terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Debaixo do verniz

Tudo que parece fora do normal nos parece estranho.
Pelo meu perfil e estilo de vida as pessoas não entendem como não tenho namorado, parece uma questão matemática em aberto, que precisa ser resolvida com urgência.

Depois que me perguntam se tenho namorado e escutam minha negativa, abrem o sorriso e dizem ''mas namorada tem né''.

Não, nem namorado nem namorada.

Mas como assim? Você é jovem, bonita, por que não tem um amor?

Ah, amores tenho muitos, platônicos, é verdade, mas são amores.

Muitas coisas mudaram sem que eu percebesse e acabei gostando de alguns resultados.

Me afastei de relacionamentos depois de passar três anos em um namoro abusivo, quando consegui me libertar comecei a perceber tudo que estava errado, fora do lugar e sem querer, não planejei nada, me fechei em copas, disposta a me curar dos abusos e superar as questões envolvidas.

Levei tempo para começar a perceber que minha alegria ao estar solteira e sem pensar em ninguém estava ligada ao fato de pela primeira vez na vida ser ''eu'', coisa que nunca me foi permitida ser.

Eu fui educada para ser o que os outros queriam que fosse, não importava o que eu escolhesse fazer na vida, desde que fosse meiga e educada.
Mas isso me tirava margem de manobra para saber quem eu era, meus primos tinham permitido dizer o que pensavam e explodir a hora que quisessem, eu não.

E quando entrei no círculo de namoros levei toda essa limitação comigo, não me perguntava quem eu realmente era, debaixo desse verniz sufocante de garota bem educada.

E amores, pelo menos para as mulheres, nos sufocam e apertam, impedem qualquer tentativa de mudança. Quem pode ser o que é em um namoro? A pessoa não se conhece ainda e fica presa ali, a uma ideia do que deveria ser.

Não prego as belezas da vida de solteira, porque são escolhas pessoais, mas nunca tive espaço para saber quem eu era, intoxicada para agradar homem, desesperada para ser aceita, eu não sabia quem era, não conhecia meus limites e todas as vezes que tentava sair da linha escutava ''deixa de ser louca''.

Mesmo assim,  fazendo tudo o que me mandaram fazer, não escapei de rótulos, até hoje dizem que sou louca, impulsiva, maluca, descontrolada.

Percebi como nós, mulheres, somos impedidas desde que nascemos de nos mover, de nos conhecer, tudo fecha em nossa direção, nenhuma menina é incentivada a se conhecer primeiro, a saber quem é, para depois pensar em como se relacionar com o mundo. Isso acontece até com nosso corpo, ninguém diz a mulher como é vital se conhecer.

Tem sido uma luta árdua tirar todo o verniz que me jogaram, saber quem eu sou debaixo desse falso brilho, do que gosto, o que me faz feliz, o que posso acrescentar ao mundo e em um relacionamento.

Eu sabia tudo o que os outros queriam e gostavam, mas não tinha a menor ideia do que me fazia feliz, o que me agradava.

Ser solteira me permitiu caminhar nessa estrada pensando nisso, não é questão de ter um namorado ou não, mas se perguntar quem é, o que quer, para onde vai.

Mulheres têm seu caminho pré-determinado em um mundo machista e misógino, sair dessa linha é certeza de que vai ser punida.

Não descarto amores, paixões, nem a vida que se desenha, mas não tenho mais condições de me ficar debaixo de um verniz, fingindo ser o que não sou.

No ano passado um Romeu me disse ''você é confusa''.
Fiquei muito chateada, mas ele tinha razão, naquele momento eu ainda estava confusa, perdida entre quem eu sou e quem deveria ser. Até hoje me controlo porque quando gosto de alguém não sei agir de maneira natural, carrego ainda a tatuagem comportamental de ''faça tal coisa, jamais faça isso'', ainda me sinto intimidada no começo dos relacionamentos e levo tempo para perceber meus erros de comportamento e recuar, voltar ao meu eixo, a quem eu sou, sem medo de Romeu não gostar.

Essa parte melhorou muito, depois que a gente começa a se conhecer perde o medo do outro não gostar, claro que dói ser rejeitada, mas com o  tempo percebemos que ser quem não somos dói mais.

Quem me vê se pergunta porque não tenho namorado, quem me conhece sabe que estou desfrutando o máximo que posso essa etapa de ter espaço para saber quem sou, em um mundo limitado considero isso um luxo, que foi negado durante séculos as mulheres.

Agradar homem é fácil, ser o que o mundo quer é simples, o difícil é bater o pé e dizer ''licença, vou ali saber quem sou e depois eu volto''.

Mas no fim da história não somos o que o mundo quer, nem o que os machos gostam, somos nós, essas desconhecidas que não sabem quem são, essas perdidas que morrem de angústia, sufocadas por todas as exigências. E o pior é que não vale a pena.

Parte da nossa viagem, o motivo de desembarcar neste planeta maluco é desenvolver o autoconhecimento, quando somos impedidas de fazer isso, surtamos.

Não é sobre Romeus, amores, namoros, casamentos, paixões, é sobre saber quem somos, encarar essa estrada longa e complexa, dar prioridade a nossa vida, não a alheia, é sobre cada uma se conhecer, é sobre individualidade e o exercício da liberdade. É sobre ser, sem verniz.





Iara De Dupont

domingo, 10 de dezembro de 2017

Livraria do Estudante

Os livros com que sonhei moravam na Livraria do Estudante e eram guardados pelo Jeremias. Sonhei tanto que queria trabalhar lá. Sonhei tanto que ainda me lembro do cheiro das estantes de madeira. Sonhei tanto que chorei quando fechou.
Ainda bem que os livros que sobraram moram na garagem do antigo dono, e eu pude, então, comprar um daqueles que sempre quis, no esquema 10 ou 20 reais. Este, "Minhas histórias dos outros" do Zuenir Ventura, custava, em 2005 (ano de seu lançamento), R$44,90 que eu não tinha.
O reencontro agora, doze anos depois, com a capa suja e empoeirada e o antigo preço apagado, na última página.
A vida é besta e muito triste, mas tem disso.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Quando...

 Quando você bate numa criança, você acha que ela aprenderá a não fazer
coisas erradas, na verdade você ensina que ela pode bater nos outros.
 Quando o seu castigo para dois irmãos é mantê-los abraçados, você está
deixando claro que abraçar o irmão é um castigo, e não algo bom.

Quando o seu castigo é lavar a louça, arrumar o quarto ou estudar, você
também está ensinando que estudar, lavar e arrumar são punições.
 Estão aí coisas que esta criança nunca vai querer fazer, que vai associar e
lembrar de coisas e sentimentos ruins.

Quando você expõe seu filho em um vídeo na internet, levando uma bronca,
apanhando, você está mostrando que tudo bem humilhar, desde que você
seja hierarquicamente superior, desde que esse ser dependa de você e não
tenha opções melhores do que abaixar a cabeça e esperar, afinal ele vive
com o inimigo.

O pessoal confunde lição, que é algo com que você aprende, com tortura,
vingança, controle e humilhação.
 Acha que criminoso tem que ser preso pra sofrer, na verdade, era pra
aprender, pra repensar.

