terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Dado



- Dado, come seu almoço.
- Não quero.
- Mas você precisa comer..
- Não quero!! Não vou!

Maria inspirou profundamente e olhou para o pai. Aposentado, na casa dos 87 anos, cabelos brancos, robusto, óculos com uma marca de dedo no canto da lente. A pessoa mais amável do mundo todos os dias. Hoje, excepcionalmente, rabugento.

O resto da família, a mãe e a faxineira, sentadas na mesa, olhavam quietas a cena desenrolar.  A regra era que um por vez falasse, para não atordoar o velho. Existe uma série de cuidados que devem ser tomados ao lidar com um familiar com alzheimer.

Uma esquecida aqui, outra lá. Uma carteira perdida. Eram só fatores que estavam relacionando à senilidade, não a alguma doença específica. Até um dia em que um dos filhos encontrou dado sentado na praça, e ele não sabia onde estava nem o que iria fazer.

Mesmo com o diagnóstico, ainda mudaram de médico, não porque não acreditavam no resultado, mas porque não confiavam no tratamento, a doença estava evoluindo rápido demais. Com um especialista localizado, mais resultados: a doença evoluiu rápido pois ele estava submedicado. Não bastasse isto, os remédios tinham efeitos colaterais pesados, aliados a outras limitações advindas da idade, como não poder levantar peso para não prejudicar a coluna, que resultou em um problema na perna.

Com um novo médico, novas orientações, estabelecimento de rotina, cuidado para que não fique doente, remédio em adesivo, falar devagar, não colocar informações demais, não deixar o paciente angustiado…

Pouco a pouco os filhos foram cercando as atividades do pai, para que ele não sentisse que perdeu a autonomia. Com o passar do tempo e a evolução da doença, sem os cuidados necessários, eventualmente um passeio em família poderia virar um desastre.

E era esse cuidado que estavam tomando agora.

Maria respirou e olhou para o pai, foi até a fruteira e voltou. Empurrou o prato de comida, com uma banana junto.

- Dado, você tem que comer esse prato, e com banana, foi a vovó Mariana quem mandou. - Minha mãe? Mandou nada. Ela morreu! - Ela morreu mas veio falar comigo em sonho. - É? - É sim senhor. Ela veio no meu sonho e falou que o senhor tem que comer tudo e com banana, pra cuidar dessa sua cãibra na perna.
Dado olhou para Maria, seus olhos de tartaruga encarando com seriedade.
- Se minha mãe mandou, não posso negar. E em respeito à ela, vou comer tudo. - Com banana. - Com banana.

E pegou os talheres e começou a almoçar.


Dado não sabe que tem Alzheimer, às vezes olha para os netos de maneira desfocada (mas logo que o conhecimento chega, ele abre um sorriso), não consegue mais ver tv ou ler jornal, fica ansioso quando chega o anoitecer, se atrapalha e esquece muitas coisas...


Mas sabe que tem que respeitar a mãe quando ela dá uma ordem, mesmo que seja do além.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Vivendo na lata

Vou sentar comigo hoje pra contar uma história.

Dentro de mim morava uma menina com medo da vida. Sorria um sorriso apagado e andava um andar calejado. Quando falava o tom era baixo, quando feliz a vergonha era o ato. Um ritmo pueril, de menina doce que não quer ser reprovada. Mãos suando e se entrelaçando uma a outra. Demorou mas descobriu que o medo era de ser ela. Não sabia dizer quem ou quando aconteceu, aquele dia em que dizem ou fazem algo que te faz se esconder da própria alma. É de se ter receio de ser quem se é. 

"Onde já se viu, saber quem é? Ninguém precisa saber quem você é, basta agradar e fica fácil socializar."

Será que é por isso que vida social passou a ser tão maçante e a sugar todas as suas energias? Forçar ser quem não se é demanda energia em dobro: energia pra lutar contra o que é natural e energia pra encenar o personagem que ao longo da vida você é instigado a desenvolver. No fim fica fácil, o personagem tem identidade própria, mas ao mesmo tempo pesado, carregar uma pessoa nas costas não se sustenta a longo prazo.
Reforçamento positivo, foi o que teve todas as vezes que fugiu de si pra ser quem esperavam que ela fosse. Chorou tantas vezes, mal sabia que o plano era apenas torná-la mais uma. 

"O volume da TV é o 4. Quando for brincar, proibido gritar. Não vá a casa de ninguém, você vai incomodar."

