sábado, 27 de junho de 2015

Decrescer



Minha tia está sob a linha que separa a vida da morte. Da última vez que a vi, a coisa só foi piorando. De quando em quando, fecho os olhos e me vêm a imagem do rosto magérrimo, sobretudo dos olhos dela. Talvez porque eu tivesse olhado fixamente para eles, a fim de descobrir a essência perdida naquele corpo supliciado pela doença. Nunca imaginei ver uma pessoa tão magra e desfigurada! 

A esperança de cura e sobrevivência morrem a cada dia que passa. O câncer se espalhou e está em diversas partes do corpo. Ela está respirando por aparelhos. As mãos não se mexem mais. Tanto sofrimento, meu Deus! Às vezes, me pego secretamente desejando que ela morra logo, por que se a cura parece impossível, para quê prolongar a dor? Mas qualquer coisa em mim diz que isso é cruel e que a gente não deve desejar a morte jamais. Às vezes, me vem a ideia poética de que ela está desaparecendo aos poucos, retomando a condição fetal, decrescendo...  

Realmente não sei definir o que sinto a respeito. Não tenho uma tristeza desesperadora do tipo “oh, meu Deus! Como será minha vida sem ela?” Penso que não irá mudar muito. Mas sinto uma tristeza plácida, não aguda, mas crônica. Talvez a nossa unidade familiar seja mais forte do que suponho e o fato de perder um membro é como se tivéssemos perdendo um pouco de nós mesmos. A vida é tão misteriosa... há um ano tudo estava bem, quem poderia imaginar isso agora? Quem determina a vida e a morte? Não fazemos ideia de quem irá envelhecer ou não. Como diz o poeta, “a vida apenas, sem mistificação”.

"O crepúsculo é a fresta entre dois mundos" - C. Castañeda


segunda-feira, 22 de junho de 2015

Ptesiofobia

Vai acontecer de novo.

Eu nunca sei porque sempre caio nessas. É sempre na base da empolgação que eu acabo aceitando viajar de avião. Eu sempre penso nas coisas boas que vou ver durante a viagem, mas esqueço que o meio de transporte mais sensato para viagens de longa distância (sobretudo quando não se tem tempo) costumam ter o péssimo hábito de viajar há 11.000 metros do chão. Onze. Mil. Metros. Considerando que não tenho asas e minha aerodinâmica mal me permite saltar 1 metro pra frente, não considero 11.000 metros uma altura adequadamente segura. 

Não é de Deus voar. Sempre que subo aquela escadinha e entro em um avião eu me cago de medo vejo o cinismo estampado no rosto de cada membro da tribulação tripulação. "Huahuahua... você está em nossas mãos!" é o que na verdade eles querem dizer quando nos dão "Bom dia e obrigado por voar conosco". São uns sádicos. E quando já estamos todos presos, de portas fechadas, cintos afivelados e sem mais possibilidade de fuga, eles começam uma pequena sessão de tortura, que costumeiramente chamam de "Orientações de Segurança", que nada mais é que um lembrete de que aquele avião pode perfeitamente cair a qualquer momento e que aquela poltroninha apertada em que você está sentado pode lhe servir de bote se o avião der a sorte de cair na água. Coisas muito adequadas e reconfortantes para se pensar quando se está prestes a decolar.

Simplesmente não consigo fazer nada nos 10, 15 minutos iniciais de voo, só consigo ficar respirando bem fundo e pensar em tudo o que foi minha vida até ali. Enquanto o avião não decide o que quer (se quer ir pra direita, se quer ir pra esquerda, se quer cair) eu fico lá, prestando atenção em cada barulhinho diferente e segurando fixamente no banco da frente (claro, como se o fato de eu estar me segurando fosse me salvar de alguma coisa no caso de um treco daquele tamanho cair). Só me "tranquilizo" quando vejo as aeromoças passando com o carrinho de comida. "Se elas são capazes de andar, empurrar um carrinho e sorrir é porque deve estar tudo minimamente sob controle".

Lembro que em minha primeira viagem de avião tudo isso aconteceu de uma maneira muito mais intensa do que agora (que cometo esse tipo de loucura com mais assiduidade). Desde o primeiro minuto de viagem ouvia um barulho nada bom, algo como um motor enguiçando ou uma turbina sendo invadida por pombos. Era um barulho que ia e vinha de tempos em tempos e durava uma fração de segundo. Minha companheira dizia que era pra eu relaxar, que não devia ser nada grave. Eu olhava pros lados e via todos calmos, alguns até dormindo tranquilamente (odeio as pessoas que conseguem dormir numa situação tensa dessas... eu só dormiria se entrasse em coma). Somente no fim da viagem que eu consegui identificar a fonte do barulho terrível: era o passageiro da frente folheando o jornal.

