quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Se você trocar um sonho por um homem, tua vida acaba (acorda mulherada!)

Se Deus aparecesse agora na minha frente e me perguntasse qual foi a coisa que mais me atrapalhou a vida até agora, só tenho uma resposta: a falta de egoísmo.

Segui ao pé da letra a regra dada, nunca fui egoísta, sempre pensei nos outros, porque era isso que se esperava de uma mocinha católica em uma sociedade machista, minhas vontades nunca foram consideradas, até porque eu ignorava elas.

Depois de tudo que passei comecei a me lixar e fazer as coisas do meu jeito, mas ainda estou longe de ser uma pessoa que só pensa em si e tem um caráter egoísta. Tento pelo menos manter a mão firme na idéia, para evitar que passem em cima de mim como passaram a vida inteira.

E quando vejo alguém cair em uns erros parecidos tenho vontade de bater a cabeça da pessoa na mesa. 
Uma amiga vai se casar este ano, no momento caminha nas nuvens e Romeu é um X-tudão. Mas conversando com ela perguntei se já tinha resolvido aquele antigo problema entre os dois, ela morre de vontade de ter filhos, sonha até com os nomes e Romeu é divorciado, pai de dois meninos, já fez vasectomia e disse que a única maneira de reverter isso seria na próxima vida.

Minha amiga garantiu que ''tudo bem'', ela entende o lado dele. Mas eu quase berrei na mesa, de tão indignada, e o lado dela, ele entende?

Tem coisas na vida que a nossa única resposta deve ser: FODA-SE VOCÊ!

É absurdo a mulher ceder em uma coisa dessas tão grande. E já tenho dito, pior do que obrigar um homem a ser pai é impedir uma mulher de ser mãe, caso seja a vontade dela.

Resolvi contar duas histórias de terror para ela, da geração da minha mãe e uma da minha.

Uma amiga da minha mãe se apaixonou por um divorciado com dois filhos. Ela morria de vontade de ter filhos, ele não, mas ele a convenceu de que talvez não seria boa mãe, porque gostava demais de viajar e finalmente poderia considerar os filhos dele também seus filhos. Isso funcionou uns anos, mas um dia em uma fatalidade os dois filhos dele morreram em um desastre de avião. Ela já tinha passado da idade e não podia ter filhos e ele ficou sem os filhos do primeiro casamento.
Continuam casados, mas é claro que isso causou uma ruptura nos dois, ela escutou ele e mudou sua vida, ele preso o egoísmo perdeu tudo.

Muitas mulheres passam em cima do que querem, apenas para agradar alguém que nem sabe se vale a pena.

Outra amiga da minha mãe se apaixonou por um homem casado e acabou engravidando. Ele pediu que ela fizesse um aborto, porque ia se divorciar da mulher e achava que seria demais para ela o marido ir embora com uma amante grávida. E lá foi a trouxa fazer o aborto. Eles ficaram juntos mais uns anos, mas ele não se separava. Ela acabou engravidando novamente, ele jurou que dessa vez ia largar a mulher, comprou um apartamento, mas acabou recuando e dizendo que não estava pronto para ser pai, pediu que ela abortasse e desse um tempo para ele trabalhar a ideia. Ela deu mais uns anos, ele pensou melhor e foi embora, ficou com a mulher, que engravidou de gêmeos.

A amiga da minha mãe até hoje chora contando sobre os bebês que abortou em um momento de fraqueza, foi idiota mesmo, não era mulher estuprada, era uma mulher grávida do homem que amava. Ficou tão abalada com tudo que nunca se casou nem teve filhos.

E a única história da minha geração que conheci foi a pior de todas. Um lindo casal jovem resolve se casar e ficam juntos uns cinco anos. Ela sonhando com o filho, mas o rapaz não queria, não gostava de crianças e ela não queria perder seu amor, resolveu ceder. Depois de cinco anos ele se apaixonou por outra, divorciada com três crianças, largou a esposa e foi embora com essa. 
A esposa ficou traumatizada, mas recomeçou sua vida, se apaixonou de novo e decidiu ter filhos. Não conseguia engravidar e quando foi investigar a causa descobriu que tinha um câncer terrível, tanto que foi operada no mesmo dia que descobriu e tiveram que remover seu útero.
Já seu ex-marido, aquele que não gostava de crianças, adorou os filhos da sua nova mulher e se aventurou a ser pai, teve mais três. Para uma pessoa que ''não gostava de crianças'' ele encheu a casa logo com seis.

Disse tudo isso para minha amiga, sou ótima contando histórias de terror, quando na verdade apenas estou berrando: ACORDEM MULHERES!

Não errem pelo Romeu, se querem ter filhos e ele não, façam a fila andar, não vale a pena renunciar de um sonho para ter um homem que não vai renunciar a nada e pior ainda, mulheres têm que entender, nossa faixa de tempo não é a mesma deles, se quiserem podem ser pais aos noventa anos, caso se arrependam, as mulheres não.

Renunciar a vontade de ser mãe por um Romeu é uma das piores coisas que uma mulher pode fazer, ela vai pagar o preço disso a vida inteira. Conheço mulheres que não quiserem ter filhos e estão super bem com isso, mas as que conheci e não tiveram porque o marido não quis, arrastam correntes até hoje, acaba afetando até as amizades, porque elas se afastam de tudo, justo para não ficar vendo outras mulheres curtindo seus filhos.

E para que isso? Por um homem? Desde quando isso vale a pena? E por que um homem gostaria de ser pai? Isso acontece apenas com uma minoria, o resto não quer nem saber, não quer perder o trono, os privilégios e muito menos trocar a esposa que vive para ele por uma mãe que vai dividir o tempo.

Paternidade é uma coisa que não compensa para os homens, eles já entram recuando, não são obrigados nem a sentirem as dores, não correm para o parto nem amamentam, então 
a maioria passa reto da experiência, porque a curto prazo não compensa.

Ah, mas tem homem que curte ser pai ou quer ser, tem mesmo, mas são poucos. O resto é pilantra e egoísta, querem a mulher só para eles.

E eles são assim e a mulher ainda chega cedendo? Não pode ceder, senão eles passam em cima.

Falei para minha amiga que uma coisa é ceder e passar o Natal na casa da sogra, outra é foder tua vida inteira, ficar sem uma coisa que tanto sonha, os filhos, apenas porque o Romeu é um cagão e não quer assumir responsabilidades.

