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terça-feira, 6 de agosto de 2024

Ônibus 4010-32 (cont.)

Este texto tem uma primeira e uma segunda parada; você pode encontrá-la neste mesmo blog no dias 6/6 e 7. E, também, pode ficar à vontade para pegar o ônibus 4010-32 nesta parada.




Capítulo 1 


Queria dormir e acordar bem, disposta, tomar café da manhã sem pressa, ter tempo para fazer um suco de laranja, ir à padaria e comprar pão, voltar e, então, ter uma refeição decente — cena de novela, de comercial da década de 90. Queria fazer a saudação ao sol, mesmo que o céu esteja cinza.


Odeio acordar já na hora de sair para trabalhar, levantar pensando em quanto preciso correr para não perder o ônibus, fazer tudo às pressas: banho rápido, amarrar o cabelo, comer qualquer coisa, não dá tempo de pôr a lente de contato, roupa sem combinar, é escovar os dentes e sair sem um batom sequer, com os brincos sacolejando na bolsa, para quando o tempo resolver respirar. Respirar. Corre! O ônibus virou na esquina, corre, o ponto está a quinhentos metros, corre, e tinha que ser uma subida.


Perde o ônibus, perde a correria toda, respira no ponto de ônibus em pé por mais trinta minutos, olha o celular, avisa a chefia, não avisa, reza para ela também se atrasar.


Começa a adiantar o trabalho pelo telefone, mas ainda não é a hora, ainda não devia começar. Começa a rever aquele início de dia: o que precisa mudar? Acordar mais cedo, como? Dormir mais cedo, acordar às seis, dormir às dez, não mexer no celular quando já estiver deitada, jantar coisas leves, parar de trabalhar através de telepatia — não é funcional. Ficar na meia-luz ou no breu perfeito. 


Parar de sonhar!


E não estou falando de sonhos de planos e desejos; estou falando da cabeça que começa a interagir com as demandas do dia antes mesmo de abrir os olhos. Eu sonho com a discussão no trabalho sobre o cachorro novo que o estagiário trouxe e que mija na cadeira do chefe, que chora para a colega do RH. O estagiário é um rapaz que conheci no fim de semana, em uma balada; a colega do RH é minha psicóloga e o chefe, meu irmão mais novo. No meu trabalho, não há estagiário! Se alguém levasse um cachorro, eu só iria rir. Que discussão seria possível sobre um cachorro em um escritório no décimo quarto andar?


Já sonhei que estava em um filme também. Era atriz, mas as bombas que deveriam ser falsas eram verdadeiras. Eu e o elenco do filme, sobre a Segunda Guerra Mundial, que incluía minha irmã (essa sim atriz), uma amiga dos tempos de faculdade, dois ex-namorados (que eram a mesma pessoa, mas apareciam com rostos diferentes a cada hora), e duas colegas de trabalho, começamos a investigar quem trocou os artefatos.


sábado, 6 de julho de 2024

Ônibus 4010-32 (cont.)

Este texto tem uma primeira parte; você pode encontrá-la neste mesmo blog no dia 6/6. Mas também pode ficar à vontade para pegar o ônibus 4010-32 nesta parada.


Primeira parada

Desenhou com a ponta dos dedos a silhueta na capa do livro, um ato de amor, sabor em iniciar um novo caso; chegava mesmo a passar a ponta da língua nos lábios, não premeditado, os dedos descendo pela lombada do objeto, agora segurando firme para que a outra mão dedilhe o outro lado das folhas livres.

Alana, que não gostava de escolhas: Alana, que todos os dias pegava o mesmo ônibus, que todos os dias sentava no mesmo lugar, que todos os dias fazia a mesma refeição — café preto, sem açúcar, com pão amanhecido de ontem — que todos os dias lia no 4010-32. Essa Alana tinha prazer em escolher histórias.

Por onde escolher livros? Pela capa? Pela quantidade de folhas? Uma indicação… uma crítica…? Uma escritora da qual já se gosta… um autor já conhecido?

