segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A farsa do escritor

O que acontece quando o escritor se convence de que suas escritas não interessam a mais ninguém?
E quando ele escreve para ninguém ler?
E que ego inflado é esse de quem acha dignas de serem lidas as palavras organiza em um texto?
A quem interessa o que o escritor escreve?
Esqueça, é tudo mentira!
Não se importe, é irrelevante!
Não perca seu tempo, é inútil!
Não procure sentido, é nada.
A vida em forma de letras, e nada mais que isso. 
Angústias frívolas.

Cada vez mais me convenço que a beleza não é do escritor, mas do leitor.
O escritor vem aqui e escreve qualquer coisa.
O leitor interpreta em beleza... a beleza do sofrimento, a beleza de encontrar algo significante em seu interior, mas que seria encontrada de qualquer forma. Foi através das palavras do escritor, mas poderia ter sido do balançar da cortina, ou dos cabelos grisalhos de um transeunte, ou de um sorriso de criança, ou de uma sombra que a árvore faz chão, ou mesmo de um simples ato de inspirar mais profundamente. O que existe, o que é belo e puro e doído, o que importa verdadeiramente está em quem lê (e em quem não lê).
O escritor é uma farsa.

domingo, 8 de outubro de 2017

Falar do que já foi falado (e refalado).

De uns anos pra cá todo mundo ficou entendido de política.
Direta versus Esquerda, virou fla flu. (E ai de quem for vasco.)
e entre tanta coisa errada, ficou muito mais divertido e perverso aos "quaisquer um" focar num só, ansiar justiça pelo passado, e não gastar nem uma gotinha de energia no próximos escolhidos.

Mês passado todo mundo virou crítico de arte, novo fla-flu.
Energia desacerbada gasta novamente em discussão que deveria ser morna.
Todos gritam a plenos pulmões seus discursos, tapando os próprios ouvidos, alguns concordam e aplaudem, não porque gostaram do que você disse, mas por que você disse exatamente o que eu penso. se mudar uma virgula não serve.

Todos se sentem importantes, formadores de opinião, escritores de matérias, colunas, cartas abertas na volúvel internet.

Crianças sem doces esperneiam, exageram.

Eu fiz faculdade de arte, foram alguns anos gastos, e não me foram suficientes, ainda não sei definir arte, e nem quero, é a graça, ela é assim, tema aberto, abertíssimo, não é ciência exata.
Sabe-se que pode ser bela ou horrorosa, complexa ou simples, profunda ou banal.

Mas esse mundo anda me dando uma gastura...
Euclides, avisa que nem especialista consegue ditar regra, que então o qualquer um pare de cagá-las.
Que aquele ditado de duas orelhas e uma boca pra ouvir mais e falar menos, ainda faz sentido.

Que leio tanta asneira, que estou começando a ficar com vergonha de escrever, porque me sinto cada vez mais distante de Drummond e mais perto do zé mané do face.

Avisa lá, que essas retrucadas decoradas, tipo "você levaria seu filho para ver a exposição?" são tão furadas, primeiro que se falar que não, dirão então! e se acharam certos, se disser sim, dirão que é mentira ou sou péssima mãe. é cilada Bino.
A discussão não seria então, que talvez a exposição devesse avisar o conteúdo e colocar classificação ou sugestão etária? 

A discussão não seria a indicação e não o que é ou não é arte?

A criança viada por exemplo, tem sim, tem muita, e eu só vi dois tipos: o que fica meio de escanteio escondido, desviando do holofote, porque senão apanha ou sofre.
E o valentão, que tem que se impor, e forçar a barra, acaba judiando, por que senão é judiado. só.
A terceira opção, a criança saudável gay, nunca vi. Por que a menina cor de rosa, delicada, meiga, bailarina é incentivada, o menino machãozinho, lutador, rustico é incentivado, o resto a gente esconde.

Ninguém aprende a ser pai de gay antes de ser, o que ninguém te conta é que na maior parte do tempo isso não deveria ser importante. Por que a sexualidade da criança não é o foco 100% do tempo, não é só isso que define aquela criança, é tão gay, quanto é baixinho, magrelo, comilão, ágil, chorão, míope, é só mais uma característica entre suas outras mil. Pra que esse foco todo?

Você vai alimentá-lo levá-lo pra escola, ensinar, rir, dar banho, ver TV, levar pro cinema, por pra dormir, levar pra comer um doce, tudo igual. Muda só a cor da bexiga da festa, o personagem que vai ter estampado na mochila. Que diferença, o amor platônico do colégio ser ele ou ela. Que diferença te faz?

