Minha mãe é nordestina e virginiana, o que a torna um misto
de praticidade e dureza que não me era fácil entender quando criança. Aquele sentimento
materno de doçura, compreensão e colo em qualquer circunstância era lindo... Na
televisão. Eu achava bem difícil não poder chorar, nunca, nunca, nunca, pois nada
era suficientemente ruim para merecer meu sofrimento. Eu vi minha mãe chorando
duas vezes. DUAS. Na vida. E uma foi no enterro da minha nonna (sua sogra),
mesmo assim ela só chorou um pouquinho. Isso não quer dizer que minha mãe não
sofre, quer dizer que minha mãe é forte.
Eu sou escorpiana, tenho ascendente e Lua em Peixes,
portanto, sou só água. Isso quer dizer que água verte dos meus olhos desde
sempre. Choro muito. Vivemos toda a vida assim. Não deixei de chorar, minha mãe
não deixou de ignorar meus choros. Sou bem grata a ela. Acho que não endureci,
mas aprendi que chorando ou não, a vida tá aí, sempre a postos para me pregar
umas peças, dar-me uns pequenos desgostos e, com lágrimas ou não, tenho que
adotar posturas práticas diante das coisas que me fazem sofrer. Posso demorar
mais ou menos para parar de chorar. Mas vou parar. Isso não é uma escolha.
Sendo filha da minha mãe, essa é a única opção.
Esses dias eu caí uns tombos sentimentais e sofri bastante.
Minha mãe tem o péssimo hábito de não mensurar muito o meu sofrimento, na
cabeça dela é uma coisa que sempre vai passar. Acho que na cabeça dela eu é que
sou forte. Não se trata de desrespeito, trata-se apenas de pular a parte das
lágrimas para a crença que vou tirar de letra. Como dessa vez chorei bastante,
mais que de costume, minha mãe ficou um pouco mais atenta. Como sempre, nunca
deu corda para o sentimento, apenas perguntava, bem mais que de costume, se
estava tudo bem. Foram vários e vários dias assim, ela perguntando, eu
respondendo que não, mas que ia passar. A conversa logo seguia outro rumo,
minha mãe nunca deu atenção demais a sofrimento. Em outras palavras, minha mãe
nunca revira nada de ruim. A vida que dê conta.
Moderna que só, semana passada me mandou um whatsapp: está melhor?
Respondi que sim e, como foi a primeira vez que eu disse sim logo de cara, ela
respondeu: graças a Deus. Expliquei que estava melhor porque percebi que não
havia o que eu poderia fazer, que fiz o meu melhor e que cabia a mim respeitar
as escolhas que ele fez. Quis explicar a minha mãe, detalhadamente, meu
pensamento prático em relação a uma situação que tinha me feito sofrer tanto.
Achei que ela bateria palmas (ela está viciada em manter conversas apenas com
emoticons), ou dissesse outra coisa que mostrasse que estava feliz pelo fato de
eu estar agindo, não sofrendo. Que diria estar contente por eu ter saído dessa,
que eu a orgulhava.
Minha mãe respondeu apenas: ele quem?
Fiquei olhando para a tela alguns segundos. Não era ironia.
Nunca é. Minha mãe estava falando sério. Ela estava perguntando, realmente não
sabia. Tinha esquecido, isso não era mais importante para ocupar bytes de sua memória.
Minha mãe não lembrava mais e, na hora, percebi que também não me importava
mais lembrar. Recordar a gente recorda sempre, mas remoer, martelar, chorar e
sofrer, aprendi com a minha mãe: não. Os ‘7,0’ que tirei nas provas, os ralados
no joelho, as falas erradas no teatrinho, os tombos, as brigas na escola, a
colega pentelha, a professora sem noção, os cortes, os objetos perdidos, as
tormentas que pareceriam não ter fim, as desilusões, as pequenas derrotas
diárias... Fracassos tão pequenininhos que hoje olho e me esforço bastante para
lembrar: quem? quando? onde foi mesmo?
Sábia mãe. Essa filosofia pode ser adotada para um monte de
pequenos sofrimentos que não valem a pena serem levados adiante. É uma sábia
escolha. Espera. Não é uma escolha. Sendo filha da minha mãe, essa é a única
opção.
Fui comprar um amendoim de
uma marca que gosto muito e fiquei sabendo que a empresa faliu, paralisada pela
constante falta de água e luz.
Tenho impressão, às vezes,
que o Brasil vive debaixo de uma lupa, uma visão distorce a imagem e parecemos
maiores do que realmente somos. Mas debaixo do vidro somos pequenos, atrasados, como aqueles países perdidos no mundo, onde os comerciantes e produtores não conseguem andar pra frente.
É tão longa essa história,
tão antiga, tão arcaica. Empresas pequenas que tentam sobreviver, enquanto o
governo se comporta como um tubarão faminto diante delas.
A moça da loja de docinhos me
disse que em apenas um mês cinco empresas deixaram de entregar salgadinhos e
docinhos, fecharam as portas.
Mas quem pode resistir? De um
lado os produtores são enforcados pelos altos impostos, inflação e burocracia,
de outro a natureza aperta e diante de uma má administração a cidade fica sem
água.
Ah, é verdade, nada disso
importa, é carnaval, dias de folia, felicidade e liberdade. Estamos vivos e com
saúde para pular à vontade, é isso que conta, os manuais de autoajuda dizem que
na vida o importante é ser feliz.
Segundo algum estudo que circula pelo Facebook, o Brasil é uma nação de pessoas felizes. Ainda bem, porque é a única coisa que o brasileiro tem, a sua felicidade. O resto, seus direitos e até a água já foram tirados. Mas bom carnaval a todos, pelo menos isso o governo não tirou. Ainda.
Essa coisa do natural matinal que me atrai.
O rosto amassado, cabelo revirado,
Pijama roto, velho e abarrotado.
Ah! Essa coisa do natural matinal.
A preguiça que finda o expediente e não faz hora extra.
A ternura sem batom nem blush, sem esmalte nem sombra
Nem sombra de dúvidas que o cheiro da pura essência, do suor da sua noite
Também vem concatenada com essa coisa do natural matinal que me atrai.
Assim é que tem que ser
Assim é que se conhece alguém.
Na transparência de tua existência.
Do sorriso tímido à torção de teu corpo em nossos lençóis
Toda essa ausência de máscaras te torna ainda mais bela e tenra
E do meu tato à sua pele, ainda a macia e sedosa que conheci
Boceje essa beleza, espreguice essa fonte natural
E é isso que me atrai: O seu natural matinal.
Quero que o tempo passe devagar, quero sair sem destino por
esse mundão.
Quero paz e quero paixão.
Quero ser desafiada, quero ser uma pessoa melhor.
Quero o bem. Quero o bom-humor.
Quero aqueles que amo perto de mim, quero distância do que
me faz mal.
Quero dançar na chuva, quero correr ao encontro de um abraço
apertado.
Quero o que não faz sentido. Quero sonho, quero um livro.
Quero ter pessoas cheirosas e agradáveis ao meu redor, quero
tomar banho.
Quero um cachorro para correr comigo e lamber minha mão,
quero um gato para se aconchegar na minha barriga. Quero porquinhos-da-índia
que não fiquem doentes.
