quarta-feira, 22 de março de 2017

Porque hoje é domingo



8:06

Mulher de finos cabelos brancos e olhos recém chorados olha pela janela e suspira. Manhã chuvosa de um domingo a se fazer sugere desesperanças. Guarda-chuvas pretos passeiam pela calçada cinza lá embaixo. Sino da igreja badala insistente. É domingo e ela não crê. Guto já não vem mais. Não verá Clara de novo. Domingo que vem quem sabe. A senhora precisa depender menos dos filhos, mãe, ser mais independente. Uma amiga, talvez. É isso, você precisa de uma amiga!

9:57

Chuva aperta. Gotas respingam no rosto enrugado da mulher que chora. Ainda não trocou de roupas e tampouco tomou café. É domingo e está só. Tanto faz se está de pijamas se não há ninguém para vê-la. Faz três meses que não vê Guto. Clara deve estar enorme. Automóvel dos vizinhos desce a rua respingando água nos que aguardam o ônibus das dez. Palavras praguejadas se perdem no redemoinho de um vento frio.  Mulher que chora não sabe o que fazer deste domingo. Nunca sabe. Não sabe se quer saber. Mamãe, eu vou te amar pra sempre!

11:42

Já não chove. Cheiro do almoço dos vizinhos entram pela janela, mas a mulher não tem fome. Guto e Clara lhe sorriem do porta-retratos na estante. Poças de água na calçada divertem a menina de galochas amarelas. Parece com Clara. Já são muitos os que passam lá fora. A mulher de finos cabelos brancos não gosta de sair sozinha aos domingos. Domingo não é dia para se sair só. Um marido, mãe. A senhora precisava era se casar de novo.

13:01

Vento gelado desordena os finos cabelos brancos da mulher na janela. Faz frio e a mulher parece não perceber. Olha, absorta, para a frente. Crianças correm atrás de uma bola na rua. Ventania faz bater a porta do quarto de Guto. Quarto vazio. As cortinas balançam e a mulher lembra. Lembra de cada canto daquele quarto de criança. Mamãe, quando eu estiver com muito medo, posso te abraçar bem forte?

15:17

Família do sobrado em frente comemora um batizado. Casa cheia. Fumaça tremeluzente. Cheiro de carne. Churrasco. É domingo e fazem churrasco. A fome já incomoda, mas ela não comerá. Não gosta de cozinhar só para si. Sobretudo aos domingos. Tímido raio de sol ilumina a poeira que senta na cadeira vazia da sala de jantar. São seis. Seis cadeiras destreinadas pela falta de uso. Essa casa ficou muito grande para a senhora, mãe! A senhora precisa vender esse sobrado e ir morar num canto menor!

17:33

Tela verde da tevê do bar da esquina. É domingo e assistem futebol. A chuva voltou, a fome também. A vontade de se ver livre deste domingo torna-se insuportável. Amanhã será segunda. Amanhã não se comemora nada, não se almoça em família, amanhã pode-se sair sozinha, pode-se estar sozinha, que ninguém repara. Amanhã é cada um por si. Aos domingos não. Domingos são para poucos. E hoje é domingo, mas não devia. A gente é fraco, cai no buraco. O buraco é fundo, acabou-se o mundo...

20:21

Há tempos que anoiteceu. Música do programa de variedades anuncia que o domingo se vai. A mulher de finos cabelos brancos e olhos recém chorados, fecha a janela e suspira.  Por hoje, só lhe resta pegar o telefone e ligar para Guto. Sim, meu filho, é claro que me diverti. Sim, estou bem. É claro que tomei os remédios... viu, filho... quando der, assim, eu sei que você é muito ocupado...  mas quando sobrar assim um tempo... venha com a Clara me ver, é que me dá uma saud... ah, sim... está bem, vai lá, filho, amanhã a gente se fala com mais calma... boa noite, querido, fique bem.

