domingo, 29 de janeiro de 2017

não vadeia na política dos homens! não vadeia!

O ano começou pesado e pelo jeito a leveza anda passando longe, pelo menos por aqui na terra da banana. Mas como a gente não se entrega e sempre acredita no dia depois de amanhã, com aquela fé e esperança de que algo bom ainda está por vir, seguimos.

A quantidade de mulheres que foram vadiar pelas ruas com cartazes e gritos nesta semana, principalmente em Washington D/C foi o fôlego, a respiração, a vitamina D noturna que precisava para espantar o mar de desilusão.

Contemplá-las na vadiagem pelas ruas mesmo de longe e sem entender o que falavam é a evidência e certeza de que acreditar no dia seguinte é melhor que pensar no dia anterior que passou e deixou arestas do machismo na forma de desânimo, chateação e tristeza.

Também é a ratificação do não me calo diante do machismo seja na família ou em qualquer lugar.

O ano de 2016 do ponto de vista político foi terrível para as mulheres. Digamos que todos os anos são difíceis, mas na política em especial tivemos grandes derrotas.

Ler matérias e artigos nomeando Hillary Clinton como a candidata da guerra e Trump apenas como conservador com excesso de autoestima, mesmo sendo por meio de discursos: xenofóbico, machista, misógeno, fascista, ultraconservador, eurocêntrico, egocêntrico, primata,  boçal, antiquado e figura política das mais ridículas de todos os tempos foi no mínimo horrendo para não dizer o fim do mundo.

No mundo dos homens, pois afinal, trata-se do mundo dos homens e para os homens uma vez que os lugares de poder são ocupados quase que exclusivamente por homens, o registro histórico da humanidade nos ensina que as principais guerras (inclusive dos EUA)  foram proclamadas pela excelência e magnitude do poder de homens.

Sanders o candidato para presidente considerado progressista estava apoiando a candidata da guerra quando não tinha chance de vencer. A candidata da guerra estava disputando um cargo político no país considerado número um no sistema capitalista e portanto o senhor da guerra.


Daí ressurgiu aquela sagrada dúvida que toda gente de esquerda ou quem queira pensar sobre tem: de que adianta mudar alguém do cargo quando o sistema ou o conjunto da obra (normalmente econômico) determina as condições e decisões das opressões sejam de exploração, golpes ou guerras?

A candidata da guerra também foi acusada de ser mentirosa, de mentir muitíssimo em favor de uma política favorável a guerra. Mentir. Algo que os homens mais fazem na política, mentir, se tornou um peso quando se tratava de uma mulher ao disputar o cargo mais poderoso.

Mas se entrarmos no mérito se mentir é fazer ou é parte da política, também podemos questionar uma vez que a política sempre foi uma criação evidentemente dos homens e não das mulheres, pois a maioria seja na Grécia ou em qualquer pedaço de chão estava nos lares cuidando dos filhos (hoje família) ou do trabalho quando escravizada.

Não se trata de defender a estratégia da candidata da guerra de assumir que iria a guerra (algo que o boneco fascista apenas não admitiu mas que com certeza irá fazer), e que se diga estava sim alinhada à política dos EUA como todo e qualquer político que se propunha ao cargo, ou seja, capitalista, exploradora e centralizadora para garantir a posição de país número um durante décadas.

Obama embora quisesse ou pelo menos demonstrava querer não conseguiu se isentar de guerras, aliás, os historiadores podem informar qual o presidente dos EUA que menos declarou guerra, para não dar a impressão de que a loucura ou histeria pairou na cabeça da mulher aqui, o que não é difícil, uma vez que esse bicho é bipolar e sangra todo mês e não morre.

Para as mulheres fica a sensação de que política não é assunto para nos dedicarmos, não é algo que deve ser uma meta para a vida. Perder a eleição mesmo com porcentagem pequena para Trump é violência e opressão para a vida das mulheres e das futuras que existirão.

Até quando vamos nascermos crescermos e morrermos nas mesmas condições, sendo inferiorizadas por homens, por nos julgar incapazes de pensar a organização de uma cidade, estado, país e sociedade?

Ler os comentários e imaginar os risos de Putin e Trump sobre as mulheres, mesmo após a derrota estar consolidada reafirma que a política não é nosso lugar, pior  estão nos dizendo de uma forma um tanto debochada e escarnecedora aonde é que devemos estar: em qualquer lugar desde que servindo aos homens.

E mesmo quando se decide não servi-los, cabe ressaltar que as decisões dos homens nos impõem uma servidão que está além da nossa vontade e alinhada ao estado e sistema capitalista.

