O relógio marcava 1h35 de uma madrugada de dezembro. O calor era de pelo menos 35 graus. Com a janela escancarada e sentado sobre a máquina de lavar eu mordiscava um sanduíche, quando ela apareceu pela primeira vez. Ela, a moradora da janela em frente. Não, não cabe aqui chamá-la moça, mulher, garota ou rapariga. Nestas condições só o que importa é que ela era a moradora-da-janela-em-frente – ainda que não se possa morar em uma janela.
Pois ela entrou de repente no quarto, acendendo a luz. Era o último andar do prédio vizinho, a poucos metros de mim e meu pão e, com a janela totalmente aberta, cruzou de uma vez meu campo de visão, sem mesmo notar minha expressão de susto. Presumo que voltava de uma festa, pelas roupas. Permaneci estarrecido durante aqueles dois ou três segundos que, na película de um filme, durariam muito mais. Recobrada a consciência, num impulso instintivo e intuitivo, voei até o interruptor e apaguei a luz. Esperei, sem agachar ou me esconder numa posição imoral. Pelo contrário: apagado no escuro, eu aguardava confortavelmente, como numa poltrona de cinema. Generosa, ela reapareceu. Somente com as roupas de baixo. O branco da lycra contrastava com a pele morena. A cintura poeticamente delineada dividia em dois o corpo de proporções áureas: nem grande, nem pequeno. Ideal. Sempre de costas, procurou algo na cama, achou e vestiu: um pijama de seda. Amarelo. Mas por cima da lingerie, que falta de cuidados com o conforto! Depois saiu do quarto. Como deixara a luz acesa, julguei que voltaria para o bis.
Creio que logo se arrependera do show deveras tímido porque, poucos minutos mais tarde, voltou. Na minha tela widescreen, de costas, tirou o pijama, sem suspense. E depois o sutiã. E depois tudo. Morena - já disse, eu sei. Analisou uma camiseta, levantando-a com os braços. Não, outra. Deixe-me ver... não, também. Tão feminina. Nesse decide-não-decide, ameaçava, mas não virava de frente. De repente virou-se de lado, de perfil. Caprichosamente, seu umbigo tocava a linha esquerda da janela, de modo que os seios se esconderam nos bastidores de um ponto cego. Alguém que a filmasse nua e depois censurasse colocando mosaicos nas partes íntimas não as delinearia com a mesma precisão com que a janela o fez, irônica. Calmamente, virou-se de costas mais uma vez e finalmente vestiu outro pijama, azul. E apagou a luz. Nem foi até a janela para me dizer boa noite. Mas não precisava: é como se o tivesse feito, já que começava aí um longo, longo relacionamento.
domingo, 25 de julho de 2010
sábado, 24 de julho de 2010
Caído
Andando apressadamente para voltar ao trabalho após o almoço, o jovem se deparou com um homem caído no chão, aparentava ser de meia idade, estava bem trajado, com um terno preto e seus sapatos eram tão lustrosos que era possível refletir a luz do sol que naquele horário ardia. Outras pessoas passaram por ele e nada fizeram para ajudar, mas ele parou, talvez por ainda não possuir o coração gelado das pessoas dali. Ou pela boa aparência do homem. Ele sabia que não teria a mesma preocupação por um maltrapilho. Cruel, mas verdadeiro.
Ao se aproximar pode notar que o homem estava com os olhos abertos, com o rosto grudado na calçada, os braços estendidos com as palmas da mão viradas para baixo, e as pernas afastadas e levemente dobradas.
- Senhor? O que houve? Posso ajudar?
- Saía daqui! Eu estou bem...
Assustado com a aspereza do homem reparou que não havia vestígio de sangue em seu corpo, seu terno estava impecável.
- Mas senhor, não pode ficar aqui, deixe-me levantá-lo.
- Não! Não toque em mim! Não ouse tocar em mim! Eu já disse que estou bem, por favor, me deixe... Deixe-me em paz!
Outras pessoas pararam para ver o que acontecia. Uma mulher perguntou a ele o que havia com aquele senhor, e o jovem respondeu: É o que estou tentando descobrir. Mas ele não me deixa ajudá-lo.
- Queremos ajudá-lo senhor.
- Eu não preciso de ajuda. Não da ajuda de vocês!
- Credo! O senhor está bêbado? Só pode estar bêbado... Uma hora dessas e já está de porre.
- Eu não estou bêbado. Algo horrível aconteceu.
- O que aconteceu? – perguntou o rapaz novamente, ajoelhando se ao lado do homem.
- Não devo lhe contar. Já disse que estou bem, voltem para seus afazeres... Deixem-me em paz.
- Por Deus homem! Essas pessoas querem te ajudar diga logo o que está acontecendo. – disse um homem placa; que anunciava comprar ouro.
- Já disse. Não esta acontecendo nada.
- Mentiroso! Você acabou de dizer para mim e para esse rapaz que algo horrível tinha acontecido. – gritou a mulher
- Não é dá conta de vocês! Estou bem já disse.
- Ele é louco! Não perceberam ainda? Este homem esta pirado da cabeça. Cada coisa que a gente vê nessa cidade viu? – reclamou desapontada
E a aglomeração em volta do homem caído aumentou mais e mais. E isso atraiu a atenção dos policiais que naquele exato momento faziam ronda. Alguns que ali estavam comemoraram ao ver os oficiais se aproximarem.
- Agora quero ver se esse vagabundo não levanta daí rapidinho. – esbravejou um senhor que interrompeu o passeio com seu cão para ver o que acontecia.
- O que está acontecendo aqui? – perguntou o oficial.
- Esse homem senhor, está caído aqui faz um tempo já, e não deixa ninguém ajudá-lo.
“ELE É LOUCO!” – gritou alguém no meio da multidão.
- Calma pessoal, afastem-se! Deixe me falar com ele. Edgar chame os paramédicos.
O policial agachou em frente ao homem.
- O senhor está bem?
- Eu já disse que estou. Mas essa gente não me deixa.
“PRENDA ELE!”
“LEVA PRO XILINDRÓ”
“DÁ UMA SOVA NESSE VAGABUNDO”
- Senhor, me desculpe, mas é evidente que não está bem, esta deitado em plena calçada, estamos na Paulista, está atrapalhando os transeuntes.
- Eu já disse, está tudo bem, vão embora! Vai ficar tudo bem se forem embora.
- Como assim vai ficar tudo bem? O que está havendo?
- Nada.
- Mentira senhor policial, ele disse para gente que algo horrível tinha acontecido. – esbravejou um dos curiosos.
- Qual seu nome senhor?
- Meu nome não importa agora. Nada importa! Droga, mas que diabos? Deixem-me em paz.
O policial esboçou pegar em seus braços.
- NÃO TOQUE EM MIM! NÃO TOQUE EM MIM! Vocês querem saber a verdade? Vou lhes contar a verdade.
- Conta logo homem! Vamos acabar com isso. – disse o homem placa
- Tudo bem! Eu vou contar... Mas que Deus tenha piedade de mim, e de todos vocês, vocês não sabem o que estão fazendo. Estão cometendo um grande erro.