 -Ah, mas um tapinha as vezes é bom, sempre foi assim, ainda funciona!
 Dá uma espiada na humanidade e repense se esse velho jeito funciona.
 A gente ás vezes bate sim, mas é por que a gente é bicho, e bicho nervoso
perde a paciência e ataca, avança, é isso que a gente ensina batendo.

Andei vendo esses dias várias postagens dessas de castigo, e o que eu
sinto é uma mistura de tristeza, vergonha e asco.
Eu já apanhei sim, já bati também, e não acho que foi bom, na grande
maioria das vezes teriam maneiras melhores de ensinar.

  Eu não tive essa infeliz ideia de gravar meu filho sendo castigado e nem
posso imaginar como deve ser castrador ter esse seu momento gravado, e
perpetuado, a gente quer é esquecer.

Dê uma pesquisada em vídeos no You Tube, como camisa do castigo ou
apenas vídeos de crianças de castigo.

Criamos gente cheia de ódio e raiva, isso já nasce com a gente nem
precisava reforçar.
Ensinar a gostar de estudar, ler, arrumar, lavar é tão mais difícil...
Tá tudo errado.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Hoje é sábado


Escrevinho com a cabeça antes das letras dançarem sua embriagada dança na folha que abraça a mesa. Elas desenrolam os sentimentos do dia, do mês, dos milênios que envolveram minha ancestralidade.

Tomo fôlego entre um gole e outro. Observo desatentamente o barulho dos carros. O que eu espero não é senão a possibilidade do nunca mais. Um pai em seu cavalo de ferro e terra. Acabo recordando todos os uniformes que chegaram áridos aos olhos do sinal da escola.

Tomo mais um gole. As letras deslizam tons de um baú familiar enquanto deveria solidificar dados. Edificar relatórios.

A comida chega e me é indigesta. Cai em meu estômago como uma boa surra depois das duas da manhã (quando nada de bom pode acontecer).

Subverto as ordens do necessário compasso. Esqueço os planos e a pequena grande lista de impossíveis metas.

Hoje é sábado.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

das misérias nossas e do mundo

De junho pra cá tenho feito o possível para preservar ou fortalecer pouco mais a minha saúde mental. Talvez por isso não tenha me dado o disparate de contar as misérias, sejam as minhas que envolvem outros ou do mundo caduco no qual vivo.

Então decidi que durante alguns meses ia falar sobre filmes e séries e procurar o banal ou alegre nas redes sociais. Durante semanas consegui, depois percebi a impossibilidade de fechar os olhos para a janela do mundo.

As notícias sobre a Líbia divulgadas nas redes sociais estarreceu a todos que assistiram aqui. Menos os jornais e ricos.

Mais estranho a maioria sujeita ao desemprego, a fome e miséria não se alarmar com as cenas de homens sendo vendidos como mercadoria.

Não houve divulgação sequer nos jornais.

Não aconteceu nenhum pronunciamento de presidentes dos países mais desenvolvidos.

Não existiu vinheta nos principais canais de televisão para anunciar que pessoas estavam sendo comercializadas, vendidas e/ou escravizadas em nome do nosso sistema neoliberal, democrático e capitalista.

Diferente do atentado na Somália de algumas semanas atrás quando mais de 300 pessoas morreram e houve alguma veiculação na mídia televisiva sem a igual comoção de outros atentados, esse crime/violência contra a vida e igualmente desumano que até então soube somente pelos livros de história não mereceu nenhuma repercussão.

Mas alguém pode se perguntar por que devemos ou precisamos nos preocupar com a miséria alheia uma vez que está longe e nada podemos fazer, pois sempre existiu e jamais deixará de existir pobres e miseráveis no mundo.

Desde que estive mais próximo das realidades piores que a minha deixei de acreditar que a fome e miséria estavam tão longe de mim. Assim quando li a matéria sobre a criança que desmaiou por fome no Distrito Federal aqui, lembrei das cenas de dois anos atrás para famílias muito próximas, com minutos/horas de um bairro para outro.

A diferença de hoje para tempos remotos é que a miséria alheia e distante está quase a olhos nus, podemos ver o que acontece noutros lugares no tocar dos dedos quase que em tempo real.

As transformações para um novo viver ou para destruir as misérias humanas estão na atenção que não temos ao que realmente importa: a fome.

A fome e miséria demoravam meses para chegar ao conhecimento, hoje podemos saber em segundos. O que nos distancia deste discurso de que nada podemos fazer. Podemos fazer algo se acaso nos dispor ou atentar na desorganização do mundo de fantasias que nos impõe as redes sociais.

Assim como qualquer pessoa não gosto de compartilhar fotos de gente sangrando ou numa situação vexatória, mas as denuncias urgentes não aceitam o crivo para foco da câmera com a noção do ideal a circular nas redes.

As pessoas se incomodam com fotos marcantes ou denuncias de crimes de guerra, sejam por meio de armas ou ausência de comida. Tanto que a rede retira conteúdos considerados agressivos ou noutras palavras o que seriam provas de crimes de guerras.

No mundo em que mercadorias valem mais que pessoas ou pessoas servem de mercadoria o ideal é de que fotos de terremotos no Haiti, atentados contra a Somália e desumanização na Líbia não circulem, mas se porventura ocorrer em outros países com demais etnias/pessoas, ok.

O que aconteceria se a denuncia de pessoas sendo vendidas e escravizadas na Líbia fossem divulgadas pela unanimidade ou quase todos que tem acesso as redes sociais?

Qual a reação de presidenciáveis e grupo seleto de ricos e canais de comunicação para protestos liberté african  e Marche pour l´abolition de l´esclavage em diversos países sobre o repudio da miséria da qual vivemos?

O “não posso/podemos fazer nada” não nos cabe, quando temos a chance de pelo menos dar atenção a fome de refugiados, a desumanização e mercantilização de pessoas.

Dizem que na política não existe vácuo, assim creio que na vida virtual também não.

Embora queira me deixar guiar pela suavidade e leveza das redes para que não seja embrutecida no dia a dia e perdure com esperanças de transformação desse mundo, opto sempre pelo filtro de três níveis: classe, raça e gênero que não respeita ordem nas palavras pois estão arraigados e com nível de sensatez primordial para continuar a caminhar.




quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Ordem do dia

ECONOMIA: O PIB. O homem se preocupava com a queda do PIB! O PIB, santo Deus, o PIB! Era a segunda vez seguida que o país entrava em recessão desde que aquele partido intervencionista assumira o governo. O que faria ele diante daquela notícia? Teriam que apertar os cintos, diminuir as contas, dispensar a empregada, talvez. Não, a empregada não. Ainda não se encurvaria ao ponto de ter que lavar a própria louça. A própria louça, meu Deus! Lavar a própria louça... não, não fazia isso desde que... desde que nada, nunca fizera isso! Suas mãos delicadas tinham alergia a esses detergentes cheios de química. Mas se fizesse, ah se fizesse, faria com muito mais presteza do que a empregada fazia. Ah, se faria! Aquela moça, escolhida pela esposa mas paga com o dinheiro dele, só lhe servia para quebrar copos! Não, não a dispensaria, mas ia ter uma conversinha bem séria com ela, com aquela estabanada. 