A parte da história que ninguém nos conta quando estamos crescendo é a mais importante, mas sonhos são egoístas e temos que ser um pouco egoístas para conquistar eles. Esse sonho meigo que todos ficam felizes não existe, ter o que se quer neste mundo exige uma noção clara de quem somos, o que queremos e nossa capacidade de egoísmo. Não conheço ninguém que tenha conquistado alguma coisa na vida agradando todo mundo, isso não existe.

Quem sonha com a maternidade que corra atrás dela, mas fuja dos Romeus que não querem nada de nada, esses homens emperram a vida e fazem o relógio biológico da mulher apodrecer. E vale para tudo, jamais se deveria renunciar a um sonho por alguém, devia ter lei proibindo isso, porque é claro que um dia a pessoa vai se arrepender, mais ainda neste tempos tão rápidos e rasos.

Se o Romeu não quer a mesma coisa ou seu sonho bate de frente, então se pode gritar as duas palavras mágicas: Foda-se você!

E continue andando. Mas que coisa feia! O amor é ceder, relevar, abrir mão. É? É por que só mulher faz isso e se fode? Eles não podem abrir mão? Tudo bem, eu não abro mão, que se dane.
Mais então  talvez eu fique sozinha, porque não sei renunciar aos meus sonhos para agradar Romeu. Já disse isso antes e digo de novo, os meus sonhos são mais importantes do que Romeu. E vou mais longe, a minha vida é mais importante do que qualquer Romeu. A equação contrária, onde mulheres se diminuem para se adaptarem aos homens sempre acaba em desgraça para elas, a conta nunca fecha. 

E ninguém te conta do dia seguinte, aquele momento que depois de ceder você é obrigada se olhar no espelho e saber que foi tua decisão, ninguém te obrigou a nada, se fez besteria pensando em agradar Romeu, o problema é teu, ninguém vai te consolar. E tem decisões erradas que podem durar para sempre. Para quem sonha em ser mãe e renuncia a isso por um homem, pelo menos que tenha claro que vai chorar a vida inteira, porque ninguém vale um sonho teu.

Iara De Dupont

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Dois Poemas

Éramos poetas, e resolvemos brincar de escrever um ao outro. Escrevi um poema que dizia:

Deixe que nossos olhares mesclem,
Deixe que os cheiros fundam,
Deixe que os tatos sintam,
Deixe que os beijos beijem,
Deixe?

Logo que leu, em resposta ao que escrevi, recitou seu poema, direto e sem rima, mas o mais belo e jamais visto por mim em toda minha jornada literária. A sentença de um único verbo, uma ação conjugada no mais intenso presente de nossas vidas e que dizia:

Deixo.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Daqui a trilhões de trilhões de trilhões de anos

Titan Surface by Ron Miller

Daqui a trilhões de trilhões de trilhões de anos nada mais existirá.
Nem o sol, nenhuma estrela.
Nem planetas, nem astronaves.
Nem vida, nem universo, nem buracos negros.

Daqui a trilhões de trilhões de trilhões de anos não haverá mais guerras.
Nem música, nem sons, nem cores, nem memórias,
Nem ornitorrinco, nem ciúmes, nem mar, nem poesia, nem palavras.
Nem sentimentos, nem pessoas, nem nossos descendentes.

Daqui a trilhões de trilhões de trilhões de anos a nossa existência na Terra não significará absolutamente nada.
E nada mais importará.
Nem as brigas por quem deve lavar a louça, nem o xadrez, nem o futebol.
Nem a alta do dólar, nem Bach, nem o Himalaia.
Nem Marte, nem Titã, aquela lua de Saturno.

Daqui a trilhões de trilhões de trilhões de anos não haverá sentimentos, nem consciência.
Nem culpa, nem alegria, nem tristeza.
Nem saudade, nem rancor, nem qualquer lembrança.
Não restará traço algum de tudo o que já existiu.

Vivo minhas experiências hoje.
Sinto, sonho, amo hoje.

Porque daqui a trilhões de trilhões de trilhões de anos
Haverá simplesmente o nada. 


Imagem: A personagem Death, de Sandman






P.S.: Se você acredita que há outros planos além deste em que vivemos, se sua espiritualidade permite que você creia em algo além das teorias científicas, talvez você discorde de mim.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sonhos de inverno

Uma casinha, um cão, um violão, um quintal... talvez plante umas coisas, uma árvore. É, uma árvore. Já viu como as árvores ficam lindas quando chove? Quantas vidas tem em uma árvore? Ah, um bom som, numa vizinhança tranquila, aquele cheiro de café feito na hora, doce que só, quente como o casaco que me aquece. Café puro pela tarde, acompanhado de uns biscoitos fritos. Saudades dos biscoitos da minha vó, a gente ia pro quintal, a casa ficava cheia, movimentada, era julho e o frio já batia na porta, eu ficava olhando pro forno, e lá no fundo um monte de lenha, lendas, escorpiões e alguns morcegos. Descia na horta, ficava ouvindo o silêncio sendo tomado pelo barulho do vento, uma briza inocente derrubando uma telha, e os cães latiam. Aqueles cacos no chão, se transformando em disco-voador na minha mão. Um sorriso, tinha laranja no pé. Eu que nunca gostei de laranja doce, pegava e levava pra casa. Sem contar pra minha vó da minha preferência pelo azedo, pois ela tinha esse negócio de querer me agradar, talvez por sempre estar lá quando ela estava só, ou talvez por ser vó mesmo. A tarde ia embora e já sentia aquele friozinho aumentando aos poucos, sempre olhando o céu. Isso eu quero, um lugar pra ver o céu, o sol se pôr, o sol nascer. Sempre tive uma certa inveja dos que acordam cedo todos os dias, só que é tão bom dormir até tarde, ou a tarde, o dia inteiro. E outro dia, um café, uma linda mulher, aquela que não dá vontade de sair de perto sabe? que você andou por tantos cantos enquanto ela estava desfilando sua beleza por ai, enquanto a vida ousava desviar nossos olhares para outros ares. O inverno tem esse poder de me fazer sentir vazio, frio e inconsciente do que quero. Um tempo que supõe dúvida, eu sempre fui verão, calmo e também cabeça quente. Disseram que esse é o perfil de aquários, não entendo de signos direito, mas já me vi ir do inferno ao paraíso tantas vezes que o purgatório tem sido meu habitat. Busco entender pessoas, comportamentos, natureza e o que encontro são só mais perguntas. Quero sim me aventurar, corro esse risco justamente pelo medo da morte, amanhã quero acordar de novo, ver aqueles olhinhos, ouvir sua voz, tomar seus braços e quanto ver aquele sol, nosso céu, te beijar. Saltar de pontes, subir os montes, seguir os monges, sentir-me anjo ao salvar pessoas. Nunca soube o que era Deus, mesmo sentindo algo diferente, já sai do corpo, já entrei em mentes sem tocar, e sei que ao final do dia, por toda minha vida, quero colocar a cabeça no travesseiro e mesmo queimando por não ter todas respostas, poder dizer que estou em paz. Pois fiz aquilo que estava ao meu alcance, subi, cai e percebi que existe glória aqui nas sombras, que a vida é um acidente e o maior risco é o de não viver. Por isso eu solto tudo que tem aqui dentro, sem medo do que virá. Apesar dos braços serem longos, as mãos só seguram o que a mente pede para segurar. Enquanto o frio insiste em dizer que nada é o suficiente, que sempre vai faltar algo para/ou alguém ali. Quando o seu próprio calor começa a te fazer companhia, buscando aliar as coisas no seu interior, percebe que é mais forte do que pensa. Morremos por buscar algo que não queremos ter ou ser, a fé no suor, escorrendo pelo rosto com promessas falsas de um futuro bom e tão incerto. O consumo nos faz tomar direções tão opostas ao que considero viver, ser alguém é mais difícil do que somente ter, o cobertor que aquece o corpo chega a queimar a carne, a água tem seu preço mesmo que ainda jorre livre por ai, manter-se em pé é muito mais do que um simples ato de levantar, é buscar o equilíbrio para não cair. Inverno é sempre frio... não me tombe mais, estou deitado numa ilha, num barco sem cais, à deriva, só quero viver meu sonho de estar em par e em paz. 




