quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A prodigiosa sorte de Fortunato Dias de Ventura

Desde muito pequeno, Fortunato Dias de Ventura descobriu que tinha uma relação bastante estreita com a sorte. Foi logo em seu primeiro verão, na pequena cidade de Quimera, quando sua mãe lhe deixara desfrutar de seu primeiro picolé, que tal intimidade com as coisas do destino se revelou pela primeira vez. O menino refestelava-se com aquele bloco róseo de gelo, corante e açúcar (sobretudo açúcar, muito açúcar) quando sua mãe, a atordoada Sra. Lenora Dias, pôde ler no palito de madeira que o rebento tinha direito a outro sorvete igual aquele, numa daquelas promoções que existem desde sempre, que todo mundo conhece, mas que de fato, de verdade mesmo, ninguém nunca ganhou nada. A mãe, que aos trinta e tantos anos já se considerava pessoa bastante azarada, sobretudo quando se lembrava de suas escolhas matrimoniais (o que não vem ao caso neste relato) nunca tinha ganho nada nesta vida, além de maridos infames e contas para pagar. Enquanto pegava o menino lambuzado pelo braço e caminhava de volta à sorveteria para retirar o grande prêmio, lembrou-se da vez, muito parecida com aquela, em que era menina, cercada de outras tantas meninas, suas amigas, e dera um pulo de alegria ao perceber que tinha uma mensagem escrita no palito de sorvete. As meninas logo se acercaram e começaram a rir às gargalhadas, ao lerem que aquilo não dava direito a nada, a não ser a alguma sensação de consciência tranquila, já que o que estava escrito no pequeno palito lambuzado não era nada mais benfazejo do que um "Este palito foi feito com madeira de reflorestamento. Preserve a natureza: não o jogue em vias públicas". A pobre Lenora, depois de meses sem ter coragem de botar a cara na rua, nunca mais dera bola para promoções e palitos. Até o dia em que nasceu o pequeno Fortunato Dias de Ventura.
 
O mais curioso, e o que talvez aqui ninguém acredite, é que o sorvete que Fortunato Dias de Ventura ganhou naquela manhã, também havia sido moldado em torno de um palito premiado, para grande azar do sorveteiro, que viu seu faturamento sensivelmente atingido por aquele acontecimento apoteótico. O fato é que a partir daquele dia todos os sorvetes que o menino ganhava vinham afortunadamente com o palito premiado (e olha que Fortunato gostava muito de sorvetes!). O dono da sorveteria, muito desconfiado, sensivelmente temeroso de sua falência iminente, teve como ideia abrir uma ou outra embalagem de sorvete, de modo aleatório, para ver se aquilo era mesmo sorte ou erro do fabricante, algum lote que viera desgraçadamente mais sortudo que os outros, quem sabe. Logo se viu, no entanto, que esta hipótese poderia ser facilmente descartada. O sorveteiro, a  esposa do sorveteiro e os netos do sorveteiro entupiram-se por dias e mais dias de sorvetes e de decepções, e nada mais liam ao final de cada uma daquelas guloseimas geladas, do que a decepcionante inscrição "tente outra vez" nos palitos de madeira. A tristeza estava estampada em seus rostos melados, sobretudo quando entre um fracasso e outro, viam entrar pela sorveteria aquela figura cada vez mais rechonchuda e rosada que apontava do colo da mãe para qualquer um dos picolés da geladeira que, invariavelmente, vinham premiados.
 
O sorveteiro, resignado, resolveu tirar proveito daquilo e apostou numa estratégia de marketing, palavra até então desconhecida entre os habitantes de Quimera. Botou na fachada da sorveteria, em letras vermelhas e garrafais, uma faixa com a seguinte inscrição "Sorvete premiado. O prêmio já saiu aqui 47 vezes!". No começo até que deu certo. Os moradores de Quimera, sensivelmente atraídos por aquele dado expressivo e profundamente incomodados pelo forte calor que fazia naquele triste e tenebroso verão, fizeram filas na porta da sorveteria para adquirirem também o seu tão sonhado palito premiado. Só que todos os outros habitantes da cidade eram pessoas de sorte apenas mediana e, portanto, jamais conseguiam o direito a outro sorvete. Alguns saiam cabisbaixos, lamentando a pouca sorte, outros saiam furiosos, muito irritados, xingando o sorveteiro e toda sua família de embusteiros de uma figa, que não deviam brincar assim com a esperança das crianças. E foi assim que começou a guerra fria, a verdadeira, assim chamada pelo gelo com que os moradores de Quimera passaram a tratar toda a família do vendedor de gelados. Uma injustiça, é preciso que se diga, um comportamento realmente deplorável dessa gente, já que como se sabe, o sorveteiro não tinha poderes sobrenaturais que o permitisse conhecer de antemão onde estavam os palitos premiados. O único aspecto sobrenatural dessa história toda era realmente a prodigiosa sorte de Fortunato Dias de Ventura.

Chegou a hora, como haveria de chegar, que o menino cansou de tomar tanto sorvete e passou a recusar até mesmo os sabores mais extravagantes e açucarados, aqueles que sempre o atraiam. Seus pais resolveram então guardar como um troféu o último dos palitos premiados para se lembrarem no futuro daquela fase áurea do garoto. A sorveteria, no entanto, não resistiu ao verdadeiro boicote exercido por seus antigos clientes e fechou suas portas. O sorveteiro e sua família fizeram as malas e se mudaram para a Sibéria, de onde eram seus parentes mais próximos, e nunca mais voltaram para Quimera, de modo que nunca souberam que seu antigo estabelecimento havia se transformado numa espelunqueira lanchonete, dessas que mais parecem um botequim, com banquinhos no balcão e vitrine de coxinhas, torresmos e ovos azulados na entrada. O que distinguia o recente estabelecimento dos demais de sua espécie era a presença, um tanto sorrateira e disfarçada, nos fundilhos mesmo do recinto, já próximo aos banheiros, de uma bancada para o jogo do bicho, a nova tendência no submundo do entretenimento da cidade.

A viúva Noêmia nunca fora mulher de grandes vícios (e tampouco de grandes virtudes) mas apaixonou-se perdidamente pelo bicheiro, o atarracado Sr. Osório, desde a primeira vez que, saindo distraída do banheiro do bar, dera de cara com aquele sujeito que acabava de atender um cliente (um senhor que arriscou uma bolada no burro). Dona Noêmia, que era muito inteligente, decidiu apostar naquela relação e passou a frequentar o bar regularmente, nunca se esquecendo de fazer sua fezinha, nunca sem ver Osório. Isso seria apenas mais uma história, como tantas outras histórias, de alguém apaixonado que se vê cometendo insanidades nunca antes imaginadas, apenas pelo simples deleite de passar um tempo a mais ao lado da pessoa amada, não fosse a viúva Noêmia avó de um menino tão sortudo, o ditoso Fortunato Dias de Ventura, protagonista desta história.

Ciente das alvissareiras conquistas que o neto já realizara no mercado das guloseimas geladas, a viúva Noêmia resolveu contar com o garoto para suas ótimas intenções no mercado matrimonial. Todo sábado levava ao neto a cartela colorida do jogo de bicho e pedia ao menino rechonchudo que apontasse com os dedos para a imagem do animal que mais lhe apetecesse no momento, que fizesse uma escolha aleatória como outrora já fizera com os picolés. Não há quem não conheça a máxima que diz que um raio não cai mais de uma vez no mesmo lugar, mas como todos aqui já sabemos, essas coisas só funcionam para pessoas de fortúnio medíocre, como a grande maioria de nós. Para pessoas magistrais como Fortunato Dias de Ventura, o raio cai exatamente no local em que ele quiser e no momento em que ele quiser. Assim, como é fácil de se supor, a viúva Noêmia passou a ganhar no bicho absolutamente todos os sábados. E só não jogava todos os dias porque tinha pudores, tinha receio de que a boca pequena melasse o clandestino negócio de Osório, como já tinham feito antes com os açucarados sorvetes.