*Vale avisar que escrevi esse texto entre o caso do Santander e do MAM, por isso está um pouco "desatualizado".



"não é arte, é canibalismo!"
"não é arte, é um prédio torto!"
"não é arte, é um retrato!"
"não é arte, é um mictório!"
"não é arte, é uma foto!"
"não é arte, é nojento!"

"não é arte, é crime!"


"não é arte, é um cemitério!"
"não é arte, é um quadriculado!"
"não é arte, é uma estátua!"







quinta-feira, 5 de outubro de 2017

INTOLERÂNCIA


Sou religioso
Sou teimoso
Sou rigoroso
Sou imbecil

Não te aceito
Seu conceito
Seu desfeito
Sou infantil

Sua diferença
Não me compensa
Sua desavença
Sou senil

Sua felicidade
Sua proximidade
Sua solidariedade
Eu sou viril

Tenho que me provar
Tenho que te odiar
Não sei o que pensar
Sou imbecil

Suas Cores
Seus amores
Seus temores
Seu feitio

Sua diversidade
Sua felicidade
Felicidade
Imbecil

Sou mesmo imbecil...

Fábio Fonseca

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Impulsos de vida

No olho do furacão, parei.
Respirei.
Desconectei-me de tudo ao redor.
Inspirei.
Expirei.
Senti o ar nos meus pulmões.
O universo vibrava em cada uma das minhas moléculas.
Do micro ao macro, a vida é fascinante.
O infinito em minha alma.
Há uma força intrínseca e fulminante nas minhas entranhas emocionais, exalando, pelos meus poros, aromas de saudade.
A gravidade é individual.
Gravitacionando, onde o tempo espaço estão imersos na teoria da relatividade, ouço uma voz me chamando para terra “acorda, Alice, é o País das Maravilhas”.
Sigo rabiscando meus pensamentos na tentativa de deixá-los nus.
Sigo implacavelmente.
Tudo está tão conectado que sinapses fazem com que eu me sinta em um dejà vu cíclico.
A relatividade do tempo espaço, o eterno pode durar um fragmento de segundo.
A transitoriedade.
O efêmero.
É tudo tão intenso e, ao mesmo tempo, tão sereno.
Eu já não vejo o furacão. Eu pertenço ao furacão.
Sou um caos na criação. Mas eu me encontro nesse caos.
O tempo segue implacavelmente e eu não tenho mais certeza além desse instante. De concreto é só o segundo, transitório e impalpável.
Gravitacionando...
Tudo é fluidez. Não consigo pseudo-viver, nem pseudo-sentir. Não consigo permanecer aonde não sinto impulsos de vida.
Entorpecendo meus sentidos, lenta e gradativamente, é a essência mais genuína se expandindo pela via láctea.
A via láctea é uma molécula que dança percorrendo todo meu corpo, que me impulsiona a criar, e nem o céu é o limite.
Criar é a minha gravidade individual, é o que me faz respirar, é meu impulso de vida.



Trilha sonora do post - Molecules To Minds: https://www.youtube.com/watch?v=NICeQJAEfCs

sexta-feira, 29 de setembro de 2017


A agenda de retrocessos está incrível.

Este país deve se orgulhar da façanha de todo mês emplacar mais e mais retrocessos.

Em São Paulo os retrocessos estão no âmbito municipal (PSDB), estadual (PSDB) e federal (PMDB). Ainda não estou acreditando nas fotos dos colegas recebendo oração de pastores evangélicos e literalmente colocando a cidade à venda a contento do mercado financeiro, imobiliário e especulativo.

Quando penso que o fundo do poço da agenda política vergonhosa ou corrida para acessar o poder chegou ao fim às notícias revelam que esse poço não tem fundo.

O PSDB é considerado o partido mais rejeitado pela população? Como? Quando aconteceu isso? Aqui em São Paulo? Então alguém explica o motivo de ter o mesmo partido há anos no estado e agora mais recente na prefeitura. Ah sei. E eu sou o bozo, só pode.

O presidente tem apenas 3% da população que considera o seu governo como bom/ótimo e ainda continua no cargo. Mesmo após nova denúncia de corrupção o presidente interino do PMDB continua no cargo executando as reformas a todo vapor e pelo indicativo permanecerá até 2018.

Aliado a esse golpe o inesperado do golpe surge sem dó: PMDB e PT se articulam, melhor dizer se aliam para candidaturas no nordeste. Daí vem o sopro, vento estranho ou perdido com Ciro Gomes ao dizer se eleito anulará todas as reformas do presidente interino. Ops. Será esse o sinal galático? Ainda é possível crer na política partidária?