- Paiê, cheguei!

COTIDIANO: Os copos. O homem se preocupava com a queda dos copos! Os copos, santo Deus, os copos! Era a segunda vez no mês que encontrara cacos no lixo desde que aquela empregada esquerdista assumira o serviço. E ainda escondia os cacos! Não fosse ele ter dado uma ajeitada no lixo para poder esconder a embalagem de Camel da esposa, jamais ele teria visto os cacos.  E era daqueles copos finos, que usava só quando tinham visitas. Os de requeijão, velhos de guerra, aqueles que usavam todo dia, a desastrada não quebrava nunca. Falaria com ela. Não, não a dispensaria, mas que descontaria de seu salário por cada copo perdido, ah, isso descontaria! 

- Ô, pai, joga lá fora comigo? 

ESPORTES: O time. O homem se preocupava com a queda do time! O time, santo Deus, o time! Era a segunda vez seguida que o time caía de divisão desde que aquele patrocinador governamentista estampara sua marca na camisa do clube. O que ele faria diante daquilo? Teria que evitar certos amigos durante algumas semanas, mudar de time, talvez. Não, mudar de time, não. Ainda não se rebaixaria ao ponto de ter que mudar de time. Mudar de time, meu Deus! Mudar de time nunca! Se muda de sexo, mas não se muda de time. Deviam era descontar, por cada ponto perdido, do salário do treinador. Mas até era bom, pensando melhor, que o time não estivesse mais jogando tão bem. Isso faria com que o filho perdesse um pouco de interesse nos esportes e passasse a se interessar mais pela escola. Quem sabe assim apresentasse boletins mais satisfatórios, sobretudo em química. O menino detestava química! Sua cabeça desmiolada tinha alergia a essas provas cheias de química. 

- Pa-ai! Larga esse jornal e vem jogar, vai! Parece que nem me ouve!

EDUCAÇÃO: As notas do filho. O homem se preocupava com a queda das notas do filho. As notas, santo Deus, as notas! Era a segunda vez seguida que as notas do filho caíam desde que ele se mudara para aquela escola chavista escolhida pela mãe, mas paga com o dinheiro dele. Daqui a pouco vai estar que nem a empregada, quebrando copos e falando bem de governos que derrubam o PIB. E aquela família tinha um nome a honrar, um dia ele morreria e não poderia ter um desmiolado para assumir os negócios que era de seu avô, um entusiasta da indústria química. Não poderia deixar tanta dinheirama nas mãos de um irresponsável bolivariano. Falaria com ele. Não, não o agrediria, mas que descontaria de sua mesada por cada décimo perdido, ah, isso descontaria!

- Pô, pai... só tem nós dois em casa, não tem mais ninguém pra eu chamar! Tira esse pijama e joga comigo, poxa!

CIÊNCIA: O pinto. O homem se preocupava com a queda no tamanho do pinto. O pinto, santo Deus, o pinto! Era a segunda vez que reparara que o pinto diminuíra desde que aquele governo castrista anunciou os cortes. Os cortes nos investimentos em ciência e tecnologia. O que ele faria diante daquilo? Teria que evitar mictórios coletivos e passar a usar cuecas com enchimentos, talvez. Não, cuecas com enchimentos, não. Ainda não se baixaria ao ponto de ter que usar cuecas com enchimentos. Enchimentos, meu Deus! Deixava-se de investir no progresso, no crescimento do que realmente importava, para se garantir a sobrevivência de pessoas que quebravam copos, que votavam em partidos que faziam o PIB cair e que não se preocupavam com o futuro da ciência, a única que poderia garantir detergentes melhores e pintos maiores. Com a ciência tão pra baixo, o homem não sabia que tanta importância aqueles professores soviéticos davam para as provas de química. Deviam mesmo era se preocupar em ensinar a moral e os bons costumes.

- ...

COMPORTAMENTO: A moral e os bons costumes. O homem se preocupava com a queda da moral e dos bons costumes. A moral, santo Deus, e os bons costumes também! Era a segunda vez naquela semana que via o filho do jeito que se encontrava agora, jogado no chão da sala, com aquele aparelho nas mãos, alheio ao mundo, parecendo que ninguém mais existia! Eram só aqueles jogos eletrônicos! Tantas questões importantes com que ele poderia estar se preocupando e ele só tinha cabeça pra esses jogos eletrônicos! Seu pai ali diante dele e aquele aluado o ignorando. O próprio pai, meu Deus! Esses jovens de hoje em dia são mesmos uns zumbis. Sempre tão distraídos. O que ele faria diante daquilo? Não poderia fazer nada. Nada, meu Deus, nada. O rapaz era um ensimesmado, um desmiolado que dava as mesmas respostas pra tudo, um pensamento que andava em círculos e nunca saia do lugar! Nem parecia seu filho... 




terça-feira, 21 de novembro de 2017

Audiopost - Sobre o filme "O Círculo"





segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O primeiro choro

“Fica mais um pouquinho?”

“Não posso. O horário de visita acabou, mas amanhã eu volto, viu?”

Antes de ir ele ainda teve um tempinho para confortar aquele choro que ela não conseguiu conter por ficar sozinha, no hospital, em uma situação tão delicada. Um beijo na testa e um último afago no rosto, para secar as lágrimas, e o horário havia de fato acabado.

Por enquanto não tinha mais nada que ele pudesse fazer. O melhor era voltar para casa e tentar descansar um pouco. Enquanto esperava pelo ônibus aquele pedido martelava em sua cabeça. “Fica mais um pouquinho?”.

Passar a noite em claro na sala de espera do hospital foi tempo mais que suficiente para pensar na vida. Em seus quase oitenta anos, nos sessenta anos de casado, em quanta coisa cabe em uma vida partilhada.

Achou que estava em débito. Achou, não. De fato, estava. Poderia ter sido mais atencioso, mais presente, mais carinhoso. Havia sido sempre menos. Nunca aprendeu a ser diferente e parece que agora teria que aprender na marra. Não seria tarde? Aquele pedido deu forças para acreditar que não.

Já no ônibus, queria chegar em casa logo. Não era longe, mas pareceu uma longa viagem. Quando chegou, parecia ter entrado em um local desconhecido. Não era a mesma casa sem ela.

Precisava de um banho. Um longo banho frio para se recompor. Quando a água molhou seu corpo, chorou. Ele que nunca havia chorado, nem quando perdeu os pais, nem quando perdeu o olho esquerdo em um acidente, nem quando perdeu um neto para o câncer.

Não é que não se emocionava, só as lágrimas que não vinham. Dessa vez foi diferente. A incerteza do futuro, a solidão, a injustiça de não poder trocar de lugar e ficar no hospital no lugar dela.

