segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Registro Geral

 



O que me exalta nas fotografias é o roubo — aquele roubo abrupto, resguardador, defensivo — às forças expansivas do tempo. Na primeira, o olhar de quem teme o caráter inaugural de todas as coisas. Na primeira, eu nada sabia de ti. Será possível que a criança já tudo saiba?Você parando na estrada para que eu pudesse descer e vomitar o café da manhã. Eis a única lembrança que tenho de ti. Na segunda, a velhice prematura, o cansaço que só os jovens conseguem ter. Porque, pensando, eu era velho, velho, os meus anos acumulavam-se num tempo indeciso, e estavam cheios de coisas monstruosas. Na terceira.... na terceira sim eu sabia de ti, na terceira, sim, tu estavas. Era eu, mas também eras tu. Um certo olhar resignado. Os caminhos que trilhavam tua face, já insinuando-se na minha. Os cabelos que inexistiam em tua cabeça principiando a inexistir na minha. Na terceira, já era indisfarçável. Na primeira, um rosto plano, sem mácula, um olhar de quem parece querer fugir, de quem ainda está por se habituar, de quem não conhece todas as instalações, de quem ainda precisa da hospitalidade de anfitriões. Na segunda, pareço buscar por um inimigo, a guarda sempre levantada à espera de um combate. O mundo mal se apresentou e parece já ter se exaurido. Cansaço. Na segunda eu sinto cansaço. Cansaço e raiva. Tampouco havia tu na segunda. Apenas na terceira. No princípio, um ódio por cada sinal da passagem do tempo. A decrepitude é para os outros. Mas só na terceira tu estás. Só com os primeiros sinais de minha decrepitude é que tu apareces. E é na decrepitude que me aproximo de ti. Tu, a quem eu já conheci decrépito. Tu e tuas marcas difusas em minha vida. Tu que nunca quis, sempre temeu deixar qualquer vestígio em minha vida, nunca pôde ter controle sobre as marcas que deixaria na terceira, em cada poro de minha face. Em cada esgar, em cada sorriso. E justo na terceira, a primeira em que tu não podes alcançar, em que teu tempo já não intersecciona com o meu. As idades apoiam-se na sua própria memória. Teu nome não está em meu registro geral. Teu rosto sim. Na terceira, tu estás, com tuas marcas indeléveis, como a dar uma piscada cúmplice aos que ainda lembram de ti. O quanto de ti definiu o lugar que ocupo no mundo? O autobiógrafo é a vítima do seu crime.
 
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Nota: Os trechos em vermelho são extraídos de "Apresentação do rosto", de Herberto Helder, romance que motivou o presente texto.

sábado, 20 de novembro de 2021

Máscaras, vacinas e ansiedade

Caso escrevesse hoje, é bem provável que Machado de Assis fizesse uma referência a passar o dia com a máscara, para sentir o prazer de tirá-la ao chegar em casa. Seria o substituto moderno para o alívio de descalçar as botas no fim do dia, como fazia o personagem Brás Cubas, no fim do século 19.

Depois de mais de um ano e meio, cobrir o nariz e a boca é quase tão corriqueiro quanto calçar um par de sapatos. Mesmo com o controle da Covid-19, sair na rua sem máscara é quase como sair descalço. Causa estranhamento, sensação de fazer algo errado, e ao chegar em casa vem o alívio de descobrir o rosto e sentir o ar fresco inundando os pulmões ao mesmo tempo que refresca o rosto, úmido pela respiração represada.

Em um país que chegou a registrar mais de quatro mil mortes por dia, é um alívio reduzir a média diária para pouco mais de duzentas. Por outro lado, a ansiedade acumulada no período de quarentena faz aflição disparar diante do retorno à vida, que nunca foi exatamente normal.

Uma coisa é passar rápido pelo mercado, pegar o mínimo necessário e correr de volta para casa, outra, bem diferente, é voltar a encarar uma reunião presencial, cara-a-cara com pessoas de máscara abaixo do nariz, ou frouxas o suficiente para enxergarmos a respiração fluindo, quase livremente, pelos vãos laterais.

Só de imaginar os potenciais vírus coronados voando livres pelo ambiente, a respiração acelera, a máscara umedece, os óculos embaçam e a tranquilidade de ter uma média de mortes em torno de duzentas se transforma na realidade de mais de duzentas pessoas mortas em um único dia, por uma única causa.

Como o inconsciente vaga livremente pelos riscos de contaminação, resta um refúgio racional. O Átila Iamarino confirmou que a situação está melhor e que as vacinas são eficientes. Ele até cortou o cabelo. Se o Átila falou, está falado e ponto final. Mas ele também disse que nenhuma vacina é 100% eficaz e que, apesar de controlada, a pandemia ainda exige atenção. Lá se vai a racionalidade.

