sexta-feira, 4 de abril de 2014

Um desabafo contra o feminazismo. Ou: das razões mais burras para se lutar por uma causa.

Esse é um texto sobre o seriado Game of Thrones e contém spoilers. Se você não assiste o seriado, não leia, pode ser decepcionante por total falta de contexto. Se você não assiste o seriado e é feminazi, não leia MESMO, você não vai entender nada. Se você assiste ao seriado e é feminazi, leia, mas saiba que não irá gostar. E se você só gosta de Game of Thrones, veja só a que nível chega a interpretação equivocada de alguma coisa.


Esses dias, no Facebook – o lugar feliz onde todos tem sua opinião respeitada (levando em consideração que “opinião” e “discurso de ódio” possuem linhas bem tênues a partir do momento em que você escreve “[coloque aqui o tema em pauta] merece morrer”) eu li uma crítica de uma amiga ao seriado Game of Thrones, do qual sou definitivamente viciado. Disse ela que os diretores estão “fazendo merda” dos livros, já que o seriado tornou-se “machista e racista”, “em oposição” aos livros. Argumentei com ela que ela estava indo longe demais no ponto de vista dela, que não era fácil trazer o ponto de vista de um personagem (o livro é escrito a partir do ponto de vista de personagens-chave para o entendimento da trama) para uma cena em terceira pessoa, que aquilo que é lido a partir do ponto de vista de alguém pode ser, em uma outra ótica, algo totalmente diferente. Ela contra-argumentou que não, que era racismo e sexismo e machismo e pronto. 
O-kay. Ela é minha amiga para além de suas opiniões. Não dou crédito a pequenas discordâncias em relação a um todo que vale tanto a pena.
Mas confesso que meu sangue ferveu quando uma qualquer começou a comentar a conversa, me chamando de machista (!), dizendo que eu estava errado, que eu acreditava que a única opinião que valia era a minha (!!!) e querendo defender o [ATENÇÃO! OS SPOILERS COMEÇAM AQUI!]  (supostíssimo) “estupro” de Cersei Lannister pelo seu irmão, Jaime Lannister, diante do velório do filho recém assassinado, envenenado, na festa do seu próprio casamento. 
Retire a palavra estupro e troque por relação sexual. Leia a frase de novo. Consegue perceber o nível macabro da cena, ainda assim? Ok. Precisa da palavra estupro para a cena ser bizarra? Não, Sim? Esse ponto de vista será necessário mais à frente.

A série Game of Thrones (baseada n’As Crônicas de Gelo e Fogo, de George RR Martin, citado a partir de agora como GRRM) nunca foi uma série para pessoas de estômago fraco e sensibilidade extrema. Para começar, o caos se instala na história devido a uma criança, Bran Stark, ter sido testemunha da relação incestuosa entre os irmãos gêmeos Cersei e Jaime Lannister. Uma relação proibida que custou a Bran as pernas, mas poderia ter custado a vida – ele foi jogado da torre onde os irmãos estavam tendo relações pelo Jaime, entrou em coma e voltou a si paraplégico.
Mortes (das mais variadas e surpreendentes formas), saques, torturas, sexo exacerbado. Mas também magia, valores, beleza, honra. Um caldeirão muito bem mexido de sentimentos e personalidades que encontramos no nosso caminho [exceto dragões. Por enquanto].
Mas não, não é uma história palatável, ainda que viciante. É tenso, é denso, é cruel, é intrincado e – pasme! – é uma história sem final feliz pré-concebido. Até o Jon Snow e a Danenerys Targaryen, que aparentemente são o gelo e o fogo do título, e o Tyrion Lannister, favorito de muitos fãs d’As Crônicas – não eu, por sinal – podem morrer. MORRER. O GRRM mata personagens como você compartilha fotos fofas ou piadinhas no Facebook. Todo o tempo.
Diante disso, desse peso todo, temos uma cena para analisar, e um caso da vida real para relembrar. E, ao final, uma reflexão a propor.


Muitos fãs se revoltaram com a cena do episódio 04x03 de Game of Thrones, na qual a cena já descrita da relação sexual entre os gêmeos ocorre no Septo de Baelor. Dentro de um templo. Na frente do cadáver do filho de ambos, recém falecido. Mas a revolta não se dá pelo contexto, já que esse está no livro. A revolta se dá porque, supostamente, o que foi ao ar não foi a cena do livro. Foi um estupro. 
Minha opinião é simples, e baseada em fatos reais: a partir do momento que uma cena íntima passa para terceira pessoa, o expectador passa a ser um juiz da cena. Ele está fora, ele está em pleno poder, pois é ao mesmo tempo testemunha, advogado, promotor e juiz. Contudo, por vezes, os telespectadores mais afoitos esquecem-se que não são partícipes. Não estão nos pensamentos daqueles a quem observam. São suas testemunhas, a partir dos seus pontos de vista. Se seus pontos de vista se adequam àqueles dos participantes, ok, temos um testemunho. Se não, temos um julgamento.
Nesse caso, em especial, as pessoas que mais se revoltaram com a cena foram, dentro do meu círculo de contatos, as pessoas que tem algum tipo de relação com o feminismo. E, nesse ponto, um dos motivos pelos quais tenho ojeriza de conversar sobre esse tema é que a conversa sempre é chata e unilateral. Sério. Ainda não achei uma feminista que consiga relativizar sua opinião ao cenário. Tudo é dado, é certo, é luta contra a opressão.
Não fui só eu quem se incomodou com o ponto em que chegou a interpretação da cena. O próprio GRRM se pronunciou a respeito.

“Nos livros, Jaime não está presente quando Joffrey morre e, de fato, Cersei teme que ele mesmo esteja morto, que ela tenha perdido o filho e seu pai/amante/irmão. De repente, Jaime está diante dela. Mudado, mas ainda Jaime. Apesar de o local e de o momento serem extremamente inapropriados, e de Cersei ter medo de serem descobertos, ela o deseja tanto quanto ele.A dinâmica é muito diferente na série de TV, na qual Jaime está de volta há semanas, no mínimo, talvez há mais tempo, e Cersei e ele já estiveram na companhia um do outro em diversas ocasiões, normalmente brigando. A situação é a mesma, mas nenhum dos personagens está no mesmo local em que está nos livros. Deve ser porque Dan e David alteraram o roteiro. Mas essa é a minha visão, e nunca discutimos esta cena em particular, que eu me lembre.Além disso, escrevi a cena no livro do ponto de vista de Jaime, então o leitor estava dentro da cabeça dele, lendo seus pensamentos. Na série de TV, a câmera é por definição externa. Não se sabe o que alguém está realmente sentindo ou pensando, apenas o que estão fazendo e dizendo.Se o roteiro manteve alguns dos diálogos de Cersei dos livros, deve ter deixado uma impressão levemente diferente – mas o diálogo é basicamente moldado pelas circunstâncias do livro, ditas por uma mulher que está revendo seu amante depois de muito tempo, depois de pensar que ele havia morrido. Não tenho certeza de que isso funciona no novo roteiro.Isso é tudo o que posso dizer sobre o assunto. A cena sempre teve a intenção de ser perturbadora… Mas sinto muito se ela perturbou as pessoas pelas razões erradas.” [fonte]

Para além de qualquer comentário, está explícito na opinião do autor e responsável pela obra que não foi um estupro. Para mim, o assunto nem chegaria nesse ponto – quero mais que o GRRM escreva capítulos do Winds of Winter, não justificativas para gente que interpreta mal e interpela demais! Mas eu preciso ir mais além nesse assunto e futucar sua memória, leitor. Se você chegou até aqui, é hora de ir um pouco mais longe.


Não importa se você assiste ou não BBB, se acha uma merda ou se segue fielmente. Esse foi um episódio que revoltou as redes sociais e que teve um final para mim surpreendente. 
No Big Brother Brasil 12, o casal Monique e Daniel, embriagados, foram para debaixo do edredom. Até aí, nada de mais. O “de mais” começou quando, no Twitter, cogitou-se a possibilidade de estupro, porque aparentemente a modelo não reagia.
Tava feita a bagunça. 
Eu tomei contato com o assunto a partir de um ponto de vista completamente torpe. Daqueles que o acusaram, veementemente, de estupro, que a guria tinha de ser defendida, que algo assim não poderia ficar impune, que o Brasil não aceitaria isso bla bla bla guaraná de rolha.
A vida do Daniel foi destroçada ali. Ele foi expulso do programa. Tudo bem que entrar no BBB é entrar em uma roleta russa, onde você pode ser amado ou odiado e isso te marcará por um bom tempo. Mas ser injustiçado é ir longe demais.
Depois de semanas, e de ouvirem o depoimento de Monique – que, a propósito, era, para mim, a maior interessada no assunto (ou seria desinteressada? Ela foi “defendida” sem a menor necessidade!), Daniel foi inocentado. 