Ele finalmente chorou tudo o que estava acumulado ao longo de uma vida.

domingo, 12 de novembro de 2017

Se cair de cabeça quente, se levante de cabeça fria


Uma das piores coisas que aprendemos na vida é a parar no meio do caminho para ficarmos lamentando o erro cometido, a estrada equivocada, o atalho que nos levou a perder tudo. Ficamos ali congelados, sem saber o que fazer, vendo o tempo passar enquanto tentamos entender na nossa mente o que nos levou até ali.

Levei anos para aprender a perceber a importância de me mexer logo, de não perder tempo tentando decifrar o que não iria mudar minha história, mas ainda me cuido, porque sei que posso cair a qualquer momento e passar largas décadas lamentando a queda, parada no mesmo lugar.

O problema não é cair, isso é um fato que vai acontecer com todos, mas ter a cabeça fria de ver como vai se levantar.

Sempre penso na história de uma amiga de minha mãe. Ela perdeu os pais muito nova, ficou morando com uma tia, se apaixonou loucamente aos dezoito anos e se casou, tudo feito na emergência de sair da casa da tia, de ter vida própria, de começar outra existência mais feliz. Se enroscou na decisão, engravidou logo e quando acordou tinha cinco filhos.

Trabalhava antes na loja de uma amiga, mas com tantos filhos foi obrigada a ficar em casa, para cuidar a todos.

Os anos passaram, talvez dez anos, doze anos, não sei, mas ela se viu presa no erro, cheia de filhos, sem estudos e com um marido que se revelou um pesadelo. O rapaz era trabalhador, mas bebia, jogava e gostava de mulheres, pagava as contas da casa, mas continuava se comportando como se fosse solteiro, pior, adolescente.

Então ela resolveu sair do casamento. Mas teve uma ideia brilhante, uma luz que deve ter aparecido depois de tanta dor. Se tinha entrado no casamento tão apaixonada, tão cabeça quente, tão impulsiva, agora seria outra para sair, faria tudo tranquilamente, de cabeça fria e sem colocar sentimentos na mesa.

Comentou a algumas amigas a ideia que teve, de sair devagar do casamento, todas fizeram questão de dizer que era um absurdo, que elas poderiam ajudar, mas essa ideia não era boa. Pra quê fazer isso, planejar sair de um casamento como se fosse uma questão secreta de algum governo? Pede o divórcio e pronto.

Mas ela entendeu sua situação, não tinha pais para ajudar, tinha cinco filhos, nenhuma formação e que tanto as amigas poderiam fazer por ela? Finalmente cada uma tem sua vida.

Ela pensou no divórcio e analisou a situação. Resolveu que precisaria primeiro de um emprego e começou a procurar um. Como não tinha formação, encontrou espaço na área de vendas, começou a vender seguros. O marido não dizia nada, a essa altura já chegava sempre bêbado em casa e não sabia nem o que tinha acontecido durante o dia.

Conversou com o marido sobre a importância de deixar a casa que ele ainda estava pagando no nome dos filhos, era mais seguro assim e o marido aceitou.

Já vendendo seguros, trabalhando nas ruas, começou a escutar outras pessoas, ter ideias novas e percebeu que precisaria pagar um plano de aposentadoria.

Foi fazendo isso, aumentando sua autoestima, tinha que se arrumar para sair de casa, deixava a filha mais velha cuidando dos menores e começou a planejar sua saída do casamento. Procurou um advogado e entrou com o processo de divórcio, o marido quando foi avisado deu um escândalo, berrou dizendo que não pagaria um centavo de pensão e ela poderia ficar com a casa, porque de qualquer jeito iria morrer de fome com as cinco crianças.

O marido não sabia do caixa 2 que a mulher tinha feito vendendo seguros, não sabia que ela já tinha calculado sua renda sem o dinheiro dele, nem que estava bem estabelecida vendendo seguros.

O marido foi embora, levou anos para conseguir tirar dele uma pensão, mas ele enrolou tanto e conseguiu escorregar da justiça centenas de vezes, que quando foi determinado o valor, os filhos já eram maiores de idade, então ele se livrou da pensão, mas concordou em pagar a faculdade deles.

O impressionante desta história não foi o marido que sumiu por anos e a deixou sem pensão, mas que entre o plano de se divorciar e o fato acontecer, se passaram quatro longos anos.

É isso que faz a história tão extraordinária, uma mulher que percebe como errou ao entrar em uma situação de cabeça quente e decide que vai sair dela, mas de cabeça fria.

Ela planejou tudo com calma, sem erro, mas não deve ter sido fácil, isso a obrigou a conviver com um marido que não amava mais e lidar com situações penosas, mas teve a tranquilidade de perceber que um movimento errado seria pior, ter a cabeça quente e sair correndo do casamento a levaria a passar fome com cinco crianças, mas pensando de um jeito frio, ela conseguiu se segurar quatro anos. E todas as amigas dizendo que aquilo era um erro, que era melhor pedir o divórcio e esquecer o assunto, mas ela resistiu até o fim.

O fim da história foi justo, os filhos cresceram respeitando a mãe, entendendo o tamanho do seu sacrifício e visão, ela se aposentou bem, não precisou mendigar dinheiro de marido, conseguiu dentro de sua área fazer uma carreira que nunca permitiu grandes luxos nem viagens, mas pagou as contas e colocou o pão dentro de casa.

Ela errou uma vez, jovem, sem família, mas não se permitiu errar novamente, e muitas pessoas dizem que a história deu certo para ela porque não amava mais o marido, mas isso é uma suposição, quantas mulheres não amam mais o marido e mesmo assim saem dos casamentos de cabeça quente? A grande maioria faz isso.

Outras pessoas dizem que ela aguentou o casamento porque ele não era violento, mas isso depende da perspectiva, eu acho violento um homem que chega caindo pelas tabelas todos os dias, está sempre bêbado e ofendendo a mulher.

O que ela fez foi por instinto, não tinha ninguém para ajudar, nem dizer como fazer. Nem acredito que ela tenha tido na época a clara noção do que tinha decidido fazer, sair de cabeça fria de uma situação que entrou de cabeça quente.

Mas o que muitas vezes nos mantém presos a uma situação é que entramos nela de cabeça quente, caímos de cabeça quente e queremos nos levantar de cabeça quente, como se isso fosse possível.

Quando eu era pequena caí durante uma patinação no gelo, e comecei a chorar, um professor se aproximou e disse ''respira fundo e tenta se controlar, assim é mais fácil se levantar''.

Não foi porque tive uma fratura exposta, mas hoje entendo o que ele quis dizer, na queda choramos, nos desesperamos e não pensamos em nos levantar respirando fundo, de cabeça fria, e perdemos um tempo sagrado ali, no meio do ataque de histeria.

A isso somamos o tempo biblíco, aquele espaço que damos para nos julgar, mutilar e começamos a autopunição, como se isso fosse adiantar alguma coisa. Diante do erro perdemos tempo nos lembrando que poderíamos ter evitado essa queda, prendemos nossa mente ao momento e esquecemos de tudo, a queda vira um tombo gigante e parecemos incapazes de reagir.

Algumas pessoas disseram ''mas ela levou quatro anos para sair do casamento? É muito tempo''.

