Hoje completo 9 anos de Blog das 30 Pessoas e, para comemorar a efeméride, quero compartilhar com vocês este vídeo que fiz, a convite da Poiesis, onde traço caminhos possíveis dentro da vida literária, desde a criação até as possibilidades de publicação (falando inclusive sobre este lindo blog). Espero que gostem (e que venham outros 9 anos)!
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quinta-feira, 22 de outubro de 2020
quarta-feira, 22 de maio de 2019
Matilda e o filme que já foi visto
Estou lendo Matilda pra Júlia, minha filha de 6 anos. Ele foi escrito por Roald Dahl, no País de Gales, em 1988. Eu o li pela primeira vez no fim dos anos 90 e, apesar de ter adorado o livro, achava os pais de Matilda caricatos demais, não achava que aquilo podia existir de verdade, que ninguém precisava ter que explicar para alguém o que a Srta. Mel, a professora de Matilda, explica para eles. Até que, relendo o livro agora, dou de cara com um diálogo que acompanhamos todos os dias no sombrio Brasil de 2019. Como é triste perceber o quanto retrocedemos. Reproduzo as páginas abaixo.
De todo modo, apesar desse triste reconhecimento num livro caricato escrito há 3 décadas, recomendo muito a leitura de Matilda e de toda a obra de Roald Dahl (A fantástica fábrica de chocolate, por exemplo). Ele escreve respeitando a inteligência das crianças e permite discussões importantes, como essa trazida nas páginas a seguir.


sexta-feira, 22 de abril de 2016
O Segredo
Roberto acordou resoluto. Naquela manhã revelaria tudo.
Aquele segredo já o incomodava e logo mais seus pais descobririam por outras fontes. E quem é que garante que já não desconfiavam? As provas estavam por todas as partes. Roberto nunca foi bom em esconder nada, muito menos uma coisas daquelas.
Encontrou a mãe na mesa do café. Começaria por ela. O pai saberia pela noite quando Roberto já estivesse mais seguro. Supunha.
- Bom dia, mãe. - disse sentando-se em frente a uma xícara fumegante e de um pão com manteiga. A mãe estava de costas lavando louça.
- Bom dia, querido. O leite já está quente.
- Obrigado. - disse tentando controlar a ansiedade da voz - Mãe...
- Oi..
- Preciso falar com a senhora..
- Pode dizer.
- É... é... um pouco sério, mãe. A senhora pode se sentar aqui... aqui comigo.
A mãe olhou pra trás rapidamente e viu Roberto lívido, sem saber o que fazer com as mãos.
- Oxi, menino. O que aconteceu? Viu assombração, foi? - disse a mãe, enxugando as mãos e pondo-se sentada em frente ao filho.
- Preciso te contar uma coisa, mãe. Um segredo... um segredo que eu não consigo mais guardar...
- Desembucha, menino! Conta logo! Quer me matar do coração?!
- Eu tenho um pouco de medo de como a senhora vai reagir, mãe... eu não sei direito como isso começou... talvez desde sempre, não sei... mas somente agora eu percebi... eu percebi que eu não consigo ser de outro jeito...
- Meu Deus, menino! Desembucha logo! Meu coração está saindo pela boca!
- Mãe... eu escrevo!
- O quê?!
- Sim, mãe. Eu escrevo. Contos, romances, novelas... e até poesia...
- Poesia?!
- Sim, mãe, poesia. Ontem mesmo eu escrevi um soneto antes de dormir.
- Não! Não! Não!
- Tá vendo, mãe! Eu sabia que a senhora não ia receber bem a notícia!
- E tem como ser diferente? Você é meu único filho, Roberto! Meu único filho escrevendo sonetos! - disse a mãe, já sem conseguir esconder as lágrimas.
- Não tenho como controlar, mãe. Quando menos imagino, a vontade vem e lá estou eu escrevendo de novo...
- Justo agora que você arrumou aqueles amigos, aqueles que você encontra todo sábado pra ir ao clube...
- ...de leitura.
- O quê?! - exasperou-se a mãe.
- Clube de leitura. Nos reunimos aos sábados pra discutir literatura... em grupo - confessou Roberto baixando a cabeça.
- É bem pior do que eu pensava... mas domingo... domingo você falou que ia encontrá-los para ir a uma festa, não falou?
- Era um sarau, mãe. Eu menti. Fomos a um sarau... passamos a noite lendo poesia em voz alta...