Quero um mundo sem medo e sem maldade.
Quero mais ciclovias pela cidade.
Quero fazer a diferença na vida de alguém.
Quero sossego, quero ir além.
Quero ser mais decidida, mas é tanto querer que fico
perdida.
Quero um pouco de loucura, quero um pouco de razão.
Quero nada, não. Também quero um pouco de solidão.
Sei que astrologia não tem fundamento nem lógica, mas se não fosse por ela, não teria esse pingo de fé que no final do mês as coisas se ajeitem.
Tô aqui, só dormindo e trabalhando, ainda assim morrendo de sono e com uma dívida maior que eu.
Comer engorda e meu peso é uma das únicas coisas da minha vida que eu ainda controlo.
A crise da água tá tão tensa por aqui que agente toma banho com culpa, lava roupa com culpa, sempre que abro a torneira sinto que estou torturado um filhotinho.
Tenho que terminar ( e começar) meu TCC. Estou com uma vontade louca de jogar tudo pro alto, a faculdade, o serviço, minha chefe, meus colegas.
Essa semana passei o esmalte "equilibrista" e lembrei de que quando escolhia a tatuagem que nunca vou fazer, me identifiquei com um malabarista, desde a vontade de jogar tudo pra cima, até necessidade de pegar tudo de novo e dar um jeito de dar certo, entre outras pobres analogias...
Fazendo um esforço para manter a saúde mental, volto em março pra contar se era inferno ou se era vida.
Uns creem em Deus, outros no Diabo. Há até quem espero do capitalismo a redenção de nossas pobres almas. Eu acredito em substâncias. Analiso a tabela nutricional no rótulo dum chocolate com a seriedade dum exegeta, procuro verdades obscuras por trás da quantidade de calorias ou carboidratos dum suco de laranja como um rabino cabalista. Sei que, pela interpretação correta daqueles míseros gramas de fibras, sódio e fósforo, pode-se vislumbrar a verdadeira face de Deus.
Ou do Diabo. Se, na boca do povo, o demônio atende por nomes como Tinhoso, Cujo e Cão, nas tabelas nutricionais esconde-se sob a alcunha de gorduras saturadas, fenilalanina, colesterol, sódio e, duns tempos pra cá, gorduras trans. (Não se deixe enganar por esse nome simpático, com ar de disco do Caetano em 72: as gorduras trans, dizem os especialistas, colam feito argamassa nas paredes das artérias.)
Comecei a temer as substâncias depois da fenilalanina. Não tenho a menor ideia do que seja, mas faz alguns anos que a Coca Light traz o aviso, misterioso e soturno: contém fenilalanina. O McDonald's, ainda mais incisivo, colou um adesivo no balção de suas lanchonetes: "Atenção, fenilcetonúricos: contém fenilalanina". Desde então, toda noite, ao por a cabeça no travesseiro, imagino diálogos como "...pois é, menina, o Fabinho! Era fenilcetonúrico e não sabia. Fulminante. Tão jovem, judiação..."
O cidadão atento deve ter notado que o glúten , de uns anos para cá, também ganhou uma certa notoriedade nos rótulos. "Contém glúten", dizem embalagens de uma infinidade de alimentos, sem mais explicações. Qual é a do glúten? Faz bem pra vista? Ataca o fígado? Derrete o cérebro?
Como bom crente, sei que as substâncias matam, mas também podem salvar. Pelo menos, é o que espero do chá verde. e seus incríveis flavonoides, que venho consumindo com fervor e regularidade nas últimas semanas. Você sabe o que são flavonoides? Pois é, eu também não, mas o rótulo do tal Green Tea avisa, com grande júbilo (e um pequeno gráfico), que uma garrafinha tem quatro vezes mais flavonoides do que um suco de laranja e treze vezes mais do que o brócolis. Diz ainda, à guisa de explicação, trata-se de poderoso antioxidante. Fico muito tranquilo: posso cair fulminado pela fenilalanina ou sofrer os insuspeitos estragos do glúten, mas de enferrujar, ao que parece, estou salvo!
A gente passou a comemorar dois aniversários por ano. Um quando você chegou, outro quando você partiu. E os dois me deixam assim, marejado. Deve ser porque faz pouco tempo que foi a festa da Rainha do Mar, ela mareja a gente também. Deve ser porque eu tenho um rombo no peito pro resto da vida que nada vai preencher. Nem ninguém.
Sabe, Vó, era para eu ter escrito no dia 4, mas pensar em sentir isso duas vezes na mesma semana seria doído demais. Seria pisar em caco de vidro, lembra quando eu cortei o dedão num copo quebrado e chutei o médico que ia suturar a ponto do avental dele ficar igualzinho ao de açougueiro? Pois é, eu lembro que caco de vidro assusta mais que dói, mas dói do mesmo jeito. Escrever no dia 4 iria assustar e talvez no dia 7 eu teria medo de doer.
Então, Vó, hoje a senhora estaria fazendo aniversário cá desse lado do Entremundos. A gente iria fazer um bolo, ou não, iria cantar parabéns, ou não, a gente iria renovar nossos votos de amor, inevitavelmente. Porque a nossa declaração de amor sempre foi a mais linda de todas e ninguém vai superar isso:
"Você sabe que eu te amo?"
"Sim, eu sei porque eu também te amo."
E assim a gente se sabia. Nem sempre a gente tava perto, nem sempre eu fui um bom neto, mas eu me esforcei, sabe? De verdade. Eu sei que a senhora entende isso. A gente se entende tão bem! Até hoje, quase três anos depois que a senhora viajou pro outro lado, eu ainda sinto que a senhora está aqui perto. Eu não sou espírita, então eu não tenho problemas em te manter comigo. Eu nunca te prendi, eu nunca te segurei do lado de cá, porque eu sei das implicações que isso causa; mas de vez em quando, sabe, eu fico com medo e queria que a senhora estivesse aqui comigo.
Vó, eu vou fazer trinta anos esse ano. Trinta! Veja só! Meu cabelo cresceu bastante, eu tô treinando bastante, a senhora tinha de ver! E o engraçado é que eu acho que agora que eu vou fazer três anos. Na verdade, a minha vida começou de novo quando a senhora partiu. Eu tive de aprender a andar, a comer, a dormir, a escrever, a ler, a viver sem a senhora. Eu tive de começar tudo de novo, e eu não queria, mas eu tinha de começar.
Sabe Vó, liga não pra eu estar chorando agora. Eu não gosto que me vejam chorar. Por isso eu falo pouco de ti para os outros. Só que hoje é o seu dia e eu posso. Engraçado como quando a gente fica adulto a gente tem que ter desculpa pras coisas né? Desculpa pra rir, desculpa para chorar, desculpa para fazer alguma coisa, desculpa para deixar de fazer. A gente fica velho e fica devendo obrigação até sem querer. Então é bom eu chorar, deixa, vamos conversar. São tão poucas vezes que a gente pode né.