Só sei que mês que vem vai acontecer de novo. Três dias de caganeira prévia, a tortura das orientações de segurança, os barulhos horripilantes, as reflexões sobre o sentido da vida e a entrega total do controle de minha vida para o sujeito sorridente que me receberá com um cínico "Bom dia e obrigado por voar conosco".

Ah, e quando o avião finalmente pousa e você pensa que o jogo está ganho, você se dá conta do óbvio: ainda tem a viagem de volta...

...

Bom, até o próximo dia 22 (se nada der errado no dia 21)



domingo, 21 de junho de 2015

Audiopost nº 01! O primeiro! De muitos! Talvez...!

São quase três horas da manhã do dia 22.










Deveria ter saído nesse domingo, mas como fiquei o dia todo fora, e esqueci de programar o post, coloco aqui, já pedindo minhas sinceras desculpas!
Espero que curtam! Abraço!





Desculpa! Tinha esquecido o clipe!
É os sono!
Tá aê! Valeu!

sábado, 20 de junho de 2015

A injustiça da justiça

Em uma terra não tão distante a população recebia um salário médio de R$1.817,00. Não é necessário um conhecimento profundo de estatística para saber o quanto uma média pode nos enganar. Graças à gritante desigualdade social a média salarial maquiava o salário mínimo, que não chegava na metade da média. Era de apenas R$788,00.

Muita gente ganhava somente um salário mínimo, ou um pouco a mais, não para se sustentar, mas para sustentar a família, pagar contas, comprar comida, roupa, cuidar dos filhos. Se morasse longe tinha que pagar transporte – caro e ruim –, quem não tinha casa pagava aluguel, sem plano de saúde tinha que correr para hospital público, que as vezes não era exatamente um hospital.

Esta mesma terra contava com juízes e promotores. Trabalhando intrinsecamente em prol da justiça, esses profissionais tinham teto salarial de R$33.763,00. O salário inicial da categoria era catorze vezes maior que a média nacional, o que já os colocava entre o 1% mais rico do país.

Não havia meios legais de aumentar o teto salarial. Cá entre nós, não havia a menor necessidade de aumentar esse valor obsceno. Mas estamos falando de uma terra muito particular, com características curiosas. Com pequenas variações entre os Estados da federação, juízes e promotores contavam com 32 benefícios além do salário.

Além da estabilidade, dois meses de férias anuais, alimentação, transporte, saúde, verba para escola dos filhos, verba para livros e material de informática, etc., os profissionais passaram a ganhar auxílio-moradia de R$4.377,00, mesmo se já tivessem casa própria, que dava à União uma despesa extra de R$1,53 BILHÃO, em tempos de crise econômica e ajustes fiscais.

Em alguns casos mais extremos o total recebido no fim do mês girava em torno de cem mil reais. Aquele salário inicial, somado aos generosos benefícios, ficava 23 vezes maior que a média nacional. Parece bom, mas note que somente 28% da categoria estava satisfeita com a remuneração. Talvez por terem que trabalhar exaustivas seis horas por dia, três dias por semana.

Mas não pensem que a população dessa terra não se indignava. Em cada canto do país havia pessoas inconformadas, formadores de opinião se posicionavam contrários, jornalistas escandalizados dedicavam páginas e mais páginas para se posicionarem contra a bolsa de, em média, R$160,00, que o governo desta terra pagava para quem não recebia nem 0,5% do teto salarial de juízes e promotores.

Esses mesmos indignados também reclamavam bastante de imigrantes que chegavam no país, fugindo da miséria de algum canto do mundo. Alegavam serem pessoas que viveriam sem trabalhar e viveriam à custa do governo, impedindo o crescimento do país. Como eu disse, estamos falando de uma terra muito particular.



sexta-feira, 19 de junho de 2015

A responsabilidade incoerente de se racionalizar o sentir

O desejo de ter você de volta me tortura por não saber se meu coração é um egoísta insensível por te querer sob o risco de te ferir de novo, ou um sensível captador de oportunidades únicas de se ser finalmente feliz. O ruim de quando um coração grita alto assim é que a cabeça acaba por ouvir e decidir travar uma guerra por prevenção. Seguir o coração, embora pareça ser sempre a opção que mais alivia, nos torna conscientes da responsabilidade de ter ignorado os avisos de perigo emitidos pela razão.
Eu só queria poder garantir que você não vai sofrer. Mas a única garantia que posso dar é de que eu não quero que você sofra.
Ah...! Pobre de mim por te querer bem melhor que a mim. Mais fácil seria se tivesse nascido com o egoísmo insensato dos que vivem por impulso, ou com a objetividade corajosa dos dominados pela razão. Tinha que ser eu o abrigador de duas forças tão fortes que acabam por brigar eternamente sem que a guerra defina finalmente um vencedor?