Fontes: [1] [2] [3]

Não sei bem do que adiantou, mas foi. Depois que sua imagem, seu instrumento de trabalho, foi destruída por um tweet.
Eu só queria saber se a pessoa que fez isso, deu o start nesse movimento destrutivo, se lembra do Daniel. Se lembra do que fez com ele. E principalmente, dorme à noite, feliz por ter feito isso.
Desejo-lhe pesadelos.
Dessa forma, queridx telespectador (usei o “x” porque é moda colocar “x” para indefinir o gênero, conforme proposto pela regra culta – uma ilustração clara do nível de ignorância que um movimento pode gerar), quando assistir uma cena que lhe ofende, não a julgue pelos outros, julgue por você mesmo: quem é você frente àquilo?. E se tiver de se manifestar, tenha a gentileza de ter noção do que está fazendo. Hoje, você se revolta contra o suposto estupro da Cersei (mas não contra o incesto da mesma nas quatro temporadas/cinco livros). Ontem, não foi você que acusou o Daniel de estupro?
Do seu anonimato, do conforto do seu sofá, da tela do seu computador, é fácil despejar o veneno de um discurso de ódio. Mas e se você estivesse no front? Seria tão ousadx? (Bendito “x”, normas de internet para se fazer compreensível... ou não.)
Por menos ódio, por mais certeza, por menos achismo, por menos acusação desnecessária. Por muito menos feminazis no mundo. 
Se bem que, conforme postula Valeska... “Desejo a todas inimigas vida looonga...”



Ah, claro. Para quem achar que esse texto é uma apologia ao estupro e uma defesa aos estupradores, ou chegar ao clímax de achar que esse texto é machista, é bom ressaltar – porque se depois de um texto desse tamanho eu não consegui ser claro, eu realmente preciso escrever um post scriptum – que eu acredito que todo indivíduo tem o direito inexorável à escolha. E que deve ser apoiado em sua escolha, por aqueles que concordam com ela. E que deve ser julgado quando suas escolhas ferem diretamente a escolha de outros – em nível constitucional. Feminismo que eu apoio é aquele proposto pela Valeska Popozuda. E eu to falando sério.
É complicado ver alguém tão marginalizada sendo tão lúcida sobre um assunto que aqueles que se dizem lúcidos são tão obtusos. Ela defende a liberdade de escolha pela mulher. Não o homem como eterno protagonista da vilania contra a mulher. Parece-me lógico ampliar os horizontes do feminino. Parece-me lógico não vilanizar tacitamente o masculino pelo caminho que o feminino trilhará. 
Mas, como ouvi antes, eu penso assim porque eu sou homem. E machista.
Rá. Eu ri.
Beijinho no ombro, feminazis. Que seu recalque passe longe da minha realidade.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Uma Odisseia com o Bad Religion - PARTE II - "Pão e Circo"

Antes de ler esse texto, é recomendável ler a parte 1, escrita após o incrível show de Seattle de 2010 no qual eu cantei com o Bad Religion a música Anesthesia. Leia saporra aqui: http://paulopilha.wordpress.com/2011/02/17/uma-odisseia-em-seattle-com-o-bad-religion/

Esta segunda parte poderia perfeitamente ter sido escrita quando eles vieram ao Rio em 2011 para se apresentar na Fundição Progresso. O problema é que na época achei que seria muita forçação de barra tentar cantar com eles pela segunda vez. Seria uma indelicadeza não só com o público presente, mas também para com os integrantes da banda, sobretudo o vocalista Greg Graffin, o homem responsável pelos meus três minutos de fama. A Fundição Progresso não é um bom local para a realização de shows de um modo geral devido a acústica ruim, e em se tratando de um show de punk rock, a coisa era ainda pior. O show não foi bem divulgado e o espaço era muito grande para a apresentação de uma banda que só tinha aparecido no rádio e na TV em meados de 1996, quando foi lançado o álbum “The Gray Race”. Ou seja, somente os fãs fervorosos iriam. Os fãs modinha de rádio, TV e Maria Vai Com As Outras, que costumam formar um grande público em shows e festivais como Lollapalooza e Rock in Rio, passariam batido pelo show dos dinossauros californianos do punk rock. Tudo bem, tem também a galera do surf e do skate, afinal, o Bad Religion é figurinha fácil nos vídeos de manobras radicais. Foi assim que a música “You” - que nunca aparecia nos set lists do grupo - se tornou do dia pra noite um hit que raramente deixam de tocar. 

O concerto na Fundição foi morno. Setlist totalmente previsível e apenas 24 músicas. No show desse ano no Circo Voador, Greg e sua trupe tocaram 29 músicas e atentem para um detalhe muito importante: o show da Fundição foi em setembro e do Circo em pleno verão. Os caras então me pegam um voo no gélido inverno norte-americano para desembarcar nesse maçarico do capeta pra tocar cinco músicas a mais que no ameno setembro carioca de 2011.

Logo que o show do Circo foi anunciado, eu mantive a mesma decisão de não tentar cantar com eles novamente. A partir de uma árdua pesquisa que eu mesmo fiz na internet, cheguei à conclusão de que apenas três pessoas no mundo tinham cantado uma música com a banda no palco. Três brasileiros. Os outros dois são paulistas e cantaram a música "Modern Man". Tentei conversar com um deles no Facebook, mas ele preferiu não aceitar minha solicitação de amizade e tampouco respondeu minha mensagem sobre o tema. Apenas leu o que eu mandei.

O baixista do Bad Religion frequenta quase que diariamente um site de fãs da banda no qual responde perguntas sobre os assuntos mais diversos. Ele não responde todas, mas até que escreve bastante. Diria que cerca de 60% das perguntas são respondidas. Depois do show de Seattle, fiquei conversando um bom tempo com ele ao lado do ônibus da turnê e o próprio, não um fã que estava no show, comentou no fórum que eu tinha mandado muito bem apesar do esquecimento de letra. “Até o Greg Graffin erra de vez em quando a letra, por que você não poderia?”, disse o simpático baixista em Seattle.

Faltando então cerca de quinze dias para o show do Rio, o primeiro da turnê sul-americana, perguntei no tal fórum se não teria como eu cantar "Anesthesia" novamente. Afinal, eu tinha esquecido um bom pedaço da letra e ele mesmo tinha dito que viriam ao Rio no carnaval para que eu pudesse cantar de novo da forma correta. É claro que ele falou isso de brincadeira, está inclusive no vídeo que gravaram da minha aparição, mas aproveitei o gancho da brincadeira para fazer um convite sério. Por que não? O Circo Voador é um lugar mágico. Não sou um ótimo cantor, mas também não sou um mau cantor. Seria um bom marketing para os próximos shows da turnê. Ok. Tudo bem. Poderia ser também o incentivo que muitos fãs precisavam para fazer o mesmo que eu contando com a elaboração de cartazes e mais cartazes solicitando a cantoria. A coisa poderia sair de controle para a banda, ainda mais porque os fãs latinos ficam muito elétricos nos shows. Sobem no palco para depois pular no meio da galera. Alguns shows no Rio foram insuportáveis por conta disso. Os fãs não deixavam o vocalista cantar direito: quando não estavam berrando junto com o vocalista alguma coisa não identificável entre o português e o inglês, davam um abraço de urso no cara durante algum verso. Felizmente o show do Circo teve uma segurança impecável.

                                              Esta pessoa com o dedo apontado para o palco sou eu.

Foda-se, eu pensei.  Não tinha nada a perder. Caso cantasse, no máximo receberia vaias da plateia. Se fosse em qualquer outro lugar eu ficaria na minha. Mas em se tratando de Circo Voador, eu iria tentar.