O último livro tinha sido um desafio para Alana. Detestava o jornalista que o escrevera, achava-o de uma dramaticidade burguesa medíocre, mas foi traída por sua curiosidade quando um colega da faculdade colocou a obra à sua frente: "Este, sem dúvida, é o livro da minha vida". O que poderia haver depois disso? Qual preconceito ao jornalista a transportaria para longe da brochura entregue? Entregue, foi como ela sentiu o colega, completamente entregue, desnudo naquelas palavras/letras do miserável.

Sua reação foi perdoar o autor e abraçar sua obra, tentar desvendar o livro pela capa e depois mergulhar história adentro.

  .... continua

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Ônibus 4010-32

Ponto de Partida

Alana subiu no ônibus com o pé direito. Gostava de seguir preceitos de sorte, como se fosse um joguete, algo que não necessariamente fazia bem. Mas quem poderia afirmar com exatidão?

Era comum ela ser a terceira ou quarta passageira a entrar no ônibus 4010. Também era comum conseguir sentar no quinto banco, do lado direito, na janela. Infelizmente, era comum que, no ponto de saída do 4010, o ônibus já ficasse cheio e, em poucas paradas, lotado. O sacolejar do ônibus fazia com que o sono interrompido às 5h da manhã quisesse voltar ao corpo, contrastando com o brilho das telas de celulares, enviando os primeiros "bom dia" e dando início às conversas diárias.

Para Alana, o momento era de leitura. Embalava viagens nas horas de deslocamento até o trabalho e era tão precioso que a moça caminhava tranquilamente a distância de cinco pontos  da parada mais próxima de sua casa, na necessidade de ler pela manhã e conseguir o almejado lugar sentado, que todos os passageiros sonham. Por algum tempo, ela leu de pé; as inviabilidades eram diversas, como segurar o livro e segurar-se, ler com os braços dos outros cortando o campo de visão e, principalmente, a agressividade ao passarem por ela, em um "com licença" mal-educado, como se ele estivesse comendo carne em um restaurante vegetariano.

Começou caminhando três pontos para trás no trajeto do ônibus, o que lhe possibilitou sentar em algum assento do corredor. Três pontos não eram assim tão absurdos; o dia já estava claro no verão, na primavera e em parte do outono, mas de todo modo o movimento no bairro já era seguro, o que mais importava. O problema é que nem sempre conseguia o seu desejado lugar sentada e tinha que disputar o corpo a corpo quando o ônibus chegava na parada. Mentalizava profundamente que o motorista a escolhesse e parasse com a porta aberta diante dela, uma honra. E assim foi por um tempo, até que um dia a insustentabilidade da empreitada chegou. Foi quando Alana, lendo um capítulo efusivo, daqueles que se precisa tomar fôlego, percebeu seus ombros pesados com o olhar de um homem, lendo suas linhas particulares. Deste dia em diante, estava decidida a sempre pegar o ônibus no seu ponto de partida e garantir um local mais discreto para suas leituras.

... continua


sexta-feira, 6 de maio de 2022

Marés

Silêncio nos dedos.

Os textos relidos em goles,

tragados esparsamente.

Eco que escorre a cada sílaba. 

As pálpebras se contorcem

as lágrimas pingam sobre a pele. 

O gosto de mar. 

A língua introduzida no veio sonho acordado. 

Quente.

Enquanto há luz reflexo.

Horizonte.

Tanto espaço, tanto seio pele.

Tanto peito abraço.

Tanto cheiro completo.

Se contorce e espreme.

Se renova e sente.


sábado, 6 de março de 2021

Conexão

Somos fantasia, corpos sem beijos,
desejo.

Inalamos o ar, buscando o que seria o gozo pele, suor e saliva.

Devaneios de encontros.
Nossos olhos miragem: mãos, seios, bunda, bocas, peito.
Infinitos em abraços vazios.

Somos movimento no ar.
Reflexo lânguido do que queremos.

Seus cabelos se emaranhado nos meus dedos.
Meu cheiro preenchendo seus poros.
Nossa papilas se molhando,
nos envolvendo.
Sexo de nossos corpos inteiros.

Vivemos a realidade,
conectados em encontro,
Aquecemo-nos.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

A descobertas das Tâmaras

Foi dia vinte três de dezembro de dois mil e vinte, eu experimentei tâmara pela primeira vez. 