Sim, é bastante tempo para tolerar alguém que não amamos mais, mas quanto tempo ela teria levado, caso não estivesse preparada? O marido sumiu com o pedido de divórcio, ela teria ficado sozinha com os filhos e sem renda, quanto tempo teria levado para se organizar novamente? 

Quatro anos parecem muito tempo, mas com certeza se ela tivesse pulado fora de cabeça quente o tempo consumido teria sido maior.

Pode acontecer em muitas situações, levamos um minuto para entrar e anos para sair, mas é melhor levar esses anos tentando sair de maneira fria, do que ficar presa mais algumas décadas, estrebuchando de cabeça quente.

Caiu? Respira fundo e pensa em sair de cabeça fria. Se caiu de cabeça quente, espera esfriar. Cair de cabeça quente é uma coisa que acontece, mas todos podemos esfriar a cabeça para sair da situação.

E talvez venha disso o aprendizado, quando dizem que não saímos das situações da mesma maneira que entramos, que tudo nos transforma. Talvez a transformação venha da temperatura das nossas cabeças, quente para entrar, frio para sair.

O ideal é nunca ter cabeça quente, até na hora de entrar em situações ruins, é sempre bom pensar com calma, mas o ser humano não é assim, a cabeça esquenta, a pressa de mudar a vida aparece, o momento aperta e nos jogamos sem esfriar as ideias. Acontece. Mas a regra é, se caiu de cabeça quente, se levante de cabeça fria.

Iara De Dupont

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Gente que leva Bavaria


Estou aqui sentada num bar próximo à minha casa, esperando uma amiga. Uma mesa comemora o aniversário de um homem chamado Capivara e me olha desconfiada: o que essa moça está fazendo sozinha aqui? É que preferi vir ao bar a escrever este texto. Por fim, acabo escrevendo, enquanto ouço os distintos senhores falarem de sacas de café, selas e de um cara que bebeu 70 garrafinhas daquela cerveja verdinha (contam também que na casa do fulano o pessoal leva Bavaria e bebe a sua verdinha).Um cachorro de rua me pede um pedaço de bolinho de carne, Kid Abelha faz o fundo musical, você gosta de pimenta ou molho de pimenta, pimenta. Forte. Eita vidinha besta.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Papel e canetinhas.

Se você não for o Bob Dylan, nem estiver na década de 60, por favor não me faça um vídeo-modinha levantando sulfite, ok?

Haja árvore, escrevendo uma frase por folha.

Usa uma lousinha de 1,99,o Paint, o PowerPoint...

É pra ser em uma tomada só? Preguiça de editar? 

E o português? Coitado do português!

Bom, acho que pus pra fora o suficiente para não virar um câncer.
Obrigada.


terça-feira, 7 de novembro de 2017

corpo-lua

o céu anuncia
o que chão encobre -

esta melodia
o afagar das mãos
a noite eclipsando

o teu corpo-lua

no descampado 
dos dias.


terça-feira, 31 de outubro de 2017

quem tem medo dos anarquistas?

Era o último ato. Estava cansada. Esgotada. As pernas doíam e a cabeça parecia girar em 360 graus com aquelas imagens. Era bandeira verde e amarela para todo lado, era gente alegre balançando bandeira e eu sem saber por quê.

Alguns cantavam o hino com vontade e o meu olhar era de nervoso ao perceber que não faziam à menor ideia do que estavam fazendo ali. As cores no prédio da FIESP pareciam anunciar o fim de ano, mas sem tantas cores, pois a predominância era o verde e amarelo descendo e subindo no prédio.  

A impressão era de que estava num jogo de futebol da copa, na final e a qualquer momento alguém ia gritar gol. Era na verdade a visão do inferno.  

Só pude pensar nisso naquele momento, era como se tivéssemos sido tomados de assalto e por mais que tentasse acreditar no que via não conseguia.

A vontade era de sentar na calçada e chorar. Mas como aquilo aconteceu? De que forma manipularam tudo para o nacionalismo bestial?

Quando estava quase indo embora desconsolada e desolada, avistei um grupo  reunido e discutindo a possibilidade de sair como bloco e retomar o ato. No ato anterior e poucas horas antes alguns militantes tinham sido agredidos e avenida estava tomada pelo nacionalismo.

O grupo deliberou, votou e decidiu sair em marcha ali, fizeram uma frente com bandeira preta e seguiram com palavras de protesto. Ali fiquei e percebi de quem se tratava. Eram os anarquistas. Rostos cobertos, roupas pretas e algo que não falta jamais: resistência. Até o último suspiro resistência.

Marchamos com gritos de que a FIESP apoiou a ditadura, a polícia mata pobre e preto todo dia, voto não muda nada não e contra o nacionalismo emburrecedor e fascismo!

Dos atos do ano de 2013, aquele último se tornou o mais importante de todos pra mim. Naquela noite os anarquistas mostraram que a única luta que se perde é aquela que se abandona.

Quando voltei para casa, não me senti derrotada e aquela sensação unânime de desanimo entre os que participaram dos protestos e viram o fascismo tomar conta dos últimos atos não me engoliu.


Neste dia soube que os anarquistas eram ou estavam para além dos discursos incendiários pela TV na maioria das vezes os criminalizando.


De lá pra cá, não os vejo como vândalos ou agressivos. Jamais presenciei alguém apanhando da polícia sozinho que não fosse ajudado pelos anarquistas, ninguém fica para trás, dificilmente os vejo correndo nos atos que não seja para frente para resistência forma de prosseguir com ato.


Existem as ações diretas contra o capital simbólico, mas jamais contra as pessoas, para machucar ou agredir, desde que não representem o estado na forma de farda. O encontro de anarquistas e polícia é sempre tenso. Mas nunca presenciei violência gratuita contra as pessoas da parte dos anarquistas.


Os anarquistas são muitos e com várias vertentes. Os anarquistas  sobrevivem a toda miséria e sorte das nações e atravessam séculos resistindo. São os primeiros a serem perseguidos no eterno vai e vem da caça as bruxas.


O anarquismo é contra a concentração de poder e evidentemente contra o capitalismo, racismo, machismo, fascismo, homofobia, misogenia, xenofobia e toda desgraça construída pela sociedade de senhores. Por isso é odiado.

Anarquia é a incontrolável manifestação da liberdade: da mente, do corpo, da existência. É a insatisfação com toda desigualdade e constituição do estado opressor.

Ficar perto de anarquistas, ou escutar o que tem a dizer nos mobiliza a querer uma liberdade que talvez jamais seja alcançada.

E é também por isso que são perseguidos.


Essa matéria https://www.youtube.com/watch?v=r1ae7_Zw8U0 veiculada ontem pela Rede Globo sobre anarquismo é grave e requer o repúdio de todos que almejam e querem outra sociedade.

E pelo que notei foram pouquíssimos movimentos e partidos políticos mobilizados ou que prestaram solidariedade aos anarquistas.

Afinal quem se importa com anarquistas?

Ainda mais quando a matéria insinua que anarquia se trata de criminosos ou terroristas que querem desestabilizar as leis, a ordem e estado ao incendiar carros de polícia e sede de partidos políticos, igrejas e consulado na região sul do país.

