sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Home Office


Bom dia!
Relógio desperta (sim, também colocamos relógio para despertar)
Hoje eu tenho um job para entregar as 16h.
Pai, faz meu todinho?
Bom dia, filha! Faço sim.
Telefone... Alô, você tem interesse no nosso cartão? Não, obrigado.
Pai, faz meu todinho?
Sim, filha. Um minuto!
Acabou o filtro de café, droga...
Não posso esquecer de pagar o convênio.
Pai...
Já sei! O todinho! Aqui filha, não esquece de escovar os dentes depois.
Interfone... Sr. André, chegou uma encomenda na portaria.
Obrigado, já já busco aí. Valeu!
Pai, posso ver Bel no computador?
Já escovou os dentes?
Emails da loja! Tenho que responder agora. Mas tenho o job pra entregar as 16h... vou responder os e-mails e começar.
Pai... a senha do computador!
Já vou...
Mais café.
Emails respondidos!
Filha, hora de se arrumar pra escola...
Vou fazer o arroz pro almoço.
Pai, cadê meu tênis?
Vê no seu quarto, oras!
Arroz feito, agora preparar a lancheira.
Tá pronta, filha?
Tô, pai.
Vem almoçar.
Vou pagar o convênio enquanto ela almoça.
Pai, acabei...
Então vamos. Vou pegar sua mochila e lancheira.
Sr. André, a encomenda está aqui, tá?
Legal, na  volta eu pego.
Boa aula, filha! Até daqui a pouco.
AH, o filtro de café... vou precisar para a tarde, vou passar no mercado na volta.
Sr. André, aqui a encomenda para o Senhor.
Valeu, desculpa a demora, boa tarde!
De volta para casa... falta pouco pra acabar o trabalho até as 16h.
Opa, mensagem com cliente querendo reunião no Skype. Ok... Boa notícia, prazo prorrogado para amanhã as 9h da manhã.
Vou fazer um café para trabalhar até o horário de buscar a filha na escola.
John Coltrane faz a trilha sonora do trabalho, jazz sempre cai bem nessas horas.
Mais e-mails da loja, vou responder.
A tarde voou, hora de buscar a pequena na escola.
Pai, a lição hoje é difícil. Você me ajuda?
Claro, filha!
Mamãe chegou! Oi amor...
Ainda bem que posso entregar o job amanhã cedo, vou acabar o restante a noite.
Ufa, amanhã é só mandar por email o trabalho. Depois disso, vou publicar meu texto do mês no blog.
Bom descanso... ou bom trabalho!

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Lado B

               