Nos hospitais quem são os cuidadores, se para enfermos, grávidas e acamados?

Nas prisões como visitas (mãe, irmã, esposa/união estável) quem é a maioria?

Nas guerras quem supre o lar e quem é responsável pelo cuidado com os filhos?

Nas epidemias quem é cuidadora?

No dia a dia trabalhando e fazendo o serviço doméstico, quem é unanimidade?

Aponte um lugar que esta minoria que é maioria no mundo não esteja?

Não se trata de fazer o discurso do ódio aos homens, mesmo porque a maioria de nós tem pais, irmãos, genros, tios, primos, amores, amigos, colegas. O feminismo na sua plenitude trata do direito de igualdade (inclusive na política) entre nós, mas reconhecendo nossas diferenças. Feminismo não se propõe ao discurso do ódio aos homens, mas  enfrentamento dos privilégios machistas dos homens na sociedade.

Representação política importa e interessa. Naturalizar somente os homens na política reforça o sistema capitalista, racista, classista, homofóbico e machista que vivemos. Mundo e sistema dos quais apenas oito homens são bilionários, com perspectiva de nos próximos anos existir o primeiro homem com trilhões na conta.

Daqui alguns meses irá completar quase um ano do golpe político no Brasil. O golpe através do impeachment da presidenta Dilma está entre as perdas e naturalização da política de homens a serviço do sistema mais degradante e destruidor de vidas.

Notar que Temer é incapaz de produzir qualquer reação prometida seja o famigerado crescimento na economia ou a tal estabilidade política mesmo com golpe e rodeado de cuecas, com a grande mídia servindo de apoio é a prova convicta de golpe com machismo.

Golpes nos trabalhadores, pois as reformas (trabalhista, previdência, educação, saúde, cultura etc.) seguem o curso planejado com financiadores.

Golpe também nas mulheres.

As doces palavras, tais como incompetente, histérica, centralizadora, autoritária bem como os números apresentados em altos índices de desemprego todos os dias nas principais capas dos jornais e em gráficos nas TVs; ou a divulgação sobre a lama de corrupção com direito a estrelas e destaque jamais serão dele, serviram apenas para ela.

A única candidata a presidência eleita, reeleita e deposta pelo vice com um golpe institucional: político, jurídico e midiático serviu de chacota e discurso de ódio.  A única a ouvir em rede nacional ao vivo e a cores um sonoro: vai tomar no cu como forma de ofensa enquanto o "princeso" político foi apenas vaiado.

Fica a certeza de que política aqui no Brasil (e no mundo) não é para mulheres. Mesmo quando têm muitos diplomados/políticos/homens piores do que selvagens.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O Mergulho

"Você tem que se amar antes de amar o outro". Perdi as contas de quantas vezes ouvi esta frase nos últimos anos, ignorando todos os sinais e dizendo que a superfície era mais segura e confortável que um mergulho (interno). Até que em algum momento, o ar dessa superfície me deixou tão sem fôlego quanto pular nas profundezas.

Eu, que nem sou fã de Engenheiros do Hawaii, me vi cantarolando "Feche os olhos, tome o ar: é hora do mergulho. O poço não é tão fundo, super-homem não supera a superfície".

Saltei. Mergulhei. Estou mergulhando, Consigo descer mais. Não é tão escuro quanto parece, não é tão assustador, não é muito bagunçado. É apenas um lugar com espelho mostrando sombras que são nossas. A primeira lição é que além de amar o outro antes de si mesmo, também é preciso parar de projetar nossas sombras no outro. E aqui, eu agradeço ao Jung e sua sabedoria.

Não volto à superfície tão cedo. 


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Carta para o eu do futuro

Essa carta é para o eu do futuro, mesmo que esse futuro seja daqui a pouco.

Eu do futuro, ou do daqui a pouco, as coisas não estão saindo como tínhamos planejado, você vai perceber quando o seu tempo tornar-se presente. Fizemos muitas decisões desesperadas, não tem como negar a nossa dificuldade em desapegar. Descobri recentemente que tenho tampinhas de garrafa de 2005 e tive um certo pesar em jogá-las fora, mesmo não lembrando o que elas representavam. Fiquei com medo do eu do passado aparecer e brigar comigo alegando que pode ser que um dia precise. Dói muito mudar para a gente, é bom que você tenha consciência disso. Você vai se lembrar de todas as vezes que você cortou a franja e chorou de arrependimento. Você vai lembrar do quanto sofreu com a transição escola-faculdade. Vai ver que no fundo você tem dificuldades de se relacionar com o novo, com pessoas novas. O velho é mesmo um conforto para nós três, o eu do passado - do presente - do futuro, temos essa percepção de que o que temos foi muito difícil para conquistar e então é melhor não abrir mão tão facilmente.

