sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Acabou.

Não sabia como parar.
Só sabia que estava cansado daquilo tudo.
Da atenção que dava, e da atenção que não recebia.

Em algum momento da história, as pessoas começaram a achar que o "procurar" um pelo outro não era mais importante.

Mas pra ele, mais triste era saber que não procuravam por ele!
Mas procuravam uns pelos outros.
E ele sabia que era assim.

Gritou de todas as maneiras.
Esperou que as pessoas que ele amava percebessem.
Mas muitas vezes essas foram as primeiras a acharem que era tudo "frescura". Coisa de gente que não tinha o quê fazer.

Aquela que ele imaginava que o entenderia, não o procurava mais.
Perdeu-se o contato.
Acabou-se a cumplicidade.
As conversas eram diferentes.

Tornaram-se ríspidas.
Com desdém.
Parecia já não mais importar.

Pra ele, cada detalhe era importante.
Pros outros também!
Nos inícios...

Depois...

Bem... Depois, só a frieza. Só o "não se importar".
Só a indiferença e a conveniência.

Resolveu então escrever uma carta.
Colocou o coração nela!

No fundo, havia a esperança de que pelo menos ela lêsse!

Escreveu, mas caiu em si.
Ela não iria ler.
Eles não iriam ler.

Afinal, por quê razão se preocupariam?

"Ah... Ele mudou. Ficou mais calado. Não é como era antes. Mas deve estar bem!"

Deve.

E daí? Certeza pra quê?
Um dia ele volta.
E se não voltar, que diferença faz?

O mundo tem quase oito bilhões de pessoas.
Tudo na vida é cíclico.
"A catraca anda", dizem.
E é verdade.

Ele, mais do quê ninguém, sabia que isso era a mais pura verdade.

Àquela altura, lembrou-se dos olhares de admiração que um dia pousaram sobre ele.

Hoje, aqueles mesmos olhos o enxergavam como mais um na multidão.
Sem nada a acrescentar.
Apenas para encher.

Não iria continuar.

Um dia, com certeza, iriam sentir falta dele.
Queria porque queria acreditar nisso.
No fundo, pensava:
"Que nada. Hoje sou um zero à esquerda. Não valho pra mais nada."

Preferiu enfrentar a realidade, e cercado, continuar sozinho.
Sozinho em meio à multidão, que falava como ele falava. Que se comunicava como ele se comunicava.

Sim. Era tudo simples demais.
Narcisista, até.
Mas quem se importava?
Naquela atmosfera, ninguém ligava pra ninguém.
Nessa, a dinâmica é a mesma!
Mas... Quem se importa?
Com certeza, não os que ele amava.

Não os que ele amou.


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Ditadura Democrática

Em um país bastante peculiar a população certa vez se revoltou contra o governo. Todos queriam mudanças, não se sentiam representados e alegavam que estavam sendo lesados pelos governantes. Não que estivessem errados, mas apesar da forma do discurso ser bastante coerente, o conteúdo de cada um costumava ser bem distinto, dada a desigualdade que imperava no tal país.

Logo surgiu o consenso de que algum governo era necessário em substituição ao atual, afinal viver sem governo seria anarquia e disso para o comunismo seria um pulo. Mas quem escolher? Um filósofo, um matemático, um economista, um engenheiro? Depois de um breve debate optaram por colocar os bancos no poder, mantendo eleições periódicas para decidir qual iria comandar.

A princípio a ideia causou espanto, mas o argumento de que os bancos ganham muito dinheiro até mesmo durante as crises econômicas mais graves foi a prova irrefutável de que eles eram a melhor opção para governar o país, já que só com muita competência seria possível ganhar tanto dinheiro.

De acordo com as últimas notícias que tive do tal país, quem estava no governo era o banco Bradesco, longe de ter pleno apoio. Boa parte da população, quase a metade, aceitou os argumentos dos demais bancos de que o Bradesco cobrava taxas altas, juros abusivos e era tendencioso em suas decisões, favorecendo amigos em detrimento de adversários. Não que fosse mentira, mas os seus defensores juravam que essas práticas eram comuns e recorrentes entre todos os bancos. Os críticos mais extremistas afirmavam categoricamente que a cor vermelha do Bradesco era uma clara referência às tendências comunistas da entidade, mas nem todos acreditavam.

Entre os bancos opositores, a principal força era o banco Itaú. Começava exaltando a identificação local e contra a suposta aproximação rubra do Bradesco com o comunismo, trazia o azul e o amarelo como uma promessa de governo mais competente e benéfico para todos. Olhando de fora eu nunca consegui entender – tão pouco alguém conseguiu me explicar – por que as pessoas que criticavam o atual governo defendiam o Itaú. Suas taxas eram mais altas, o serviço era péssimo e os juros exorbitantes. Sempre que alguém questionava um representante do banco, apresentando os números, esse representante desconversava e saía rápido, com cara de poucos amigos.

Figura emblemática era o Banco do Brasil. Era enorme. Um dos maiores. Talvez o maior. Apesar disso não se interessava muito por chegar ao poder. O que não quer dizer que não se interessava pelo poder. Ninguém governava sem seu apoio e, de uma forma ou de outra, sempre dava um jeito de impor suas vontades.

Essa característica do novo sistema de governo era interessante. Havia alianças através das quais os bancos se uniam. Separadamente o país tinha uma infinidade de bancos. Bamerindus, Nacional, Banespa, Unibanco, Sudameris, HSBC... Nenhum deles tinha expressividade sem se juntar aos grandes. Não chegavam a ser respeitados, mas ninguém dispensava a ajuda que individualmente era pequena, porém muitas vezes era fundamental na hora de aprovar ou rejeitar alguma medida.

Havia ainda o BNDES. O banco financiava grandes projetos, realizava empréstimos, promovia o crescimento e fomentava o desenvolvimento de infraestrutura. Mesmo assim não há muito que falar sobre ele. Nunca chegou ao poder, sempre se recusou a fazer alianças e parece que só existia para por o dedo na ferida de todo o sistema governamental.