Assim ela encolheu ao invés de crescer. A ação exitada com o medo do incômodo se tornou condicional.

"Afinal, o que tem em mim que incomoda tanto?"

Do receio surgiu a culpa, da culpa a angústia e da angústia um modo de existir na vida. Sofreu enlatada enquanto pode, até que com pequenos vislumbres da vida nao somente assistida a fez enxergar o que de fato incomodava:

"Isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além
(Leminski)

Como não pensei nisso antes? Se eu for quem sou, que poder terão sobre mim? Quão incomodo posso provocar ao deixar de servir? Quanta pedra no sapato vou substituir?
Fez por que fez e a lata explodiu. Voou sonhos para todos os lados, e por que não,revolta? Como podem fazer isso com uma criança? Fazê-la acreditar que pra não incomodar deve-se passar pelo mundo despercebidamente. Ninguém me perguntou se eu tinha vocação pra ser invisível. Pois não, agora tratem de enxergar quem eu sou. E se incomodar, lembre-se que você não é obrigado a ficar.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

desmemórias de menina

menina amuada de tranças 
segue a turba de correntes-crianças 
sem olhar pros lados. 
tem medo-vergonha do que vão falar, 
do que podem pensar 
quando  virem o tonho. 
hoje a mãe vai voltar tarde. 
tonho te pega na escola. 
respeite o tonho, se comporte. 
agora o tonho é teu pai! 
menina, o olhar pro chão, finge não se incomodar. 
padrasto. 
nada mais que padrasto. 
o pai já morreu. 
ela viu o caixão. 
modelo jasmim da prefeitura. 
quinze minutos pra despedidas. 
o tonho estava lá. 
sete oito pás de terra. 
a menina se sufocando pensando no pai lá dentro. 
a mãe toda de preto. 
vestido tia emprestou. 
lágrimas secas.

mãe, com tanta terra assim, como é que o pai chega no céu?

cheiro do álcool de ontem. 
camisa preta de sempre. 
o olhar perdido de tonho encontra a menina de tranças. 
passos rápidos da menina, 
mãos nos bolsos, 
os passos trôpegos de tonho. 
nossa senhora permita que ninguém tenha notado. 
ônibus vazio, 
no último assento, tonho esboça um sorriso. 
com medo-vergonha-pavor menina retribui. 
se encosta disfarçada para o extremo do banco. 
isso é roupa pra andar perto do tonho, menina? 
motorista e  cobrador discutem futebol. 
as mãos de tonho em suas pernas.

pai, se um dia a gente quiser muito, a gente pode assim sumir?

casa só tem dois cômodos. 
banheiro no quintal. 
colchão improvisado pra menina na cozinha. 
o olhar de tonho a acompanha a cada gesto. 
ela sabe o que a espera. 
- vem almoçar, menina. 
depois de comer, tonho conta a história pra você. 
grades grossas nas janelas afastam qualquer chance de fuga. 
se um dia a mãe descobre ela está morta. 
não, a mãe não pode saber. 
ainda se o enfrentasse. 
as vizinhas. 
será que as vizinhas sabem, meu deus? 
som esganiçado do programa esportivo na tevê. 
o olhar vidrado de tonho a acompanha desde a mesa do almoço, 
filete de óleo da comida nauseosa escorrendo pelo canto da boca. 
- come tudo que depois tem historinha, 
tem a nossa brincadeira. 
o olhar de tonho lhe dá mais nojo que a comida.

pai, depois de morrer a gente vira semente e nasce do novo?

o sol da tarde que se vai colore de âmbar a parede caiada da casa de dois cômodos. 
cadeado trancado no portão de madeira. 
desenhos de giz na calçada. 
uma cabeça de boneca que alguém esqueceu. 
passarinho que canta na normalidade quente de uma casa de criança. 
- não conta nada pra sua mãe, senão ela morre. 
menina amuada de tranças senta na calçada e espera. 
espera a tarde acabar, 
espera a mãe retornar, 
espera. 
tonho dorme. 
brincadeira acabou. 
as facas brilham no escorredor de louça.

mãe, você sabe se morrer dói?

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

MEMÓRIAS INSISTENTES

Acordou.
Olhou para o calendário, e lembrou. A data era aquela.
Aniversário de quando ela foi embora, porque pensou que não adiantaria mais ficar com ele.