Tenho que te alertar que os sonhos do eu do passado não correspondem mais com os do eu do presente. Sei que você vai se assustar quando descobrir isso mas infelizmente, ou não, os sonhos também mudam. Foi triste para que eu aceitasse, e ainda não sei se aceitei mas sei que estou tentando. Tenho a intuição que o nosso problema está no medo de sermos felizes. Talvez seja medo de ser quem somos, ou nos aproximarmos de quem somos.

Você vai notar que nessa carta tem muito "ou", "talvez", é porque fui obrigada a abandonar as certezas. Tive que me desfazer da ilusão de controle que eu tinha. Não existe garantias de absolutamente nada. Quero que saiba que tudo o que fiz foi para te privar do sofrimento que eu enfrentei. Algo aconteceu e me despertou a consciência que não era só você que merecia ser feliz, o eu do presente também merecia isso. Então tive que me movimentar para não deixar para ser feliz depois. O agora é quem somos e não posso mais me deixar para o futuro.

Você vai sentir falta de algumas pessoas. Por algum motivo elas tiveram que sair de nossas vidas, mas foi para o nosso bem, acredite. Vai encontrar algumas cicatrizes no coração. Espero que essas cicatrizes não latejem mais. Infelizmente você vai ter lembranças dolorosas sobre algumas experiências que tive e que herdei do eu do passado. Fizemos o que nossa compreensão permitia. Creio que você fará escolhas mais assertivas que nós. 

Houve pessoas que não souberam nos valorizar muito bem. Não foi nada legal passar por isso. Tivemos a ilusão de que o outro saberia reconhecer valores em nós que nós mesmas não reconhecemos (acabou contribuindo para abandonarmos a estratégia de transferir essa responsabilidade para terceiros). Em alguns casos foi covardia mesmo, mas é bom você acostumar que gente assim vai aparecer de vez em quando. Te aconselho a não permitir que elas fiquem por muito tempo, os desastres que elas provocam podem nos deixar de cama.

Com uma autocritica já construtiva, me vejo no dever de te lembrar do quanto nós temos um potencial alto de sermos injustas e rígidas com algumas pessoas, principalmente aquelas que estão mais próximas. É uma característica nossa que quando refletida no espelho provoca lágrimas, vergonha e arrependimento. Mas venho te trazer novos progressos, aprendemos a nos reconhecer como humanas e deixamos o desejo de sermos perfeitas. Você vai notar alguns quilos a menos depois disso. O auto perdão faz bem para a saúde e para a pele.

Alma futura, o ego já não é tão inflado quanto costumava ser. Essa novidade vai te ajudar a se relacionar melhor com você mesma e com o mundo. É curioso te dizer que de repente passou a ser prazeroso ser eu. Lembra daquelas orações que você fazia pedindo para experimentar o amor próprio? Pois é, aconteceu e mesmo que eu queira não vou saber te explicar como é, então simplesmente sinta e colha todos os frutos de uma relação autentica com a vida.

É com muito orgulho que digo que você continua chorando lendo Fernando Pessoa e que ás vezes lê a página de um livro e fica tão extasiada que não consegue continuar a leitura por alguns dias. Deve ser aquela história de período refratário. BeatleWeek ainda é uma meta. Você continua querhendo um toyota bandeirante e o sonho de viajar começou a se concretizar. O teu modo de viver em Deus mudou, se tornou mais íntimo e consciente. Finalmente conseguimos abandonar aquele bairrismo ridículo que nos aprisionava em um ideal falido. A alimentação continua ruim, sinto muito.  

Futuro, houve momentos que tentaram nos convencer que a vida não pode ser além do que é. Por pouco não caí nessa. Foi uma luta bem difícil para mim. Concordar com o comodismo do dia a dia não é uma opção para nós, tatue isso se possível. Muitos vão querer te enquadrar nesse padrão e você vai ter que ser forte para escapar dessa ladainha. Confie em mim, a vida pode ser mais que isso, e é.

Tive amigos dos quais apenas eu fui amiga deles e eu levei um tempo para perceber isso. Mas não se engane, houve pessoas que você também não soube valorizar e o peso disso vai cair sobre você mais cedo ou mais tarde. Um segredo é realmente não forçar amizade, você terá condições de discernir sobre quem é quem, afinal já caminhei um bom caminho para você.