Pode ser que não tenha sido “a” primeira vez, porque é comum esquecermos de tudo que provamos, pelo menos para pessoas que têm o hábito de provar. Sim, esse é um grande divisor de personalidades: pessoas que abrem a boca para o desconhecido e as que a fecham, para uma nova cor, textura e sabor. 

A tâmara é um teste perfeito para saber qual tipo de pessoa você é. A fruta geralmente é vendida desidratada, é mais comum encontrá-la em armazéns cerealistas do que nos mercados e sacolões, tem cor marrom escura e seca fica com a aparência enrugada. Minha mãe ao me apresenta-la fez o prenúncio mais impalatável possível:  "parece uma barata". O que não nego, parece mesmo. Por isso mesmo, é perfeita para o teste de personalidade. A gente descobre os alimentos pelos nossos cinco sentidos, talvez seja um dos poucos momentos que mais utilizamos todos eles. Na parte visual a Tâmara foi reprovada. 

Já a audição de um alimento, como seria? Aqueles tapinhas que damos com as pontas dos dedos para saber como reverbera lá dentro, se tem suco ou semente, ou quando balançamos a fruta próximo aos ouvidos. Bem, a tâmara fica prejudicada, pois retirada a sua água natural perde-se um pouco desse elemento, mas mesmo assim você não deixa de tentar. 

 O cheiro é bem fraco, quase inexistente, mas tem um leve odor adocicado. O que gera um bom prenúncio, para os amantes de açúcar, fui descobrir depois, a fruta é indicada na substituição de chocolate em dietas. 

E posso dar meu testemunho sobre essa parte: comigo funcionou direitinho. Já cheguei a comer uma barra de chocolate sozinha em poucos minutos, uma chocolatra, inveterada. Quando as pessoas ficavam assustadas com meu consumo de doces, em especial chocolate, eu tratava como algo indissociável a minha pessoa, um traço de personalidade. Nunca fiquei um só dia sem um bombom, ou bolo com cobertura, e confesso que geralmente consumia os dois e muitas vezes um pouco mais. Pois, consegui bater o recorde de vida, de dez dias sem chocolate, comendo uma tâmara por dia no lugar. Funciona! Inclusive na TPM, nesse caso, subo o consumo para duas tâmaras. 

Mas esse já é outro teste, super recomendo. Voltando ao nosso teste de personalidade, para avaliar uma comida pelo tato existem duas etapas, o por dentro e o por fora: a tâmara por fora, como já disse tem aquela característica de fruta desidratada, é como uma uva passa, mas o que a faz parecer a barata é sua casquinha que lembra o exoesqueleto do repugnante inseto, mas ao abrirmos a fruta sua textura interna é fibrosa e macia. Se você colocar ela inteira na boca é como se colocasse uma boa quantidade de chocolate na boca, lembra aquele momento que ele começa a derreter lá dentro? Essa é a textura da tâmara. 

O que nos leva ao sabor: a primeira vez que comi Tâmara, achei tão doce que comi meia, eu achei doce! A pessoa que come chocolate, mais do que bebe água. São os mistérios da degustação. 

 Fico pensando se tivesse me fechado a essa descoberta, abrir a boca aos alimentos significa se abrir para novas experiências e descobertas. Deixar de consumir tantos doces faz bem para minha saúde, mas não era algo que eu estava buscando. Eu só me permiti experimentar. E foi uma descoberta maravilhosa! 


quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Onde vivem as decisões? Parte 3 - FIM

Olá, que haja vacinas em seu 2021!

Este texto tem 3 partes, está é a última, aqui a primeira e a segunda parte. Espero que a leitura seja prazerosa!


....

Donato se espreguiçou longamente na cadeira. Um sorriso fino nasceu dos seus lábios, falaria se quisesse, se quisesse, gostava de ficar saboreando as palavras na boca, as certas, as escolhidas, criadas na assembleia mental que presidira. 


Deixou o mar encher as narinas, a areia fofa brincar com os dedos dos pés, espreguiçou uma segunda vez ainda mais longamente sentado na cadeira de praia; de onde estava via na beira da água, a sobrinha brincando com a vovó e o irmão, Romeu, caminhando com Regina na areia, indo sempre à esquerda, se afastavam...


