segunda-feira, 22 de novembro de 2010

E agora, José?

Um dia, a festa acaba, a luz apaga, o povo some, a noite esfria. José sabe muito bem disso, mas está inerte numa situação delicada que não lhe permite impedir esses acontecimentos

José é uma boa pessoa, quem o conhece afirma com segurança que ele é decerto um dos companheiros mais divertidos. Quem o conhece, porém, também afirma com segurança que Clóvis, alter ego de José, é totalmente desestimulante. Há inúmeras diferenças entre um e outro e todos são capazes de reconhecê-las facilmente. Saber quando José é José e não Clóvis também é fácil – o motivo pela existência do outro eu de José é bem visível: o namoro.

José, um dia, se apaixonou e foi correspondido. Conforme o sentimento aumentava, envolveu-se num romance. Eis que Clóvis surgiu. Este veio para suprir a necessidade daquele de agradar em todos os aspectos a namorada. Se José é liberal, engraçado, confidente e próximo, Clóvis caminha no sentido oposto: ele é contido, sério, distante e intimidador. Quem vê José, rapidamente deseja lhe dar um abraço e conversar com ele sobre os acontecimentos da vida. Quem vê Clóvis logo deduz que não haverá espaço para uma boa conversa.


A namorada de José o adora – afinal, com ela, ele é ele mesmo e também o outro, fazendo-a, portanto, muito feliz. Os amigos de José, no entanto, não sabem como se portar diante disso. Ora o vêem como aquele que conheceram, três anos antes; ora o vêem como o homem sisudo que veio em decorrência de uma sutil incompatibilidade entre as personalidades de José e de sua namorada. Os eventos em conjunto tendem à tensão: nunca se sabe se quem vem é José ou se é Clóvis - ou ainda se José se tornará Clóvis ao longo da noite. Uns preferem a presença de Clóvis à ausência de José, outros preferem sua total ausência à possibilidade da vinda de Clóvis. Não há consenso, nem todos concordam com a alternância de personalidade e nem todos discordam dela.

A namorada de José, todos deduzem, garante a ele: você não ficará sem mulher, não ficará sem discurso, não ficará sem carinho. Os amigos, inseguros em relação ao que devem e ao que não devem falar, pensam: o dia não virá, o bonde não virá, o riso não virá e nem virá a utopia, e tudo acabará, tudo mofará. Receiam, contudo, esse pensamento e optam pelo otimismo – até porque, quando saem junto com Clóvis, notam que suas personalidades são intercambiáveis e às vezes percebem que estão a falar com José por alguns minutos, antes de ele voltar a ser Clóvis. Vale ressaltar que José convive bem com Clóvis. José é consciente da existência do seu alterego, parece não ligar em sê-lo às vezes, e, na maioria das vezes, opta por ser o outro a ser ele mesmo.

Ninguém diz, mas todo mundo pensa: um dia, José poderá acabar sozinho no escuro, tal qual bicho-do-mato. E querem todos que ele não se iluda com falsas liberdades, com palavras gentis que confundam o seu discernimento. Querem apenas que ele dose bem os seus momentos como José e seus momentos como o outro, a fim de que sua festa não acabe, a luz não apague, o povo não suma, sua noite não esfrie e, por fim, ele tenha que perguntar a si mesmo: e agora, José?.

domingo, 21 de novembro de 2010

O Retorno

"- Passa a gilette na minha nuca?"
"- Hum, quer ficar bonito para quem?"
"- E desde quando eu sou bonito?"
"- Risos! Para mim você continua sendo..."
"- Humpf!"

A mulher pegou o aparelho de barbear e começou a raspar os pêlos que insistiam em crescer desalinhados na nuca do marido. Há tempos eles não tinham tanta proximidade física, pois estavam passando por um período em que cada um estava ocupado demais com seus próprios afazeres. Ela aproveitou-se do momento para roçar maliciosamente os seus seios nas costas dele que ficou meio sem entender suas intenções. Minutos depois:

"- Prontinho, está feito!"

Teso e tenso, o homem puxou com força sua esposa pelo braço que caiu sentada desajeitada no colo dele. Antes que alguém pudesse reclamar ou se manifestar, beijaram-se primeiro suavemente, depois com mais intensidade...

Com a chama do desejo acesa, ambos se lembraram porque tinham resolvido namorar e depois engatar o relacionamento em um casamento. Não entenderam porque tinham se afastado tanto. Em instantes, as mãos já estavam entrando por dentro das roupas e vasculhando partes úmidas de seus corpos até atingirem o clímax quase que simultaneamente.