Houve crenças que não sobreviveram ao tempo. Aliás, essas crenças não são nossas mais, tá com o eu do passado. Tirei o tarot muitas vezes e A Torre se desfez em quase todas elas. Tive que erguer uma nova e não foi fácil desapegar até mesmo dos destroços da torre antiga. Eu torço de verdade que quando o seu tempo chegar essa questão com o desapego já tenha sido trabalhada e quem sabe resolvida. Ela foi um grande empecilho para a minha felicidade e realização. Ainda estou me acostumando com a ideia de que o novo sempre vem.

O mais difícil para você vai ser se desapegar de mim. Eu sei que é complicado pensar nisso mas para você chegar eu vou ter que partir e me juntar ao eu do passado. Tente não chorar muito, até porque eu chorei bastante enquanto presente. No meu período de atuação estive de certa forma gestando você. O parto está se aproximando, creio que eu até tenha te segurado tempo demasiado aqui dentro. Peço desculpas também por isso, essa questão do desapego ainda é forte. Eu tenho medo que você sofra como eu sofri, porém não houve apenas sofrimento. Não foi bem assim e é até outra coisa que você deve se atentar: aprender a viver os momentos bons. Eu não soube muito bem como vivê-los, sabe? Estava sempre preocupada com você e tentando controlar as variáveis que te causariam alguma dor. Tive que soltar as rédeas e deixar a vida ser ela mesma, só assim terei tempo e energia para ser quem sou. Ainda estou aprendendo e você já vai ter uma base quando chegar.

Eu espero que você não me odeie. Fiz o que foi preciso e meti os pés pelas mãos algumas vezes, por desespero e medo. Peço que saiba me perdoar e também perdoar aquelas pessoas que não ficaram. Hoje dói bastante em mim mas não vai doer para sempre, mais uma coisa que você vai aprender. A dor também vai embora mas para ir precisa chegar e ser sentida. Sinta quando ela chegar, ela cuida bem dos nossos machucados e sem ela não há cura. Com resignação aprendi que a dor é a melhor das enfermeiras.

O acaso trabalha com a força do invisível e o que ele te trouxer vai ser melhor do que qualquer expectativa mensurada. Simplesmente aprenda a se permitir. Tem coisas que é tipo pra ser.

Estou deixando para você a vida que o eu do passado havia abandonado. Resgatei a essência daquele eu. Tive que fazer mergulhos muito profundos, mas com sucesso resgatei todas nós. O prenuncio é auspicioso. Você terá em mãos o que não tivemos forças para viver até o momento. Com muito cansaço e pouco fôlego, te informo que chegou a vez do eu presente realizar. A felicidade está batendo, vou deixar para você abrir a porta. Por favor não tenha medo de recebê-la, deixei o seu sonho de infância para você viver como pedido de desculpa pelas fugas que escolhi. Não olhe para trás e nem para frente. O agora vai ser a melhor época da sua vida e você esperou por esse momento desde o seu nascimento. Ah, o outro nascimento. Já estou sentindo as contrações, logo logo chega a hora do seu parto. Eu parto para você viver. Apenas viva.