Jay Bentley, o baixista, respondeu outras perguntas, mas ignorou a minha. Só foi me responder alguns dias depois do show quando eu perguntei no fórum como foi o dia de folga no Rio:

Paulo Pilha: So Jay, how was your day off in Rio? Did you go to Ipanema beach? Or maybe see our huge Brazillian Jesus on the mountains?
Jay Bentley:  spent a couple of hours bodysurfing in the water at copa, went to the giant jesus dude on the mountain (great views!) and ate chicken at sats

(Sats é um restaurante em Copacabana que serve churrasco até altas horas da madrugada. Já fui muito lá. É incrível. Recomendo.)

                                                 Jay Bentley e seus backing vocals no Circo.

Só me restava então o plano B. Levar a mesma camisa da Croácia, que aliás é o primeiro adversário do Brasil na Copa do Mundo (mais uma coincidência), ficar bem na frente e torcer, como um fã de futebol, para que o Jay ou o Greg Graffin (vocalista) façam alguma piada sobre Seattle e se empolguem para me chamar ao palco. Mas chega de suspense, né? O Graffin me viu com a camisa erguida, chegou a pegar um livro pra autografar do cara ao meu lado, mas não fez piada, não sorriu, não esboçou absolutamente nada sobre a camisa da Croácia. Eu sei que ele viu a camisa e lembrou de tudo, eu sinto isso, mas deixou o racional prevalecer sobre o emocional. O plano não deu certo. Lá pela sexta música eu vesti a camisa novamente, depois de ficar agitando-a ininterruptamente e assisti o que seria o meu melhor show do Bad Religion. Muito por conta do setlist imprevisível e, claro, por ser no Circo Voador. Estava encostado na grade, suando feito um porco, ao lado de uma menina que sabia todas as letras, palavra por palavra, mas que reclamava de mim o tempo todo, como se eu fosse o grande culpado pelos empurrões que ela recebia. “Dá uma olhada pra trás. Olha a quantidade de gente que tem atrás de mim”, eu disse. “Deixa de ser chata e curte o show aí na boa. Se tá reclamando o tempo todo de empurrões, não devia ver o show na primeira fila”. Ela não disse nada, mas pelo menos parou de reclamar.

Talvez pouca gente ou muito provavelmente ninguém tenha associado a escolha das músicas do show com o momento atual de protestos e manifestações que estamos passando no Brasil. Ou pelo passávamos ou devíamos estar passando ainda. Enfim, alguma coisa do gênero. A banda trouxe ao país um setlist muito diferente daquele que vinha tocando na turnê atual. Vocês podem achar que é pura coincidência, que eu estou viajando, mas eu acho que a banda escolheu de propósito essas músicas inesperadas para mostrar que o brasileiro deve sim continuar protestando e lutando pelos seus direitos. A começar pela música “New America”, que não tocavam desde 2001. Isso mesmo. Desde 2001. E logo a mais forte de todas no que diz respeito a essa ligação com os protestos. Graffin trocou várias vezes a palavra “America” por “Brasília”. “Nós precisamos de uma nova Brasília, acorde a nova Brasília, essa é a nova Brasília!”. Outro trecho da letra diz “vitórias não significam nada se elas não duram, não temos que ter medo de nos reinventar, temos que começar a construir, progredir e implementar, pois quando pegamos nossa parte e nunca pagamos o preço, apenas construímos para nós um paraíso falso e fugaz”.

                                          Greg Graffin em ação no Circo. Fonte: www.rockemgeral.com.br

Aproveitou também para cantar a improvável “Raise your voice” que significa algo como “Eleve sua voz”. Trechos da letra mostram que “é a nossa desalentadora limitação que nos mantém vergonhosamente em silêncio, é nossa natureza sermos adversários e livres, nossa evolução não pode ser feita com passividade”. Poderia até fazer uma associação mais ousada, porém pertinente, com a esolha de outra raridade para o setlist brasileiro: “Skyscraper”. A letra fala de exclusão social, de egoísmo e mesquinharia. Me fez pensar em muitos políticos que montam seus impérios luxuosos com o dinheiro do povo e não deixam o povo “subir” junto. Todo mundo na lama, eles no paraíso. A letra faz uma clara associação à Torre de Babel e o refrão é “me construa, me despedace como um arranha-céu, me construa e depois despedace esses muros que se juntam e então eles (o povo brasileiro...) não podem  escalar conosco”. Outra também selecionada especialmente para a turnê brasileira foi “You are (The government)”. O nome já diz tudo. “Vocês são o governo”. O “povo é o governo”. Segue o trecho final da letra:

E enquanto o povo se curva, a estrutura moral morre,
O país não pode fingir que ignora o choro do seu povo
Você é a autoridade!
Você é a jurisprudência
Você é a volição
Você é a jurisdição
E eu faço a diferença também

Arrepiante, não é mesmo? Mas aí é nesse momento que você chega pra mim e diz: “ô Pilha, mas eles tocaram essas mesmas músicas em outros países da América do Sul e recentemente no Japão”. Não importa. Os primeiros shows da turnê foram no Brasil. Antes de montar esse set list eles pensaram na gente, não foi nos shows que fariam semanas depois em sei lá onde.  O recado está dado. Se não for possível ir novamente às ruas como em junho de 2013, acho que podemos pelo menos ficar de olhos bem abertos e fazer semanalmente coisas, mesmo que pequenas, que nos ajudem a construir um Brasil cada vez melhor. Wake up the new Brasília and Raise your voice!

terça-feira, 1 de abril de 2014

sobre o texto

ontem um amigo disse que sente falta dos meus textos mais densos, profundos, poéticos, dramáticos e conversamos muito sobre o fato de escrever sob algum efeito negativo, uma dor, um sofrimento, um soco no estômago, uma facada no peito.

ele disse que, pra ele, aqueles são os melhores textos meus e que eu devia aproveitar essa veia da tristeza, do amor perdido, da falta, da busca, do ódio.

ele também disse que eu nasci pra escrever tais textos e que em tais textos eu mostro o que há de melhor em mim, na literatura e na vida.

não sei se há tanta diferença assim na minha vida em relação à minha literatura, mas ele complementou dizendo que quando estou desse jeito - dramaqueen (ele usou este termo, dramaqueen) - eu escrevo muito muito muito muito compulsivamente e sempre muito bem. 

talvez seja por isso que tenho tenho escrito tão pouco e tão mal nos últimos meses!









domingo, 30 de março de 2014

Eu Quero Ver Você Dançar Em Cima De Uma Faca

Começa tudo bem simples, com uma expectativa a ser quebrada, e alguns goles de ânimo
Logo em seguida ele troca o ânimo por vodka, e a expectativa por barreiras, escolhe o seu lugar e faz o que melhor sabe fazer
Observar

Ele nem acredita em tudo que mais quer, mas vive a sonhar
1,2,3,4,5 até 6 olhares que são bem piores que uma facada, sempre ela a faca
E essa dor que sara, faz viver e acordar para ele

Mas ele só pode querer mais, foram algumas vodkas, muitas facadas
Bem a sua frente uma camisa com os dizeres “Você não é nada até alguém lhe odiar” a pergunta vem logo em seguida, e quando o ódio é interno?
Melhor não pensar em uma resposta, melhor continuar a observar tudo, a isso ele faz muito bem

1,2,3,4,5 até 6 vodkas todas elas bem servidas com um bom vazio, aquele vazio de quem observa
Cada passo falso que ele disfarça um sonho lhe vem a cabeça, mas a faca vem logo em seguida
Tudo pode ser, nada vai acontecer, pois lembre-se ele observou

Guardou tudo em seu diário mental, mentiu mais uma vez
E por não acreditar em tudo que mais quer
Morreu mais uma vez sem ter vivido




Abraço
Jeff

sábado, 29 de março de 2014

bicicleta

jamais tive uma, era praticamente inacessível ao bolso da família. ao vivo e a cores vi uma pela primeira vez em 1987. era vermelha, desgastada, velha e com um pneu furado, não pergunte a marca pois na época sequer sabia o que diabos era isso.  achei jogada num quartinho de quinquilharias e  perdi a conta de quantas vezes perturbei minha mãe para encher o pneu toda bendita vez que fosse usar e de quantas vezes forcei as pernas para girar as rodas. se é difícil pedalar em asfalto com pneu murcho imagina numa estrada de terra, cheia de pedrinhas miúdas, era simplesmente uma aventura terrível.


exceto o dia que cai feio, esborrachei no chão, quando tive a brilhante e nefasta  ideia de descer uma ladeira de terra com agora dois pneus furados e freio desregulado não me arrependo uma vez sequer de movimentar as rodas da velha magrela vermelha,  ignorada pelo patrão e crianças ricas da fazenda que pouco se lixavam se a filha do caseiro e da faxineira usava escondida. 


mesmo jogada as traças era  motivo de brigas e surras do meu pai. acontecia muitas vezes, mas a culpa era toda minha, pois esquecia da hora ou não o via chegar em casa para levar chinelo, guardar sapato e levar toalha se minha mãe não pudesse e acabava sendo flagrada na marginalidade infantil. afinal dizem que comportamento se observa desde a infância não é? e sendo mulher tem que ficar de olho, colocar na linha, regrar as roupas desde pequena se não vira uma qualquer, uma vadia.