Se por um lado a pandemia é uma tragédia, potencializada quando somada à tragédia política brasileira, por outro é admirável que em menos de um ano o mundo já tinha vacinas eficazes contra o vírus. Curioso mesmo é que toda essa eficiência da medicina ainda não tenha desenvolvido um remedinho para a ansiedade. É vida que segue – de máscara.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

PARAFUSOS

São Paulo, quinta-feira, 18 de novembro de 2021.


- parafusos - Cristina Santos - post 19 - Blog das 30 pessoas - 


título: PARAFUSOS 





Oiê, Pessoal. 💜
Aproveito a data de hoje para fazer um convite muito, muito, muito importante. Na próxima quinta-feira dia 25/11/2021 estreia a websérie infanto-juvenil: PARAFUSOS, que escrevi com o amigo e parceiro de escrita Tadeu Renato. Toda a equipe do projeto é lindamente mágica, por isso é um trabalho tão especial. A realização é do @Núcleo.Atômico 💜
Segue uma matéria com todas as informações. 
Aguardamos vocês. 
Até o próximo post.
Beijos,
Cristina Santos 
💜










terça-feira, 16 de novembro de 2021

Máquina de escrever

Foto: Tadeu Renato


Há aqueles dias em que as mãos querem transformar experiências em palavras grafadas em tela e papel, mas é apenas um impulso muscular. As palavras, elas mesmas, não desejam surgir à toa, preferem a permanência do silêncio. É compreensível esse distanciamento de ruídos e manchas, a música interna escolhe se dar em afetos tácitos com um cachorro vivo do que escrever qualquer coisa que seja. Há também os instantes em que as palavras de dentro apenas querem visita e escutar história alheia.

Estavam conversando muito alto, não se viam desde antes do natal e o grupo estava saudoso das trocas. Eram 11 senhoras que se reuniam no salão de uma ONG para compartilhar seus cansaços. Eu estava ali como orientador de uma oficina de escrita e memória, encontro que de antemão teve rota alterada ao constatar que a maioria delas não sabia ler nem escrever. Assim, o espaço se tornou um momento de escuta, eu conduzindo disparadores para que puxassem do limbo da memória narrativas pessoais de horas passadas. Gostava imensamente de ouvir experiências tão diversas, imaginar aquelas pessoas habitando outro tempo e espaço, outras formatações de seus corpos. Com o tempo aprendi a notar a maneira como cada qual contava algo, os gestos, as entonações, o titubear diante de acontecimentos traumáticos, mas nunca desistindo de continuar. Entre elas, havia uma idosa que discorria pouco, com uma entonação diretiva que lhe dava um aspecto de constante irritação, embora as frases que dizia contrariavam a melodia da fala. Um dia uma colega de grupo perguntou sobre seu problema de nervos que a fazia tamborilar os dedos nas próprias pernas. Dona Olinda, a senhora das mãos dançarinas, explicou que era um vício antigo, resto de enredo profissional. As senhoras foram guardando seus sons: não era sempre que surgia a oportunidade de saber algo mais sobre a taciturna Olinda, que começou após um pigarro:

    - Quando moça, mãe achou por demais importante e bonito que eu aprendesse datilografia. Lá fui decorar aqueles botões todos. Dava uma aflição medonha, porque aquilo lembrava minha bisavó. Ela morava com a gente, era muito magrinha e tinha muita dor nas costas. Me pedia o tempo todo pra apertar os lados dela. As teclas da máquina de escrever eram iguais as costelas da minha bisa, até o estralo era igual.

        As senhoras riram da inusitada comparação, porém a Olinda rascunhou um sorriso com os dentes cerrados e continuou:

     - Sabe que eu era a mais ligeira do curso? Queria tanto acabar depressa com aqueles tapas, aquele barulho de máquina gemendo, que acelerava e terminava tudo num baque, nem me dava com as horas. De assim foi que acabei escrivã num escritório. Era lugar de fiscal de terra, gente que ia ver se tinha alguém que ainda vivia feito escravo. E tinha, viu? Ui, como tinha.