- É bem pior do que eu pensava... mas domingo... domingo você falou que ia encontrá-los para ir a uma festa, não falou?
- Era um sarau, mãe. Eu menti. Fomos a um sarau... passamos a noite lendo poesia em voz alta...
- Fala isso baixo, menino! Eu exijo respeito!
- Mas mãe...
- Chega! Suma da minha frente! Vou ligar agora mesmo pro seu pai. E vá logo procurando outro lugar pra morar. Nós não sustentaremos um vagabundo metido a poeta!
- Mãe...
- Chega! Filho meu não...
- ...Eu menti!
- O que disse?
- Sim, é mentira essa história toda de ser escritor. A verdade é que matei um homem. Era esse o segredo que estava escondendo esse tempo todo.
- É mesmo?
- Sim, mãe. Sou um criminoso.
A mãe abraçou Roberto sorrindo.
- Que alivio, filho, que alivio. Seu pai conhece um advogado ótimo. Vamos, vamos terminar o café... você quase me matou do coração...
- Mas mãe...
- Chega! Suma da minha frente! Vou ligar agora mesmo pro seu pai. E vá logo procurando outro lugar pra morar. Nós não sustentaremos um vagabundo metido a poeta!
- Mãe...
- Chega! Filho meu não...
- ...Eu menti!
- O que disse?
- Sim, é mentira essa história toda de ser escritor. A verdade é que matei um homem. Era esse o segredo que estava escondendo esse tempo todo.
- É mesmo?
- Sim, mãe. Sou um criminoso.
A mãe abraçou Roberto sorrindo.
- Que alivio, filho, que alivio. Seu pai conhece um advogado ótimo. Vamos, vamos terminar o café... você quase me matou do coração...
sexta-feira, 22 de maio de 2015
Os livros de minha filha (parte I): Chapeuzinho Amarelo
Uma das coisas mais legais dessa história de ser pai é poder revisitar a infância. E quando falo em revisitar quero dizer participar do universo infantil só que, desta vez, pela perspectiva do adulto. A literatura infantil tem sido uma dessas revisitas, quiçá a mais interessante. Quando leio um livro pra minha filha (ela tem 2 anos), na verdade, estou lendo pra mim também. É incrível como tem coisas que ela percebe e que às vezes passa batido pra mim. E é igualmente incrível como agora eu percebo coisas e "piro" em detalhes que, quando era criança, simplesmente não me diziam nada. É triste pensar que se os livros para crianças forem lido só por crianças, todo esse tesouro de pirações será negligenciado. Pensando nisso, fiz uma seleção de alguns livros de minha filha que proporcionaram "pequenos momentos de iluminação", como diria a senhora minha esposa. Não são necessariamente os melhores, não são necessariamente os que ela mais gosta e tampouco são necessariamente os que eu mais gosto, mas são aqueles que proporcionaram tais momentos. Comecemos por Chapeuzinho Amarelo!
Chapeuzinho Amarelo
Chapeuzinho Amarelo
São poucas as histórias que ganharam mais versões do que o clássico conto de "Chapeuzinho Vermelho", a menina de capuz vermelho que foi incumbida de levar doces para a sua idosa avó. Vinda da tradição oral, a história demorou para ganhar uma versão escrita. A primeira compilação (séc. XVII) é catastrófica e pertence ao francês Charles Perrault. Nessa versão não há final feliz: a menina e avó são devoradas por um lobo faminto e ponto final. A segunda compilação (do séc. XIX, acredito que a mais conhecida) é bem mais atenuada e é de autoria dos irmãos alemães Jacob e Wilhelm Grimm. Aqui aparece a figura do caçador, macho alfa que retira avó e neta vivas da barriga do lobo (ahãn... claro, claro) e levam o pobre animal à morte ao colocar pedras dentro de sua barriga. Mais recentemente, surgiram versões mais ousadas, como a de Orlando de Miranda (intitulada "Chapéu Vermelho II - as bocas do lobo), em que Chapeuzinho, após seu fatídico episódio com o lobo, mudou-se para a cidade grande (São Paulo) e precisa levar medicamentos psicotrópicos para sua avó (que numa dessas também tinha mudado para a paulicéia desvairada), tendo que, para isso, atravessar o Largo do Arouche a noite, com muito cuidado para evitar cair nas armadilhas do "lobo" (aqui representado pela violência urbana).