quinta-feira, 29 de outubro de 2015

(des)organização

completa e absoluta. 
seja mental e física, 

tanto que escrevo sem as maiúsculas
e sei que irrita muitíssimo quem lê,
principalmente os adoradores:
da perfeição, da regra,
do certo, do correto. 

mas descobri alguém que ganha de mim:
na desorganização, na bagunça, na desorientação.

comprei um livro que além de não ter maiúscula,
não tem alinhamento, vírgula ou ponto final, 
é um caos.

tem nome de homem,
o tal do haroldo e muitos campos.

demorei uns três dias pra ler.
e quando terminei fiquei com dor de cabeça.
pilhada, feito aquelas crianças com tdah.

a insanidade era inevitável
pensa num redemoinho de letras,
uma galáxia de frases soltas, cheio de planetas e línguas e linguagens.

deu tanta liberdade, que hoje resolvi imitá-lo,
na poesia?
p#rr#, nem se quisesse, muitíssimo.
fico só no admirar sabe.

mas fique calmo (a), 
essa imitação é restrita 
na falta da maiúscula.
e só meu caro (a).

no resto, 
ando não sei quantos espaços de planetas na distância.
mas os passos nesta estrada, com plena e absoluta leitura
permite alguma liberdade.
então uso.

e será que é falta de assunto? 
na verdade verdadeira é o excesso de:

afinal com tanta palhaçada  para ser aprovada 
como é que a gente elenca as prioridades?

então
depois volto, 
com pensamento mais (des)organizado,
do que nunca, porque perfeição nunca foi a minha.

aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhêeeeeeeeeeeeeeee

e graças a deus 
e tenho dito, amém por isso.


***
Diante de tantos assuntos um em específico não sai da mente,  a reorganização das 94 escolas, os 300 mil alunos prejudicados e/ou reorganizados  e esse consentimento da mídia em absolutamente não tratar o assunto da forma que deveria e quando faz é de forma muito discreta para não prejudicar a imagem do governador.  

Mas principalmente não consigo parar de pensar na presença mais que excessiva do autoritarismo institucional.

Sei. O Estado é por natureza - autoritário - mas o pingado de democracia que existe faz crer que está em doses cavalares não?

Relembro as cenas de meses atrás, da greve dos professores em Sampa, ou da agressão e violência policial com professores no Paraná ou ainda das greves em universidades.

 Também do quanto penamos enquanto alunos e comunidade com atual reitora (simpatizante do partido do governador não?) da universidade que fiz parte. Em qualquer data, existe o velho autoritarismo.

Desde a última vez que estive na câmara municipal e não consegui entrar para assistir a votação sobre a discussão de gênero no currículo das escolas esbarro e caio no autoritarismo.

E coincidentemente quando diz respeito à votação sobre educação e gênero alguém tem a brilhante ideia de separar quem era a favor e contra. Veja na simplicidade de ações, de gente que não necessariamente é de patente alta, existe autoritarismo.

Mesmo quando justificado, vejo o autoritarismo em julgar que as pessoas são incapazes de suportar umas as outras. Segundo informação adquirida no momento em que fui barrada, decidiram separar por receio de brigas e para conter manifestantes de ambas as opiniões, como se não fossem adultos e sensatos o bastante para ficarem lado a lado para ouvir a votação e resultado.

Naquele momento, mesmo irritada por saber que não poderia entrar fui aconselhada a ficar no auditório de fora e assistir pelo telão mesmo com manifestantes na rua e favoráveis ao veto, munidos de um carro de som, camisetas brancas e gritos em nome de deus que não aceitariam a ideologia de gênero.

Não preciso dizer que sendo assim, fui embora. Depois de algumas horas, soube que vetaram a discussão de gênero nas escolas numa votação quase unânime.

Fiquei tão decepcionada, pois jurava que passaria afinal a pauta sobre discussão de gênero foi elaborada por uma comissão da educação e não por comunistas, feministas ou anarquistas, mas pessoas que tanto quanto sabem da necessidade social e real demanda da escola.

Tanto que escolheram incluí-la no currículo por compreender que a discussão é ampla e não é apenas sobre assumir ou identificar a identidade de gênero, trata de educar sobre violência, respeito, abuso, assédio, machismo, saúde, orientação sexual e principalmente sobre a vida das mulheres numa sociedade patriarcal e extremamente machista com isso não se exclui os homens.

Seja como for, através do voto e da suposta democracia o autoritarismo venceu e o veto sobre a discussão de gênero nas escolas perdura.

Meses depois vejo a notícia da reorganização, procuro informação sobre diálogo do governo com direção das escolas, professores, sindicato dos professores e principalmente com as famílias porque citar alunos é audácia não é não? E sem surpresa alguma não encontro.

Quer dizer, além do tal Dia E da Educação quando ocorrerá um evento para informar e/ou “explicar” para os pais e responsáveis legais sobre a reformulação do ensino estadual.