           Uma jovem entrou no salão trazendo café e biscoitos, fazendo com que as ouvintes dispersassem e seguissem com suas conversas sobre um desastre que estava em todos os noticiários por aquela época. Ficamos eu e dona Diva, uma que estava em seu primeiro encontro e ainda não tinha intimidade para boas conversas fiadas. Continuamos observando a datilógrafa, que mantinha em suspenso a respiração de um evento que não havia terminado. Ela entendeu nossa curiosidade e seguiu:

             - Problema foi que os dedos deram de me enganar. Toda vez que alguém me ditava um relatório, algo em mim virava nuvem e não sei o que me dava, os dedos disparavam e eu nem percebia o que estava fazendo. Quando relia o texto, não tinha escrito o que passaram: tinha criado uma história, cheia de palavras que não conheço, com pessoas que não existem, situações que não foram as que o fiscal contou. Cheguei até a ir numa psiquiatra, mas ela disse que não tinha nada de errado, aparentemente. Com o tempo foi piorando. Minhas mãos não obedeciam mais ao que eu escutava, elas queriam batucar outras vidas, escrever fábulas e umas estranhezas que nunca entendi.

             Dona Olinda coçou a parte de trás da orelha, suspirou alto e se levantou para pegar um copo de água. Voltou seu testemunho antes que o corpo se acomodasse na cadeira:

       - Comecei a ter um medo tão grande da máquina de escrever. Era a mesma inquietação que eu sentia quando ia no terreiro de uma minha tia. Ficava tonta, o coração acelerava, o corpo se deixava levar pelo ritmo das teclas. Olha, não vou dizer que nunca fui de mentir, que mentirinhas estão no ar que a gente bota pra fora e nem repara. Mas assim, de mentir aos metros, de propósito, nunca me inclinei pra isso. Então precisei largar o serviço de datilógrafa e fui ser guarda de trânsito. As mãos só tinham que se ocupar em dizer: pare.

            A mesma jovem que trouxera os biscoitos proferiu o fim do encontro. Uma van esperava para deixar as senhoras em suas casas. Dona Olinda se despediu repetindo o sorriso trancado e saiu, engatando uma conversa lacônica com uma colega. Dona Diva se levantou com um pouco de dificuldade e antes que se deslocasse rumo à porta, sentenciou:

                - Acho que é tudo invenção.


quinta-feira, 4 de novembro de 2021

O que está acontecendo

Estou parado no cais 
Onde vivia minha paz
Onde silêncio ainda fala
O que barulho não faz

Eu tava olhando para trás 
Caí de costas no mar 
Afoguei no escuro para respirar

Por sorte aprendi boiar 
Roderick Thorp duro de matar 
Tentaram me apunhalar 
Sei que vou me curar

Tenho corpo fechado, ouço uma voz
Sangue sempre quente, cabeça feroz
Sigo na luta por nós 
Quando eu caí tava a sós
Eu e meu ego, my boss

Ainda penso em viver 
Ainda vejo os faróis 
O mar ainda é algoz
O vento ainda leva minha voz 

Respirei fundo, melhor
Mergulhei, calmo pra voltar nadando 
Beirando a orla, renasci chorando 
Vocês que lutem para viver sorrindo 

Esquece, não sou mais menino 
Me reencontrei no espelho, 
Sim, estava sumido 
Via um reflexo do invisível 

Vivo questionando tudo
Abraçando a dor do mundo 
Como Banksy pintando muro
Lendo Bauman no lago sujo
Eu e Amy num mar turvo
Rehab numa house club 
Aproveitando o nada 
como se tivesse tudo
como se pudesse tudo 

Às vezes me engano muito 
De vez em quando aposto,
Venço, curto 
Se o longa ficar caro 
Lanço um curta

Não é pelo Oscar, juro 
Querem um campeão para tudo 
Todo mundo é fraco ou duro
Se faz de cego, surdo e mudo

Fantasmas sussurram segredos
A vida não acaba no escuro, amigo
Você anda tão desaparecido
O que está acontecendo contigo?









sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Desconto

Carlos não esbarrou em Maria. Maria não derrubou o refrigerante na roupa. Maria não xingou Carlos. Maria não se arrependeu do xingamento assim que olhou Carlos nos olhos. Carlos não ficou vermelho. Carlos não gaguejou pedindo desculpas. Carlos não tentou limpar o refrigerante com as mãos. Maria não fingiu que ficou brava com aquele descaramento. Carlos não chamou Maria para ir a uma loja de roupas para lhe reparar o dano. Maria não aceitou. Maria não passou a tarde escolhendo roupas e perguntando para Carlos se estava bom. Carlos e Maria não ficaram rindo disso como se fossem velhos conhecidos. Carlos não provou chapéus e óculos engraçados que nunca compraria. Maria não perdeu a noção do tempo. Carlos não se esqueceu por completo que tinha um mundo lá fora. Maria não reparou enquanto Carlos dava o telefone para a vendedora que nunca fez o cadastro dele. Carlos não ficou com vontade de beijar a boca de Maria enquanto se despedia com um beijo de bochechas. Maria não ficou com vontade de tirar a roupa de Carlos ali mesmo. Maria não ligou para Carlos dois dias depois e jamais o chamou para sair. Carlos e Maria não transaram loucamente naquela noite em que não saíram. Eu mesmo nunca nasci.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Salário não é renda

Com o aumento recente da inflação, alguns termos técnicos de economia voltaram a circular com mais frequência nos jornais. Isso faz com que algumas palavras sejam usadas de forma equivocada, principalmente por quem não é especialista no assunto.