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Memórias dos dias 18

 E o dia 18, como fiel companheiro, novamente aparece no calendário trazendo consigo, um dia lindo de céu muito azul e de cores tão vibrantes que me faz sentir a vida de cada átomo que cruza meu caminho.  Trouxe tristezas, esquecimentos, deveres, lágrimas, sorrisos e momentos que podem ou não ser esquecidos por minha seletiva memória. Memória essa que só eu sei que existe, que conhece cada singularidade desses pensamentos, tão particular que se encontra arquivada nos meus poucos neurônios que talvez me criaram e me permitiram criar meu mundo e que nele existo e faço outros existirem também. E é bom saber que nas memórias de outros eu existo e provavelmente existirei por mais alguns longos anos...  Quem sabe até séculos? Se tiver sorte. 
 De quantos dias 18 eu me recordarei? Quantos dias 18 serão tão importantes para que fiquem registrados fervorosamente em minha memória? Qual critério usarei para julgar a importância de recordá-los? Haverá tantos dias 18 numa vida terráquea tão rápida e tênue?
 Será que as decepções e ilusões desse dia serão esquecidas? Será que é importante relembrá-las? Será que alguém lembrou de mim nesse dia? E de quem eu lembrei? Decerto, daqueles que todo dia me lembro. E o que seria de nós sem as memórias? O que seria de nossa vida sem ninguém para recordá-la? Que pena saber que uma vida ficaria esquecida no espaço-tempo pelo resto da vida de outros. Como é angustiante pensar que a energia vital de minha memória é a minha vida e que a minha vida não existiria sem minhas memórias. E por quanto tempo continuarei viva nas memórias de outros depois que morrer? E se eles me esquecerem? A minha passagem por aqui apenas ficará perdida num espaço-tempo qualquer?
 A única coisa que talvez possa afirmar é que os dias 18, como companheiros fiéis, sempre voltarão e que se eu sou passageira, eles não. 

terça-feira, 16 de junho de 2015

Me explica que que é o corpo, mamãe?

A menina lança essa junto ao abraço quente, suado, de quem se esgueirava descalça pelo quarteirão nem dez minutos antes. Um sorriso torpe em contra-plongée, o queixo apoiado no cinto da mãe e o coração batuqueando-lhe a cintura.


[corpo curvilíneo de gravidez recente, corpo carimbado da cesárea que hoje lhe afaga aos pés do lar, corpo amarelo, branco, corpo escuro - ei, bela mulata | ou | parece encardidinha | ou | tu não é negra-negra | ou | ... - corpo maculado, profanado, menstruado, abortado, feito para a estante, para o tanque, para amante, para samba-salto-dez e só, sem alargar opções que o bi-o-ló-gi-co não condiz, cê sabe, corpo de família, mas que não se ama, corpo antiestético, paradoxal, corpo esmorecido no tranco da condução diária, escorraçado no plural de tantos corpos, corpo coberto para não incitar, corpo invadido por não evadir, corpo que tão perscrutado torna-se coisa-outra que não corpo, coisa-amorfa.]


A mulher, ainda com mão na chave - que dependurada, balangava atada a um badulaque de nossasenhoraparecida - apertava o metal na palma encardida de rua, olhos atônitos, imagem tácita.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

C de coração

Neste último mês minha vida mudou completamente de direção.

Todos aqueles projetos em execução que configuravam um plano “B” (já que todos os planos “A” da minha vida só funcionaram para me fazer aprender a lidar com a frustração), tiveram que dar licença para o plano “C”, que chegou chegando, sem se importar com o que eu achava e sem me dar tempo para reagir apropriadamente.  Mas eu não podia reclamar. Um plano “C” era tudo o que eu queria.

Eu estava insatisfeita com o rumo para o qual minha vida se direcionava  e precisando de fôlego, de novas perspectivas. Obviamente, como tudo na vida, para abraçar essa nova etapa precisei abrir mão de coisas importantes, ou, pelo menos, colocá-las na geladeira. “Cada escolha, uma renúncia”, já dizia o finado poeta skatista. Muita gente me estimulou, muita gente preferiu tentar me fazer ver o copo meio vazio. Eu procurei ver o copo como ele realmente estava: melhor do que aquele do qual bebi durante os últimos anos.