20: 47

Porque hoje é domingo, a mulher se deita mais cedo. Se retira para que o domingo termine de se fazer sozinho. Amanhã a semana começa e ela precisa pensar. Pensar no que vai fazer no próximo domingo. Vou dormir segurando a sua mão, mamãe, pra você nunca se desgrudar de mim.

terça-feira, 21 de março de 2017

DE OLHARES QUE ENCANTAM

Adoro quando seus lindos olhos negros me fitam. A sensação de ser olhado por você é encantadora. O jeito que você fala, o som da sua voz, faz o dia parecer mais bonito. Faz valer a pena. Não acredito que você pense o mesmo, mas pra mim não faz diferença. Sou transportado para uma outra dimensão, a qual pensei, muitos anos atrás, nem existir mais. Sei que isso não será eterno. Por mim até seria, mas sei que pra você, é temporário. Até o momento em que outro olhar cruzar o seu, e o meu não fizer mais diferença. Enquanto isso, aproveito. Aproveito para ouvir suas histórias, me alegrar com elas, sentir ciúmes, tristezas, raiva, euforia, desdém. Você desperta em mim aquele que amo ser e também aquele que detesto. Mas vale a pena, porque, como disse um dia um grande sábio, "viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe". Você me faz viver quando olha pra mim. Quando sorri pra mim. Quando mexe no cabelo daquele jeito provocador e inocente, mas que me leva às alturas. Incrível como alguém é capaz de tanta coisa em tão curto espaço de tempo. Tempo. Preciso aproveitar. Porque nunca se sabe quanto tempo temos. Viver, e não ter a vergonha de ser feliz. Obrigado pelo olhar. Janela da alma que me faz tão bem. Sigo meu caminho, pensando no momento em que o meu olhar cruzará o seu novamente. Enquanto isso não acontece, sigo aqui, torcendo para que você tenha a sorte de ver somente coisas belas. Imaginando o seu olhar. Misterioso. Cativante. Amável. Louco. Puro. Menina mulher que encanta somente com os olhos. Pra uns, nada demais. Pra mim, o mundo.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Não há nada acontecendo


As panelas pararam de bater na zona oeste quando ainda havia um restinho de comida nas panelas da zona leste. O objetivo já havia sido alcançado, não tinha porque continuar.

“Vamos, tesouro! Não se junte a essa gentalha”, gritou a mãe, preocupada que a camisa da seleção fosse, de alguma forma, ficar vermelha. Argumentou que já havia simpatizado com o outro lado, mas só até o momento em que se associaram com a banda podre.

Faz sentido. Só não entendi qual a vantagem de deixar, então, só a banda podre. Mas sementes gostam de coisas podres. Esta foi plantada, cresceu e já começa a dar frutos. Parece ser a hora de colocar as coisas nos locais historicamente a elas relegados.

Ouvi dizer que vão reformar o ensino. Alguém tem dúvida de que o ensino está ruim? É óbvio que precisa de reforma. E agora o jovem já vai sair da escola com uma profissão de nível técnico. Para que pensar em fazer faculdade? É caro, demora, é difícil, então que se contentem com um nível técnico mesmo.

E a aposentadoria? A população é composta por uma ampla quantidade de vagabundos que relutam em trabalhar até o fim da vida, ganhando salário baixo e tolerando empregador abusivo, mas não tem outro jeito. A taxa de inadimplência de impostos das empresas brasileiras é uma das mais altas do mundo, a única saída qual é? Dificultar a aposentadoria do trabalhador, claro!

Aliás, esse é outro tema importante. A legislação que protege o trabalhador é de 1940. Não é evidente que precisa ser revista e modernizada? A lei que proíbe o aborto também é dessa época, mas nessa a gente não mexe. O importante são as leis trabalhistas. Hoje o empregador é obrigado por lei a pagar um salário mínimo, se ele quiser pagar mais, tudo bem. É evidente que retirando a obrigatoriedade do valor mínimo, os salários irão aumentar, não?