Em meio a todas essas versões acredito que existe sempre a ideia moralizante do "bom caminho". A menina de traje claramente comunista só se complica, faz crer a maioria das versões, porque se desviou do caminho sugerido pela mãe, enfim, porque "não andou na linha", o que nos remete à tão recorrente prática da culpabilização da vítima, que foi estuprada porque andava com roupa curta demais, que foi assaltado porque andou por um caminho sinistro demais e por ai vai. Perpassando todo este moralismo está a chamada "cultura do medo", o medo que cada um tem dos "lobos" de nosso cotidiano.
A dupla de gênios Chico Buarque e Ziraldo conseguem resgatar essa essência no clássico "Chapeuzinho Amarelo", a menina que tinha medo de tudo, que era amarelada de tanto medo e que deixava de fazer tudo nessa vida por conta do medo (o que nós deixamos de fazer por conta do medo, hein?). E, entre tantos medos, não podia faltar o medo do lobo, que era seu "medo mais que medonho". E mesmo com tanto medo do lobo (ou seria medo do medo de encontrar o lobo?) um dia Chapeuzinho acabou se encontrando com ele, assim como nós que, sem hora marcada, acabamos por topar com nosso medos por aí.
A grande sacada do livro é mostrar que o medo de uma coisa geralmente é muito mais aterrorizante do que a coisa em si. Ao se deparar com o lobo, Chapeuzinho acaba por achá-lo inofensivo, sobretudo ao compará-lo com o medo que tinha dele. O "lobo" virou tão inofensivo quanto um "bolo". Transformação semântica feita por Chico. Transformação gráfica magistralmente feita por Ziraldo, na ilustração mais incrível do livro (reparem que o vazio deixado entre um lobo e outro vai formando, paulatinamente, a figura de um bolo. Algo parecido acontece quando se repete muitas vezes a palavra "lobo", que com o tempo vai se confundindo com a palavra "bolo").
O casamento perfeito entre texto e ilustração (Ziraldo inspiradíssimo) fazem deste livro um clássico, uma das versões mais interessantes que já li da tão revisitada Chapeuzinho Vermelho. E é por isso que o tirei por alguns minutos da estante da minha filha para mostrá-lo a vocês.
Ah, coloquei abaixo um áudio-livro com a história na íntegra!
A grande sacada do livro é mostrar que o medo de uma coisa geralmente é muito mais aterrorizante do que a coisa em si. Ao se deparar com o lobo, Chapeuzinho acaba por achá-lo inofensivo, sobretudo ao compará-lo com o medo que tinha dele. O "lobo" virou tão inofensivo quanto um "bolo". Transformação semântica feita por Chico. Transformação gráfica magistralmente feita por Ziraldo, na ilustração mais incrível do livro (reparem que o vazio deixado entre um lobo e outro vai formando, paulatinamente, a figura de um bolo. Algo parecido acontece quando se repete muitas vezes a palavra "lobo", que com o tempo vai se confundindo com a palavra "bolo").O casamento perfeito entre texto e ilustração (Ziraldo inspiradíssimo) fazem deste livro um clássico, uma das versões mais interessantes que já li da tão revisitada Chapeuzinho Vermelho. E é por isso que o tirei por alguns minutos da estante da minha filha para mostrá-lo a vocês.
Ah, coloquei abaixo um áudio-livro com a história na íntegra!
...
Autor: Chico Buarque
Ilustrador: Ziraldo
Ano da primeira edição: 1970 (a primeira edição ilustrada por Ziraldo é de 1979)
Editora: José Olympio Editora
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Gen - Pés Descalços
Para aqueles que não gostam de se influenciar antes de ler qualquer coisa, um resumo do post: LEIA Gen - Pés Descalços!
(Um amigo, pois quem avisa amigo é)
Fazia uma linda manhã de sol em Hiroshima. Já passava das oito e o povo da cidade já tomava às ruas para mais uma segunda-feira de muita luta. Os adultos partiam para o trabalho para tentar garantir o sustento de suas famílias, o que nem sempre era fácil, já que o Japão estava em guerra e a maior parte dos alimentos servia para alimentar os soldados que estavam no front. As crianças caminhavam para mais um dia de aula, sempre na esperança de na volta encontrarem mais comida em casa que no dia anterior. O céu estava azul e sem nuvens e quem olhasse para ele veria um avião...
(...)