Vó, eu sinto muito a sua falta. Às vezes, nos meus sonhos, eu sou teimoso e vou atrás de ti. Te caço nos lugares que sei que a senhora poderia estar nas minhas memórias. Mas é difícil encontrar alguém quando a gente tá tão envolvido. Parece que o coração da gente pesa na mochila e a gente não consegue caminhar veloz. Das vezes que te encontrei, lembra Vó, a senhora não queria falar comigo ainda. É justo, eu sou grudento né? Precisava de um tempo para eu não sofrer nem te fazer sofrer.
Vó, eu vou me despedindo. Para matar um pouco a saudade, eu fiz aquela gelatina colorida que a senhora amava. Quase seis quilos! Levei para o meu trabalho, como se fosse comemoração. E era. O que a senhora me ensinou, ninguém nesse mundo pode tirar. Na verdade, ninguém pode tirar a senhora de mim.
Eu sofro Vó, todo dia um pouquinho. Eu escolhi isso. Antes o resto da minha vida sofrendo de saudade que mais um dia de sofrimento teu por dor. Sabe, Vó, quando a gente ama a gente liberta. Porque só o Amor é capaz de deixar ir, e ainda assim se manter.
Obrigado, Vó. Por ter feito de mim um homem, e mais que isso, um homem feliz. Eu carrego comigo o melhor da vida que vivi enquanto tinha sua companhia. Eu aprendi tanto contigo desse lado de cá! E, quando chegar o dia e a hora, a gente se vê de novo, não é?
Até lá, eu vou cuidando do jardim, fazendo a coisa ser o melhor que puder.
Na última mensagem mencionei que o
fato de não conseguir por semanas e meses movimentar [para sentir as correntes
que prendem] foi um dos motivos do ano passado não ter sido totalmente
incrível. Hoje, ano de 2015 praticamente um mês depois reafirmo e mantenho a
seguinte conclusão - não movimentar-se é terminantemente prejudicial à saúde,
ao cérebro e a vida.
E para realizar qualquer movimento
seja qual for e para onde é essencial o ir e vir com dinheiro, ou por acaso
você acreditou na estória da liberdade [democrática]? Mas que dó meu Deus, na
verdade, sinto é muita pena da ingenuidade alheia. Confesso que até tentei creditar
alguma verdade nisso, mas a realidade [do não movimento na liberdade] foi mais
forte. Tanto é que de 2013 a 2014 me
tornei - livre - de algumas obrigações cotidianas para me tornar - prisioneira
da liberdade sem dinheiro.
Então depois de perceber que a
liberdade de ir e vir não são nada sem o dinheiro só posso concluir que o ato
de se movimentar é essencial para manter-se ativo e vivo. E sendo os princípios
democráticos tão alinhados ao princípio de ir e vir e da liberdade só posso
concluir que o ir e vir não pode ser cobrado ou se cobrado deve ser um preço
tão acessível que até mesmo as pessoas que estão à margem, na total exclusão de
quaisquer direito [por exemplo, uma pessoa em situação de rua] possa ter
condições mínimas de acesso. Então falamos de $1 real?
Mas são tantas vezes em que se procura um real
no bolso e não se têm. Perdi a conta de quantas vezes no ano passado não pude
ir a locais que queria muito por falta de dinheiro para passagem. O ir e vir no ano passado não se tornou mais
restrito porque tenho pessoas especiais na vida, por exemplo: ela um laço de
amor e sangue para toda vida, ele ao conceder o vento no rosto, passeios
inusitados e fora de hora e por fim elas: amigas [as de sempre e queridas] que
cooperou ao disponibilizar crédito no bilhete; se não fosse com certeza teria
enlouquecido por completo e sem direito à lucidez mínima, tamanha era a
liberdade sem dinheiro.
E qualquer desejo, vontade ou sonho requer um [ou
vários] movimento. Por exemplo, todo início de ano existe aquele hábito de
fazer a lista dos desejos a serem realizados, normalmente aliados ao futuro [como
se o cotidiano não existisse]. E normalmente a lista é feita no começo do ano
quando o sujeito está mega animado e acredita que naquele ano existe [como se
todos os dias não tivessem] uma nova oportunidade de realizar o que não
conseguiu durante toda vida.
Daí parece que muitos esperam pela
fada dos desejos ou o papai dos pólos que estão derretendo para realizar suas
vontades, desejos e sonhos; ou na pior das hipóteses acredita no menos
provável, na chance uma entre milhões e realiza o tal bolão e fazem figas e
pulinhos e pensamentos positivos para ganhar na Mega Sena que nunca antes soube
de quaisquer amigo do amigo de outros amigos distantes de alguém ter ganhado o
almejado prêmio. E se acaso ganhe, pronto, acredita que está resolvido todos os
problemas da lista dos desejos, pelo menos aqueles que têm cifrões. Mas apenas
um problema está solucionado e os problemas dos outros? Será que cada um vive
numa redoma e não estou sabendo, podendo se isolar e achar que quando o seu
problema está resolvido o dos outros pouco importa?
Em algum instante o movimento destes
[ excluídos pela liberdade sem dinheiro] irão atingir o[s] ganhador[es], seja
num plano macabro de assassinato para tomar posse da herança ou alguma situação de violência decorrente da liberdade democrática sem dinheiro. E normalmente estes planos são formulados por parentes malignos, sabe aqueles parentes que são íntimos do chifrudo que vivem atrás de conversinha e não tem coragem para debater o assunto cara a cara. Destes quero distância, pois só atrasam o lado para não dizer que em nada
acrescentam apenas sugam energias e o restinhos de quirelas dos pobres. Mas antes pobretões assumidos do que zé
polvinho que come arroz e feijão e arrota caviar é melhor se assumir do que se achar os burgueses porque tem uma casa ou algumas, um carro ou algum dinheiro e se acha os ganhadores [fala sério pelo amor de Deus né
pequenitos burgueses]. O pior é que você não ganha nada, nem rifa de escola quem dirá na Mega Sena e infelizmente não faz parte dos 67 premiados mundialmente [isso é burguesia
o resto é apelido e conversa mole!!!] que acreditaram no poder da grande [e iluminada] ideia ou
ainda na força do trabalhe [por toda vida] e conquiste o mundo. Acreditar que
alguns afortunados do globo terrestre são verdadeiros ganhadores da Mega Sena é
um enorme descalabro.
Mais ou menos como acreditar nas
informações de alguns jornais sabe; do tipo, em toda existência nunca conheci
alguém que fora entrevistado, mesmo assim é anunciado que tal informação
data-alguma-coisa foi baseada em tantos e lá vai cacetada e a margem de erro é
reles, portanto considere como verdade. Então será que são realizadas via
internet, inclusive há uns 40/50 anos atrás, vai ver é por isso que a gente
nunca sabe de alguém ou conhecido deste século e de outros que foi entrevistado.
Pois é. Mas tenho que admitir um rastro de avanço ao ver a cobertura das
manifestações deste ano, também pudera e o medo de ser chamado [de novo] de mídia
golpista
E retirando do campo da
individualidade se não isso aqui vai longe e re-passando para o coletivo considero
[sem pestanejar] as Jornadas de Junho de 2013 o maior e mais importante
movimento coletivo dos últimos anos. Exagero? Vaidade? Literalmente nos achando
os únicos revolucionários? Não. Nada disso. Mas explico depois pode ser?