é  através do comportamento que vai aparecendo a índole ele dizia e o que é dos outros gente honesta não põe a mão, mesmo que seja velho e não esteja sendo usado e mesmo autorizado a usar. achava muito injusto as surras e sempre perguntava por quê daquilo se já tinham autorizado a pegar de vez em nunca, o problema era que os donos só apareciam lá nas férias e final de ano, então era muito tempo para esperar uma autorização, e afinal estava lá jogada e ninguém queria saber da bicicleta então qual o problema de as vezes ou quase todos os dias e por várias horas usá-la. 


pegar a maldita bicicleta sem autorização  era um dos motivos de grandes surras, para ele  era considerado um furto, desobediência, falta de caráter. eu achava que apenas esses eram motivos para levar uma surra. fiquei confusa e não entendi quando a falta de atenção por não enxergar uma lata que estava próximo da cancela que aos berros me pediu para buscar e entregar na sua mão  foi considerado um péssimo comportamento, falta de modos, falta de inteligência ou cegueira digno de uma das maiores surras com direito a mangueira de lavar curral, aquelas que têm controle na ponta, que são grossas, e a cada lapada no corpo subia um calombo deixando marcas nas pernas, costas ao ponto de deixar o corpo mole e quase desmaiar. 


sinceramente não me lembro de ter chorado, só de ter gritado várias vezes pedindo para parar e sentir tanta dor ao ponto de em segundos não sentir mais nada, também me lembro de não ir para escola vários dias, de tomar banho com sal grosso durante dias e de ver minha mãe chorando toda vez que me ajudava no banho e colocar a roupa. também lembro de ver meu pai chorando e pedindo perdão no dia seguinte dizendo que ele não queria fazer aquilo e que a culpa era minha por ter o deixado nervoso e não ter achado a lata.


ficou horrorizado? não entendi por quê se quando uma mulher é espancada dizem que ela mereceu, fez por onde apanhar. neste caso vale para crianças também não é? então eu devo ter merecido, ou pior deus quis assim, mas não o deus que conheço, acredito ele não é tão maldoso assim. e praticamente todas que são espancadas, violentadas e abusadas a culpa é inteiramente delas, justamente pelo fato de existirem nunca jamais é de quem agride, no caso de um adulto então isso é óbvio a culpa é toda da mulher. só posso concluir que se trata de um mundo de merda ou que a humanidade está no ápice da insanidade. 


não entendo no caso do oriente médio onde praticamente adolescentes, mulheres nada mostram do corpo e sofrem abusos, violências, estupros, como se explica isso? uma vez que o corpo está totalmente coberto. no caso de guerras onde soldados estupram mulheres, crianças e quem estiver na frente para sentenciar e eliminar um povo por ser quem é.  a culpa é de quem?


quando finalmente decidiram que toda quinquilharia do quarto deveria ser doada, entregue para alguém, para desocupar o lugar meu problema foi resolvido. uma pena que a bicicleta durou alguns dias, o pneu estava tão gasto e já tinha sido tão remendado que num dia estourou formando um buraco enorme que não tinha remendo e bomba que desse jeito.


até um tempo atrás relembrar algumas coisas da infância era doloroso demais, ao ponto de nunca querer tocar no assunto, esses dias finalmente percebi que não poderia eliminar e deixar apenas o que foi bom, por que de uma maneira ou de outra alguém sempre precisa saber que somos próximos seja na dor, na alegria, de uma forma ou de outra nos aproximamos e nos completamos. relembrar, gritar aos quatro cantos do mundo se preciso for, viva e forte o bastante para dizer que não é sua culpa se alguém te machuca por ser quem é.


o livro persépolis da escritora e "cartunista" marjane satrapi que considero inteligentíssima ao fazer uso do que é simples para explicar o que na teoria e prática são complicados,diz que: a revolução é que nem uma bicicleta, se as rodas não giram ela cai. 


às vezes a bicicleta está com o guidão zuado, o freio quebrado, o banco rasgado, o pneu furado, as rodas trincadas e a gente já não se arrisca mais. está cansada de tanta exposição, julgamentos e eteceteras. então, na tarde de sexta-feira a conversa com uma mulher que você respeita, admira e sente muito carinho te relembra quem você é, e sendo muito especial e verdadeira te alerta e te faz acordar para vida. daí  vem a saudade daquela certeza de achar que tudo pode ser diferente. então a gente coloca uma fézinha safada e alguma coragem ridícula, dá um jeitinho aqui acolá e faz ela funcionar, voltar a girar. 

daí percebo que a bicicleta pode estar de qualquer jeito, o que interessa mesmo é se tem energia nas pernas para movimentar as rodas e não permitir que ela caia. ainda tenho e não permito, não deixo e não quero que minhas rodas, pernas parem de se movimentar e a bicicleta caia, e isso é por mim e pela vida das mulheres. 

sábado, 22 de março de 2014

Graphic MSP: A Turma da Mônica de um jeito que você nunca viu!

A Maurício de Souza Produções (MSP) anda bem saidinha ultimamente. Primeiro apostou na força dos mangás japoneses e no potencial de mercado do público adolescente e criou a Turma da Mônica Jovem. A aposta deu certo, as edições não param de sair e até já foi criada a Chico Bento Moço, revista que coloca o menino Chico Bento, agora um jovem universitário, se virando na cidade grande. Depois, em 2009, para a comemoração dos 50 anos de carreira de Mauricio de Sousa, foi lançado o projeto MSP 50, uma série de três livros (MSP 50, MSP+50 e MSP Novos 50) em que diversos artistas (50 em cada edição) foram convidados para fazer releituras dos personagens da Turma da Mônica. Ideia inovadora e genial, encabeçada pelo editor Sidney Gusman, e que presta uma grande homenagem ao grande mestre do quadrinho brasileiro que é Maurício de Sousa (ainda que criticas possam ser feitas ao caráter extremamente comercial que acabou se tornando a Turma da Mônica e seus trocentos produtos licenciados).

Se ver a Turma da Mônica ficando adolescente, casando e envelhecendo possa ser algo deprimente, ainda que bastante inovador no mundo dos quadrinhos, ver ela ganhando novos traços na mão de outros artistas é algo que considero particularmente divertido, sobretudo para quem passou a infância lendo as histórias do lendário bairro do Limoeiro. Eis alguns resultados do projeto:

Jotalhão, Cebolinha, Magali, Mônica, Cascão e Franjinha,
por Felipe Massafera
Sansão, Mônica e Cebolinha, por Adão Iturrusgarai

Chico Bento, por Vitor Caffagi


Os trabalhos foram tão bem recebidos que ganharam juntos 6 prêmios HQ Mix, uma das maiores premiações da nona arte brasileira. Além disso, os artistas da própria MSP foram convidados a deixar o rigoroso padrão Turma da Mônica de desenho para produzirem livremente em seus próprios estilos, o resultado foi o livro Ouro da Casa, de 2012, representado aqui por esta versão de Mauro Souza para os personagens Rolo, Zecão, Pipa e Tina:

Rolo, Zecão, Pipa e Tina, por Mauro Souza
Com tanta aceitação, de crítica e de público, a MSP não pararia por aí. O que era apenas uma homenagem virou um grande plano infalível, mas não aqueles desastlosos arquitetados pelo Cebolinha, mas uma bem sucedida criação de graphic novels da Turma da Mônica, assinada por alguns dos artistas do projeto MSP 50: surgia o selo editorial Graphic MSP. Para quem não sabe, graphic novels são publicações em quadrinhos com roteiro maior e geralmente mais desenvolvidos do que o das publicações que vemos nas bancas. Geralmente são editados em capa dura e com material de boa qualidade. As quatro primeiras edições (com as capas mostradas abaixo) foram lançadas entre 2012 e 2013. São elas: Astronauta  - Magnetar, por Danilo Beyruth, Turma da Mônica - Laços, pelos irmãos Vitor e Lu Cafaggi, Chico Bento - Pavor Espaciar, por Gustavo Duarte e, mais recentemente, Piteco - Ingá, pelo paraibano Shiko.