Este curto período de mudanças já serviu para eu relembrar que sim, existem pessoas bacanas e despretensiosas e que existe cota para FDP em todo lugar. Aprendi que eu não sou tão azarada assim, que eu amo o Google Mapas e que já está na hora de eu aderir à linha conforto de sapatos. Também conheci novas facetas da saudade.

O frio na barriga persiste, mas se o plano leva a minha inicial, só pode dar em coisa boa.

Ou não. Mas, na pior das hipóteses, terei assunto para escrever sobre o plano “D”. Ainda bem que o alfabeto tem várias letras...

domingo, 14 de junho de 2015

Chapeuzinho Vermelho


Chapeuzinho Vermelho na visão de Glória Perez

A muçulmana Turbantezinho Vermelho (Giovanna Antonelli) leva uns pastéis da Dona Jura para a sua avó cigana (Eliane Giardini). Todos fazem a dança do ventre. Cada mergulho é um flash. Turbantezinho passa pelo núcleo pobre da trama e o Lobo (Eri Johnson) tenta levá-la num papo malandro, mas não consegue. Are baba! Todos fazem dança típica indiana. Enquanto isso, o clone do Lobo (Eri Johnson sem a pinta) come a avó cigana. Não é brinquedo não. É lançada uma campanha social a favor das avós comidas por lobos. O Caçador (Rodrigo Lombardi) chega a cavalo, salva a avó e salva Jorge. Inshalá!



Chapeuzinho Vermelho na visão de Manoel Carlos


Chapelena (Bruna Marquezine) pega o elevador e vai levar doces para sua avó (Natália do Vale). Elas moram no mesmo prédio no Leblon. A vizinha alcoólatra (Vera Holtz) puxa conversa com Chapelena. Enquanto isso, Zagallo, o Lobo Peludo (Tony Ramos), come a avó, que grita “agora você vai ter que me engolir!”. Mas ele queria mesmo era comer a mãe de Chapelena (Vera Fischer). Dr. Moretti (José Mayer), caçador profissional e médico amador, tira a avó de dentro do Lobo, mas ela acaba apanhando de sua outra neta (Regiane Alves). Chapelena descobre que o bebê do Lobo foi trocado na maternidade pelo seu filho morto. Vinheta com algum grande sucesso da bossa nova.  




Chapeuzinho Vermelho na visão de João Emanuel Carneiro

Chapeuzinho Vermelho (Débora Falabella) acha uns doces no lixão e volta para se vingar da sua avó (Adriana Esteves), que mora no Divino. Enquanto isso, a dupla sertaneja Los Lobos (Claudia Raia e Patricia Pillar) interrompe a carreira de sucesso por desavenças internas. Uma acusa a outra de ter comido a avó de Chapeuzinho. Mas Chapeuzinho tem certeza que é tudo culpa da Rita. O caçador (Murilo Benício) passa só pra dar um oi, oi, oi e vai jogar sinuca com o Seu Leleco (Carmo Dalla Vecchia) porque sabe que essa trama gira em torno de personagens femininas.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

É uma vírgula, mas te faz perder alguém....

Há alguns anos conheci um cara. Achei ele fofo. Ficamos amigos. Ele ligou, mandou flores, se declarou, mas eu gostava de outro e falei isso para ele.
Por essas ironias do destino nunca perdi o contato com ele, rara vez ficamos perdidos no mundo, sempre sabemos onde está cada um.
Minha mãe acha ele uma graça e sempre que ele está solteiro, ela me diz isso, por que não tenta alguma coisa ? Ele sempre tem sido bom amigo, conheço há anos, por que não?
Já até pensei nisso, principalmente nas épocas de maior iluminação, aqueles momentos que percebo que só as coisas boas valem a pena, então por que não tentar?
Porque apesar de achar ele uma graça de pessoa, esbarro em uma questão, que minha mãe me garante que eu deveria me sentar e conversar com ele sobre isso, mas fico me perguntando, se é eu preciso sentar com uma pessoa e conversar com ela sobre esse assunto, será que a pessoa vale a pena?