No momento não posso perder tempo, porque
vou à pé buscar o Bilhete Único Mensal, ativá-lo pela internet e ler com a
máxima atenção aquele contrato que assinei virtualmente e saber exatamente como
funciona, por quanto tempo e quais os reais benefícios para o usuário, depois preciso ir para outros lugares resolver
questão domésticas de preferência à pé para que sobre, se bem que ao
acessar a net pela Lan House não sei se vai rolar. Pois é faço parte também dos que não
conseguiram pagar a internet neste mês e portanto foi cortada mais precisamente ontem ou que pagam a fatura atrasada; enfim quem sabe sobre algum, os exatos $3,50 para lá pelas 18:30/19 horas compareça na Paulista para movimentar e ao mesmo tempo organizar o meu tempo e voltar pra casa sem gastar mais; ou
seja tenho que me programar para que tudo aconteça em três horas. E caso aconteça de ir vou e digo não ao aumento, se não conseguir me comprometo para outra vez que seja no
centro.
Na lista dos desejos deste ano
consta uma vontade imensa, inenarrável e indescritível de movimentar bastante,
ademais e muitíssimo. Nunca é demais mencionar que para que esse movimento
ocorra é obrigatório ter os famigerados $7,00 reais [para ida e volta, dependendo
da distância e do tempo, se for mais longe é bem mais].
Tem sido importante ver alguns movimentos,
certa apropriação dos espaços públicos mesmo que mínima, mas não se pode
esquecer que para cada um é tratado de modo diferente. Não posso determinar o
seu movimento talvez possa criticá-lo, mas dependendo da pessoa isso não faz
diferença; também não posso exigir que se livre da inércia e aproprie-se do
movimento, no máximo posso realizar algum movimento – como o que faço agora em
te escrever na tentativa de fazê-lo compreender o quanto é importante e
essencial, o ato.
E quando penso em movimento é
automático aliá-lo ao estudo de uma forma geral [e óbvio obrigações
cotidianas] sendo mais específica tenho prazer quando o movimento significa ir
às aulas públicas, atos, seminários, palestras, cursos, shows [porque ninguém é
de ferro] museus, teatros, parques ou simplesmente estar em qualquer canto que
queira para apenas observar, contemplar, sentir, ouvir, ver e para isso preciso
[minto, na verdade necessito] que o direito de ir e vir não seja aprisionado ao
dinheiro, portanto que a passagem custe ZERO; se não, que ela estagne em mais
quatro anos em três reais até que ocorra aquele movimento geral para unir todos
na redução [para zero] da passagem e consequentemente no custo de vida.
Ainda não compreendeu?
É uma pena, mas sou péssima em
desenho, normalmente são todos fora do contexto e padrão básico e aceitável, então
segue o convite [para liberdade]:
PS: A data já foi, mas a chamada é massa e o dia do ato é hoje no vão do Masp às 17 horas, bora?
No ônibus, Antônio sintonizou o rádio numa estação que tocava Jazz e, quando percebeu, estava no volume máximo dos fones de ouvido. Gravou mentalmente as músicas que passavam. Johnny Rogers era o saxofonista. Johnny Rogers era um homem de poucas palavras, o rádio disse. Chegou em casa, e tudo o que pensava era em Johnny Rogers.
Casa-trabalho, trabalho-casa, esta era a rotina do cidadão. Não era importante, não era notado. Mas agora, se perguntassem alguma coisa, poderia dizer de Johnny Rogers. Ao menos, não o achariam ignorante.
Agora, todo dia ouvia a rádio. Escutava a música, mas queria Johnny Rogers, o homem de poucas palavras.
Em casa, acendia o cigarro e ficava ouvindo Johnny Rogers em sua cabeça. Tocava um saxofone imaginário, mas com a cautela de nunca imitar com exatidão, não porque não quisesse, mas porque achava que não merecia. Johnny Rogers era um homem de poucas palavras, era inteligente, com certeza. Quem fala pouco, erra menos. Johnny Rogers não errava. Ele, Antônio, errava. Não falava muito, não sabia o que falar, olhava pra baixo, evitava olhar nos olhos, por medo de ofender, falava quase que para dentro, pra não incomodar demais. Acabava, então, com um andar desajeitado, de quem tem medo de ofender até a grama em que pisa.
Sonhava com Johnny Rogers. Sonhava eles dois sentados, ouvindo a música em suas cabeças, e não falando nada, porque não precisavam falar, se entendiam. E Johnny Rogers achava que Antônio era um sujeito digno. Que não se pode desprezar camaradas assim, que são eles que mexem nas rodas do mundo. E admiravam as músicas.
Ao longo do tempo, depois de tanto entender Johnny Rogers, achou que poderia ser mais ele. Afinal, um cidadão de poucas palavras erra pouco. Começou olhando as pessoas nos olhos, e foi ficando quieto. Se lhe perguntavam algo, olhava para o infinito, pensando na resposta mais curta possível, e se decidindo por um aceno de cabeça, no final. Com uma certa expressão de quem tem mil e um nós dentro dos miolos, prestes a entrarem em pane total. Um pouco mais saxofonista, e foi enfrentando as pessoas do ônibus de cada dia. Já que não era certo tratar um cidadão de bem no empurra-esmurra-sai-pra-lá.
Johnny Rogers, pensava ele, não devia ter medo de ninguém. Se lhe ameaçavam alguma coisa, já devia tascar um olhar de quem consegue ler os pensamentos, soltando um “não” indiscutível. Johnny Rogers poderia beber doses e doses de conhaque e continuar sóbrio. Johnny Rogers não discutia, porque sabia que ele estava com a razão. Johnny Rogers falava pouco, então, quando falava, era apenas uma vez. Quando ameaçava, também. Johnny Rogers não ficava onde não queria. Johnny Rogers sofria de um incrível amor por si mesmo. Johnny Roger podia até matar. Porque Johnny Rogers podia. Ninguém enfrentava Johnny Rogers. Ele tinha seu saxofone dourado e brilhante, que tremeluzia como um lagarto dançando por entre a luz das velas.
No sertão nordestino, os vaqueiros usam roupas de couro
grosso para se protegerem da vegetação árida e espinhosa que machuca. Elas são imprescindíveis para enfrentar a dura
rotina na caatinga.
Amorosa é o nome de uma dessas plantas contra as quais os
vaqueiros se defendem. Impossível conter o riso no canto da boca quando ouvi e
vi a tal planta. “Amorosa... amorosa...” Sim, como duvidar que o amor fere? Como
criticar aqueles que se aproximam dele com capa protetora, afinal, já foram
feridos antes?
O amor dói. O amor pode levar a loucura. Ou será o desejo? A
culpa é do desejo? O amor é generoso e o problema é a paixão que deixa as
pessoas obcecadas e egoístas? Dizem que o amor romântico é uma criação relativamente
recente, talvez a vida fosse mais fácil sem ele. Mas também mais monótona.
Amorosa
Há poucos dias saiu uma matéria no “El país” comentando
sobre um teste realizado pelo psicólogo Arthur Aron, cuja proposta era fazer
dois estranhos se apaixonarem. Como? Uma série de 36 perguntas capazes de
promover a intimidade entre os dois. Ao que parece, a experiência é bem-sucedida.
