segunda-feira, 20 de junho de 2022

A riqueza da floresta

Grande parte do ouro que circula no mundo foi pilhado da América Latina. É um ouro avermelhado, que não reluz plenamente nem depois de purificado. Traz marcas do sangue que acompanha a história do continente desde a chegada dos europeus.

No livro “A revolução chilena”, Peter Winn relata uma reação dos mapuches, liderados por Lautaro, contra o comandante espanhol Pedro de Valdivia: “Quando a crueldade dispensada por Valdivia aos mapuche provocou a rebelião destes, Lautaro retornou ao seu povo e os conduziu à vitória sobre o comandante espanhol, a quem executaram despejando-lhe ouro derretido garganta abaixo e dizendo: "Eis o ouro pelo qual você matou". Foi uma das raras reações à violência europeia.

A América Latina é tão rica que mesmo após cinco séculos de exploração, ainda é alvo da cobiça de quem segue com a mentalidade de extrair riquezas imediatas para enriquecimento individual. Na floresta amazônica o garimpo ilegal se aliou aos madeireiros, grileiros, pecuaristas e por fim aos traficantes; todos mantendo o legado de uma terra cheia de riquezas, concentradas nas mãos de poucos, lavadas com o sangue de muitos.

Os exemplos mais recentes são o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips. Se juntam ao seringueiro Chico Mendes e à missionária Dorothy Stang, todos assassinados por combaterem ações predatórias de criminosos. São a ponta do iceberg formado por milhões de indígenas anônimos aos brancos, assassinados ao longo dos séculos.

Conforme a ciência avança, fica cada vez mais claro que o ouro da Amazônia é verde. Sem a floresta o solo perde a fertilidade, não serve para a agricultura; o regime de chuvas de todo o continente seria prejudicado, comprometendo toda forma de vida, desde o abastecimento e regulação térmica das cidades até o próprio setor agrário, tradicionalmente ligado ao desmatamento.

A floresta intacta, protegida pelos povos originários, gera riqueza perene. Flora e fauna se renovam, enquanto bombeiam água, que cairá como chuva no continente. É uma reserva de conhecimento ainda pouco explorada, que pode oferecer ao mundo diversos medicamentos, alimentos e saberes ancestrais guardados por indígenas. O metal brilhante do subsolo, se extraído, só engordará ainda mais a conta bancária de milionários.

Preservar a floresta vai além de não cortar árvores. Inclui questionar a própria noção de riqueza e como deve ser feita a distribuição do que é, de fato, valioso. O trabalho de Bruno e Dom na Amazônia tinham esse objetivo. Por isso foram assassinados por quem não sabe dialogar e não aceita nada além de dinheiro.

Quase 500 anos se passaram desde a revolta mapuche que culminou no ouro derretido goela abaixo do comandante espanhol. Hoje uma revolta à moda mapuche é improvável, os verdadeiros assassinos têm mais armas, mais amparo legal e respaldo da presidência da república para cometer as barbaridades.

A vantagem de hoje está na conscientização, que ainda enfrenta resistência por parte de uma mentalidade do século 16, que vê o indígena como um empecilho a ser assassinado, a floresta como um empecilho a ser derrubado, os rios como um empecilho a ser canalizado e o dinheiro como a droga viciante, que turva a vista do dependente e impede a atuação do bom senso.

Encerro o texto frustrado. Além da insanidade de mais dois assassinatos na Amazônia, sinto não ter escrito nada além do óbvio. Parece que enchi uma folha afirmando que dois mais dois é igual a quatro, que a terra é redonda, que vacinas previnem doenças. É frustrante ter que dizer o óbvio, mas é indispensável enquanto o óbvio for desconsiderado.

sábado, 18 de junho de 2022

o dia em que o céu deixou de ser azul

São Paulo, sábado, 18 de junho de 2022.

- o dia em que o céu deixou de ser azul - Cristina Santos - post 25 - Blog das 30 pessoas - 


título: o dia em que o céu deixou de ser azul

O dia em que o céu deixou de ser azul, choveu sangue. Um líquido espesso, vivo, com um amargo gosto de ferrugem. 
Choveu um dia, dois dias, três meses. Já faz sete anos e a chuva não dá sinais de que irá diminuir. Nos habituamos a ela e ela a nós. Criamos uma estranha e essencial dependência. Assim seguimos há vinte anos.
Mas hoje, no primeiro dia do trigésimo primeiro ano, o dia acordou sem sangue. E nós também.   


Oiê, Pessoal!
Escrevi esse miniconto em maio de 2017.
Até o próximo post.
Beijos,
Cristina Santos

domingo, 12 de junho de 2022

O luxo de ter gás

Um dia desses, de maio, naquele frio que parecia junho, o gás acabou.
Já aconteceu isso várias vezes e sei como é o procedimento, o gás acaba e você pede outro, em menos de uma hora tudo fica resolvido.

Mas tive que sair e só quando voltei, a noite, pude chamar o gás. Fui avisada de que o pedido estava em cima da hora, eles fechavam as 20:00 e minha ligação aconteceu as 19 horas, então seria a última entrega.

Fiz um sanduíche e fui fazer outras coisas, enquanto o gás chegava.
Já fiquei sem gás alguns dias, por diferentes razões, não foi tão ruim porque eu tinha um forno elétrico, e cozinhava nele, então não me pareceu nada dramático ficar sem gás.
Só que o forno queimou há uns meses e não comprei outro.

Comecei a sentir fome, achei estranho, já tinha comido um sanduíche, mas continuava sentindo fome.
O gás chegou e eu logo esquentei um pouco de arroz com verduras. E comi a comida quentinha.

Então me invadiu uma sensação de revolta, como é possível que milhões de famílias, com idosos e crianças não tenham gás em casa? Como é possível que um botijão custe 130 reais? Lembrando que eu peço o gás de seis em seis meses, a última vez paguei 75 reais.
Gás não é luxo e a diferença entre um pão e uma comida quente é gigante. 

É triste, é deprimente, é inacreditável viver em um país onde o gás é um luxo. 130 reais!
O gás, algo tão importante! Eu diria vital.

Ver como o Brasil se transformou em um lugar de tanto sofrimento, onde um trabalhador não tem mais como pagar um aluguel e um gás, é algo que mostra como o sistema  é cruel.
Um sistema desigual que favorece os bilionários e atropela os pobres.
Tudo deu errado e milhões de pessoas estão pagando por isso. Muitas delas nem votaram no governo atual, mesmo assim pagam o preço pelo erro alheio.
Seria erro, ignorância ou maldade?  Não sei. O que quer que tinha sido devastou com tudo. Tudo.