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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Hoje é 3 de novembro...

Hoje é 3 de novembro e são  exatamente meia-noite e 53 minutos, fuso horário Brasília, cidade-porto São Paulo, distrito Butantã, pedacinho gaia de amor por empatia: Morro do Querosene. Minha toca azul e mato fechado no quintal, gatos transitando, pernilongos em transe vampírico, meu filho dormindo, a Tv ligada...

Para vocês que agora leem, isto é só uma data no passado, um ponto sem lembranças, nada específico.

Para mim, agora que escrevo, é minha última noite de este ano em terra Brasilis, dispenso tristezas...

Agora, que vocês leem, eu estou em Cuba...

E O FUTURO NÃO SE ESCREVE, A MENOS QUE EDGAR ALLAN, AQUELE POE, APAREÇA DIANTE DE MIM, NA MINHA LOUCURA... 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Borandá

Após quase três anos sem ir, voltarei a meu país de origem, Cuba – de visita somente. Nestes seis anos vivendo neste país, numa outra língua, numa outra realidade e cultura, estive lá ao todo menos de dois meses... pouco, pouquíssimo é pouco.

Nunca até eu sair de lá me imaginei morando num outro país. Vontade de conhecer outros lugares, obvio, sempre tive. Porém aceitar este estado  (migratório)  de emigrante, nunca me passou pela cabeça.

Emigrante é coisa de doidos. Você – eu no caso – tem que abrir mão de toda memoria, de todo passado, dos amigos, da família, dos costumes. Esquecer, não por opção, aquilo que formatou seu corpo e sua identidade – coisa dura, quase cruel. Somando, que no caso do português, aprender outra língua e toda a realidade que ela nomeia é das coisas mais intensas que jamais viverei – e eu vivi.

Nesse processo eu me descobri uma pessoa nova, uma espécie de metamorfoses que fez nascer um novo eu, este eu que sou – e escreve. Isto tomou tempo, lágrimas, pesadelos, mortes.

Eu nasci cubano, por procedência. E me fiz brasileiro, por experiência.

Mas quem já abriu mão das lembranças de infância, da adolescência, dos primeiros amores; quem esqueceu o acento cubano, a melodia que uma vez teve enraizada na memória, quem não sofre mais pela distância daqueles que uma vez foram as pessoas mais queridas, sabe e sente, que é possível começar tudo de novo... NÓMADE.

No Brasil – e este português que escrevo e me invento – tenho um filho. Estaca de tempo e espaço que marcará para sempre minha origem. Renasci no corpo de um moleque, um baixinho de hoje três anos que fala português, um pouco melhor que eu – pais aprendem sempre dos filhos, completam-se, isso é certeza. Hoje toda incerteza de aonde vim e aonde vou tem ao menos um ponto de apoio, uma bandeira em haste levantada para não perder os rumos.

Em menos de dois meses ficarei naquele país flutuante por três meses, quebrando meu recorde histórico de estadia desde que uma vez, há 6 anos, sai de lá. Irei nessa calma de quem não tem pressa em voltar. Irei no ganho de quem não tem o que perder, entregue a preguiça do amanhecer, do mar batendo no encoste sem urgência do pôr-do-sol, sem a agonia de voltar ao lugar do qual já me despedi sem sabê-lo, para nunca mais voltar – quem sabe uma surpresa do destino, esse malvado favorito. 

E o baixinho, mi hijo, abraçará a terra úmida daquele outro país. Ainda sem total consciência, ele fechará um ciclo, o do pai- filho/pai- meu filho, numa sequência sem mais lógica que a do amor paternal, e ficará registrada a existência dele num lugar ao qual, se ele escolher, lhe pertencerá.

Borandá... 



terça-feira, 20 de agosto de 2013

Miséria é miséria em qualquer canto. Riquezas são diferentes.

Fazer uma viagem é algo bem pessoal. Não há uma fórmula ou manual a ser seguido e assim viajar de forma correta. Dizem até que para duas pessoas se conhecerem bem de verdade precisam fazer uma viagem juntos, assim podem ter contato com uma série de situações inusitadas e empecilhos que revelam como o, até então, amigo realmente é.