De repente, lembraram-se do compromisso:

"- Que horas são?"
"- Quinze para o meio dia..."
"- Puta que o pariu! O táxi está aí desde às onze e meia!"

Desceram correndo os lances de escada do prédio que estava sem luz. O taxista estava com a costumeira cara amarrada de sempre:

"- Toca pro metrô mais próximo, xará!"

Chegaram na estação sorrindo e de mãos dadas, mesmo tendo pago alguns minutos a mais na corrida.

sábado, 20 de novembro de 2010

Estrelinhas

Quando eu era criança, sempre que fechava meus olhos, na hora de dormir, tinha o breu dos olhos fechados invadido por milhares de pequenos pontinhos multicoloridos, parecido com estrelinhas, que ficavam rodopiando e navegando como cardumes sobre a escuridão.

Toda noite era assim. Depois de chegar da escola e passar as tardes pulando entre as árvores e brincando com os animais que meu pai criava no quintal da minha casa, eu me recolhia na noite e não tinha medo. Pois sabia que as estrelinhas, que era como eu as chamava, estariam lá para embalar meu sono.

Mas uma noite elas não apareceram. E depois e depois. Nunca mais me encontrei com as estrelinhas e descobri que isto era crescer.

Toquei a vida, comecei a construir meu caminho e atender ao chamado das expectativa de todos que me cercavam. Primeiro pai, depois mulher e enfim, filhos. Fui consumido pela rotina, embriagado pelo tempo, trabalho e dinheiro mas, ao conversar com minha filha, descobri que, todas as noites, as estrelinhas a visitavam.

O mundo girou ao meu redor e percebi – acho que a tempo – o que estava fazendo com a minha vida. Entregando meu tempo e inspiração por um punhado de moedas, em troca via, pela janela, passar meus dias mal vividos, como um espectador distante.

Voltar a brincar foi estranho, mas era preciso... logo estava pensando em como pude deixar de fazer isso com minha filha por tanto tempo. Minha filha enfim estava re-ensinando a viver e eu, um bom aluno.

Na noite passada estava preocupado com o que poderia publicar neste blog, mas quando fechei os olhos percebi que as estrelinhas voltaram.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

19 Again

Ando com vontade de fazer uma experiência no melhor estilo Julie & Julia, ou seja, cozinhar todas as receitas de algum clássico da cozinha nacional e blogar a respeito. Não seria muito original, é verdade, mas acho que já passei da idade de querer ter idéias novas e brilhantes o tempo inteiro (a privação de sono me envelheceu 20 anos nos últimos 11 meses). Já até escolhi possíveis vítimas: "O Livro de Receitas de Cláudia" ou "Comer Bem" (aquele com a Dona Benta na capa).

Acontece que não sei cozinhar nada e sempre tive a forte impressão de que essa é mais uma daquelas habilidades-armadilha que te prende mais do que liberta. Além disso, tem o problema das calorias. Nunca conheci nenhuma da qual não tenha gostado, mas estar acima do peso é algo que não me faz bem (e não sou do tipo de mutante intergalático e lendário que, diante de comida boa, come pouco ou adora fazer exercícios).

Acho que essa vai entrar pro rol das coisas que eu não fiz. Tipo postar mês passado. Foi mal.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

DDA e outros déficits

Eu não tirei a outra via do cartão, não experimentei o paletó, não aprendi articoli determinativi, não vi o gol do Marcos Assunção, ainda não sei o que aconteceu com o Silvio Santos, não organizei os livros no acervo, não comprei a passagem, ainda não fui pra casa do Bola e nem almoçei.
É que eu estava pensando em você, pelada.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Intolerante à intolerância


- Mãe, quem são eles?
- São ciganos.
- Quem?
- Ciganos, vai me dizer que não sabe o que é um cigano?

Nesse momento, escutei atentamente a mãe italiana explicar ao seu filho de 6 anos “o que eram os ciganos”.

- São pessoas que não tem casa, moram em trailers e roubam. É isso que eles fazem, roubam.
- São ladrões? Não, ladrões são outra coisa né, mãe?
- É a mesma coisa.