Sorriu um riso leve, sentiu tanta culpa por usar o desenho da criança para rabiscar as decisões que comprou de reposição um pacote de 100 folhas sulfite e uma caixa de lápis de cor. Não sabia se o desenho havia feito falta, não sabia que fim a arte dos cálculos de danos e ganhos tinha tomado. Qual fim teria tomado?! Não importava, foi o certo a fazer. 


O certo a fazer! Seu riso, agora, transbordava. O “certo a fazer?” impressionava como o que era derradeiro na sentença não eram as palavras que a compunham, mas a acentuação final. Não são nem três palavras que tiram o sono, que dão dor de cabeça, que causam briga, é apenas um sinal: uma interrogação ou as reticências infinitas; o quão é difícil uma exclamação, um ponto final. 


Marina, noiva de Donato, mantinha um olho nele e outro no picolé de uva que saboreava. Qual era afinal a graça?! Sabia que o noivo pensava para dentro, mas o que tanto ria de pensar? Ela quem tinha sido contra no início, virou de lado, quando o companheiro decidiu trocar de emprego. 


O trabalho de jornalista de revista sobre agronegócio, não era ruim: salário razoável, era na área de formação, CLT ( o que é cada vez mais raro), mas que tema mais chato! Pesquisar e escrever sobre tipos de bois, veterinária e tratos, a parte de economia era interessante, entretanto o tédio o consumia.   


Então, se o interesse era economia que trabalhasse com economia, ou política, ou esportes. Queria tentar, queria falar às pessoas, tocar corações e mentes.  


O céu  e o mar se encontram no infinito azul. Podia-se sentir a chuva que vinha pelo cheiro, pelos poros. 

  

Quando Romeu voltou, só, chamou Hermione, a filha, dona dos rabiscos da folha para almoçar. Era melhor sair da praia antes da revoada.


domingo, 6 de dezembro de 2020

Onde vivem as decisões? Parte2

(você pode ler a primeira parte dessa história neste link: parte1, mas se tiver preguiça, pode começar por aqui também!)


Romeu entrou na cozinha e começou a contar mentalmente quantas latinhas de cerveja tinha entornado na noite, não era possível serem tantas, tampouco havia misturado com destilados. Então, não estava bêbado, seu subconsciente dançava ciranda, alegre, mas não estava tão afetado para criar miragens.


Mesmo assim, se aproximou pé ante pé da mesa da cozinha, ficou um tempo parado, olhando incrédulo: o irmão mais velho dormia sobre o desenho da filha, o lápis ainda  na mão, repousando.

 

O sino da igreja badalou seis da manhã, ele forçou a vista, entortou bem o corpo em uma posição idílica e leu aos sussurros: 

pode ser bom

- enfrentar as incertezas

- aprender a lidar com situações como essa

- escutar minhas vontades  

pode ser ruim 

- me expor demais 

- seguir o que os outros pensam 

- me iludir” 


Romeu deu um sorriso terno por sobre os ombros de Donato. Por um momento pensou em sacudi-lo e conversar; mas queria enganar a quem? Donato lá falava o que pensava!? Quis escrever uma mensagem, mas o irmão podia se sentir invadido. 


Chegou ao quarto com as pernas trançando, imaginando a filha brigando com o tio pelo roubo do desenho. E adormeceu pensando: quando mesmo a pequena voltava da casa da mãe… que saudade! 


Quando o sino badalou as oito horas, Mirna resolveu que era hora de cutucar Donato. Ela estava acordada a trinta minutos, já tinha lido a lista, já tinha comprado o pão e a água do café começava a ferver. 


Que menino! Sentiu pena do filho, pensou que talvez o cheiro do café coado pudesse ser um despertador melhor. Arrumou a mesa envolta dele, esticou a toalha, colocou os pães no prato, tirou a manteiga da geladeira e trouxe duas xícaras pequeninas. Sabia que Romeu, só se levantaria pro almoço, seriam eles dois, ela e Donato, naquela manhã.


Ela tinha conselhos a dar, poderia falar com algumas pessoas que considerava importantes para serem ouvidas nestes casos de indecisão, marcar umas conversas para filho. Mas primeiro o café, despejou a água quente e abanou a fumaça com a pontinha dos dedos na direção de Donato.


CONTINUA em 06/01/2021.