Apesar das eleições periódicas, a luta pelo poder estava cada vez mais acirrada, o que tornava a governabilidade cada vez mais instável e difícil. A oposição acreditava que quanto melhor fosse o mandato, mais difícil seria derrotar a situação na próxima eleição, com isso fazia de tudo para emperrar as boas medidas.

A mudança no sistema governamental, que havia entregado o poder aos bancos, foi visto como excelente no princípio, mas já começavam a ganhar força os grupos que defendiam o fim dessa alternância, para que não corressem o risco de uma ditadura, que é a ausência de alternância, mas aquela população não primava pela coerência.

Difícil saber como se desenrolou a situação política do país. Fala-se em ditadura, fala-se em mudanças, fala-se em deixar tudo como está; mas o que chega mais perto de um consenso é que a desigualdade econômica é inegociável. Vai continuar, e ai de quem tentar mexer!

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Por que o transporte coletivo facilita o assédio sexual?

Nós mulheres lutamos muito para conquistarmos nossa independência financeira, para sair de casa e trabalhar, hoje encontramos mais uma barreira no transporte público.  No último século a maioria das mulheres vivia em casa, escondidas entre paredes, no entanto esse quadro mudou e atualmente ocupamos cada vez mais os espaços públicos (para nossa satisfação), porém isso significa que o assédio sexual se expandiu para mais esferas da cidade, que é o caso do transporte coletivo.
O alto número de vítimas de assédio sexual no transporte coletivo deixa claro que esse crime é muito recorrente nas grandes cidades. E as vítimas, cansadas, estão cada vez mais denunciando esses delitos.
O trem, metrô e ônibus lotado, não justificam, mas, facilitam essas práticas aqui no Brasil, há ocorrências que aconteceram em outros lugares do mundo também. Como podemos observar no caso que aconteceu em Nova Deli:
“A estudante Jyoti Singh Pandey, de 23 anos, foi estuprada e espancada com uma barra de ferro em um ônibus que circulava pela capital indiana, em dezembro de 2012.”
E por que esses lugares são cenários para esse tipo de ato? Por que não são seguros?
Enquanto providências de responsabilidade pública não forem tomadas mulheres serão cada vez mais constrangidas e reprimidas no espaço público, por isso deixo aqui a pergunta: Por que a cidade facilita o assédio sexual?
Uma das possíveis respostas está na segurança pública que em nosso país é muito carente, mas também no modo de vida que adotamos nos últimos anos. Concordo muito com Jane Jacobs quando diz que faltam olhos nas cidades contemporâneas dos anos 60, mas também tenho consciência que o que não faltam são olhos nos trens e metrôs lotados e mesmo assim isso acontece. Talvez o que falte seja educação e algo contra essa cultura machista, mas o que falta mesmo é um abrigo e refúgio onde essas mulheres vítimas possam denunciar e buscar por respeito onde não sejam julgadas e ainda mais reprimidas.
Onde estão os olhos que serviam de vigias? Não digo os das câmeras passivos e silenciosos, e sim os dos humanos, vivos, alertas e condolentes.
Termino com dados que me deixaram um pouco surpresa e desconfiada, digam o que acharam! ;)
Salvador teve 346 relatos, seguido de Brasília, com 269. São Paulo e Rio de Janeiro estão logo em seguida, com 250 e 236 denúncias respectivamente.  2012.
Dados da ONU listam os países com maior incidência de estupros em 2010 (os últimos consolidados): EUA (1), com 84.767 casos; África do Sul (2), com algo em torno de 67 mil casos; Índia (3), com 22.172 casos; Reino Unido (4), 15.934; México (5) 14.993.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

É claro que o ovo veio primeiro!

(É como cozinhar. Nunca sei bem o que vai sair. Sal de mais ou sal de menos....sempre acontece! Mesmo colocando fermento o bolo não cresce....Adoro inventar e colocar ingredientes a mais. Acho que só sei fazer salada. Salada de qualquer coisa. Molho não. Tá, mas se é como cozinhar, então onde está o forno? Acho que só sei fazer salada mesmo...tudo muito cru. É mais saudável. Mas geralmente não deixo as folhas de molho...Molho não. As folhas tem agrotóxico, os tomates também. Veneno. Talvez seja melhor não cozinhar nada. É, chega de cozinhar esse texto. Lá vai!)



É claro que o ovo veio primeiro!



Ser. Existir.
- Enquanto houver verbo não há revelação.

Ser “assim”.
- Por mais que se faça essa existência é maior do que qualquer ação, do que qualquer verbo.

“Assim”
- “Assim” define muito mais do que ser, existir. O “assim” é isso mesmo, é o que você entende por assim, mas é muito mais o que não é entendível. Toda a explicação é em vão. Não há o que entender, pois não há certo, nem errado aqui.

Chuva
-Sentir que as coisas todas vem como chuva. Mesmo um casamento, mesmo a construção de um navio, mesmo uma dissertação de pós doutorado: chuva!

- O universo empoeirado -
- A poeira das estrelas  –

Esse vazio tão pleno e que se enche tão completamente e rapidamente  quando chamamos por seu  nome:                                                                      
                                                               MISTÉRIO.

---------------------------- Alguém olha no fundo dos seus olhos e por algum tempo você não pensa em nada. Você diria que por um tempo muito breve--------------------------------------------------------------------


Algo ancestral, que não reivindica trono. Tão ancestral como os sonhos.


-------------------------------Um bichinho pequeno e silencioso escreve em uma folha verde somostodosbons comosomostodosbonscomosomostodosbonscomosomos------------------------------------


Encontra-se. Desperta-se. Acorda-se. Somos “ASSIM”.

Eu sou “Assim”: Água que escorre pelas formas arredondadas de uma caverna. Água do céu cavando embaixo da terra. Água que alaga, encharca e transborda rios. Água no bico do passarinho.