E isso resolve o desemprego? Claro que não! Mas notar-se-á uma tacada de mestre nesse ponto: as mulheres não vivem reclamando que ganham menos e cumprem jornada dupla? Pois basta retirá-las do mercado de trabalho! Olha que maravilha, elas não terão mais jornada dupla, serão belas-recatadas-e-do-lar, criarão as crianças e nos informarão os preços no supermercado.

Uma exceção fica por conta das empregadas domésticas. Não faz muito tempo começaram a estudar e a ganhar regalias como carteira assinada e horário regulamentado. Há quem tenha orgulho em dizer que esse tipo de coisa nunca tinha acontecido na história desse país. Mas é claro que não! O país tem raízes escravagistas e as mulheres negras ocupam lugar cativo nas neo-senzalas. O ministro do trabalho até impediu a divulgação de uma lista com empresas acusadas de trabalho escravo, tudo em nome dessa tradição nacional que vem desde os tempos de Cabral – o Pedro, não o Sérgio.

A corrupção não acabou, mas seria injusto dizer que nada mudou. Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel. É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional. Com o Supremo, com tudo. Se há um caminho mais fácil, por que ir pelo mais difícil?

sábado, 18 de março de 2017

Sujeito

Das frases que eu não gostaria que você tivesse dito, nunca quis ser o sujeito, mas sim o futuro simples de um pretérito imperfeito.

Das histórias que você tenha que contar, não quero ser o vilão e nem o príncipe, nem protagonista e nem coadjuvante, eu seria apenas e perfeitamente o marcador de páginas do livro da vida, ajudando a separar as páginas viradas das que ainda serão descobertas e aprendidas, mesmo que eu não seja mais útil quando chegar no final.

Não quero ser um motivo, a razão ou a irracionalidade pra algo, mas quero ser eu e estar com você até o final que for, feliz ou não.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Do processo criativo (ou Dia 15).


Por onde começar?
Não me lembro de nenhum causo legal hoje.
Nada na minha própria memória para transformar em ficção.
Também não imaginei histórias de vida e fantasias para ninguém que conheço.
Começo pelo personagem? Quem vai ser?
Começo pelo tema? Esse mês não tem tema.
E se fizer daquele causo... mas transformá-lo em algo que se passa... em 1969?
Vou pesquisar um pouco.
Quem sabe se eu não começar, eu embalo?
Dois parágrafos, já tá bom.
Hmm... não... acho que um jovem em 1969 não iria pedir permissão para pegar o carro do pai. É melhor roubar.
Nossa, meus últimos contos foram todos de protagonista masculino, e sou mulher, por que será?
Melhor escrever algo sobre alguma mulher.
Ou sobre mim. Mas o quê? Não estou muito afim de escrever aqueles textos sentimentais de como vejo a vida.
Tenho curtido minhas ficções verdadeiras, cheias de memória e afeto.
Mas não vem nada hoje mesmo, hein?
Daqui a pouco tenho que ir trabalhar e vou ficar mais um mês sem escrever nada, ou fazer post retroativo.
Por que não começo a pensar nisso antes?
Eu pensei, mas nenhum causo inspirador esse mês.
Quem sabe para um outro dia...
É, mês que vem eu começo antes. 

domingo, 12 de março de 2017

Tem gente que é nuvem

Conversando com uma amiga ela confessou estar preocupada. Namorou durante quatro anos, mas há dois o namoro acabou. Perguntei o que tanto a atormentava e ela disse:

-Acho que tem alguma coisa errada comigo. Eu não sinto nada quando penso nele, nem saudades. Poxa, ele foi um ótimo namorado, eu o amava, como é possível não sentir nada, nem saudades?

Não soube o que dizer porque já passei por isso e não encontrei explicação. Até porque não aconteceu com todos os Romeus, existem alguns que ainda mexem com meus sentimentos e me deixam suspirando, mas outros são uma nuvem distante que não significa nada.