... um avião que algumas horas tinha partido do outro lado do mundo carregando uma bomba de urânio, a grande promessa do casamento entre a física moderna e a indústria bélica naquelas primeiras décadas de século XX. Promessa esta que era capaz de produzir uma reação química em cadeia e, em segundos, destruir vidas de milhares de pessoas como eu e você, a quem pouco importava a física moderna ou a indústria bélica.
E assim se fez. Alguém decidiu que aquelas pessoas - homens, mulheres e crianças inocentes - deveria morrer naquela manhã de 6 de Agosto de 1945 e quem olhasse para o céu azul de Hiroshima veria que do avião caia uma luz mais forte do que milhares de flashes juntos, uma luz que se aproximava e se intensificava e que, 45 segundos depois de ter surgido no céu de Hiroshima, consumava o maior crime de guerra da história da humanidade.
Não satisfeitos, e sem a esperada rendição do Japão, os EUA fizeram o mesmo com outra cidade japonesa. Três dias depois, uma outra bomba - desta vez de Plutônio - destruía a cidade de Nagazaki .
O mundo jamais seria o mesmo.
(...)
Cento e quarenta mil pessoas morreram naquele e nos dias subsequentes em Hiroshima. Cerca de oitenta mil morreram em Nagazaki. Outras milhares continuaram morrendo nos anos e décadas seguintes por conta dos efeitos da radiação. Entre os sobreviventes estava um menino de 6 anos que só não morreu porque o muro de sua escola o protegeu dos efeitos da bomba. Seu nome era Keiji Nakazawa, o autor de Gen - Pés descalços.
Gen - Pés Descalços é uma daquelas obras-primas que devem ser lidas por todo aquele que respira. São 10 volumes (dos quais 5 já foram traduzidos pela Editora Conrad para o português) em que Nakazawa narra a história de sua família desde alguns dias antes do fatídico 6 de Agosto de 1945, passando pelos terríveis desdobramentos que a explosão da bomba atômica causou na população de Hiroshima. O poder narrativo de Gen é impressionante e me fizeram ler mais de 1000 páginas de mangá (os 4 primeiros volumes) em apenas 9 dias. O fato de Nakazawa ter vivido tudo aquilo torna tudo mais real, mais palpável, e a empatia com cada personagem é inevitável. A impressão que tinha é que estava lendo a história de um amigo próximo.
São muitas as questões que podem ser extraídas deste fantástico mangá, questões estas que não podem ser encaradas como questões do passado, mas questões eternas. E este é o grande mérito de Nakazawa: ele dá vida e voz para os mortos de Hiroshima (e Nagazaki). Saliento, entretanto, que a crítica contida em Gen não se restringe aos EUA, mas à própria guerra em si. Ele critica o próprio governo japonês, que liderados por um imperador com status de Deus (Hirohito), impelia milhares de jovens para morrer numa guerra cada vez mais sem sentido. Critica as guerras, todas as guerras, porque sempre os maiores prejudicados não são aqueles que fazem a guerra, mas invariavelmente a população mais pobre, vide os conflitos atuais no Oriente Médio.
E Como após ler Gen não conseguia parar de pensar no assunto, segue abaixo outras produções com as quais me deparei nos últimos dias.
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Gen - Pés Descalços (anime)
Em 1983, Gen foi adaptado para o cinema. Não gosto de fazer a clássica afirmação "o livro (ou o quadrinho) é melhor que o filme" porque entendo que são duas artes distintas e sem comparação. O primeiro anime é uma adaptação dos 4 primeiros livros, além de passagens que não constam no mangá. Recomendo que o anime seja assistido após a leitura dos mangás. A versão que está lincada aqui está com legenda em inglês, porque recentemente o You Tube retirou a versão em português. Entretanto, ainda é possível encontrar a versão fragmentada em vários videos pequenos.
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Luz Branca, Chuva Negra: A destruição de Hiroshima e Nagazaki (filme de 2007)
Keiji Nagazaki é um dos 14 sobreviventes entrevistados neste ótimo documentário dirigido por Steven Okazaki. O maior trunfo do documentário é a raridade do material exibido, mostrando cenas da época, bem como trazendo histórias de pessoas que sofrem até os dias de hoje por conta da bomba.
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Hiroshima, a cidade da calmaria (mangá de 2005, de Fumiyo Kouno)
Com um traço leve e uma narrativa quase poética, o mangá feito em decorrência dos 60 anos das bombas de Hiroshima e Nagazaki, mostra a história de duas jovens que não viveram a época da guerra, mas que ainda assim são marcadas pelo estigma da bomba. A mangaca mostra como uma bomba lançada há 60 anos ainda está provocando seus efeitos devastadores.