As memórias não sumiam de sua cabeça. Recordações de um tempo no qual se entendiam. Tudo era belo, bonito e gostoso de se viver. Mas nada é para sempre, e no caso deles, não foi diferente.

Ligou o rádio, para espantar a solidão. Essa sim era sua companheira.
De todas as horas. De todos os dias.

Não queria ficar naquela situação. Não queria sentir o quê sentia. Mas não tinha jeito: Por mais que os dias passassem, por mais que o passado existisse há certo tempo, o sentimento do vazio insistia em ficar.
Sabia que era hoje, o resultado de quem foi ontem. E era grato por isso.

Mas precisava continuar. Precisava encontrar forças para seguir.
Memórias insistentes. Memórias felizes, doloridas, como todos temos. Como todos experimentamos.

Já era para estar em pé. Já deveria estar se preparando para o trabalho, mas decidiu que naquele dia, não se importava em faltar. Precisava se cuidar, pois a depressão batia à sua porta. Mas cadê a força para isso?

Nada de interessante tocava no aparelho que ligara havia pouco.

Desligou.

Será que alguém se importava com ele?
Será que alguém se interessava por seu vazio?

Foi então que ouviu um ruído na porta. Algo arranhava, pedindo para entrar.

Levantou a muito custo, e abriu.
Seu cão o lambia, todo feliz, cumprimentando assim com o seu bom dia.

Sorriu!

E pensou que, pelo menos o cão, aparentava felicidade ao vê-lo. Afagou o bicho, e agradeceu.

Quanto mais ele conhecia as pessoas, mais gostava do seu cachorro.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Memórias de um futuro brilhante

Ilustração: Julie Maroh
Naquela manhã o relógio despertara às seis e quinze. Como nos últimos dez anos, Tânia só sairia da cama às sete, mas aos poucos foi retroagindo o alarme e usando a função soneca. Por dez minutos. Vinte. Trinta. Até chegar aos atuais quarenta e cinco minutos. Dez cliques no botão de soneca de cinco em cinco minutos, que raramente eram intercalados por um cochilo. Tânia despertava logo no primeiro toque, por vezes até antes, e ficava lá, na cama. Em algumas manhãs criava pequenos desafios, como a cada toque do despertador mudar a posição na cama e permanecer imóvel nos cinco minutos seguintes. De bruços, lado direito, lado esquerdo. Decúbito ventral. Lembrava desse termo das aulas de biologia. Decúbito. De onde tiravam essas palavras?

Na tal manhã não estava disposta a jogos. Após a terceira soneca estava deitada de barriga para cima, olhando o teto, onde pouco antes de entrar na adolescência havia colado uma dezena de estrelinhas florescentes. Imaginou que com isso tinha a sensação de olhar o infinito. Que bobagem.

A memória difusa foi para o dia em que uma amiga viu as estrelas e disse que parecia a constelação de Áries. Não fazia ideia. Havia colado todas ao acaso, na ponta dos pés e quase caindo da cama. Áries. Que bobagem. Mal sabia qual era seu signo, mas não era de Áries. Peixes, talvez Aquário. Tinha alguma coisa com água. Escorpião! Isso!

As estrelas do teto haviam sido dadas de presente pela professora, uma lembrança daquele ano que chegava ao fim. E lá estava a dezena de estrelas cintilando em verde florescente. Hoje amareladas, elas já quase não brilhavam.

Na época em que ganhou as estrelas Tânia era a aluna modelo. A dona das notas mais altas, que fingia modéstia para despistar o orgulho de ser a primeira da classe por anos seguidos. Hoje passava as sonecas do despertador. Engraçado, os mesmos cinco minutos às vezes passavam num piscar de olhos, outras vezes demoravam horas. Ela precisava conter a ansiedade de olhar para ter certeza de que não havia desligado o despertador sem querer.

A primeira da classe. Imaginava então um futuro bem distinto daquela rotina de ficar acordada, olhando para o teto, por algum motivo esperando o horário de sair da cama. Ao revisitar sua memória sentiu como se tivesse saudade do futuro. Que bobagem. Como alguém pode ter saudade do futuro?

Podendo ou não, era o que ela sentia. Lembrou e sentiu falta daquele futuro que não chegou. Que de brilhante foi ficando fosco, opaco, tal qual as pequenas estrelas que se esforçavam para resistir ao tempo e não apagar de uma vez.