               Hoje era seu aniversário e estava preparando algo especial. Já eram 17h15 no relógio e hoje decidira que iria fechar a drogaria às 18h. Sabia que seu pai não itiaa gostar, pois sempre dizia “é entre as 18h e 19h que as grandes vendas acontecem, porque as pessoas estão saindo de seus trabalhos e indo para a casa”. Desde que assumira a loja, não havia constatado muito bem se isso era ou não verdade, e além disso, hoje fazia 42 anos, mais precisamente às 22h38, e a velha botica que fora do avô e depois do pai, agora era sua e tinha a liberdade de fazer o que bem entendesse.
            Batia os dedos ansiosos para o relógio andar mais rápido, mas com um misto de alívio e angústia, pois o último carregamento de esmaltes iria chegar ainda hoje. Ansiava por esse carregamento há muito tempo. O esmalte amarelo da coleção nova da “MagicNails” faria parte dessa noite tão especial.
            A bexiga apertava e resolveu ir ao banheiro. Como seria rápido não achou necessário fechar as portas da loja, até porque nesse horário os moleques do bairro estavam na escola e o máximo que poderia esperar de cliente era alguém que ficaria frustrado em ver o resultado dos números digitais na balança, após um final de semana regado a cerveja e carne.
            O banheiro era mal iluminado e isso era uma das coisas que mais lhe incomodava. Não tinha janelas e parecia totalmente improvisado. A caixa d’água da descarga, aquelas de puxar a cordinha, já estava encardida e gotejava, pendendo torta para um dos lados. O espelho era daqueles mais vagabundos possíveis, não mais de vinte centímetros de comprimento, e tinha a borda laranja. Sem querer, olhou seu reflexo e ali ficou absorto em seus pensamentos. Os cabelos oleosos e bem negros já quase chegavam nos ombros. Seu cabelo era seu novo xodó. No entanto, aquela careca no meio da cabeça era algo que não havia previsto quando era mais jovem. Quanto a isso, já não tinha o que fazer. Os olhos azuis estavam caídos e passavam uma sensação de cansaço e velhice. O peso da idade já estava lhe atingindo. Talvez não devesse passar tanto tempo se olhando. Quando não se olha muito no espelho, é possível criar uma imagem de quem achamos que somos, e não precisamos ser quem a realidade nos mostra. Talvez fosse exatamente por isso que tinha seu segredo tão bem guardado.
            Um barulho lá de fora chamou sua atenção, e quase que por um segundo, achou que a imagem do espelho continuara olhando-o, mesmo quando virou a cabeça. Saiu apressado do banheirinho, com o coração palpitando. “Chegou, finalmente chegou”, dizia de si para si. Assinou correndo o documento e mal olhou para a cara da moça que realizava a entrega. Como se fosse um dia de natal e ainda uma criança, pegou uma faca e rasgou a fita adesiva que selava a caixa ao meio. Procurou pela embalagem que dizia “Doce de Ovos”. O esmalte reluzia um amarelo gema bem forte. Ficou uns dois minutos olhando para a beleza daquela cor. Enfiou o frasco no bolso, caminhou para os interruptores, apagou a luz, pegou um frasco de tamanho médio na prateleira, suas chaves e começou a fechar a drogaria.
            Verificou duas vezes se havia trancado a porta e começou a andar rapidamente para sua casa. Apertava o frasco no bolso como se fosse um pomo de ouro prestes a fugir. Refez mentalmente seus planos: tomaria um banho de banheira, com direito a velas e sais aromáticos. Abriria uma garrafa do vinho que estava na promoção, colocaria seu álbum preferido para tocar na vitrola e começaria sua noite.
            Morava na casa antiga de seus pais, desde que a mãe, já viúva, abandonou também o planeta Terra. Era desses casarões antigos com direito a porão, banheira de louça, cristaleiras antigas e tudo o mais. O piso range a cada pisada, mas não trocaria seu lar por nenhum outro lugar no mundo. Até porque ficava a somente dois quarteirões da farmácia e poder morar a cinco minutos do trabalho é um grande luxo hoje em dia.
            Chegou em casa meio sem querer chegar. Quando se planeja algo por muito tempo não se tem mais certeza de querer fazer tudo aquilo, pois depois de feito, não teria mais pelo que esperar e cairia naquela rotina monótona e sem cores do dia a dia. Hesitou alguns segundos com a chave na fechadura, mas por fim lembrou-se de seu esmalte novo e abriu a porta rapidamente.
            Foi fazendo cada etapa de seu plano calmamente, prestando atenção em cada detalhe e apreciando aquele momento tão esperado. Afinal, não era todos os dias que podia se dar ao luxo de ter uma noite como essas. Ligou as torneiras da banheira e jogou seus sais de lavanda e camomila. Arrumou a penteadeira, que era da mãe, com o kit de maquiagem, o secador de cabelo, as escovas, os grampos, o laquê que se lembrara de pegar apressadamente na loja, “ainda bem, pois se eu o tivesse esquecido, teria acabado com minha noite”, tudo milimetricamente ajeitado. Bem no meio, seu esmalte amarelo estava pronto para ser passado. Em cima da cama a roupa escolhida e logo abaixo o sapato.
            Durante o banho, Tony pensava em como seria feliz se pudesse fazer seu ritual todas as noites. “Não sei o que meus pais fariam se eu o fizesse. Mas hoje já sou dono da minha vida, então, por que não pensar em fazer isso mais vezes?”. Sabia que eram raros os momentos como esse, nos quais se sentia tão realizado. Por fim, quando a pele já estava totalmente enrugada, os cabelos lavados e as cutículas moles, levantou-se e saiu da banheira, deixando pingar água no tapete.
            Secou-se, colocou um roupão velho, mas confortável, listrado de branco e verde, e sentou-se em frente à penteadeira. Ali, um grande espelho emoldurado o olhava. Abriu a garrafa de vinho tinto, um Cabernet Sauvingon bem frutado, e começou a arrumar os cabelos, ou o que lhes restava. Penteou-os, passou alguns cremes e começou a dar-lhe volume. Com o secador e escovas, levantou-os de um jeito que parecia pouco provável. Sabia que a moda dos cabelos dos anos 80 era horrível, mas era exatamente por isso que gostava. Completou o penteado com uma peruca tão negra quanto seus próprios cabelos.
            Virou uma taça de vinho e demorou-se no espelho por alguns minutos, observando seu penteado de vários ângulos. Achou que dessa vez havia se superado. “Eu me superei”, disse de si para si, ou talvez tinha sido o espelho quem disse isso.  Pensou que seria melhor maneirar na bebida. Fechou os olhos e esparramou bastante laquê por todos os lados. Adorava aquele cheiro, de tia-avó e festa de família.  
            Abriu o estojo de maquiagens, cheio de pincéis diferentes e começou a se pintar. Passou a cola sobre a sobrancelha, aplicou a base e começou a se transformar em si mesmo.  O batom escolhido foi um roxo bem escuro, pois ficaria bom em contraste com as unhas amarelas. Após finalizar com o curvex, levantou-se da cadeira e buscou o talco. Jogou um pouco dentro da meia calça preta e começou a vesti-la, cuidadosamente para não furar. Subiu-a até acima dos joelhos. Vestiu seu espartilho e delicadamente prendeu-o às meias. Calçou as sandálias, novinhas, cheirando a recém compradas. Abotoou no pescoço o colar de pérolas que também fora de sua mãe. Tomou mais uma taça de vinho e sentou-se novamente à penteadeira.
            Abriu o vidro do esmalte mais lindo que já vira. Não que particularmente gostasse de amarelo, mas a ideia de ter aquela cor sobre as unhas, que já estavam crescendo há duas semanas, era uma ideia que não conseguia largar. Cheirou o esmalte, observou-o por alguns segundos e começou a pintar pelo mindinho da mão esquerda. Foi passando suavemente o pincel por todos os dedos, até que havia pintado as duas mãos. Olhou-as meio de longe e soprou uma por uma. Estava magnífico.
            Levantou-se e olhou-se no espelho, que o olhava de volta com um olhar compenetrante. Da unha dos pés ao último fio de cabelo: Tony, você está magnífico. Agora faltava a última parte para sua noite ficar completa. Caminhou até a sala e com todo o cuidado do mundo, tateou pelos discos, sem deixar estragar as unhas. Pegou o escolhido com a ponta dos dedos e meio roboticamente colocou-o na vitrola. Aquilo era uma pepita de ouro: a trilha sonora de The Rocky Horror Picture Show. Colocou a agulha no disco, aumentou o volume e voltou para o quarto, mas dessa vez, desfilando. Olhou-se novamente no espelho, enquanto tocava “Sweet Transvestite”. Abriu as mãos pintadas e colocou-as próxima ao seu rosto maquiado, com o amarelo vibrante de frente refletindo e dando cor a todo o seu visual preto. Tony era uma mulher de dar inveja a qualquer Tim Curry. Terminou a garrafa de vinho e comemorou ali seu aniversário, de frente para si mesmo. O disco continuou a tocar a noite toda.
           