Será mesmo possível se programar para amar alguém? Será
mesmo que a paixão é apenas uma combinação de processos bioquímicos e,
portanto, manipulável? Se for apenas
isso, só não me sinto tão ridícula por todas as vezes em que "cai de amores" por alguém, porque o mundo das artes está repleto de tolos como eu...
Gosto de lavar as mãos quando chego da rua. Às vezes, o rosto. Tendo nascido em um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, sou muito calorento. O que não quer dizer que eu tenho muitos calos, mas que sinto muito calor. E acho normal fazer isso. A gente anda de metrô, ônibus, carro, táxi, encosta em lugares onde todo mundo segura e depois vai comer alguma coisa. Melhor lavar as mãos. Ainda que garanta menos anticorpos no organismo, acho uma medida sensata.
Soube de alguns casos no norte do país - lá, onde é muito mais tropical do que onde moro - em que os donos das casas recebem seus familiares com uma toalha e uma indicação: "vá lá, tome um banho". Gostaria muito de saber se isso é uma prática de mais pessoas ou uma coisa isolada. Se o corpo humano é composto de 70% de água, eu provavelmente suaria uns 30% de mim num lugar assim. De repente diminuiria de tamanho, como uma esponja.
Divago.
Muito se fala em crise hídrica e em como as pessoas não perceberam ainda a profundidade desse problema. A falta de profundidade dos reservatórios de água. Um de meus irmãos e sua única esposa foram a um restaurante outro dia que não tinha água no banheiro, só aqueles frascos de álcool gel. Ficaram se perguntando de onde viria a água para lavar os alimentos, os pratos. Na dúvida, acharam melhor não pedir suco. Vira e mexe alguém comenta sobre um restaurante que não abre no almoço por falta de água. É, a piada do restaurante fechado para almoço perdeu muito de sua graça. Prevejo finais de relacionamentos movidos pela falta d'água. Namorados deixam para tomar banho na casa do outro, sob o agora falso pretexto de aproveitarem o tempo juntos. É o prejuízo mascarado de sacanagem. E não para por aí. As visitas terão acesso apenas a uma pia ou a uma caixa de lencinhos umedecidos, colocada às vistas de todos. Dar descarga, nem pensar. As discussões de família serão em torno do tempo que cada pessoa passa no banheiro alheio. Reuniões de condomínio, Deus me livre, acabarão em quebra-quebra pelo consumo do sujeito do 102.
Como disse um grande filósofo, vai faltar água para apagar os incêndios.
Uma parte boa da situação é que as pessoas pararam de regar as calçadas com a mangueira. Porque é mais fácil fazer a coisa certa por saber que está sendo vigiado. Lembram do caso do tigre no Paraná que arrancou o braço do menino? Pai e filho se aproximaram da jaula do tigre porque, afinal, ele estava preso, vive em um zoológico, é só um gato grande, que mal pode haver? E ainda se falou em sacrificar o tigre.
Olhar não tira pedaço, como o menino aprendeu. Com sorte, o pai também. Parece que o zoológico tem a obrigação de colocar placas de "Você está sendo vigiado atentamente pelo tigre". Parece que assim todos ficariam a uma distância segura.
Sejamos todos fiscais de nós mesmos, então. É disso que o povo gosta, afinal de contas.
Naquela noite, Matilde decidiu que iria dormir cedo.
A manhã seguinte não admitiria insones, razão pela qual Matilde adiaria mais uma vez o capítulo final de seu livro sobre a voo das borboletas - era bióloga - e se jogaria na cama estivesse ou não com sono. Seu marido ainda não havia voltado da emissora - era animador de auditório - o que daria à Matilde a oportunidade, ao menos passageira, de ter o monopólio de sua cama de casal.
Banhou-se meticulosamente porque não queria macular a cama com tudo aquilo de mais fétido que a vida pública lhe havia legado durante aquele dia suarento. Pulverizou o lençol com essência de amêndoa fresca, a mais nova maravilha da linha de cosméticos que um dia ainda a levaria ganhar prêmios na TV. Programou o celular para as seis e três - lhe abominavam os números redondos - de modo que teria pela frente 8 horas e 12 minutos de puro regojizo. Deitou-se.
Enquanto afofava o travesseiro e o ajeitava de modo a lhe proporcionar o maior deleite possível, ia planejando, mentalmente, o dia seguinte, aquele em que receberia a comissão estrangeira para apresentar os últimos resultados da pesquisa que ela liderava. Iria sair meia hora mais cedo do que o habitual para não correr risco de chegar atrasada. Dispensaria o café da manhã com os colegas da universidade para dar mais uma repassada no material que iria apresentar para os russos - sim, eram russos... pensando bem - pensou bem, Matilde - era melhor ligar para a intérprete russa para confirmar se estava tudo certo para a manhã seguinte. Ainda eram pouco mais do que dez e era melhor ligar agora do que correr o risco de pegar a intérprete em pleno sono. Levantou-se. Ligou para a intérprete que a atendeu com nítido mal humor na voz. Detestava ser interrompida de seus exercícios de calistenia. Sim, estava tudo certo para amanhã. Estaria na universidade às sete e meia, portanto, meia hora antes da reunião com os russos. Sim, ela sabia falar russo. Sim, ela sabia o endereço da universidade, já que tinha sido lá mesmo onde aprendera russo, no Departamento de Letras Orientais, nos anos 90. Não, ela não precisava ficar preocupada. Depois de um "desculpe-me o incômodo" de um lado e de um completamente falso "não foi incômodo algum" de outro, a ligação foi encerrada. Uma poderia voltar para os exercícios de calistenia e a outra - a que aqui nos interessa, quem tiver disposição que escreva a versão da intérprete - voltou para a cama, já que ainda teria 7 horas e 54 minutos para se refestelar em seu colchão King Size com molas ensacadas. Deitou-se. Já não precisava preocupar-se em não ser compreendida pelos russos. Agora, podia dormir em paz. Mas, com tantas horas de sono pela frente, o mais prudente era garantir que suas necessidades fisiológicas fossem atendidas de antemão. Urinaria o que já estivesse a disposição em seu sistema excretor e encheria um cantil de água para que ficasse ao alcance da mão para o caso de acordar sedenta pela madrugada. Levantou-se.
Serviu-se do banheiro como de costume e partiu para a cozinha para encher o cantil. No caminho escutou a maçaneta da porta mover-se. Era o marido que chegava da emissora, ou seja, não conseguiria passar ilesa a uma boa meia hora de conversa. Se tivesse ficado na cama, esse inconveniente não seria necessário, já que teria fingido que estava dormindo e teria ganho um tempo precioso de sono. Entretanto, as necessidades fisiológicas se impuseram e lá estava ela, no meio da cozinha, conversando com o marido sobre seu dia.
- Terminou o livro?
- Não... quero dormir cedo. Deixarei as borboletas pra outro dia. Os russos vem amanhã...
- Que russos?
- Ora, os russos para quem eu apresentarei a pesquisa sobre os aracnídeos...
- Arac... o quê?