Enquanto isso os Movimentos não cessam.

Os atos contra a homofobia ganham fôlego, 15 mil pessoas protestam contra a cura gay.

A igreja avança e se coloca nas instituições educacionais com ensino religioso. (?)

Adeus filosofia e artes.

Entra a obediência no amém sem pensar.

A Ocupação do MTST em São Bernardo do Campo é de revoltar na quantidade de famílias sem moradia e admirar no empenho de resistir e lutar pelo direito à moradia no centro da cidade.

No ABCD além da moradia tem o transporte público precário e absurdamente abusivo no valor da passagem. E chega 2080 mas não chegará o metrô naquela região, assim vejo como ex moradora de cinco bairros de SBC que detestava os busão e valores de passagens.

Os estudantes em São Paulo se organizam para manifestar contra a retirada do passe livre de estudante porém com pouquíssimo apoio da população.

E quando as expressões sociais explodem nas ruas rumo a greves?
O que paralisa retrocessos é greve.
Então o agora se ajusta pausadamente, nas redes sociais.

Sendo assim, seguimos.

Conversar sobre filmes, séries, canções, finais de semana, mar, bichos ou qualquer coisa tem sido melhor pois causa menos estresse e aborrecimentos.

A série Top Boy da Netflix serve para compreender a questão das drogas para além do óbvio sejam eles pelos vícios, usuários e comércios no contexto social relativamente mais favorável. Ali existe pobreza, mas não é a mesma que conhecemos.


Não interessou as partes clichês da série, mas as histórias de vida das crianças/jovens que pelo visto o autor faz questão de apontá-las.



Em tempos de Redução da Maioridade Penal por aqui, vale a pena assistir outra série com contexto econômico completamente diferente do nosso, porém com os mesmos problemas na segurança pública e judiciário. O filme/série é do Spike.

 
       
Seria tão importante se estas duas séries estivessem traduzidas para o português e disponibilizadas na rede para além da Netflix para que todos compreendessem que a Redução da Maioridade Penal não tem nada a ver com justiça e segurança. Ou ainda que a guerra às drogas está longe de ser questão da segurança pública. Quem sabe até mês que vem. 

sábado, 23 de setembro de 2017

A poesia na falta de cor

A poesia que me cabe já não é mais a de ver cor onde não há, não é mais a de usar lentes para modificar o que vejo, não é mais a de fotografar o que tenho medo de esquecer, não é mais a de clarear o que escuro está, nem muito menos a de ver beleza onde o que é dito feio se alojou.

A poesia dos meus dias se tem feito no que é, aquilo que se mostra e não sei porque insiste em ser. A poesia que me mareja os olhos é a de ver e aceitar. É a de receber o nublado sem ter que sentir falta do sol, é a de notar a ausência sem ter que pensar na presença, é a de perder sem supor como seria ganhar. A poesia que me preenche é agora a do sentir sem parâmetros. Meus extremos não se dialogam mais, eles são o que são, cada um em sua singularidade e vivendo o seu momento e espaço sem ser necessário ser invadido pelo seu contraponto. Minha poesia está no respeito do agora. Aquilo que me vem e que não ficará para sempre e por isso apenas está. A minha alma agora brilha ou ofusca de acordo com aquilo que é, não mais com o que eu gostaria que fosse, não mais com o que gostariam que fosse, não mais com o que não é.

O positivismo que tirava a poesia da minha vida, inventava de ver beleza nos dias cinzas, coloria o preto e branco das minhas lembranças, apagava o que se recusava ter cor, escorreu-se pelo ralo e eu nem se quer senti o desespero do que não se tem volta. Escorreu pelos olhos e eu em câmera lenta vi ele se esvaindo até a última gota. Foi-se embora e tchau. Vou aceitar também.

O que me tirava a poesia não era os problemas ou a falta de cor e brilho que me arremete de tempo em tempo no girar da roda da vida. A poesia me era arrancada pela expectativa da poesia alheia. Eu vivi uma vida de poesias que não eram minhas. O que sei é que todo o colorido que se deu em minha vida, foi pela falta de respeito em aceitar o que é feio e incolor na natureza, foi por ver o ruim como inferior ao bom. Se minha alma sentiu dor, foi por pintar de arco-íris as tempestades que deveria ter me molhado. Eu antecipava o arco-íris, não deixava a chuva vir. Ilusão de viver uma vida que não é vivida, apenas adiada. Para quando? Para nunca. E se eu aceitasse a sombra dos dias ruins? Se eu acolhesse o céu nublado de minhas manhãs? Se eu aceitasse o que é feio sem tentar maquiar o imperfeito? A poesia se desfez assim pra mim.