                

sábado, 12 de novembro de 2016

Ninguém tem mais nada a ver com o outro


Fui ao cinema com um casal de amigos, mais jovens do que eu. Chegando lá os ingressos para o filme que tínhamos escolhido tinham se esgotado, coisas de São Paulo. Ficaram três opções, sou virginiana e tenho um problema de broxar mentalmente com as coisas, se não é mais o filme que queria ver, já não fazia mais diferença qual assistir, eu já estava frustrada mesmo. O casal começou a tentar decidir, me afastei deles e cinco minutos depois frases assim voavam pelo lugar ''você não tem nada a ver comigo'', ''eu nem sei porque topei vir com você'', ''sempre tem que ser do teu jeito'', ''a gente não consegue nem escolher um filme, imagina dividir uma vida'', ''você só quer o outro filme pra me chatear'', ''não é só o filme, a gente não tem nada em comum''.

Quando a coisa esquentou, fui lá e disse pra eles que não era pra tanto, a gente podia fazer outra coisa, mas o rapaz irritado foi embora e eu acabei com a moça em um bar, onde escutei durante horas que ''eles não tinham nada a ver''.

Esse tipo de discussão entre casais jovens é muito comum porque eles não tem grande experiência nas relações humanas, estão tão centrados neles que qualquer coisa diferente que o outro pedir é uma declaração de guerra.

Quando era pequena tinha um aparelho de som na sala da minha casa. Eu adorava música e meu irmão também. Brigávamos no tapa para usar, berrávamos, ele chegou a quebrar um disco meu, na época eram discos, e perdíamos mais tempo brigando do que escutando música. E só tínhamos uma televisão, objeto também de altas brigas, a gente brigava até cansar, mas depois acabávamos vendo o mesmo desenho.

Na adolescência eu já tinha uma televisão no quarto e meu aparelho de som, mas as brigas continuavam na cozinha por doces e sorvetes, minha mãe dividia, mas ele comia minha parte ou eu a dele.
Tudo isso pode parecer bobagem, mas no dá a dimensão do outro, nos mostra que o outro existe e têm vontades diferentes das nossas.

Já na vida adulta dividi apartamento com meu irmão. Nunca mais brigamos pelo som porque ele tem seu ipod e eu tenho o meu. Eu nem saberia dizer o que ele escuta e tenho certeza que ele também não sabe o que eu escuto. O computador foi dividido, mas deu tanta briga, que cada um acabou comprando um novo e se fechou essa questão.

E tenho uma amiga que tem três filhos com menos de dez anos. Cada um tem seu celular, seu ipod, seu computador, seu quarto, sua televisão, seu dvd e praticamente sua vida. Não é culpa deles, mas estão crescendo assim, concentrados no que gostam, querem e consomem, sem entender que não são os mesmos gostos que o de outra pessoa.

Por isso uma escolha de um filme pode virar essa tragédia, fica difícil entender porque temos que dividir o nosso gosto com outra pessoa. Quem têm todos esses brinquedos sabe que é responsável por colocar as músicas no seu ipod, carregar seu celular e sua rede de contatos, assim a pessoa foca tanto naquilo e não tem que perguntar nada pra ninguém, então começa a achar que só seus gostos importam.