Eu já ouvi dezenas de afirmações iguais ou piores que essa. Ao invés de ciganos, os alvos se transformavam em romenos, marroquinos, africanos. Os brasileiros também entram na lista. Mesmo quando a ouvinte sou eu, uma brasileira vivendo na Itália, portanto, também estrangeira. Não senti preconceito na pele, quer dizer, não fui xingada nem maltratada por vim de onde vim, mas já senti desprezo em olhares, já respondi perguntas absurdas e me indignei diante da imagem construída por muitos italianos do Brasil. Geralmente ela não é boa, posso garantir.
Se é correta a teoria que a arquitetura de um país diz muito sobre a cultura e a personalidade de um povo, algumas cidades italianas retratam bem porque o país é considerado um dos mais preconceituosos do mundo. Muitas das cidades onde estive têm imponentes fortalezas em seu entorno. Dentro dos muros, geralmente ainda intactos, está a cidade, protegida contra a invasão “dos outros”.
Zygmunt Bauman, em seu livro O amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos, explica que as pessoas assustadas pela misteriosa e inexplicável precariedade de seus destinos e pelas névoas globais que ocultam suas esperanças buscam desesperadamente os culpados por seus problemas e tribulações. Adivinha quem geralmente são os acusados? Os forasteiros.
Quando eu comento sobre essas situações com amigos brasileiros, a maioria vem com aquele argumento de que no Brasil é o contrário, já que “gringo, aqui, é rei”. Mas de que “gringo” estamos falando? Veneramos mesmo os estrangeiros? Então, quais são as imagens que construímos da África? E pra não sair do continente americano, o que pensamos de bolivianos, peruanos, equatorianos?
Difícil saber como o preconceito nasce, por que a xenofobia pulsa entre os povos, por quais motivos essas falsas imagens são construídas, disseminadas, cristalizadas. A conversa que presenciei entre mãe e filho na Itália é um desses inícios. Pode demorar para que o menino italiano encontre um cigano, mas algo muito forte dentro de mim diz que ele terá medo assim que se deparar com um. Infelizmente, ninguém vai roubar isso dele. Acho que esse é um dos piores males do preconceito. A cegueira não se cura. Leis são criadas no intuito de acabar com o racismo e a intolerância, mas esse é um dos “crimes” nos quais medidas autoritárias são pouco eficientes. Pior, são capazes de agigantar a raiva, a revolta contra aquele grupo marginalizado.
Enquanto o politicamente correto continuar polindo as afirmações em público e as aberrações continuarem a ser ensinadas dentro das casas, das escolas, das igrejas, enfim, o preconceito continuará mais forte (e mais propagado).
Mas não foi minha estada na Itália que me fez pensar nisso. Posso dizer, sem medo de errar, que sou intolerante à intolerância há muito tempo. Não digo que sou isenta desse mal, já que porto essa semente, germinada vez em quando outra, quando caio na tentação de generalizar outros povos, quando aperto a bolsa contra o corpo diante de alguém “suspeito” - que fala uma língua desconhecida e tem traços diversos - quando reduzo alguém a sua nacionalidade, como se identidade fosse só isso.
Esses dias, conversando com uma amiga, falávamos do preconceito sofrido por brasileiros na Europa. Eu lhe disse que nós também temos as nossas intolerâncias e que não podemos apenas nos colocar na posição de vítimas. No que ela respondeu: “ah, mas nesse caso não que seja certo termos preconceito, mas é uma coisa quase natural”. Meu medo é justamente esse. Viver em um mundo onde intolerância seja natural, quando respeito mútuo o deveria ser.
Não sou uma “nova engajada raivosa”, para usar uma das expressões que ouvi quando deixei pública minha revolta contra os comentários absurdos sobre nordestinos depois da vitória da presidente eleita. Não sou de levantar bandeiras, sou menos politizada do que gostaria e uma das minhas grandes frustrações é não ter nenhuma grande causa para defender.
É por isso que eu quis escrever isso aqui. No sentido de compartilhar uma ferida que não me cicatriza nunca. Se eu fosse mais evoluída, quem sabe, levantaria essa bandeira, de um mundo sem muralhas. Porque se derrubar nossos muros nos deixa desprotegidos, também nos dá a possibilidade de conhecer outros mundos, de igual para igual, ou seja, respeitando nossas enriquecedoras diferenças. Não seríamos divididos, mas inteiros.


