quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Paulo Freire: patrono, não patronal


“Quando a Educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.

“Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que permitissem as classes dominadas perceberem as injustiças sociais de forma crítica”.

“Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”.

Aprenda, Brasil!   

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

O barco fantasma (pulem mulheres)


Quando era pequena li o livro ''O barco fantasma'', é uma história simples, uma lenda inglesa sobre um barco no século XVIII que foi encontrado navegando pelo mar sem seus tripulantes.
Até hoje o chamam de ''o barco fantasma'', porque estava vazio quando outro barco o viu, subiram uns marinheiros e se assustaram quando perceberam que na pequena cozinha do barco, na mesa, tinha uma xícara com café quente e um ovo morno, o que os levou a concluir que era um barco fantasma, já que não encontraram rastros de ninguém ali.

Naquela época os registros dos barcos e seus tripulantes não eram tão rígidos, era um barco pequeno, cabiam menos de dez pessoas ali, o que levou todos a pensar que alguma coisa aconteceu no meio do caminho e depois os fantasmas tomaram conta do lugar.

Fiquei fascina pela história, gostava do detalhe do café quente e o ovo morno, pensava sem parar porque fantasmas preparariam um café da manhã?

Meu pai sempre me dizia que esse livro era uma versão da mesma história, de barcos pequenos e grandes, que navegam sozinhos pela imensidão, guiados por fantasmas e acabam alimentando lendas.

Já meu avô me contava que não existe parte no mundo sem lendas do mar, dos rios e barcos fantasmas sempre aparecem.

Fiquei anos pensando sobre o café quente e o ovo morno, até que já adulta li um livro que ''desmontava'' algumas lendas do século XVIII, e estava essa história.

Alguém achou um registro de um casal, talvez os donos do barco, que com alguns tripulantes saíram da Inglaterra, no meio do caminho seu barco foi abordado por piratas, que os levaram como escravos, por isso não tinha rastros de lutas no barco, nem sangue, eles devem ter sido dominados rapidamente. E uma moça aparecia na história dizendo que era a dona do barco, que embarcou com seu marido e confirmou que o barco foi invadido, mas ela ao perceber se jogou na água e começou a nadar, se afastando, dias depois foi resgatada por outro barco.

Lembro que contei ao meu avô e meu tio essa nova versão, eles deram risada e disseram que ''mulher vadia e mau-caráter, abandonou o marido a própia sorte''. Meu pai também achou um absurdo a mulher pular do barco, na base de ''dane-se''.

A mensagem era clara, até porque eu já tinha escutado ela a vida inteira, nós, mulheres, não pulamos do barco.
Nós embarcamos em uma história de amor e ficamos ali, não nos jogamos na água nem quando os piratas invadem.

Em uma conversa recente minha mãe me disse:

-Parece que você não quer ver ninguém casando.

Na hora não soube me explicar, mas depois me veio a imagem do barco fantasma, sou a favor de embarcar e viver a experiência, mas se precisar pular fora, pule. Não sou contra o casamento, sou contra levar a experiência até o fim, se não deu certo.

E escrevendo aqui que simples parece! Ora, qual o problema, pule!

Mas é o contrário do que nos ensinam, se subir no barco, se mantenha firme, sem importar as tempestades, barcos passam por noites perigosas e dias sinistros, mas você, mulher, pode levar esse barco ao seu destino.

Quem pula fora do barco são as ordinárias, interesseiras, vadias, frias e inconstantes mulheres, muitas vezes promiscuas e loucas por novas aventuras, as mulheres decentes ficam no barco, nem que ele encalhe, vire ou pegue fogo.

E somos tão doutrinadas na ideia de não pular fora do barco que perdemos o momento, não temos margem de tempo para pular, é apenas um segundo, ali ou nada, e deixamos passar.

Uma amiga da minha mãe estava vivendo um inferno no casamento, naquela época minha mãe estava no México e vinha para o Brasil, sugeriu a amiga que largasse tudo e embarcassem juntas, depois pensariam o que fazer com esse marido violento.
Ela foi atrás de passaporte, fez tudo escondida, mas ele, era como uma fera, essa parte algumas mulheres desconhecem, mas homens ''sentem'' o cheiro dos nossos movimentos, ele se jogou ao chão e pediu perdão, ela sentou e escreveu uma longa carta a minha mãe, agradecendo o apoio, mas ele tinha entendido a situação e iria melhorar.