O ponto é o seguinte, ele é ótima pessoa, ótimo amigo, mas não demonstra nenhum interesse no que eu faço ou deixo de fazer. Simples assim. Me pergunta como eu estou, eu conto e aproveito para contar sobre algum projeto. Quando a gente se encontra de novo, ele pergunta de várias coisas, menos do projeto, como se eu não existisse profissionalmente ou não tivesse sonhos.
Isso me incomoda muito, a ponto de descartar qualquer vontade de namorar com ele. Não é a primeira vez que um homem me ignora nesse aspecto, que para mim é o mais importante, pelo menos penso assim.
Aí eu fico pensando, que coisa mais besta, o cara por um detalhe desses me perdeu. Não quero sair e não penso fazer isso com alguém que não me vê como um ser inteiro, não só uma namorada em um mundinho rosa e cheio de brilho.

Virou um ponto de honra para mim, cansei de namorar quem desprezava ou diminuía meu trabalho e meus esforços, mas ignorar é além da conta.
Minha mãe ainda mergulhada no machismo acha uma bobagem sem tamanho, diz que vou perder um homem incrível, apenas porque ele não me pergunta sobre minhas coisas profissionais. Ela diz que eu complico tudo, que deu deveria dizer isso a ele, por que você não quer saber sobre minha vida profissional?
Mas eu me pergunto, se estamos com alguém não é natural se interessar por tudo dessa pessoa?

Uma amiga me disse que podia ser timidez, então tentei contar a ele algumas coisas do trabalho para ver sua reação, sem ele ter perguntado. Ele escutou, mas não disse nada, nem deu opinião.
Não é o primeiro, eu estaria mentindo se dissesse isso. Teve um que eu gostei demais e até hoje é meu amigo, mas sofre da mesma síndrome, a falta de interesse total em saber qualquer coisa da minha vida que não seja do interesse dele.

É, o mundo é assim, mais simples do que parece. Todos esses jogos de conquista são cartas marcadas, é só achar o ponto de quebra da pessoa, esperar um momento de carência e ir lá e dizer o que sente, as possibilidades de dar certo são enormes.
Mas muita gente é descartada nesse jogo apenas por detalhes, eu já devo ter sido descartada apenas por uma vírgula.
Talvez tudo isso seja o primeiro passo de um amor sincero, ou aceitamos o outro com seu mundo inteiro, ou não aceitamos nada. Todo mundo é como um planeta e cada país (pedaço) da pessoa reage de uma maneira diferente. Ou se aceita tudo isso ou nada. Mas esse filtro, no fundo machista e misógino, de ignorar uma mulher profissionalmente, não vale a pena e revela mais do homem do que ele pensa.

Eu não disse nada, mas não descarto um dia contar tudo isso para ele, dizer que apesar das flores e das declarações, eu nunca olhei para ele com outras intenções, apenas porque senti que ele me ignorou em um coisa importante para mim. Só por isso, ele não errou nas flores, errou no momento que ignorou minha parte profissional, dando a impressão que meus sonhos não significam nada para ele, sendo assim ele também não vai significar nada em minha vida. Azar o dele.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

7 Parágrafos Sobre Você

Ainda é cedo, diga-se de passagem, mas o sinal da sintonia é tão forte que poderia ser tarde se não expressada agora.

Risos de uma noite fria, no aconchego de um lugar comum, sem as graças de luz de velas, de uma lareira ou um piano entoando notas suaves à meia luz.

Ela, que ainda é mistério, parece ter me traduzido centenas de versos de um idioma até então desconhecido. Iluminando um lado obscuro, que antes era traduzido em sombras.

Amor? Paixão? Acredite, não! Mas uma sintonia daquelas que não se pode explicar porquê esteve recolhida por tanto tempo.

Boa sensação. Uma sensação de liberdade, livre pra expressar qualquer coisa sem retaliação.

Tua energia, ainda que misteriosa, transcende-se em prazer e calor. Assuntos fluem, idéias surgem e combinam, mais do que isso, se idealizam e realizam.

Do sete em diante, só o amanhã poderá dizer. Não há como descrever. Entenda que este aqui será um etcétera seguido de reticências que sugerirá novos parágrafos para esta publicação.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Sobre o tempo

E o tempo passou tão rápido que só hoje percebi que dia era ontem...

O tempo existe e acaba desde o início de tudo (e até antes).
O tempo é relativo.O tempo é velho.
O tempo é rei.O tempo cura tudo.O tempo não pára.
Não temos tempo a perder.
Não temo o tempo perder.

O tempo é complexo. De tal forma que os gregos antigos desenvolveram três conceitos distintos para defini-lo: Chronos, Kairós e Aeon. O primeiro seria o tempo cronológico, que pode ser mensurado, com um princípio e um fim. O segundo refere-se a um momento indeterminado no tempo, em que algo especial acontece, o tempo da oportunidade. Já o terceiro conceito, é um tempo sagrado e eterno, sem uma medida precisa, um tempo da criatividade onde as horas não passam cronologicamente.