O IPCA voltou às manchetes. É preciso dizer que significa Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo. É preciso dizer que isso não esclarece muita coisa. O fato é que o tal IPCA mede a inflação, que chegou à maior alta em 21 anos.

Isso é dito por pessoas que em 2015 juravam que o Brasil vivia a pior crise econômica de sua história. Pessoas que têm idade suficiente para lembrar da hiperinflação dos anos 1980 e, portanto, para saber que em 2015 estávamos longe da pior crise da história. Só estávamos próximos de conseguir apoio popular para o impeachment de Dilma Rousseff e para isso um cenário apocalíptico caia bem.

Hoje, com a situação econômica pior do que há seis anos, os jornais afirmam que a inflação compromete a renda do trabalhador. O problema é que o trabalhador não tem renda, tem salário. Pode parecer preciosismo, já que qualquer um entende que a tal renda se refere ao dinheiro que recebemos em troca da força de trabalho, mas na prática a diferença é bem grande.

O salário é comprometido pela inflação porque com os preços mais altos o trabalhador gasta mais para comprar tudo o que precisa. Os preços sobem por uma relação complexa de fatores, com alguns pontos chaves, como os combustíveis.

Desde o fim de 2016, no governo Temer, o preço dos combustíveis é atrelado ao dólar, portanto não importa a quantidade de petróleo que o país consiga extrair, se o valor do dólar subir, como subiu, o preço aumenta. Em um país onde a maior parte dos produtos é transportada por estradas, aumentar o combustível gera uma reação em cadeia. É necessário aumentar o frete, isso encarece as matérias primas e deixa o produto final mais caro. Já o salário do trabalhador não aumenta.

A renda é outra coisa. É composta por tudo que a pessoa receber. Pode até incluir um salário, mas também tem outras fontes, como o lucro de ações de quem especula na bolsa de valores e eventualmente tenha comprado ações da Petrobrás. Ao manter o preço do combustível atrelado ao dólar, o governo garante que esses acionistas tenham lucro muito maior do que quando a gasolina custava metade do valor atual – e alguns motoristas colavam adesivos com uma montagem tosca e chula, de Dilma Rousseff com as pernas abertas na entrada do tanque de combustível.

Pode ser incluído na renda o lucro mensal proveniente de aplicações. Essa renda vai desde uma pequena poupança, cultivada com muito suor ao longo da vida, até somas milionárias, por vezes em dólares, como os 9,55 milhões do ministro Paulo Guedes, mantidos seguros em um paraíso fiscal. Pelo menos agora entendemos por que, nas palavras de Guedes, “dólar alto é bom”. Qualquer um que lucre cerca de R$ 14 milhões com a variação de câmbio concorda com a afirmação.

Outra fonte de renda são as aposentadorias e pensões. Como as pensões pagas aos dependentes de militares, que em 2020 custaram aos cofres públicos R$ 19,3 bilhões de reais, pagos a somente 226 mil pessoas. Muitas dessas rendas superaram o teto constitucional de R$ 39,3 mil, chegando a R$ 80 mil para 77 pensionistas.

Entre quem vive de renda, é comum ter imóvel, ou imóveis, para alugar. Um imóvel, como o próprio nome diz, é fixo e estável. Não sofre influência do combustível, do dólar ou da energia. Independente das flutuações da bolsa de valores, o imóvel segue no mesmo endereço, com a mesma quantidade de cômodos, mas o aluguel varia de acordo com o IGP-M, que significa Índice Geral de Preços do Mercado, que não explica muita coisa. O Mercado, com letra maiúscula, personificado, decide. A renda aumenta a despeito do salário comprometido pela inflação.

O trabalhador não tem a renda comprometida pela inflação porque o trabalhador não tem renda. Como desemprego em alta e os empregos formais precarizados pelas reformas que prometiam melhores condições de emprego, o trabalhador tem, quando muito, um salário. Este sim, comprometido por políticas de austeridade seletiva. A renda, em geral, segue muito bem protegida.