Depois leio uma matéria que alguém de um partido (pasme!) de oposição diz achar coerente a reorganização. Desacredito. Sendo, vejo noutra que as escolas que irão fechar serão reutilizadas através de remanejamento para o município na construção de creches ou do estado para construção de escolas técnicas e educação de jovens e adultos.

Cof, cof, cof!
Cof, cof, cof!

Desculpe, engasguei com a saliva.


Até acreditaria se não fosse aluna de uma escola técnica – gestão pública - do qual está inserida no processo de reorganização. No começo do mês de outubro recebeu a nefasta informação de forma autoritária (ou seja, de cima para baixo sem qualquer diálogo) que seria realocada, com risco de fechar cursos por pouca adesão, reformulação inclusive no nome sem considerar todo processo de qualidade criado pelos docentes em cada curso.

Noutras palavras, a escola será obrigada a mudar de endereço, terá que se realocar noutro espaço.

Qual o problema? 


Acho que nenhum, desde que exista diálogo para saber as implicações na adesão e qualidade dos cursos, sendo que trata de uma construção do corpo docente e, portanto alterar local e nome de alguns cursos pode prejudicar; além de existir o risco de fechar cursos. De qualquer forma o principal problema é não ser informado, seja para direção, professores, aluno de quando e para onde irá a escola.

Sabendo que não é apenas esta escola técnica que está com problema, demais escolas enfrentam outras dificuldades, mas quase ninguém sabe não é, porque quando as ordens chegam devem ser obedecidas e não importa opinião, o diálogo ou respeito com integrantes da escola.

Mas seja como for, o autoritarismo impera e veja que ninguém sabe como estas reorganizações irão acontecer.

De qualquer forma, vale relembrar que nenhum dos direitos sociais conquistados atualmente foi alcançado sem a participação social, ou seja, nada do que temos hoje é um presente do Estado. 

Nada. 

Absolutamente tudo, foi conquistado com muita luta. E dei conta disso, estudando, porque na real ninguém te explica ou comenta algo do tipo na fila do mercado, do açougue, da padaria. E quando falo de estudar não deixo restrito a escola ou faculdade, é em livros sabe.

E para quem adora imitar os EUA/Americanos ou Franceses, Italianos, Gregos e outros quando se diz ser ou ter herança, vai a dica - vale lembrar que por lá todos direitos foram conquistados através de lutas, de organizações, de participação social (muitas realizadas de forma agressiva na resistência, grito e reivindicação quando o diálogo é ignorado). 

E principalmente foram as ruas por conhecer a própria história, pois sabem que o Estado não é papai noel e portanto não presenteia ninguém no começo, meio ou final de ano.


Aqui sabemos que não é de hoje a precarização do ensino, a mercantilização do conhecimento, sendo compreensível o interesse em economizar, reduzir custos numa área que demanda gastos, principalmente para criar ou manter a qualidade para que pobres alcancem ainda mais as universidades públicas.

Mas no meio do caminho tinha umas pedras.

E para minha surpresa vejam só, os estudantes da rede pública ensinando como garantir direitos, entenderam que o melhor do ensino está na prática ou melhor aliar teoria e prática. 

Que perdurem que resistam que se fortaleçam ensinando os pais, família a compreender que ensino e direito se conquistam na rua, na luta, no grito.

Acredito que falta outras pedras no meio do caminho.

Falta outras escolas de outros estados de outras universidades de outras famílias de outros estudantes perderem a paciência com essa falta de: diálogo, descaso, precarização do ensino e irem pra rua calar o autoritarismo.


Uma vez que organizam da forma que bem entendem nossas vidas temos o direito de desorganizá-los, seja no âmbito político e institucional. 

Então quando será o próximo ato unificado?

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Sonhos

Ontem eu sonhei
que caminhava sozinha
sala grande, vazia.
O silêncio soprava
atrás de mim
caminha, caminha.

Ontem eu sonhei
com um belo sol de verão
pele arde
se abre
alma indiferente
pobre coração.

Ontem eu sonhei
que o mundo ia se acabar.
O abismo me espera
quis logo lhe indagar
o amor já foi devorado
ou vem atrás de mim, devagar?

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Neguinho como eu, como você


Neguinho não lê, neguinho não vê, não crê, pra quê?
Neguinho nem quer saber
O que afinal define a vida de neguinho

Neguinho compra o jornal, neguinho fura o sinal
Nem bem nem mal, prazer
Votou, chorou, gozou: o que importa, neguinho?

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei, neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho

Se nego pensa que é difícil, fácil, tocar bem esse país
Só pensa em se dar bem - neguinho também se acha
Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro, um GPS
E acha que é feliz
Neguinho também só quer saber de filme em shopping

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei, neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho

Se o mar do Rio tá gelado
Só se vê neguinho entrar e sair correndo azul
Já na Bahia nego fica den'dum útero
Neguinho vai pra Europa, States, Disney
E volta cheio de si
Neguinho cata lixo no Jardim Gramacho

Neguinho quer justiça e harmonia
Para se possível todo mundo
Mas a neurose de neguinho vem e estraga tudo
Nego abre banco, igreja, sauna, escola
Nego abre os braços e a voz
Talvez seja sua vez:
Neguinho que eu falo é nós

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei, neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho
(Caetano/ Gal Costa)

nesta semana, um médico me perguntou: "você acha que bebe demais?". e eu respondi: "uma pessoa que bebe nunca acha que bebe demais". o médico, silenciado, olhou para mim. parecia surpreso. acho que não esperava por minha resposta. não espera uma mulher dizer que suas dores no estômago podem estar relacionadas aos seus maus hábitos que se traduzem em cerveja e coca-cola.

o mundo está muito chato. 
eu defendo muitas bandeiras. eu não aceito que dividam o mundo em azul e cor de rosa. eu protesto contra o preconceito aos gays aos negros aos pobres aos nordestinos. isso, das minorias. e desde sempre. muito antes de ser moda. assombrei minha família amada quando disse em alto e bom som que não via problema algum em ser gay. e quando me disseram que, além de gay, havia a desconfiança da promiscuidade, eu disse apenas que estava no script. e quem pode negar que é maravilhoso? muito antes de ser politicamente correto. porque não gosto de nada do "politicamente correto" e suas demandas. nunca fumei --- mas me assombra o mundo que varreu os fumantes para as ruas --- entregues à própria sorte da discriminação. Tatupai é fumante. e vez ou outra me preocupo. não quero que ele morra de câncer. mas não querer que seu amor morra é do humano. penso.