Parte final.


domingo, 6 de setembro de 2020

Onde vivem as decisões? Parte1

Donato passou a língua na ponta dos lábios, o gosto áspero de lápis mastigado fazia com que pensasse em pegar a terceira cerveja, mas o sino na igreja badalava quatro da manhã. 

Era tarde! Ou era cedo? 

Colocou os cotovelos sobre a mesa, apoiou a cabeça nas mãos e debruçou o corpo para frente, assim os olhos ficaram bem próximos da folha sulfite, apenas três linhas preenchidas em cada coluna e as cores fortes do giz de cera da sobrinha que após alguns rabiscos desistira do desenho e abandonara a folha no chão. 

Onde vivem as decisões? 

Ele não sabia. Pegou a folha do chão quando pisou em cima dela ao sair do quarto, ainda era uma da manhã, não tinha encarado o acontecimento como uma insônia, só deitou e não conseguindo dormir levantou, caminhou pela casa, foi no banheiro, e depois resolveu abrir a primeira latinha, sentou na mesa e colocou a folha na sua frente. 

Foi depois de uma hora que entendeu que não conseguiria voltar a dormir, as vozes das pessoas habitavam a sua cabeça, era como se a namorada argumentasse por cima do contra argumento do irmão que respondia a explicação do pai que era contra o apoio da irmã que distinguia da visão do tio. Então decidiu usar a folha, com o desenho inacabado da sobrinha, para fazer a tal lista de prós e contras. 

Donato não gostava de decidir, gostava da decisão, entende? Gostava de ser um homem de poucos palavras, de pronunciar o sim ou o não seco, sem os rodeios que fazem a língua secar ou ficar com gosto de lápis mordido. 

Pegou a terceira cerveja no congelador, em breve o irmão mais novo chegaria da madrugada na rua, bêbado e feliz, ou a mãe acordaria agitada pensando no café da manhã da família, e ele de cuecas sentado na mesa da cozinha, uma lata de cerveja na mão e uma folha desenhada com sua patética lista de "pode ser bom" e "pode ser ruim".  Não gostava de decidir. 

As vezes pensava mesmo que decidia, sentia aquele calor no peito da certeza, mas até conseguir fazer sair pela boca, era obrigado a engolir a seco outro pedido de consideração de algum fator importante que alguém lhe trazia. 

CONTINUA em 06/11/2020.


sábado, 6 de junho de 2020

Acordares distantes


Quando o isolamento começou foi o incio da saudade, da coragem.
A gente escolheu seguir por casas diferentes, por dias distantes, por ligações de vídeo em meio ao barulho de silêncios.
E cada acordar se torna abraço do que somos juntos. 

      10h13

O amanhecer

veio no sussurro
das palavras.
Do bom dia
do café
prometido
adiado.
Um acordar de
gosto
compartilhado
nos desejos atos:
das grades tombadas,
da simplicidade
gingada
passeando
entre danças, transas.
Amanhecendo em
risada.




Fabrício Zava e Renata Cirilo Projeto #aoamor

terça-feira, 6 de março de 2018

A Louca


Tua vibração pulsa, percorre o chão é absorvida pelas papilas das plantas dos pés. Os tambores temperam a carne, amaciam no balanço.

Não é perfume de butique é nosso cheiro de suor movimento.

Desfila. Desfila sim. Olha nos olhos estranhos que te encontram.

Canta com a boca dos outros, a saliva coletiva derrete os pudores.

No balance dos jogos de ritmo improvisado, é calor, meu corpo derretendo em gostos, tua língua refrescando os desejos.

Nas voltas das bundas, dos nossos braços, no meio da multidão de olhos sorrisos, a gente.

Ao som do surdo, do toque crescendo embalando corações, teu compasso firmando minha composição.

Não é procura é encontro, boca sem dizeres. Achamo-nos.

sábado, 6 de maio de 2017

Acordares - 5:31

Era vazio no parado do dia.
O silêncio inundado.
Não dormia quando o sol entrou.
O amanhecer veio aos olhos estatelados.
Aquela hora, dia preenchendo noite,
sem ser.
O dia seria dia, era determinado, fato.
Ele sofria do não ser.
O corpo sentia o cobertor até as fibras.
Aspirava o por menor
de grandezas suas.
Fazia frio, esticava pernas.
Pensamento fundo que os olhos davam.
A pele brilhava alinhada.
Expirava orgulhos outros.
Emaranhados desejos do não

ser. 


sábado, 6 de agosto de 2016

Soluções Práticas - Parte 6

Os monitores chiavam estrondosamente a falta do sinal perdido. A parede coberta deles com fragmentos daquela história, agora só tinha uma letra pichada, o "A" simbolo da resistência anarquista.