Nunca discuti com amigos ou namorados em porta de cinema, muitas vezes fui arrastada para filmes que eu nunca escolheria, mas acabei gostando. E se não fosse o gosto musical do meu irmão o meu seria muito pior, de tanto escutar as músicas que ele gostava e assistir os desenhos que ele gostava aprendi muito.

Mas entendo o casal de hoje, também vivo como eles, presa as minhas decisões e meus gostos, não me interessa muito a opinião dos outros e prefiro assistir um filme que escolhi do que um indicado por alguém.

Esses aparelhos fizeram que a gente se concentrasse no nosso mundo, construísse ele e reclamasse quando alguém batesse na porta. A moça não queria assistir o filme que o namorado sugeriu e ele não queria assistir o filme que ela queria. Mas atrás disso eu vi a indignação dos dois lados, a dificuldade de entender que os outros tem gostos diferentes. Estamos cada vez mais fechados no nosso planeta, até porque a manutenção dele depende de nós, isso nos aprisiona mais, se eu não colocar minhas músicas no ipod ninguém vai colocar pra mim.

Isso se junta com outras teorias, onde no passado a mulher cedia, simplesmente porque ela não existia no mundo. Na minha casa quem escolhia os filmes que iríamos assistir no fim de semana era meu pai. Mas hoje os tempos mudaram e esse papel de ceder vem acabando, mulheres são livres e fazem o que querem e sabem o que querem assistir, não vão ceder pra agradar o namorado.

E minha amiga disse mil vezes ''Não tenho nada a ver com ele''.
Cansei de dizer que a briga pelo filme não indicava isso, era apenas a visão que estamos acostumados a ter, somos mimados e queremos as coisas do nosso jeito, o problema é que outra pessoa no nosso mundo começa a não ''ter nada a ver com a gente'', apenas porque não faz a mesma coisa que fazemos, nem quer a mesma coisa.

Não tenho nada contra a tecnologia, mas ela não ia passar pela nossa vida sem causar algum estrago. E pelo menos esse ela causou, vem nos dando a impressão que ninguém tem nada a ver com nós.


Iara De Dupont 

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Estrela Cadente

É óbvio! Tá claro do que eu vou falar.
Seria até sem graça dizer que "estava escrito nas estrelas!".

Pois é,  você não se enganou se o título entregou o que diria, mas acredite, não havia estrelas.
Um céu escuro, sem nuvens, limpo e inacreditavelmente sem estrelas.

Nada no céu, não no sentido que eu olhava. Era oeste ou noroeste. Era sul ou talvez um horizonte sem norte.
Devia haver lua, mas também não procurei saber. Nem para cima eu estava olhando! Mas num deslize da minha parte, olhei.

Agora sim o óbvio.
Nem eu creio e não espero também que creias. Não deve ser com todos que acontece, mas comigo aconteceu. Não tenho por onde não crer.

Ela, a estrela cadente, passou por meus olhos no momento exato que eu para lá olhei, mesmo que por um instante.

Um sinal? Sempre. Destino? Talvez. Por entrelinhas, estrelas cadentes sempre trazem um aviso.
Se fiz um pedido? Fiz, mas me intrigo.

Quantos de mim viram aquela estrela? Será que foi só eu? Seria uma prepotência minha acreditar que fora só eu?

Não sei. Espero que sim pro tamanho do pedido que fiz. Ele foi bom, afinal, quem desdenha algo ruim pra algo mágico tão repentino?

Mesmo que em poucas palavras, desejei algo bom, desejei nosso bem, seja lá por onde levará.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Depois da chuva

Ela escuta chover lá fora
e sente as lágrimas escorrerem pelo rosto.
Ela ouve o vento movimentando as folhagens
e sente um vazio no peito.
Nem amor, nem ódio nem nada.
Nem o próprio coração a bater.
Um vazio irritante.
Ela sente a brisa úmida.
e deseja um sopro de emoção.
Quer sentir-se viva.
Quer sentir.
As lágrimas, por não fazerem mais sentido, secam.
A chuva, por já ter molhado a terra, cessa.
Será que vai florir?


terça-feira, 8 de novembro de 2016

Só Isso.


 Na vida adulta, procuramos amigos que tenham "a ver com a gente", gente que pense parecido, viva parecido.
  Grande erro.

  É muito mais divertido viver com gente diferente, religiosos, fãs de Bolsonaro, machistas, e outras coisas mais. Com esses sempre sinto o peso da obrigação de tentar mostrar minha opinião e o lado que considero correto, tenho que acostumar com frustração quando na maioria das vezes não conseguir resultados.