Nós estamos mais acostumados com o conceito Chronos, no qual nos baseamos para pensar nas horas, nos dias e nos anos. Mas provavelmente já nos deparamos com Kairós e Aeon em algum(ns) momento(s) de nossas vidas.

Sei que o tempo é um grande amigo, que trás consigo sabedoria para valorizar as coisas que realmente importam e deixar passar o trivial. No entanto, ás vezes sinto-me esmagada pelo tempo, parece que passa tão rápido e que não pude aproveitá-lo adequadamente.

Horas de insônia que parecem meses e meses que, quando nos damos conta, puf! Já se foram.    

É um presente que nos é dado desde nossa existência, e cada um faz dele o que bem desejar, mas que, se não for bem usado, irá cobrar lá na frente, na forma de um amargo arrependimento. 

E você, o que tem feito com seu tempo?










segunda-feira, 8 de junho de 2015

Criando um Bom Ateu. parte I.

-...E eu já tenho 15 seguidores no Google +!
-Já tem mais do que Jesus!
-...
-Não entendeu?
-Entendi, só estou tentando lembrar se ele tinha 10 ou 12.

domingo, 7 de junho de 2015

Pregabalina

Aquela coisa de pânico. Pânico de ver o portão, as pessoas do outro da dele, passeando, correndo pela calçada. Carros aborrecidos, buzinas empacadas. Não foi a primeira vez que me surgiu esse tal "acesso de pânico", conforme o termo que o psiquiatra muito bem conceituado confirmou o nome da patologia, que consta daquele... daquele dicionário médico> DSM IV < corrijam-me os mais afinados com a linguagem médica, com a patologia.

 E a medicina completou as lacunas com mais informações. O doutor mesmo, abriu o Google e fez uma 'consulta mais fina' para me mostrar os casos de sucesso da droga, quando aplicada para esse pânico (agora, atribuída à uma tal de TAG, que eu já deveria trazer de há tempos - e mais uma explicação para que eu ficasse tranquilo, tranquilo. Ainda que o terremoto fosse mais forte que o aperto econômico no Brasil. Logo consegui fazer um link: TAG = Transtorno de Ansiedade Generalizada + medo do além-portão + as noticias sobre essa tal Selic, o câmbio, a bandeira vermelha na conta de luz = Pânico!) Em meu pensamento, a lógica estava agindo, e eu já estava até melhor, mesmo sem haver experimentado essa Pregabalina. 

Receita em mãos. Passei a receita para a balconista, que lançou um olhar enigmático para cima de minha pessoa. Até comecei a ficar ansioso, sem precisar pensar em nomes curiosos. O senhor tem cadastro com a Pfizer? E minha ansiedade, agora, era saber para que diabos eu precisaria ceder meus dados para essa essa empresa que, até onde eu sabia, só fabricava aquele remédio que deixava o homem pronto para transar, mesmo que pudesse fundir o coração depois do terceiro o quarto coito. Seu R.G. senhor, por favor. Isso basta. Eu mesmo faço o contato com a empresa. De tão prestativa que foi a balconista, vacilei na atenção. E minha carteira toda já estava no balcão, pronto para me identificar todo para a Pfizer.
Olharam a receita:

#tomar 150mg 4 x ao dia - Pregabalina

senti outro olhar estranho. Só que dessa vez a coisa envolvia outra pessoa e matemática, ou parte básica desta. De calculadora em mãos, a farmacêutica disse que a compra estava liberada. Como questionei se podia não ser liberada por algum motivo, as duas que me atendiam educadamente me informaram que certas doses de remédios dessa categoria precisam ser vendidas com certa precaução. Minha ansiedade começou a piorar. Para que tanto cuidado em se calcular as cápsulas que o médico havia prescrito. A receita com o C.R.M. não valiam por si só? Será que uma dose um pouco maior faria estragos em meus intestinos? 

Antes que o pânico tomasse conta de minha pessoa e eu atravessasse a porta de vidro da farmácia com a cabeça, finalizei a compra, que em alguns minutos já estava finalizada, o contato com empresa, dona da Pregabalina, estava pronta. Um alívio veio estancar meu pânico quando o caixa disse que eu teria 35%¨de desconto nessa compra, mas que poderia ficar mais barato ainda nas próximas que eu fizesse. Não soube qual o melhor sentimento eu poderia deixar descer pela garganta abaixo, nesse momento de negociações farmacológicas. No fim, garantiram-me que cada caixa de 28 comprimidos poderiam custar até menos do que R$100,00, caso a 'fidelidade' fosse certa com a empresa. 

