As semanas que antecedem uma mudança
são sempre causas de angústia e preocupações com inúmeras coisas, quando nos
damos conta de que realmente o processo de mudança chegou é quando nos pegamos
mexendo nos nossos pertences, escolhendo roupas para levar ou para doar,
percebendo presentes de casamento que nem foram abertos ainda, encontrando
aquele livro que nem se lembrava que tinha e que por pouco não comprou de novo
tempos atrás, aquele cd que ainda tá com o adesivo do código de barras da loja
de departamento que já fechou faz tempo e que já participou de outras mudanças
desde quando ainda era solteiro, junto com o esquadro da época do primeiro
curso de desenho técnico e, peraí... O que é aquela caixa de sapato, separado
num canto do guarda roupas do pai, guardada com carinho e não com esquecimento,
mas que o tempo e a rotina talvez tenha feito ele esquecer? Ele resolveu abrir,
vamos ajudar ele a conferir? Temos aqui uma gravata vermelha que serve como um
porta pente, um carro azul que serve como um porta retrato 3x4, um porta caneta
verde com um bigode colado, um papel com um pisão de tinta preta e escrito ao
lado "quero seguir seus passos" e um diploma de "melhor pai do
mundo"... tem mais coisas aqui, a caixa está cheia, mas o pai agora está
chorando porque reparou uma coisa: reparou que todas essas coisinhas estavam ainda, em sua
maioria, embrulhadas, sem serem abertas e em todas estava escrito "Papai,
eu te amo!" e com isso também reparou que cada "eu te amo embrulhado
" foi guardado numa caixa de sapato no fundo do guarda roupa, não porque
essas coisinhas não foram importantes, muito pelo contrário, foram tão
importantes que ele quis guardar pra curtir depois de novo, pois naquelas
semanas de dia dos pais ele provavelmente estava vivendo tempos difíceis, angústias
pessoais, problemas no trabalho, energias gastas por coisas e pessoas que
talvez nem merecessem tanto assim, mas que o fizeram "perder" aqueles
momentos em que ele recebia todos os dias, na semana de dia dos pais, uma
lembrancinha feita à mão pela filha.
O pai chora no canto do quarto, não por
querer voltar no tempo e corrigir, mas por se sentir enganado e passado para
trás pela "vida moderna" e que lhe fez perder esses minutos puros e
belos. O pai levantou-se, enxugou o rosto, escolheu algumas dessas
lembrancinhas de dia dos pais e vai levar pra casa nova e usa-las, uma de cada
jeito e ocasião, pra marcar essa mudança não só de lar, mas de prioridades na
vida. O esquadro de desenho técnico foi para doação, desenho hoje só na tv
quando ela vier da escolinha, ou de giz de cera, junto com ela no chão do nosso
apartamento, que ainda é nosso lar por algumas semanas antes da mudança.
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