Algo ancestral, que não reivindica trono. Tão ancestral como os sonhos.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Síndrome de plebeia




Menininha de família;
Vários sobrenomes; todos com pedigree.
Dormia todos os dias numa Queen size, cercada de luxos e mordomias.
À noite, quando a levavam para cama, perdia toda a realeza.










quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Aviso de tempestade

Minha avó dizia que o silêncio era uma arma, bem usada poderia causar estrago. E valia para os amores, trabalho e inimigos, no nosso silêncio ninguém sabe o que pensamos e como podem nos atingir.

Nos últimos dias sou obrigada a concordar com minha avó, um silêncio assustador invadiu as redes sociais e fiquei com a impressão de que não sei mais o que está acontecendo no país.

Depois de tantos berros, gritos e discussões pela eleição presidencial, tantos links cheios de verdades e mentiras, tudo acabou. E comecei a ficar tensa. Tive, mesmo que por um segundo, a impressão de que durante a eleição as coisas vinham à tona e isso exigiria mais transparência de quem ganhasse a eleição.

Não é a primeira vez que me vejo como cidadã mergulhada em um silêncio profundo. Tantas  vezes escutei  ''isso não vai ficar assim!''.
Mas fica. Com o fim do processo eleitoral as portas se fecharam novamente e parece que nada mais é dito e ninguém reclama disso.

Acredito que minha avó tinha razão, o silêncio perturba e congela a espinha. E ainda lembro do que dizem os marinheiros, mar silencioso é aviso de tempestade.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Um Cara Chamado João


Um João, ou Jão, como dizem pejorativamente por aí. Quantos Jãos você conhece? 

Sempre conhecemos um e ele nunca é o mocinho da história. Também não é vilão. É um Jão! Secundário que é, não opina, não muda, não soma nem subtrai. Multiplica, talvez, em muitos outros Jãos.

Mas isso é generalizando. Eu conheci um Jão que conseguiu em alguns minutos neutralizar uma nação. Sim, neutralizar. Tornar neutra toda uma nação. Tudo em teoria, eu acho.

Foi em uma canção que Jão escreveu algo que faz qualquer um parar pra pensar, mesmo que por poucos instantes. Ela diz como seria se...

Tá certo que no fim das contas, pra variar, Jão não fez nada além disso. Não mudou a nação, não virou herói. Virou ídolo, talvez, mas não pra todos, afinal, um planeta é formado por gregos e troianos, e por isso não podemos agradar aos dois.

Mas ele fez a parte dele e depois disso, partiu. Partiram com ele. Era Jão, não era?

Não sou muito bom de memória, mas me lembro mais ou menos de algumas coisas que ele disse:

Feche seus olhos e imagine que não existe paraíso, nem inferno, só o céu.
Imagine todas as pessoas vivendo para o hoje, sem se preocupar com amanhã.
Imagine não existir países, nada pelo que matar ou morrer.
Já pensou se não tivesse nenhuma religião também?
Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz, já pensou?

Você deve achar que sou um sonhador, não é?
Mas não sou o único, tenho a esperança de que um dia você também pense assim!
E aí o mundo será como um só.

Continua imaginando, agora não existir posses, luta por terras.
Será que você consegue imaginar isso? Difícil né?
Sem necessidade de ganância ou fome, sabe?
Uma irmandade do Homem!
Imagine todas as pessoas compartilhando todo o mundo. Seria bom demais...
Essas são algumas das palavras que o João disse. Será que faz sentido pra você?


*O texto citado acima é uma adaptação livre feita para esse texto, baseada na letra original da música Imagine, escrita por John Lennon.

domingo, 9 de novembro de 2014

Sobre a dança

Sugestão: ler ouvindo "Só sei dançar com você" ou "Dancing with myself" versão Nouvelle Vague



Dois pra lá, dois pra cá... Rebola, sacoleja, mexe o quadril... Atenção: te dou a deixa, prepara o passinho... 


A dança é uma das expressões artísticas mais antigas. Nasceu associada às práticas mágicas, para pedir caça, sol, chuva ou agradecer aos deuses. Há culturas contemporâneas que ainda preservam o caráter religioso da dança. 
Também é um forte elemento de identidade cultural, ora valorizando tradições, ora se reinventando em movimentos muito interessantes.


A dança me faz sonhar, me faz sorrir, me faz feliz.
Esqueço dos problemas do dia-a-dia para me concentrar nos passos. Dançando eu vôo, sorrio, me divirto, suo, boto o corpo em movimento.
Na dança pode rolar ritmo, emoção, energia, papo, concentração, afeto, confidências, olhares, safadeza, pisão no pé, ou pode rolar nada além de um movimento confuso e descoordenado (neste último caso não precisa esperar terminar a música para mudar de par, né, por favor!).


E quando inventamos nossa própria dança? Ah, que delícia fechar os olhos, sentir a música e dançar como se ninguém estivesse vendo! Delícia também é dançar quando realmente ninguém está vendo; dançar sozinha, enquanto faxina a casa, por exemplo.


E você, gosta de dançar? qual seu ritmo preferido? Você já dançou sem música?

                                                               
                                                      "E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música."
Nietzsche


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

blogescritocomculpadenadadizerEquemsabe?éotempocorrendoEmeperdoeapressaéqueEutambémsóandoacem.quesabe?

Olá, como vai ?
Eu vou indo e você, tudo bem ?
Tudo bem eu vou indo correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você ?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranquilo, quem sabe ...
Quanto tempo... pois é...
Quanto tempo...
Me perdoe a pressa
É a alma dos nossos negócios
Oh! Não tem de quê
Eu também só ando a cem
Quando é que você telefona ?
Precisamos nos ver por aí
Pra semana, prometo talvez nos vejamos
Quem sabe ?
Quanto tempo... pois é... (pois é... quanto tempo...)
Tanta coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa, rapidamente
Pra semana
O sinal ...
Eu espero você
Vai abrir...
Por favor, não esqueça,
Adeus...

https://www.youtube.com/watch?v=IEUPH1A7YkM

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Fuga


A água nos potes esquenta ao sol. O corredor da casa ainda sujo, pedaços de objetos roídos, pêlos. O cheiro no ar. O portão entreaberto. Eles se foram.