Assim como não há fórmula, não há também certo ou errado. Alguns preferem cruzar o mundo para encarar os dias acordando às quatro da tarde, comendo no McDonnald´s e correndo para uma boate, para ouvir música eletrônica até o dia raiar. Gosto não se discute, só se contesta o fato de gastar uma fortuna com passagem e hospedagem para passar as férias fazendo o que se pode fazer em qualquer cidade, sem nada característico.

Recentemente consegui concretizar o velho sonho de viajar para a ilha de Cuba. Paraíso caribenho com paisagens encantadoras. É claro que uma visita à praia era inevitável, principalmente com o calor do verão em uma latitude equivalente ao Rio de Janeiro, mas Cuba é tão particular e praias são tão genéricas!

Minhas principais e mais profundas referências sobre a Ilha eram as obras de Fernando Morais, Frei Betto, Ignácio de Loyola Brandão, entre outros intelectuais que escreveram sobre a Ilha alguns anos depois da revolução. Os dois problemas em relação a isso é que por mais rigorosos que fossem, seus livros não deixam de ser a visão de estrangeiros; e depois de algumas décadas tudo está bem diferente.

Como também sou estrangeiro e faço um relato bem mais resumido, é evidente que não tenho como abordar tudo o que gostaria. O que posso dizer é que, distante do sonho que desperta o livro “A Ilha” (Fernando Morais), graças à falta de industrialização ao longo dos anos de revolução, Cuba está muito, mas muito distante do inferno na terra que muitos pregam.

É evidente que existem problemas. Se pensarmos nos países vizinhos, ou seja, Belize, Honduras, Haiti, Jamaica, etc., vemos que a colonização deixou feridas difíceis de cicatrizar e o atual modelo econômico faz com que o desenvolvimento desses pequenos territórios seja um desafio para qualquer governo – o que, sem dúvida, não os isenta de algumas medidas desastradas.

Mas cubanos querem fugir de Cuba! Exato. Assim como brasileiros arriscam a vida para cruzar o deserto entre México e Estados Unidos, ou assim como escandinavos largam tudo para construir uma pousada no interior do Rio Grande do Norte. Sem dúvida um governo tem a obrigação de deixar a cargo de cada indivíduo a liberdade de deixar ou não o país, mas tentar voltar todos os holofotes para a população que deixa a Ilha, como se isso não ocorresse em nenhum outro lugar do mundo, é fechar os olhos para as semelhanças com outros países.

Foi fora do circuito turístico, longe dos guias e próximo à população que pude notar o senso crítico das pessoas em relação ao governo, as demandas que vão mais a fundo do que um shopping moderno, livros que não chegam a cinco reais (os mais caros), negros e brancos frequentando os mesmos bares, pois ainda que a desigualdade social exista, há também valores de igualdade que vêm sendo trabalhados ao longo de vários anos.

Enfim, o debate sobre o que é bom ou ruim em Cuba é inevitável e inevitavelmente contaminado por ideologias contrárias e favoráveis. Conhecer aquela realidade de perto contribuiu para muitas de minhas opiniões. Para não dizer que não tive problema com a falta de liberdade, foi difícil conseguir comprar Euros para embarcar. Por determinação do Banco Central, em virtude do embargo, as casas de câmbio não podem vender moeda estrangeira para quem vai viajar para Cuba (determinação do Banco Central brasileiro, não cubano).

domingo, 18 de agosto de 2013

Raras maneiras de me sentir em Cuba (e um cabo submerso)