- Aracnídeos... bom, deixa pra lá. Não estou com cabeça pra isso agora. E você? Como foi hoje?
- Uma merda...
- Nossa, que boquinha, hein?
- Só teve pereba no concurso de calouros hoje... tive que pular feito macaco pra arrancar meia dúzia de aplausos daquele monte de gente desocupada... riram mesmo foi de mim quando a Maria Eduarda, aquela pentelha do Show Infantil, arrancou minha peruca e saiu correndo com ela na mão "hahaha... o tio é careca... o tio é careca.... tio cabeça de kinder ovo... hahaha"... e o apresentador ainda tentou intervir mas...
Daí pra frente Matilde começou a fazer um chá de flores de macieira e já não ouvia mais nada o que o marido falava. Só concordava com discretos murmúrios e arqueares de sobrancelha. Ela só pensava em acabar logo com aquela conversa enfadonha e tentar dormir um pouco. Mas ele estava disposto a desabafar.
O casamento não ia nada bem. Ela achava que ele jamais tinha que ter largado a repartição onde trabalhava para tentar a sorte como animador de auditório. A vida de escriturário, se não lhe proporcionava regojizo intelectual, ao menos lhe possibilitavam algum conforto material. Ele, por sua vez, achava que ela se interessava mais por besouros do que por ele. Às vezes, sentia-se um inseto perto dela. Ou melhor, sentia-se um animador de auditório mesmo, porque se fosse um inseto, ainda teria alguma chance com ela. O fato é que não estavam na melhor das fases. Talvez tudo se resolveria depois desse encontro com os russos, evento que estava tornando Matilde uma pessoa pior.
- Podemos dormir agora? Você sabe... os russos...
- Sei, sei... os malditos russos... vamos, vamos dormir...
A cantilena do marido havia durado mais do que o esperado - mais do que o humanamente suportável, pensou Matilde - de modo que já passava da meia-noite quando deitou novamente na cama, desta vez ao lado do marido que pulara a parte do banho, desanimando assim o auditório de Matilde.
Agora eram menos de seis horas o tempo que Matilde tinha para descansar e estar fisicamente apta para o grande dia do ano. Agora, o cheiro de amêndoas começara a ficar enjoativo, sobretudo misturado com o cheiro de suor seco que o corpo do marido exalava. As molas ensacadas revelavam-se, por fim, propaganda enganosa, já que cada virar de lado do marido a lançava mais para a beirada da cama. Que noite!
O ambiente nauseabundo a incomodava. Abriu a janela para que o ar puro fizesse alguma frente ao ar corrompido pelo fedor do marido. O ar puro entrou, é verdade, mas trouxe com ele os pernilongos. Eram muitos e vorazes. Matilde estapeava-se na tentativa de acertar algum, mas o máximo que conseguia era provocar vergões em sua pele alva. Levantou-se. O marido não acordava por nada.
Alcançou a raquete elétrica e pôs-se a provocar curto-circuitos noite adentro. Já não tinha mais seu costumeiro amor pelos animais. Queria vê-los mortos! Queria poder dormir para não ficar feito sonâmbula diante dos russos, daqueles malditos russos! Fechou a maldita janela. Preferia morrer sufocada com o fedor que vinha do corpo do marido e daquela amêndoa podre do que ser devorada viva por aqueles insetos! Quem sabe agora dormiria as três horas e dezessete que lhe restavam antes do maldito despertador começar a cantar...
Virava-se, virava-se e virava-se quando chegou a conclusão de que não iria dormir mais, que passaria a noite em claro e que, quando desse a hora falaria com os russos. Entupiria-se de café e cobriria o rosto com camadas e mais camadas de maquiagem para esconder as olheiras e os hematomas causados por aqueles terríveis animais.
Foi quando ouviu a Lady Gaga. Estava pensando nos russos e, quando menos esperava, ouviu os primeiros acordes de "Poker Face". Tempo esgotado. Era o despertador. Levantou-se da cama com cuidado para não despertar o marido. Já nem sentia mais o odor da amêndoa azeda, já devia ter se amalgamado a seus sensores olfativos. Tomou um banho rápido e se emplastou de maquiagem de uma marca concorrente à da essência maldita. Olhou-se no espelho e até que gostou do que viu. "Não tem tu, vai tu mesmo" - pensou. Saiu para o quintal e subiu no patinete - há tempos que largara a bicicleta e passou a ir trabalhar de patinete - partindo em direção ao trabalho!
O trânsito estava bom. Desde que a prefeitura introduziu as faixas exclusivas para patinetes, sua vida melhorara bastante, ainda que essa medida de cunho altamente populista tivesse deixado os usuários de bicicleta profundamente irritados. Em dezenove minutos chegou na universidade. Estacionou seu patinete no patinetário e rumou em direção ao laboratório.
Encontrou-o vazio. Ainda eram sete e três, de modo que ainda tinha vinte e sete minutos para rever o material antes da chegada da intérprete e cinquenta e sete antes da chegada dos russos. Mal colocara o computador sobre a mesa, no entanto, a intérprete assomou à porta... vestida de odalisca.
- O que significa isso? - perguntou Matilde, completamente atônita.
- Ah, desculpe-me. É que o trânsito estava melhor do que eu previa, por isso cheguei mais cedo que o combinado mas, se quiser, aguardo lá fora...
- Me refiro a sua fantasia! Por acaso é carnaval?
- Não entendo... você veio fantasiada de bióloga e eu vim fantasiada de odalisca. É como me sinto bem - disse isso e começou uma performance ali mesmo, convidando Matilde pra dançar também...
Matilde desvincilhou-se da odalisca e saiu pela porta atrás dela. Foi atrás de um segurança. O posto onde o segurança costumava ficar estava vazio.
- Olá, amiguinha! Só tinha dado uma escapadinha para ir ao banheiro, mas aqui estou eu!
Matilde virou-se. Era o segurança. Só que vestido de palhaço.
- Aaaaaahhhhhh - gritou Matilde, deixando escapar toda sua estranheza.
- Calma, amiguinha - disse o palhaço, enquanto tirava uma moeda da orelha de Matilde.
- O que está havendo? Você não era o segurança deste posto?
- E ainda sou! E tenho até uma arma! - disse o palhaço, sacando uma pistola do bolso, apertando o gatilho e deixando Matilde completamente ensopada.
- Ah, minha maquiagem, você estragou minha maquiagem!
- A-há! Você também está maquiada! Quem é o palhaço por aqui? Hahahahaha - ria o palhaço, enquanto enfiava uma bola pelo nariz.
Matilde já estava em prantos. Nunca passara por situação semelhante. Tudo estava dando errado e os russos ainda nem haviam chegado. Resolveu voltar para o laboratório e esperar os russos por lá. A odalisca continuava dançando e assim continuou, parecendo nem perceber a presença de Matilde.