- Anda com isso! Não temos o tempo todo. – disse o policial
E o homem proferiu algumas palavras, quase que sussurrando. E aqueles que ouviram caíram ao seu lado e lá permaneceram.
Conto de Fernando Ferric
Impossível - Col. de Contos F. Ferric
sexta-feira, 23 de julho de 2010
O Amor
Nem o álbum de figurinhas,
Nem o choro do norte-coreano na hora do hino,
Nem o frango do goleiro da Inglaterra,
Nem o show do Maradona,
Nem o vexame da França (na entrada e na saída),
Nem a defesa com as mãos do atacante uruguaio,
Nem o polvo vidente,
Nem a pisada do Felipe Melo,
Nem a voadora do Holandês,
Nem os palavrões do Kaká,
Nem os erros de arbitragem,
Nem o pé frio do Mick Jagger,
Nem a insuportável vuvuzela,
Nem a catota do técnico da alemanha,
Nem a Larissa Riquelme,
Nem a vontade própria da Jabulani,
Pra mim o melhor da copa foi isso:
Nem o choro do norte-coreano na hora do hino,
Nem o frango do goleiro da Inglaterra,
Nem o show do Maradona,
Nem o vexame da França (na entrada e na saída),
Nem a defesa com as mãos do atacante uruguaio,
Nem o polvo vidente,
Nem a pisada do Felipe Melo,
Nem a voadora do Holandês,
Nem os palavrões do Kaká,
Nem os erros de arbitragem,
Nem o pé frio do Mick Jagger,
Nem a insuportável vuvuzela,
Nem a catota do técnico da alemanha,
Nem a Larissa Riquelme,
Nem a vontade própria da Jabulani,
Pra mim o melhor da copa foi isso:
quinta-feira, 22 de julho de 2010
“Enquanto ela dormia...
...Nas almofadas daquele pequeno e intimista bar, envolta em seus braços, ouvindo o quarteto que estava no palco tocar um delicioso jazz, ele acariciava sua orelha, lançava-lhe um olhar apaixonado, apreciava a música que tocava e simplesmente a amava.”
terça-feira, 20 de julho de 2010
Sou um pai jovem
O caso é que minha filha também está se tornando uma jovem... é aí que começam meus problemas.
A cada dia que passa, percebo minha inocente e infante filha dar lugar a uma insolente e infame adolescente. E agora?
As transformações impostas pelo estrógeno de minha pequena parecem fazer efeito também em mim... a cada dia que ela se torna mais independente e rebelde, eu me torno mais conservador e tirano. Um insensível quanto aos seus gostos musicais, opressor quanto ao seu vocabulário e desconfiado quanto aos seus amigos. Me tornei um daqueles pais de amigos que tememos pelo mal humor constante e pela disposição em dizer sempre não.
Mas espera aí...eu fazendo isso? Porra, quem me conhece pode não reconhecer o parágrafo acima como uma descrição da minha pessoa. Sim... estou me tornando um hipócrita e tudo indica que pagarei com a mesma moeda tudo o que fiz minha pobre mãezinha sofrer, já que minha filha está cada vez mais parecida com a versão 1.7 de mim mesmo.
E o pior de tudo isso é que ainda tenho 30 anos – ou seja – eu ainda saio, fico bêbado, toco numa banda, faço merdas que não quero que minha filha faça... puts.
Na internet então, cada dia quero menos ser amigo da minha filha no Orkut. Tenho medo do que posso encontrar em seus scraps qualquer dia desses. Um dia me deparei com a frase no MSN: “Lino e Francis – mais que amigos”... enfurecido tive que me segurar para não bombardeá-la com inquéritos e castigos descabidos, não... tenho que agir com astúcia. Preciso ganhar sua confiança. Quero me tornar seu confidente, o “paisão” pra toda obra. Preciso suportar as pressões externas, o ciúmes e o instinto protetor para que ela traga a vítim...quero dizer, o seu namoradinho para nosso círculo familiar, assim eu poderei esfaq... quero dizer, apertar sua mão e dizer: “meu genro querido”.
Estou assistindo bastante “Dexter” para aprender a ser um bom anfitrião.
A cada dia que passa, percebo minha inocente e infante filha dar lugar a uma insolente e infame adolescente. E agora?
As transformações impostas pelo estrógeno de minha pequena parecem fazer efeito também em mim... a cada dia que ela se torna mais independente e rebelde, eu me torno mais conservador e tirano. Um insensível quanto aos seus gostos musicais, opressor quanto ao seu vocabulário e desconfiado quanto aos seus amigos. Me tornei um daqueles pais de amigos que tememos pelo mal humor constante e pela disposição em dizer sempre não.
Mas espera aí...eu fazendo isso? Porra, quem me conhece pode não reconhecer o parágrafo acima como uma descrição da minha pessoa. Sim... estou me tornando um hipócrita e tudo indica que pagarei com a mesma moeda tudo o que fiz minha pobre mãezinha sofrer, já que minha filha está cada vez mais parecida com a versão 1.7 de mim mesmo.
E o pior de tudo isso é que ainda tenho 30 anos – ou seja – eu ainda saio, fico bêbado, toco numa banda, faço merdas que não quero que minha filha faça... puts.
Na internet então, cada dia quero menos ser amigo da minha filha no Orkut. Tenho medo do que posso encontrar em seus scraps qualquer dia desses. Um dia me deparei com a frase no MSN: “Lino e Francis – mais que amigos”... enfurecido tive que me segurar para não bombardeá-la com inquéritos e castigos descabidos, não... tenho que agir com astúcia. Preciso ganhar sua confiança. Quero me tornar seu confidente, o “paisão” pra toda obra. Preciso suportar as pressões externas, o ciúmes e o instinto protetor para que ela traga a vítim...quero dizer, o seu namoradinho para nosso círculo familiar, assim eu poderei esfaq... quero dizer, apertar sua mão e dizer: “meu genro querido”.
Estou assistindo bastante “Dexter” para aprender a ser um bom anfitrião.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Entorpecente
Passeando em São Paulo, cruzei com uma dessas criaturas tão bonitas que a gente nem acredita que é de verdade. Alta, magra, com o cabelo bem curtinho e platinado, olhos azuis e roupas elegantes de inverno.
Mais tarde, quando voltei para casa, mamãe comentou ter visto o que ela disse ser uma versão melhorada de Adriana Calcanhoto no supermercado próximo (nota minha: queria Adriana Calcanhoto). A moça, a mesma que eu tinha visto, era tão linda que ela nem conseguiu se concentrar nas compras.
Me chamem de frívola, mas eu trocaria uns bons aninhos da minha vida para ser bonita como ela. Invejo profundamente essa capacidade desintencionada de reduzir a inteligência alheia a pó com um olhar, um sorriso ou a simples presença...
domingo, 18 de julho de 2010
Vou te dizer
Que o problema não é acordar cedo, e sim te deixar sozinha na cama.
