, mas não desistirá agora. Polícia. Um, dois, três carros cinzas da polícia militar passam com a sirene chorando ao lado. Curiosos se levantam e vão até a janela ver. O ônibus segue devagar. É quase meia-noite e Cida ainda não chegou. Um estampido lá na frente. É tiro, alguém grita. Alguns se abaixam. A menina chora alto, Cida chora baixinho.

- Toque de recolher! Toque de recolher! Toque de recolher! - as vozes gritam convulsas na rua.

Súbito, Cida se levanta e dá sinal pra descer. A porta se abre e ela corre. Corre sem olhar pros lados, só quer saber de sair dali. A igreja. Ela vai se esconder na igreja. Cida corre. Corre muito, corre sem conseguir saber o quanto. Outro estampido a assusta. Gritos. Quando enfim chega à praça da igreja, ao local da quermesse, vê que tudo está fechado, apenas as bandeirinhas tremulando entre os postes de luz, nem sinal de Jacó. Toque de recolher! Toque de recolher! Toque de recolher! É meia noite e Cida precisa sair dali, voltar pra casa antes que as coisas piorem. Ao descer correndo as escadas da igreja, Cida tropeça, uma das sandálias de dedo se desprendendo dos pés com a tira partida. Cida se ergue e continua a correr assim mesmo.


Um estampido.

Outro.

Cida cai em meio a fuligem do meio fio, se retorce de dor, a imagem da igreja à sua frente ficando cada vez mais difusa, águas turvas de um lago que alguém agitou, até tudo ficar bem nítido, iluminado, as portas abertas, a praça cheia. É dia de festa, ela se vê saindo da igreja com um vestido florido como aqueles de Dona Célia, Jacó ao seu lado com a gravata de seda de Seu Arnaldo, o irmão dele, William, tirando fotos do casal. Sua mãe e seu pai sorrindo na porta da igreja, atirando-lhes chuvas de arroz até que tudo fique escuro, bem escuro, escuro como o sangue quente que agora escorre por seu corpo, como a fuligem preto-borralho sobre a qual está deitada, encolhida, apenas uma sandália nos pés.



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Ilustrações: Paul Gustave Doré