*Nota: Falando em preciosismo dos termos, no editorial de ontem o jornal O Globo afirma ser "um absurdo acusar Bolsonaro de genocídio". Segundo o jornal, "palavras não são inócuas (...) devem ser usadas com a maior parcimônia". De fato, não são inócuas, e por isso mesmo genocida serve a Bolsonaro como uma luva.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

xeque-mate

São Paulo, segunda-feira, 18 de outubro de 2021.


- xeque-mate - Cristina Santos - post 18 - Blog das 30 pessoas - 


título: xeque-mate

   Enquanto tocava prelúdio número 1 de Bach, o fogo a devorava de dentro para fora sem dor.
   Submersainversaemversonessejogodexadrezelafezxequemate.
   Seus olhos borboletas voltaram a voar.


Oiê! Espero que estejam bem.
Até o próximo post.
Beijos,
Cristina Santos


P.S.: escrevi esse microconto em agosto de 2016. 

sábado, 16 de outubro de 2021

Assaltos


O Ladrão - gravura de Osvaldo Goeldi
A conversa já tinha passado do ponto de novidade e repetição, caindo no abismo do silêncio. Bebiam na calçada, as máscaras penduradas nas beiras das cadeiras, os olhos se jogando em outras direções. O garçom pescava em pé, esperando os últimos fregueses terminarem para que pudesse voltar ao quarto apertado que dividia com outros colegas de turno. Enxugou as mãos no avental e decidiu contar mais uma vez o número de garrafas vazias no deposito. Foi nesse instante que um homem se aproximou da mesa e anunciou o assalto, o que foi o motivo para que o Gerson despertasse do poço da embriagues e lembrasse:

- Uma vez fui assaltado só porquê não ouvi minha intuição.

Os demais se inclinaram em sua direção, encheram os copos, procuraram pelo garçom para mais uma rodada. Como não o viram, voltaram ao Gerson, abstraindo a presença do assaltante.

- Estava caminhando ali perto da estação e vi dois caras vindo em minha direção. Uma voz me disse: “eles vão te assaltar”.  Apertei os olhos e o que mais dava para apertar e passei impávido entre os dois, que nem sequer me notaram. Olhei pra trás pra ver se estavam me observando, mas como não era o caso, suspirei.

O assaltante fez mais uma vez seu refrão, mostrando a arma que carregava por baixo da blusa. Sua voz saiu fraca, como se aquela fosse sua estreia na profissão. O Mário pediu um segundo e lançou um hã? ao narrador.

- No que voltei a caminhar, vieram dois jovens e disseram: iug oiuhy uh i ij.

- O quê?

- Foi o que eu perguntei: o quê? E eles repetiram: iug oiuhy uh i ij. Aí o meu vício de fonoaudiólogo quis que eu respondesse: articula melhor, mas vi a faca e entendi. Pediram a carteira, só que eu me encontrava zerado, estava de passagem, dando um tempo na hora do almoço. O maior me olhou bravo e falou alto: iug oiuhy uh i ij.

- O quê?

- Foi o que eu perguntei: o quê? E ele repetiu: o celular, porra. Eu tinha sido roubado recentemente, então andava com um celular meio podre, muito usado, preso com fita isolante. Entreguei e os dois saíram correndo. Deram uns seis passos e voltara atrás: vá se fuder. E devolveram minha velharia.

Brindaram. O assaltante pegou os celulares que estavam sobre a mesa, informando que com ele seria diferente, que com ele não tinha história. O que foi o mote para que o Nove (apelido de Ivanov) começasse:

- E eu que fui assaltado duas vezes pelo mesmo ladrão?

Os dois da mesa mais o assaltante suspenderam a respiração e miraram a atenção sobre o Nove, que molhou o bico e prosseguiu:

- Era moleque, tinha acabado de perder meu primeiro emprego, que era um tempo de contrato. Vinha calado no fundo do ônibus, pensando em como arranjar uma grana pro cinema, quando um homem sentou do meu lado e perguntou se conhecia alguma delegacia no caminho daquele ônibus. Eu estava distraído, pensando uma besteira qualquer e respondi que não. Então ele perguntou onde era o ponto final e se eu desceria lá. Quiser ser solícito e fui retribuído com a informação: acabei de sair da cadeia, tenho uma filha pra criar, não consigo trabalho e vou fazer uns corres. Gelei quando vi a arma na cintura, ele vigiando para saber que não era ele o vigiado. E perguntou: por acaso você tem uma grana aí? Como eu disse, tinha acabado de ficar desempregado, então minha carteira era mais vazia que minhas expectativas de futuro. Mostrei minha penúria pra ele, que agradeceu minha prontidão e saltou no próximo ponto.