Ela não pulou do barco, se enrolou, ficou ali, teve filhos com ele e uma vida cheia de violência, recentemente começou a ter uns problemas sérios na cabeça, o diagnóstico foi ''constantes traumas na região'', resumindo ''apanhou pra caralho de um homem covarde''.

Já outra amiga da minha mãe fez o caminho contrário, conseguiu uma autorização para viajar com seu filho e se escondeu na nossa casa durante umas semanas, até que juntou o dinheiro e saiu correndo, também de um marido abusivo.

E não falo só dos homens que batem e são violentos verbalmente, falo daqueles que não cumprem seu papel na família e levam a mulher a um stress sem precedentes, sustentando a família, encarando a tripla jornada.

Falo de um medo muito comum nas mulheres ''o que meus filhos vão pensar de mim se abandono meu marido? Poxa, ele é ótimo pai''.

Pois é, o que as crianças vão pensar da mãe se a virem pulando do barco e abandonando o homem que juraram amar?

As mães esquecem que os filhos crescem e entendem a situação, eles percebem o massacre que a mãe sofre e se um dia tiverem a cara de pau de cobrar da mãe por ela ter pulado do barco, bom, a vida vai se encarregar de mostrar a esses mimados como as coisas funcionam.

E tenho tantas histórias sobre mulheres que não pularam do barco! Na minha família ninguém pulou, todas navegaram debaixo da tempestade e aguentaram firmes.

O problema é que navegar em águas turbulentas por um casamento ou um homem, não leva a lugar nenhum, não coloca coroa na cabeça de ninguém e nem tem o reconhecimento do Romeu, que acha a coisa mais normal do mundo uma mulher se arrebentar para manter o barco navegando por ele.

Tenho uma amiga que sofreu e sofre horrores no seu casamento, teve o azar de se casar com um ''doce de homem'', um poeta e ela trabalha em um banco, sustenta a casa, teve filhos e agora, apesar de cansada, não quer pedir o divórcio porque seria praticamente jogá-lo na rua, ele não tem família e minha amiga morre de medo dos filhos pensarem que ela é uma mulher fria, que jogou o pai deles no meio da rua, abandonando o rapaz na miséria.

Mas o lado dele ninguém vê nem julga, ele é meigo, eu entendo que seja pintor, poeta, o que for, mas tem filhos para sustentar e deveria se virar, se não faz isso não merece ter uma mulher que faça, mas quem fala alguma coisa, se ele é legal e jamais bateu na mulher ou filhos?

Qualquer movimento que ela fizer será considerado coisa de mulher calculista e vadia, que abandonou o homem que é ótimo pai e um marido fiel, mesmo que isso não coloque um centavo para o pão em cima da mesa.

O barco dela ficou preso, encalhou, qual a solução? O rapaz é uma boa pessoa, apenas não trabalha.

Falei que diante dessa situação existe uma possibilidade de milagre, que ele se encante com uma mulher mais nova, alguém que se deslumbre com suas poesias e vá embora com ela.

Ela teve chance de pular quando estava grávida, ele foi viajar para o Peru e se encantou com o lugar, ela não queria se mudar e resistiu, foi uma chance perfeita para pular, mas ele percebeu que não poderia viver no Peru sem o dinheiro dela e voltou ao Brasil.

E a história do barco fantasma me parece perfeita, se a moça não tivesse pulado, o que teria acontecido? Teria se tornado uma escrava dos piratas e com certeza teria sido estuprada por vários homens ou seja, não vale a pena ficar no barco, nadar sozinha é menos perigoso.

E ao pular escutamos os gritos de todos ''vadia, vagabunda, eu sabia que era piranha, quer dar para o vizinho, pedir uma pensão, ficar com apartamento, tem amante essa vaca, mulher que larga homem não presta!''.

Mas quem grita, quem ofende, não está no nosso barco, não sabe as ondas que enfrentamos e pior ainda, não a vale a pena o nosso esforço.

Queria tanto ter cinco anos de idade, com o conhecimento que tenho e me aproximar de cada uma das minhas tias e dizer ''tia, pula do barco, faça isso já''.

Todas minhas tias que não pularam do barco morreram na praia, abusadas por homens irresponsáveis, aqueles que as teriam condenado se elas tivessem pulado, as pessoas que as convenceram de ficar no barco, nunca ajudaram e já morreram, e algumas ainda enfrentam a recriminação dos filhos que dizem ''se meu pai era um merda, por que você ficou ali?''.

Barcos naufragam, apesar dos nosso empenho e não vale a pena se arrebentar navegando enquanto Romeu pega um sol.