Tenho a impressão que essa confusão acontece porque muitas pessoas confundem ''amar'' com ''achar que está amando''. Talvez quando o amor é real fique alguma sensação boa, mas se foi fogo de palha some na memória. Às vezes que isso vinha no meu pensamento lembrava daquela música do Cazuza que dizia ''o nosso amor a gente inventa''. É, inventamos mesmo, tanto que chega uma hora que não sabemos mais se foi real ou não.

O ano passado aconteceu a mesma coisa comigo. Namorei durante quase três anos, depois tudo acabou e uma amiga me convidou a uma festa de aniversário, mas teve o cuidado de me avisar que o meu antigo Romeu iria estar por lá. Fui, mas tive a sorte de sair antes dele chegar, não planejei fazer isso, é porque tinha outro compromisso. Mas fiquei pensando no assunto e depois conversando com um amigo cheguei a conclusão que talvez eu fosse mesmo uma pessoa fria, porque não sentia nada pelo meu ex-namorado, nem raiva, nem ódio, nem saudade, nem amor e se ele existia ou não neste planeta, não me interessava.

Fiquei tão atormentada com a situação que não parava de falar no assunto, como é possível amar alguém loucamente e anos depois a pessoa não significa nada? Ou pelo menos não sentimos nada.  E como é possível gostar de alguém e nunca mais esquecer isso? Tudo me parecia confuso, estranho, teve gente que me disse que eu ainda amava meu ex-namorado, estava apenas ignorando esse sentimento para não sofrer mais, mesmo assim as coisas não fechavam, saber dele não mexia comigo, nem me fazia sentir saudades.

Me enrolei tanto nessa questão que quanto mais eu pensava menos entendia. Até que cheguei a conclusão de que a vida é assim, nem todas as pessoas deixam marcas boas e merecem um espaço na nossa mente. Tem gente que juramos amar, mas o tempo varre da nossa alma e algumas pessoas que pensamos apenas ''gostar'' nunca esquecemos. Talvez somos menos espertos do que pensamos e nem os sentimentos básicos conseguimos decifrar. Talvez eu pensei ''amar'' e não era nada, foi apenas a visão do mar, que marcou minhas pegadas na areia e as do Romeu, mas na primeira onda tudo foi varrido.

Não me atormento mais com isso porque decidi que o máximo que posso fazer é viver os sentimentos, não decifrá-los. Não tenho mais pilha para fazer as coisas desse jeito. Se um dia eu amei e lembro disso com amor e saudades, que sorte e da minha alma, mas se não significa nada, paciência, vida que segue. Tenho certeza que tudo isso acontece dos dois lados, assim também deve existir no mundo alguns Romeus que nem se lembram de mim e se o fazem não sentem nada, e também tem os que lembram com carinho. A vida é feita dos dois lados e nenhum deve nos atormentar, e não temos como saber quem vai ficar na nossa lembrança no canto mais puro e quem não vai nem passar na porta. Já gostei de tanta gente que pensei que esqueceria e todos os dias me lembro deles. E já amei ou acho que amei, alguns que nem lembro mais. Nem todo mundo é sol que aparece todos os dias na nossa alma e aquece, tem gente que é nuvem, passa logo e não faz diferença.

Iara De Dupont

sexta-feira, 10 de março de 2017

Amarras




Amarras tanto em definições quanto propriamente ditas são bem difíceis de explicar, de soltar.
Passamos anos tentando nos livrar de várias coisas que acumulamos com o passar dos anos, parece uma conta infinita de coisas que nunca terminam e viram um emaranhado de amarras bem feitas às quais muitas vezes mal nos deixa respirar.
Às vezes elas estão tão presentes que se soltar delas gera um medo apavorante do depois, do que seremos sem elas.
Às vezes não as percebemos, vivemos vidas sem saber o que realmente somos ou podemos fazer e esse tipo de amarra é bem comum ela é gritante aos olhos alheios mas invisível ao que vive.
É muito difícil admitir amarras, pois ao admitir que elas existem vem o temido medo de se soltar.
Admitir as vezes significa deixar alguém para trás, deixar alguém caminhar a sua frente, pode significar términos terríveis ou começos apavorantes.
Podem ainda significar deixar de ser.
Mesmo assim com todos os contratempos há uma lenda que diz que se soltar é a melhor escolha.
Eu... Acredito.
Ainda não vejo muitas das minhas, outras já identifiquei e sigo tentando desfazer o emaranhado... As vezes consigo, outras crio novas. Às vezes pensam que elas me tornam eu,  ai lembro que eu tornei todas elas possíveis, reais.