- Aí conta como assalto?

- Ele não levou nada... - comentou o assaltante, tomando um gole da cerveja e recolhendo as carteiras.

- Numa situação de violência sempre se leva, no mínimo, a dignidade - pontuou o Nove.

Todos concordaram e brindaram mais uma vez. O assaltante puxou para si o prato de queijo que jazia na mesa e engoliu com pressa alguns pedaços, sem dar conta de que o garçom o avistara e providenciava auxílio policial.

- Aí um ano depois – prosseguiu o Nove – estava mais uma vez desempregado, recém ingresso na faculdade de Letras e mais desesperançado do que no ano anterior. Peguei um ônibus pra ir à casa de um amigo da época e me perdi no último banco, lendo as crônicas do Machado. Vai daí que um cara sentou ao meu lado e perguntou qual era o destino daquele itinerário e se eu saltaria no ponto final. Fechei o livro e desejei me reapresentar, relembrá-lo de nosso passado em comum, dar um toque sobre a reprodução do seu texto, como aquilo poderia se cansativo. Mas o medo me paralisou. Daí seguiu igual, contou da cadeia, da filha. Não sei por qual impulso respondi que o entendia, que também estava desempregado e tinha uma filha. Mentira, evidente, naquela época acho que eu nem sequer estava com alguém. O ladrão se espantou pelo fato de eu ser tão novo e ser pai e quis saber mais, ao mesmo tempo que abria minha carteira e tirava as duas notas de dez que eu tinha.

- E então - questionou o assaltante, ansioso em saber o final do caso.


- O nervosismo e minha vocação de mentiroso fez o resto. Dei um nome (que peguei de uma vitrine de loja pela qual passávamos diante naquela hora), data de nascimento, aparências físicas da pequena... dei todas as fichas sobre a vida bonita, porém miserável que eu arranjava para meu início de vida adulta. O cara respirou fundo e deu a ideia: ô, vamos ali comigo fazer uns corres juntos, a gente divide. Precisei acrescentar um sogro investigador pra me safar da piedade do ladrão, que me devolveu dez reais antes de descer, me abençoando: cuida bem da sua pequena e se cuide.

Os três ergueram um último brinde e beberam de uma vez, ignorantes da fuga do assaltante e da viatura que o procurava. Os olhares se perderam mais uma vez rumo ao nada, enquanto o garçom sonolento guardava as últimas cadeiras e sonhava com um amor que deixou em sua terra.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Iluministas

Cada tecla do piano
É uma parte do trilho
Se não te toco te dedilho

Invento palavras novas que lhe dão gatilho 
Organizada, mente, gosta que desorganizo

Barman é Bauman 
Vendedor de sonho é um livro

E se isso é um concerto
É você que me desconcerta
Um arranjo num octoecho
Muda toda orquestra

Sou desabafo  
Harmônica, até você desatina
Quando era pagão 
Tu foi bizantina 

Demasiado errados quanto Licínio 
Fomos derrotados por Constantino 
Só renascemos depois do romantismo
Éramos sol hoje somos iluminismo



sábado, 25 de setembro de 2021

27 de julho de 2021

Hoje é dia 25 de setembro, data de eventos importantes como o início da Guerra de Independência de Moçambique (1964), a Proclamação da República Democrática Popular da Argélia (1962) e a assinatura da Convenção sobre a Escravatura na Sociedade das Nações, em 1926. Para outros marcos históricos, pesquisar a data no wikipedia (de onde extrai essas informações). Além disso, dia 25 é o dia que escolhi para escrever neste blog, o que talvez possa causar surpresa à/ao leitor(a) a data que dá nome a este texto

Dia 27 de julho também testemunhou fatos relevantes como a prova de que a insulina regula o açúcar no sangue (1921), a assinatura do acordo para o armistício da Guerra da Coréia (1953) e o nascimento da ex-vereadora Marielle Franco (1979). Há outras ocorrências históricas também (vai lá ver na wikipedia). Contudo, do ponto de vista deste que vos escreve, houve um nascimento muito importante no dia 27 de julho do ano de 2021: o da minha filha Nailah. Há exatos 60 dias. O que não quer dizer que ela já tenha completado dois meses, uma vez que julho e agosto têm 31 dias. Logo, faltam ainda dois dias para o seu segundo mesversário. 

Enfim, hoje venho aqui resgatar seu processo de vinda à luz. Posto, que isso não se deu sem algumas peculiaridades. E, antes de começar, preciso destacar logo de início uma pessoa sem a qual nada do que será narrado nas próximas linhas seria possível, minha companheira e mãe da Nailah, Luciane. 