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eduardo santinon
Ora se não sou eu quem mais vai decidir o que é bom pra mim, dispenso a previsão
sábado, 17 de julho de 2010
Vago
O meteorologista disse que a semana seria instável. Chuva, rajadas de vento, geada, mais chuva. E o frio, o único constante. As alterações climáticas coincidiram com minha última semana na cidade gelada. Enfim, fui embora. Despedi-me de algumas pessoas com pompa e circunstância. Chorei, enxuguei as lágrimas. Vi as lágrimas derramadas por mim. Para alguns dei tchau como se fosse o até amanhã de todo dia. Melhor assim. Odeio despedidas. Fico insegura, medrosa. Acho sempre mais doloroso para quem fica, mas dessa vez deixar para trás me doeu. Não foi dramático o luto, mas marcou a perda. Carrego, porém, a confiança de que o roteiro está correto. Algumas coisas vão mudar, mas ora, é a vida. Ora, era a hora.
Minha última semana foi de choro, alegria, alívio, dor, ciúme, mágoa, cura. Instável, como o clima. Mas o dia está limpo e claro. O tempo, quem diria, parece estar a meu favor.
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tatiana lazzarotto
Tenho memórias que são quase, tenho memórias inteiras, tenho memórias que me escapam mente afora.
E-mail: tatilazz@gmail.com
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Eu fico
Quero dizer que não vou sair do Blog dos 30. Não sou adepto a grande mudanças, procuro sempre um padrão.
Ainda hoje tenho mesma conta do Orkut. Tenho a do Facebook, mas ainda não me acostumei acho muito cheio de novidade. Compro a mesma Folha de sempre, não gosto de comida agridoce e sempre sento no mesmo lugar e no mesmo restaurante, sempre que posso.
Sempre torci para o Corinthians, no Pacaembu sento no setor da curva e sei que não é o melhor lugar. O meu pai sempre sentava ali e pq mudar, então? Esse negócio de ter mais uma mulher na cama, também nunca fiz e prefiro assim. Mesmo tendo sonhado uma vez com isso e neste sonho eu estava muito feliz.
Nada me faz mais feliz que um prato de arroz e feijão, bife acebolado e ovo. Se tive uma pimenta melhor, esse história de pailard, croton é coisa de fresco. Inclusive essa história de sair do blog dos 30.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
despedida
.
vim aqui para dizer que estou abrindo uma vaga para este dia 15.
estou no blog dos 30 desde o começo e escrever por aqui nunca deixou de ser legal.
gostei de ver meus poemas por aqui.
gostei de conhecer as gentes e textos que andam e andaram por aqui.
e vou gostar de continuar lendo tudo o que se diz por aqui.
estou em um período de silêncio, então não vai ter poema de despedida...
se alguém quiser, pode me encontrar aqui, aqui ou aqui.
valeu!
.
vim aqui para dizer que estou abrindo uma vaga para este dia 15.
estou no blog dos 30 desde o começo e escrever por aqui nunca deixou de ser legal.
gostei de ver meus poemas por aqui.
gostei de conhecer as gentes e textos que andam e andaram por aqui.
e vou gostar de continuar lendo tudo o que se diz por aqui.
estou em um período de silêncio, então não vai ter poema de despedida...
se alguém quiser, pode me encontrar aqui, aqui ou aqui.
valeu!
.
terça-feira, 13 de julho de 2010
Finalmente, um post feliz
a ligação. a surpresa. a expectativa. o tímido lance. a deambulação. os cliques para direita. o lugar privilegiado. o espetáculo. o minimalismo da apresentação. o labirinto da Sé e seus perigos a cada esquina. a impossível entrada do metrô. a Paulista à noite, quando tudo é possível. a longa conversa no bonito restaurante, até ser irremediavelmente tarde. o beijo com a coca-cola de fundo. os pés que doem na longa caminhada (pharmakoi: veneno, remédio, futebol). a descida ao augusto inferno das contradições. e tudo mais que são no mínimo o máximo. o calor no meio do frio. o chuvisco do chuveiro. a porta aberta em luz. esse enlaçar complicado, que é o reconhecimento de campo do desejo. (eu roubei isso de um poema de Safo) a conversa muito honesta de que não somos quem somos. o sucesso no fracasso. e o dormir enlaçado quando é manhã e a paisagem sem janela não nos avisa que a vida já iniciou outro tempo. acompanhar no café rápido da despedida. e na janela do veículo que te leva, eu viro a cabeça. é um adeus silencioso, à lispector. mas eu te levo comigo, por enquanto, no metrô e no trem que chacoalham famintos para a casa. querendo só o teu bem. o maior bem do mundo para nós.
[Hoje o post era para ser triste, tristíssimo, mas então eu me lembrei disso que escrevi e não te mandei nunca, e que já é passado, mas eu faço presente este presente, carente de futuro. onde houver o MAR.]
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[PLAY]
Doutor em Literatura (USP), pos-doutorado em Estudos Culturais (UFRJ). Estudou roteiro e cinema na ELCV. Professor. Ensaista de arte. Redige roteiros. Dirige curtas e documentários. Em 2008 lançou um média, em 2009 publicou ensaio do Prêmio Rumos do Itaú Cultural. Atualmente elabora webserie documental entitulada "M": Estratégias de Manipulação.
domingo, 11 de julho de 2010
Não há o que lamentar quando chega o fim do dia
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Ana Guimarães
sexta-feira, 9 de julho de 2010
No meio do nada
Já não sei há quantos dias estou aqui. Cheguei numa sexta e hoje é quinta-feira, o que se supõe que vivo no meio do nada há uma semana. Mas, como boa cigana que sou, já esqueci como é o som da descarga e a cor de unhas demasiado limpas. Parece que sempre trabalhei das 6:30 às 10:30 arrancando as ervas daninhas que sugam a água das berinjelas, podando os pés de tomate e colhendo batatas vermelhas e brancas.
Removo a terra com as minhas próprias mãos atrás das raízes e nem percebo se há alguma minhoca, besouro, grilo ou plantas espinhosas ao meu redor. Descobri que existe minhoca verde.
Minha casa tem paredes brancas e teto verde. É feita de nylon e a porta é do mesmo tamanho que a janela, as duas se fecham com zíper. Dentro, um colchão, meu saco de dormir, um travesseiro, uma mala com algumas roupas, alguns livros e a minha revista de palavras-cruzadas, que já chega perigosamente ao final.
Os dias duram 16 horas. O calor é tão forte que saio da ducha suando e até a água do lago deixa de refrescar a partir do quinto segundo. Para se referir ao calor infernal, insuportável, sufocante, dos diabos, por aqui empregam uma palavra que também existe em Português, mas que eu nunca tinha escutado antes: canícula. Agora entendo os velhinhos que literalmente morrem de calor no verão francês e viram notícia mundial.