De tanto ganhar no bicho, a viúva Noêmia comprou uma modesta fazenda e chamou Osório para morar com ela. O atarracado Osório gostava muito de sua vida clandestina, sempre conhecendo gente nova, conversando com os apostadores de saída de banheiro, aquela gente aliviada que nunca fazia sua vida cair na rotina. Entretanto, a possibilidade de se unir a uma pessoa tão bem aventurada, tão primorosamente afortunada, fez com que Osório pesasse bem e decidisse pela vida no campo, longe dos bichos, ou melhor, longe do jogo do bicho e perto dos bichos de carne, osso e úberes e também perto da sorte da viúva Noêmia. Mas como a sorte de Noêmia não era de Noêmia, mas sim de seu neto, e como o seu neto não era algo que se pudesse carregar por aí, o interesseiro Osório acabou se desinteressando por Noêmia, que nunca mais ganhou nada fácil nessa vida, e viu o seu negócio agrário se desmoronando tão fácil quanto veio. Numa tarde de sábado, quando tudo parecia que não podia piorar, Osório caiu do burro. Era um burrinho pedrês, último bicho que sobrara na fazenda, já velho, sem dentes e que não aguentou o peso do atarracado Osório e o lançou longe. Osório morreu na hora e a viúva Noêmia ficou viúva de novo.

Enquanto isso, Fortunato Dias de Ventura crescia. Sua avó Noêmia foi morar com ele e com seus pais. A velhinha já não saia de casa, temerosa de se apaixonar de novo e de contrair uma nova viúves. Estava, digamos, um pouco confusa das ideias e passava o dia repetindo sequências de números e bichos e anotando obscuros hieróglifos em seu bloquinho cor de abóbora. Fortunato Dias de Ventura, agora um rapaz de pelos emergentes, olhava tudo aquilo muito assustado, mas buscava não contrariá-la. Deixava a velha senhora em paz - avestruz, águia, burro, borboleta - e saia todo dia para cuidar de sua própria sorte, sempre ao lado do pai, o agitado Sr. Eduardo de Ventura, porque a mãe, muito religiosa, não gostava de se envolver naqueles assuntos escusos, que já haviam levado à falência uma família de pessoas tão honestas, como era a do sorveteiro, além de ter deixado louca sua sogra, antes pessoa de ideias tão razoáveis, salvo pelo fato não desprezível de ter educado seu ignaro marido.

Se antes o menino Fortunato Dias de Ventura apenas se refestelava com inocentes picolés de palitos premiados ou gostava de apontar seu dedo roliço e rosado para uma cartela colorida cheia de animais - como teria gostado de fazer qualquer criança de dedos menos roliços e de sorte menos promissora - agora a coisa estava um pouco mais séria, um tanto mais profissional. O Sr. Eduardo de Ventura havia se tornado uma espécie de empresário, manipulando a sorte do filho em casas de apostas, em corridas de cavalos e até mesmo, por que não, no bingo da paróquia de nossa senhora de Monte Serrat, frequentado desde sempre pela Sra. Lenora (que se enchia de vergonha toda vez que via o marido, aquele desqualificado, chegando com o menino naquelas sagradas tertúlias dominicais). A estratégia do pai era bastante clara e sagaz. Por mais sorte que Fortunato tivesse, por mais certo que fosse que ele poderia ganhar o que quisesse e quantas vezes quisesse, isso não poderia acontecer sempre. A estupenda sorte chamaria muita atenção e poderia pôr a perder aquele negócio tão auspicioso. Então o segredo era manipular os palpites do rapaz e perder de vez em quando, às vezes até mesmo um dia inteiro, tudo para não causar suspeitas. Nesses dias inglórios, se Fortunato escolhia uma cartela, o pai logo tratava de substituí-la. Se o rapaz apostava num puro sangue lusitano, o pai declarava apoio a um quarto de milha qualquer. O segredo era sempre fazer apostas miúdas nestes casos de derrota certa e deixar os palpites polpudos para quando Fortunato tivesse a liberdade de escolha. Nessas horas eles quebravam a banca, como dizem nesses meios, e imediatamente voltavam pra casa, para grande desgosto de Fortunato, que não gostava de se ver tão castrado em suas venturas com o destino.
Nos primeiros meses do negócio a economia doméstica foi sensivelmente progredindo. A casa ganhou uma reforma de arquitetura primorosa, com três andares e um mirante com vista para as montanhas mais distantes. Até mesmo a viúva Noêmia saiu beneficiada dessa história toda. Construíram para ela um altar em um quartinho nos fundos da casa, onde ela adorava imagens em tamanho real dos vinte e cinco animais do jogo de bicho, inclusive o elefante que sozinho já ocupava quase a metade do ambiente. A velha senhora, cada vez mais enrugada e com olhar progressivamente mais sombrio, caminhava em círculos pelo recinto, carregando um castiçal de velas coloridas com nauseante odor de flores mortas. Repetia palavras impronunciáveis e quase não se alimentava mais. O prato de comida que a Sra. Lenora deixava todo dia na porta de seu quartinho, quase sempre voltava intocado. A mãe de Fortunato, aliás, a despeito do vertiginoso progresso econômico pelo qual passava sua família, não conseguia concordar com a origem sibilina daquela fortuna toda e se mantinha ainda mais afastada daquele ser abjeto que era seu marido, conforme ela fazia questão de lembrar. Aproveitando-se das grandes proporções que havia atingido sua residência e das grandes distâncias de corpos que isso proporcionava, certa vez mandou colocar os pertences de seu abominável cônjuge para fora do quarto e mandou a criatura se instalar em um dos novos dormitórios do terceiro andar, bem longe dela, que desde sempre havia se recusado a sair do térreo. Nem acreditava que depois de tantos anos conseguiria passar uma noite sem ter que ouvir aqueles barulhos - e os consequentes odores - que vinham dos mais recônditos buracos do marido.

Fortunato Dias de Ventura, por sua vez, a despeito de sua sorte tão prodigiosa, andava pela casa taciturno e cabisbaixo, tropeçando em trevos de quatro folhas que somente ele conseguia enxergar no jardim. Não tinha amigos e não ia para escola, já que o pai não queria que suas energias fossem desperdiçadas em expressões de álgebra e no estudo de línguas pouco úteis para os negócios do destino. O Sr. Eduardo de Ventura passava o dia longe do casarão, envolto em atividades nunca bem esclarecidas, sabido que sempre foi para todos que ele não trabalhava desde antes do nascimento do menino. A economia doméstica sempre fora capitaneada pela mãe, que mesmo agora com o advento dos prodigiosos desígnios do filho, continuava a produzir mandalas e filtros dos sonhos que vendia nas feiras de artesanato da cidade. O casarão passou tempos assim, da mais modorrenta rotina, com cada um de seus ocupantes suficientemente distantes uns dos outros, a ponto de mal se cumprimentarem quando, por ventura ou descuido, calhavam de se trombar em algum corredor. Com a vizinhança, tampouco, exerciam qualquer tipo de relacionamento desde os tempos já saudosos dos palitos de sorvete. A casa era uma ilha na cidade de Quimera e passaria despercebida pelos vizinhos, não fosse o quadradinho sempre iluminado do quarto da mãe no térreo, os estranhos ruídos que vinham do quartinho da viúva Noêmia nos fundos e as saídas furtivas do menino com o pai, sempre que este aparecia, vindo sabe-se lá de onde, mal a noite começava a se pronunciar, para buscar o menino e levá-lo cidade afora a fim de explorar sua estrondosa sorte.