o "meu problema" é que penso que passamos por uma higienização do presente que por vezes me dá engulhos. estamos vivendo um revival mal feito dos movimentos sociais dos estados unidos. agora, tudo precisa ter uma ordem bem demarcada. como se, nordestina, precisasse proferir meu ódio aos que odeiam os nordestinos, mas proferir de tal modo que pareça que apenas reivindico o lugar que nunca tive. mas que lugar de reivindicação é este? não é o meu.

odeio a palavra bullying. a porra da palavra já prova nossa submissão às ideias vindas não apenas de fora, mas em forma de onda. quando poeminha foi ignorado por seus coleguinhas por gostar de pôneis, não pensei em bullying. pensei que é do viver em grupo. e vi nisso a oportunidade de explicar a ele que o mundo, às vezes, é bem feio. e que está ao nosso alcance não sucumbirmos. ser feios como os que julgamos ser feios é a pior das posições. acredito nisso. hoje nos impelem a nos afastar de tudo que não tenha uma bandeira efetiva e visível. estou fora. falei para o Poeminha: -------

não quero o mundo no seu contrário. quero o suplemento. quero amar os indígenas e os não indígenas. o branquinho e o negão. ou o neguinho. quero amar as bichas. mas não como categoria.  não quero nada em categorias. e quero poder dizer que, se defendo bandeiras, me cansam os olhares todos voltados para as bandeiras. tenho visto muitos enganos --- e todos passam por este olhar "preservacionista" - amam os indígenas e os negros paramentados de indígenas e negros. quero ver amar o neguinho e o índio com seus cordões de ouro e prata e seus carrões f1000qualquercoisa. pensam num mundo estático, como se todos não estivéssemos neste movimento errante de esquecermos as próprias tradições.

como ser nordestina. ser nordestina é uma desgraça. cearense, então. o cearense não tem o orgulho do pernambucano, do baiano, do paraibano. o orgulho do cearense é ter sobrevivido a grande fome. somos um povo acanhado. não temos o frevo nem o axé. vivemos do forró - que só teve seu período áureo com luiz gonzaga e com o tal forró universitário. mas temos tanto! e foi este tanto que esteve sempre comigo --- o que me permitiu estar aquém ou além da estereotipia, a depender do momento.

em paris fui arrastada pelo meu supervisor de doutorado que ao descobrir aparentemente surpreso que eu havia lido a trilogia de beckett saiu me apresentando como a brasileira que leu... e não esbocei nenhuma reação, a não ser um sorriso amarelo de quem mal sabia falar a língua daqueles que me passaram a ver como exceção. mas me vingo até hoje ao transformar meu supervisor na mesma estereotipia::: um francês idiota que não sabe que no Brasil se lê Beckett. o que quero dizer com isso é que todas essas classificações tornaram o mundo muito chato. entendo a história. indigno-me com a história. mas não. não estou a fim de fazer uma revisão da história a partir de uma higienização do presente. 

porque batalhar pelas diferenças não é o mesmo que querer transpor tudo ao seu contrário. não me alinharei nunca àqueles que nas passeatas defendem a volta à ditadura. essa gente classe média que não me representa. e defenderei até sempre um partido como o PT no poder --- falei ontem mesmo:::: "se vocês pensam que esta universidade existiria se um partido como o PT não estivesse no poder, é porque vocês não entendem nada de política". e vou na marcha das vadias, nas paradas gays. sou a favor das cotas. e meu filho não vai se beneficiar delas, porque ele não é neguinho para os padrões brasileiros e eu não vou ter coragem de mantê-lo na escola pública. mas não me peçam para fazer o jogo da substituição. não me peçam para cooperar na instituição de uma nova cultura --- que tenha como premissa o esquecimento das tantas culturas.

um exemplo::: acho mais importante que o neguinho brasileiro leia o branquinho guimarães rosa e o sarará graciliano ramos do que leia os branquinhos agualusa e mia couto. e acharia diferente se o povo soubesse fazer de outro jeito::: colocar tudo junto e misturado. mas só vejo o contrário. uma parte de professores totalmente envergonhada, e outra indignada, quando se fala em ensino da literatura brasileira, da arte brasileira. agora, só pode ser literatura das minorias, arte das minorias. como se nós mesmos não fôssemos uma porra de país que mal sabe o que seja literatura, o que seja arte. que mal sabe quem foi graciliano ramos e guimarães rosa, quem foi hélio oiticica. mas não::: preferem que agora se saiba quem é mia couto e agualusa (incríveis, sem dúvida, mas quem conseguir me provar que a prosa de agualusa vale um dedo da de rosa, juro, como eu digo::: não corto o dedo do meu filho, mas corto o meu). porque estou falando de deslumbre: do momento ímpar de ler grande sertão: veredas e ficar chapada a vida toda a cada vez que lembra. e eu li barroco tropical, do branquinho agualusa, e vi muito mais pretensão do que qualquer outra coisa. fico cansada, juro. e não é nacionalismo. é política de leitura. defendo que se estude literatura brasileira porque somos brasileiros. e também norte-americana, francesa, italiana, africana, japonesa, porque somos brasileiros e precisamos abrir o olho para o resto do mundo. não para um certo mundo. mas para o mundo todo. me ajoelho diante de mia couto como me ajoelho diante de beckett. é mentira ---- me ajoelho mais diante de beckett de dostoiévski de kafka. e que se dane o fato de eles terem nascido na europa branquinha. são neguinhos como eu. 

quero estar no entremeio. por que diabos não posso? por que diabos não posso ser uma mulher que desconfia que sua dor no estômago é do excesso de cerveja e coca-cola que ingere? ou não. e não sou feminista nem defendo uma masculinização, uma europeização do mundo. sou mulher. tenho uma independência emocional que cultivo com orgulho e dedicação. e conheço poucas pessoas que a tem. preciso ser amada por poucas pessoas. e mal me mexo quando me descubro não amada. mas sou mulherzinha também. cuido da casa. lavo a roupa da casa. passo a roupa da casa --- isso significa que quando o tatupai está aqui eu cuido dele. eu dobro as suas camisas e coloco-as na posição de usar no guarda-roupa. mas Poeminha, quando tinha quatro anos, disse espantado: "Papai, mulher cozinha!", porque nunca tinha me visto cozinhar. porque é isso, né? a porra da diferença é isto. é branquinho e neguinho tudo junto e misturado. é tudo cor. é tudo gente. é tudo sentir na pele. e para mim, esta deve ser a política.