A fêmea média, amarela, muito medrosa. Esperta, escala coisas quatro vezes maiores que ela. Fica em uma excitação louca ao me ver . Não gosta de colo, carinho só na barriga.
O macho um pouco maior, mas ainda de porte médio, brincalhão, safado, estabanado. Gosta que o peguem no colo. É todo preto, até os olhos bem escuros e brilhantes.

Eles se foram pelo portão entreaberto, no mais absoluto silêncio de uma fuga bem planejada. Uma fuga que se deseja, não deixa pistas.

Anúncios de procura-se já foram espalhados pelo bairro. Ele é o Guno, ela é a Bloga. Eu sei, nomes horríveis para cachorros, mas tenho motivos engraçados, outra história.

Fico imaginando, no vazio do não saber, que ele saiu correndo depois de atravessar as grades que o separavam do mundo, todas as ruas a percorrer, cachorros a cheirar, uma imensidão inteira a ser mijada, a ser impregnada dele mesmo. Ela, eu penso que foi devagar, cautelosa, dando atenção a cada poste, parede, a matinhos revoltosos que nascem no asfalto rachado.

 Depois, a fome deve ter feito eles lembrarem de casa, dos potes cheios da ração marrom, sem graça, mas nutritiva, dos biscoitos de agrado. Mas pensaram em voltar? O que seria um passeio despretensioso mudou a vida; se pensaram, ainda não acharam o caminho. Talvez tenham ido por aí se enchendo de bondades dadas por estranhos que alimentam animaizinhos eremitas; nem lembraram de casa, porque isso é de humanos.

Eu que não me lembrei de passar a chave no portão. Queria mantê-los trancados, protegidos dos carros, da chuva, do frio, da fome, das pessoas que maltratam animais. Mas eles se foram. E sem culpa e nem rancor, eu só queria que voltassem. 



quarta-feira, 5 de novembro de 2014

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Bromance.


Eu tenho visto muito essa palavra por aí, e na verdade eu tô aqui começando uma conversa. Uma daquelas de happy hour, quando a gente tá sem assunto, só relaxando, e surge algo na cabeça que nem o Lampadinha do Professor Pardal para mostrar alguma coisa ou o Toasty! do Mortal Kombat II [#Emanuelatestaidade]

Pois bem. Eu tenho visto essa palavrinha com uma certa frequência e tenho pensado sobre o contexto social que ela revela e carrega consigo. Quando, lá no princípio, era o Verbo e os que eu conheço já tinham suas noções pré-concebidas do mundo, era aceitável e compreensível o homem, a mulher e as possíveis inter-relações entre um (e um) e outro (e outro). Mas eram relações mesmo - o rapaz beijou um cara, é gay. Pronto. A moçoila beijou uma moça? Tá chamando atenção. Cortou o cabelo curto? Ihhhh...
Abençoados sejam os novos tempos, eu tenho visto as relações cada vez mais diluídas, mais evanescentes no que concerne ao gênero, à forma e ao efeito. E, novamente abençoados sejam esses dias em que vivemos, as demonstrações de afeto tem se tornado mais intensas, e não menos efusivas. As pessoas se querem. Isso é para mim sintoma de uma solidão de massa, mas não dá para ir muito a fundo aqui. Basta dizer que vivemos num arquipélago de solidões. 
Nesse contexto, o que seria há algum tempo uma manifestação genuína de homossexualidade hoje ganha contornos controversos; ainda assim, contornos que garantem que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Embora a simultaneidade de pensamentos nos permitam viver ao mesmo tempo um retrocesso no conceito de família e um avanço em políticas voltadas aos gays, eu sinto que, cada vez mais, teremos diluições no padrão de masculinidade que equivale à heterossexualidade.  
Mas olha, eu acho que eu já conhecia os bromances há muito tempo. Só não sabia que nome dar a isso. 
Vamos citar alguns aqui. 


O bromance mais adorável de todos os animes que assisti. Cito esse, em especial, porque no anime temos spoilers de uma possível relação mais íntima entre os dois [a cena da Mukuro frustrada de ciúme é impactante!]. Kurama mais de uma vez demonstra tranquilidade no trato com ambos os sexos [Karasu, Karasu...] e o autor, Yoshiriro Togashi, demonstra maestria em colocar essas nuances em um shonen manga. Outras duplas reconhecidas são Hyoga e Shun (Cavaleiros do Zodíaco), Carlos e Oliver (Super Campeões). Não, eu não vou falar do Batman e do Robin... rs.


Robbie Williams e Gary Barlow integravam a boyband Take That. Depois de uma briga muito feia, não quiseram mais falar sobre sua amizade. Tempos depois, sai um clipe maravilhoso e cheio de subentendidos. 



Esse bromance é um clássico! Assim que perceberam a química entre si, foram morar juntos. Confesso que acho um casal cute. O engraçado é que, se buscarmos esse bromance no Google, temos mais informações entre Jensen Ackles e Misha Collins (Castiel).

Existem mais casais desse naipe - os BBB da Globo que os digam. E eu observo como a afeição pode ter muitas cores. Eu não tenho muito como concluir essa história - é como uma mesa de bar, a gente começa um assunto e o outro começa outro e no fim ninguém sabe muito bem o porquê da conversa estar seguindo determinado rumo.

Sob as bênçãos de Eros e Afrodite, me despeço. Até mês que vem.
E desce uma cerveja. 

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Preserve seus links

Nunca esqueça de suas referências;

Olhe para trás apenas para buscar bons exemplos;

Pare de se programar tanto, e aprenda a se decepcionar;

Não duvide das coisas simples da vida, sempre achei que são elas o nosso indicador de mudança;

Escolha músicas para marcar momentos, pesquise músicas para novos momentos;

Encontre um tempo para caminhar sozinho, seja lá qual for a interpretação que você faça desta frase;

Nunca negue um abraço, pois até com um passo a frente você não estará mais no mesmo lugar (Grande Chico);



Encontre sua alegria

Beijos/ Abraços
Jeff

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

aquele abraço!


Diferente da maioria a curiosidade por aqui só atingiu nível máximo no primeiro turno, pois estava ansiosa para saber o tipo de eleitor que mais se destacaria nas eleições, principalmente em São Paulo.