De repente, aparece na porta um caubói - era o secretário, já não estranhava mais nada - dizendo que os russos já tinham chegado e que estavam a caminho do laboratório. Matilde respirou fundo e tentou se recompor como pôde. Até que um barulho vindo do corredor deixou Matilde em estado de alerta. Seriam os russos? Saiu para o corredor para recebê-los mas, para seu total desespero, não eram figuras humanas que vinham ao seu encontro, mas aranhas monstruosamente grandes! Matilde entrou em estado de pânico e começou a correr em direção contrária. A odalisca gargalhava diabolicamente enquanto dançava de maneira frenética. Matilde corria e quando estava chegando no final do corredor, percebeu que estava cercada. Um enxame de borboletas inacabadas vinham em sua direção. Um cheiro insuportável de amêndoas tomou conta do ambiente, até que Matilde ouviu a Lady Gaga.
Um pesadelo. Matilde, afinal, havia dormido e sonhado com tudo aquilo e agora estava atrasadíssima. Que vergonha! Os russos já deviam estar esperando por ela há um tempão. Não terminava o livro sobre as borboletas e agora passaria vergonha na apresentação sobre as aranhas. Que vergonha!
Nem banho Matilde tomou. Deixou o marido dormindo, trocou de roupa, subiu no patinete e partiu para o trabalho. Antes tarde do que mais tarde - aprendera com o marido, que ao menos para lhe ensinar frases de efeito, prestava. Estava mais de uma hora atrasada para a reunião quando estacionou o patinete no patinetário. Entrou no edifício e foi direto para o laboratório. Com olhares entediados, todos os russos estavam lá.
Quase três horas da manhã, resolvo entrar aqui no blog pra escrever meu texto, e eis que havia um que redigi em setembro e sei lá por quê programei pra hoje!
Falo de saudade nesse texto. Resolvi jogá-lo mais pra frente. Quem sabe um dia o use!
Mas decididamente, hoje não é dia dele!
Olá, pessoas!
Como foram de final de ano?
A virada e tudo o mais?
Comigo também tudo suave, obrigado por perguntar.
À medida que ficamos mais velhos, essas reuniões de FDA vão perdendo a magia.
Mas o que manda é que estamos aqui, iniciando mais um ano.
Queria ter falado pra vocês, no ano passado ainda, da rádio online que criei, a Rádio Blog Cast (e se não me engano, falei, não falei?). Mas devido à preguiça correria, parei de fazer.
O carro que era pra ter vindo no ano passado, também miou. Nunca fui de fazer projetos para o ano. O único que fiz, não vingou. Sempre fui adepto do "deixa acontecer naturalmente". Aaaah, amigos... Mas em 2015, ele há de vir! Bem como o trampo novo, com o qual conciliarei o de hoje.
Falado isso, quero comentar sobre um filme que baixei hoje via torrent (preferia alugar na operadora que assino e que me custa os olhos da cara, mas fui informado pela mesma que esses "on demand" ainda não estão disponíveis para a minha praça, sendo assim, f***-se).
Tava meio entediado, e resolvi acessar um site de filmes de minha confiança, pra ver se o mantenedor havia publicado algo de novo, interessante.
Daí, amiguinhos, esse trailer me saltou aos olhos:
Trata-se de "Homens, mulheres e filhos", mais uma daquelas obras escritas e que depois alguém tem a ideia de passar para a tela grande.
Sei não, mas acho que o livro rende mais que o filme.
O trailer vende muito bem o longa. Longa mesmo! Duas horas de muito assunto "educativo" até, podemos dizer assim, mas narrado e contado de uma maneira um tanto quanto devagar demais.
Nomes de peso como Adam Sandler, Jennifer Garner e até o carinha do "A culpa é das estrelas", Ansel Elgort, estão nele. Mas olha...
Fala sobre relacionamentos humanos nessa era maluca de internet.
Os riscos, os perigos, os "descaminhos" que acabam acontecendo...
É bem legal a ideia. Mas confesso que o trailer criou uma expectativa beeeem grande em mim, e o resultado final, pelo menos para mim, não foi lá grande coisa. Nota 6/10.
Terminando o primeiro post do ano, quero parabenizá-lo por chegar até aqui!
É sabido que as pessoas fogem de textos grandes. Olham e pensam "capaz mesmo que vou ler uma coisa tão grande assim"!
Depois de um trailer maravilhoso (mais belo que o próprio filme), a galera do Linkin Park canta pra gente sobre a história de uma menina que não se encaixava bem nesses padrões de sociedade. Pelo menos é o quê sinto no clipe! Numb!
No dia 19/09/2001 foi publicado e se espalhou pela internet um texto de José Saramago chamado “O fator Deus”. Uma semana antes o mundo havia sido abalado pelo choque de dois aviões contra torres que vieram abaixo, gerando um terremoto nas estruturas sociais.
O que me espantou no texto não foi sua sensatez ou coerência, pois isso vindo de Saramago é o mínimo que podemos esperar, mas sim a rapidez com que toda a turbulência histórica havia sido processada e traduzida pelo escritor.
Treze anos depois o desenrolar da história parece ter seguido a risca a análise de Saramago, ao invés do contrário. A árvore do terror plantada onde havia as duas torres gêmeas continua a dar frutos amargos e venenosos. Grande parte desses frutos enviados a contragosto para países que se por um lado não tinham nada de inocentes – como o Iraque de Saddam Hussein – por outro não tinham nenhuma relação com os atentados contra os Estados Unidos.
Nem todos esses frutos foram para o oriente. Como uma espécie exógena, que sem predadores naturais demora para ser assimilada e combatida, as consequências do 11 de setembro chegaram em vários países, sendo o conflito interpretado e combatido de forma errônea.
Os frutos recém-colhidos na França proporcionaram dois extremos, um maciço “Je suis Charlie” por uma ampla maioria que nunca havia ouvido falar na revista ou seus cartunistas, e outro composto pelos que se incomodaram com algumas charges pesadas da revista e sugerindo que outro atentado, na Nigéria, havia deixado dois mil mortos com muito menos repercussão, o que sem dúvida é revoltante.
É triste ver pessoas mortas por terem feito um desenho, seja ele qual for; inaceitável centenas, talvez milhares, de nigerianos mortos sem sequer uma justificativa fajuta. O que faz com que andemos em círculos é a divisão entre “je suis” ou “je suis pas” Charlie.
2015 não começou violento por estes atentados. Essas mortes são a realidade de iraquianos e afegãos há vários anos. A África que foge dos atentados terroristas também deve driblar o ebola, a fome, a miséria. Se não quisermos fazer longas viagens para assistirmos aos atentados diários, temos nossas próprias mortes.
Nossas religiões não fuzilam os que fazem a caricatura de deus (ou qualquer nome que queiram dar), sequer se organizam em milícias que matam para conquistar territórios. Nessa abençoada terra da tolerância e convivência não há preconceitos religiosos! Desde que os religiosos não sejam seguidores da Umbanda ou Candomblé. Também não podem ser homossexuais, independente da crença, já que estes não sofrem perseguição pela religião, mas da religião, e seguem morrendo em massa por uma intolerância hipocritamente negada.
Não tiro a razão de quem é ou não é Charlie, mas ainda (e cada vez mais) sou Saramago. Judeus matam palestinos, árabes matam católicos, católicos matam judeus, todos se matam, todos morrem. Todos estão certos, ou todos estão errados?