Nailah começou a chegar, parecendo materializar a letra de Gonzaguinha, isto é, como se o fosse o sol desvirginando a madrugada e fazendo Luciane sentir a dor dessa manhã, nascendo, rompendo, rasgando. Ainda que não tenha sido nada tão imediato assim, como partos de novelas. Às cinco da manhã ela começou a sentir, segundo ela, algumas cólicas. Que lhe incomodaram nas primeiros momentos do dia.  

Já hora do almoço, as cólicas se intensificaram, tomando a forma das tais contrações. O que notamos após comprar um buscopam que só serviu para termos certeza de que era o trabalho de parto de fato. Porque não adiantou, absolutamente, de nada. 

Com o passar da tarde, mentalmente preparada para o pior, Luciane enfrentava as dores crescentes do parto, não sem sofrimento, mas com muita determinação e serenidade. Enquanto eu intercalava a arrumação da casa, com um apoio moral a cada contração. Era uma lavada de louça, seguida de uma massagem, intercalada, com a passagem de pano na cozinha, e um suporte na hora dos picos de dor.

Por volta das 17 horas, o trabalho de parto parecia entrar em sua reta final, saiu o tampão e a bolsa, finalmente se rompeu. Não era o caso de sair desabalados para o hospital (como nas novelas), mas já era hora de começarmos a nos encaminhar para lá. Liguei para um amigo, também chamado Thiago, que viria de não muito perto. Mas confiando que o tempo seria suficiente para chegarmos na maternidade. Até porque, até ele chegar, Luciane tomou banho, se arrumou e botou um vestido; logo depois, trocou de roupa, pois esta se sujou, e ainda pediu, com muita tranquilidade, que passasse hidratante em suas pernas. O que são prioridades, afinal, para quem lamentou ter parido, sem ter feito os cílios, que estavam agendados para aquela tarde. 

O Thiago chegou a tempo, com uma performance, digna de um piloto de corrida, ainda que, seguindo, sem dúvidas, todas as leis e regras de trânsito. Descemos (moramos no oitavo andar) e entramos no carro, com a Luciane alertando-o para os gritos que daria ao longo do trajeto. 

Num dado momento da viagem, Luciane disse que achava que Nailah estava nascendo. Mas, eu nem olhei pra ela, falei que tava tudo bem e que já, já, chegaríamos. Tava tudo certo para chegarmos a tempo no hospital. 

Se não errássemos caminho

Logo após acharmos a rota correta (o que nos atrasaria não mais de 10 minutos), Luciane repetiu que achava que Nailah tava nascendo, eu nem olhei pra ela, fique conversando com o Thiago, como se nada tivesse acontecido, só disse que tava tudo bem.

 

ATENÇÃO: o diálogo a seguir não foi reproduzido com precisão, por motivos óbvios, mas vou me servir da licença poética, mesmo sem ser escritor, ainda que me desculpando, por não ser escritor, como diz outra música que fala sobre cartas de amor. 


Alguns segundos depois, Luciane exclamou: “Nailah tá nascendo!”, ao que eu falei (me fazendo de bobo): “O hospital já está ali, 200 metros, vamos chegar”.

“Olha”, ela disse; e eu me virei e olhei. Nailah já se encontrava com metade do seu corpo para fora (do corpo da mãe, não do carro). Eu tomei um leve choque e fiquei olhando aquela criança que, após alguns segundos, chorou. Fato que só me toquei da importância alguns minutos depois.

Luciane me tirando de um transe, falou: “Pega”. E eu a tomei, suavemente, em minhas mãos, apenas metade do seu corpinho ainda.

Até que Luciane atentou para o fato de que a outra metade de Nailah ainda estava dentro dela e salientou: “Puxa”, e terminei de conduzir sua vinda à luz. Fazendo o Thiago (o motorista) saber que ela tinha nascido de verdade, que não era só desespero da mãe. 


Rapidamente, chegamos ao hospital, porque, de fato, ele estava perto. Entreguei Nailah à Luciane e fui à recepção, não sem correr e anunciar que minha filha tinha nascido no carro. Eu, com um leve desespero (pois é, Capital Inicial...), e uma enfermeira (ou médica… não sei), com toda a calma do mundo, me perguntou se a bebê havia chorado, eu disse que sim e ela respondeu que eu podia ficar tranquilo, que tava tudo bem. 

E, como nos filmes, ou mesmo nas novelas, sei lá, uma equipe do hospital chegou ao carro retiraram Luciane, com Nailah no colo, enquanto fui preencher a ficha hospitalar. Foi o tempo certinho de subir até a sala de parto, para terminar o serviço e cortar o cordão umbilical. 