No chão os corpos das pessoas que Natasha estava acostumada a ver nas telas, todos com a cabeça escalpelada. 
O sangue formava poças e também criava letras na outra parede, uma mensagem em código ou seria outra língua. 

Pensou em voltar pelo portal, mas lhe pareceu pior conviver com o sangue do avô.  

Sentou sobre um dos cadáveres e começou a reler o diário. Podia recita-lo de tantas vezes que já tinha visto aquelas palavras. 

O cheiro de morte ajudava a afastar o sono. 

Desistiu de reler o diário, palavras que se tornaram sua família. E começou a organizar os papéis que enfiara as pressas nos bolsos, na casa do avô. A maioria tinha o garrancho torto que conhecia bem, outros de pessoas distintas.

"Não volte! Você já tem cabeças demais na sua coleção."



quarta-feira, 6 de julho de 2016

Flores e arbustos

Foi Paloma quem pediu João em casamento, ali no parque, entre arbustos e flores; e ele disse não.

Daí então é que começaram os encontros, primeiro ela começou a fazer caminhadas, o que nunca fez durante todo tempo do namoro. No inicio para encontrar João, casualmente, nas alamedas de cooper, mas acabou conhecendo Ana.

Ana fazia caminhadas já há algum tempo, anos, e foi ela quem se aproximou de Paloma, porque reparou que a novata, no esporte, não fazia alongamentos. Agora Paloma caminha porque pegou gosto e Ana porque gosta das coxas de Paloma.

João conheceu Rogério, homem casado, que o parabenizou quando ficou sabendo da recusa a Paloma. E começaram a se encontrar para caminhadas, sempre regadas a histórias de aventuras masculinas.

Gustavo não conhecia nem Ana, nem Rogério, nem Paloma, nem João, mas pediu Mário em casamento, não ali, no parque. Meses atrás, em uma boate gay. Mário, ao contrario de João, aceitou, e eles fazem caminhadas no mesmo parque que os outros, de mãos dadas.

Julia conhece Ana, Paloma, João, Rogério, Mário e Gustavo, mas nunca falou com nenhum deles, porque para seu desespero ninguém, ao fazer caminhadas, parava para falar com meninas de cinco anos, montadas em triciclos, e suas perninhas gorduchas de infância não pedalavam o suficiente para acompanhá-los. Sabia os nomes de todos porque Laura e Rodolfo, os pais, tinham um trato: um acompanhava a filha, enquanto o outro fazia a caminhada. Nessas idas e vindas acabavam acompanhando, por uma ou duas voltas, alguns dos pares presentes, mas nunca se ligavam a nenhum.

Laura ficava meio assim quando Rodolfo acompanhava Gustavo e Mário. Na vez de Laura, preferia a companhia de João e Rogério que apesar de só falarem sobre trabalho, eram simpáticos. Rodolfo é que sabia do trabalho dos dois e observava severo a caminhada da esposa.

Lisa não conhecia ninguém, nem de nome, caminhava sozinha, vinha de vez em quando.

O problema se deu quando Madre Maria resolveu fazer caminhadas. O médico, o qual não sei o nome, fora taxativo tinha que fazer exercícios. E ela começou pela caminhada, exercício difícil de fazer de hábito, depois pegou jeito e passou a corrida.

Corria atrás de todos tentando pôr as coisas no lugar, primeiro Laura e Rodolfo, o que Deus une o homem não separa, nada de acordos! Depois encrencou com Rogério, homem casado sem esposa que caminhasse sozinho; e Lisa, que andava sozinha, onde já se viu, devia andar com João, homem solteiro, se perde fácil.

Mas bagunça foi quando, depois de muito rezar e comprar tênis novos com amortecedores, ela resolveu correr atrás de Mário e Gustavo. Foi um corre-corre e quem não estava satisfeito aproveitou!