Precisava comprar granola. Tinha que ter feito isso ontem, antes de ir para casa, mas acabou esquecendo. O jeito era improvisar alguma coisa para comer e não se esquecer de passar no mercado depois do trabalho.

Não era a primeira vez que tentava lembrar em que ponto seu futuro desandou. Mas não encontrava nada específico. Buscava algum cruzamento mal sinalizado, uma conversão errada, um retorno perdido. A memória lhe trazia tanta falta de opção que sempre terminava com a sensação de que seguira por uma trilha estreita em meio à mata fechada durante toda sua vida. Uma trilha com placas que indicavam seu futuro brilhante, mas que conduzira para sua cama, ao lado de um criado-mudo que dava suporte ao despertador, logo abaixo da dezena de estrelas.

A granola. Não podia se esquecer da granola. Ela gostava de granola.

Último toque do dia. Sete horas em ponto. Hora de parar de enrolar e seguir a vida. Ainda devia ter um restinho de Nescau vencido na cozinha, dava para quebrar o galho até amanhã. Um café da manhã que resgatava a memória de quando era a primeira da classe. Nescau. Tinha abandonado o achocolatado há muito tempo. Vai ver que foi isso que desandou seu futuro brilhante.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Memórias De Uma Vida No Aniversário



Década de 80: Segunda-feira de carnaval do ano de 1980, já nasci sem pressa de viver, pra viver melhor. Demorei mais dias do que o normal pra chegar e, segundo a minha mãe, cheguei sem chorar, simbolismo irônico do que seria a minha vida até aqui. Cheguei a esse mundo no hospital que levava e ainda leva o nome da minha cidade, São Bernardo, no ABC Paulista, que além do meu berço também já era berço de lutas que se espalharam pelo país. Década em que todos estavam aprendendo a andar com as próprias pernas, inclusive eu.

Década de 90: O ano de 1991, talvez o melhor ano da música, o ano que me fez pular do sofá ouvindo o que mudaria minha vida fazendo disso aquilo que eu quisesse, o Rock era a voz do menino tímido e fechado que estocaria seu arsenal de ideias e ideais para que quando tudo explodisse, ele pudesse tentar mudar o mundo mudando as pessoas a quem lhe ouvisse. O mesmo ano de 1991 também foi o pior, me tirou várias pessoas que eu amava e praticamente de uma vez só, pessoas que me moldaram a ser o que sou hoje, o menino de 11 anos já perdia grandes referências de sua criação. Nasceu o grunge no começo da década, meu maior amigo em anos, pois eu me fecharia ainda mais. Acabou o ginásio, veio o colegial técnico no coração da indústria nacional até então, veio a explosão de fúria e rebeldia contida na segunda metade da década, junto com o auge da adolescência.

os Anos 2000: o começo da década foi baseada no alternativo e underground sendo minha alternativa pra viver e curtir a vida. Trabalhar, viver, tocar a música pra tocar a vida, e curtir. Urbano Cia era a banda, a nossa gangue que ensaiava de dia e andava pela noite paulistana. Metade da década se foi, mas logo no começo da outra metade veio a paz em forma de pessoa pra cuidar de mim e me tornar alguém melhor, a paz no coração que faltava.

Anos 10: No meu aniversário de 30, a grande notícia e talvez o melhor presente de todos que já tive: Serei pai, do bebê que viria a se tornar minha princesa punk. O DNA do ano de 1980 no ABC estaria nela. Mas na metade dessa década, grandes mudanças pessoais e profissionais e ela veio junto a nós para São Paulo, no bairro em que a mãe dela cresceu, onde surgiu o movimento punk na cidade de São Paulo. Ou seja, numa grande mudança de vida, mas no final das contas estamos todos em casa e sempre carregando as raízes para onde vamos.

Em todos os aniversários eu passo o dia lembrando e pensando na vida, nos que foram, nos que estão e onde estão aqueles que se foram. Justamente hoje não sera diferente... Memórias, história, raízes, esperança e fé no futuro… é a vida, mais um ano de jornada e uma página em branco para futuras memórias.

Obrigado pela leitura, obrigado por fazer parte desse livro!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Convites de casamento

Os convites de casamento se acumulavam sobre a mesa da sala: “Virgílio e família”. Os anos de dedicação e carinho aos tios, primos, sobrinhos, amigos e vizinhos renderam uma boa coleção de caligrafias, pedaços de tules, e papéis cartão em tons diferentes de bege. Na cozinha, o único som era o da geladeira, que mesmo sendo um modelo novo e silencioso, era mais barulhento que os próprios pensamentos.