(hoje recebi um abraço muito apertado. da moça que fez uns vinte tipos de raios-x do meu corpo. junto com o abraço, ela me disse que desejava que eu ficasse boa. disse que acreditava em Deus, que Deus era a cura. falou abraçada a mim. e eu a abracei fortemente. agradeci com uma grande alegria no coração. não era ali que teria medo do abraço de uma desconhecida. mas não menti::: disse que não era religiosa. mas que agradecia enormemente aquele abraço e aquele desejo que eu melhorasse. e por fim, fiz a reverência de agradecimento: curvei os meus joelhos e disse: "obrigada!". curvei-me àquele desejo diante da diferença. ela tampouco titubeou. abraçou-me mais uma vez).
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(repliquei esta postagem, que já havia publicado em meu blog, não apenas por falta de tempo de escrever, mas por achar que essas discussões devem ser feitas continuamente)

domingo, 25 de outubro de 2015

Questões feministas, sim.

Mudei o meu post quando li o tema da redação do ENEM: "A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira".

Eu, mulher, quase incansável nas discussões sobre o feminismo, não contive minha alegria ao ler o anúncio do MEC que, já tinha surpreendido com Simone de Beauvoir, ontem. A alegria de ver a questão retirada do armário fez contraponto com a tristeza ao ler diversos comentários que este não é uma tema sério, apenas mimimi das feministas, que mulheres que são dão ao respeito não correm o risco de passar por uma situação assim.

Ô gente, estamos em 2015 e o Moonwalk continua, muitos passinhos para trás.Você não precisa concordar mas precisa entender que existe uma série questão a ser discutida.

Batom vermelho, saia curta, short, roupa transparente, andar sozinha à noite não é sinônimo de vagabunda, nem de merecimento de uma passada de mão.
Ser a favor do feminismo não é odiar os homens. Não é uma briga de gêneros, não é uma briga de poder, é sobre direitos.
Eu não tenho direito em relação à total escolha do meu corpo, não posso decidir se desejo continuar uma gravidez ou interromper. Isso não é ser a favor ou contra o aborto. 

Bato na tecla óbvia que "ninguém aguenta mais ouvir" e continuarei batendo nesta tecla enquanto um lindo discurso teórico não for compatível com a prática.

Vamos somar, homens e mulheres. Vamos discutir e argumentar com aqueles que estão ao nosso redor. Vamos falar sobre o estupro, sobre o assédio, sobre a violência, sobre o abuso. Vamos acolher.


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

De quando me senti muito velho

Quando somos crianças, a amplitude etária de nosso meio social é bem pequena. Geralmente nos relacionamos com pessoas que tem estritamente nossa idade. Às vezes um ano a mais, outras vezes um ano a menos, mas dificilmente mais que isso. Abaixo disso são os crianções indignos de conviver com pessoas com o nosso grau de maturidade e acima disso são os inatingíveis seres do sétimo, oitavo ano, cujo comportamento invejamos, copiamos, mas quase nunca declaramos isso.

Com o tempo, essas diferenças somem e a amplitude etária vai crescendo. Lá pelos 20, geralmente pela entrada na universidade ou no mundo do trabalho, já começa a ser normal convivermos com pessoas consideravelmente mais velhas de igual pra igual (os consideravelmente mais novos ainda costumam ser raros).  Nessa fase, nos surpreendemos ao saber que aquele nosso colega de faculdade tem a mesma idade de nosso tio ou irmão mais velho. É divertido isso.

Tudo é muito bonito quando somos nós os novinhos em questão. Dia desses, 4 anos após concluir minha graduação e do alto de minhas quase três décadas de vida (oh, céus! Três décadas!) voltei à universidade para fazer um curso de extensão. Minha turma era composta por crianças de 18, 19 anos que, portanto, ainda desfrutam seus primeiros anos de graduação, com toda a empolgação características desses anos.

Nada contra esse tipo de interação, é que a gente se sente meio esquisito quando o professor olha pra classe, faz o reconhecimento do público e conclui: "Bom, é claro que ninguém aqui era nascido em 93...". Como assim, amigão? Em 93 eu já tinha barba (ok, nem hoje eu tenho barba. Admito. Mas enfim...). Daí eu fui fazer uma piada super engraçada sobre o Roberto Baggio e ninguém riu porque absolutamente ninguém naquela turma sabia do que eu estava falando (ou será que a piada não era boa? Pensando bem...). Além disso, descobri que para ser aceito naquele grupo eu precisava usar o adjetivo "massa" para absolutamente tudo. Sim, amigos. Agora as coisas não são mais legais, bacanas, batutas e nem mesmo "dá hora", agora é tudo "massa" mesmo.

Envelhecer é mesmo um caminho sem volta. E sabe o que é pior? Escrevo este post com uma conjuntivite recém diagnosticada. Olho para o teclado e o que vejo é uma sopa de letrinhas. Olho para tela e vejo tudo anuviado, algo tão difuso e difícil de entender como a passagem do tempo.

Coisas da idade...



terça-feira, 20 de outubro de 2015

De volta para o passado

Amanhã é dia de recebermos a tão aguardada visita ilustre. Dia 21 de outubro de 2015 foi o destino do personagem Marty McFly no filme “De volta para o futuro 2”, lançado trinta anos antes.

Não lembro quantos anos eu tinha quando, em uma das tantas vezes que assisti ao filme, perguntei para minha mãe quantos anos eu teria em 2015. Fiquei decepcionado quando ela disse que eu teria trinta e quatro. Já estaria muito velho para usar o tênis que se adapta sozinho ao pé ou para andar no skate flutuante. Meu consolo foi imaginar que os aparelhos do filme haviam sido inventados alguns anos antes para que eu pudesse usar ao menos um pouco.

Eu não estava completamente errado. Hoje costumo usar sapatos e mesmo que existisse um tênis como o do filme, seu modelo já não me agrada. Nem lembro muito bem de como foi essa transição daquela criança que assistiu ao filme para o cara que usa sapatos, mas a trilogia “De volta para o futuro” deixa bem mais que uma expectativa por produtos tecnológicos.

É uma das obras em que a ficção científica não é somente exibida, mas estimulada. O enredo não é nada factível, afinal mesmo em teoria os físicos só consideram possível uma viagem no tempo para o futuro – se viajássemos na velocidade da luz o tempo passaria mais devagar, de forma que ao pararmos o mundo já estaria adiantado em relação aos que fizeram a viagem, estando assim no futuro. Já para o passado não há sequer uma hipótese teórica – ao menos por enquanto.