É socialmente condenável uma mulher pular do barco, mas é aceitável o homem que acaba com a vida dela. Não adianta pensar que vamos mudar essa realidade discursando no barco, o jeito é pular.

Pular do barco nada mais é do que salvar a vida a tempo ou o que resta dela.

Iara De Dupont


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A farsa do escritor

O que acontece quando o escritor se convence de que suas escritas não interessam a mais ninguém?
E quando ele escreve para ninguém ler?
E que ego inflado é esse de quem acha dignas de serem lidas as palavras organiza em um texto?
A quem interessa o que o escritor escreve?
Esqueça, é tudo mentira!
Não se importe, é irrelevante!
Não perca seu tempo, é inútil!
Não procure sentido, é nada.
A vida em forma de letras, e nada mais que isso. 
Angústias frívolas.

Cada vez mais me convenço que a beleza não é do escritor, mas do leitor.
O escritor vem aqui e escreve qualquer coisa.
O leitor interpreta em beleza... a beleza do sofrimento, a beleza de encontrar algo significante em seu interior, mas que seria encontrada de qualquer forma. Foi através das palavras do escritor, mas poderia ter sido do balançar da cortina, ou dos cabelos grisalhos de um transeunte, ou de um sorriso de criança, ou de uma sombra que a árvore faz chão, ou mesmo de um simples ato de inspirar mais profundamente. O que existe, o que é belo e puro e doído, o que importa verdadeiramente está em quem lê (e em quem não lê).
O escritor é uma farsa.

domingo, 8 de outubro de 2017

Falar do que já foi falado (e refalado).

De uns anos pra cá todo mundo ficou entendido de política.
Direta versus Esquerda, virou fla flu. (E ai de quem for vasco.)
e entre tanta coisa errada, ficou muito mais divertido e perverso aos "quaisquer um" focar num só, ansiar justiça pelo passado, e não gastar nem uma gotinha de energia no próximos escolhidos.

Mês passado todo mundo virou crítico de arte, novo fla-flu.
Energia desacerbada gasta novamente em discussão que deveria ser morna.
Todos gritam a plenos pulmões seus discursos, tapando os próprios ouvidos, alguns concordam e aplaudem, não porque gostaram do que você disse, mas por que você disse exatamente o que eu penso. se mudar uma virgula não serve.

Todos se sentem importantes, formadores de opinião, escritores de matérias, colunas, cartas abertas na volúvel internet.

Crianças sem doces esperneiam, exageram.

Eu fiz faculdade de arte, foram alguns anos gastos, e não me foram suficientes, ainda não sei definir arte, e nem quero, é a graça, ela é assim, tema aberto, abertíssimo, não é ciência exata.
Sabe-se que pode ser bela ou horrorosa, complexa ou simples, profunda ou banal.

Mas esse mundo anda me dando uma gastura...
Euclides, avisa que nem especialista consegue ditar regra, que então o qualquer um pare de cagá-las.
Que aquele ditado de duas orelhas e uma boca pra ouvir mais e falar menos, ainda faz sentido.

Que leio tanta asneira, que estou começando a ficar com vergonha de escrever, porque me sinto cada vez mais distante de Drummond e mais perto do zé mané do face.

Avisa lá, que essas retrucadas decoradas, tipo "você levaria seu filho para ver a exposição?" são tão furadas, primeiro que se falar que não, dirão então! e se acharam certos, se disser sim, dirão que é mentira ou sou péssima mãe. é cilada Bino.
A discussão não seria então, que talvez a exposição devesse avisar o conteúdo e colocar classificação ou sugestão etária? 

A discussão não seria a indicação e não o que é ou não é arte?

A criança viada por exemplo, tem sim, tem muita, e eu só vi dois tipos: o que fica meio de escanteio escondido, desviando do holofote, porque senão apanha ou sofre.
E o valentão, que tem que se impor, e forçar a barra, acaba judiando, por que senão é judiado. só.
A terceira opção, a criança saudável gay, nunca vi. Por que a menina cor de rosa, delicada, meiga, bailarina é incentivada, o menino machãozinho, lutador, rustico é incentivado, o resto a gente esconde.

Ninguém aprende a ser pai de gay antes de ser, o que ninguém te conta é que na maior parte do tempo isso não deveria ser importante. Por que a sexualidade da criança não é o foco 100% do tempo, não é só isso que define aquela criança, é tão gay, quanto é baixinho, magrelo, comilão, ágil, chorão, míope, é só mais uma característica entre suas outras mil. Pra que esse foco todo?