Hoje o terrorismo está para os anarquistas. Amanhã, ou depois de amanhã após perder as eleições, estará para outros.

A disputa eleitoral começou desde o boicote (pela esquerda) na segunda greve geral em junho. Não tenho nenhum prazer em constatar isso, pelo contrário tenho muita tristeza e escárnio.

Os primeiros alvos desta disputa que será acirrada ano que vem são os anarquistas e os milhões de votos nulos das últimas eleições.

A quantidade de candidatos para as eleições e entre eles representantes da Rede Globo não disputam entre si, mas os milhares de “eleitores” que simplesmente estão boicotando as eleições.

Esse desajuste institucional ou liberdade excessiva tem que ser cerceada de alguma forma. Sobrou para quem? Para quem desobedece, para quem não aceita ser controlado, para quem enfrenta o estado.

Os anarquistas não são heróis, salvadores ou libertadores, eles são a liberdade em construção e em movimento o que incomoda a todos que querem controlar e ajustar mentes e corpos.

Tenho curiosidade, fascínio, encanto pelo e sobre o anarquismo, mas medo é algo que não tenho perdi há anos.

Invadir a sede de organização anarquista no sul com mandado de busca e apreensão para livros e induzir de que todos anarquistas são ou aderem táticas violentas é de um fascismo assustador.

Mais incômodo deve ser para os institucionalizados a junção de protestos da magnitude de 2013 e quantidade de votos nulos pela segunda eleição. Então parece que anarquia tem seu lugar, seja na periferia ou em classes médias.

A qualquer momento o espectro mais anarquista do que qualquer outra coisa pode explodir. E óbvio que para institucionalizados isso deve e precisa ser controlado.

A tática para desorganizar atos nas ruas ou simplesmente impedir manifestação nas redes sociais está cada vez mais moderno. 

O motivo para desmobilizar os atos todos sabem, servem para que não construam greves. Afinal ninguém vai ficar manifestando todos os dias pra sempre como bem disse o presidente interino. 

Greve derruba bolsas, valores e riquezas. Greve empodera trabalhadores explorados e oprimidos com aumento da exploração e condição social e econômica de vida. 

A manifestação com proposito definido e sucessivas tem valor. Para construir greves e mobilizar as pessoas para desejar uma vida melhor e mais humana apesar de todas opressões.


A desmobilização está também nos aumentos, nos preços e custo de vida isso serve para punir a população, inclusive a classe média que foi as ruas, reclamou de tudo sem objetivo e serviu de massa de manobra para partidos corruptos. 

Assim nenhum psicológico dará conta de ver nas redes sociais as articulações para desmobilizar manifestações no próximo ano com os absurdos que você não curtiu ou de conhecidos que não compactuam com o fascismo curtiram.

E visualizar que os comentários em vídeos e matérias meticulosamente absurdas (alimentação x ração) têm o triplo para comentários se comparado com as curtidas e aqueles que curtem e comentam não existe fora da rede.

Vamos ter o direito de nos relacionar com os inimigos, até aplicativo de relacionamento serve como meio para infiltrados se aproximarem de grupos especialmente mulheres anarquistas ou de esquerda. Willian Botelho é militar da área de inteligência e se apresentava no Tinder e no Facebook como Balta Nunes

O que demonstra o nível e escrúpulo do estado/de alguns para desmobilizar desfazer e desorganizar qualquer oposição, em especial dos anarquistas. Na ditadura tiveram êxito, será que ainda conseguem?



sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Ela partiu

Gabriela se apaixonou pela primeira vez aos 16 anos. Sentiu tudo aquilo de que falam os filmes românticos: pontada na barriga, mãos tremendo, suor, coração palpitando. Não demorou muito até que começaram a namorar e tiveram o primeiro filho. Foram morar juntos. Depois vieram o segundo filho e a primeira grande decepção na vida: o marido tinha uma amante. Sem aceitar desculpas ou explicações, Gabriela pegou os dois filhos, partiu e nunca mais voltou.

A pensão do pai não era o suficiente para atender todas as necessidades dos filhos pequenos, mas ela enfrentaria isso com toda a força que Deus dá. Difícil era aguentar as cobranças dos irmãos de congregação: “essas crianças precisam de um pai, Gabriela. Você precisa dar um jeito nisso”. Ela ouvia isso quase todos os dias.

Certo dia apareceu um homem novo na igreja, vindo do Rio de Janeiro. O carioca parecia ser homem bom, trabalhador e estava mesmo interessado em Gabriela. Ele dizia não se importar que ela já tivesse filhos; assim, logo casaram e tiveram mais dois filhos.
I am mine

A caçula estava com 5 anos, seria esse o sinal? Certo dia, Deus revelou durante o culto: “cuidado, há uma serpente debaixo da sua cama”. Ela já sentia, estava acontecendo. Não queria acreditar, Deus não podia estar deixando isso acontecer de novo, o que diriam as pessoas? No começo, ainda resistiu um pouco. Não tomaria nenhuma medida a menos que tivesse a prova do crime. “Me mostre, Deus. Me mostre a verdade”.

Deus a ouviu. Durante uma conversa com o irmão Jorge, soube que sua prima trabalhava no mesmo local que o marido. “Qual o nome dela?”, quis saber. “Roberta”, respondeu inocentemente o outro. Quando ouviu o nome da mulher, sentiu uma pontada instantânea na barriga. Era ela. Mas queria mais do que saber, queria ver com os próprios olhos. Aguardaria o momento certo.

Quando julgou ter chegado o dia, pediu para o irmão Jorge ligar para casa da prima para saber se ela estava em casa. Frente a resposta positiva, deixou as crianças com a vizinha e partiu em busca da verdade. Tocou a campainha. A mulher atendeu. Com a ira contida, Gabriela se apresentou como sendo esposa de Ricardo. Sem espaço para reação da outra, Gabriela a abraçou e lhe disse ao pé do ouvido: “Jesus te ama. Posso entrar e tomar uma água?”.

Tempestivamente, Gabriela adentrou na residência. O marido estava sentado no sofá. Gabriela o olhou com desprezo e sem lhe dirigir a palavra, lançou orações ao ar. Estava persuadida de que o mal estava presente naquele ambiente e precisava mostrar toda a força divina a que servia. Cansada, sentou-se, bebeu um copo de água e disse para o marido “vamos embora”.

A sós, ele tentou convencê-la de que seria bom pra todo mundo se as coisas ficassem iguais, ser divorciada de novo não seria bom pra Gabriela, o que os outros diriam, e ele não abriria mão da nova paixão, disse tudo isso sem ser interrompido. Gabriela o ouviu calmamente. Sem o olhar, disse que ele tinha um mês para sair de casa. “Acabou”, disse sem emoção. E quem vai contrariar uma mulher quando esta toma uma decisão?

Gabriela se viu sozinha com os quatro filhos. Os mais velhos estavam enlouquecendo-a. Não aguentava mais carregar tudo aquilo. Sabia que a decisão mais acertada seria mandá-los a responsabilidade dos pais. “Filhos são uma benção, você é a mãe”, os irmãos da igreja diziam; “e eles os pais”, Gabriela retrucava, “não estou jogando meus filhos na rua, eles estão indo morar com os pais”.