Capas das primeiras edições do selo Graphic MSP

O segundo deles (Turma da Mônica - Laços) já caiu em minhas mãos e posso dizer que vale muito a pena. Maurício de Souza, ao conhecer a história do Chico Bento que Vitor Cafaggi fez para o projeto MSP, teria dito ao seu editor Sidney Gusman "Quem é o Vitor Cafaggi? Eu quero casar com ele". E ele não estava exagerando. A riqueza de detalhes e o cuidado com cada traço faz do trabalho de Cafaggi algo para não se cansar de ficar admirando. Mas a cereja do bolo é a parceria com sua irmã mais nova, a até então pouco conhecida Lu Caffagi. As cenas de flash back desenhadas por Lu (veja abaixo) são pura covardia, capazes de provocar bons sentimentos até nos mais brutamontes. O livro começa justamente num desses flash backs, que narra o momento em que Cebolinha, ainda bebê, ganha seu cãozinho Floquinho. Esta cena, aliás, é fundamental para o enredo que trata justamente do desaparecimento do pobre animal. 


A trama é bem simples, mas na prática é o que menos importa, já que a arte e as surpresas que os irmãos espalharam pela HQ já valem si mesmas. Deveria eu revelar spoilers? Claro que não. Mas saibam que referências dos anos 80 pululam por entre as páginas, caracterizando uma homenagem à infância de muito marmanjo. E não pense que as referência ficam apenas ao mundo dos quadrinhos. A Magali, por exemplo, pode ser vista comendo churros na barraca de um certo Sr. Ramon antes de entornar um refresco de tamarindo. Zás, me escapuliu um spoiler!



A Panini ainda não está lançando os volumes com periodicidade regular, mas a expectativa é que sejam lançados trimestralmente a partir de 2015. Para 2014, no segundo semestre, já existem 2 lançamentos programados. Em Agosto, será lançada Bidu, por Eduardo Damasceno e Luis Felipe Garrocho. Em dezembro, será lançada Astronauta II, assinada pelo mesmo Danilo Beyruth de Astronauta - Magnetar. Programados para 2015 estão Penadinho, por Paulo Crumbim e Cristina Eiko, Papa-Capim, por Marcela Godoy e Renato Guedes, Turma da Mata, com Tocchini, Calil e Fujita e, por fim, Turma da Mônica 2, com os mesmos irmãos Cafaggi, de Laços. É só aguardar!

Capas das Graphic Novels previstas para 2014 e 2015

Não sei até onde eles vão chegar, mas uma coisa é certa: a Rua do Limoeiro nunca mais será a mesma!

Abraço,

Felipe Lários

Atualizado em 25.03.2014:

Como eu gosto de matar a cobra e mostrar o pau, de contar o milagre e dizer o nome do santo, segue o link: https://docs.google.com/file/d/0B066HbH0NhBwZGRDUzBTY1dtQm8/edit

sexta-feira, 21 de março de 2014

Apartamento 14

Levantou e percebeu que era mais um dia para lidar com aquela estranha sensação e tão indesejada realidade.
Resolvera juntar os pedacinhos do seu coração, que havia guardado do lado esquerdo daquele paletó azul-escuro que havia lhe dado no aniversário do ano anterior.

Era difícil aceitar que ela não ligaria mais, que não ouviria mais aquele sorriso ao telefone.
Aquele sorriso que, emitido som, o fazia visualizar aqueles lábios... Aqueles dentes... Aquele olhar...

"- Não!" - Gritou ele, se afastando do guarda-roupa.

Resolveu então ligar seu computador e deixar que o shuffle resolvesse o quê rolaria para ouvir!

Ironia do destino. A música que os dois adoravam ouvir.

Clichês à parte, decidiu não lutar contra aquela tristeza que teimava invadir sua alma.
Entregou-se aos prantos. Chorava alto. Berrava até.

Era quase certo que o vizinho do 12 o ouviria, mas já não se importava.
Tinha esperança de que pelo menos os soluços o som da música abafasse.
Mas se não abafasse também, quem se importaria?
Ninguém ligava. 

"Ninguém liga pra ninguém!" - Pensava consigo mesmo.

Já tava entregue ao martírio mesmo! Por quê não sofrer mais um pouco?

Tirou uma peça de roupa qualquer, que pertencia à ela.
Uma blusa vermelha que havia dado de presente de formatura, e que estava ali havia tempos, há muito esquecida.

O perfume! Aaaah... O perfume...

Não sabia o quê fazer com tantas lembranças. 
Tantas memórias... Memórias essas que o alegraram durante tanto tempo, e que agora, a cada vez que vinham, se comparavam a marteladas no dedinho do pé...

Não sabia que horas eram. 
Já havia perdido a hora para o trabalho.
Não se importou com isso também.

Tirou aquele dia pra ele. 
No fundo no fundo, sabia que daquilo não passaria.

Ou assumia de vez as rédeas da sua vida, ou viveria se importando com a vida de alguém que nem sabia mais que ele existia.

O som parou. A música acabou.
Havia selecionado o modo randômico, mas na pasta que levava o nome dela, e sem ativar o repeat.

Diminuiu então o volume do choro. O esforço pra parar o soluço foi grande, mas conseguiu.

Olhou para a porta, com uma esperança vinda não sabia de onde, de que ela entrasse, com os olhos cuidadosos com os quais tantas vezes havia olhado para ele, fazendo o sentir a pele macia de suas mãos sobre suas pálpebras, acalentando as lágrimas que muitas vezes teimavam em escorrer.

Mas nada.

Só o silêncio no apartamento 14.

E como criança que fica de castigo, num cantinho do quarto, resolveu se entregar à melancolia.
Ninguém viria mesmo em seu socorro.

No chão, o coração, esmiuçado em diversos pedaços.
Caquinhos de lembranças. Pedaços de memórias.

Jamais voltariam a ser como antes.
Porque a responsável pelas mesmas, resolveu viver uma vida, longe da vida dele.
Coisas da vida.
De quem vive. 
E de quem morre também.
Um pouquinho a cada dia.

quinta-feira, 20 de março de 2014

O conto do vigário militar

Dentro de doze dias será primeiro de abril. Dia da mentira. Mas não será um dia qualquer, pois serão completados 50 anos de uma das maiores mentiras que o país já viu, e olha que não foram poucas.

Seja com os eufemismos de ‘revolução de 64’ ou ‘ruptura democrática’, seja com a triste realidade de golpe ditatorial, há 50 anos o governo brasileiro foi derrubado e a democracia suprimida violentamente por 21 anos.

Apesar de seu aspecto sombrio e de suas ações sanguinárias, a ameaça de uma ditadura militar continua a seduzir fortemente alguns setores da sociedade, e pior, alguns setores que não foram beneficiados em nada com a ditadura.

Poucos dias atrás circulava na internet, de forma irônica, que a esquerda aceitou o fim do comunismo melhor que a direita. Há um fundo de verdade na piada. Na década de 60, João Goulart, presidente deposto pelos militares, não tinha nada de comunista. O que fazia era tentar por em prática medidas que beneficiariam a população, como reforma agrária, leis contra a especulação imobiliária, sufrágio universal, etc.

À burguesia restava demonizar tais medidas, colocando-as no mesmo bojo de atitudes contra a moral, os bons costumes, a família e tudo que pudesse sensibilizar aqueles que seriam beneficiados por medidas populares. O produto resultante dessa mistura ganhou o nome de comunismo.

Não é necessário ser profundo conhecedor de Karl Marx ou estudar a fundo o livro “A ideologia alemã” para saber que tudo isso não tem nada de comunista. Tão pouco as falácias de que no comunismo seus bens serão roubados, que se sua casa for invadida ninguém poderá fazer nada ou que exemplos de comunismo podem ser conferidos em Cuba e Coréia do Norte. Nota: uma sociedade comunista não tem governo.

Não bastassem os 21 anos de repressão, o fantasma da ditadura volta a rondar e, pasmem, com o mesmo discurso sem pé nem cabeça de 50 anos atrás. Até mesmo a “marcha pela família com deus pela liberdade” será reeditada, clamando por uma intervenção que cerceie a liberdade em prol da liberdade (?).