Você vai alimentá-lo levá-lo pra escola, ensinar, rir, dar banho, ver TV, levar pro cinema, por pra dormir, levar pra comer um doce, tudo igual. Muda só a cor da bexiga da festa, o personagem que vai ter estampado na mochila. Que diferença, o amor platônico do colégio ser ele ou ela. Que diferença te faz?

*Vale avisar que escrevi esse texto entre o caso do Santander e do MAM, por isso está um pouco "desatualizado".



"não é arte, é canibalismo!"
"não é arte, é um prédio torto!"
"não é arte, é um retrato!"
"não é arte, é um mictório!"
"não é arte, é uma foto!"
"não é arte, é nojento!"

"não é arte, é crime!"


"não é arte, é um cemitério!"
"não é arte, é um quadriculado!"
"não é arte, é uma estátua!"







quinta-feira, 5 de outubro de 2017

INTOLERÂNCIA


Sou religioso
Sou teimoso
Sou rigoroso
Sou imbecil

Não te aceito
Seu conceito
Seu desfeito
Sou infantil

Sua diferença
Não me compensa
Sua desavença
Sou senil

Sua felicidade
Sua proximidade
Sua solidariedade
Eu sou viril

Tenho que me provar
Tenho que te odiar
Não sei o que pensar
Sou imbecil

Suas Cores
Seus amores
Seus temores
Seu feitio

Sua diversidade
Sua felicidade
Felicidade
Imbecil

Sou mesmo imbecil...

Fábio Fonseca

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Impulsos de vida

No olho do furacão, parei.
Respirei.
Desconectei-me de tudo ao redor.
Inspirei.
Expirei.
Senti o ar nos meus pulmões.
O universo vibrava em cada uma das minhas moléculas.
Do micro ao macro, a vida é fascinante.
O infinito em minha alma.
Há uma força intrínseca e fulminante nas minhas entranhas emocionais, exalando, pelos meus poros, aromas de saudade.
A gravidade é individual.
Gravitacionando, onde o tempo espaço estão imersos na teoria da relatividade, ouço uma voz me chamando para terra “acorda, Alice, é o País das Maravilhas”.
Sigo rabiscando meus pensamentos na tentativa de deixá-los nus.
Sigo implacavelmente.
Tudo está tão conectado que sinapses fazem com que eu me sinta em um dejà vu cíclico.
A relatividade do tempo espaço, o eterno pode durar um fragmento de segundo.
A transitoriedade.
O efêmero.
É tudo tão intenso e, ao mesmo tempo, tão sereno.
Eu já não vejo o furacão. Eu pertenço ao furacão.
Sou um caos na criação. Mas eu me encontro nesse caos.
O tempo segue implacavelmente e eu não tenho mais certeza além desse instante. De concreto é só o segundo, transitório e impalpável.
Gravitacionando...
Tudo é fluidez. Não consigo pseudo-viver, nem pseudo-sentir. Não consigo permanecer aonde não sinto impulsos de vida.
Entorpecendo meus sentidos, lenta e gradativamente, é a essência mais genuína se expandindo pela via láctea.
A via láctea é uma molécula que dança percorrendo todo meu corpo, que me impulsiona a criar, e nem o céu é o limite.
Criar é a minha gravidade individual, é o que me faz respirar, é meu impulso de vida.



Trilha sonora do post - Molecules To Minds: https://www.youtube.com/watch?v=NICeQJAEfCs

sexta-feira, 29 de setembro de 2017


A agenda de retrocessos está incrível.

Este país deve se orgulhar da façanha de todo mês emplacar mais e mais retrocessos.

Em São Paulo os retrocessos estão no âmbito municipal (PSDB), estadual (PSDB) e federal (PMDB). Ainda não estou acreditando nas fotos dos colegas recebendo oração de pastores evangélicos e literalmente colocando a cidade à venda a contento do mercado financeiro, imobiliário e especulativo.

Quando penso que o fundo do poço da agenda política vergonhosa ou corrida para acessar o poder chegou ao fim às notícias revelam que esse poço não tem fundo.

O PSDB é considerado o partido mais rejeitado pela população? Como? Quando aconteceu isso? Aqui em São Paulo? Então alguém explica o motivo de ter o mesmo partido há anos no estado e agora mais recente na prefeitura. Ah sei. E eu sou o bozo, só pode.