A vida continuou dura para Gabriela. Mas quando foi fácil? Agora era ela e a caçula apenas. O relacionamento com os filhos mais velhos melhorou muito desde que não moram mais juntos e assim, ela segue seu caminho, apesar de todos os dedos, apesar de...

domingo, 22 de outubro de 2017

Pílulas para esquecer

A viagem

Aquele momento único quando alguém resolve dizer "Foi bom enquanto durou. Agora é hora de voltarmos". Eis a melhor lembrança que tinha da praia.

A calma

Ele se enche de calma ao pensar que nada dura para sempre e que em uma duas gerações todos eles estarão mortos, sobretudo ele mesmo.

O esconderijo

Esconde-se tão bem de todos que acabou por se perder de si mesmo. Amanhã sem falta colará um cartaz de "procura-se" no poste. Só não decidiu ainda se lhe apetece encontrar-se vivo ou morto.

O automóvel

Dormiu no carro esperando a sorte voltar. Só acordou com o guarda de trânsito que o multava por parar em local proibido.

O método

Sempre prefere começar pelas coisas mais fáceis. Ainda não lhe ocorreu começar nada.

A morte

Era um suicida veterano. Tinha 85 anos e vinha se suicidando desde a infância. Agora costuma ser visto deitado, olhando as gotas de soro caindo e pensando em cada uma de suas lentas mortezinhas.

A dor

Só dói quando se lembra. Dói também quando se esquece, exceto quando não dói.








sábado, 21 de outubro de 2017

Uma singela homenagem aos blogueiros (e ex-blogueiros) dos 30 dias

Oi gente!

Tudo bem?

Antes de ouvir o programa mais abaixo, ouçam esse arquivo, por gentileza:



Pronto, agora podem ouvir!
Grande abraço à todos(as)!

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Nem toda nudez será castigada

Naquela grande cidade resolveram colocar um homem nu no museu. Não contentes ainda colocaram uma menina para tocá-lo. Era óbvio que não daria certo. Logo foi formada uma comissão para solucionar o impasse. Foram rápidos e objetivos. O primeiro passo foi esvaziar todo o espaço. Era necessário começar do zero.

La Bête”. La bêti? La béte? Precisa fazer biquinho para falar? Já começaram errado pelo nome. Não é de hoje que o francês é uma língua conhecida por ser meio fresca. A ideia não era ruim, só foi mal executada e a comissão para assuntos polêmicos contornou tudo rapidamente. Chamaram a Elisabeth. Pronto, a exibição estava rebatizada. “A Bete”.

A modelo chegou envolta em um roupão felpudo com um coelhinho bordado, do qual se livrou jogando os ombros para trás. Deitou, nua, no salão do museu e logo uma criança, um menininho de quatro anos, se aproximou engatinhando e tocou o corpo da mulher. Ao lado o pai abria um grande sorriso aprovando a atitude do filho. "É assim que se faz!". Tudo estava em seu lugar histórico. A nudez voltou a ser um produto a ser consumido e o silêncio voltou a reinar.

O sucesso da performance foi notado pela rápida repercussão. Em pouco tempo o museu registrava as maiores filas de sua história. Pais que nunca imaginaram entrar em um museu vinham de longe, trazendo os filhos. Logo visitas guiadas passaram a ser organizadas, com instrutores explicando tudo para os grupinhos de meninos atenciosos.

Estão vendo essa parte? É carne de primeira. O resto não importa tanto. Antigamente era coberta de pelos, agora não. Só se a mulher for relaxada. Conseguimos convencer que nelas o pelo é falta de higiene - em nós não.

Logo Bete dormiu. Não estava com sono, estava cansada. Um cansaço acumulado por séculos. Cansada das mãos que tocavam seu corpo a toda hora, em todos os lugares. Cansada dos beijinhos estalados e assovios. Cansada do gostosa, linda, tesão. Cansada das jorradas de porra no ônibus lotado. Cansada. E cansada, adormeceu.

Dormindo, Bete sequer viu o pré-candidato à presidência, que na tentativa de passar de segundo para primeiro nas intenções de voto, fez questão de marcar sua presença, com um sorrisão na cara e dizendo que isso é arte de verdade.

Bete gostaria de ver o prefeito da cidade, mas ele não foi. Postou um vídeo dizendo que respeitava, apoiava o sucesso, mas era um homem de pudor. Só iria se a modelo estivesse trabalhando. Tra-ba-lhan-do. Nada de passar o dia deitada.

A comissão responsável pela reformulação da performance pregava um Brasil livre e logo reivindicaram mais liberdade. MAM não era um bom nome para o museu. Decidiram mudar para MVA. “Museu Vanguarda do Atraso”.

Os membros da comissão ganharam notoriedade, popularidade, cargos, votos. O problema estava resolvido. Bastava manter a tradição. Como todo produto a ser consumido, a nudez também tinha modo de usar. O que seria daquela sociedade sem a regulação pelo consumo.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Paulo Freire: patrono, não patronal


“Quando a Educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.

“Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que permitissem as classes dominadas perceberem as injustiças sociais de forma crítica”.

“Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”.

Aprenda, Brasil!   

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

O barco fantasma (pulem mulheres)


Quando era pequena li o livro ''O barco fantasma'', é uma história simples, uma lenda inglesa sobre um barco no século XVIII que foi encontrado navegando pelo mar sem seus tripulantes.
Até hoje o chamam de ''o barco fantasma'', porque estava vazio quando outro barco o viu, subiram uns marinheiros e se assustaram quando perceberam que na pequena cozinha do barco, na mesa, tinha uma xícara com café quente e um ovo morno, o que os levou a concluir que era um barco fantasma, já que não encontraram rastros de ninguém ali.

Naquela época os registros dos barcos e seus tripulantes não eram tão rígidos, era um barco pequeno, cabiam menos de dez pessoas ali, o que levou todos a pensar que alguma coisa aconteceu no meio do caminho e depois os fantasmas tomaram conta do lugar.

Fiquei fascina pela história, gostava do detalhe do café quente e o ovo morno, pensava sem parar porque fantasmas preparariam um café da manhã?

Meu pai sempre me dizia que esse livro era uma versão da mesma história, de barcos pequenos e grandes, que navegam sozinhos pela imensidão, guiados por fantasmas e acabam alimentando lendas.

Já meu avô me contava que não existe parte no mundo sem lendas do mar, dos rios e barcos fantasmas sempre aparecem.

Fiquei anos pensando sobre o café quente e o ovo morno, até que já adulta li um livro que ''desmontava'' algumas lendas do século XVIII, e estava essa história.

Alguém achou um registro de um casal, talvez os donos do barco, que com alguns tripulantes saíram da Inglaterra, no meio do caminho seu barco foi abordado por piratas, que os levaram como escravos, por isso não tinha rastros de lutas no barco, nem sangue, eles devem ter sido dominados rapidamente. E uma moça aparecia na história dizendo que era a dona do barco, que embarcou com seu marido e confirmou que o barco foi invadido, mas ela ao perceber se jogou na água e começou a nadar, se afastando, dias depois foi resgatada por outro barco.