Meu vocabulário continua limitado: chaud, chaleur, canicule, été, lac, douche, eau são os substantivos que eu mais uso. O ser vivo mais citado é a mouche, ou seja, a mosca. Ontem Marielle montou uma tenda para Salomé poder dormir em paz. Aos dois anos e três meses, ela já fala fluentemente a frase « as moscas perturbam », com o sotaque do sul da França, para diversão dos pais, emigrantes do norte.
Amanhã à noite faremos uma receita brasileira: arroz com feijão, e brigadeiro como sobremesa. Até agora não entendi que raciocínio me fez decidir não carregar comigo um pacote de pão de queijo, acho que esse é o fim da minha carreira internacional como garota-propaganda da Yoki, atuando no Canadá, Alemanha, Dinamarca, Inglaterra, País de Gales, Espanha, Bélgica, Holanda, Argentina e Suíça.
Espero comentários, posto que tive que subir uma ladeira e atravessar o galpão das abelhas para usar o computador do vizinho com teclado francês faltando varias teclas. E já anoiteceu, portanto vou fazer o caminho de volta na escuridão total.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Ciências sem sentido versão ilustrada
Li por aí, há algum tempo atrás, que os rodomoinhos de cabelo dos homossexuais giram no sentido inverso dos heterossexuais. Simples assim? Certo ou errado, passei um breve período reparando em nucas nas filas do banco, nas filas da lanchonete, em todas as filas.
Mais adiante reparei que sei diferenciá-los por meus próprios meios e faço isso sem um motivo maior, só por lazer, pelo prazer de observar, analisar, assim como tento adivinhar do quê são descendentes, qual o parentesco, no que trabalham, ou onde moram.
Abaixo, minhas observações ilustradas:




Mês que vem posto minha teoria do "Ângulo Axial".
Mais adiante reparei que sei diferenciá-los por meus próprios meios e faço isso sem um motivo maior, só por lazer, pelo prazer de observar, analisar, assim como tento adivinhar do quê são descendentes, qual o parentesco, no que trabalham, ou onde moram.
Abaixo, minhas observações ilustradas:




quarta-feira, 7 de julho de 2010
A bonitona encalhada
Oi, gente! Meu nome é Laura Henriques e, a partir desse mês, estou contribuindo também com o blog das 30 pessoas! Para começo de conversa, acho que cabe uma apresentação, né? Pensando muito, resolvi trazer pra vocês o primeiro post do meu blog pessoal...Depois desse primeiro post, muita coisa mudou na minha vida, mas, de qualquer forma, acho que é um bom início de conversa...
A bonitona encalhada, infelizmente, sou eu.
E essa frase, infelizmente, não é minha, é da Clarice Lispector. Claro que não a parte de ser a bonitona encalhada, que eu sou, mas a Clarice Lispector não era (até onde eu sei). Clarice Lispector era a mulher que matou os peixes, e o conto “A mulher que matou os peixes” começa com a frase: A mulher que matou os peixes infelizmente fui eu.
Já eu, que nunca matei peixes, gatos ou animais em geral (no máximo dois coelhos com uma cajadada só), sou só uma bonitona encalhada e este texto é um primeiro desabafo.
Porque, sobre mim, além de saber que sou a bonitona encalhada, é necessário que você saiba que sou a rainha dramática e exagerada dos desabafos, sempre suspirosa e sonhadora. Sou eu assim.
Por muito tempo esperei chegar mais perto do coração selvagem, aliás, acho que desde que eu conheci o “Perto do Coração Selvagem”, da Clarice, que sonhei escrever uma coisa tão perto, tão do coração e tão selvagem, arrebatadora. Acontece que o tempo foi passando, e, num momento epifânico (o exato momento em que me tornei a bonitona encalhada) constatei que, se ficasse esperando ser a Clarice Lispector não ia escrever nada nunca. E comecei a escrever essas linhas...
Então, antes de mais nada, peço desculpas por não conseguir produzir nenhum primor de literatura, e desde já não prometo nada além de uns casos que aconteceram comigo ou com alguém que eu conheço bem. Quanto ao coração selvagem, bem...posso dizer que meu coração já foi bem mais selvagem.
Minha admiração por Clarice começou na infância, com o texto da mulher que matou os peixes, que já apresentei. Achei essa frase tão forte, na maturidade dos meus nove anos, que nunca mais esqueci. Usei-a com várias aplicações distintas, e posso garantir que afirmar tão categoricamente que você fez alguma coisa sempre traz um certo efeito impactante.
Adorei, desde a primeira leitura, a sinceridade arrebatadora da confissão.
Testei as possibilidades dessa assertiva. Era só minha mãe descobrir alguma coisa que tinha saído errado na rotina que eu usava a frase, mais ou menos assim:
- Laura, você fez dever?
E eu, séria:
- A menina que não fez dever, infelizmente, fui eu.
A menina que sujou a roupa, infelizmente, fui eu. A menina que tira meleca, rabisca a parede, tudo havia sido eu. Muito boa essa Clarice. Sempre achei.
A fase Clarice da minha infância passou no exato dia em que a professora recomendou a leitura de outro livro da mesma autora: “A vida íntima de Laura”.
Foi o ápice da felicidade, eu, que já amava Clarice, eu, que já chamava Laura, não podia me conter quando chegou a recomendação da leitura. Achando-me a figurinha carimbada do álbum, a mais importante das pessoas, atazanei minha mãe para comprar logo o livro.
E qual não foi minha surpresa, quando li o primeiro parágrafo (pelo visto, as primeiras linhas de Clarice Lispector são sempre significativas).
Meu mundo caiu. É só contar esse caso que todas as lembranças voltam à minha mente. Não podia ser verdade. Como eu ia voltar pra escola depois daquilo?
Você não conhece o livro?
Entao, só porque sou muito curiosa, e compreendo com ternura a curiosidade alheia, vou te contar.
A vida íntima de Laura começa assim:
“Vou logo explicando o que quer dizer “vida íntima”. É assim: vida íntima quer dizer que a gente não deve contar a todo mundo o que se passa na casa da gente. São coisas que não se dizem a qualquer pessoa.”
E você, lendo isso, ainda não entendeu o problema, não é?
O problema é que Clarice continua:
“Pois vou contar a vida intima de Laura”.
Entenda, o problema começou a começar, mas o texto continua:
“Agora, adivinhe quem é Laura”.
É, você mesmo, adivinhe quem é Laura!
E eu, naquela época, pensando, esperançosa: Laura sou eu! Sou eu!
Mas Clarice, impiedosa:
“Dou-lhe um beijo na testa se você adivinhar. E duvido que você acerte!”
Esse beijo na testa, era o beijo da morte, o beijo de Judas que Clarice me mandou:
“Dê três palpites. Viu como é difícil?”
Pode dar seus palpites também. Eu espero aqui, não faço nenhuma questão que você saiba disso mais rápido. Porque o livro continuava:
“Pois Laura é uma galinha. E uma galinha muito da simples”.
Laura era uma galinha! Como assim? Eu era Laura e estava na segunda série (e tinha colegas que iam adorar aquele livro, um livro de motivos para me perturbar).