O presidente tem apenas 3% da população que considera o seu governo como bom/ótimo e ainda continua no cargo. Mesmo após nova denúncia de corrupção o presidente interino do PMDB continua no cargo executando as reformas a todo vapor e pelo indicativo permanecerá até 2018.

Aliado a esse golpe o inesperado do golpe surge sem dó: PMDB e PT se articulam, melhor dizer se aliam para candidaturas no nordeste. Daí vem o sopro, vento estranho ou perdido com Ciro Gomes ao dizer se eleito anulará todas as reformas do presidente interino. Ops. Será esse o sinal galático? Ainda é possível crer na política partidária?

Enquanto isso os Movimentos não cessam.

Os atos contra a homofobia ganham fôlego, 15 mil pessoas protestam contra a cura gay.

A igreja avança e se coloca nas instituições educacionais com ensino religioso. (?)

Adeus filosofia e artes.

Entra a obediência no amém sem pensar.

A Ocupação do MTST em São Bernardo do Campo é de revoltar na quantidade de famílias sem moradia e admirar no empenho de resistir e lutar pelo direito à moradia no centro da cidade.

No ABCD além da moradia tem o transporte público precário e absurdamente abusivo no valor da passagem. E chega 2080 mas não chegará o metrô naquela região, assim vejo como ex moradora de cinco bairros de SBC que detestava os busão e valores de passagens.

Os estudantes em São Paulo se organizam para manifestar contra a retirada do passe livre de estudante porém com pouquíssimo apoio da população.

E quando as expressões sociais explodem nas ruas rumo a greves?
O que paralisa retrocessos é greve.
Então o agora se ajusta pausadamente, nas redes sociais.

Sendo assim, seguimos.

Conversar sobre filmes, séries, canções, finais de semana, mar, bichos ou qualquer coisa tem sido melhor pois causa menos estresse e aborrecimentos.

A série Top Boy da Netflix serve para compreender a questão das drogas para além do óbvio sejam eles pelos vícios, usuários e comércios no contexto social relativamente mais favorável. Ali existe pobreza, mas não é a mesma que conhecemos.


Não interessou as partes clichês da série, mas as histórias de vida das crianças/jovens que pelo visto o autor faz questão de apontá-las.



Em tempos de Redução da Maioridade Penal por aqui, vale a pena assistir outra série com contexto econômico completamente diferente do nosso, porém com os mesmos problemas na segurança pública e judiciário. O filme/série é do Spike.

 
       
Seria tão importante se estas duas séries estivessem traduzidas para o português e disponibilizadas na rede para além da Netflix para que todos compreendessem que a Redução da Maioridade Penal não tem nada a ver com justiça e segurança. Ou ainda que a guerra às drogas está longe de ser questão da segurança pública. Quem sabe até mês que vem. 

sábado, 23 de setembro de 2017

A poesia na falta de cor

A poesia que me cabe já não é mais a de ver cor onde não há, não é mais a de usar lentes para modificar o que vejo, não é mais a de fotografar o que tenho medo de esquecer, não é mais a de clarear o que escuro está, nem muito menos a de ver beleza onde o que é dito feio se alojou.

A poesia dos meus dias se tem feito no que é, aquilo que se mostra e não sei porque insiste em ser. A poesia que me mareja os olhos é a de ver e aceitar. É a de receber o nublado sem ter que sentir falta do sol, é a de notar a ausência sem ter que pensar na presença, é a de perder sem supor como seria ganhar. A poesia que me preenche é agora a do sentir sem parâmetros. Meus extremos não se dialogam mais, eles são o que são, cada um em sua singularidade e vivendo o seu momento e espaço sem ser necessário ser invadido pelo seu contraponto. Minha poesia está no respeito do agora. Aquilo que me vem e que não ficará para sempre e por isso apenas está. A minha alma agora brilha ou ofusca de acordo com aquilo que é, não mais com o que eu gostaria que fosse, não mais com o que gostariam que fosse, não mais com o que não é.

O positivismo que tirava a poesia da minha vida, inventava de ver beleza nos dias cinzas, coloria o preto e branco das minhas lembranças, apagava o que se recusava ter cor, escorreu-se pelo ralo e eu nem se quer senti o desespero do que não se tem volta. Escorreu pelos olhos e eu em câmera lenta vi ele se esvaindo até a última gota. Foi-se embora e tchau. Vou aceitar também.