Felizmente a oposição a essa ideologia ainda é forte e entre os opositores há quem defenda a proibição de manifestações em favor da ditadura. Por mais estranho que pareça, é importante que esses grupos reacionários tenham voz. Como dizia John Stuart Mill, mais eficiente que censurar um argumento é ouvi-lo e desconstrui-lo.

A atual situação política do país não é, de fato, muito animadora. A corrupção está fora de controle, a economia cresce mas com deslizes e o governo visa os interesses de uma minoria. Difícil é saber se essa descrição é referente ao período democrático ou ditatorial.

Passamos 21 anos sem ter notícias de corrupção no governo, o que seria o sonho de toda população. Por outro lado contávamos com agentes que censuravam até mesmo as novelas da televisão, será mesmo que haveria liberdade para que um jornal denunciasse um ato de corrupção?

Com ou sem corrupção, nosso crescimento econômico era bem maior, chegava aos dois dígitos como a atual China, por vezes também chamada de comunista. O único detalhe é que o preço que pagamos por esse crescimento irreal é alto até hoje. Financiado com o dinheiro de empréstimos, o crescimento econômico do período da ditadura fez com que a dívida externa aumentasse oito vezes em 20 anos, passando de 12 para 100 bilhões de dólares.

O argumento irrefutável por parte dos militares e atuais simpatizantes é que atualmente o Brasil é governado pelo PT, que leva a cor vermelha do comunismo em seu símbolo e colocou até o Bolsa Família em prática para dar dinheiro a quem não trabalha, certo?

Dizem os matemáticos que os números não mentem; complemento que não mentem, mas aceitam muito bem uma maquiagem. O Bolsa Família teve em 2013 um orçamento de R$ 24 bilhões, 0,5% do PIB que beneficiou 13,7 milhões de famílias. Já as despesas com aposentadorias e pensões militares consumiram R$ 24,5 bilhões para beneficiar pouco menos de 300 mil pessoas.

Com o governo que temos é sedutor e necessário promover manifestações e clamar por mudanças, mas é sempre bom olhar ao redor para verificar se não estão nos oferecendo uma casa de doces para nos conduzir ao abate.


quarta-feira, 19 de março de 2014

Momento certo



Quanto tempo demora pra chegar o tempo certo das coisas? Marcela não suporta mais o emprego e chega em casa nervosa todos os dias, mas não deixa o emprego porque diz que não é o momento certo. Carlos conheceu Priscila, que é linda e se apaixonou por ele. Ela é exatamente aquilo que ele disse sempre querer em uma mulher, mas lamenta que ela tenha aparecido quando ele não está no momento certo.
O mundo está cheio de mulheres insatisfeitas com o peso, mas que acha que o momento pede outras prioridades, cheio de gente que prefere se calar por julgar não ser o momento certo a dizer o que quer, de pessoas que omitem sentimentos e perdem oportunidades... tudo por conta do tal momento, que acontece o tempo todo, mas apesar de nunca estar exatamente errado, parece nunca chegar a ser o certo.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Eu sei ler seu humor pela sua despedida

Eu sei ler seu humor pela sua despedida. Sei a diferença entre beijos, beijo, beijão, bj, ou palavra nenhuma. Na falta de um s ou em uma abreviação, sei em que grau quer me matar. Sei quando está morta de tesão, sei quando é pressa, sei. Quando lê e não responde, maus lençóis, péssimos lençóis estou. E você é tão cristalina, mais fácil de ler que livrinho infantil, que cartilha. Não sou eu clarividente, é você, transparente. Até no escritório você deve agir assim. Sem nem pensar em intimidade, projeto de vento e popa, a despedida do e-mail assinala: beijos! Alá, até ponto de exclamação. Relatório para fazer, mil páginas para preencher e a despedida é att. Quando a raiva é tamanha, chefe insuportável, colega mala e a puta que pariu, vem um sem mais. Sem mais, esse desejo de morte. Sem mais, essa vontade que o outro leia o e-mail e nunca mais responda. Como foi comigo. Até hoje minha tela está aberta no seu e-mail. Frieza de texto empresarial, desculpas dedilhadas por nenhum amador. Discurso derradeiro. Irônico, esse não teve nem despedida. Foi só o ponto final, antes da assinatura. Nome e cargo. Você foi tão profissional que terminou comigo do e-mail corporativo.

sábado, 15 de março de 2014

Bença, padim

 Ultimamente tenho ouvido muitas reclamações de amigos, parentes e colegas de serviço relacionadas a um espécime que parece estar proliferando como Gremlins molhados nos ambientes de trabalho desse Brasilz. Popularmente conhecidos como "pupilos", "protegidos" ou "apadrinhados", são aqueles que conseguem empregos ou cargos graças à sua influência social.

Não tenho nada contra a pessoa ter um padrinho. Pelo contrário. Quisera eu ter um QI bem bom e estar em um emprego melhor ou ganhando mais. O que eu acho de uma imbecilidade ímpar é a criatura fazer do seu batismo o seu escudo e agir com irresponsabilidade, acomodar-se, prevalecer-se. É adubar o ódio dos colegas sempre lembrando a todos que ele tem as costas quentes. É ser um notório peso morto sem sentir remorso. 

Conheço afilhados que vivem em função dos seus padrinhos. Pulam de galho em galho, intercalando empregos medíocres. Querem saber do salário, não do trabalho. São imediatistas, desconsideram o fato de que o apadrinhamento pode acabar, sobretudo se o 'dindo' estiver em uma situação de poder instável como num cargo político, por exemplo. Parecem desconhecer a noção de competência, de satisfação e reconhecimento profissional. Contentam-se com migalhas.

Tudo bem. Eu sei que existe gente limitada e que o que é medíocre pode ser, nestes casos, um oásis. Mas é difícil acreditar que alguém seja absolutamente ruim em tudo. E se for, que pelo menos possua a decência de não pesar o ambiente de trabalho, não é mesmo? É a famosa teoria do feio (que tem a obrigação de ser simpático). Será que nunca passou por esses cocurutos a ideia de aliar o poder que o apadrinhamento tem à competência? Seria uma combinação difícil de superar. 

Mas se este tipo de afilhados é escória, grande parte da culpa recai sobre os padrinhos, muitas vezes negligentes. Aí você pode argumentar que tanta vista grossa se deve, geralmente, pelo fato de os padrinhos deverem enormes favores aos seus afilhados. Uma mão lava a outra, blá, blá, blá... e eu concordarei com você.  Mas será que padrinho nenhum no mundo tem vergonha (e culhões) para decidir colocar ordem na casa? 

Quem sou eu para entender a lógica nesse jogo de gente poderosa e influente. Sou apenas uma formiguinha operária blasfemando contra uma nuvem de cigarras. Padrinhos e afilhados, muitas vezes, se merecem mesmo. E se falta vergonha na cara, sobra esperteza. Pois eles sofrem de um oportuno problema de memória curta e não perdem nenhuma noite de sono fazendo balanço de suas vidas. 

Melhor deixar estar. Enquanto esse bando de afilhados fica fazendo algazarra, eu acredito estar reforçando meu estoque de suprimentos.  O inverno já está chegando e eu não estou nem um pouco afim de dividir minha sopa com desprecavidos em troca de cantoria irritante. 

sexta-feira, 14 de março de 2014

Diário do Futuro, só que não

Deveria ter contratado um ghost writer, mas não o fiz.
Estou viajando, estou em um lugar muito longe, que chove muito e faz calor. 

Estou lá. Trabalhando, conhecendo moradores de um quilombo.

Estou feliz? Estou querendo voltar? Estou querendo morar lá?

Estou me dando bem com minha chefa? Estou conseguindo dormir? Estou apaixonada? Resfriada?


Comendo peixe. Ouvindo a chuva. Andando de barco.

Agora é 1:34 do dia 11 de Março. Viajo até o dia 31. No dia 14 estarei em Cachoeira Porteira (PA), fazendo a produção de um projeto e.......não sei. Estou ansiosa e quebrada de cansaço. Tenho que dormir e depois ir. 

E cá estou eu. Usando este blog de diário, algo que eu não queria mesmo fazer e que não faria em 11 de março de 2013.

Chega de divagações de uma mente cançada.

Chega de tentar imaginar o futuro.