Naquela época, eu ainda não atribuía à galinha, a palavra, o significado vulgar que se costuma atribuir a algumas mulheres, ditas galinhas. O problema é que a galinha, em si, não é exatamente um animal glamouroso, nem bonitinho, desses que você admira quando tem oito anos de idade, mesmo porque não existe galinha rosa. Eu poderia tolerar várias espécies: uma gatinha, uma peixinha, uma ursinha, uma borboletinha...mas uma galinha? Era demais.
A autora, certamente adepta da técnica “bate depois sopra”, tratava de emendar:
“Peço a você o favor de gostar logo de Laura porque ela é a galinha mais simpática que já vi”.
É, não tinha jeito. Laura era uma galinha. E por mais simpática que pudesse ser essa galinha, Clarice contava que ela era bem burrrinha (nessas palavras, mas não quero ficar citando mais), e que tinha o pescoço mais feio do mundo, o pescoço de Laura era horrível.
Por isso, depois da vida íntima de Laura, me distanciei de Clarice. Foi uma fase difícil na vida, dessas que você não quer sair de casa. Ainda tenho complexo de pescoço e complexo de burrinha... Até hoje, quando meu pai me chama, carinhosamente de primogênita, eu retifico: primoburrita. Até hoje me lembro dessa fase difícil da infância. Que falta de sensibilidade dessa professora...
Abandonei Clarice por um longo e tenebroso inverno. Quase uma década.
Andei por outros caminhos, outras estradas literárias lindas. Conheci Machado de Assis. Ácido. Conheci Guimarães Rosa. Grande e prolixo sertão. Graciliano Ramos e Baleia. Saramago e seu ensaio sobre a cegueira, suas intermitências da morte, o evangelho segundo Jesus Cristo.
Amei Isabel Allende e o inevitavelmente perfeito Gabriel Gárcia Marquez.
Tentei escrever realismo fantástico. Se, na ficção alguma coisa se cria é na literatura infantil e no realismo fantástico. Mas para escrever realismo fantástic é necessário que se tenha uma sensibilidade superiormente aguçada e um quê de genialidade, e não sou assim, tão criativa.
Juro que esse livro se baseia integralmente em fatos reais, porque eu não crio nada, só gosto de aumentar o que ouço (pelas minhas contas, aproximadamente uns 30%), pras coisas ficarem um pouco mais leves e a vida ter um pouco mais de graça, mas só faço esses aumentos quando escrevo – porque se falasse seria fofoca, e tiro sempre o nome das pessoas, pra não perder amigos por bobagens. Como na natureza, na literatura, salvo raras exceções, não é muito o que se cria, mas muito o que se transforma.
Sempre sonhei ser escritora, mas nunca tive coragem.
Certo é que, carente de encontrar minhas amigas, comecei a escrever emails para contar meus casos, refletir sobre as coisas que aconteciam na minha vida e, aos poucos, fui gostando muito de fazer isso. Minha vida foi seguindo um rumo de correria, muitas mudanças, que eu vou contando aos poucos, mas o que interessa saber, nesse ponto de partida, é como me tornei a bonitona encalhada.
Tenho uma família pequena. Eu, meu pai, minha mãe e minha irmã, mais nova. Sempre fomos muito felizes e ainda somos, claro que não ininterruptamente felizes, porque senão isso não seria uma família, mas uma versão família do Teletubbies. Enfim, felizes.
Também sempre tive boas amigas, e bons amigos. Vida normal, básica.
Acontece que, de uns dois anos pra cá, surgiu uma epidemia de casamentos em minha vida.
Todo mundo ao meu redor começou a querer casar, marcar datas, fazer orçamentos, olhar vestidos, e emocionar, e blábláblá. Nessa mesma época, há uns dois anos, a Veja publicou uma capa sobre isso: sobre as mulheres quererem se casar.
A capa, de 29/11/2006 (pode conferir, está no site da revista - http://veja.abril.com.br/291106/p_084.html), trazia as chamadas: 9 entre 10 brasileiras que passam dos 40 solteiras continuarão solteiras e confira as chances de uma mulher se casar no Brasil aos 25, 30, 40 e 45 anos...
Pronto. Era o que me faltava. Aquilo caiu como uma jaca na minha cabeça. Corri para a matéria e ela dizia que, a chance de uma mulher se casar entre os 20 e 24 anos era de 68,9%, entre 25 e 29 anos, de 39,9% e de 30 a 34 anos, de apenas 23,1%. Ainda está tudo no site da Veja, pode conferir.
Naquela época, eu estava a um mês dos meus 25 anos, quando, subitamente, acordaria com trinta por cento a menos de chance de me casar. Fiquei meio abalada com a notícia, mas não dava pra arrumar um casamento em 15 dias. Pelo menos eu estava namorando, pensei.
Hoje, dois anos depois, já rumo aos 27, a epidemia de casamentos ao meu redor prossegue. Minha irmã – mais nova – não custa lembrar, meio que casou. Só este ano, já fui a 12 casamentos e ainda estamos no primeiro semestre. O pior? Não peguei nenhum buquê.
Já estive em festas em que crianças de 9, 10 anos, pegaram o buquê. Segundo a Veja, isso é o correto, antes dos 24, qualquer mulher tem quase 70% de chance de se casar. Já eu...
Nesse clima de desprendimento de qualquer ideal de constituir família, estava eu assistindo televisão com meu pai um dia desses e me deparei com o programa: três noivas gordas, um vestido magro.
Trata-se de um reality show em que três competidoras, morbidamente obesas, tentam desesperadamente emagrecer pra caber num vestido de casamento maravilhoso. Morbidamente obesas, é verdade, mas NOIVAS.
Meu pai, horrorizado com a filmagem das mulheres, feita pelos ângulos mais desfavoráveis possíveis, sem tirar os olhos da tela, disse:
-Essas moças, coitadas, estão se esforçando a toa. Como é que vão arrumar marido?
- Não, pai, expliquei, já tem que ter noivo pra se inscrever no programa.
Ele, então, voltou-se para mim em silêncio, ficou me olhando e disse: as gorduchinhas todas casando, e a bonitona aqui encalhada!
E foi assim que me dei conta do que eu havia me tornado. Esse foi meu humilde, quase pífio, momento epifânico.
Agora, já acomodada com o novo codinome, venho fazer o que Clarice Lispector expressamente me desaconselhou. Vou contar um pouco da minha vida íntima, mas quero deixar bem claro: Laura, aqui, não é uma galinha.
Laura é a bonitona encalhada.
E essa frase, infelizmente, não é minha, é da Clarice Lispector. Claro que não a parte de ser a bonitona encalhada, que eu sou, mas a Clarice Lispector não era (até onde eu sei). Clarice Lispector era a mulher que matou os peixes, e o conto “A mulher que matou os peixes” começa com a frase: A mulher que matou os peixes infelizmente fui eu.
Já eu, que nunca matei peixes, gatos ou animais em geral (no máximo dois coelhos com uma cajadada só), sou só uma bonitona encalhada e este texto é um primeiro desabafo.