Ainda assim, o trabalho meticuloso do Dr. Brown associado ao estilo despojado de Marty fascinou toda uma geração nos anos 80. Uma pena que a duração de um filme é curta e quando ele acaba voltamos para a sala de aula, onde todo o encantamento gerado pelo conhecimento regride para informação, que raramente se conecta com a realidade.

Temos a tendência de um olhar utilitarista para tudo, assim vemos um filme como “De volta para o futuro” somente como um entretenimento passageiro, já que uma viagem no tempo está fora de questão. É uma pena que não seja considerado o potencial criativo estimulado pelas obras de ficção científica.

Até agora ninguém inventou o skate que flutua, a pizza instantânea e tantas outras ideias do filme, porém é impossível medir a influência subjetiva daqueles que, encantados com a viagem no tempo e outras maravilhas, buscaram outros filmes, livros ou quadrinhos semelhantes.

Expor crianças desde cedo a obras como “De volta para o futuro” estimula o sonho e a criatividade. Considerar que alguém está supostamente perdendo tempo com histórias em quadrinhos ou filmes é desconsiderar que estes materiais, além de entretenimento (que já não é pouco), oferecem também um capital imaterial que é extremamente valioso, ainda que trinta anos depois essa criança passe o dia de sapatos ao invés de tentar projetar um DeLorean. 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Não estou sentada na varanda

De vez em quando acontecem umas conversas malucas que nem eu sei dizer da onde elas saem, como essa que tive com uma amiga que chegou toda feliz e me disse:

-Sabe fulano?

Sei.

-Então, já pensou namorar ele?

Não.

-Ah, mas devia! Ele é ótimo, vocês são bons amigos, ele sempre te dá apoio e desconfio que ele está meio ''gamado''.

É, digamos que já percebi, ou pelo menos desconfio. Mas o ponto é o seguinte, gosto muito dele, tenho até saudades se fico muito tempo sem falar com ele, mas por que iria além disso? Não sinto atração por ele, não rola química e existem algumas diferenças na maneira de ver a vida que neste momento não tenho saco para discutir.

-Como assim não rola química? Você já ficou com ele?

Não. E não preciso, posso apostar, não rola química. Não sei como funciona para o resto do mundo, mas no meu caso a química começa no olhar e na atração, se não gosto como ele é, não tem química.

-Pra mim você tá errada! O que custa tentar?

Nossa, nessa altura do campeonato custa muito, meu tempo, minha energia e outra amizade perdida.

-E vai fazer o quê? Ficar sentada na varanda esperando alguém ''incrível e especial''?

Não tenho varanda! Mas não estou sentada nem esperando ninguém, não é questão de esperar o príncipe, mas de não gastar energia à toa. Poxa, por que tenho que obrigatoriamente namorar alguém?

-Porque a vida é isso, conhecer, namorar, ficar....

Esse é um ponto que me fez sofrer demais. Não sou igual a todo mundo, nem eu sei o porquê e hoje consigo assumir tranquilamente minha maneira de viver, se para algumas pessoas o legar é namorar, não importa se gostam ou não da pessoa, sorte delas, eu não vivo assim, nem quero. Não tenho nada contra namorar, mas tenho tudo contra namorar só para passar o tempo.

-E vai conhecer alguém legal como?

Mas eu conheço muita gente legal! O dia que gostar de alguém de um jeito mais intenso vou lá e namoro!

-Você só complica! Acho que fulano está apaixonado, podia ser legal e você fica embaçando!

Mas é legal! É meu amigo, a gente costuma sair, mas é só amizade e está ótimo assim.

-Acho estranho!

Não, estranhas foram as vezes que me machuquei, me envolvendo com homens que não valiam a pena, eu acreditava nessa baboseira de ''é namorando que se conhece'' e muitas vezes namorei sem estar apaixonada. Minha energia ia pelo ralo, meu tempo não valia nada. Por isso decidi aceitar minha natureza, dói menos, não gosto de nada à toa, sem sentido. Se vou namorar com alguém é porque gosto da pessoa e tenho interesse, caso contrário prefiro ficar em casa assistindo novela.

-Pelo menos tenta!

Não, obrigado. Já passei da idade onde a gente ''tenta'', lá pela casa dos vinte. Depois dos trinta nossa margem de acerto começa a melhorar e não precisamos mais tentar tanto. Sei como eu sou, depois de anos sem ter menor noção disso. E esses namoros rápidos, experimentais, nunca me seduziram, sempre gostei de emoções mais intensas, prefiro não sentir nada do que sentir  ''morno''.

-Aff! Você devia desencanar e começar a mudar de ideia sobre os relacionamentos, não precisa levar tudo a ferro e fogo, de vez em quando é bom apenas brincar pela vida.

Mas não é? Concordo, mas eu fiz o contrário, levei os relacionamentos a ferro e fogo a vida inteira, até que cansei e agora quero brincar pela vida. Mas minha ''brincada'' inclui o mais importante, que eu aceite meu jeito de ser e não gosto de namoros onde não entro na história apaixonada, me dá sono. Cada um é de um jeito! O meu é esse, não quero mais gastar um segundo da minha vida beijando quem não mexe com minha alma, cansei disso.

- Eu só avisei! Fulano tá lá!

É, eu estou cá. E assim somos todos felizes, cada um levando a vida do jeito que quer, eu levo do meu e isso significa namorar alguém quando essa pessoa me desperta alguma coisa, poxa, por que é tão difícil aceitar as diferenças e a maneira do outro viver? Não estou ferindo ninguém com minhas escolhas. Nem tudo é para todos e nem todos são para tudo. Quem quiser esquentar sua solidão em diferentes camas que o faça, eu prefiro o silêncio, aquele que me garante que a coisa mais importante na vida é respeitar minha natureza.

Iara De Dupont


domingo, 11 de outubro de 2015

.psychodeliquè.

...e enquanto eles permaneciam fechados, os gráficos coloridos dos equalizadores que a mente criava variavam entre graves e agudos, pulando de lilás pra azul num degradê que traziam tons de roxos e rosas.

...e enquanto tímpanos reverberavam as batidas dos remixes repletos de efeitos metalizados e as alternâncias de pitch, massageava automaticamente a alma num ritmo que só o groove daquela batida podia prover.