Com amor,

Agora o eu do passado




domingo, 22 de janeiro de 2017

Totonho

Totonho era alguém com muita esperança. Totonho sabia esperar. E desde pequeno Totonho esperava. Esperar sempre foi sua única brincadeira. Enquanto os meninos corriam, Totonho ficava num canto pensando. Pensava em como seria bom ser adulto, ter sua própria casa-carro-emprego. Ser dono do próprio nariz. Que bom seria poder dormir na hora em que bem entendesse e não precisar comer rúcula. Detestava rúcula. Que ótimo não ter mais que suportar os meninos que lhe cuspiam no lanche e que lhe chamavam de nomes nada elogiosos.  Por isso Totonho tinha um calendário e nele contava. Contava os dias que faltava para seu próximo aniversário. E pro próximo. E pra outro e pra mais um. Somente assim, numa sucessão de aniversários, chegaria enfim o dia em que Totonho seria adulto. E este dia enfim chegou. A infância era enfadonha, mas uma hora acabava. Totonho percebeu quando assinou o papel. Antônio Carlos Vieira de Camargo. Logo abaixo de um contrato de emprego. Totonho estava empregado. No começo foi difícil. Pessoas estranhas. ambiente idem. Hora pra chegar, hora pra sair. A bunda de Totonho desacostumada com isso de sentar tanto, logo começou a reclamar. Mas Totonho era alguém com muita esperança. Totonho sabia esperar. Sabia que isso logo ia mudar. Bunda se acostuma. Totonho também. Depois de um mês, era o que todos lhe diziam, já estaria enturmado, já estaria acostumado, já estaria até gostando. Por isso Totonho contava. Contava os dias para o fim daquele mês. Um depois do outro, até se acostumar. Comprou uma almofada e um despertador. E sobretudo comprou um relógio. Agora sim. Agora Totonho controlaria melhor o seu tempo e o tempo que faltava para tudo melhorar. Totonho não gostava do trabalho, é verdade, mas com ele conseguia comprar. E Totonho gostava de comprar. Até casa-carro Totonho comprou. Saiu da casa dos pais. Foi morar sozinho. Agora Totonho já podia chegar mais rápido no trabalho. No trabalho que não gostava. O bom é que Totonho era alguém com muita esperança. Totonho sabia esperar. Logo pela manhã, ajustava o seu relógio e começava a contar. Contava os minutos que faltavam para a hora do almoço, hora em que Totonho dava uma pausa no trabalho e começava a pensar no que faria a noite, quando por fim chegasse em casa. O expediente era enfadonho, mas uma hora acabava. E ao final do expediente, Totonho comemorava. Mais um dia que acabava. Logo a sexta-feira chegava. Sexta-feira ia ser bom. Sexta-feira era legal. E Totonho contava. Um dia depois do outro, até que a sexta chegava. A semana era enfadonha, mas uma hora acabava. E Totonho ia pra casa. Não gostava de cinema. Não gostava de teatro. Não gostava de sair. Nem mesmo de sexta-feira gostava. Mas contava. Contava que gostava. Mas o que gostava mesmo era de dormir. Dormir muito. Dormir tudo o que não podia dormir durante a semana. Dormia tanto que se cansava. Sábado era bom. Domingo menos. Domingo não acabava. Faustão-Futebol-Faustão-Fantástico. Sorte da bunda que já estava treinada. Silvio Santos-Tele Sena-Teleton e Totonho contava. Contava os minutos pro domingo acabar. E o domingo não acabava até acabar. O domingo era enfadonho, mas uma hora acabava. Mais uma semana iria começar e depois outra e mais outra. Até que era rápido, Totonho contava. Totonho era alguém com muita esperança. Totonho sabia esperar. Bom mesmo seriam as férias. Elas chegariam e aí tudo ia melhorar. Mas precisava esperar. Doze meses. Cinquenta e duas semanas, intercaladas por cinquenta e duas sextas-feiras, das quais não gostava mas fingia gostar, e por cinquenta e dois domingos que nunca acabavam. O bom é que o ano era enfadonho, mas uma hora acabava. As férias chegavam. E Totonho paralisado, não sabia o que fazer com tanto tempo livre. Viajar-acampar-saltar-mergulhar. Que trabalheira. Fazer mala, desfazer mala, comprar passagem, reservar hotel. Que cansaço. Trabalhar cansava menos. Nas primeiras férias viajou, depois só dizia que viajava, com o tempo passou a só tirar os vinte dias obrigatórios por lei. Trinta dias era demais. Trinta dias era maçante. O bom é que as férias eram enfadonhas, mas uma hora acabavam. E pro trabalho voltava. Ano a ano. O mesmo trabalho. A mesma cadeira. O mesmo rangido. Formulários-Processos-Arquivos. Mas Totonho era alguém com muita esperança. Totonho sabia esperar. E sabia, que logo mais, com um pouco de paciência, com um pouco de preserverança, conseguiria se aposentar. Daí sim tudo ia melhorar. Sem trabalho, sem chefe, sem horário e com dinheiro pra comprar. Logo Totonho que nem gostava mais tanto assim de comprar. E Totonho contava. Ano após anos, até o dia de se aposentar. O bom é que a carreira era enfadonha, mas uma hora acabava. E essa hora chegou. Totonho percebeu quando assinou o papel. Antônio Carlos Vieira de Camargo. Logo abaixo do formulário da Previdência Social. Totonho estava aposentado. Foi bom ter esperança. Foi bom ter esperado. Agora sim. O mundo era só de Totonho. O dia inteiro só para ele. Pra curtir com os amigos, pra curtir com a família, pra fazer o que gostava. Mas Totonho não tinha amigos. Da família não se lembrava. E de gostar, não tinha nada. Nem de dormir Totonho gostava mais. Só gostava de contar. Mas não havia o que contar. Foi então que lhe disseram. Era um domingo e lhe disseram. Que noutra vida, nessa não. Na outra vida é que Totonho ia ver o que era bom. E Totonho só contava. Contava os dias, um depois do outro, pra que a outra vida enfim chegasse. E a vida... a vida é enfadonha, mas uma hora acaba. E uma hora acabou. Dá pra ver lá no papel. Antônio Carlos Vieira de Camargo. Primeira linha do atestado de óbito. E lá está Totonho. Encolhidinho. As duas mãos sobre o peito. Parece até sorrir. Porque Totonho era alguém com muita esperança. Totonho sabia esperar. 

sábado, 21 de janeiro de 2017

Começando 2017!