Certa vez, no entanto, o Sr. Eduardo de Ventura não apareceu para buscá-lo. A lua aparecia no céu de Quimera e Fortunato já se mortificava ante a perspectiva de mais uma noite perdida em casas de apostas e mesas de pôquer. Chegou até mesmo a dormir no banco de cimento diante do portão do casarão, onde sempre esperava seu pai. Mas naquela noite ele não apareceu. E tampouco apareceu na noite seguinte e sequer mandou algum recado para explicar suas ausências nas noites e noites seguintes. Fortunato, sempre obediente, não deixou de esperá-lo, noite após noite, diante do casarão. Sua mãe, compadecida e sempre em silêncio, aparecia de tempos em tempos com um prato de comida, um cobertor para as noites frias e depois de algumas semanas, quando percebera que o filho passara a dormir a madrugada toda ao relento, trouxera-lhe um de seus filtros dos sonhos, para lhe proteger a noite.

Passados três ou quatro meses de espera ininterrupta, certa noite o menino foi novamente surpreendido pela figura da mãe, que de camisola branca e com uma vela na mão, apareceu diante dele, que já dormitava no banco de pedra, ao relento, e pronunciou solene "Já não se ouve mais nada. Ela também se foi". Fortunato olhou para mãe confuso, sem saber se estava acordado ou ainda dormindo, mas logo deu-se conta de que tudo estava num absoluto silêncio, um silêncio inaudito, como há anos não se fazia. Já não se escutava mais os incompreensíveis murmúrios da viúva Noêmia. No quartinho dos fundos, apenas as chamas de velas pela metade e o olhar penetrante de vinte e cinco animais que agora poderiam dormir tranquilos.

Muito se especulou sobre o sumiço repentino da viúva Noêmia. A reinauguração do silêncio não poderia passar incólume na pequena Quimera, já que os murmurosos lamentos da velha senhora podiam ser escutados até mesmo das cidades vizinhas, assim como se podia sentir de longe o cheiro nauseabundo de suas velas coloridas. Alguns afirmavam, e juravam certeza, de que tinham avistado a viúva Noêmia se esvanecendo como fumaça, pela chaminé nos fundos do casarão, até se perder entre as nuvens mais distantes do céu noturno. Outros juravam que tinham visto Noêmia em uma praia do Marrocos, comprando tapetes e outras quinquilharias junto a um bem apessoado senhor, que muito parecia ser o pai de Fortunato Dias de Ventura. Nada disso, porém, conseguiu alterar a rotina de Fortunato, que noite após noite, sempre no mesmo horário, se punha diligente diante do portão de ferro para esperar atento o seu tão demoroso pai.

O tempo fizera do casarão um prédio decrépito e cinzento. A despeito da imensidão da casa e do pó que se acumulava nos móveis, a ponto de não ser mais possível vê-los, a mãe se recusara a ceder às pressões da especulação imobiliária. Em todos aqueles anos, após o sumiço do marido e da viúva Noêmia, sempre a atormentavam com milionárias propostas de compra do antigo imóvel, para construir em seu lugar um gigantesco shopping center, o arauto da modernidade que teimava  em contaminar a pequena Quimera. Os anos haviam passado e a sorte de Fortunato Dias de Ventura há tempos que não dava mostra de sua portentosa presença.  Há anos que ele não entrava em casa, temeroso de que o pai podia aparecer em algum momento de descuido, para se valer uma vez mais de sua prodigiosa sorte. A Sra. Lenora, mesmo com o alivio que sentia pela ausência do marido, passou a dormir ela também todas as noites ao relento, ao lado de Fortunato, o acompanhando naquela espera, revezando com o filho os momentos de sono e vigília. Certa vez, enquanto Fortunato dormia com a cabeça em seu colo, reparou que pela primeira vez na vida se sentia cansada. Olhou para as mãos, com a atenção que nunca costumava olhar, e notou que tinham lhe aparecido manchas marrons e veias calibrosas, que a vida sempre tão agitada e envolta no mais rigoroso trabalho, a tinha impedido de perceber. Ela envelhecera. Olhou também para as mãos do filho, para seus dedos magros de unhas encravadas e lembrou-se do menino de dedos roliços que apontavam certeiros para sorvetes de palitos premiados. Ele também envelhecera. Estavam velhos e sós, em uma cidade que não mais lhes pertencia. Eram somente os dois naquele imenso casarão abandonado, cercado por filtros dos sonhos e lembranças. Foi quando Lenora recordou-se da única boa ideia que seu desprezível marido um dia já teve na vida, que foi a de guardar como lembrança o último dos palitos premiados, na época em que o pequeno Fortunato Dias de Ventura passou a se desinteressar por sorvetes.

Na manhã seguinte, ainda antes do sol aparecer por inteiro no céu de Quimera, Fortunato Dias de Ventura despertou com o toque suave de sua mãe em seus cabelos ralos e grisalhos. Nem bem Fortunato a olhou e já compreendeu tudo. A Sra. Lenora lhe disse de forma terminante, sem margem para contestações "Vamos, venha comigo. Ele já não voltará mais". Fortunato a olhou sério, tão fundo como jamais a tinha olhado, e nem por um segundo pôs em dúvida as palavras da mãe. Reparou que ela trazia o velho palito premiado nas mãos. A sorte é que essa era uma daquelas promoções que existem desde sempre, que todo mundo conhece e que nunca, absolutamente nunca acabam. E foi por isso, que mesmo quarenta e tantos anos depois, que Fortunato Dias de Ventura pôde entrar novamente em uma sorveteria, ao lado de sua mãe, para trocar um palito premiado por um sorvete. O já alquebrado Sr. Fortunato  hesitou um pouco diante da geladeira de picolés, com sabores ainda mais açucarados que os de sua infância, e resolveu não titubear muito, dando apenas vazão a sua antiga intuição. Escolheu o seu favorito, o de groselha, e saiu com sua velha mãe em direção à praça, onde sentaram no mais absoluto silêncio para tomar sorvete e mais nada, destreinados que estavam da prática do diálogo. Foi então, passadas algumas bocadas, dadas com cautela já que os dentes de Fortunato já não suportavam mais aquelas baixas temperaturas, que ele pôde ver incrédulo, que nenhuma letra havia impressa naquele palito totalmente desprovido de sorte, adornado apenas pelo logotipo da centenária fábrica de sorvetes de Quimera. A mãe não se assombrou. Pelo contrário, sem dizer uma só palavra, mas com o olhar que tudo evidencia, parecia já saber desde sempre que nada daquilo importava. Foi então que Fortunato Dias de Ventura olhou fundo nos olhos da mãe e se lembrou de tudo, de sua presença muda, porém tenaz, absolutamente eterna, até mesmo nos atos menos venturosos de sua vida. Foi quando teve a certeza, como jamais tivera antes, de que tinha realmente uma sorte prodigiosa.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Quando o ano começa

Poucas coisas deixavam Edivaldo mais irritado do que dizer que o ano só começa depois do carnaval. E o que ele fazia desde o começo do ano, era o que?

Sua vida era entre Corinthians e Palmeiras. Da estação Itaquera para a Barra Funda e vice-versa, inúmeras vezes. Aprendeu e desenvolveu técnicas que compartilhava com os companheiros de trabalho.

“Olha a bala docinha, que de amarga já basta a vida! Minha nossa, uma atriz de cinema resolveu pegar o metrô hoje; vai uma bala, princesa? Pessoal, eu estou desempregado, preciso sustentar meus filhos, pagar o aluguel, estou aqui vendendo bala com toda dignidade.” Às vezes cansava e apenas distribuía os pacotinhos de bala pelos colos fatigados e voltava recolhendo.

Todos os dias aparecia algum inocente querendo ajudar. “Tem que ir na linha amarela, lá o pessoal é cheio da grana!”. Isso. Cheio da grana e cheio de urubu, doidos para confiscar a mercadoria.