Lembro que contei ao meu avô e meu tio essa nova versão, eles deram risada e disseram que ''mulher vadia e mau-caráter, abandonou o marido a própia sorte''. Meu pai também achou um absurdo a mulher pular do barco, na base de ''dane-se''.

A mensagem era clara, até porque eu já tinha escutado ela a vida inteira, nós, mulheres, não pulamos do barco.
Nós embarcamos em uma história de amor e ficamos ali, não nos jogamos na água nem quando os piratas invadem.

Em uma conversa recente minha mãe me disse:

-Parece que você não quer ver ninguém casando.

Na hora não soube me explicar, mas depois me veio a imagem do barco fantasma, sou a favor de embarcar e viver a experiência, mas se precisar pular fora, pule. Não sou contra o casamento, sou contra levar a experiência até o fim, se não deu certo.

E escrevendo aqui que simples parece! Ora, qual o problema, pule!

Mas é o contrário do que nos ensinam, se subir no barco, se mantenha firme, sem importar as tempestades, barcos passam por noites perigosas e dias sinistros, mas você, mulher, pode levar esse barco ao seu destino.

Quem pula fora do barco são as ordinárias, interesseiras, vadias, frias e inconstantes mulheres, muitas vezes promiscuas e loucas por novas aventuras, as mulheres decentes ficam no barco, nem que ele encalhe, vire ou pegue fogo.

E somos tão doutrinadas na ideia de não pular fora do barco que perdemos o momento, não temos margem de tempo para pular, é apenas um segundo, ali ou nada, e deixamos passar.

Uma amiga da minha mãe estava vivendo um inferno no casamento, naquela época minha mãe estava no México e vinha para o Brasil, sugeriu a amiga que largasse tudo e embarcassem juntas, depois pensariam o que fazer com esse marido violento.
Ela foi atrás de passaporte, fez tudo escondida, mas ele, era como uma fera, essa parte algumas mulheres desconhecem, mas homens ''sentem'' o cheiro dos nossos movimentos, ele se jogou ao chão e pediu perdão, ela sentou e escreveu uma longa carta a minha mãe, agradecendo o apoio, mas ele tinha entendido a situação e iria melhorar.

Ela não pulou do barco, se enrolou, ficou ali, teve filhos com ele e uma vida cheia de violência, recentemente começou a ter uns problemas sérios na cabeça, o diagnóstico foi ''constantes traumas na região'', resumindo ''apanhou pra caralho de um homem covarde''.

Já outra amiga da minha mãe fez o caminho contrário, conseguiu uma autorização para viajar com seu filho e se escondeu na nossa casa durante umas semanas, até que juntou o dinheiro e saiu correndo, também de um marido abusivo.

E não falo só dos homens que batem e são violentos verbalmente, falo daqueles que não cumprem seu papel na família e levam a mulher a um stress sem precedentes, sustentando a família, encarando a tripla jornada.

Falo de um medo muito comum nas mulheres ''o que meus filhos vão pensar de mim se abandono meu marido? Poxa, ele é ótimo pai''.

Pois é, o que as crianças vão pensar da mãe se a virem pulando do barco e abandonando o homem que juraram amar?

As mães esquecem que os filhos crescem e entendem a situação, eles percebem o massacre que a mãe sofre e se um dia tiverem a cara de pau de cobrar da mãe por ela ter pulado do barco, bom, a vida vai se encarregar de mostrar a esses mimados como as coisas funcionam.

E tenho tantas histórias sobre mulheres que não pularam do barco! Na minha família ninguém pulou, todas navegaram debaixo da tempestade e aguentaram firmes.

O problema é que navegar em águas turbulentas por um casamento ou um homem, não leva a lugar nenhum, não coloca coroa na cabeça de ninguém e nem tem o reconhecimento do Romeu, que acha a coisa mais normal do mundo uma mulher se arrebentar para manter o barco navegando por ele.

Tenho uma amiga que sofreu e sofre horrores no seu casamento, teve o azar de se casar com um ''doce de homem'', um poeta e ela trabalha em um banco, sustenta a casa, teve filhos e agora, apesar de cansada, não quer pedir o divórcio porque seria praticamente jogá-lo na rua, ele não tem família e minha amiga morre de medo dos filhos pensarem que ela é uma mulher fria, que jogou o pai deles no meio da rua, abandonando o rapaz na miséria.

Mas o lado dele ninguém vê nem julga, ele é meigo, eu entendo que seja pintor, poeta, o que for, mas tem filhos para sustentar e deveria se virar, se não faz isso não merece ter uma mulher que faça, mas quem fala alguma coisa, se ele é legal e jamais bateu na mulher ou filhos?

Qualquer movimento que ela fizer será considerado coisa de mulher calculista e vadia, que abandonou o homem que é ótimo pai e um marido fiel, mesmo que isso não coloque um centavo para o pão em cima da mesa.

O barco dela ficou preso, encalhou, qual a solução? O rapaz é uma boa pessoa, apenas não trabalha.

Falei que diante dessa situação existe uma possibilidade de milagre, que ele se encante com uma mulher mais nova, alguém que se deslumbre com suas poesias e vá embora com ela.

Ela teve chance de pular quando estava grávida, ele foi viajar para o Peru e se encantou com o lugar, ela não queria se mudar e resistiu, foi uma chance perfeita para pular, mas ele percebeu que não poderia viver no Peru sem o dinheiro dela e voltou ao Brasil.

E a história do barco fantasma me parece perfeita, se a moça não tivesse pulado, o que teria acontecido? Teria se tornado uma escrava dos piratas e com certeza teria sido estuprada por vários homens ou seja, não vale a pena ficar no barco, nadar sozinha é menos perigoso.

E ao pular escutamos os gritos de todos ''vadia, vagabunda, eu sabia que era piranha, quer dar para o vizinho, pedir uma pensão, ficar com apartamento, tem amante essa vaca, mulher que larga homem não presta!''.

Mas quem grita, quem ofende, não está no nosso barco, não sabe as ondas que enfrentamos e pior ainda, não a vale a pena o nosso esforço.

Queria tanto ter cinco anos de idade, com o conhecimento que tenho e me aproximar de cada uma das minhas tias e dizer ''tia, pula do barco, faça isso já''.

Todas minhas tias que não pularam do barco morreram na praia, abusadas por homens irresponsáveis, aqueles que as teriam condenado se elas tivessem pulado, as pessoas que as convenceram de ficar no barco, nunca ajudaram e já morreram, e algumas ainda enfrentam a recriminação dos filhos que dizem ''se meu pai era um merda, por que você ficou ali?''.

Barcos naufragam, apesar dos nosso empenho e não vale a pena se arrebentar navegando enquanto Romeu pega um sol.

É socialmente condenável uma mulher pular do barco, mas é aceitável o homem que acaba com a vida dela. Não adianta pensar que vamos mudar essa realidade discursando no barco, o jeito é pular.

Pular do barco nada mais é do que salvar a vida a tempo ou o que resta dela.

Iara De Dupont