O que me tirava a poesia não era os problemas ou a falta de cor e brilho que me arremete de tempo em tempo no girar da roda da vida. A poesia me era arrancada pela expectativa da poesia alheia. Eu vivi uma vida de poesias que não eram minhas. O que sei é que todo o colorido que se deu em minha vida, foi pela falta de respeito em aceitar o que é feio e incolor na natureza, foi por ver o ruim como inferior ao bom. Se minha alma sentiu dor, foi por pintar de arco-íris as tempestades que deveria ter me molhado. Eu antecipava o arco-íris, não deixava a chuva vir. Ilusão de viver uma vida que não é vivida, apenas adiada. Para quando? Para nunca. E se eu aceitasse a sombra dos dias ruins? Se eu acolhesse o céu nublado de minhas manhãs? Se eu aceitasse o que é feio sem tentar maquiar o imperfeito? A poesia se desfez assim pra mim.

Desmascarei as muitas máscaras que me vesti e desbotei as cores do que para mim é incolor. Me vi despindo de tantos Eus, de palavras que não eram minhas, de focos que não eram meus. Antes, quando me faltava poesia e me deparava com uma pedra, eu via tudo, menos uma pedra. Não era permitido ver pedra, tudo tinha que ser flor. Hoje não me falta poesia, aprendi a ver uma pedra, o que está além dela, o que é ser ela e não mais pintar uma flor no lugar do que é pedra. 

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Era outra vez

As roupas coloridas balançam feito bandeiras no varal. No chão do quintal de terra um redomoinho de folhas atiça o gato cinzento que cochilava por ali. O vento uiva como em sinal de mau agouro e embaralha os cabelos da mulher que recolhe as roupas. Todos a chamam de Cida. Ela é alta, magra e parece ter bem mais do que os vinte anos que tem. Hoje é noite de quermesse na igreja da padroeira e ela ainda precisa trabalhar muito se quiser chegar a tempo, se quiser que Dona Célia a deixe sair mais cedo. Cida passou os últimos dias todos com a cabeça longe dali, imaginando como seria bom dançar com Jacó, o jardineiro da igreja que a chama de princesa. Um forte trovão a apressa. A manhã inteira fora gasta com aquelas roupas e ela não pode perder tudo agora, não gosta nem de pensar nisso. Até mesmo porque as roupas são para a noite de hoje, para o casamento da sobrinha de Dona Célia e a patroa quer que tudo esteja impecável.

E ainda tem a comida. Amanhã é domingo, sua folga, e ela precisa hoje mesmo deixar tudo pronto para o almoço de família, o famoso almoço de domingo, umas dez pessoas ou mais. Panquecas. Ela tem de fazer panquecas, porque o Seu Arnaldo gosta de panquecas e a mãe de Seu Arnaldo também gosta de panquecas, das de carne, das de frango e sobretudo, das de brócolis com ricota. Também precisa preparar a saladinha com croutons de Dona Célia e o macarrão para os meninos. Uma pena não comerem todos a mesma comida, é o regime de Dona Célia, a fase de crescimento dos meninos, as vontades de Seu Arnaldo, mas ela não se importa. Trabalha lá desde criança, desde quando ia acompanhar sua mãe, e acabou por aprender o serviço. A mãe morreu ali mesmo na cozinha e desde então Cida mora lá com eles, no quartinho dos fundos, já que também seu pai há tempos havia morrido. Era muito grata à Dona Célia e ao Seu Arnaldo por tê-la adotado, por tê-la amparado, quando o coração de sua mãe deixou de caber no peito. Eles sempre diziam que Cida fazia parte da família.

O vento está cada vez mais forte e Cida quase se enverga com o cesto de roupas. Ela consegue recolher tudo e os primeiros pingos de chuva a fazem correr em direção da casa. São pingos grossos, decididos, com vocação de dilúvio. Cida corre. Tem um jardim inteiro pela frente. Ela se esquiva com habilidade do gato que quase a atropela na corrida. Célere, consegue desviar das gotas mais grossas que caem da copa da mangueira. Uma lástima os meninos deixarem aqueles brinquedos cheios de rodinhas pelo caminho, Dona Célia vivia reclamando, qualquer hora iam acabar se machucando. Um passo em falso, o peso arquejante do cesto de roupa, e lá vai Cida ao chão, a roupa limpa e seca se misturando aos prelúdios de lama que o jardim molhado coleciona. Cida solta um urro de dor.