Isso era outra coisa que deixava Edivaldo puto. Se conformava com os olhares de censura, desprezo, até nojo que algumas pessoas lançavam, mas precisava denunciar seu trabalho para os urubus? Vira e mexe tinha que fugir para não perder a mercadoria, que dava um lucro tão pequeno.

Um fim de semana antes do carnaval resolveu que nem ia trabalhar. Não valia a pena. Melhor pegar o metrô só para comprar mais balas do fornecedor e sair para vender só durante a semana, que era mais lucrativo.

Ficou surpreso. Quanto mais se aproximava do centro, mais o metrô enchia. Festa estranha, gente esquisita, gliter, tiara de unicórnio, homens com roupa de mulher e uma gritaria danada nas estações. Bando de hipócritas que não têm o que fazer, pensou. Se ele gritava para vender as balas todo mundo denunciava, agora ficavam lá gritando por nada.

Na volta foi ainda pior. Com a mochila pesada, carregada com mercadoria para vender durante a semana, tinha que driblar toda a playboyzada festejando sabe-se lá o quê. Achou que tivesse tirado a sorte grande ao entrar no vagão e ver um banco vazio. A viagem era longa e a carga que carregava era bem pesada.

Doce ilusão. O banco não estava vazio, mas ocupado por uma poça de vômito. Contra isso não havia denúncia. Não era crime emporcalhar o metrô, o que não podia era trabalhar dentro do vagão.

De repente Edivaldo teve a grande ideia, que brotou daquela poça de vômito amarelado, com grumos vermelhos, de uma daquelas pessoas descentes que denunciavam seu trabalho. Aproveitou a mochila lotada, pegou um pacote e começou.

“Olha a bala docinha pra tirar o gosto ruim da boca! Aqui tem glicose para evitar a ressaca! Olha a bala pra dar um beijo docinho na gata!”

Edivaldo nunca vendeu tanto em tão pouco tempo. Nem os urubus, preocupados com as brigas dos bêbados, incomodaram. Exagero dizer que o ano só começa depois do carnaval, mas no fim até que deu uma boa ajuda.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Diário dos ventos #1

Sabe, estamos sempre por um triz... 

Quando andamos pelas trilhas do mundo real notamos que a estabilidade é uma mentira contada pelos nossos pais, por isso tenho aprendido a me equilibrar, cair e levantar. Esse jeito de encarar a vida também abriu um caminho rumo à própria liberdade.

Então, por hoje esqueci aqueles planos de ser feliz pra vida inteira, o que a vida oferece é o agora, real, intenso e finito. É foda, não está fácil, às vezes eu acordo como se tivesse levado uma surra e pergunto aos ventos: E agora, o que mais? Torço para me levantar e não ser surpreendido com uma arma na cabeça como naquele inverno do ano passado, ou aquele súbito desmaio no penhasco em que um desconhecido me salvou de rolar morro abaixo rumo ao mar. 
‎
As coisas saem do nosso controle, não sei como podemos lidar com tudo isso, sei que o único remédio pra encarar a vida e a morte ainda é viver. Pequenos prazeres me fazem perceber que ainda há muita coisa boa pra pensar do que só na dor, na derrota, nos obstáculos, no amor... É, foda-se o amor! Pessoas que um dia disseram me amar passam do meu lado e fingem nem me conhecer. Antes isso me magoava, agora sei que realmente não nos conhecemos mais. Hoje ao invés de dizer te amo, eu amo mais, pronto!
Choices 

É estranho mas aquele medo de falhar, de não ter dito e feito as coisas certas foi sumindo aos poucos quando percebi que a vida era um amontoado de erros e alguns acertos, a vitória é só uma exceção. Vivemos em um mundo que para um vencer outros cem tem de perder, é uma merda. Apesar de tudo, continuo me aventurando pelas trilhas do universo, incertas, difíceis, e misteriosas. Não sei tudo que ainda vou passar, sei que tudo vai passar.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

a insustentável dureza (ops - leveza) do ser

Acabei de assistir no youtube o pronunciamento sobre a reforma da previdência do qual o Silvio Santos e presidente interino se esforçam para convencer o público de que a reforma da previdência é imprescindível.

O discurso está numa linguagem popular e os bons velhinhos capitalistas fazem uso de jargões religiosos (pensamento maléfico, pensamento positivo) e domésticos (colocar azeitona na empada) para convencer-nos da necessidade para eles de reformar a previdência.

O argumento principal do discurso se não aprovar a reforma da previdência não existirá dinheiro para pagar os aposentados. E assim ocorrerá como noutros países de não ter dinheiro para os aposentados.



Fico com dúvidas sobre essas afirmações dos bons velhinhos capitalistas Silvio, Temer, Marinhos e etc, nunca sei se o estado burguês está prestes a ruir ou quer deixar de existir ou deseja promover a guerra civil entre povo e instituições.

O que aconteceria se de repente o estado deixasse de pagar os aposentados? Qual seria a reação dessas pessoas? Como foi e está sendo a reação das pessoas de outros países quando aconteceu de acordar e não ter dinheiro para comprar comida, pagar contas e etc?

Quando calamidades orçamentárias batem a porta qual é a melhor opção para que guerras civis não aconteçam?

 1-Exigir que empresas devedoras da previdência paguem/quitem as contas com estado.

 2- Cortar recursos para empresas que não conseguem se manter/fechar as contas sem dívidas. E daí entender se o setor privado não consegue lidar com fechamento das suas contas porque então privatizar o que é público?

3-Não fazer a reforma da previdência.

E se porventura em último caso se necessária de fato que tal fazer a reforma para todos, então que sejam incluídos (militares, políticos e judiciário) pois assim todos entram na guerra e o estado burguês e canalha sucumbe de uma vez.

Depositar essa conta nas costas dos trabalhadores usando os bons velhinhos ricos dentre eles donos de emissoras e empresas que devem a previdência está fácil quero ver apresentar a conta para todos pagar e ainda sim sair ileso da situação.

Perdemos o fôlego do Fora Temer. O Fora Temer tinha muitos significados tanto para direita quanto esquerda. A parte que mais interessou foi da possibilidade de desarticular as reformas com Fora Temer e Greve Geral. Não aconteceu.

Desde ano passado as atenções se voltaram para eleições entre defender candidatura do Lula e decidir eleição entre PSDB e PT com espaços para MDB sigla na ditadura civil militar/PMDB se articular e ficar na sombra das negociações do estado.

Os movimentos sociais estão apoiando o que resta da esquerda e infelizmente não é uma escolha. Porque não temos um movimento autônomo e de auto-gestão que possa contemplar todas as pautas, moradia, saúde, mobilidade, cultura, educação e etc. Mas isso seria a revolução.

E revolução é desobediência civil.

E infelizmente a desobediência é para quando há interesses difusos e individuais. 

O resultado disso chega no dia a dia. Hoje foi com esta declaração da ministra aqui , uma amostra do que é o fortalecimento de uma classe logo após aprovada uma reforma, neste caso trabalhista.

Ah falta um mês para aprovar a reforma da previdência.