Porque, sobre mim, além de saber que sou a bonitona encalhada, é necessário que você saiba que sou a rainha dramática e exagerada dos desabafos, sempre suspirosa e sonhadora. Sou eu assim.
Por muito tempo esperei chegar mais perto do coração selvagem, aliás, acho que desde que eu conheci o “Perto do Coração Selvagem”, da Clarice, que sonhei escrever uma coisa tão perto, tão do coração e tão selvagem, arrebatadora. Acontece que o tempo foi passando, e, num momento epifânico (o exato momento em que me tornei a bonitona encalhada) constatei que, se ficasse esperando ser a Clarice Lispector não ia escrever nada nunca. E comecei a escrever essas linhas...
Então, antes de mais nada, peço desculpas por não conseguir produzir nenhum primor de literatura, e desde já não prometo nada além de uns casos que aconteceram comigo ou com alguém que eu conheço bem. Quanto ao coração selvagem, bem...posso dizer que meu coração já foi bem mais selvagem.
Minha admiração por Clarice começou na infância, com o texto da mulher que matou os peixes, que já apresentei. Achei essa frase tão forte, na maturidade dos meus nove anos, que nunca mais esqueci. Usei-a com várias aplicações distintas, e posso garantir que afirmar tão categoricamente que você fez alguma coisa sempre traz um certo efeito impactante.
Adorei, desde a primeira leitura, a sinceridade arrebatadora da confissão.
Testei as possibilidades dessa assertiva. Era só minha mãe descobrir alguma coisa que tinha saído errado na rotina que eu usava a frase, mais ou menos assim:
- Laura, você fez dever?
E eu, séria:
- A menina que não fez dever, infelizmente, fui eu.
A menina que sujou a roupa, infelizmente, fui eu. A menina que tira meleca, rabisca a parede, tudo havia sido eu. Muito boa essa Clarice. Sempre achei.
A fase Clarice da minha infância passou no exato dia em que a professora recomendou a leitura de outro livro da mesma autora: “A vida íntima de Laura”.
Foi o ápice da felicidade, eu, que já amava Clarice, eu, que já chamava Laura, não podia me conter quando chegou a recomendação da leitura. Achando-me a figurinha carimbada do álbum, a mais importante das pessoas, atazanei minha mãe para comprar logo o livro.
E qual não foi minha surpresa, quando li o primeiro parágrafo (pelo visto, as primeiras linhas de Clarice Lispector são sempre significativas).
Meu mundo caiu. É só contar esse caso que todas as lembranças voltam à minha mente. Não podia ser verdade. Como eu ia voltar pra escola depois daquilo?
Você não conhece o livro?
Entao, só porque sou muito curiosa, e compreendo com ternura a curiosidade alheia, vou te contar.
A vida íntima de Laura começa assim:
“Vou logo explicando o que quer dizer “vida íntima”. É assim: vida íntima quer dizer que a gente não deve contar a todo mundo o que se passa na casa da gente. São coisas que não se dizem a qualquer pessoa.”
E você, lendo isso, ainda não entendeu o problema, não é?
O problema é que Clarice continua:
“Pois vou contar a vida intima de Laura”.
Entenda, o problema começou a começar, mas o texto continua:
“Agora, adivinhe quem é Laura”.
É, você mesmo, adivinhe quem é Laura!
E eu, naquela época, pensando, esperançosa: Laura sou eu! Sou eu!
Mas Clarice, impiedosa:
“Dou-lhe um beijo na testa se você adivinhar. E duvido que você acerte!”
Esse beijo na testa, era o beijo da morte, o beijo de Judas que Clarice me mandou:
“Dê três palpites. Viu como é difícil?”
Pode dar seus palpites também. Eu espero aqui, não faço nenhuma questão que você saiba disso mais rápido. Porque o livro continuava:
“Pois Laura é uma galinha. E uma galinha muito da simples”.
Laura era uma galinha! Como assim? Eu era Laura e estava na segunda série (e tinha colegas que iam adorar aquele livro, um livro de motivos para me perturbar).
Naquela época, eu ainda não atribuía à galinha, a palavra, o significado vulgar que se costuma atribuir a algumas mulheres, ditas galinhas. O problema é que a galinha, em si, não é exatamente um animal glamouroso, nem bonitinho, desses que você admira quando tem oito anos de idade, mesmo porque não existe galinha rosa. Eu poderia tolerar várias espécies: uma gatinha, uma peixinha, uma ursinha, uma borboletinha...mas uma galinha? Era demais.
A autora, certamente adepta da técnica “bate depois sopra”, tratava de emendar:
“Peço a você o favor de gostar logo de Laura porque ela é a galinha mais simpática que já vi”.
É, não tinha jeito. Laura era uma galinha. E por mais simpática que pudesse ser essa galinha, Clarice contava que ela era bem burrrinha (nessas palavras, mas não quero ficar citando mais), e que tinha o pescoço mais feio do mundo, o pescoço de Laura era horrível.
Por isso, depois da vida íntima de Laura, me distanciei de Clarice. Foi uma fase difícil na vida, dessas que você não quer sair de casa. Ainda tenho complexo de pescoço e complexo de burrinha... Até hoje, quando meu pai me chama, carinhosamente de primogênita, eu retifico: primoburrita. Até hoje me lembro dessa fase difícil da infância. Que falta de sensibilidade dessa professora...
Abandonei Clarice por um longo e tenebroso inverno. Quase uma década.
Andei por outros caminhos, outras estradas literárias lindas. Conheci Machado de Assis. Ácido. Conheci Guimarães Rosa. Grande e prolixo sertão. Graciliano Ramos e Baleia. Saramago e seu ensaio sobre a cegueira, suas intermitências da morte, o evangelho segundo Jesus Cristo.
Amei Isabel Allende e o inevitavelmente perfeito Gabriel Gárcia Marquez.
Tentei escrever realismo fantástico. Se, na ficção alguma coisa se cria é na literatura infantil e no realismo fantástico. Mas para escrever realismo fantástic é necessário que se tenha uma sensibilidade superiormente aguçada e um quê de genialidade, e não sou assim, tão criativa.
Juro que esse livro se baseia integralmente em fatos reais, porque eu não crio nada, só gosto de aumentar o que ouço (pelas minhas contas, aproximadamente uns 30%), pras coisas ficarem um pouco mais leves e a vida ter um pouco mais de graça, mas só faço esses aumentos quando escrevo – porque se falasse seria fofoca, e tiro sempre o nome das pessoas, pra não perder amigos por bobagens. Como na natureza, na literatura, salvo raras exceções, não é muito o que se cria, mas muito o que se transforma.
Sempre sonhei ser escritora, mas nunca tive coragem.
Certo é que, carente de encontrar minhas amigas, comecei a escrever emails para contar meus casos, refletir sobre as coisas que aconteciam na minha vida e, aos poucos, fui gostando muito de fazer isso. Minha vida foi seguindo um rumo de correria, muitas mudanças, que eu vou contando aos poucos, mas o que interessa saber, nesse ponto de partida, é como me tornei a bonitona encalhada.