Cachoeira Porteira, onde os escravos corriam e se refugiavam dos seus capatazes....a essa hora estou lá.

https://www.youtube.com/watch?v=9IxBuoTfheU

Ps: nessa época do ano chove tanto que a cachoeira fica encoberta.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Uréia

Era a primeira da fila já nas primeiras horas da manhã.
Provavelmente chegara antes do dia clarear.
Daquelas senhoras falantes, que ao primeiro sinal de pessoa perdida, lá estava ela a dizer qual era o sistema do atendimento no hospital.
Entre uma orientação e outra, enfiava uma história da vida, num ritmo frenético, sem dividir os assuntos por pausas eu respirações mais profundas pra angariar fôlego.
Reclamara várias vezes do jejum, da falta de consideração dos funcionários daquela instituição e da impossibilidade de nem sequer tomar um cafezinho durante a espera.
Quando a primeira enfermeira apareceu, lá estava ela, prontamente para ser atendida, com todos os papéis, sacolas, requisições médicas e guarda‐chuva.
— Pode entrar a primeira.
— Oi, bom dia, minha filha!
— Bom dia Senhora.
— Que bom moça, tô com uma fome...sonhando aqui com o cheiro de café. Continua a senhora insistindo no desejo da bebida.
— Só coletar o sangue para o exame e a senhora já vai tomar seu café. Explica a enfermeira.
— Tá aqui os papéis que o médico me deu e tá aqui também a urina.
— Hum...deixa eu ver o que ele pediu.
— Tá.
Depois de alguns segundos:
— Acho que não tem urina aqui não.
— Ué, parece que eu li urina em algum lugar. Responde ela, fazendo cara de interrogação e coçando os lisos cabelos esbranquiçados.
— Tem uréia. 
— E uréia é o que minha filha; não é urina? Indaga a velha com mais cara de dúvida.
— Não tem urina mesmo aqui nos pedidos. Afirma a enfermeira categoricamente.
— Ah, mas bota aí vai, vou fazer o que com essa urina agora? Levar de volta? Bota aí vai, tô doida pra tomar um café.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Sedex do desamor


Às vezes me impressiona ver como faltam tantos serviços neste mundo. Se eu fosse empreendedora já teria desenvolvido milhões deles, mas sou aquela parte da humanidade que acha um saco correr atrás de burocracia e não tem o que se precisa para lidar com tudo que envolve essas questões.

É vergonhoso dizer isso em uma sociedade de ''moderninhos e empreendedores'', mas a gente nasce de um jeito e nem sempre se adapta aos tempos que estão correndo diante de nós.

Nos últimos dias reparei que falta um grande serviço no Correio, o sedex do desamor. 

O amor acabou, mas algumas coisas ficaram, livros, cds, roupas. O que fazer com tudo isso? Ligar e pedir pra vir buscar pode dar margem a uma transa casual ou pior ainda, aquele pensamento medieval que persegue almas como eu, ''ele vai achar que quero voltar e estou inventando desculpas para ligar''. Ah, vergonha total quando pensam isso de mim, gosto da honra que o amor envolve e o silêncio faz parte dela. Não quer mais meu amor? Tudo bem, mas eu não corro atrás nem procuro, me seguro no meu sangue de índia que se recusa a mendigar amor de branco. Sou digna na dor e no desamor, mas não sei o que fazer. O correto seria ir no correio e mandar tudo de volta, mas é justo ter que pagar? Não acho. Uma coisa é desamor, outra é gastar dinheiro, me recuso a gastar um centavo em pontos da vida que deveriam envolver apena meus sentimentos, não meu bolso. A dor da perda já é suficiente e gostaria de pelo menos nesse momento ser amparada pelo Estado, adoraria chegar no correio, colocar tudo em uma caixa e escutar da funcionária- No caso de sedex por desamor o envio é gratuito.
Seria justo. 

Já me disseram para fazer uma fogueira e queimar tudo, mas eu moro em prédio, precisaria da autorização da síndica, que por sua vez precisaria da autorização dos bombeiros, que por sua vez precisaria da autorização da prefeitura. É gente demais e o desamor é só meu, não quero o povo comentando, nem bombeiro com pena de mim.

E por que não jogar tudo fora? Porque sou pão dura, tudo ali custou dinheiro ao falecido, fico com dó. Todas as alternativas que me deram ''vai e joga na casa dele'', ''larga na casa da atual'', ''queima'', ''doa'', ''joga no lixo'', tudo isso é passional demais para mim, ainda não entrei no círculo de ódio, não sinto vontade de agir assim.

Sou uma cidadã fazendo um apelo ao sistema que tanto ignora minha dor, por favor Correios, abram esse serviço, preciso desse sedex do desamor, até porque não sou a única e não sei se foi minha última vez. Talvez eu precise do serviço novamente, só Deus para saber meu futuro.

Fico aqui vendo as coisas empilhadas e penso, como essa falta de serviços atrapalha nossa vida! Imagino que  foi pensando assim que se inventaram tantas coisas, desde a lâmpada até o abridor de latas.

O governo diz que o Brasil está indo muito bem e progredindo, pode ser que um dia escutem meus apelos e coloquem esse serviço nos Correios. Espero não ter que usar, mas é bom saber que conto com isso.
Estado, que seja apenas uma vez, mas se faça presente na minha dor.




terça-feira, 11 de março de 2014

Carnaval? O que há de tão mal?

E o que tem que é carnaval? Esse ódio pela data que todo mundo festeja e 'faz a festa'. Festa pagã? Festa dos arruaceiros, dos vagabundos, dos que não tem mais o que fazer? Daqueles que não tem cultura?

Desprenda-se desse mundo, olhe ali, daquele lado. Tá vendo? Presta atenção, tem gente ali admirando o carnaval na sua mais límpida forma de ser. Na sua raiz e inocência e veja, veja como eles riem, cantam e dançam!

As marchinhas, os blocos sem malícias, as amizades e os sorriso dos que sabem viver, dos boêmios cantadores.

Olha! Viu? Eles acabaram de se tornarem amigos! E sabe, acho que vai longe... Por que não?

Não faz mal que é carnaval, ele não é tão ruim quanto parece, ele não é só aquilo que passa na TV. Desliga. Vai ali ó. Olha que legal... 

Dali não quero sair,
Dali vou extrair, 
O que o bloco cantar,
Pra que eu possa também dançar!

sábado, 8 de março de 2014

Medo


  Me achava corajosa.
  Assistia Freddy Krueger, a coisa, gremlins sozinha no quarto.
  Adorava rodinhas de contos de terror, os outros sentiam medo, eu me divertia.
  Discos voadores, loira do banheiro, ladrões, traficantes...
  ...nada, nem tiroteio, nem roda de rock.

  Acontece que eu tenho medo de outras coisas.
  Repetir de ano, ir ao dentista, bronca.
  Até hoje, morro de medo de bronca, de reunião com a chefe, de dentista.

  Sou uma entre bilhões de pessoas que sabem exatamente o que dizer, mas ficam quietas,
  e estou entre outros bilhões que sempre falam, mas deveriam ficar quietas.
  Sou a pessoa mais medrosa que conheço.
  
  Tem entre esses tantos bilhões de pessoas
  poucas que sabem o que dizer e fazer,
  e não têm medo, ou que superam.
  Meu novo sonho é ser uma dessas.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Opiáceo

Meu corpo entre colchas brancas e o corpo dele. Lábios se chocam e degustam o gosto de tudo o que encontram na geografia do outro.

*** Vibrato na polifonia das vozes***.
 PeleEPele.

 Espelho no teto. Nós, frenéticos no profundo do espelho. Vejo um pouco de mim, vejo marcas femininas e profundas nas costas masculinas, vejo pernas, mãos, pés, braços, músculos tesos, músculos relaxados, músculos e espasmos erigindo, esparramados. Longos cabelos pretos vertendo da mulher, bunda gostosa do homem que me possui, vejo coisas coloridas e intocáveis volitando no ar morno do quarto, são anjinhos do Éden.
                                                          
 ( )      
             A menina completava 20 anos saudáveis nessa madrugada. Gozou um tempo infindo e macio, como vale à toda gata de estirpe; depois, acendeu um cigarro enquanto sentia um zumbido agradável nos ouvidos. O melhor gozo, um verdadeiro presente de aniversário! Um cara bonitão, ao seu lado, também fumava. Acima, ainda que invertidas certas direções, duas duplicatas perfeitas botavam olhos sobre eles. Também estavam nuas, e suas partes íntimas ainda confabulavam qualquer coisa suja e bonita.

quarta-feira, 5 de março de 2014

SER MULHER

Ser mulher é soltar uma gargalhada no meio do jantar romântico. É desejar que alguém lhe borre o batom e não o rímel. É espalhar a sombra, mas só nos olhos. Ser mulher é iluminar o ambiente onde quer que ela passe. Parabéns a todas as mulheres que escrevem e acompanham nosso blog. Que seus traços marcantes continuem delineando o mundo com delicadeza. 