Julia ficou sozinha no seu triciclo, mas por pouco tempo: Lisa a levou pra casa.

Rogério ficou rindo, só, encostado em uma árvore. Laura encontrou Ana. Mário e Gustavo corriam a uma distância razoável de Maria, mas o suficiente para ela ver as mãos dadas. Rodolfo ficou procurando Lisa e depois se percebeu de Júlia. Paloma, que se perdeu de Ana, foi encontrar João escondido entre flores e arbustos. Ele comentou: que loucura aquela! E aproveitou para dizer que gostava de Paloma, mas que eram os homens que pediam as mulheres em casamento!

Paloma saiu em caminhada, sem responder, nem alongar, talvez tenha lançado um olhar duro de indignação. Depois, quando já estava longe, abriu um sorriso maroto, faria caminhadas com João na semana que vem, ou na semana seguinte, ou um dia desses.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Em dias de Santos Reis

Alice saiu da crisma com as palavras jogadas em um canto da cabeça profunda.


“A data representa a chegada de três reis ao local onde teria nascido Jesus, para saudá-lo em seu nascimento."

Andava pelas ruas e observava a retirada das decorações de natal, das luzes e bolinhas, das cores. Gostava das cores. 

Pensava na mãe que devia estar preparando o almoço para receber os avôs paternos. E na solidão de não ter podido levar a namorada em casa, na noite de natal.

Em dia que se proclama boas vindas, desejou a qualquer estrela cadente que atravessasse o céu azul, ofuscada pelo sol: o renascer das tradições.  

domingo, 6 de setembro de 2015

Limites

Genésia é uma senhorinha, Dona Genésia. Dona de oitenta e tantos anos, e não há nada em sua aparência que a distinga das demais senhorinhas: cabelos brancos, rugas, óculos de grau para longe e para perto, roupas de avó.
Seu diferencial era odiar os filhos, todos eles: a primogênita, os gêmeos, o seguinte, a próxima e o caçula; detestava os beijos frouxos que lhe davam, os abraços que não deixavam marca na blusa.
 Sempre fora conhecida por sua delicadeza, na juventude a pele clara, os olhos cor de mel, os cabelos castanhos claros e o gênio dócil lhe conferiram o apelido de delicadeza.
Na época gostara da alcunha dada. Aliás, por um dos muitos pretendentes.
Exercera o máximo da fragilidade feminina: em casa, quando posta para mexer o tacho de doces, sempre conseguia rápida substituição. Usava luvas. Crê em alguém usando luvas no interior quente de Minas? Pois usava. Certo é que na época todas as mocinhas de romances usavam, mas na realidade só ela ousava.
Gostava de caminhar com a sombrinha cor-de-rosa pelas estradinhas de terra; cumprimentando vizinhos, ouvindo gracejos respeitosos dos admiradores, de ganhar frutos retirados do pé, fresquinhos. Quando ia aos bailes deslizava no salão, parecia bailarina, quanta leveza! A vida era intensa nas delicadezas de ser vivida. 
Agora era avó de alguns netos, todos crescidos, que poucas vezes a visitavam. Um tanto quanto melhor: odiava eles também, mais polidos do que os pais, onde já se viu?!
Ninguém mais a chamava de delicadeza. O encanto da palavra passara de descrição de sua aparência e personalidade a definição de sua condição; as gentilezas substituídas pelo tratamento obrigatório que se deve a uma mulher de oitenta e muitos anos. 
Um dia surgiu Luca, um mocinho dono de apenas cinco anos, olhos pretos e grandes, cabelos crespos bagunçados, pele negra. Era filho de Maria, senhorita de seus vinte cinco anos, nova namorada de um dos netos insossos, era ela mesmo uma insípida, quando apresentada a dona Genésia não despertara querência, tocara lhe de leve, o beijo no rosto mal se encostou à pele envelhecida. 
A moça não era quista pela família, já tinha filho, onde já se viu? E que moleque capeta, viu o pulo que deu na vó, quase a desmonta! 
- Ah que precioso! - suspirava Dona Genésia, sem ouvir os blá blá blás dos filhos.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Rascunho de uma história infantil e/ou Desejos de Teresa

Meu desejo é que este texto seja ilustrado.  
Ao ler, por favor, tenha a imaginação de uma menina de seis anos.  