Tenho uma família pequena. Eu, meu pai, minha mãe e minha irmã, mais nova. Sempre fomos muito felizes e ainda somos, claro que não ininterruptamente felizes, porque senão isso não seria uma família, mas uma versão família do Teletubbies. Enfim, felizes.
Também sempre tive boas amigas, e bons amigos. Vida normal, básica.
Acontece que, de uns dois anos pra cá, surgiu uma epidemia de casamentos em minha vida.
Todo mundo ao meu redor começou a querer casar, marcar datas, fazer orçamentos, olhar vestidos, e emocionar, e blábláblá. Nessa mesma época, há uns dois anos, a Veja publicou uma capa sobre isso: sobre as mulheres quererem se casar.
A capa, de 29/11/2006 (pode conferir, está no site da revista - http://veja.abril.com.br/291106/p_084.html), trazia as chamadas: 9 entre 10 brasileiras que passam dos 40 solteiras continuarão solteiras e confira as chances de uma mulher se casar no Brasil aos 25, 30, 40 e 45 anos...
Pronto. Era o que me faltava. Aquilo caiu como uma jaca na minha cabeça. Corri para a matéria e ela dizia que, a chance de uma mulher se casar entre os 20 e 24 anos era de 68,9%, entre 25 e 29 anos, de 39,9% e de 30 a 34 anos, de apenas 23,1%. Ainda está tudo no site da Veja, pode conferir.
Naquela época, eu estava a um mês dos meus 25 anos, quando, subitamente, acordaria com trinta por cento a menos de chance de me casar. Fiquei meio abalada com a notícia, mas não dava pra arrumar um casamento em 15 dias. Pelo menos eu estava namorando, pensei.
Hoje, dois anos depois, já rumo aos 27, a epidemia de casamentos ao meu redor prossegue. Minha irmã – mais nova – não custa lembrar, meio que casou. Só este ano, já fui a 12 casamentos e ainda estamos no primeiro semestre. O pior? Não peguei nenhum buquê.
Já estive em festas em que crianças de 9, 10 anos, pegaram o buquê. Segundo a Veja, isso é o correto, antes dos 24, qualquer mulher tem quase 70% de chance de se casar. Já eu...
Nesse clima de desprendimento de qualquer ideal de constituir família, estava eu assistindo televisão com meu pai um dia desses e me deparei com o programa: três noivas gordas, um vestido magro.
Trata-se de um reality show em que três competidoras, morbidamente obesas, tentam desesperadamente emagrecer pra caber num vestido de casamento maravilhoso. Morbidamente obesas, é verdade, mas NOIVAS.
Meu pai, horrorizado com a filmagem das mulheres, feita pelos ângulos mais desfavoráveis possíveis, sem tirar os olhos da tela, disse:
-Essas moças, coitadas, estão se esforçando a toa. Como é que vão arrumar marido?
- Não, pai, expliquei, já tem que ter noivo pra se inscrever no programa.
Ele, então, voltou-se para mim em silêncio, ficou me olhando e disse: as gorduchinhas todas casando, e a bonitona aqui encalhada!
E foi assim que me dei conta do que eu havia me tornado. Esse foi meu humilde, quase pífio, momento epifânico.
Agora, já acomodada com o novo codinome, venho fazer o que Clarice Lispector expressamente me desaconselhou. Vou contar um pouco da minha vida íntima, mas quero deixar bem claro: Laura, aqui, não é uma galinha.
Laura é a bonitona encalhada.
terça-feira, 6 de julho de 2010
Troféu Latão
Decepção da Copa, Jogador = Cristiano Ronaldo. – Fora o gol circense que fez contra a Coréia do Norte só foi notado quando cuspiu em direção a uma câmera. Estatísticas finais: 1 gol, 5 piscadelas e 897 arrumadas no cabelo.
Decepção da Copa, Seleção = Inglaterra. – Com Capello no comando se esperava mais do English Team. Estatísticas finais: 1 (”o”)pé frio, 1 gol que entrou mais não valeu, 8 hooligans presos , 3 torcedoras bonitas(e com dupla cidadania...) e 1 Mc Chicken
Vergonha da Copa = França. – Saiu na primeira fase, jogadores e técnico deram xilique, virou assusto de Estado. Estatísticas finais: 3 vezes a Marselhesa sendo tocada, 23 Au Revoir, 55 croissant de queijo, 23 de presunto e 1 (se) Fondeau
Porque troféu latão? Nesta época de Copa do Mundo foram feitas muitas reportagens sobre o continente africano e a África do Sul, uma das que mais me chamaram a atenção foi feita pela ESPN Brasil, sobre as cidades de lata [1]. Chamadas de campo de concentração pelos moradores “abrigam” pessoas sem condições para ter uma casa, hã... convencional. Bom, pelo menos é isto que o governo diz (governo este presidido por negros, para se ver como a estupidez humana, esta sim, não é racista ou coisa do tipo, aceita qualquer um do que jeito que é e os abraça como uma mãe orgulhosa) é a justificativa que dá ao mundo para maquiar o que realmente acontece, uma espécie de tentativa de higienização social, jogando quem (a sua visão) não presta ás margens da civilização (na reportagem se nota que, cercados, eles não podem sair do local).
Talvez a maquiagem acabe após a Copa, afinal não terão mais tantos turistas, de qualquer jeito o troféu latão (ou troféu cagada) da Copa vai para quem teve a idéia e para quem mantém as cidades de lata, vuvuzela neles.
[1] - Reportagem da ESPN Brasil sobre as cidades de lata: http://www.youtube.com/watch?v=sUWWa2Zir_I
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Pastel de vento
Gostoso, mas oco por dentro. Como ou não como?
Cleyton Cabral vê história em tudo. É contista, dramaturgo, publicitário e faz bico de poeta.
@cleytoncabral
www.cleytudo.com
sábado, 3 de julho de 2010
E agora?
Claro que eu estou triste com a derrota do Brasil na Copa do Mundo. Eu nem consegui comprar minha camisa retro, e pronto, já acabou. Chato, né? E triste mesmo foi ver o pessoal do shopping desmanchando as vitrines no dia do jogo mesmo. Nada mais de verde amarelo. Nem esperaram o defunto esfriar, poxa. E eu, ainda com minha roupa verde, fiquei pensando:
- -Bem que podemos ficar sem trabalhar nos horários correspondentes aos jogos que deveriam ser do Brasil, né? Assim, como consolo.
- -Esses manés, que juram ter torcido pela Holanda, são mentirosos, sociopatas, ou o que?
- - Torco pra Espanha ou pra Alemanha? Será que dá Uruguai? Não, Argentina não.
- - E as campanhas publicitárias com jogadores? Continuarão no ar ou ficaremos livres dos guerreiros? Se saem do ar, alguém paga rescisão de contrato? Se sim, quem? Quem contratou ou quem teve a imagem desvalorizada?
- -E o Felipe Melo? Conseguirá ser escalado pra pelo menos uma propaganda de lingüiça?