 E quando divulgado quais candidatos receberam o maior número de votos pude confirmar algumas dúvidas e esclarecer impressões que nitidamente apontavam os rumos do segundo turno.

Antes considero importante desvincular a espantosa e horripilante ascensão do conservadorismo nas eleições de 2014 com as Jornadas Junho de 2013 e para isso venho concordar plenamente com o integrante – Legume do MPL:

“Quem aposta na via eleitoral para explicar a Junho está completamente equivocado. Se você espera que é a mobilização popular que vai alterar as eleições, você não entendeu nada sobre mobilização popular nem sobre eleições. A grande questão de junho é que foi uma via não institucional, que a gente apostou e que a gente continua apostando”, explica.
Legume reforça que a esquerda tinha que fazer uma autocrítica e rever sua ausência dos movimentos de base. “Então, se o projeto eleitoral não se realizou, isso não tem a ver com as mobilizações de junho. Junho foi a prova de que a esquerda precisa voltar a fazer trabalho de base, se organizar diretamente, para a partir daí poder crescer.”
O membro do MPL ainda ressaltou que o legado das Jornadas de Junho estimulou as pessoas a lutarem ainda mais e a se articularem de maneira autônoma. Legume também declarou que o posicionamento do movimento no segundo turno "será o mesmo."
“Não são das urnas que virão as transformações reais para a população, e sim da organização popular. As ruas não estavam pedindo um novo salvador, mas estavam se organizando para se criar outra coisa”, conclui.
(José Francisco Neto – Brasil de Fato – 10/10/2014)

Feita a divisão compreendemos porque determinado deputado em São Paulo recebera cerca de 1 milhão, veja, se trata de um milhão de votos, sendo um dos representantes do alto escalão de determinada igreja, que lembre-se recentemente esta igreja inaugurou um dos maiores se não o maior templo erguido neste país. Haja dízimos, ofertas, propósitos e demais contribuições.

Fico aqui na minha reles mentalidade medíocre pensando quantas minha casa minha vida 1,2 e 3 bem como quantos prédios de locação social não seriam construídos com todo dinheiro arrecadado para a construção da casa do senhor.

Escrevo senhor no minúsculo, pois creio não ser o mesmo Senhor que conheço que não precisa de templos com pedras vindas de Israel ou de cerimônia do antigo testamento do qual Ele aboliu que se fizesse referenciando-nos em apenas dois grandes mandamentos que se diga são dificílimos de praticar ou é necessário ainda que se faça cartilha de moda para comparecer ao templo e falar com Ele.

Acontece apenas com esta igreja cujos donos têm uma emissora que está em busca de ser uma rede globo gospel? Não. É impressionante como está acontecendo noutras, chegou ao cúmulo do absurdo de nas eleições termos a presença de excelentíssimos cristãos norte americanos com pronunciamento de profecias que não se cumpriram, fiz questão de assistir bem como de observar que não aconteceu nada do que fora dito, então quem foi mesmo que falou?

Se alguém pergunta se acredito em Deus mesmo após diversas decepções quando no passado era atuante e ativa enquanto membro de determinada igreja (e conhecendo a doutrina de várias igrejas) se mesmo assim ainda acredito em Deus após conhecer através de leituras Marx, Foucault, Pepetela, Rosa e outros, digo sem titubear que acredito no Pai, Filho e Espírito Santo e ainda confirmo que mantenho relacionamento íntimo com direito a oração e tudo mais. Coisa de louco? Pode ser. Talvez mude, mas creio ser difícil. E porque não juntar o que é bom e me cabe ao invés de separar ou ser isso ou aquilo que dizem que devo ser e não ser nada, nem mesmo o que quero, posso ser.  E permito que tire suas próprias conclusões, pois o que pensam e acham de mim não é um problema meu, pode acreditar.  

Com isso declaro guerra contra o povo de Deus? Não.

Mas compreendo ser necessário avaliar o grande progresso dos templos, tornando-se verdadeiros caixas eletrônicos no somente pedirem ofertas, dízimos, propósitos, carnês, pagamento em prestação usando a função crédito; tanto é que os comparo com as agências do banco Bradesco a cada esquina do cabrobrorô do sertãozinho existe uma, mas na questão do dízimo está resolvido darei o meu na seguinte divisão 10% do salário dividido para organizações que fazem caridades ou associações que visam outra sociedade (exemplo AAENFF – Associação dos Amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes) e o que sobrar entrego para igrejas com projetos sociais provavelmente as católicas pois são as que mais se envolvem nas expressões da questão social mais do que as evangélicas/cristãs. Pior é notar a constante ocupação da política como forma de angariar ainda mais espaço na sociedade.

Torna-se mais evidente esta ocupação política quando na inauguração do novo templo são convidados duas figuras políticas importantes, governador e presidente.

Neste ínterim o governador curiosamente já se erguera após os acontecimentos de Junho de 2013 quando fez péssimo uso da segurança pública contra manifestantes (um dos motivos de ter engrossado os atos), ao controlar as manifestações que tinham “pessoas violentas” (ou na verdade os P2) que compareciam aos atos não para manifestar, mas com objetivo de acabar com a festa da Copa.

Através da judicialização (e criminalização do direito de greve) controlou a greve dos metroviários como bem lembrado pelo programa Roda Viva da TV Cultura no debate sobre as eleições de 2014; através do veto de qualquer informação e divulgação sobre a crise da água afirmando várias vezes que não ocorreria racionamento; através da atuação na Copa unindo policias civis e militares mesmo precariamente; e principalmente através da segurança pública usando-a como curral eleitoral ao designar batalhão especializado (ROTA) no combate à violência no interior paulista (onde recebeu maioria de votos), também pelo uso da segurança tão bem exposto pelo ex-secretario de segurança  que não somente falou da gestão do atual secretario de segurança resumindo como lixo bem como do governador e da porcaria ou falácia que é o detecta carro chefe da propaganda eleitoral. É uma pena ter mencionado sua opinião e terem divulgado apenas após as eleições.