Também poucos dias para o carnaval, pra mim está sempre bom é melhor dançar do que sofrer por antecedência.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

O vão entre o trem e a plataforma

Eram só ele e ela no último dos trens noturnos com destino à Luz. Subiram no Butantã. Ele e ela no mesmo vagão. Ambos só desceriam no final. Ele perguntaria as horas, ela responderia. Ela perguntaria o nome, ele responderia. Para emendar, ele perguntaria o dela. Falariam da lentidão do veículo, do frio do ar condicionado, da sorte que tinham por terem conseguido pegar o último trem. Antes de chegar na Paulista, já saberiam onde um e outro moravam e o que gostavam de fazer nas tardes de domingo. Quando estivessem na República e o auto-falante anunciasse que a próxima era a última estação e que por gentileza desembarcassem todos, já teriam trocado os telefones e combinado algo para o fim de semana seguinte. Na Luz, se despediriam com um beijo no rosto e com a promessa de mais conversas como aquela. Próximo domingo, ela diria. Próximo domingo, ele diria. Formariam um belo casal, desses que a gente não imagina separado. Teriam filhos. Dois. Um casal de gêmeos lindos. Teriam feito tudo e talvez até um pouco mais, mas antes mesmo de Pinheiros, ela tombou a cabeça sobre o vidro e se perdeu distraída lendo as placas de publicidade. Teriam feito tudo e talvez até um pouco mais, mas assim que sentou no banco e ajeitou as pernas, ele levou mecanicamente a mão ao bolso e pegou seu telefone. Foi jogando cartas no aparelho durante todo o trajeto para não sentir o tempo passar. Ao chegar na Luz, cada um saiu por uma porta. Ela virou para a direita. Ele virou para a esquerda. Nunca se lembrarão de nada disso.

domingo, 21 de janeiro de 2018

À DERIVA

Queria falar das cores alegres, as mais vivas que lhe vinham à mente, mas de nada adiantava.
O cinza e as cores mais escuras predominavam.
Queria falar da alegria dos raios solares, do canto dos pássaros ao longe, do som das ondas batendo no casco. Mas de nada adiantava.
O vento frio que vinha do Sul ainda o fazia tilintar os dentes.
Queria falar de tanta coisa, mas as coisas é que falavam dele.
Meses já haviam passado, mas era como se tivesse sido ontem.  E não tinha com quem compartilhar tamanha frustração. O rádio havia muito não funcionava. Nem pombo-correio poderia se dar ao luxo de usar. Não. Eles não chegavam ali.

Sensação horrível de se estar à deriva, sem sinal de terra firme, de não ter onde se agarrar.
Pensava que, àquela altura, já deveria ter chegado. Já deveria estar com ela, mas não.
E agora, nem certeza de que era esperado tinha mais. Tudo sumiu como fumaça.

Resolveu então escrever.

Aquela caligrafia horrível.
Por causa da digitação que era super rápida, segurar numa caneta já não era mais o seu forte. Mesmo assim, ousou tentar.

O quê dizer? Com quem falar?

Ninguém iria ler. Provavelmente, ninguém veria aquele escrito.

Mesmo assim, ousou escrever.

“Errei o caminho. Tentei acertar. Não consegui. Não sei se vou chegar. Mas se chegar, tudo estará diferente. Já não estarão mais esperando. Não posso culpa-los. Uma pena. Tudo poderia ter sido diferente se chegasse no tempo certo. Mas não foi assim que aconteceu. Espero que estejam bem. Em mim, dói a saudade. Que pretendo matar quando chegar. Mesmo estando diferente, e encontrando não mais as pessoas que deixei, mas as pessoas nas quais vocês se tornaram. A vida é assim. Somos como as estrelas. Muitas vezes, o brilho que vemos, é o passado. O presente pode ser bem diferente. Mas ainda assim, não podemos esquecer de olhar para o horizonte. Onde as estrelas brilham. Lá, bem longe, enquanto umas morrem, outras nascem. Nascem para ocupar o lugar daquelas que se foram. Mas que jamais serão esquecidas.”

sábado, 20 de janeiro de 2018

Feliz 2018?

  • Bom dia, seu Agenor! Feliz ano novo! Muita saúde, paz, prosperidade para o senhor e para sua família, que 2018 traga muitas realizações, muito dinheiro e muitas alegrias!
  • Hum. Igualmente.
  • Mais um ano de trabalho, né, seu Agenor. Esse promete!
  • Que nada. Começou mal.
  • Por que, seu Agenor?
  • Já viu o tanto de feriado que tem nesse ano? Sem contar a tal da Copa, que acaba virando folga coletiva.
  • Ainda bem!
  • Como?
  • Ah, eh... "o que é que tem", seu Agenor?
  • Tem que a produção despenca, a economia encolhe, os números baixam! OS NÚMEROS!
  • Verdade. Mas pelo menos dá para viajar um pouquinho, encontrar os amigos pra ver os jogos em algum barzinho, né, seu Agenor.
  • E isso aqui é agência de viagens? Você vende cerveja pra ganhar a vida?
  • Não, seu Agenor, é que eu pensei que...
  • Pensando, de novo? Você não é pago para pensar. Vai, para de enrolar.
  • Seu Agenor?
  • Que é?
  • Nada, vai...

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

É melhor investir em imóveis do que em relacionamentos

Desde pequena sou observadora, mas tudo na vida que é uma benção também é uma maldição. Observo tanto que acabo vendo coisas que não gosto e me deixam triste. E além disso tenho uma memória excelente, lembro de tudo, de datas, nomes, momentos.

De repente cismo com alguma coisa e começo a observar. Já faz muito tempo que venho reparando algumas coisas em casais amigos. Instintivamente, mesmo novinha, sempre achei que isso de casamento, de dividir vida, era uma coisa meio sufocante, eu sentia isso, mas não conseguia explicar o porquê.


Tenho lido muito sobre a questão do papel da mulher em uma sociedade machista e percebo como muitas das minhas crenças eram errôneas e talvez eu sentisse isso no fundo da alma, que alguma parte discurso estava errada, e eu  tentava reagir. Lembro muito de sempre ter escutado uma frase ''para os homens o amor é um capítulo, para as mulheres o livro inteiro''.


Em um patriarcado o que se espera das mulheres era que se jogassem no relacionamento, se entreguem por completo e vivam em função do homem. Mesmo no século 21 vejo em algumas amigas mais disposição para viver a história de amor do que os homens. Eles juram mais, mas na prática quem compra a questão inteira é a mulher, ela vira uma parceira automaticamente, enquanto eles vão encostando.


O tempo passa e amigos que eu vi casar há alguns anos começam a dar sinais de desgaste. Tudo na vida um dia acaba, o problema é quando essa coisa se arrasta meses e faz todos sofrerem.


De tanto observar comecei a perceber o seguinte, vale muito a pena investir em si mesmo, seja estudando, seja fazendo alguma coisa que traga prazer. Também vale a pena investir em imóveis e nos filhos, tem alguma coisa ali de amor incondicional. Mas fora isso, investir em um relacionamento é a maior roubada que a pessoa pode fazer, é como guardar dinheiro embaixo do colchão, depois de anos resolvem usar o dinheiro e ele não vale mais nada, porque são notas antigas.


O outro, a outra, são areias movediças e o que se pode construir em terrenos assim? Nada. O ser humano não é confiável e não é mais tão seguro quanto um dia pareceu ser. Hoje as coisas se movimentam diferente e as pessoas se sentem livres para procurar o que tem vontade de fazer, sem amarras. Isso é muito bom, mas quem investe em um relacionamento tem todas as chances de se dar mal, porque não pode prever as reações alheias.


Vi amigas que investiram pesado em relacionamentos se esfolando vivas. Quantas coisas a gente investe em nós mesmos e não dá em nada? Imagina no outro, esse ser que não conhecemos.


Bom mesmo seria viver o amor, a paixão livremente, sem investir nada além do mínimo, sem sacrifícios e discussões que não levam a nada, deu certo, então vai em frente, emperrou, sai fora, mas não invista.


Não só amigas vi morrer na praia, também as mulheres da minha família. De geração anterior se dedicaram a trabalhar, cuidar dos filhos e incentivar o benhê, esse amor que com o tempo vira encosto. Não receberam nada por isso, pelo investimento no seu amor, pelo contrário, foram abusadas e exploradas até a última gota.


Quando estamos com alguém não damos só nosso amor, também vai a energia, o tempo, muitas vezes o dinheiro, e outras coisas, tudo isso deve ser colocado em um papel e se perguntar se vale a pena investir tanto em alguém e qual será o retorno.