Na sala, sentava-se de frente para a televisão, mas não ousava tocar no controle remoto. Mantinha-a sempre desligada. A programação era sempre a do seu próprio reflexo. Quando estava escuro, as únicas imagens eram a de suas memórias.

Sua rotina era composta por quatro principais eventos: acordar, ir ao banheiro, comer e dormir. Não necessariamente nessa ordem, e com repetições de ações. Fora isso, tentava andar de um lado para o outro no corredor da casa após o almoço para fazer a digestão. Às sextas-feiras, tinha fisioterapia.

Em suas viagens diárias ao passado, lembrava-se especialmente de sua mãe. Às vezes, em visita da neta, nos momentos em que seus caminhos se bifurcavam, ou quando suas sinapses já não funcionavam, agarrava a mão daquela moça que estava ali à frente e chamava por sua mãe. “Mamãe, mamãe, mamãe”. Voltava à realidade quando entendia quem era ali – “Tudo bem, vô?”, perguntavam os olhos gigantes, porém delicados, e as mãos firmes. Respondia que sim com a cabeça. E logo voltava-se para a programação normal.

Morreu dormindo, logo depois de ter chamado pela mãe, como insistentemente fazia nos últimos anos. Aparentemente, dessa vez ela havia ouvido seus chamados. Deixou a esposa sem rumo, que acabou tomando seu lugar no sofá.

Mais ativa que era, ela ainda estendia as caminhadas até o mercado do centro, para buscar sua marmita diária na hora do almoço – não fazia mais sentido fazer comida para si mesma – fazia seu croché e caçava palavras nas revistinhas de bancas de jornal.

Agora, o neto mais novo fora morar com ela, mas ainda tinha dúvidas frequentes de quem era ele – o neto ou o filho? Dizia, sempre risonha para o resto da família em suas visitas semanais: “dessa vez eu juro que paro de chama-lo de Lúcio. É o Ju.” Segundos depois, desistia da sua proposição. Era o filho. Ao telefone, dizia à neta: “hoje fui almoçar com o Tio Lúcio”.

Mantinha suas tentativas frustradas de acertar. Sempre tivera medo daquele cara alemão que saía por aí roubando as memórias e os afetos. Era o Alzheimer, lhe diziam. Por isso, pegava firme nas caça-palavras.

Essa semana se sentiu estranha pois visitou um lugar que há muito não ia. Viu pessoas que há muito não encontrava. Teve a impressão de que fora ao velório de algumas delas. Visitou o melhor carnaval de rua da sua cidade, na época dos grandes bailes e das marchinhas. Dançou até dar calo nos pés, paquerou o marido, que estranhamente ainda tinha as feições jovens, tomou um porre de vinho, o único da vida. Pensando bem, agora eram dois, já que o havia tomado de novo. Quando voltou para casa, o neto (ou o filho?) lhe levava uma xícara de café e já não tinha mais certeza de onde estava.

Outro dia resolveu passar uns dias com a irmã mais nova, essa tinha Alzheimer, coitadinha. Uma moça tomava conta dela durante o dia. Tomavam café juntas e assistiam televisão. Mas, frequentemente era interrompida pela pergunta: “O Virgílio já morreu?”. E tinha que, com paciência, responder que sim, todas as vezes. Uma pontada no coração, um frio na barriga e uma lágrima acompanhavam a paciência que tinha ao responder a irmã.

Mas seguia de cabeça em pé. “Estou ficando caduquinha”, dizia à neta, “mas ainda tenho muita vontade de viver”. E no seu andar corcunda, caminhava confundindo suas memórias, embaralhando passado e presente. Uma pena é que as fotos digitais já não trazem a materialidade do passado, mas pelo menos, os mais de vinte porta-retratos no móvel de entrada traziam algum conforto. A foto de seu próprio casamento. Como estava bonita! E o Virgílio, tão novo. Isso a fez lembrar de algo: olhou para uma pilha de papéis na mesa da sala e começou a escrever a lista de presentes a serem comprados.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Tudo é só saudade