  Parece que me rodear de mins mesmos me deixa acomodado e preguiçoso.
  Achar alguém concorda genuinamente em diversos assuntos não é mais pré-requisito de 
convivência e sim um pequeno presente da vida, como achar dez reais, ali no chão.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Carta para Sofia

Querida Sofia,
você não deve se lembrar de mim, afinal, nos esbarramos pouquíssimas vezes pelas ruas e confesso que demoro a conseguir interagir com crianças. Da última vez que te vi com seu pai já não consegui identificar em você os elementos que caracterizariam a filha de um amigo - me senti velha, já que você não mais parecia estar na infância que eu imaginava.

Ao principiar de todos os anseios que vivemos com as notícias e - sobretudo - com a ausência delas no mês passado, ao invés de me debruçar sobre o luto de um amigo, me surpreendi pensando em você. Talvez a sua travessia de agora seja a conclusão de um quebra-cabeça que tenho montando desde julho do ano passado. 

No viver, Sofia, como diria Guimarães Rosa, "tudo cabe", inclusive a dor, a desigualdade, a injustiça, a morte. E, infelizmente, não é porque nossos sonhos são belos e as nossas ações nobres que seremos poupados. A passagem da morte por minha vida - assim como na de inúmeros amigos, inclusive, amigos do seu pai - foi muito precoce. Não consola saber disso, eu sei. A perda de alguém querido, sobretudo de um pai tão amado, é avassaladora. Assim como venho me equilibrando nessa corda bamba, caberá a você - e somente a você - encontrar maneiras de enfrentar os dias e seus ecos de ausência. 

Sim, o luto é tocar na solidão. Talvez minhas palavras não sejam adequadas para uma menina tão nova, mas é assim que tenho atravessado o tempo bom e ruim: somos metade vazio, metade completude e quem conduz o volume desse liquido tenro chamado vida somos nós.

Certa vez me peguei pensando como gostaria de ser mexicana e vivenciar, por dentro, a "Fiesta de los Muertos". Se aqui nossa comemoração é demarcada pela finitude dos "finados" em contraste com suas terríveis flores de plástico (que não morrem), no México a data é um período de visita dos que não estão mais aqui, e eles são recebidos com banquetes e muitas música.

Se a passagem de fato nos permite escolher onde queremos estar, acredito que nossos pais estejam às margens de um belo rio, felizes e pescando.


B.

sábado, 5 de novembro de 2016

Meu fio de luz!


Hoje resolvi olhar uma estrela
Tão pequenina, uma centelha
Um pedaço do passado

Um pequeno fio de luz
Brilhando em tons azuis
De tão longe enviado

Nasceu antes de mim
E mesmo assim
Nasceu para me encontrar

E se eu não olhasse?
E se o desperdiçasse?
Onde haveria ter ido parar?

Não, este fino raio é meu
Não divido com ninguém
E o quero admirar

Ele não é igual ao teu
O meu vai mais além
Pois ele soube me conquistar

Olhe agora para o céu
Mesmo que haja um teto
Desvencilhes este véu
Sinta todo esse afeto

Pare...
Ame o seu fio de luz!
Uma nuvem se foi.
Olha outro logo ali!!!

Fábio Fonseca

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Isso me faz lembrar...

...que a cada momento, sinto a profecia de Lennon se cumprindo: life is what happens to you while you're busy making other plans. Sim, é exatamente isso, a vida é o que acontece enquanto estamos ocupados fazendo outros planos. Isso me faz lembrar que, quando os acontecimentos nos “atropelam”, é preciso ter muita serenidade para sincronizar a realidade com nossos desejos. Quando os acontecimentos instauram o caos é preciso lembrar que, o caos que avassala, é o mesmo que permite a reconstrução. Isso me faz lembrar que a Fênix somente renasce de suas cinzas. Entre cinzas e renascimentos, quanta bagagem carregamos...
Para se equilibrar na corda bamba da vida, é preciso se livrar da bagagem desnecessária, desapegando de tudo que não agrega, guardando apenas o aprendizado. Isso me faz lembrar que o equilíbrio é um exercício diário...
Fico estabelecendo sinapses de frações de vida com os poemas que li, as músicas que tocaram na minha alma, os acontecimentos que me atropelaram e as lembranças do que ainda não vivi. Tudo mesclado em um enredo hipotético e impalpável, apenas viabilizado no campo das ideias mesmo quando tento não tê-las. Lembro-me do guardanapo do Antônio “quem aprende a amar não apreende o amor”, e isso me lembra Mário Quintana: “o amor é isso. Não prende, não aperta, não sufoca. Porque quando vira nó, já deixou de ser laço.”. E isso me lembra que, há pouco, pensei que os laços mais charmosos surgem do inusitado. Ah, o delicioso sabor do inusitado! Aquele gostinho de quero mais que surge como fogos de artifícios nas papilas gustativas...
Isso me lembra que, há pouco, me perguntaram como é possível mensurar o amor. E isso me fez lembrar que não tenho, nem pretendo ter, todas as respostas, mas estabeleci Cazuza como unidade de medida: todo amor que houver nessa vida, unindo a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida! Enquanto eu simplesmente solto estas palavras lembro que “viver é ir deixando troços, pedaços de alguém pelo mundo. Unhas que se cortam, cabelos que se aparram, palavras, sobretudo palavras. Palavras que têm uma vida muito breve, um fulgor entre uma boca e um ouvido, às vezes muito emocionadas, mas que depois de ditas desaparecem para sempre.” (RIBEIRO,Darcy). E isso me fez pensar o quanto de mim já deixei nesse mundo, entre unhas, cabelos e palavras que eternizei. Isso me faz lembrar que nem todos podem interpretar as minhas entrelinhas...