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Keiji Nakazawa morreu de câncer no último mês de Dezembro.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Sobre a nobre prática de emprestar livros
Epígrafes deixam seu texto mais elegante...
(anônimo, in Manual do Blogueiro)
As estatísticas apontam que 98% dos livros emprestados não são devolvidos. Um dado realmente alarmante que faz com que eu perca ainda mais a esperança na humanidade. Mas vamos lá, não seremos nós, leitores deste respeitoso veículo de comunicação, que iremos engrossar esta vergonhosa estatística. Se VOCÊ... sim, você mesmo que está me lendo, possui em sua casa algum livro que a princípio não lhe pertence, que a princípio, de repente, ME pertença ou pertença a algum amigo inocente, sugiro que proceda da seguinte forma: DEVOLVA! Sim, é isso mesmo. Não é tão difícil assim! Se o livro fosse dado, eu ou o outro amigo inocente, teria deixado isso mais claro pra você, quem sabe com uma dedicatória ou um embrulho de presente. Se isso não ficou evidente no momento da "entrega" é porque, mais cedo ou mais tarde, você terá que (me) devolver. E isso também vale pra DVDs, CDs, roupas de baixo... tudo! Vamos incentivar práticas amigavelmente sustentáveis de trocas de materiais!
***
Mas esta foi uma péssima maneira de começar um bem sucedido e bem educado post sobre "a nobre prática de emprestar livros". A ideia deste texto não é desestimular, mas sim incentivar o intercâmbio de livros. E vou explicar por quê!
Acredito que existam ao menos dois tipos de empréstimos de livros. O primeiro, e o mais comum de todos, tem objetivos essencialmente econômicos e coloca aquele que empresta na função de uma espécie de biblioteca pública ambulante. Alguém que deseja ler um livro mas não quer ou não pode comprá-lo pega emprestado com uma boa alma que possui o livro e deseja emprestá-lo. Um mecanismo simples e que costuma funcionar bem (salvo naqueles 98% de casos inconvenientes citados no parágrafo inaugural do post). Entretanto, esta forma extremamente racionalizada de troca cultural peca por ser, como já dito, essencialmente econômica. Ainda que eu economize alguns trocados, pouco estarei me valendo do Outro, daquele que me emprestou. Pouco esterei me valendo de sua experiência enquanto leitor, que pode ser (e invariavelmente é) distinta da minha.
Assim, passo a falar do segundo tipo de troca de livros, daquela que realmente me motivou a escrever estas linhas sob a luz bruxuleante do lampião a gás. Esta segunda forma não tem objetivos econômicos, mas culturais, de ampliação de horizontes. É a saída momentânea de nossa bolha para o encontro com bolhas alheias. Os estudiosos chamam este segundo tipo de troca de "troca cega" ou "exchange blind". Agora o emprestador deixa de ser uma biblioteca pública ambulante e "passa a ser" Ele Mesmo, em toda a sua essência. Alguém escolhe um livro que gostou, que lhe foi importante, que lhe caracteriza enquanto leitor e empresta para um outro Alguém, que faz o mesmo. A escolha é feita por quem empresta e não por quem toma emprestado. Veja bem, aqui não estamos tratando de uma simples e calculada troca de materiais, mas da troca de um pouco do que somos (e isso não tem como devolver). Aqui chegamos a lugares e conhecemos coisas às quais não teríamos acesso no primeiro tipo de troca, às quais provavelmente não chegaríamos sozinhos.
Escrevo isso agora porque recentemente conclui que sou um conservador literário. Ao menos era, até o momento desta brilhante conclusão. Já li uma quantidade razoável de livros, mas conheço relativamente poucos autores. Isso porque, ao me deparar com um autor com a qual me identifico, penso em aproveitar o "achado" e ler a maior quantidade de livros daquele autor, como alguém que diante de uma pepita de ouro, conclui que ela veio de uma mina, onde podem ser encontrados outros tantos exemplares daquela solitária pedra preciosa. E isso se refletia em minha busca por livros emprestados, me fazendo ir atrás apenas daqueles autores com os quais eu já estava familiarizado.