(Cleyton Cabral)

terça-feira, 4 de março de 2014

De mim pra mim, ou: dez anos ensinam muita coisa.

Esses dias, vi no Facebook uma proposta que me deixou super animado, e nenhum espaço melhor que este para eu usar: escrever uma carta para o Emanuel de dez anos atrás. Levando em conta que eu tenho o meu diário de 1999 até 2009, acho, fica fácil eu meio que lembrar como eu pensava na época. Mesmo porque, a gente tende a tingir de cor diferente as nossas lembranças, de acordo com o nosso presente. Se o presente é bom, o passado é uma merda. Se o presente é ruim, o passado foi maravilhoso. É um jeito bonito, mas pouco aplicável, de enfrentarmos a realidade de que cada dia a mais, é um dia a menos.
E vice versa.
Como estou próximo de completar vinte e nove anos, já sinto os primeiros influxos daquilo que é chamado o Retorno de Saturno. Um momento na vida da gente em que já passamos por quase todas as experiências possíveis e agora passamos a escolher direito o que queremos passar (ok, ok, nem sempre, não para todo mundo, mas aí é de cada um, né?) Então, ando muito pensativo sobre o que andei fazendo da minha vida nesses anos. Diante disso, resolvi escrever a carta para o Emanuel de dezoito anos, que estava terminando o ensino médio e trabalhava num supermercado.
E tinha um baralho para chamar de seu, mas era um só.



Ow Emanuel, tudo bom?
Contar um negócio pra você: eu sei que nesse momento da tua vida você tá achando que tá tudo dando errado. Você acabou de desistir da vida, mais uma vez, mas, olha, não é agora que você vai morrer não. Então é melhor começar a se acostumar com isso.
Levando em conta esse detalhe, lembre-se: cada dia bem vivido é um dia a mais. Cada dia mal vivido é um dia a menos. E cada dia, enfim, a vida passa. Que a sua passe a mais. Na verdade, RS, eu sei que vai ser assim, então, na boa, fica na boa.
A vida não é só livros, cara. Vá viver um pouco. Vai ser bom pra você. 
Falando em viver, por favor, nada de usar gel no cabelo. Use creme para pentear. E manere nos alisamentos. Você vai sentir a diferença quando teu cabelo crescer. Vai por mim, você vai ter o cabelo para baixo dos ombros, e será seu. Terão inventado uma tal de escova progressiva, que é tipo rock progressivo, só fica melhor com o tempo. 
Não leve seu trabalho tão a sério. Ou melhor: não leve as pessoas do seu trabalho tão a sério. Você vai ver, daqui a alguns anos, que tudo isso é tão passageiro que nem vale a pena ficar esquentando a cabeça e derretendo o estômago.
A tua namorada vai separar de ti, casar, ter filhos, separar do marido e vir conversar com você. Espero que você tenha vergonha nessa tua cara. Na verdade, você tem.
Você tá pensando em fazer Psicologia, mas vai fazer História. E vai conhecer pessoas maravilhosas, numa cidade que hoje você nem faz ideia que exista. Ah, e isso devido a um cursinho no qual você conseguiu bolsa integral, parabéns. Mas lembre-se do que disse sobre livros não serem tudo na vida.
Você acha que sabe muita coisa da vida? Vai descobrir que não sabe quando arrebentar a cabeça na escada da tua casa e tomar seis pontos. E depois, você vai arrebentar a cara de novo, quebrar um dente, de puro cansaço.
Você vai a São Luis do Maranhão. De ônibus. Acredite, uma vez para nunca mais. Mas vai morrer de saudades do arroz de cuxá.
Esse teus 59 kg em 1,79m  se transformarão em 78kg de massa (quase) magra [tem uma pochetinha aí, mas vai sair com fé]. Continue malhando.
...E você vai voltar a fazer Karatê, chegar na faixa verde e parar por um tempo, de novo.
Ah, teu problema de visão não é astigmatismo, é ceratocone. Vai num outro oftalmo que esse que tá cuidando de ti é uma merda.
Você vai descobrir que sexo não tem nada a ver com filmes de amor. É a coisa mais boba do mundo. E assim como gelly bears e tic tacs, você vai perceber que coisas bobas são viciantes.
Você terá vários apagões de vodka. Divirta-se.
Um dos teus melhores amigos será um cara absolutamente oposto a você. E vai ser engraçado perceber o quanto vocês se gostam, sendo tão diferentes.
NUNCA aceite uma cantada virtual. NUNCA.
Você vai conhecer psicopatas que fazem isso. E é bom que você os mande para o inferno, cedo.
Preserve seu dinheiro. Eu sei que você gosta de glamour, mas vai gostar mais ainda de Paris. 

É isso, meu fio. Segue teu rumo porque, quando você chegar à minha idade, terá um cabelo longo, como sempre quis, o corpo que imaginava querer, estará trabalhando e solteiro, depois de dois anos de namoro. E terá toda uma vida pela frente, uma vida que vale a pena.

domingo, 2 de março de 2014

Uma odisseia na bibilioteca


Ok, na verdade não foi exatamente uma odisseia. Mas eu já publiquei alguns textos no meu blog (paulopilha.wordpress.com/) contendo a palavra odisseia no título. Uma odisseia no Detran, com o Bad Religion, na prova de auto-escola, no laboratório e não sei mais aonde. 

De todas as bibliotecas que já frequentei, talvez essa do CCBB no Centro do Rio seja a mais silenciosa de todas. A melhor em termos de infra-estrutura e ao mesmo tempo a mais barulhenta é a da PUC. Diria que 95% das pessoas ficam em silêncio. O problema é que sempre tem um ou outro novato de biblioteca sem noção que circula entre as mesas conversando com o coleguinha como se o silêncio só valesse uma vez que a pessoa esteja na mesa sentada. Ah, têm também os habitués mal educados mesmo. Estão lá todos os dias, mas atendem a porcaria do celular dentro da biblioteca em vez de deixar pra atender do lado de fora. Alguns ainda tem a capacidade de iniciar e terminar a conversa dentro da biblioteca fazendo aquela voz mais baixa como se ninguém ouvisse. É óbvio que a voz sussurrada é pior. Pode até ser mais baixa, mas irrita mais. Devo confessar no entanto que algumas pessoas conseguem conversar na biblioteca apenas usando leitura labial. É incrível. Essas pessoas podem conversar por horas na mesa ao lado e você não vai ouvir absolutamente nada. 

Voltando ao CCBB. Era um sábado. Sim, um sábado. Silêncio sepulcral como sempre. Eu já estava exausto. Morrendo de vontade de ir pra casa quando me entra um palhaço na biblioteca. Ele falacom o bibliotecário da mesa central, faz algum barulhinho de buzina e entrega um papelzinho a ele que se assemelhava àqueles do biscoito da sorte. Pega uma Revista Veja e senta em uma das mesas com uma indumentária absolutamente bizarra e extravagante. Vejo vários estudantes se entreolhando até que um deles se levanta e se dirige à mesa do palhaço para pegar um papelote de biscoito da sorte. O palhaço deixou as papelotes bem evidentes numa espécie de tubo que ele ficava agitando de vez em quando para chamar a atenção dos estudantes. Aquela agitação de tubo não faria qualquer barulho em circunstâncias normais, mas numa biblioteca silenciosa dava pra ouvir perfeitamente. O palhaço não parava quieto. Estava irritado inicialmente com a sua presença. Agora estava gostando. Quando novamente eu iria me deparar com um palhaço numa biblioteca? Fui até a mesa dele, peguei um papelote, agradeci com a cabeça em silêncio, e fui embora. Coloquei o meu papel da sorte no bolso e só fui abrir quando cheguei em casa:

"Cada coisa, cada pessoa é um poema que se dirige ao Outro, figura desse Outro."
O meridiano, Paul Celan