Isso me faz lembrar...

...que a cada momento, sinto a profecia de Lennon se cumprindo: life is what happens to you while you're busy making other plans. Sim, é exatamente isso, a vida é o que acontece enquanto estamos ocupados fazendo outros planos. Isso me faz lembrar que, quando os acontecimentos nos “atropelam”, é preciso ter muita serenidade para sincronizar a realidade com nossos desejos. Quando os acontecimentos instauram o caos é preciso lembrar que, o caos que avassala, é o mesmo que permite a reconstrução. Isso me faz lembrar que a Fênix somente renasce de suas cinzas. Entre cinzas e renascimentos, quanta bagagem carregamos...
Para se equilibrar na corda bamba da vida, é preciso se livrar da bagagem desnecessária, desapegando de tudo que não agrega, guardando apenas o aprendizado. Isso me faz lembrar que o equilíbrio é um exercício diário...
Fico estabelecendo sinapses de frações de vida com os poemas que li, as músicas que tocaram na minha alma, os acontecimentos que me atropelaram e as lembranças do que ainda não vivi. Tudo mesclado em um enredo hipotético e impalpável, apenas viabilizado no campo das ideias mesmo quando tento não tê-las. Lembro-me do guardanapo do Antônio “quem aprende a amar não apreende o amor”, e isso me lembra Mário Quintana: “o amor é isso. Não prende, não aperta, não sufoca. Porque quando vira nó, já deixou de ser laço.”. E isso me lembra que, há pouco, pensei que os laços mais charmosos surgem do inusitado. Ah, o delicioso sabor do inusitado! Aquele gostinho de quero mais que surge como fogos de artifícios nas papilas gustativas...
Isso me lembra que, há pouco, me perguntaram como é possível mensurar o amor. E isso me fez lembrar que não tenho, nem pretendo ter, todas as respostas, mas estabeleci Cazuza como unidade de medida: todo amor que houver nessa vida, unindo a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida! Enquanto eu simplesmente solto estas palavras lembro que “viver é ir deixando troços, pedaços de alguém pelo mundo. Unhas que se cortam, cabelos que se aparram, palavras, sobretudo palavras. Palavras que têm uma vida muito breve, um fulgor entre uma boca e um ouvido, às vezes muito emocionadas, mas que depois de ditas desaparecem para sempre.” (RIBEIRO,Darcy). E isso me fez pensar o quanto de mim já deixei nesse mundo, entre unhas, cabelos e palavras que eternizei. Isso me faz lembrar que nem todos podem interpretar as minhas entrelinhas...

terça-feira, 1 de novembro de 2016

A Caneta na Pedra: “Não existe distintivo de escritor”