Dona Célia aparece pela porta dos fundos com o olhar carregado de desespero. A roupa, santo Deus, a roupa. A roupa de toda a família, a roupa do casamento de hoje a noite! Como você pode ser tão desastrada? Cida levanta trôpega, tenta disfarçar a dor. Está sangrando. Ao redor, roupas espalhadas nadam na lama já bastante encorpada. Dona Célia se transfigura, gesta o demônio nos olhos, esbraveja que agora vai ter de comprar roupas novas, mais uma tarde no shopping, meu Deus, e que correria vai ser. Aos berros, diz que Cida terá que lavar tudo de novo, peça por peça, e depois estender, nem que tenha que passar a madrugada toda trabalhando. E que nem ouse se esquecer do almoço de amanhã. Panquecas, o Seu Arnaldo quer panquecas.

Dona Célia entra xingando, os meninos gargalham lá dentro, acham graça dos nomes ditos pela mãe. A chuva não passa. A tarde já avança e Cida não sabe o que fazer para dar conta de tudo. A carne. A roupa. O frango. O brócolis. Os croutons. Recolhe uma a uma as roupas espalhadas na lama, meias, vestidos floridos, chapéus, a gravata de seda de Seu Arnaldo. Ouve a porta batendo com força, depois o motor do carro, é Dona Célia e Seu Arnaldo saindo com os meninos para as compras. Jamais ousaria pedir para sair mais cedo. Tonta! Tonta! Tonta! Por que tinha de ser tão desastrada?! Justo hoje que queria ir a quermesse, justo hoje que veria Jacó, o rapaz que tanto a fazia se perder em distrações. Mas ela iria. E como iria. Não seria um acidente, um estúpido acidente, que a faria desistir. As vizinhas. As empregadas das vizinhas. É sábado a tarde e a uma hora dessas as patroas nunca estão, saem sempre em comitiva para fazer as unhas, para arrumar o cabelo, para depilar os pelos e para tantos outros importantes compromissos. Só costumam voltar no começo da noite. E o que falar dos patrões? São homens ocupadíssimos em suas atividades recreativas de sábado à tarde. Esses nunca estão mesmo. É isso, pedirá ajuda pras vizinhas. As vizinhas jamais falham.

E é isso que Cida faz. Limpa-se como pode, entra em seu quartinho e telefona para cada uma das empregadas vizinhas que conhece. São sempre elas que atendem. Como ela previa, os patrões nunca estavam. São três as que aparecem. Não demora e tudo começa a acontecer. A carne moída na panela, o frango desfiado, os pães secos de ontem virando croutons. Enquanto as três se redobram na cozinha, Cida lava a roupa na área de serviço. Elas precisam ser rápidas. Não demorará muito até os patrões chegarem das compras. Os ovos vão sendo quebrados, a lama se despregando das roupas, a alface lavada na pia junto aos tomates cereja. Barulho de carro na frente da casa. O grito dos meninos disputando o celular de Seu Arnaldo. São os patrões. Correria na cozinha, as empregadas de branco feito pombas se esvoaçavam em direção ao portãozinho dos fundos. Dona Célia, Seu Arnaldo e os meninos entram pela porta da frente.

Se Dona Célia tivesse caminhado até a cozinha, veria que Cida havia trabalhado por quatro e que a roupa está quase toda lavada e a comida já bastante adiantada para amanhã. Dona Célia, no entanto, está tão atarantada, tão concentrada em seus preparativos, que apenas grita de seu quarto, pra onde se dirigiu assim que entrou, que Cida não ouse em sair de casa enquanto tudo não estiver pronto. E diz que quer tudo bem caprichado, sem desmazelo, porque ela certamente perceberá. Ah, e se percebesse qualquer sinal de coisa mal feita, Cida que se preparasse para procurar outro lugar pra viver, não toleraria gente desleixada e sem responsabilidades, logo com ela que sempre lhe deu tudo. Diz isso e sai rumo ao casamento.

Tonta! Tonta! Tonta! As ameaças de Dona Célia golpeando seus ouvidos e a fazendo apurar o serviço. Dona Célia é tão boa, Dona Célia é uma mãe, se levantou a voz, se fez ameaças é porque tem suas razões. Agora Cida está sozinha pra terminar o trabalho. Ainda bem que teve ajuda. Sem aquelas três, não teria aquilo tudo tão adiantado. Sabia que sempre podia contar com elas. Patroa ajuda patroa, empregada ajuda empregada, era o que sempre lhe dizia Dora, a mais velha das três.  Tonta! Tonta! Tonta! A mãe se envergonharia com tanto desmazelo, se lamenta Cida, a mão espalmada dando tapinhas na testamas não é hora para lamentos, ela tem de terminar o trabalho. Com a ajuda que teve ainda conseguiria pegar o finalzinho da quermesse, ainda conseguiria ver Jacó.