Sempre que escrevo isso alguém vem me dizer que eu sou fria, porque pessoas quando se apaixonam são felizes, a vida é sobre isso. Ah, é mesmo? Bom saber, porque pior do que o amor é o tempo, esse sim devasta tudo e te joga na cara todas as bobagens que você fez. Se eu sei que não vale a pena investir em um relacionamento é porque já perdi alguma coisa e me vi obrigada a fazer as contas e perceber que investir em pessoas sempre dá prejuízo.


Acho ótimo amar, beijar, ficar, se apaixonar, tudo isso é bom demais, mas conheço o prejuízo do dia seguinte, que pode custar anos para a pessoa se recuperar. Por isso quem quiser investir no seu amor tem que ter espírito de monge tibetano, uma coisa desapegada mesmo, então a pessoa investe e não sofre ao perder tudo. Mas eu não sou monge, nem tibetana, sou virginiana e pão dura, não me interessam investimentos que não vão me dar retorno e ainda por cima dão prejuízo.


Meu avô no seu machismo sempre dizia:


-As mulheres nem todo o ouro, nem todo o amor.

Em uma versão atualizada gosto mais de pensar -''As pessoas nem todo o ouro, nem todo o amor''. Precaver não mata ninguém. E tudo que pensamos ser digno da nossa atenção e amor, pode não ser. Mas quem vai cuidar dos nossos investimentos? Nós. E se não prestamos atenção nisso quem vai pagar o erro somos nós.

Iara De Dupont

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Do alto de minha ignorância assisto a documentários

Sabe, não tinha com quem comentar, então te pedi para conversarmos sobre. Tudo bem, você não assistiu, mas, em minha cabeça, você é uma das únicas pessoas capazes de entender minhas reflexões, que não servem de nada na vida prática. Então eu te peço que assista a três horas sobre a vida de uma escritora americana da década de 1970, mesmo sabendo que nunca vai ler porcaria nenhuma da obra dela. Quando me chama para conversar e pergunta o que achei, não sei responder. Você precisa de alguém com quem conversar sobre documentários, e não sou eu.

P.S.: não deixem de assistir a "Joan Didion: the center will not hold", um primor, apesar de nossa ignorância.

Photograph by Julian Wasser.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

liberdade é pouco

Não tinha a intenção de escrever. Sequer programado (mentalmente) assunto  ou separado vídeos como lembrete para ano que vem comentar, mesmo após meses de divulgação ou depois de ter cessado o frisson pós-viral das redes.

Ainda continuava naquelas, manter de julho para cá a saúde mental intacta ou diminuir o cansaço mental com questões de toda ordem. Ou armazenar forças para o ano que vem que promete ser a junção de alguns anos em apenas um.

Só por hoje e mês passado não vou conseguir manter o objetivo do meio do ano.

 E justo na reta final, numa gama absurda por férias para fazer muitos nadas com a cara para cima.

Também por mais que queira e tenha me esforçado não consegui mudar a direção do pensamento. Ele ficou no filme apresentado hoje na parte da manhã e em algumas palavras que ruminaram para o passado religioso.

O filme é possível resumir em mais constatações de que o mundo é hostil e violento com a existência das mulheres. E sendo violento com mulheres continuará sendo com crianças, gays, idosos e mais objetiva com todos/as.

Já sobre as palavras ficou aquele eco sobre cárcere, jargão muito comum nesta época e usado por alguns religiosos. Mas o esquisito mesmo é que desde meados de setembro é algo que tenho me questionado quase sempre: quando estamos todos presos é possível se livrar de cárceres?

Quando o país depende de políticas econômicas ou bancos que priorizam minorias pode ser considerado livre? Quem tem tempo mas não tem dinheiro é livre? E quando tem dinheiro e não tem tempo? Aqueles que estão desempregados estão livres? E quem trabalha? E quando algum governo/país decide priorizar os pobres e é considerado violador de direitos e  falido economicamente ?

Existe alguém livre?

Porventura alguém pode ter esse luxo de se considerar livre?


Acessar o conhecimento e a sua história mesmo com muitos lados, mas baseada em fatos proporciona isso fazer muitas perguntas sem respostas. É como estar nas alturas em meio à tempestade com furações e raios e trovões mas conseguir colocar a mão numa porta e abrir o céu limpo sem nuvens e com muitos raios de sol.

Entender que este conhecimento está a serviço da vida e do que é cotidiano é como estar no alto mar, afundar metros e metros de profundidade e conseguir abrir os olhos mesmo com tanta água salgada e ver a beleza do mar; ainda sim voltar a emergir para ver mesmo que às vezes um dia de verão com brisa.

Usar o conhecimento no dia a dia com objetivo ou propósito comum a todos e priorizando o coletivo é identificar que existem muitas amarras e correntes quando se trata do coletivo, ou do que é comunitário ou ainda do que é comum a todos/as, enquanto povo.

No resumo, enquanto tudo estiver no âmbito individual é sobrevivência garantida durante pouquíssimo tempo, no mais, mencionou coletivo, vamos pensar uns nos outros se prepare para estar diante da porta das chagas e do inferno.

Então os cárceres por mais íntimos e pessoais que sejam se tornam indestrutíveis e fora do alcance das mãos porque quando o individual está intacto e totalmente responsável por transformar ou modificar a vida e história, é porque o que é coletivo/comunitário ou do povo está caindo num poço sem fundo.

Identificar  qual é o fundo do poço  não é uma opção,  mas uma questão de sobrevivência. E o tempo urge e infelizmente não nos favorece, porque ao alcance  e velocidade dos algoritmos as janelas se fecham.

Mesmo assim  2018 pode ser mais um de tantos anos que virão de resistências se o sentimento coletivo de luta prevalecer.  Na pior das hipóteses podemos ainda ver o poço sem  fundo e destruir o que nos explora e nos oprime; ou podemos sentir as várias correntes  nas mãos, nos pés e na mente, mesmo assim ainda será ótima oportunidade para quebrá-las.





sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

O encontro

- Tudo bem? 

Lembrou-se que esta noite dormira mal por causa dos pernilongos e também por causa do calor abafado que fazia na sala. Lembrou-se que dormira na sala porque sua presença no quarto, ao lado da mulher, já não era mais bem vinda, sobretudo depois do que acontecera ontem. Lembrou-se do café fraco que tomou no bar da esquina e da sensação estranha, misto de descrença e impotência, quando viu que o balconista levava o café para ser requentado no microondas. Lembrou-se do sabor de petróleo que tinham os cafés, sobretudo os fracos, quando requentados no microondas. Lembrou-se do Largo da Pólvora lotado e de como o cobrador não lhe respondera ao seu "bom dia". Lembrou-se da angústia que sentiu ao perceber que o ônibus chegava ao seu destino e de que tinha que trabalhar mais uma vez naquele escritório estéril e olhar mais uma vez para o bigode ensebado e tingido de seu chefe. Lembrou-se de que tivera que almoçar sozinho, porque não tinha estômago forte o bastante para olhar a nenhum de seus colegas enquanto comia. Lembrou-se do gosto de ranço da carne e na quantidade absurda de sal que por descuido caíra em sua salada. Lembrou-se que se importara com isso por causa de sua hipertensão galopante, que havia lhe obrigado a tomar aqueles remédios caros, depois dos últimos exames. Lembrou-se de que ainda era segunda-feira. Lembrou-se da necessidade que tinha de ir aquele bar, depois do expediente, e do enfado, provavelmente mal disfarçado, que sentiu ao encontrar aquela figura conhecida e que agora lhe perguntava se estava bem. Lembrou-se do inútil que seria ser sincero.

- Tudo. Tudo ótimo e você?

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Feliz Natal! Feliz ano novo!

Galera, desculpe o mal jeito.
Minha vida, como muitas de vocês também, está corrida pakas nesses final de ano.
Falta menos de uma hora para terminar o dia 21, mas eu não poderia deixar de passar aqui para deixar um abraço.

No post do mês passado, coloquei uma gravação aqui, na qual meu cachorro latia. Quem ouviu, deve se lembrar.