Mas independente disso a visita na inauguração do templo havia lhe garantido milhares de votos mesmo se o citado fosse divulgado antes das eleições de nada adiantaria. Portanto pode-se compreender porque e quem perdeu no primeiro turno ao acreditar que apenas com presença do eleitor histórico (Lulalá) e na crença que ainda exista base política forte na periferia como antigamente e a favor do seu partido pudesse eleger candidato a governador, senador e presidente facilmente, sem grandes entraves. 

Ou iludiu-se ao julgar que os cristãos ultraconservadores seriam fieis à senhora porque visitou o templo e marcou presença como autoridade máxima, os números do primeiro turno mostraram que não, tanto é que pretendem ser oposição com o mar de lama instaurado na política e obviamente contra a capetada que usa vermelho, a cor do diabo (portanto são os filhos do cão, são eles os sovietis, venezuelitas, bolivaristas, cheguevaristas, comunis, socialis, anarquis bem como todos do petê e humpft haja paciência eim com tanta ignorância, ainda bem que encontro teses defendidas por cristãos com viés marxista às vezes até mesmo anarquista, o que ajuda a ter esperança na vida e nos outros).

Mas rapaz, vê se não é de lascar! E dá uma vontade danada de dizer -  vai orar e buscar o conhecimento de Deus e dos homens que faz bem e ajuda a viver e tomar vergonha na cara! Pois Deus não muda você, se assim você não quiser, pois Ele tem mais o que fazer, é muita gente para olhar e transformar se assim quiser, do que insistir com gente que não enxerga o cisco ou trave nos próprios olhos. Fica só no vem com Deus no vai com Deus e ignora o mundo ao redor servindo de servo para homens que não querem saber de nada além de dinheiro. Não é apelo para sair da igreja mas sim compreender que Deus não se resume em dinheiro e no ter na forma mais capitalista e selvagem impossível. Vai se converter em cristão diacho de gente sem noção!

Não bastasse isso resta também à ascensão de outra ala ultraconservadora. Não tenho outra palavra para definir quando policiais reacionários ocupam cargos públicos com disseminação da defesa da violência para redução da criminalidade, redução da maioridade penal (a discussão iniciou aqui) e principalmente ao querer revitalizar ideias já ultrapassadas, resolvidas pelas linhas da história do país. Ou alguém acredita ser possível em pleno século XXI dividir o país ao meio, com a união do sul e sudeste separando-os do restante do país. E posso concordar desde que toda mão de obra e todos trabalhadores nordestinos (domésticos, prestação de serviços, pedreiros, garis etc) e descendentes possam ir embora e deixá-los a morrer no mar de ignorância e cemitério de cidades.

Não sou contra a ocupação de policiais em cargos políticos desde que não sejam retrógrados, reacionários e ultraconservadores principalmente ao tentar culpar nordestinos e culpabilizar os 30 milhões de votos nulos (fruto da decepção com políticos e partidos) como responsáveis pelas mazelas do país ou do resultado das eleições (ganha democraticamente e sem dúvidas quanto à vantagem) como o coronel julgou e acusou de forma equivocada.

É necessário se desprender de roupagens velhas da década de 30. E compreendo que exista avanços na perspectiva de segurança pública para repensar algumas questões, prova disso são as discussões promovidas por um grupo de policiais baianos na divulgação de ideias, propostas, indagações através do site abordagem policial para melhor compreensão de como podemos crescer intelectualmente e politicamente seja no debate ou no intuito de nos organizar politicamente principalmente enquanto pessoas que querem de fato uma mudança e não a conveniência de alguns privilégios apenas para poucos e de maneira restrita.

E não se enganem há de ser anos difíceis principalmente pela cegueira que insistem em se manter para não enxergarem que as injustiças e mazelas sociais acontecem justamente pela manutenção dos setores reacionários e ultraconservadores. Mas como explicar isso para quem acha que Deus é caixa eletrônico que o templo é banco, que segurança pública  pode ser curral eleitoral e policial reacionário pode ocupar cargos públicos e políticos, porque embora acredite que não deve satisfação a ninguém mais do que seus eleitores o cargo do qual ocupa é público e portanto é direito de todos reivindicar e reclamar se assim precisar. Talvez agora possa também compreender o discurso do guardei a carreira,  a fé e o cinismo. É de doer e gritar feito louca.

Então resta mandar AQUELE ABRAÇO para àqueles que cooperam (especialmente as pessoas do norte, nordeste, minas e rio) de alguma forma seja no voto, seja na luta, na disseminação de boas ideias e propostas que notaram a importância de se posicionar contra determinados tipos de conservadores e setores reacionários, AQUELE ABRAÇO, bem apertado com direito a cheirar o ombro de tão forte, AQUELE ABRAÇO.  

terça-feira, 28 de outubro de 2014

It's evolution, baby

Reciclando textos de 2008, por falta de tempo (e programação adequada, porque 26-quase-27-anos-nas-costas não significam nada se tu não se lembra das coisas, mesmo que tenha uma agenda com tudo anotado).

Aviso aos navegantes: conto + escrita automática. Dê desconto. Ou não. Call me mad. Não seria novidade mesmo.



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Diário de H. R. - dia 37

- Você fez bem em vir para casa, meu amor, se estava tão cansado.
- There's not a place like home - disse Oliveira.
- Tome outro matezinho, acabou de ser feito.
- Com os olhos fechados parece ainda mais amargo, é uma maravilha. Se você me deixasse dormir um pouco, enquanto lê uma dessas suas revistas.
- Sim, querido - respondeu Gekrepten, secando as lágrimas e procurando "Idílio" por pura obediência, embora se sentisse incapaz de ler o que quer que fosse.
- Gekrepten.
- Sim, amor.
- Não se preocupe com tudo isto, minha velha.
- É claro que não, meu bem. Espere que vou colocar outra compressa fria.
- Dentro de um instante levanto-me e vamos dar um passeio por Almagro. É bem possível que esteja passando algum musical colorido.
- Amanhã, meu amor, agora é melhor que descanse. Você veio com uma cara...
- São coisas da profissão, que posso fazer? Não se preocupe. Escute com o Cem Pesos está cantando, lá embaixo.
- Devem estar trocando sua comida, animalzinho de Deus - disse Gekrepten. - Está agradecendo...
- Agradecendo - repetiu Oliveira. - Agradecer a que o tem engaiolado.
- Os animais não se dão conta.
- Os animais - repetiu Oliveira.