...e enquanto os músculos do rosto esboçavam os orgasmos dos ruídos capturados pelos aparelhos auditivos, os pulsos dos dedos digitavam as ondas sonoras por sobre as pernas seguidos de marcações refletidas nas pontas dos pés que ecoavam no chão.

...e enquanto tudo soava, palavras se materializavam e se empunham na ponta da língua pra serem ditas, mas por alguma razão, ficavam ali, presas por entre os dentes, mesmo que os lábios estivessem entreabertos.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Escola de princesas


Não pode sujar o vestido
Aliás, não pode usar outra coisa senão vestido
E tem que ser rosa
Tem que gostar de cor-de-rosa, tem que ser sua cor favorita!
Não pode se sentar de qualquer jeito,
Tem que cruzar as pernas.
Tem que ter boas maneiras
Tem que saber cuidar direitinho do seu castelo
Sem deixá-lo sujo ou desarrumado.
Não pode correr.
Não pode brincar de qualquer brincadeira,
Tem que ser brincadeiras de princesas.
E só pode brincar com outras princesas.
Tem que casar com um príncipe.
Tem que aprender a como conquistar o príncipe.
Só assim, serão felizes para sempre. 




Obs: contém altas doses de ironia.
Baseado na reportagem:
http//sites.uai.com.br/app/noticia/saudeplena/noticias/2015/10/07/noticia_saudeplena,155414/escola-de-princesas-chega-a-bh-ja-causando-polemica-nas-redes-sociais.shtml

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Fofinha

  Minha nova colega de serviço tem uma filha de 7 anos.
  O pai foi pegá-la na escola e a menina contava animada:

  -Gosto tanto de "Fulana de tal" ( se referindo a colega de sala, também de 7 anos, mas longe de ser aluna exemplar).
  O pai só escutava.
  -Ela vive me chamando de nomes carinhosos, de bichinhos.
  -Como ela te chama, filha?
  -De vaquinha, galinha, piranha...

domingo, 4 de outubro de 2015

Sobre o antônimo da derrota

Já parou pra pensar quantas vezes você já deixou um fato estragar a sua felicidade? 

Ontem aconteceu uma situação bem ruim comigo, que não cabe colocar aqui, mas posso dizer que é daquelas de perder a cabeça. Porém, quão forte é uma pessoa que deixa sua vida perder o rumo por um acontecimento ruim no meio de tantas coisas boas que existem? Sim, sou uma dessas pessoas que entendem bem o que significa resiliência. Não foi por opção, a vida me ensinou o quanto é preciso se superar a cada dia, passar por cima dos obstáculos e seguir em frente. 

Sou um asmático que quer correr 10 km três vezes por semana, insiste em jogar bola, mesmo sendo mediano, só pelo prazer de participar, e também salta de pontes por ai. Nunca me preocupei por não ser excelente em nada, sou um pouco de cada coisa, evito comparações pois conheço a prepotência masculina e sei muito bem que as pessoas estão sempre querendo se superar. É claro que também gosto da vitória, é bom quando seu time fica na quadra por 4 rodadas seguidas ou ganha um campeonato. Tem também aquele momento que a gente alcança o cume de uma montanha depois de horas caminhando pela mata. Ou aquela adrenalina ao encarar o medo de frente e se jogar de corpo e alma.  

Superação remete a desejos, valores e necessidades  pessoais, se nos compararmos com outras pessoas talvez seu resultado alcançado não tenha tanta relevância. Pode sim existir uma boa diferença entre um competidor amador de corrida e um atleta olímpico, mas o gosto da vitória, proveniente da superação, esse é o mesmo. Isso também vale para nossa vida social. Aquela pessoa famosa e colocada como grande vencedora como, por exemplo, Cris Garden que se viu sozinho com um filho na rua e abandonado pela esposa, passou por necessidades e teve de enfrentar barreiras físicas e mentais para alcançar o sucesso, esteve no mesmo barco de grande parte da população hoje em dia.

A sociedade moderna tem perdido o gosto pela vida, e esquece que um dia ela passa. Quem busca a superação deve se colocar acima de alguns problemas que por um outro prisma se tornam pequenos. Recomendo que assistam o vídeo da Doutora Ana Cláudia Quintana Arantes, intitulado: A morte é um dia que vale a pena viver. A palestra me fez pensar bastante sobre quão frágil somos, despertando o desejo de viver mais e ajudar ao próximo. O que me remete a um trecho de uma palestra do professor Clóvis de Barros Filho [...Se você quer saber se aquele instante está valendo a pena, pergunte-se se você gostaria que ele durasse um pouco mais. A vida é boa quando você torce pra ela não acabar. Perceba que a maior parte do tempo você torce pra acabar. Torce pro dia acabar pra poder chegar em casa. Torce pra semana acabar por causa do final de semana. Torce pro mês acabar por causa do quinto dia útil. Torce pro ano acabar por causa das festas e das férias. E sem perceber, a gente tá torcendo pra vida passar rápido. A felicidade é o contrário disso. A felicidade é quando você gostaria que não passasse, é quando você lamenta o final do dia, quando você lamenta o final de alguma coisa que está fazendo... A vida vale a pena quando você torce pra ela não acabar...]

A superação tem a ver com ousadia, romper as barreiras do comum e reconhecer que tem força e personalidade para lidar com os fatos da vida. Alguns são desestimulados a perseguir seus sonhos porque os outros não conseguiram. Nesses momento eu lembro sempre da cena que o personagem Cris Garden (filme, À Procura da felicidade) citado anteriormente, diz pro seu filho que imaginava ser profissional no basquete: "Nunca deixe ninguém dizer que você não pode fazer alguma coisa. Se você tem um sonho, tem que correr atrás dele. As pessoas não conseguem vencer, e dizem que você também não vai vencer. Se quer alguma coisa, corre atrás." 

Às vezes algumas pessoas só sabem o quanto são fortes quando precisam ser. Quando você quer muito alguma coisa, quando você ama alguém, ou quando houver apenas uma saída para sobreviver, o ser humano se torna extremamente poderoso, reage com grande velocidade e objetividade. Infelizmente alguns são mais lentos, a ponto de arriscar suas vidas e de mais alguém. Todos convivemos com problemas pessoais e coletivos diariamente, dizer que eles não existem é ignorar a vida. Infere-se então que o fator que influencia quais vão ser as consequências das adversidades enfrentadas é simplesmente a sua atitude diante delas.   

Palestra, Professor Clóvis de Barros filho




Palestra, A morte é um dia que vale a pena viver 


Conselho ao filho, À Procura da Felicidade