Teresa fechou bem os olhos e pensou o que desejaria. 
Não era seu aniversário e ninguém tinha lhe concedido um desejo. Apenas se pegou pensando no que mais queria no mundo.
E se apegou a pensar do jeito mais livre, não ter motivo nenhum para pensar. 
Ficou confusa sobre o assunto.  
Primeiro pensou em ser fogo. Em como seria bonito ser cor de laranja-vermelho e quanto seria divertido derreter coisas envolvidas em labaredas de muitos graus. Mas teve medo de queimar pessoas, plantas e animais. Então, desistiu de ser fogo.
Pensou que poderia ser vento e conhecer o mundo em viagens maravilhosas que faria com fantástica rapidez e também em como ajudaria as flores e os frutos a espalharem seu pólen. Mas teve medo de ser lenta e virar ar em alguma cidade distante e poluída. Então, desistiu de ser vento. 
Teresa resolveu abrir os olhos e tentar ver se à sua volta  estava o que mais desejaria.
Começou olhando as vitrines de brinquedos, pensou no gosto de comidas magníficas expostas nas prateleiras da padaria.
Foi quando seu olhar se encontrou com outro. E uma curiosidade imensa de saber o que aquela pessoa pensava a tomou, vasculhar a mente, descobrir segredos, entender sentimentos. Mas teve medo de que assim os outros seriam como ela e acabaria toda graça de conhecer pessoas novas. 
A música veio do toque do celular de uma moça e foi em Teresa que ela vibrou, a moça atendeu rápido, ligação de amor, mas Teresa entendeu o que mais desejava.
Correu e procurou outra música de celulares, de passarinhos, de buzinas, de vitrolas. O que ela mais desejava era dançar como o fogo, ou as folhas ao vento, com pessoas olho no olho. Sem medo.


segunda-feira, 6 de julho de 2015

Das aventuras da 1º vez

Virou-se na cama mais algumas vezes. O travesseiro de espuma fora do seu lugar. O corpo irreconhecível em si mesmo; estava acordada fazia horas. 
Conceição! Nome de mulher e não de menina. Quis ser Conceição por muito tempo durante os últimos meses, mas era Zizinha.
E agora, desejava voltar a ser menina, a mesma que mamãe beijava todas as manhãs; talvez ainda fosse!?
O peso nas pernas ainda se fez sentir e por isso levantou devagar, apesar do ímpeto da esperança. 
Olhou no espelho. A Conceição agora era ela. Pensou na loucura de querer ser um e um dia descobrir que se é outro. O melhor era não olhar mais. 
Voltou-se para cama, mas o sangue da primeira menstruação escorria pelas pernas.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Texto 1

Prostituiu-se com a lua.
Amanheceu sol.
Era energia, lambia quente os hábitos do dia.
Descia pernas, subia peitos.
Arfava contentamentos de instantes.

Presenciou raios estuprarem o céu.
Foi vento atiçou tempestades.
Foi brisa acalentou amores.
Negou silêncios.


Prostituiu-se com o mar.
Amanheceu maré.
Involuntária volúpia rompeu preceitos hipotéticos de não caber em um si.
Derramou-se em um talvez, de um quase desinteresse certo pelo o que é correto.

Perambulou por becos desnudos.
Desencontros carnudos de boas vontades.
Não perdoou favores inertes.
Alegou palavras.


Pariu desalento.
Criou enfrentamentos.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Estela

Refletia o sol amarelo.
Miolo de árvore passava
amarelo em cima do caminhão,
levantando poeira, secando,
mostrando o amarelo do chão.

A colheita crescia crespa,
refletia o milho amarelo.
Refletia o sol amarelo,
sentada ao pé da varanda,
da casa amarelada pela terra.

Passou caminhão,
em cima gente, arvore, bicho.
Poeirou, levantou,
mas era tudo dela,
lá dentro na cabeça amarela
de fios louros,
da plantação de milho, laranja, melão e girassóis.

Bateu vento,
saiu pelos olhos áridos,
areia, sem o molhado do mar.
Azul só no céu, amarelo em todo lugar,
do sol ao solo dela,
azul só nos olhos de Estela.