Quando esqueço o que estou fazendo tento só não parar de respirar...

quarta-feira, 8 de março de 2017

Pra Quê?

   Ok , existe em contrato social que diz como a gente pode se portar em determinadas situações.
  Eu entendo, mas é realmente necessário segui-lo ao pé da letra sem pensar?

 Porque sempre que alguém pede informação pra gente na rua, somos tão absurdamente prestativos,chegando as nos sentir mal se não sabemos onde fica tal rua?

  E onde decidiram que no trânsito e na internet podemos ser os mais babacas possíveis.
Já parou pra pensar que a pessoa gentil da calçada pode ser a mesma no carro do lado?
Pra que isso? A pessoa que te ultrapassou, pode apenas estar aprendendo a dirigir, voltando de um velório, indo ao hospital ou tendo um dia ruim.

   Um dos poucos objetivos que tenho no meu dia é não estragar o dia de ninguém. 
Sabe quando alguém te responde atravessado e acaba com o seu dia, faz você se sentir um bosta? Não quero ser essa pessoa, não sei como alguém aceita ser essa pessoa.
  Ah, às vezes a pessoa merece! É verdade, pode ser, mas provavelmente você não está apto para avaliar isso.
  Consegue lembrar de situações antiquíssimas que ainda dão nó na garganta de lembrar? Tenho tantas...
  Sabe uma sensação deliciosa? Quando tem alguém que desses de mal com a vida, querendo discutir com você e você reverte a situação? A pessoa percebe que não vai conseguir te fisgar e muda completamente? É tão melhor do que entrar na dela.

  A menina tinha 16 anos e começou a trabalhar com telemarketing, primeiro emprego, e chegava todo dia chorando em casa, por que todo mundo, ou quase todo mundo, a tratava assim, sabe como? Como você atende uma ligação indesejada?
  Sabe aquele telefonema chato de telemarketing? seja educado com a menina, mande um beijo pro moço que te xingou na rua, escreva com paciência pro revoltado da internet. Para de drama, tente comédia, romance ou aventuras! Tem dias que dá.
  

terça-feira, 7 de março de 2017

[2012]

no poço
esse meu sem fim.


toda calma que me esbarra
é a paz que eu nunca tive.


em clave, meu sol nasceu
sozinho.


que descaminho construiu a mim
filho ininterrupto
de uma dor já renascida.


o parto, é quase o que vale
a sua ferida.


as palavras dançam por entre as línguas
e em que desvario me meti!


como que sem cansaço
o quase sono me persegue


(e o sonho
me deixa dormir).


sexta-feira, 3 de março de 2017

Carnavalizando

          Eu vou acordar com o som das baterias anunciando que logo o centro da cidade será dominado pela multidão fantasiada, dançando enlouquecidamente! Eu vou levantar sambando, recolhendo confetes e glitter do dia anterior! Eu vou abrir a minha casa para meus queridos se arrumarem e tomarem a saideira. Se não for pra sair toda montada, nem vejo graça!  


         
       Eu vou ser um arco-íris de glitter, brilhando nas cores mais sortidas! Eu vou me enrolar nas serpentinas jogadas! Eu vou dançar até ficar descabelada! Eu vou sambando de costas para o bloco! Eu vou conseguir pular meu carnaval mesmo apartada na multidão, no melhor do calor humano! Eu vou recolher os confetes que caíram no decote do meu vestido e vou jogá-los novamente pro alto! Eu vou rir com as 300 fotos que chegam no dia seguinte, mostrando o quanto eu me diverti! 