(Jogo da Amarelinha, Cortázar, Capítulo 77)


As horas, horas, horas... But I still have to face the hours, don't I? I mean, the hours after the party, and the hours after that... Minha trilha sonora imaginária de piano continua tocando... a mesma batida.. madness...

O silêncio.

O Diário do Esquecimento continua sendo escrito, e não sei ainda se sou eu quem controla esta mão. Não sei onde o limite da minha consciência se encontra. Está tudo nublado. "São os remédios, coração..."

O piano. pam. pam. pam. pam.

A marcha segue.

Não, não que esteja pirando ou algo assim. É que a batida é a mesma, como as de um relógio, e é uma cronometração dos instantes que se passam, como se fosse um tempo controlado, como se.. como se houvesse um controle do tempo. Convenções. O que pode ser escrito pode ser controlado. Neh, only in your mind, baby. O tempo é escrito. Descrito. Mas não existe. Não é controlável. Like DamnGod. O Amiguinho Imaginário de todas as horas de ignorância ou pânico. Onde acaba a explicação ele começa. Não que negue ou aceite Sua (in)existência, apenas nego Sua prepotência, Seu poder sobre tudo, a habilidade de ser absoluto. 

Sua infinitude não me convence. Não concebo em mim a ideia de infinito. Há o conceito, mas não consigo imaginá-lo. Mesmo que um conceito exista, não há a garantia de sua existência de fato. E se, por mim, eu juro, existisse um Deus tão ridículo a ponto de querer controlar tudo, ter esse poder e, ainda assim, obrigar a partir de votos, as pessoas a Lhe adorarem e cumprirem Suas ordens, como se fosse algo natural e previamente estabelecido num contrato onde não estive presente, mas assinaram por mim, eu juro por Sua existência, se pudesse, Lhe cuspiria na cara.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Funk ostentação


No final de semana passado, quase ninguém que mora na minha rua pôde dormir. Até às 4 da manhã, dois carros com som potente (as janelas estremeciam pela vibração) estiveram ligados por umas 8 horas ininterruptas.  A altura do som estava num nível insuportável (pelo menos pra mim), de total perturbação, que abre as portas do inferno que existe dentro da gente. 

Não apenas no meu bairro, mas em diversos pontos da periferia da cidade de SP se realizam os chamados “fluxos” (desconfio que o nome “baile funk” só é usado no RJ), geralmente aos finais de semana, mas não necessariamente. Já vai completar dois anos que ocorrem esses eventos na rua onde moro. Todos os finais de semana eles estão aqui. TODOS. Sinto falta do silêncio e da paz, de poder curtir um lazer tranquilo na minha casa...

Desde que o funk chegou a São Paulo, vindo do Rio de Janeiro, ele abarcou (não apenas, claro) uma boa parcela da juventude pobre e se tornou mais do uma curtição musical, ele é um estilo de vida. Sei que há diversidade dentro do movimento, mas o que ouço no “fluxo” são apenas músicas do tal “funk ostentação”. Basicamente, seguindo a batida forte, jovens e até crianças narram experiências sexuais e ostentam o poder econômico.

Eu sofro vários conflitos a respeito dessa situação, porque sou a favor da ocupação dos espaços públicos, de manifestações culturais e não acredito na resolução de conflitos pela violência. No entanto, ser privada do sono noturno e do descanso do caos da cidade faz a razão ceder lugar às emoções mais do que eu gostaria...

Não sou nenhuma estudiosa do assunto nem nada assim, mas uma possível interpretação desse movimento é que ele revela uma autoafirmação. Se os pais e avós abaixavam a cabeça e entendiam “qual o lugar deles”, esses jovens querem ser reconhecidos pelas cartas do jogo; afinal, não se é “vencedor” quem pode consumir certas marcas e produtos? Seja fruto da imaginação, endividamento de seus pais, etc, não importa: eles vão reescrever suas histórias a partir de um ponto de vista vencedor. Inegável que as músicas ficarão registradas pra posteridade.

Em geral, mudanças sociais começam por uma alteração subjetiva. Colocar-se como sujeito com poder, ainda que objetivamente possa não ser, é um avanço. Contudo, falta o passo seguinte... falta destruir esse jogo imundo e construir outro, não querer ganhar com as regras dadas. Porque esse jogo está com os dias contados, seja pelo fim do capitalismo, seja pelas condições ambientais que põem em risco o Planeta habitável.

sábado, 25 de outubro de 2014

O Amor Não Tem Futuro?

Há pouco, assisti a um documentário chamado O Amor Após Análise, onde uma senhora que creio ser a psicanalista diz que “o amor não tem futuro”. No mundo onde somos bombardeados com a informação que ‘só o amor constrói’, como é possível acreditar que este amor não tem futuro? Meu espanto foi tamanho que precisei pausar o filme e me preparar para o momento que ela diria que tudo não passava de uma grande mentira e que sim, o amor tem futuro, inclusive para mim.
No consultório desta psicanalista, os pacientes contam sobre seus encontros afetivos e passageiros, sempre seguidos da decepção, de alguma frustração imediata e a frase que já ouvimos e dissemos inúmeras vezes: “Esse daqui não tem futuro!”. Futuro pra quem? do que? E onde? Que futuro é este? É o casamento, o filho, a relação duradoura, a estabilidade? Quantas perguntas precisarei fazer e quantas respostas terei de procurar para descobrir que aquele fulano, com quem saí uma única vez, não tem futuro?
“O amor não tem futuro porque é dito no presente. Não é o amor do passado que virou lembrança, tampouco o amor que pode vir a acontecer no futuro que desconhecemos”.
Finalmente, encontro a frase que me faz respirar um pouco mais aliviada, embora assustada com a desmistificação do amor. Ele que é amplo e sem fronteiras. Já reparou que somos nós quem o limitamos? Não se pode amar por uma noite, por uma semana, com mais de uma pessoa, nem de maneira inusitada. São em situações como esta, quando deparo-me frente a frente com as marcações que coloco em cima do amor que lembro da canção de Marisa Monte Nando Reis, gravada pelo Cidade Negra: “Amor que não se pede, amor que não se mede, que não se repete“.
E se o amor chegar em algum momento inconveniente, não se preocupe. De amanhã não passa, ele não tem futuro.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O Facebook, as eleições e a falácia do voto nulo