*Texto originalmente publicado no blog Viver da Escrita: http://viverdaescrita.com.br/a-caneta-na-pedra-nao-existe-distintivo-de-escritor/*
Eu comecei a escrever num fórum de RPG, fortuitamente o mesmo no qual o dono do blog começou a escrever contos. Passei anos e anos pensando que escrever era legal e mantendo um ou outro blog de contos e pseudo-crônicas. Mas nunca me passou pela cabeça que alguém me pagaria para escrever, até que isso foi quase atirado no meu colo.
Tudo começou há um tempo atrás na Ilha do Sol na república na qual morava Andressa, minha companheira. Estávamos conversando, eu, ela e um dos outros moradores do local, e me empolguei falando de quadrinhos, literatura e nerdices no geral. E num desses papos sobre quadrinhos e a qualidade de roteiros para crianças que o Chicão, um dos caras para quem eu mais devo na vida, soltou: “Mas você tem as manhas de escrever algo assim?”
E aí, amigues, a cabeça deu pane.
Sempre fui daqueles que falava mais do que fazia. Era o indivíduo que “sabia escrever melhor do que você” mas não produzia porcaria nenhuma (eu sei, recalque mata). Tinha medo de não ser bom o suficiente, me sentia inadequado e todas essas coisas que vocês já sentiram. Mas acabei falando que sim, que eu escreveria. E foi aí que a minha vida no maravilhoso mundo da escrita profissional começou.
O Chico me levou para escrever uns livros infantis na editora na qual trabalha, e eu fui. Me empolguei e percebi que levava jeito de verdade para a coisa. Eu me interessei por roteiro e escrevi alguns, estudei para me tornar revisor, leitor crítico e todas essas coisas de gente chata que olha para o seu texto e fica apontando defeito, apesar do esforço incrível que você fez para produzir. Depois dos livros infantis, me envolvi em outros projetos literários, escrevi alguns textos para publicidade e comecei a ser mais crítico quanto a leituras, técnica e que tais.
Foi quando entrei num limbo.
O que me deixava suspenso nesse estado de confusão e, honestamente, ainda me deixa, é a pergunta: Quando posso/devo começar a dizer às pessoas que sou um escritor? Eu escrevo, reviso, roteirizo, ajudo autores, edito livros e o caramba. Mas o que garante que sou um escritor “de verdade’?
Passei anos lendo sobre “Síndrome do Impostor”, secretamente invejando gente menos complexada do que eu e duvidando de quem se apresentava como escritor.
Agora eu deveria dizer que isso passou. Mas não passou, não totalmente.
A verdade é que, como qualquer outra neurose ou insegurança que carrego, eu me esforcei para aprender a lidar com isso. Não tenho nenhuma fórmula mágica, o que eu costumo fazer é tão bobo e simples que… vá lá, julguem vocês mesmos.
A minha “solução” foi levar a definição de “escritor” para níveis pedagógicos e simples a ponto de serem compreensíveis para a criança que eu fui quando comecei a me interessar por escrita. Me joguei algumas perguntas como: Você escreve e compartilha isso com pessoas? Se esforça? Lê e estuda a respeito de escrita tentando melhorar? Se você respondeu sim para essas três perguntas, já é suficiente. Não é preciso nadar em milhões de dólares, ser tão famoso quanto Jesus Cristo ou vender tanto quanto alguém cujo sobrenome saltita por aí, tem olhos vermelhos e pelo branquinho.
Você só precisa escrever. Colocar pra fora essas histórias, ideias e loucuras que você tem aí dentro da cabeça flutuando. Parece fácil, né?
Eu não vou me prolongar na longa jornada que é se tornar um bom escritor, aprender a vender o seu trabalho, em quanta gente incrível e quanta gente sacana você vai encontrar por aí porque… bom, tem todo um blog sobre isso aqui ao redor, como vocês bem sabem. Explorem o material que o Rodrigo traz, colem nos grupos de escritores da sua região, leiam, escrevam e façam o caramba a quatro, mas não se esqueçam disso:
Se você escreve, compartilha isso com pessoas (porque vender, nem todo mundo vende) e se esforça para escrever mais e melhor, pode se chamar de escritor.
Porque não existem achievements, damas encantadas entregando espadas, uma caneta mística numa pedra ou uma fada da escrita. É só gente comum como eu e você, colocando ideias num papel ou numa tela. E ainda bem que é assim.

domingo, 30 de outubro de 2016

Todo o dia que ela acorda mais cedo e me despeja o calor do cotidiano eu sinto a vida, que é tão breve, bater à porta e me dar mais alento. Todos os dias o medo da morte e do silêncio absoluto e infinito por incontáveis gerações me assombra, mas quando ela levanta e com os olhos verdes ou castanhos tece o vento novamente para mim, sinto que a vida, ainda que breve e nauseante, é uma concerto digno de ser ouvido e ... tocado. No seu corpo e olhos...

sábado, 29 de outubro de 2016

respeito é pra quem tem

Tinha uma programação pré-pensada, ia escrever sobre o “Próxima B” e como seria se fosse habitável.  Mas quando abri a página para começar escrever desisti. Parei uns segundinhos, balancei a cabeça e surgiu o sorrisinho sacana de sempre. Por pouco não caio na cilada.

 Não. É melhor respeitar. Respeitar o que vem mais forte na mente e no coração. O que acompanha em tudo que faz e fica martelando a cabeça dia a dia.

Esse tem sido o exercício dos últimos anos. Tentar respeitar.

Aprender e em especial viver o respeito e consequentemente respeitar os demais. Respeito que se renova e movimenta a gente para identificar se está sendo leal consigo mesmo e dando o respeito a quem deve.

Não será hoje, talvez mês que vem o “Próxima B” e aquele filme sejam prioridade na mente.

As imagens dos adolescentes nos últimos anos, meses, mais precisamente de dias não saem da minha cabeça.  Volta e meia vem à mente eles cantando funk politizado, fazendo jogral, nas ruas dançando e caminhando com bandeiras, com gritos de ordem ou pendurados nos portões de ferro dizendo que não tem arrego, tem luta.

Ou aqueles cartazes dizendo OCUPADO! OCUPA TUDO! SECUNDARISTAS EM LUTA.


A imagem da Marcela segurando a cadeira que o policial estupidamente estava arrastando e danificando ocupou meus pensamentos por meses em 2015. Ou aquela em que se segura na cadeira enquanto o policial tenta tirá-la do protesto. Ou ainda esta:

Rever está imagem desconstrói todos os comentários questionando porque na época em que a presidente cortou milhões da educação não fizeram nada. É mentira. 