Alguns meses indo à farmácia para conseguir a minha droga, barganhada com a Pfizer para conseguir o tão valor abaixo da casa dos 2 zeros à esquerda fizeram de minha pessoa alguém mais calmo. Sempre calmo, sem TAG, sem medo do portão aterrador, das pessoas, percorro uns 500 metros até o balcão da drogaria. Peço minha Pregabalina e fico calmo demais para fazer contas. Nem mesmo a precariedade do Brasil ou dos países em crise me fazem sentir minha crise. Aliás, ela não é mais minha, nem o pânico, a TAG. Eu só me sinto anestesiado e feliz em ser cliente fidelizado, ter um cartão bacana e pagar R$97,00 pelas vinte e oito cápsulas de Pregabalina. Minha droga que consumo conforme o médico prescreveu, para evitar contratempos.   

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O coração é como uma conta bancária.

No primeiro contato, é gerada uma senha. Pode ser um olhar, o encontro de mãos. A digital pode ser substituída pela contemplação das sobrinhas dos dedos, as unhas roídas. Depois, depositamos algumas palavras e sorrisos. Aí, já é possível uma fidelização. Cliente gold. E já dá direito a carícias, caretas, piadas. Alguns investimentos: um chopp, um abraço suspenso no ponto de ônibus, um beijo molhado no piercing, uma lambida na orelha. É quando as movimentações se intensificam e já queremos fazer saques diários, gastar milhas do catão de crédito: bater pernas pela cidade sem destino. 

Extrato: um <3 bilhete="" cheio="" div="" e="" m="" na="" nbsp="" o.="" um="">

(Cleyton Cabral)

terça-feira, 2 de junho de 2015

O fã e o ídolo


Foram cerca de três anos de angústia. Uma lesão crônica no púbis me impedia de fazer uma das coisas que mais gosto de fazer nessa vida: jogar futebol. Recorri a uns cinco fisioterapeutas diferentes, mas era sempre a mesma coisa. Seguia a risca o tratamento, voltava a jogar sem dor nas primeiras idas, mas a dor forte sempre voltava com menos de dois meses. Já sem esperanças e pensando seriamente em operar ou até encerrar a minha carreira de peladeiro, acabei encontrando um cara que elevou a minha autoestima e conseguiu me curar. Diante da minha euforia depois de dois meses sem dor, ele disse:

- Eu vou te dar alta, mas preciso que você malhe pelo menos duas vezes por semana SEMPRE. E você precisa continuar fazendo os alongamentos que te passei senão vai voltar tudo.

É claro que o meu futebol já não era o mesmo de antes. Afinal, foram cerca de três anos parado. Naquele momento a minha maior preocupação era poder jogar sem dor. Conseguir dar um passe ou dar uma arrancada sem fazer cara feia. Mas para os outros peladeiros era pouco. Eles queriam logo que eu jogasse como antes. Cheguei a ficar triste num primeiro momento, mas logo me dei conta da bobagem que eu estava fazendo. Eles não tinham a menor ideia do que eu tinha passado e eu nem precisava ficar me justificando pra ninguém. Eu estava muito feliz com o meu esforço e o meu poder de superação e isso bastava naquele momento. O bom futebol de antes iria voltar com um pouco de paciência e dedicação, não tinha dúvidas disso.

Aprendi então uma grande lição que levei para todos os outros campos da minha vida. Parece meio óbvio, eu sei, mas no dia-a-dia a gente acaba se entulhando de um monte de bobagens na cabeça e esquece que a principal pessoa a quem devemos agradar no mundo somos nós mesmos. Nós devemos ser ao mesmo tempo o maior fã e o maior ídolo de nós mesmos sem se preocupar com a opinião dos outros ou em agradar os outros.

Esse negócio de maior fã e maior ídolo de nós mesmos é interessante pelo seguinte: imagino eu que você tenha um ídolo no futebol, na música, talvez no cinema ou na política. Você como fã está esperando que o novo disco do seu ídolo seja tão bom ou melhor que os anteriores. Que ele se esforçou para fazer letras e melodias ótimas. Este artista em contrapartida na posição de ídolo também espera se esforçar ao máximo para fazer o melhor disco possível e não deixar os seus fãs na mão.

Você então como seu maior fã irá esperar um ótimo desempenho do seu maior ídolo e você na posição de ídolo não vai querer desapontar seu maior fã.



sexta-feira, 29 de maio de 2015

escarradeira

Preciso de uma, de preferência imensa e que iniba aquele som sabe.
De tanto que tosse, tosse, tosse quase a ponto de escarrar o pulmão, os rins, o coração e outros órgãos do corpo.