Esta é minha primeira eleição presidencial no Facebook. Estou me divertindo. Não tinha ideia do tamanho do furor com que as pessoas se atacavam na busca de convencer aquele amigo da pré-escola de que ele é um tamanho idiota por suas escolhas retrógradas e escrotas. Por um lado eu fico feliz porque, ao menos por algumas semanas, os “cientistas políticos” tomaram o lugar dos “comentaristas esportivos” e minha tia deixou de me informar quantos dias, afinal, faltavam para sexta-feira e passou a me enumerar os prejuízos que eu teria ao não votar num candidato cristão. Por outro lado, aporrinha-me o fato de que as discussões, na grande maioria dos casos, são vazias e despolitizadas, baseando-se em toda a sorte de preconceitos e argumentos que não passam por qualquer tipo de reflexão crítica, mas que, pelo contrário, apenas reproduzem o que os donos dos grandes veículos de comunicação dizem.

Assim, nestas últimas semanas têm desfilado por minha timeline todo tipo de eleitores despolitizados. Digo isso porque entendo que despolitizado não é apenas aquele que não se interessa por assuntos políticos, mas também aquele que vota valendo-se de argumentos alheios à política (“votei na Marina em homenagem ao Eduardo Campos” ou “não voto no PT porque o Lula é cachaceiro”), aquele que vota baseado no cômodo senso comum (“voto no fulano porque ele é a favor da diminuição da maioridade penal e, se pode fazer filho, pode ir preso” ou “não voto em petralha, porque ali é tudo corrupto”) e aquele que vota baseado unicamente em pesquisas eleitorais que, diga-se, são encomendadas pelos já citados grandes veículos de comunicação (“prefiro o Fulano, mas voto no Beltrano porque o Fulano está ganhando e Beltrano não tem chance”).

No meio de tanta tonteria, uma das coisas que mais me chamou a atenção é a quantidade de amigos meus que está fazendo apelo pelo voto nulo. A princípio, não acho que o voto nulo seja ilegítimo. Dentro de um contexto democrático, o voto nulo (ou branco) representa o direito pela escolha de não escolher. Também acredito no poder que o voto nulo tem de manifestar o protesto de uma camada de insatisfeitos. Para citar um exemplo, a soma de votos nulos, brancos e abstenções (eleitores que não foram votar) superou o número de votos de quase todos os candidatos para presidente, ficando atrás apenas da candidata Dilma Rousseff. Isso é bastante significativo e pode servir de sinal de alerta de que as coisas não andam bem. A despeito disso tudo, entretanto, acredito que o voto nulo pode significar um tremendo tiro no pé.


Digo isso porque no Brasil os votos brancos e nulos não possuem efeito prático algum. Diferentemente do que alguns dizem, os votos brancos e nulos não têm o poder de anular uma eleição, já que somente são considerados os votos válidos, aqueles que são dedicados a algum candidato ou candidata. Se em uma eleição houverem 100 votos, sendo que 99 destes forem nulos, será eleito o candidato contemplado pelo único voto válido. Não digo que acho justo, mas isso é o que prevê nosso atual Código Eleitoral. Apenas para constar, o mito de que uma eleição é invalidada caso mais da metade dos eleitores optem por anular seu voto, veio da interpretação equivocada do artigo 224 do Código Eleitoral que prevê a remarcação de novas eleições, caso seja constatado que mais da metade dos votos de um pleito foram oriundos de fraude, o que caracterizaria a “nulidade” destes votos. 

Assim, quem vota nulo acaba por fazer com que os votos de quem escolheu algum candidato tenham um peso matemático maior. Pensando de modo totalmente pragmático, podemos dizer que os votos brancos e nulos fazem com que os candidatos precisem de menos votos para ganhar no primeiro turno, fazem com que um deputado precise de menos votos para se eleger, etc, ou seja, o voto branco e nulo torna mais fácil a vida de quem não vota nulo. Isso, ainda pensando de maneira completamente pragmática, soa um grande contrassenso.

Digo isso porque a grande maioria das pessoas que conheço e que vão votar nulo são justamente pessoas que chegaram a esta decisão por reflexões totalmente politizadas e que teriam escolhas, caso optassem por tê-las, bem mais interessantes do que as pessoas que escolhem algum candidato. Dando nome aos bois, tenho certeza que a última opção de meus amigos que votaram nulo no primeiro turno, era ter votado no Geraldo Alckmin para a reeleição em São Paulo. Caso tivessem votado em algum partido de esquerda, por exemplo, mesmo que não o agradassem em sua integralidade (isso é impossível, creio), talvez estaríamos tendo um segundo turno agora.

Os defensores do voto nulo que me perdoem, mas nesta escolha está implícita a ideia de que todos os candidatos são iguais, o que está bem longe de ser verdade. Concordo com a tese de que a democracia não se resume ao ato eleitoral e de que devemos brigar por direitos seja qual for o nome que estiver assumindo o papel de governante, no entanto, é sempre bom poder escolher quem será "o inimigo". 

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Bom, o fato é que no próximo domingo mais uma eleição terá chegado ao fim e as luzes de natal que já observo de minha janela me informam que o ano também segue o mesmo caminho. Estou curioso para saber como vai ser segunda-feira, quando minha tia voltará a me lembrar quantos dias faltam para sexta-feira e quando os comentaristas esportivos voltarão a discutir se a bola bateu na mão ou se foi a mão que, zombeteira, bateu na bola...