Entre panos surrados, estampas desbotadas, paredes descascadas e panelas pretas pelo tempo eu ainda vejo borboletas. Ainda é o único lugar no qual eu as vejo voando. Alguns representantes dos coloridos insetos que eu capturava quando pousavam nos capitães também coloridos, na feliz infância.
Quando volto, meu reino tem rainha. E ela reina.
- Não precisava por tudo isso de óleo para fazer arroz.
- Se não por, o arroz fica seco e seu avô precisa de energia.
- A energia não vem do óleo, ele precisa de carboidrato.
E ela não está nem aí para os meus cientificismos de revista e programas de saúde na TV. É o melhor arroz com quiabo, com salada, bife e feijão de todo o mundo.
- Por quê você plantou um alho-poró no meio do jardim e não na horta?
- É planta também e aqui é minha horta.
Manjericão, jurubeba, manga, goiaba, pimenta, pitanga, banana, caju, dália, rosa, pé de cana, acerola, orquídia, boldo, cebolinha,couve, jaboticaba, salsinha.
Desde cedo aprendi que aquele era o jardim mais plural e democrático que conhecia. Tudo ainda está lá e tem para todo mundo.
Hoje quando bebi um suco do limão que ela não deixou colher antes, que estava reservado para mim, pude ver que realmente no meu reino ele tem outro gosto. Não azedo como encontrei por aí.
- Quer açúcar no suco de laranja?
- Não, só tomo natural agora.
- Se quiser eu coloco um pouco, com gelo porque você sabe que eu gosto de tudo bem docinho.
Sei sim, e como eu cresci amando tudo que era tão docinho, feito de um néctar especial, de fonte única.
Pensei: Nossa! Como o limão ta com um gosto diferente. E é bom.
O bolor chegou na cozinha, em alguns cantos da parede. Há bibelôs mancos que ainda lutam com a gravidade e ocupam quase que a mesma posição. Há acúmulo de coisas no quintal.
Digo: - Por quê você junta tanta coisa que não usa? Penso: faço a mesma coisa.
A falta do reboco na parede, a ferrugem na porta e a madeira apodrecida me incomodam; mas o cheiro de dama da noite ainda entra todos os dias pela janela e toma conta da casa sem pedir licença.
Cada vez que vou embora tenho mais medo que o tempo pese sobre esse reino que eu deixei. Não sobre o bolor, sobre a ferrugem, sobre a tinta das paredes ou sobre os panos envelhecidos.
No abraço do reencontro ela pergunta: - O que você achou lá que não volta de vez?
Eu sem saber o que responder, digo:
- Eu não posso voltar.
Volto. Bebo suco de limão que não é limão. Como o pior arroz, caro e sem gosto pra saber que no meu reino tudo é tão diferente.
E mesmo com o medo enorme do tempo me castigar com a ausência dela, eu parto. Minha ausência já a castiga; mesmo sabendo que preciso ir ela finge irracionalidade e pergunta por que eu não fico mais.
- come um chocolate.
- eu acabei de almoçar.
- toma um iogurte então.
- mas eu acabei de comer.
- vou por um copo de vinho pra você.
Sentada numa cadeira no jardim, em meio a tanto verde e sob um céu ardentemente azul com nuvens de paina, ela sempre vai reinar.
Quando o portão bate; tudo é só saudade.


Por Fernando Bonfim, dia 13

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Memórias

Há quem diga que memória boa é aquela que se guarda com carinho de algo que se foi há muito tempo. Há quem diga que memória é um pedaço vivo da saudade. Há quem não tenha saudade de nada, apenas um trauma que se denominou memória por não se enquadrar em outra categoria. Há memória que é de arrependimento e há memória que vira aprendizado.

Memórias.

Memórias são como um artigo de museu, quanto mais antiga, mais rara e quanto mais rara, mais valiosa ela se torna.

Eu aposto que a maioria irá escrever sobre as memórias da infância ou da adolescência, da época da escola ou das férias de quinze anos atrás. Quiçá alguma tristeza em tom de dor daquela que não volta mais.

Hoje eu decidi contrariar esse conceito. Não pretendo ir muito longe para descrever uma memória. Neste contexto eu não pretendo falar de memórias ruins, também não pretendo contrariar as leis temporais: Memórias são feitas de passado e assim será.

Por hoje minhas memórias serão concentradas no amor, um cliché de poucos dias atrás. São memórias recentes sobre alguém que lutou por mim e me provou o porquê valia a pena.