Desmascarei as muitas máscaras que me vesti e desbotei as cores do que para mim é incolor. Me vi despindo de tantos Eus, de palavras que não eram minhas, de focos que não eram meus. Antes, quando me faltava poesia e me deparava com uma pedra, eu via tudo, menos uma pedra. Não era permitido ver pedra, tudo tinha que ser flor. Hoje não me falta poesia, aprendi a ver uma pedra, o que está além dela, o que é ser ela e não mais pintar uma flor no lugar do que é pedra. 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

"Você é tudo, e tudo é você..."

Era um dia como qualquer outro. Lá estava ela indo para o seu serviço, enquanto olhava as paisagens passar pela janela. Olhava as crianças nas calçadas, e sentia saudade de sua infância, das bonecas que há muito deixara para trás. 
Divagava em meios aos pensamentos diversos que nos atingem nessas viagens de ônibus. Se considerava uma pessoa de sorte por poder sentir aquilo que sentia: a paz.

Num determinado momento da viagem, numa parada do coletivo, viu subir um rapaz, bem apessoado. Ela era a única naquele ônibus, àquele horário. Todos os outros assentos estavam livres.

O rapaz fazia uso de fones de ouvido. Escutava algo no seu celular.

Para surpresa da moça, o garoto sentou ao seu lado. Foi educado, pediu licença, mas ela estranhou.
Por quê o menino não procurou outro lugar pra sentar? O ônibus estava vazio. Só ela de passageira.

Ia pensando nessas coisas quando o rapaz perguntou assim, de repente:

- Moça, posso pedir um favor?

A cara de espanto que ela fez foi impossível de disfarçar. 
Meio sem jeito, meneou positivamente com a cabeça.

- Poderia ouvir uma música comigo? Te dou um lado do fone, e a gente ouve!
Por favor... É muito importante pra mim...

- Lógico, óbvio, claro que ela ficou desconcertada. Afinal, um estranho estava ali ao seu lado, e pedia que ela ouvisse o quê ele estava ouvindo.

- É que vou descer já já... - Tentou desvencilhar-se ela.

- Por favor, eu insisto... A música é curtinha...

Não tinha jeito. 
Pensou durante uns dez segundos, olhou para o rapaz, no qual não sentiu maldade, e por isso, aceitou o convite.

Colocou então o fone em sua orelha direita. O rapaz, por sua vez, ficou com seu fone na esquerda dele.

Play apertado, eis que a música inicia. 
Era uma música romântica, mas totalmente fora da situação da qual ela participava no momento.
Teve o ímpeto de perguntar para o menino o por quê de ser justamente aquela música, mas quando voltou seu rosto para o mesmo, percebeu que ele estava com os olhos fechados.

Ficou então sem graça de perguntar.
O quê será que aquela música despertava nele? E por quê justamente ela foi convidada por ele para ouvi-la com ele?

Claro, com o ônibus vazio, ele poderia ter se sentado em qualquer uma das poltronas, mas não. Foi até ela, e fez aquele convite. 

"Você é tudo, e tudo é você..."

Ela já conhecia aquela letra, aquela melodia. A música era antiga. Tristemente romântica, romanticamente triste.

Decidiu então seguir viagem, ouvindo a música ao lado do rapaz, que viajava no coletivo ao lado dela, e em seus pensamentos, através da canção.

Estranho.

Sentiu uma tristeza. Não sabia por quê. 
Na realidade, até pensou saber: Tratava-se do garoto, que também tinha uma fisionomia triste.
Mas começou a pensar que achava isso pelo motivo de a música ter uma melodia triste, e que aquele estranho sentimento era fruto da emoção causada por aquela faixa.

De olhos fechados, o menino não parecia mais estar ali. 
Dois minutos e cinquenta e sete segundos que pareceram uma eternidade.
A promessa do menino revelara-se verdadeira. A música foi curta.

Quando acabou, e o silêncio veio, parecia que ela não ouvia o ronco do motor. Não ouvia mais nada.
Se perdeu no momento do estranho menino.

Ele abriu lentamente seus olhos, e só então ela percebeu que suas mãos eram seguradas pelas dele. 
Recuou então, como quem pede desculpas. Ele deu um leve sorriso, guardou o celular no bolso.