Oi minha gente!
Como estão? Tudo bem?
Espero que sim!

Primeiramente, quero desejar à todos os leitores e à todas as leitoras, de ontem e de hoje, um feliz e maravilhoso 2017. Que esse ano seja tudo o quê 2016 não foi, e muito mais!

Pois é. Por causa das correrias do final do ano passado, este que vos escreve acabou lembrando do dia 21 quando já estávamos vivendo o 25. Mas de boa. Faz parte, né?

No momento em que você lê esse texto, estou numa chácara, reunido com meus amigos e amigas num encontro anual que temos. Sempre no início do ano, alugamos uma chácara e lá vamos nós!

Tá certo que nesse ano será um pouco diferente, uma vez que as chuvas insistem em cair. Mas tá ótimo também! Como comentava ontem, com minha amiga no trampo da manhã, só de estar num clima diferente, reunido com a galera, já tá de bom tamanho, dá pra divertir. E chuva nunca foi obstáculo para a piscina!

Compartilho também a alegria em dizer que estou desde o dia 1º de janeiro sem beber refrigerante. E sem jantar também!
Não lembro se já escrevi aqui, num post longínquo, que vivo lutando para atingir meu IMC recomendado. Sempre começava e desistia. Dessa vez, tô conseguindo! Firme e forte! E sendo hoje dia 21, 21 dias de êxito! 

Quero tentar ser pontual com esse blog também, afinal, é uma alegria fazer parte da equipe aqui!

Termino por aqui, desejando um ótimo dia 21 pra vocês!
Nos vemos no mês que vem!

Como de costume, deixo aqui um vídeo musical pra vocês!
Nesse mês, Within Temptation, com "Angels"!
Aquele abraço!


sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Desabafo de um inocente

Prezados leitores,

Primeiro eu gostaria de me apresentar. Sou 2016. É, o ano. Acontece que o responsável pelo dia vinte está de saco cheio da vida e me cedeu o espaço.

Depois gostaria de deixar claro que ainda não terminei. Vocês não dizem que o ano só começa depois do carnaval? Pois é, estamos nesse período de transição e eu quero aproveitar que estou velho e ranzinza para lavar a roupa suja nesses últimos dias.

Todo mundo desceu a lenha em mim, sobretudo nos últimos meses, mas eu cansei de ser bode expiatório. Nem vou entrar na polêmica de que vocês só dão ênfase para as coisas ruins e esquecem as boas. Se esqueceram talvez não tenham sido tão boas, ou vocês são masoquistas contidos.

Preciso deixar claro uma coisa: eu não existo. Pois é. Apesar de estar aqui, escrevendo, não passo de uma criação humana, em dois sentidos. Um é que sou um recorte quase aleatório do tempo. O ocidente me chama de 2016, os judeus de 5777, os chineses de 4714 e por aí vai.

Isso é o de menos. Me chamem como quiserem. O principal – e me surpreende ter que dizer o óbvio – é que eu não existo porque não faço nada! Eu só estou de passagem. Parem de fazer bobagem e por a culpa em mim.

“Ai, mas morreu um monte de gente famosa!” E eu, que culpa tenho? Se pararem para pensar, todos os anos uma leva de famosos bate as botas – e nasce também, só que vocês só vão perceber isso daqui algum tempo –, mas por acaso fui eu quem decolou o avião da Chapecoense com menos combustível que o necessário? Bombardeei a Síria? Atropelei franceses e alemães?

Diria até que para cada tragédia famosa se foram vários anônimos, e não venham me culpar por isso. Fui bissexto. No meu Natal teve crime de homofobia – nos outros 365 dias também! No meu último dia teve feminicídio – nos outros 365 dias também! E não é de hoje que vocês repetem crimes sem aprender nada, estou errado?

O 2017 está aqui ao meu lado; pequenino ainda. Foi recebido com muita esperança, principalmente pelos que deixaram sua primeira manhã repleta de garrafas espalhadas pelas ruas e praias. Só vocês mesmo para oferecer uma recepção tão emporcalhada. A minha também foi assim, pensam que eu esqueci?

Vou aproveitar esse período de transição para tentar passar alguns alertas ao novo ano. Já disse que no final será cobrado, desde os famosos que morrerão até os times rebaixados. Os amores desfeitos, os kilos acumulados, os futuros atentados, o calor, o frio, a chuva, etc.