Eu me lembro dos jantares e dos abraços. Me lembro dos beijos e carinhos. Me lembro que há dois anos rimos em demasia a ponto de a barriga doer, rimos assim há um ano atrás, oito meses, seis meses, quatro meses e ontem de novo.

Me lembro que esses dias viajamos muitas vezes, viagens curtas e viagens longas, houve até viagem sem sair do lugar, mas eu me lembro.

Também há a recordação de que viramos a noite como dois adolescentes em plena liberdade e cheios de energia. Me recordo que repetimos isso muitas vezes e me lembro também que já não somos assim tão jovens e que o corpo suplicou por descanso.

Há tantas memórias de curto prazo que não me lembro de todas, mas se eu tivesse que escrever este texto amanhã sobre esse mesmo tema, acredito que eu falaria sobre outras memórias não ditas aqui. Não pelo fato de não ter importância, apenas porque nosso tempo de memórias possuem tantas delas que precisaríamos de muitos dias de vinhos e queijos que isso naturalmente nos proporcionaria mais memórias.

São memórias de “ontem”. Todas recentes, mas são essas memórias que estão valorizando em nosso cofre de recordações pra podermos aplicar nas memórias de amanhã.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Adormecidas em nós, faz de nós quem somos.



Algumas vezes quando paro quieta em meu canto, e tento de alguma maneira silenciar minha mente para que elas não venham.
Essas memórias que às vezes mais parecem fantasmas que  na calada da noite se esguiam para assustar crianças malcriadas e alguns adultos medrosos.

Sem pedir elas aparecem e não importa o que eu faça, não há como esquecer.

Sim, aprendi muitas coisas com elas, outras só acumularam na pilha de coisas que não devia ter feito, mas fiz. É incrível como a gente finge que esquece alguma coisa só pra poder errar de novo, um erro que juramos que dessa vez será acerto, mas não, nunca é e a memória está ali pra te lembrar do quanto você foi besta.
Ainda não consegui entender essa linha frágil entre memória boa e memória ruim, não decidi se não queria lembrar de nada ou gostaria de lembrar de absolutamente tudo.

Onde foram parar aquelas que não lembramos? Aquelas que sabemos que aconteceu,  mas não sabemos exatamente como?
Somos também memórias esquecidas?  Aquelas que durante um tempo permanecem vivas e depois vão se esvaindo pouco a pouco ou num instante.

Essas, não sei dizer o quanto de mim guardavam e nem quanto de mim se perdeu.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Fiquei com Febre a Tarde Inteira

 Ouvia uma fita cassete do Legião urbana, e em um pequeno trecho os integrantes do grupo falavam sobre eles mesmos.Não tinha muito a ser falado, já que tinham 20 e pouquíssimos anos e fora estudar e tocar não tinham grandes novidades.Pensei no Renato Russo, no Cazuza, no Álvares de Azevedo, No Kurt Cobain entre tantos outros, e pensei no porque de nossos "poetas" serem tão jovens. Tanta base, tantos princípios, tanta importância vindo de pessoinhas que mal saram da adolescência.

  Lembrei também que no final da minha adolescência, fazia melodias e escrevias versos e poemas para acompanhar, muitos eu já esqueci, mas outros muitos tenho guardado e as vezes me pego cantando uma música que eu mesma escrevi. Como se eu tivesse sido outra pessoa - eu era - não canso de pensar que cabem mil vidas dentro de uma só.

  Com o tempo a vida foi ficando séria e eu também, chorar por um amor não correspondido foi ficando pequeno perto de outros motivos tão grandes que me permitiam chorar, esse choro é amargo e nunca valeu ser eternizado com uma canção quando a gente só quer esquecer.

  Tinha uma teoria, que gente com a vida melhor ouve música "boa" e gente mais simples ouve música "ruim" um arrocha, um pagode, um funk descontraído porque distraí quem tem problemas de verdade. Isso também, as músicas que escuto hoje são tão mais alegres do que o "hoje a tristeza não é passageira", porque vai que não é mesmo.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

n'ouro das memórias

Acordei ressabiada com os sonhos de ontem. Sonhos esses que, na verdade, já foram a realidade de um tempo mais distante. No final das contas, o que nos sobra é isso – a ilusão, a saudade e aquele cheiro de naftalina nas gavetas do armário.
 