- -Pra onde vai toda aquela infinidade de roupas, esmaltes, e chinelos verde e amarelo?
- -E as comidas personalizadas? Miojo da copa, refrigerante da copa. Tanta coisa no supermercado. Será que eles desempacontam e empacotam de novo? Será?
E por último, a maior curiosidade de todas:
- -Alguém, enfim, comprou ou viu alguém comprar aquela latinha da Skol que “fala”?
quinta-feira, 1 de julho de 2010
autorretrato...
estão dizendo por aí que ontem foi dia das mídias sociais e o blog, segundo dizem, é uma delas. na época da graduação - e durante muito tempo antes e depois - estudei blogs. e uma das coisas em comum a quase todos eles é a sua essência, ou seja, um blog é um diário virtual. gradativamente, a maioria deles se tornou algo comercial, um lance muito mais rentável que apenas um espaço para divagações pessoais. pensando em não perder o estilo diarinho deste post, resolvei publicar algumas fotos da última semana. ok, seria mais um fotolog, também em extinção... mas hoje não importa se o post - ou minha vida - é interessante ou não. o que importa é resgatar o caráter inicial dos weblogs [diários de bordo on line] e trazer pro nosso blogão um pouco do meu bloguinho...

o carinho do sobrinho...
abertura da Bienal de Arte e Tecnologia do @itaucultural - Emoção Art.Ficial
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lucas guedes
Jornalista, especialista em Midia, Informação e Cultura pela USP, onde participa do Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação. Pesquisador de mídias e redes sociais virtuais, escreveu o livro www.odio - a internet na mira do mal. Atualmente é assessor de comunicação, produtor cultural e atua como jornalista freelancer em matérias sobre Cultura e Comportamento.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
De herói a bandido todo mundo tem um pouco
A vida é como um grande teatro
Com platéias
Personagens contracenando
Num grande palco uma história
Sem fim
[Voz Sem Medo]
O sol esqueceu que já era inverno e proporcionou um belíssimo sábado à cidade de São Paulo. O dia também teve um brilho especial para Caroline Celico, protagonista de uma reportagem na nova edição da Veja São Paulo.
“Criei a Caroline para ser uma princesa. Fico feliz que ela tenha se casado com um príncipe!” As palavras carinhosas da mamãe Rosangela Lyra remetem à realeza de Ricardo Izecson dos Santos Leite, o Kaká, príncipe cuja imagem de bom moço não é maculada por palavrões captados pelas câmeras de TV e, menos ainda, por um cartão vermelho injusto.
“Obrigada, Senhor, por, num mundo tão difícil, conseguirmos juntar mulheres lindas que têm mais do que poderiam imaginar.” A oração da princesa Carol emocionou as socialites presentes na reunião no Morumbi. De quebra, provocou também indisfarçável orgulho no coração de muita gente que se vê representada na mídia apenas por pa$tores histéricos e mulheres de perna peluda sob indefectíveis saias jeans.
Ainda curtindo a repercussão da matéria, no dia seguinte a princesinha gospel postou no álbum do Twitter um flagra de pneus masculinos tentando fugir de uma calça que os comprimia. “Que delicia... Bom apetite... Rsrsrs!!!!” foi a legenda escolhida para a traquinagem, aliás uma ilustração perfeita para a vetusta expressão bíblica “enxúndias nas ilhargas”.
Como acontece em alguns contos de fadas, foi o suficiente para a carruagem virar abóbora. Com + de 25 mil cliques, a fotenha despertou comentários furibundos. “Amar o próximo sendo ele limpo, magro e rico é fácil. Vai visitar morador de rua”, comentou alguém. “Essa sua atitude mostra o quanto vc é fútil; tem uma pilha de roupa p/ passar na minha casa”, disse outra internauta, elevando a temperatura além dos 27 graus do domingão.
Não é a primeira vez que Carol causa no Twitter. Em março, ela deu RT em um protesto após a substituição do Kaká numa partida e o a bagulho ficou tenso. Após a imensa repercussão negativa, o maridão chegou a anunciar que iria deletar o Twitter dela.
Desta feita, parece que ela não se importou muito com a jaula da expectativa alheia, tomou Activia e saiu andando... com Louboutin e Chanel nos seus pés apostólicos, naturalmente. Melhor assim. Afinal, os manos do grupo de rap Voz Sem Medo já nos deram a fita:
Tanto morre o sábio como morre o louco
De herói a bandido todo mundo tem um pouco
Com platéias
Personagens contracenando
Num grande palco uma história
Sem fim
[Voz Sem Medo]
O sol esqueceu que já era inverno e proporcionou um belíssimo sábado à cidade de São Paulo. O dia também teve um brilho especial para Caroline Celico, protagonista de uma reportagem na nova edição da Veja São Paulo.
“Criei a Caroline para ser uma princesa. Fico feliz que ela tenha se casado com um príncipe!” As palavras carinhosas da mamãe Rosangela Lyra remetem à realeza de Ricardo Izecson dos Santos Leite, o Kaká, príncipe cuja imagem de bom moço não é maculada por palavrões captados pelas câmeras de TV e, menos ainda, por um cartão vermelho injusto.
“Obrigada, Senhor, por, num mundo tão difícil, conseguirmos juntar mulheres lindas que têm mais do que poderiam imaginar.” A oração da princesa Carol emocionou as socialites presentes na reunião no Morumbi. De quebra, provocou também indisfarçável orgulho no coração de muita gente que se vê representada na mídia apenas por pa$tores histéricos e mulheres de perna peluda sob indefectíveis saias jeans.
Ainda curtindo a repercussão da matéria, no dia seguinte a princesinha gospel postou no álbum do Twitter um flagra de pneus masculinos tentando fugir de uma calça que os comprimia. “Que delicia... Bom apetite... Rsrsrs!!!!” foi a legenda escolhida para a traquinagem, aliás uma ilustração perfeita para a vetusta expressão bíblica “enxúndias nas ilhargas”.
Como acontece em alguns contos de fadas, foi o suficiente para a carruagem virar abóbora. Com + de 25 mil cliques, a fotenha despertou comentários furibundos. “Amar o próximo sendo ele limpo, magro e rico é fácil. Vai visitar morador de rua”, comentou alguém. “Essa sua atitude mostra o quanto vc é fútil; tem uma pilha de roupa p/ passar na minha casa”, disse outra internauta, elevando a temperatura além dos 27 graus do domingão.
Não é a primeira vez que Carol causa no Twitter. Em março, ela deu RT em um protesto após a substituição do Kaká numa partida e o a bagulho ficou tenso. Após a imensa repercussão negativa, o maridão chegou a anunciar que iria deletar o Twitter dela.
Desta feita, parece que ela não se importou muito com a jaula da expectativa alheia, tomou Activia e saiu andando... com Louboutin e Chanel nos seus pés apostólicos, naturalmente. Melhor assim. Afinal, os manos do grupo de rap Voz Sem Medo já nos deram a fita:
Tanto morre o sábio como morre o louco
De herói a bandido todo mundo tem um pouco
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