Deixei para ele um alerta que repito aqui: tem gente esperando que a política entre nos trilhos. Já estou até vendo depois de alguns meses isso entrar na conta do pequeno 2017, também! Mas não, isso não é culpa dele nem minha. Não elegemos o Doria, nem o Trump, tampouco colocamos o Temer no poder. Quem plantou que assuma a colheita!

“Ai, mas eu não votei em nenhum desses, não joguei lixo na praia nem matei ninguém!” Ok, não quero cair no mesmo erro de jogar a culpa nas mãos erradas, mas antes de falar mal do pequeno 2017 quando ele já estiver velho igual a mim, pense bem nas suas atitudes. Esse ano não vai fazer nada. Só vai passar.

Passar bem!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A Partida


Inesperada a ida de alguém quando ninguém queria que fosse. Mas foi e se foi.

Estranho achar que tudo tem a hora certa de partir, não há. Há apenas o que restou e talvez suma com o tempo, ou não.

Egoísmo dizer que é injusto perdermos alguém tão cedo, quando nós mesmos os deixamos ir bem antes e aos poucos por culpa do dia a dia da vida entre muros e barreiras.

Espontâneo o peito apertar, mas não tão espontâneo quanto apertamos as mãos e o tempo parar antes da partida.

E assim, partiu... corações, repartiu memórias e distribuiu saudades.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Otimismo em tempos difíceis

É verão, é janeiro, é 2017. 
Vai ser um lindo dia. 
É sexta-feira 13 também, mas foda-se; Estou no Rio.
Abro a janela e vejo uma árvore gigante da janela do meu quarto. Nela moram dezenas de passarinhos que começam a cantar bem cedo. Acordo empolgado.
Faz sol. 
O céu está azul entre nuvens grossas.
Me preparo para ir à praia. É sexta!
Preparo aquele cafezão reforçado para dar uma animada. Sento no sofá e aproveito para ver as notícias enquanto tomo o café:

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

É só uma camiseta! É mesmo?


Sou honesta e sempre aviso, se não querem saber o que penso, não me perguntem, caso contrário eu respondo. E tenho um lado meio vidente, às vezes fico quieta e depois as pessoas reclamam comigo que eu não disse nada de tal situação.

Uma amiga vai casar e me mostrou as lembrancinhas, vai dar um par de chinelos e o namorado escolheu distribuir uma camiseta, aquela famosa que diz ''Game over''. Como eu quis evitar conflito sugeri que melhor desse de lembrancinhas chocolates e velas, assim não tem erro, mas ela me disse que o seu namorado escolheu a camiseta e ela achou engraçado. Tentei morder a língua, mas acabei perguntando se a camiseta não era ''machista demais''.


Como ela percebeu que não gostei me disse:


-É brincadeira Iara, você precisa relaxar mais na vida, nem tudo é machismo x feminismo, às vezes uma camiseta significa apenas uma camiseta.

Mas não é? Não fiquei quieta porque tenho uma teoria, a pessoa pode e deve fazer o que quiser, desde que saiba a merda que está fazendo, se ela sabe então que vá e faça, mas na ignorância é melhor andar pelas beiradas.


Para amenizar ela disse que não vai me dar a camiseta no dia do casamento, apenas os chinelos. Eu disse que não, quero o conjunto todo e preciso da camiseta, o algodão é bom e vai ser um ótimo pano de chão para meu banheiro.


Não gosto de meias palavras e preferi dizer meu ponto de vista. Eu cresci em um ambiente machista onde diziam que todas as mulheres só se casavam porque ''davam'' um golpe no homem, seduzindo ele. Casamento era uma tortura para o homem e a glória da mulher. Os homens sofriam, eram castrados, mutilados, vigiados e controlados, enquanto as mulheres adoravam viver na sua função de ''esposa'' , parindo, sem gozar nunca e vivendo dos restos e da boa vontade de um ''macho''.


Mas os tempos mudaram e hoje eu digo abertamente, o casamento só é bom para os homens, é de uma conveniência que me assusta, ver como a vida deles fica mansa com um casamento me dá arrepios dos ruins. Não tem essa babaquice de ''Game Over'', porque homem nenhum é obrigado a se casar, se quiser continuar na farra e no ''Game'' ninguém coloca a arma na cabeça, isso não existe, por tanto essa camiseta é machista e nojenta, coloca o homem como um infeliz, coitado, sendo levado ao altar por uma sorridente mulher que diz ''Game Over''.


Ora, se existe ''Game Over'' é para a mulher, que vai destinar todo seu salário para a casa, vai virar figura indispensável para a família do marido, vai parir, amamentar, pagar as contas e ainda coordenar a casa.