Mas um curioso fenômeno tem ocorrido ultimamente que está me fazendo mudar de postura. Livros de autores variados estão "caindo" em minhas mãos sem serem, efetivamente, por mim solicitados e estão me rendendo adoráveis surpresas, tais como Mário Benedetti, Mário Vargas Llosa, Ismail Kadaré, Marçal Aquino, Herman Melville, Lourenço Mutarelli, entre outros (alguns deles estão ilustrando o post), o que tem me feito perceber que o mundo, ao menos o mundo literário, é bem maior e mais rico do que eu poderia imaginar.
Então, minha proposta vai nesse sentido. Seja lá o que for que você goste de ler, se dê a oportunidade de se impressionar com o novo. Tente um novo gênero, um novo autor, uma nova nacionalidade, um quadrinho de outro estilo! E não gaste dinheiro com isso! Conheça melhor seus amigos através dos livros que eles gostam de ler! Ao menos de vez em quando tente sair dos autores de costume e peça que cada um de seus amigos indique, e se possível lhe empreste, o livro que mais gosta de ler. O pior que pode acontecer é você se dar conta do tipo de gente com quem você anda se relacionando...
Aliás, alguém tem alguma sugestão?
Acredito que existam ao menos dois tipos de empréstimos de livros. O primeiro, e o mais comum de todos, tem objetivos essencialmente econômicos e coloca aquele que empresta na função de uma espécie de biblioteca pública ambulante. Alguém que deseja ler um livro mas não quer ou não pode comprá-lo pega emprestado com uma boa alma que possui o livro e deseja emprestá-lo. Um mecanismo simples e que costuma funcionar bem (salvo naqueles 98% de casos inconvenientes citados no parágrafo inaugural do post). Entretanto, esta forma extremamente racionalizada de troca cultural peca por ser, como já dito, essencialmente econômica. Ainda que eu economize alguns trocados, pouco estarei me valendo do Outro, daquele que me emprestou. Pouco esterei me valendo de sua experiência enquanto leitor, que pode ser (e invariavelmente é) distinta da minha.
Assim, passo a falar do segundo tipo de troca de livros, daquela que realmente me motivou a escrever estas linhas sob a luz bruxuleante do lampião a gás. Esta segunda forma não tem objetivos econômicos, mas culturais, de ampliação de horizontes. É a saída momentânea de nossa bolha para o encontro com bolhas alheias. Os estudiosos chamam este segundo tipo de troca de "troca cega" ou "exchange blind". Agora o emprestador deixa de ser uma biblioteca pública ambulante e "passa a ser" Ele Mesmo, em toda a sua essência. Alguém escolhe um livro que gostou, que lhe foi importante, que lhe caracteriza enquanto leitor e empresta para um outro Alguém, que faz o mesmo. A escolha é feita por quem empresta e não por quem toma emprestado. Veja bem, aqui não estamos tratando de uma simples e calculada troca de materiais, mas da troca de um pouco do que somos (e isso não tem como devolver). Aqui chegamos a lugares e conhecemos coisas às quais não teríamos acesso no primeiro tipo de troca, às quais provavelmente não chegaríamos sozinhos.
Escrevo isso agora porque recentemente conclui que sou um conservador literário. Ao menos era, até o momento desta brilhante conclusão. Já li uma quantidade razoável de livros, mas conheço relativamente poucos autores. Isso porque, ao me deparar com um autor com a qual me identifico, penso em aproveitar o "achado" e ler a maior quantidade de livros daquele autor, como alguém que diante de uma pepita de ouro, conclui que ela veio de uma mina, onde podem ser encontrados outros tantos exemplares daquela solitária pedra preciosa. E isso se refletia em minha busca por livros emprestados, me fazendo ir atrás apenas daqueles autores com os quais eu já estava familiarizado.
Mas um curioso fenômeno tem ocorrido ultimamente que está me fazendo mudar de postura. Livros de autores variados estão "caindo" em minhas mãos sem serem, efetivamente, por mim solicitados e estão me rendendo adoráveis surpresas, tais como Mário Benedetti, Mário Vargas Llosa, Ismail Kadaré, Marçal Aquino, Herman Melville, Lourenço Mutarelli, entre outros (alguns deles estão ilustrando o post), o que tem me feito perceber que o mundo, ao menos o mundo literário, é bem maior e mais rico do que eu poderia imaginar.