Faltando alguns minutos para as dez, Cida consegue sair, a roupa lavada, a comida pronta para amanhã. Com sorte conseguiria pegar o ônibus das dez e chegar a tempo. O problema é que não poderá ficar muito, já que a linha que precisa pegar para voltar pra casa só funciona até meia-noite. Depois disso somente andando uns bons quarenta minutos a pé naquelas ruas que tanto a amedrontam. O caminho é longo, um tanto deserto e as noticias do que costuma ocorrer ali por perto não são  nada animadoras. Mas Cida quer ver Jacó, quer alguma coisa boa pra terminar o dia. E é com esse pensamento que entra no ônibus das dez.

O ônibus trota pelas ruas esburacadas da cidade. É noite, mas ainda assim há trânsito, muito trânsito e Cida não consegue entender porque. Olha ao redor e todos parecem bastante tranquilos, alguns conversam baixinho, a senhora ao seu lado tricota um cachecol, a netinha dorme em seu colo, um doce de abóbora pela metade nas mãos. Viver em cidade grande é se acostumar com um engarrafamento até mesmo depois das dez, pensa Cida. Ela não consegue ficar tranquila. Tudo aquilo pra não conseguir chegar, pra não conseguir ver Jacó.

Já passa das onze quando o ônibus pára de vez. Buzinas. Buzinas por todos os lados orquestram a sinfonia de uma cidade em caos, as luzinhas miúdas dos prédios de apartamentos como tímidas expectadoras. Burburinho no ônibus, a menina ao seu lado acorda, alguém sugere um acidente. Celulares de todos procurando por notícias. As buzinas aumentam e só são abafadas pelas sirenes da ambulância que passa apressada ao lado do ônibus, os carros abrindo caminho. Acidente, terá sido um acidente? A menina ao lado começa a chorar e Cida não sabe o que fazer. Pensa em descer e continuar o caminho a pé, mas ainda está bem longe pra isso. Mesmo com os ânimos se esfarrapando, o cansaço que lateja, Cida está decidida. Irá a quermesse ou ao que sobrar da quermesse, tentará ver Jacó, irá pra casa a pé se for preciso, mas não desistirá agora. Polícia. Um, dois, três carros cinzas da polícia militar passam com a sirene chorando ao lado. Curiosos se levantam e vão até a janela ver. O ônibus segue devagar. É quase meia-noite e Cida ainda não chegou. Um estampido lá na frente. É tiro, alguém grita. Alguns se abaixam. A menina chora alto, Cida chora baixinho.

- Toque de recolher! Toque de recolher! Toque de recolher! - as vozes gritam convulsas na rua.

Súbito, Cida se levanta e dá sinal pra descer. A porta se abre e ela corre. Corre sem olhar pros lados, só quer saber de sair dali. A igreja. Ela vai se esconder na igreja. Cida corre. Corre muito, corre sem conseguir saber o quanto. Outro estampido a assusta. Gritos. Quando enfim chega à praça da igreja, ao local da quermesse, vê que tudo está fechado, apenas as bandeirinhas tremulando entre os postes de luz, nem sinal de Jacó. Toque de recolher! Toque de recolher! Toque de recolher! É meia noite e Cida precisa sair dali, voltar pra casa antes que as coisas piorem. Ao descer correndo as escadas da igreja, Cida tropeça, uma das sandálias de dedo se desprendendo dos pés com a tira partida. Cida se ergue e continua a correr assim mesmo.


Um estampido.

Outro.

Cida cai em meio a fuligem do meio fio, se retorce de dor, a imagem da igreja à sua frente ficando cada vez mais difusa, águas turvas de um lago que alguém agitou, até tudo ficar bem nítido, iluminado, as portas abertas, a praça cheia. É dia de festa, ela se vê saindo da igreja com um vestido florido como aqueles de Dona Célia, Jacó ao seu lado com a gravata de seda de Seu Arnaldo, o irmão dele, William, tirando fotos do casal. Sua mãe e seu pai sorrindo na porta da igreja, atirando-lhes chuvas de arroz até que tudo fique escuro, bem escuro, escuro como o sangue quente que agora escorre por seu corpo, como a fuligem preto-borralho sobre a qual está deitada, encolhida, apenas uma sandália nos pés.



_________

Ilustrações: Paul Gustave Doré