Mentira, esse final foi só para dar um grand finale, pois o parto só termina mesmo quando nasce a placenta (pelo que me disseram no cartório, no dia seguinte), mas neste ponto, já havia dado meus préstimos de parteiro, estava cansado. Não sei se vocês sabem, mas conduzir um trabalho de parto é muito extenuante. E esses procedimentos finais ficaram a cargo das profissionais da maternidade mesmo. 


P.S. No mesmo 27 de julho, na mesma cidade do Rio de Janeiro, outra criança nasceu num carro, só que num táxi, o que fez com que nas semanas seguintes ao nascimento, quando falávamos que Nailah nasceu no carro, muita gente perguntasse se fosse a história do táxi, que passou no telejornal local. 

 

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Falta alguma coisa

Nem o mais criativo autor do gênero realismo mágico imaginaria, no início de 2020, uma quarentena tão longa e cansativa. Vicente, que não faz ideia do que seja realismo mágico, imaginava alguns meses de descanso em casa, como todos os seus companheiros de trabalho no escritório.

Depois de alguns dias, algumas semanas, alguns meses, as atividades do escritório já haviam sido adaptadas para o home office. Vicente, que além de avesso à tecnologia era responsável por atividades presenciais, esperou. No escritório fazia pequenos reparos, reposição de materiais, serviços bancários. Tudo o que o home office dispensava.

A secretária já havia colocado todos os salários no pagamento automático do banco. Parece que a estagnação salarial dos últimos anos facilitou o trabalho dela. Foi um pouco antes de pedir demissão e aproveitar a onda de delivery para se dedicar à culinária.

E foi assim que o escritório permaneceu por um ano e meio, no modo automático, até voltarem às atividades presenciais, depois das vacinas, ainda com muito álcool gel e máscaras. O clima era de descontração. Prevalecia o alívio por sair de casa e interagir melhor com as pessoas, mas pairava em todos a sensação de esquecer alguma coisa. Brincavam que devia ser um efeito colateral da quarentena, a ser estudado.

Vicente, em casa, aguardava por novidades. Tinha a certeza de que alguém do escritório entraria em contato quando fosse necessário voltar ao trabalho. Enquanto isso, permanecia em casa, nas férias mais longas que já tivera na vida, desde que começou a trabalhar, aos 14 anos, quando o país também vivia uma crise econômica e caos político, no início dos anos 90.

A rotina entediante era abalada por um SMS. Vicente corria para ver. Geralmente era a operadora de celular oferecendo promoções e vantagens. Para falar com quem? Sequer lembrava da última ligação pessoal, que não fosse para interagir com um robô ou negar serviços oferecidos por telemarketing.

Nos últimos meses, ele fazia de uma ida ao mercado um grande acontecimento. Era a motivação para tomar um banho, colocar a melhor roupa, borrifar água de colônia e fazer a barba, ainda que o capricho fosse escondido pela máscara.

Do outro lado da cidade, os funcionários nem perceberam que os meses de clausura ensinaram que todos eram capazes de conciliar tarefas manuais com o trabalho. Era possível trocar uma lâmpada, preparar o café, abastecer as impressoras com papel, regar plantas, fazer pequenas compras; só a sensação de que estavam esquecendo alguma coisa permanecia no ar.

Tanto tempo de espera fez Vicente se dar conta de que após vários anos trabalhando com as mesmas pessoas, sequer conhecia a maioria delas. Teria trabalho para encontrar o telefone de alguém do escritório, além do que não gostaria de incomodar alguém, com quem não tinha muito contato, com uma ligação. Achou prudente esperar.

Voltar ao escritório não era bem uma vontade. Sabia que era necessário, que precisava do salário, que interromperia uma rotina extremamente cansativa – nunca imaginou que não fazer nada cansava tanto –, mas tinha a certeza de que não era hora.

Ele, que não foi incluído em nenhum dos inúmeros grupos de WhatsApp do escritório, não tinha dúvida de que quando voltassem a trabalhar entrariam em contato. Aquele pessoal não saberia se virar sem ele. Sua importância no dia-a-dia era inquestionável, não passava um dia sem ser requisitado dezenas de vezes por aquelas pessoas que não desgrudavam do computador. Jamais conseguiriam se virar sem ele.

Depois de alguns dias, algumas semanas, alguns meses, as atividades do escritório já haviam sido adaptadas para o trabalho presencial novamente. Vez ou outra alguém lembrava daquela estranha sensação de que faltava alguma coisa.