Mas o pior mesmo é não escarrar a indignação e revolta de todo dia, semana e mês, num dia.

Tenho acumulado no corpo e mente excrementos desnecessários.
Não sei se é a tosse ou quando a gente não cospe que mais incomoda e entala.

E acaba engolindo aquele negócio que chega a travar na goela e descer ora doce ora amargo.
Nojento? Pois é, isso é humano com ou sem etiqueta viu.

E deixa prá lá, se não vai noutro mérito.
No momento, haja escarradeira pra tanto.

E tosse, tosse e tosse.
Sobra catarro preso e falta energia pra escarrar.

Mas amanhã e depois é outro dia, outra vez, outra oportunidade para tossir e escarrar.
E, tosse, tosse e tosse.


 Agora é tomar o chá, acalmar a garganta, deitar o corpo e coração no peito com o tchu tchu.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Kombi branca


Mariana não podia brincar na rua. Seu primo mais velho saía todos os dias depois do café da manhã para se aventurar por aí. Mas ela não podia, não... Era menina. E meninas ficam em casa, meninas não podem enfrentar os perigos do mundo, porque o mundo é mais perigoso para meninas.

Uma das brincadeiras favoritas de Mariana era subir na laje da casa e imaginar que estava num desses filmes de aventura enfrentando desafios: tempestades, trem que descarrilava, furacão, a caverna que desabava, ninjas do mal para lutar...

Todas as vezes que sua mãe abria o portão para alguém sair ou entrar, Mariana saía correndo até a esquina e se via numa dessas aventuras de ação. Logo sua mãe lhe gritava para voltar e mesmo com tão pouco tempo de aventura, a garota voltava para casa alegre.

Certo dia, Mariana correu até a esquina se imaginando fugir de alienígenas. Quando chegou até a esquina, viu uma Kombi branca estacionada. Ela ouviu um ruído estranho e se aproximou para escutar melhor. De repente, a porta se abriu.  Palhaços com olhares enigmáticos ofereceram a ela balões coloridos e disseram alguma coisa que ela não compreendia. Ao longe era possível ouvir a mãe chamando: “Mariana! Mariana! Vou fechar o portão!”.

A menina estava em transe. Eles se comunicavam, mas numa outra sintaxe. Não era português, não era nenhum idioma conhecido. Era outra coisa que ela incapaz de nomear. Sentiu-se infinita. Foi desperta pelos gritos autoritários de sua mãe. Era hora de voltar.

domingo, 24 de maio de 2015

O amor está servido

Comecinho da noite. Lá fora, aquele vento que se faz notar, uivando pelas frestas das janelas. Fecho a cortina. Sigo em direção à cozinha. Sopa. Hoje uma sopa cairia muito bem. Um caldo verde também seria uma ótima ideia. Ela sempre me surpreende com algum prato simples, mas com complementos criativos. Dizia orgulhosa que era o seu toque especial em ação. Alecrim, especiarias, algum queijo fresco mais fresco comprado especialmente para dar um sabor especial às refeições. Sempre pude contar com seu bom gosto. E com o gosto bom dos seus pratos. Por isso, não consegui disfarçar minha surpresa ao chegar à mesa e dar de cara com um prato raso e alguma coisa bem superficial. Talvez fosse um pedaço de carne tímida, escondido embaixo de uma alface. Olhei para cima e não havia goteiras no teto. Do que o filete de filé estava se escondendo, eu não fazia a menor ideia. Comecei a pensar que fosse por vergonha de seu tamanho. Quis consolá-lo com um tapinha nas costas, dizendo que o importante seria o prazer que ele proporcionaria, mas não sabia muito bem onde estariam as costas do bife. E duvidei também que ele seria capaz de proporcionar muito prazer. Enfim. Corri os olhos pela cozinha, à procura da pessoa que cometera aquele acidente gastronômico. Ela havia acabado de entrar, exibindo um sorriso de satisfação. Será que ela queria me matar de fome? Mulher cruel. É hora de colocar as cartas na mesa! Embora eu talvez comesse também as cartas. Melhor ir com mais calma. 

- O que é...

Procuro pela comida no prato, com dificuldade para localizá-la. Ali, encontrei.

- ...isso. O que é isso?

Ela, mal contendo o riso, responde em uma voz fanhosa:

- Dukan foi quem botô pra nór comê!

Eu amo essa mulher.