Então, minha proposta vai nesse sentido. Seja lá o que for que você goste de ler, se dê a oportunidade de se impressionar com o novo. Tente um novo gênero, um novo autor, uma nova nacionalidade, um quadrinho de outro estilo! E não gaste dinheiro com isso! Conheça melhor seus amigos através dos livros que eles gostam de ler! Ao menos de vez em quando tente sair dos autores de costume e peça que cada um de seus amigos indique, e se possível lhe empreste, o livro que mais gosta de ler. O pior que pode acontecer é você se dar conta do tipo de gente com quem você anda se relacionando...Aliás, alguém tem alguma sugestão?
terça-feira, 27 de março de 2012
Um teto todo seu
Virginia Woolf
Há alguns anos li “Um teto todo seu”, de Virginia Woolf, e essa leitura me marcou muito. No ensaio, que foi escrito inicialmente para uma palestra a jovens universitárias, a autora inglesa traça um panorama da relação entre a mulher e a ficção ao longo da história. Para ela, se tivesse existido uma irmã de Shakespeare tão talentosa quanto ele, a pobre mulher certamente não teria nenhum êxito literário e seria deveras muito infeliz, pois às mulheres do século XVI só cabia o papel de trabalhadoras domésticas subordinadas, quase sempre analfabetas e desprovidas de voz. Woolf acredita que as condições precárias das mulheres é o motivo crucial de termos na literatura poucas escritoras. O quadro só começa a mudar e as mulheres possuem algum lugar no mundo das letras com a conquista do direito de ter a própria renda e um teto todo seu. Pois é necessário, segundo a autora, possuir um espaço - ao mesmo tempo físico e metafórico - para que a escrita aflore. Trata-se de um belíssimo texto de uma grande mulher, que acima de "feminismos", propõe que a boa literatura é feita por seres andróginos.
Compartilho o trecho final do texto:
“(...) Minha própria sugestão é um pouco fantástica, admito; prefiro, portanto, colocá-la em forma de ficção. Disse-lhes, no transcorrer deste ensaio, que Shakespeare teve uma irmã; mas não procurem por ela na vida do poeta escrita por Sir Sidney Lee. Ela morreu jovem - ai de nós! Não escreveu uma só palavra. Ela está enterrada onde os ônibus param agora, em frente ao Elephant and Castle. Pois bem, minha crença é que essa poetisa que nunca escreveu uma palavra e que foi enterrada numa encruzilhada ainda vive. Ela vive em vocês e em mim, e em muitas outras mulheres que não estão aqui esta noite, porque estão lavando a louça e pondo os filhos para dormir. Mas ela vive; pois os grandes poetas nunca morrem, são presenças contínuas, precisam apenas da oportunidade de andarem entre nós em carne e osso. Essa oportunidade, segundo penso, começa agora a ficar a seu alcance conferir-lhe. Pois minha crença é que, se vivermos aproximadamente mais um século - e estou falando na vida comum que é a vida real, e não nas vidinhas à parte que vivemos individualmente - e tivermos, cada uma, quinhentas libras por ano e o próprio quarto; se tivermos o hábito da liberdade e a coragem de escrever exatamente o que pensamos; se fugirmos um pouco da sala de estar comum e virmos os seres humanos nem sempre em sua relação uns com os outros, mas em relação à realidade, e também o céu e as árvores ou o que quer que seja, como são; se olharmos mais além do espectro de Milton, pois nenhum ser humano deve tapar o horizonte, se encararmos o fato de que não há nenhum braço em que nos apoiarmos, mas que seguimos sozinhas e que nossa relação é para com o mundo da realidade e não apenas para com o mundo dos homens e das mulheres, então chegará a oportunidade, e o poeta morto que foi a irmã de Shakespeare assumirá o corpo que com tanta freqüência deitou por terra. Extraindo sua vida das vidas das desconhecidas que foram suas precursoras, como antes fez seu irmão, ela nascerá. Quanto a ela chegar sem essa preparação, sem esse esforço de nossa parte, sem essa determinação de que, quando nascer novamente, ela achará possível viver e escrever sua poesia, isso não podemos esperar, pois isso seria impossível. Mas afirmo que ela viria se trabalhássemos por ela, e que trabalhar assim, mesmo na pobreza e na obscuridade, vale a pena.”
Virginia Woolf, outubro de 1928.
***
Março é considerado o "mês da mulher", comemoração que considero deveras muito piegas. Em meio a tantas palavras doces sobre as mulheres, as ideias de Woolf são um sopro de lucidez para nós pobres primas tortas da irmã de Shakespeare.
(Consultado: Woolf, Virginia. Um teto todo seu. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985)
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