 Os fatos travestidos de fantasmas caminharam ao meu lado, como amigos leais, por todas as horas da minha inquebrável rotina. Procurei me manter sensata, distante, como manda o figurino. Mas as memórias daqueles dias abriram uma cratera no meio da sala impossível de ignorar e pouco a pouco fui caindo, submergindo até sobrar um espelho embaçado, incapaz de mostrar a minha face.
 
Naqueles (outros) dias tudo era brisa e montanhas. As pedras da calçada faziam cócegas na alma. Tudo era imenso no coração da gente e, por isso, a gente sonhava. Eu sonhava. Quando fecho meus olhos consigo sentir o cheiro daquelas paragens no início da contagem dos meses: nas roupas que só secavam ao longo de uma semana – devido à umidade -, nos gases vespertinos daquela indústria, no odor sábio dos móveis e das antigas casas.
 
Todo o novo dentro de mim parecia impregnado de possibilidades a se bordarem na roca da vida. O tempo, ali, estava com a sua ampulheta suspensa. Devagar passava e nos enganava – que iria durar.



Ouro Preto, tarde de neblina, 2011.














domingo, 5 de fevereiro de 2017

Memórias

Hoje ouvi dizer sobre lembranças
E tantas memórias guardadas
Então, assim como a luz que se acende
Me vieram imagens, sonhos e devaneios

Lembrei da Londres vitoriana
De seus becos escuros e charmosos
Minha mente me levou à Alemanha
Que chorava em uma guerra sem fim

Foi então que me falaram com ar ríspido
“Mas estas memórias não são suas!..”
Não são Minhas?
Oras! Por que não?
Estão comigo e me foram dadas

Não serão minhas as memórias,
De uma cidade distorcida,
Pelos temores de um Rainer Rilke?

Será que as lembranças que tenho,
Daquela Itabira de um José qualquer,
Não me foram dadas?

Lembro-me perfeitamente do Inferno
Assim como do Céu da bela Beatriz
Quantas horas ficamos por lá conversando!

Tantas são as histórias que tenho comigo
De São Paulo, Pernambuco, Ceará e Piauí
Algumas outras até importadas do Japão

Sim! São minhas memórias
Não me importa se vieram do Cinema
De notas agudas ou graves
Ainda mais se me vieram em papel
Seja ele branco e novo
Ou amarelado e perfumado
Pelo cheiro do tempo!

São minhas memórias
Assim como outras que vivi
Esta aqui, separei para quem quiser levar

 Fábio Fonseca

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Plástico derretido

Lembranças nos fazem crescer. 
Algumas são tristes, outras felizes. 
Levo boas recordações,
entre feridas e cicatrizes.

Tenho uma marca no pulso,
Feita por um amigo.
Brigamos feio aquele dia,
Mas ele sempre esteve comigo.

E nem podia odiar o cara,
Afinal, sempre foi bem legal.
Só fiquei com raiva na hora. 
Perdão, segue a vida, normal.

Na verdade, agora,
Fico até envergonhado comigo.
Vejo mais a cicatriz,
Que esse meu velho amigo.

Decidi mandar uma mensagem,
Perguntar por onde ele andava.
Falei desse poema,
E que com saudade estava. 

É complicado manter amizade,
Quando trocamos de cidade.
Mas a afinidade prevalece,
Não se esquece quem é de verdade.

Nada de cobrir com tatuagem.
Para mim está tudo bem.
Prefiro essa marquinha,
Pelo menos lembro de alguém.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Fragmentos de vida

Memórias são fragmentos de vida capazes de nos transportar no tempo espaço. São registros vivos do passado, das coisas que, por algum motivo, ficaram registradas e permanecem vivas em nossa alma.

Memórias florescem do inusitado, elas têm vida própria. Aromas, cores, texturas, lugares e músicas que despertam esses fragmentos de vida. Tudo o que revela o latente dentro de nós.

Alimentada pela nostalgia, algumas memórias doem pelo nosso ego. Por, de certa forma, não aceitarmos que aquilo seja apenas uma memória. Sim, elas podem ser cruéis, trazendo esse sentimento de inconformidade, mas é impossível tentar trazer para o mundo concreto uma memória, ela jamais será replicada em campo palpável novamente, pois o mesmo homem não entra no mesmo rio duas vezes.

Que a gente possa aplicar a memória seletiva e tirar do nosso “baú de recordações”, todas as memórias que nos consomem. Que não seja preciso guardar as músicas favoritas com medo de criar memórias musicais. Que, daqui para frente, os fragmentos de vida registrados sejam leves e doces.