Ele se foi.

Viveu 16 anos comigo e com minha família. Dia 04 de dezembro, ele descansou. Era um pastor belga. Simplesmente, parou de "funcionar".
Tive o privilégio de, junto de minha mãe e meu irmão, proporcionar à ele uma partida sem sofrimentos. Graças à Deus, não precisamos fazer a eutanásia. Ou sacrifício, como muitos chamam.

Quis compartilhar com vocês.

Obrigado pelas audições e pelas leituras no decorrer desse ano de 2017.

Espero ser mais fiel em 2018.

Grande abraço à todos (as).

Feliz Natal e feliz ano novo!

P.S.: Perdão por não ter trabalhado melhor esse post. Estou escrevendo direto do meu celular!

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Calma, é o Papai Noel!

Salvador havia começado a ficar inquieto com uma semana de antecedência. Detestava essa época do ano desde que se entendia por gente e nesse ano decidira partir para o tudo ou nada. Chega de passividade, compreensão e tolerância.

Cheirou um pouco do que chamava de pó mágico da coragem e, com uma habilidade felina, entrou na casa pela porta dos fundos. Era o tipo de casa em que ele nunca poderia entrar pela porta da frente.

Caminhou tão silencioso quanto a noite, guiado de forma intermitente pelas luzes do pisca-pisca. Chegou à sala, que aos seus olhos parecia uma casa inteira, e estava agachado diante da estante, prestes a vasculhar uma gaveta, quando ouviu um tilintar do lado de fora.

Congelou. Não era possível. Tomou todos os cuidados, viu a família inteira saindo, carregavam intermináveis sacolas cheias de embrulhos. Não poderiam ter voltado tão rápido.

Ao ouvir um barulho mais forte, seguido da luz branca que se acendeu do outro lado da sala, Salvador não hesitou. Buscou a arma na cintura e levantou girando o corpo, com o braço direito esticado para frente. Não voltaria para a cadeia. Tudo bem se fosse para o cemitério, mas para a cadeia, nunca mais.

Um pouco ofuscado pela luz forte, mirou na figura branca de roupas vermelhas e ouviu uma voz tremula.

- Calma! Sou eu. O Papai Noel.

O Papai Noel. A única pessoa a quem Salvador chamou de papai em toda sua vida. Aquele em quem depositou esperanças por tanto tempo. A fonte de angústias, decepções e culpas intermináveis.

A aflição da época de criança começava no fim de novembro. Precisava ser um bom menino para ganhar presente. Mas como, se tudo o que fazia era considerado má-criação?

O mês de calvário desembocava, inevitavelmente, na mais profunda culpa. O presente não veio, o que significava que não conseguira ser um bom menino. Salvador assumia a culpa, tolerava a falta do brinquedo que havia pedido ao Papai Noel, mas nunca compreendeu porque a família toda tinha que ficar sem a ceia graças a ele não ter sido um bom menino.

A promessa de Ano-Novo era sempre a mesma. Seria um bom menino. Não deixaria a família ficar sem a ceia de Natal de novo. Não adiantava. Simplesmente não conseguia. No primeiro ano não estudou direito, no seguinte arrumou brigas, depois abandonou a escola, começou a usar drogas, começou a roubar. Era impossível ser um bom menino o ano inteiro.

Quem diria! O Papai Noel. Um encontro quando já havia perdido a esperança. Aguardou a vida inteira por esse momento. Ele que nasceu no dia 25 de dezembro, e por isso ganhou o nome de Salvador, carregou o peso de ter estragado todos os natais da família por não ser um bom menino.

Salvador esperou trinta e três anos até ter a chance de cumprir o desígnio de seu nome. Manteve o braço direito esticado e disparou três vezes à queima-roupa. Sentiu na mesma hora o peso de uma vida retirado dos ombros.

Andou calmamente até a porta da frente. Antes de sair olhou no chão o corpo do velho, cuja barba branca já estava tão vermelha quanto à roupa.

- Feliz Natal, Papai Noel.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Tudo bem

Um “bom dia” sem resposta de algum vizinho de condomínio que nem sabemos o nome... Tudo bem, não são todos assim, os mais próximos são bem legais.

O dia estava quente, mas só consegui sair para fazer as coisas na rua momentos antes da chuva. Tudo bem, o clima estava gostoso para uma caminhada pelas ruas do Bairro do Limão, que não é tão tranquilo assim, mas tudo bem, aqui me sinto em casa a 2 anos.

Ao chegar no dentista, soube que arrancaria o dente do siso só no ano que vem. Tudo bem, quem trabalha duro tem direito a descansar eu vou passar as festas com a família e alguns analgésicos e anti inflamatórios e o importante é não sentir dor.

Depois a ida foi ao correio, a fila estava enorme, mas tudo bem porque deu para perceber que muitas postagens eram presentes de Natal para alguém querido que mora longe e só de imaginar isso, a demora vale a pena.

Na sequência fui à lotérica, estava cheia para alguém que não costuma fazer jogos, eu queria apenas recarregar meu bilhete único e ao chegar na minha vez o sistema não estava disponível. Tudo bem, eu já havia gastado o tempo da fila imaginando como aquelas pessoas estão esperançosas por uma vida melhor e buscam isso por meios honestos que ainda estão disponíveis. A moça do guichê disse que na Lan House se carrega o bilhete único, eu não sabia que tinha uma Lan House hoje em dia perto de casa, mas tudo bem... deu certo.

Por fim, fui a farmácia comprar meu analgésico e anti inflamatório. Tudo bem, porque fui super bem atendido por alguém que provavelmente responde um “bom dia” do vizinho.

Ainda caia uma chuva de verão, daquelas fracas e não aquelas que inundam. Tudo bem, eu precisava lavar um pouco a alma e perceber que no final das contas, um dia pode parecer cheio de pequenos obstáculos e numa analogia à vida, nessa época de final de ano onde todos procuramos recomeços e balanços de tudo, tudo bem sorrir sozinho na rua lembrando quem foi legal no seu dia simples, assim como todos os amigos que te fizeram bem no dia anterior, naqueles que fazem a diferença mesmo a tanto tempo sem te ver e mesmo assim tudo bem porque eles ainda te surpreendem e te provam que nunca te esqueceram, através de coisas simples também.

Tudo bem também se em alguns dias tudo parece deixar seu dia apenas cinza, acontece. Tudo bem porque no final das contas, tudo é um grande plano de fundo cinza a ser colorido pelas coisas simples da vida, porém de grande poder.

Bons dias e Light Up the Darkness!

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Debaixo do verniz

Tudo que parece fora do normal nos parece estranho.
Pelo meu perfil e estilo de vida as pessoas não entendem como não tenho namorado, parece uma questão matemática em aberto, que precisa ser resolvida com urgência.

Depois que me perguntam se tenho namorado e escutam minha negativa, abrem o sorriso e dizem ''mas namorada tem né''.

Não, nem namorado nem namorada.

Mas como assim? Você é jovem, bonita, por que não tem um amor?

Ah, amores tenho muitos, platônicos, é verdade, mas são amores.

Muitas coisas mudaram sem que eu percebesse e acabei gostando de alguns resultados.

Me afastei de relacionamentos depois de passar três anos em um namoro abusivo, quando consegui me libertar comecei a perceber tudo que estava errado, fora do lugar e sem querer, não planejei nada, me fechei em copas, disposta a me curar dos abusos e superar as questões envolvidas.

Levei tempo para começar a perceber que minha alegria ao estar solteira e sem pensar em ninguém estava ligada ao fato de pela primeira vez na vida ser ''eu'', coisa que nunca me foi permitida ser.

Eu fui educada para ser o que os outros queriam que fosse, não importava o que eu escolhesse fazer na vida, desde que fosse meiga e educada.
Mas isso me tirava margem de manobra para saber quem eu era, meus primos tinham permitido dizer o que pensavam e explodir a hora que quisessem, eu não.