Quando eu era pequeno, entre tudo o que eu não entendia na religião estava o segundo mandamento: Não usar o santo nome de deus em vão. De repente esse parece o mandamento que, se respeitado, mais evitaria tragédias.
Aquela garota ia caminhando pelo mundo. Pintava a paisagem que o sol dispensou, já que reconheceu que ela pintava melhor que ele. Essa menina nasceu como as frutas e quando estava madura o suficiente a Terra a acolheu. Quando ela amanhece qualquer constelação fica insegura e sua beleza cheira a manhã.
Ela que ilumina a lua e faz escurecer a noite. Essa menina acalma o mar e faz dele chuva, faz da areia do deserto humanos para amar. A lua se guia por suas pupilas e o universo se revela um devoto de suas vontades. Sua sensibilidade faz baixar o Everest e a geleira mais fria derreter.
O mundo conheceu a felicidade graças a você e a seus olhos.
Minhas férias começaram nesta segunda-feira. Tive que vender 10 dias para poder usufruí-las com um mínimo de dignidade, já que meu salário é irrisório, mal paga as contas. Então serão apenas 20 dias. Pode ser que eu viaje, se a criatividade permitir terminar a tempo aquele roteiro bem baixa renda que comecei. Mas será uma viagem bem curta, lá pro final das férias. Não tenho mais diarista, então como fico em casa mais tempo, sujo mais coisas e tenho mais coisas para limpar. E limpar duplica meu calor. E minha casa é uma miniestufa. Nesses dias que chega a fazer 37ºC, aqui dentro a sensação é de 50ºC. Sério. Nem a geladeira ligada no máximo dá conta de deixar a água gelada. Tenho que manter o ar condicionado funcionando constantemente para me manter viva. Imaginem a conta depois... Preciso economizar na viagem para pagar a conta de luz! Para não passar as férias inteiras neste chororô, decidi ir a casa dos meus pais. Lá, além deles, claro, a casa é fresca e posso rever minhas amigas queridas. Essa é a parte boa, junto com poder acordar mais tarde e não precisar encarar, durante 20 dias, algumas situações/pessoas inglórias do trabalho. Começo a me questionar onde foi que eu errei, já que nas redes sociais o que vejo é gente ostentando suas férias como se estivessem num episódio de novela. Enquanto não resolver o mistério, tentarei tirar minhas próximas férias em um mês bem frio, tipo Julho. Só que aí eu vou reclamar por achar difícil limpar a casa no frio e por ter que ficar o tempo todo sob as cobertas para sobreviver, enquanto vejo as pessoas que estarão de férias, no mesmo período que eu, curtindo um bom vinho com esqui em Bariloche. Bem que meu pai sempre disse: "Férias só são férias se você não precisa ficar contando dinheiro". Não sei se algum dia esse será o meu caso.
Não sou escritora, não sou blogueira, não sou jornalista...
Não escrevo nas portas dos banheiros.
Nunca escrevi panfletos, roteiros, romances....
Escrevo. Digito. E só.
Meu objetivo não é ter muitos leitores, nem mesmo muitos elogios. Nos meus momentos de carência apelo para que meus amigos leiam o que escrevi. Qual é meu objetivo?
Escrevo no "Blog das 30 pessoas". É. E só.
Eu posto. Posso não postar se não quiser/puder. Posso escrever sobre o que eu quiser. Sou livre.
Não é o melhor dos mundos? Só que não.....
O incomodo é bem vindo. É um jeito de olhar com mais cuidado para aquilo que já virou uma rotina e quem sabe encontrar novos sentidos, ou não encontrar nada.
Enfim, como ouvi em algum lugar: FELIZ DOIS MIL E CRISE! :-)
Fui à casa de uma amiga e
ela não estava lá. Sentei na portaria e fiquei esperando.
O tempo passou e comecei a
perceber que eu também não estava ali.
Semana passada tivemos um
desentendimento, coisa boba, no Facebook, mas como somos amigas há anos ela me
ligou e pediu para que eu passasse em sua casa para conversar.
Desde o começo não queria
ir. Não gosto de conversas que já encerrei dentro de mim. Não foi o problema no
Facebook, nos últimos tempos a amizade vinha azedando, mas não tive coragem de
dizer isso a ela e aceitei passar em sua casa.
Mas sentada naquele sofá da
portaria percebi que eu não estava presente, minha mente estava adorando o
atraso dela, assim eu poderia ir embora sem dar explicações. Depois se ela me
ligasse jogaria aquele jargão típico de São Paulo ''ah, não se preocupe, outro
dia a gente marca um encontro’’.
Não seria mais fácil dizer
a ela que não quero mais ser sua amiga? Não, essas coisas a gente não fala,
faz. Pra que explicar, pra que escutar o outro lado se já não temos nenhuma
vontade de continuar ali? Que preguiça essas conversas que não chegam a nenhum lugar! Tentei tantas vezes com diferentes pessoas e nunca deu certo. Cansei, hoje prefiro sair de fininho.....
Pensei em Freud e no
inconsciente, será que minha amiga também deu um jeito inconsciente de se
atrasar porque talvez não quisesse conversar?
Pode ser. Mas se não aguento
ficar sentada pensando nisso vou aguentar sorrir e dizer que está tudo bem? Não.
Resolvi me levantar e ir
embora.
O porteiro disse:
-Não quer deixar recado?
Não, que recado vou
deixar, se nunca estive aqui......
Avistei! A mais bela simples flor com o mais completo perfume. Pequena, frágil e cheia de graça. Me encantou em primeira vista.
E foi dessa que eu quis plantar. Comecei do princípio, da semente. Levei pro meu jardim pra poder me dedicar e ver florescer.
Plantei e cuidei, até que finalmente o primeiro broto saiu. Sorri! Saltei em alegrias em ver aquele pontinho verde espiando para o mundo, espiando para mim!
Enchi me de esperanças e sorria todos os dias pra ela.
Cultivava, cuidava e cresceu mais um tantinho assim. Mostrou me as primeiras folhas, que apareciam como se quisesse me dar um abraço!
Animava-me em vê-la crescer, mas parou. Não quis mais crescer, também não quis murchar.
Queria meu abraço, e eu lhe dava. Queria um carinho, e eu lhe dava. Estagnou ali, sem flor, sem graça, sem delicadeza nem perfume.
O que será que houve? O que será que há? Me dói no peito ver que pareces desanimada. Um dia eu hei de saber?
Sabe quando você
está tão feliz que parece um completo idiota?
Sabe quando aparece alguém para te mostrar o quanto você
parece ridículo e exagerado e acaba com um dos poucos momentos de alegria
genuína? Odeio esse alguém.
Sabe quando tudo deu
errado, seu chefe brigou com você, seu cachorro morreu, roubaram seu dinheiro e
você está super mal, e quer ficar na sua, quieto e triste por que no momento
nada vai te ajudar? Lembra que em várias dessas vezes, aparece alguém para
mostrar que não é tão ruim e que você é exagerado, e não te deixa nem ficar
triste em paz? Odeio esse alguém.
Deixe que eu seja um
completo idiota, eu sei que não é bonito de se ver.
E se não puder resolver meu
problema, e eu estiver triste o suficiente para não querer nem desabafar, me
deixe em paz.