Já se imaginou Brasil meu, vivendo neste mundo moderno sem internet? Já pensou, sem nosso federal “ponto com ponto br”? Sem seus acesos a redes sociais, suas contas onlines ou aquele filminho básico no youtube? Já se imaginou sem ler o Blog das 30 pessoas
Quem nasceu em Cuba tem “um” que a mais nesse árduo treinamento contra um mundo aonde necessidades suprem outras necessidades. Vivi 27 anos sem internet e ainda hoje, pouco mais de 11 milhões de cubanos vivem sem esse recurso tão importante da comunicação e os negócios.
“Não é possível”, dirão uns.
Pois é, internet em Cuba se limita a velocidades ultrabaixas de transferência de dados numa rede interna que obviamente é controlada e vigiada pela Seguridad del Estado. Edifícios públicos, universidades, centros ligados à pesquisa médica ou técnica, alguns poucos centros culturais servem de ponto de acesso a um mundo afastado a megabytes de distancias com conexões discadas e instáveis. A interfase do poderoso google  demora mais do que passar um café para os seus convidados.  Hotéis e um que outro cybercafé, exibem com luxo seus 256 Kbps e cobram pouco mais de 6 pesos conversíveis cubanos (CUC) por hora se você quiser se usufruir do seus serviços.
Já o endereço eletrônico termina parecendo mesmo uma piada: PONTO COM PONTO CU. Um “cú” mesmo.  Uma grande bosta.
Essa internet é chamada como INTRANET, ou seja, uma conexão interna, fraca, sem liberdade de pesquisa, seja pela pouca qualidade do serviço seja pela censura de acesso a sites internacionais.
Essa pouquíssima relação com internet me faz quase um aleijado virtual. Uma relação de vítima do mundo atual. Eu, e meus onze milhões de conterrâneos nascidos e criados nos últimos anos na ilha.
Ter internet – ou mesmo Intranet - te faz uma pessoa querida, visitada, potencialmente poderosa. Os amigos ou amores ou tua família, farão comuns suas visitas na sua casa, ou mesmo, no seu emprego com o supremo objetivo de dar aquela “revisadinha” no gmail, escrever nem que seja uma frase na sua linha do tempo facebokiano, quem sabe fazer uma pesquisa de como viver num outro país, máximo resolver algo relacionado ao seu mestrado ou ao trabalho de curso de um de teus priminhos.
Eu criei minha primeira conta de correio eletrônico no ano de 2002 ou 2003. Era um yahoo que demorava no mínimo meia hora em abrir a interfase. Era meu nascimento virtual: dmisrock@yahoo.es. Assim troquei minhas primeiras mensagens com universitários norte-americanos que conhecera num intercambio de escritores em La Habana. Assim escrevi minhas primeiras paqueras virtuais. Assim, depois do arcodecello@gmail.com, me mantive em contato com a Natalia depois que nós conhecêramos numa tarde habanera e até que nós voltamos encontrar um ano depois.
Anos depois, eu já morando no Brasil e os meus pais ainda em Cuba, passávamos longas temporadas sem podermos comunicar via web. Minha mãe pouco acostumada com essa situação foi quem mais sofreu até que meu pai decidiu pagar uma “cuenta”. Isto é, pagar para alguém que tendo autorização de instituições, conseguia colocar um ponto de acesso na sua casa. A taxa correspondia a uma porcentagem do tempo total de acesso que o dono da conta possuía e com o qual, meus pais, poderiam ler e escrever correios eletrônicos, receber as fotos do seu filho na sua nova pátria e sua nova família. Se a irregularidade era descoberta o dono da “cuenta” perdia-a e ainda poderia ser reprendido pela a empresa que o empregava.
Até hoje se escuta a lenda de um tal cabo de fibra ótica submerso que vindo da Venezuela – na era Chávez – traria finalmente a liberdade virtual à ilha (isso considerando que o problema de internet é que os Estados Unidos bloqueiam o acesso). Até hoje não sei qual é a real desse cabo, porque de fato não teve em Cuba nenhuma mudança que permita aos meus pais ou qualquer outro cubano comum de acessar a internet livremente.
Nas últimas semanas tenho me sentido em Cuba. Nem o calor nem a censura política exatamente foram as causas dessa sensação. Depois que a Mari, que dividia o cafofo comigo, saiu de casa, o dono do imóvel – um quartinho num cortiço na Vila Gomes – ele tirou o wi-fi. Sem grana para novos contratos, à espera de mudar de novo fiquei sem o sagrado contato virtual. Treinado às antigas, virei usurpador de redes, minutos roubados de conversas reais para me conectar no virtual. Deixei um pouco de lado este blog. Minha mãe de novo se preocupou. Mas fazer o que, o jeito mesmo é viver. BEM VIVER... 
(abril, 2013)