     Eu vou sair sambando em todas as poças deixadas pela chuva, pois chuva nenhuma atrapalha minha folia! Eu vou deixar o meu celular dormir no arroz, pois guardar ele na bolsa térmica não protege o suficiente! Eu vou tirar minha lente de contado no meio da multidão, não vou perder a música só pela lente estar cheia de glitter!
    

     Eu vou compartilhar a minha catuaba e meus abraços com todo mundo! Eu vou mandar mensagens sem me preocupar em ter ressaca moral! Eu vou deixar a minha euforia transbordar! Vou pular enlouquecidamente ao som de Caetano! Eu vou viver em looping, saindo de um bloco e tropeçando no outro! Eu vou perder a voz de tanto cantar! Eu vou de columbina veneziana, de Carmem Miranda da Tropicália, de Frida Amy Winehouse Kahlo e de dama de ouro! Eu vou ficar tão cansada de dançar que, na quarta-feira de cinzas, vou me sentir atropelada por um trio elétrico!   

A ressaca do fim do carnaval é a hipocrisia. É ver as pessoas tirando suas fantasias e colocando suas máscaras sociais. Como voltar a viver depois do carnaval? Definitivamente, eu não tô segurando essa barra que é gostar de você dig dig iê o fim do carnaval! Quem nasceu para poesia não se contenta com a vida em tons de cinza. Quem nasceu para poesia precisa do transbordar de cores e da cidade dominada pelo clima de “anarco felicidade”.

E na depressão pós-carnaval ainda bem que existe o cenário alternativo na capital paulista, aonde podemos ter um pouquinho desse encantamento toda semana. Aonde existem pessoas que também precisam do riso fácil com os amigos, da música alta, do dançar freneticamente, do glitter, do amor fraternal... É, nós seguimos carnavalizando a vida, não trocamos a fantasia pela máscara social, pois, para nós, a vida é um eterno carnaval.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Os Hermanos barbudos mentiram.


Dia 3: Eu nunca vi grande mérito nessa festa criada por bicheiros. Às vezes os amigos conseguem me convencer, mas dessa vez tô disposto a ficar em casa. A menos que o Juvenal apareça, com ele é sempre diversão garantida.

Dia 4: O Juve tá na área! Improvisei uma fantasia e bora pra festa!

Dia 8: A extensão do evento por mais uma semana foi uma excelente ideia. Não sei como as empresas aceitaram, mas quanto mais feriado, mais folia. Perdi as contas de quantas pessoas beijei e meus pés doem, mas vamo que vamo!

Dia 12: Desisti das ruas. Estou curtindo pela televisão e paro na varanda para cumprimentar os entusiasmados que passam. Fico desidratado só de olhar, mas admiro muito o pique desse pessoal. Quando acabar eles vão achar difícil voltar ao normal.

Dia 20: Começo a achar que é uma pegadinha. Várias empresas tentaram voltar a abrir, mas houve saques, destruição e confusão em muitas delas. Apenas supermercados, lojas de conveniência e vendedores de rua parecem estar prosperando.

Dia 26: A tempestade de poeira brilhante ainda não parou. Tudo que eu tenho parece estar coberto de glitter, e nada mais é sagrado. Sons repetitivos martelam minha cabeça e eu às vezes não consigo controlar meu corpo. O ponto da fadiga se foi há muito tempo. Eu não sei mais o que é real.

Dia 35:
Tentei escrever sem rima
Não funcionou, bora pra cima
A feeeeeeesta continuaaaaaa
Larga o papel, e bora pra ruaaaaaa!

Dia 62: O corpo do vovô não pode mais…

O número de falecidos no evento ainda não foi contabilizado, mas há indícios de que o culpado foi um folião que, ao ver uma estrela cadente, pediu que “ O evento nunca acabasse”