- Muito obrigado! Jamais esquecerei esse momento. Não se esqueça de que, se ainda não é, você ainda será tudo na vida de alguém. Seja feliz!

Sem saber o por quê, seus olhos marejaram. Num sinal de positivo, apenas balançou levemente a cabeça pra cima e pra baixo.

O ônibus parou, e o rapaz se foi.

Nunca mais o viu.
Mas não existe uma só vez em que escute a música, e não se lembre dele.

"Você é tudo, e tudo é você..."
Publicado originalmente aqui.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Descobriram

Quarta-feira. Já era tarde e eu estava dormindo quando o telefone tocou. Olhei o número para saber se eu poderia atender xingando. “Número privado”. Ótimo, além de tudo eu teria que ser diplomático. Tentei disfarçar o sono com um lacônico “alô”. Como resposta só consegui ouvir um “Descobriram...” antes que a ligação caísse. Era só o que faltava. Algum idiota ligou para o número errado. O jeito era voltar pra cama e amaldiçoar o sujeito até pegar no sono de novo.

Foi só deitar para surgir a dúvida. E se não foi engano? De repente alguém estava tentando me avisar sobre algo que descobriram! Mas o que era tão urgente que não poderia esperar pelo dia seguinte?

Corri para as redes sociais. Facebook, Instagram, Twitter, Whatsapp, portais de notícias. Nenhuma descoberta bombástica que justificasse a ligação misteriosa. Pensei em ligar para os amigos mais próximos. Loucura. Como eu explicaria uma ligação tarde da noite perguntando se descobriram alguma coisa? Pareceria uma ligação de um ex, bêbado, em plena madrugada de sábado.

Descobriram algo sobre mim, só pode ser. Mas o quê? Eu que sou tão correto. Comecei a vasculhar a memória para saber o que poderia me denunciar. Aproveitei que o computador ainda estava ligado e apaguei todos os meus arquivos. Filmes, músicas, séries, e-books... pirataria é crime!

Mas não fiquei tranquilo. Tem tanto computador pirateando arquivos no mundo, por que logo o meu? Pode ter sido algo no mundo real, ao invés do virtual. Teve a vez que eu furei fila no banco, mas já faz tempo! Eles cobram taxas abusivas e eu vou ser punido por isso?

Quando a moça do supermercado me devolveu troco a mais eu só percebi quando cheguei em casa, não iria voltar lá por causa de mixaria. As uvas que eu belisquei antes de pagar foi para experimentar e ver se estavam gostosas! Além do mais, o cliente tem sempre razão.

Confesso que só não apelei para o meu advogado porque não tenho um advogado. Nunca precisei, sempre falei mal deles, mas agora me retrato, falei mal, mas não foi por mal, só fui na onda dos amigos! O que eu não daria por um habeas corpus preventivo numa hora dessas.

Já passava das quatro da manhã, eu havia desfeito o gatonet, listei um grupo de pessoas para as quais eu pediria desculpa, por vezes sem nem saber o porquê, imaginei todas as situações possíveis. Olha, aquele pum no ônibus lotado foi sem querer, eu estava distraído e... bobagem. Quem iria descobrir?

O primeiro raio de sol do dia foi como a lâmpada de ‘eureka’ brilhando na minha cabeça. Eu passei pela faixa de pedestre sem parar para que aquele pobre coitado atravessasse! Pude reconstituir o olhar de fúria que ele me lançou quando busquei sua reação no retrovisor. Adiantaria pedir desculpas? Ele deve ter anotado a placa, fez uma busca detalhada, encontrou toda a documentação do carro, tinha meu endereço, telefone, sabia onde eu trabalhava.

Eu estava acabado. A falta de sono e o peso de ser um criminoso me deixaram com uma aparência cadavérica. Não havia decidido se eu me entregaria para a polícia ou se tentaria o habeas corpus preventivo. Uma coisa era certa, minha vida havia mudado. Não poderia seguir como se nada tivesse acontecido.

A primeira ação do dia seria pedir demissão. Martelava na minha cabeça a voz do capitão Nascimento. “Pede pra sair!” e eu pediria. Melhor que ser escoltado por policiais brutamontes na frente dos colegas de trabalho, em uma condução coercitiva.

Quando cheguei ao escritório todos estavam reunidos na sala de café, como de costume. Entrei sem jeito e antes que pudesse fazer o fatídico anúncio, o Lobato me encarou.

“Rapaz! Você está acabado, hein? Te liguei ontem à noite, mas meu crédito acabou. Descobriram o endereço do cliente?”