E quando entrei no círculo de namoros levei toda essa limitação comigo, não me perguntava quem eu realmente era, debaixo desse verniz sufocante de garota bem educada.

E amores, pelo menos para as mulheres, nos sufocam e apertam, impedem qualquer tentativa de mudança. Quem pode ser o que é em um namoro? A pessoa não se conhece ainda e fica presa ali, a uma ideia do que deveria ser.

Não prego as belezas da vida de solteira, porque são escolhas pessoais, mas nunca tive espaço para saber quem eu era, intoxicada para agradar homem, desesperada para ser aceita, eu não sabia quem era, não conhecia meus limites e todas as vezes que tentava sair da linha escutava ''deixa de ser louca''.

Mesmo assim,  fazendo tudo o que me mandaram fazer, não escapei de rótulos, até hoje dizem que sou louca, impulsiva, maluca, descontrolada.

Percebi como nós, mulheres, somos impedidas desde que nascemos de nos mover, de nos conhecer, tudo fecha em nossa direção, nenhuma menina é incentivada a se conhecer primeiro, a saber quem é, para depois pensar em como se relacionar com o mundo. Isso acontece até com nosso corpo, ninguém diz a mulher como é vital se conhecer.

Tem sido uma luta árdua tirar todo o verniz que me jogaram, saber quem eu sou debaixo desse falso brilho, do que gosto, o que me faz feliz, o que posso acrescentar ao mundo e em um relacionamento.

Eu sabia tudo o que os outros queriam e gostavam, mas não tinha a menor ideia do que me fazia feliz, o que me agradava.

Ser solteira me permitiu caminhar nessa estrada pensando nisso, não é questão de ter um namorado ou não, mas se perguntar quem é, o que quer, para onde vai.

Mulheres têm seu caminho pré-determinado em um mundo machista e misógino, sair dessa linha é certeza de que vai ser punida.

Não descarto amores, paixões, nem a vida que se desenha, mas não tenho mais condições de me ficar debaixo de um verniz, fingindo ser o que não sou.

No ano passado um Romeu me disse ''você é confusa''.
Fiquei muito chateada, mas ele tinha razão, naquele momento eu ainda estava confusa, perdida entre quem eu sou e quem deveria ser. Até hoje me controlo porque quando gosto de alguém não sei agir de maneira natural, carrego ainda a tatuagem comportamental de ''faça tal coisa, jamais faça isso'', ainda me sinto intimidada no começo dos relacionamentos e levo tempo para perceber meus erros de comportamento e recuar, voltar ao meu eixo, a quem eu sou, sem medo de Romeu não gostar.

Essa parte melhorou muito, depois que a gente começa a se conhecer perde o medo do outro não gostar, claro que dói ser rejeitada, mas com o  tempo percebemos que ser quem não somos dói mais.

Quem me vê se pergunta porque não tenho namorado, quem me conhece sabe que estou desfrutando o máximo que posso essa etapa de ter espaço para saber quem sou, em um mundo limitado considero isso um luxo, que foi negado durante séculos as mulheres.

Agradar homem é fácil, ser o que o mundo quer é simples, o difícil é bater o pé e dizer ''licença, vou ali saber quem sou e depois eu volto''.

Mas no fim da história não somos o que o mundo quer, nem o que os machos gostam, somos nós, essas desconhecidas que não sabem quem são, essas perdidas que morrem de angústia, sufocadas por todas as exigências. E o pior é que não vale a pena.

Parte da nossa viagem, o motivo de desembarcar neste planeta maluco é desenvolver o autoconhecimento, quando somos impedidas de fazer isso, surtamos.

Não é sobre Romeus, amores, namoros, casamentos, paixões, é sobre saber quem somos, encarar essa estrada longa e complexa, dar prioridade a nossa vida, não a alheia, é sobre cada uma se conhecer, é sobre individualidade e o exercício da liberdade. É sobre ser, sem verniz.





Iara De Dupont

domingo, 10 de dezembro de 2017

Livraria do Estudante

Os livros com que sonhei moravam na Livraria do Estudante e eram guardados pelo Jeremias. Sonhei tanto que queria trabalhar lá. Sonhei tanto que ainda me lembro do cheiro das estantes de madeira. Sonhei tanto que chorei quando fechou.
Ainda bem que os livros que sobraram moram na garagem do antigo dono, e eu pude, então, comprar um daqueles que sempre quis, no esquema 10 ou 20 reais. Este, "Minhas histórias dos outros" do Zuenir Ventura, custava, em 2005 (ano de seu lançamento), R$44,90 que eu não tinha.
O reencontro agora, doze anos depois, com a capa suja e empoeirada e o antigo preço apagado, na última página.
A vida é besta e muito triste, mas tem disso.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Quando...

 Quando você bate numa criança, você acha que ela aprenderá a não fazer
coisas erradas, na verdade você ensina que ela pode bater nos outros.
 Quando o seu castigo para dois irmãos é mantê-los abraçados, você está
deixando claro que abraçar o irmão é um castigo, e não algo bom.

Quando o seu castigo é lavar a louça, arrumar o quarto ou estudar, você
também está ensinando que estudar, lavar e arrumar são punições.
 Estão aí coisas que esta criança nunca vai querer fazer, que vai associar e
lembrar de coisas e sentimentos ruins.

Quando você expõe seu filho em um vídeo na internet, levando uma bronca,
apanhando, você está mostrando que tudo bem humilhar, desde que você
seja hierarquicamente superior, desde que esse ser dependa de você e não
tenha opções melhores do que abaixar a cabeça e esperar, afinal ele vive
com o inimigo.

O pessoal confunde lição, que é algo com que você aprende, com tortura,
vingança, controle e humilhação.
 Acha que criminoso tem que ser preso pra sofrer, na verdade, era pra
aprender, pra repensar.

 -Ah, mas um tapinha as vezes é bom, sempre foi assim, ainda funciona!
 Dá uma espiada na humanidade e repense se esse velho jeito funciona.
 A gente ás vezes bate sim, mas é por que a gente é bicho, e bicho nervoso
perde a paciência e ataca, avança, é isso que a gente ensina batendo.

Andei vendo esses dias várias postagens dessas de castigo, e o que eu
sinto é uma mistura de tristeza, vergonha e asco.
Eu já apanhei sim, já bati também, e não acho que foi bom, na grande
maioria das vezes teriam maneiras melhores de ensinar.

  Eu não tive essa infeliz ideia de gravar meu filho sendo castigado e nem
posso imaginar como deve ser castrador ter esse seu momento gravado, e
perpetuado, a gente quer é esquecer.

Dê uma pesquisada em vídeos no You Tube, como camisa do castigo ou
apenas vídeos de crianças de castigo.

Criamos gente cheia de ódio e raiva, isso já nasce com a gente nem
precisava reforçar.
Ensinar a gostar de estudar, ler, arrumar, lavar é tão mais difícil...
Tá tudo errado.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Hoje é sábado


Escrevinho com a cabeça antes das letras dançarem sua embriagada dança na folha que abraça a mesa. Elas desenrolam os sentimentos do dia, do mês, dos milênios que envolveram minha ancestralidade.

Tomo fôlego entre um gole e outro. Observo desatentamente o barulho dos carros. O que eu espero não é senão a possibilidade do nunca mais. Um pai em seu cavalo de ferro e terra. Acabo recordando todos os uniformes que chegaram áridos aos olhos do sinal da escola.

Tomo mais um gole. As letras deslizam tons de um baú familiar enquanto deveria solidificar dados. Edificar relatórios.

A comida chega e me é indigesta. Cai em meu estômago como uma boa surra depois das duas da manhã (quando nada de bom pode acontecer).

Subverto as ordens do necessário compasso. Esqueço os planos e a pequena grande lista de impossíveis metas.

Hoje é sábado.