Por mim todas essas camisetas de ''Game Over'' deveriam ser queimadas, símbolo das piadas machistas e estúpidas, onde os homens ainda acreditam que são ''obrigados''  a se casar! Que coisa mais cretina!


Se eu tivesse um milhão de dólares apostava agora, o casamento só acaba com a vida da mulher, não do homem. Só se o homem for um sheik árabe bilionário, então pelo menos se a mulher casar e se divorciar uns anos depois sai dali rica, caso contrário casamento é a maior roubada que uma mulher pode passar na vida.


No panorama atual se casar é apenas ter outro emprego em categoria de escravidão, sem nenhum salário ou reconhecimento, não sei quem acha fofo trabalhar mais dez horas por dia de graça, mas cada um é cada um.


E digo isso por mim, se eu me cassasse amanhã o homem ia acertar na loteria, além de musa sou ótima em administrar uma casa e excelente cozinheira, seria um negócio do céu para ele e para mim? Porra nenhuma, seria apenas como abrir a porta da senzala para que eu entrasse.


Essas camisetas mostram como a sociedade é medieval e cega, se recusa a perceber que a única carne moída em um casamento é a mulher, nunca o homem. Casamento hoje é a pior coisa que pode acontecer para uma mulher, atrasa a vida dela, joga mais pressão e pra que? Pra nada, absolutamente nada.


E disse tudo isso para minha amiga que me deu a resposta tradicional, já escutei demais:

-Nossa, Iara, não sabia que você estava tão ressentida com a vida, tão amargurada com as coisas, tão desiludida com o amor!

Mas não estou coisa nenhuma, mas vamos falar claro, escravidão é escravidão, isso não é sinônimo de ''amor'', vamos acordar pra vida e perceber que ser escrava de homem não é a mesma coisa que se ''entregar por amor'' e eles ainda fazem piadinhas com camisetas? Ora, santa paciência Batman, que além de aguentar a imbecilidade de alguns homens vou aguentar suas camisetas ridículas!


Não descarto ''amar'', mas devo ter sangue árabe nas veias e acredito que bons negócios são 50% para um lado e 50% para o outro, se já vou entrar perdendo 100% não me interessa e no momento casamento me parece uma canoa furada e até agora não entendo o que o amor tem a ver com isso.


Poxa, tem coisa mais linda do que amar alguém e sentir o amor? Mas desde quando isso significa virar escrava de homem? Ah, não gosto disso, prefiro ser livre. Não entendo, não posso amar alguém sem me casar com ele? Tenho que ser sua escrava para provar que gosto? Ah, comigo não tem essa não, eu amo, mas não entrego minha vida a ninguém e menos ainda para viver em uma ''senzala emocional''.


E disse a minha amiga:
-Olha, se prepara, porque tudo nesta vida é um aviso, se ele nem casou e já está distribuindo camisetas machistas, quero ver lá na frente como vai ser.


Minha amiga disse:


-Iara, você está paranoica, é só uma brincadeira com uma frase boba.

É? Tomara que seja mesmo, porque muitas mulheres já morreram de ''bobice'' e esse ''machismo brincadeira'' mata milhões ao ano.


Mas é ela diz ''É só uma camiseta!''.


É, e os homens depois de matar uma mulher dizem: ''mas é só uma mulher!''.



Iara De Dupont

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Viúva Negra

Ela já sabia, mas pra viver precisava condenar alguém.
Precisava e assim o fez.
Vivera intensamente.
E agora ao leito de sua vítima, lá estava ela, ouvindo os batimentos úmidos de lágrimas e assistindo o definho lento do escolhido.
"Vivemos", disse ela, inexpressiva
"Vivemos", disse ele, com sorriso já caído.
Ela, pra que não houvesse mais rancor, sem lágrimas e nem dor, desligara os aparelhos.
Ela já sabia, mas pra viver precisava condenar alguém.
Precisava e assim o fez...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Desejos

Voem queridas palavras
Com o dever de amar
A mágoa em mim contida
Rogo para que ela se vá
De mim quero alegria
Sorrisos e fantasia
A leveza do sonhar

Não se percam no caminho
Levem meus sentimentos
Para qualquer direção
Não se limitem ao tempo
Atravessem dimensões
Abracem os corações
Corram através do vento

Toquem todas as pessoas
E as encham de carinho
Amorteçam suas dores
O horror de ser sozinho
Vistam-se do pôr do sol,
Um sustenido, bemol
No cantar dos passarinhos

Carreguem a esperança
Façam gigante a paz
Esse é o meu desejo
Isso tudo me apraz
Espero ter animado
Ter também incentivado
O amor que aqui se faz

Fábio Fonseca