Em quase todas as ocupações em 2015 tinham cartazes sobre os cortes na educação e reorganização das escolas.

Dizer que são partidários é além de enorme equivoco é falta de caráter. Algo que alguns movimentos sequer sabem o que significa porque são financiados por empresários, partidos de direita, ONGs internacionais e pelos ingênuos que acreditam nas propostas e ações políticas de movimento social que propõe manifestação com camiseta da CPF, trio elétrico e pato como mascote.

Quem nunca estudou em escola pública estadual não pode se sentir no direito de querer defender algo que não sabe como é. Não pode ter a pachorra de abrir a boca pra dizer que está ali pelos estudantes que querem estudar. Posso escrever a perder de vista o que significa estudar em escola pública estadual precarizada com professores e ensino sucateados.


Só me pergunto por que essas ocupações demoraram tanto para acontecer. Por que quando estudava não existiu algo assim.

Quando me sinto desmotivada e entristecida lembro-me deles, e logo quase que instantaneamente fico melhor. Não quero com isso, colocar projeções ou cargas que eles não podem carregar/segurar. 

Pode chover comentários chamando-os de esquerdistas e outros “adjetivos” que me recuso a escrever.

Quem escreve algo assim, nunca visitou qualquer ocupação, jamais conversou com eles e principalmente não compreendeu o que querem e qual segmento político priorizam.

Para quem não sabe o significado de autonomia e auto-organização qualquer palavra serve para subjugá-los.

É com máximo respeito a eles que toco neste assunto. Sem delongas e sem tirar-lhes a palavra. Quem melhor do que eles para falar sobre né. Então segue para quem não viu ter a grata oportunidade de contemplar o que vem vindo por ai ou conhecer as consequências da autonomia e auto-organização:

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

SEI E NÃO SEI

O que eu sei não faz de mim alguém especial. O que eu sei? Alguns ensinamentos bíblicos e científicos, algumas putarias e coisas aleatórias como que eu não deveria correr perto de cachorros mesmo se eles correrem atrás de mim. Mas no dia que um cachorro rosnou e correu atrás de mim, que se fingir de morto que nada, não tive dúvidas e corri o mais que pude! É engraçado como ainda que a gente saiba das coisas faz tudo ao contrário. Por teimosia ou simplesmente por esperança besta.  Quem nunca torceu por um final de filme diferente daquele que se sabia que o mocinho ia morrer? “Vai Rose, reveza com o Jack que essa água tá fria pra caralho e ele pode morrer”!

Eu poderia ensinar gerações mais jovens com lições como “não se deve beber água e correr em seguida” porque dá dor na barriga. Ou que a Terra gira em torno do seu próprio eixo e também ao redor do sol. Fiquei muito feliz quando era criança e descobri porque existem estações do ano! A vida é mais excitante na infância... Ou não, a memória também é uma ilha de edição. Eu sei que quando você tem medo fatalmente a vítima de qualquer coisa que dê errado em um grupo de corajosos será você. Como daquela vez em que as crianças estavam brincando de pular entre as lajes de duas casas vizinhas, todo mundo dizia “Vai! Pula! É só pegar impulso!” e pulavam com tanta facilidade e eu fiquei lá, no canto, não queria pular, estava morrendo de medo. Mas quem quer ser covarde? Aí aceitei o desafio: não deu outra, não sei como errei o salto e caí. Meu braço quebrou, mas até que era legal deixar meus colegas de sala assinarem no gesso.

Não sei como os humanos descobriram que certos alimentos eram alimentos. Quem cozinhou ou fritou o primeiro ovo? O animal tá lá em desenvolvimento e pá! “Vamos esquentar isso daqui e comer”! A resposta deve ser aquilo que dizem que a criatividade vem com a necessidade. Eu não sei como um avião pode voar ou pra quê servem as contas de logaritmo. Também não sei daquele meu ex-melhor amigo, se ele ainda deseja trilhar o mesmo caminho, se está fazendo o que dizia que não faria ou quem ele é hoje. Nem sei daquela minha amiga que sonhava em ser astrônoma, se ela insistiu no sonho ou não. Ou daquelas pessoas que juraram amor eterno por mim, não sei se elas ainda se lembram que eu existo. 

Às vezes, não sei se eu existo. Pareço uma máquina reproduzindo ordens, respondendo aos estímulos que me dão, vivendo de acordo com o roteiro criado por terceiros. Mas há outros momentos onde acredito mesmo que sim, que eu existo, aí eu sonho, amo, o mundo é fora e é dentro de mim, sinto que tenho poderes, me sinto capaz de fazer tudo o que desejar! Quando me perguntam “e ae? Como vai a vida?” a resposta mais completa seria que a vida segue com seus pares: sei e não sei das coisas; sei e finjo que não sei; não sei e finjo que sei e por aí vai...