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Casamento

Como dispensar um amigo da sua lista de padrinhos?
Apresente a lista de padrinhos e informe que ele está fora, na lata, sem piedade. Explique que no seu matrimônio somente estarão as pessoas que você gosta. Como a esposa dele não é uma dessas pessoas...
Geralmente não temos nada contra as esposas de nossos amigos. Às vezes, os padrinhos são escolhas da noiva, bem como as cores do enfeite, as flores, os coquetéis, a marca da cerveja, do açougueiro que forneceu a carne, do DJ, do setlist e das fotos. Sim, somente às vezes. 
Se ele for muito seu amigo, o compense na despedida de solteiro, pedindo as participantes uma atenção bem especial. Ou melhor, duas participantes, exóticas, quem sabe uma negra e uma asiática numa mesma sessão com tatuagens nos pegadores. Recomende o uso do blue dream.
Se realmente é amigo, entenderá perfeitamente, poderá demorar um pouquinho. Poderá ocorrer somente depois de boas assistências no futebol de quinta. Quem sabe no truco, depois de maços em que você o deixará sempre abastado com casal maior.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sobre ser 8 ou 80, regida pelas leis de Murphy

Minha existência se resume a viver repetidamente duas situações: ser demais ou ser insuficiente. Nunca, jamais, sou em quantidade adequada.

Sinto-me muito urbana para viver na minha cidade de poucos mil habitantes e ao mesmo tempo caipira demais para habitar uma metrópole. Sou excessivamente alta para usar salto e demasiadamente vaidosa para me conformar com rasteirinhas e sapatilhas. Ou me considero culta em excesso ou uma completa analfabeta perto dos caras com os quais saio. Soo ser super fresca ao dizer as coisas que não como, ao mesmo tempo que aparento ser grosseira ao pronunciar meus gostos musicais e cinematográficos excêntricos. Sou patricinha demais para os meus amigos homens e largada demais para minhas amigas mulheres. Ou eu intimido por tomar todas as iniciativas, ou entedio por me comportar completamente passiva nas situações cotidianas. Sou experiente demais para as vagas de emprego menos remuneradas e, ao mesmo tempo, uma newbie master para os cargos que exigem experiência. Se filosofo sobre aquilo que sei pareço arrogante e se assumo desconhecer um assunto sou motivo de chacota.

Completamente deslocada e com um saldo exorbitante de fracassos pessoais, sociais, econômicos, profissionais e amorosos, só me resta dividir um pouco da culpa com Murphy, que criou as leis déspotas que regem minha vida. Pelo menos já sou experiente o bastante para saber que a única diferença entre as leis de Murphy e as leis da natureza é que na natureza as coisas dão errado sempre do mesmo jeito.
  

domingo, 14 de novembro de 2010

Meu nome é Heryslaine

-Como?
-Heryslaine. Com H.

Com H. Dizer que meu nome começa com H não explica nem o começo, só complica. Você pode até pensar que minha mãe me odeia pra ter me dado um nome assim, mas na verdade ela é uma pessoa amável. Meu pai é que me deu esse nome, ele sempre foi meio maluco, diz minha mãe. Não me lembro de quantos vezes eu quis trocar de nome durante minha adolescência, mas meu pai fazia uma cara de desolado toda vez que eu tocava no assunto, mesmo de brincadeira. Talvez fosse o fato de ele se chamar João da Silva, não quis que a filha fosse confundida a vida inteira com outra pessoa, com qualquer um. Chamar João da Silva é quase não ter nome. Heryslaine porém é o ápice da identidade. O substantivo mais próprio do mundo. Não posso reclamar que alguém jamais tenha me confundido com outra pessoa. Heryslaine é uma só.

Hoje digo, quase que com orgulho:

-Meu nome é Heryslaine. Mas pode me chamar de Lan.

sábado, 13 de novembro de 2010

Azul e branco



II


Na verde espessura
Do fundo do mar
Nasce a arquitetura.

Da cal das conchas
Do sumo das algas
Da vida dos polvos
Sobre tentáculos
Do amor dos pólipos
Que estratifica abóbadas
Da ávida mucosa
Das rubras anêmonas
Que argamassa peixes
Da salgada célula
De estranha substância
Que dá peso ao mar.

Concha e cavalo-marinho.

Concha e cavalo-marinho:
Os ágeis sinuosos
Que o raio de luz
Cortando transforma
Em claves de sol
E o amor do infinito
Retifica em hastes
Antenas paralelas
Propícias à eterna
Incursão da música.

Concha e cavalo-marinho.
III


Azul... Azul...

Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco

Concha...

               e cavalo-marinho. 

Vinícius de Moraes



[No Palácio Gustavo Capanema, o poema de Vinicius de Moraes materializado em azulejos de Portinári: azul e branco. Manhã de segunda-feira, Rio de Janeiro, e um dia de sol.]

[O Palácio Gustavo Capanema foi construído entre 1936 e 1945, por uma equipe liderada por Lucio Costa.
Nela, estavam os então jovens Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão e Oscar Niemeyer, entre outros. Os jardins foram desenhados por Burle Marx. Os azulejos da fachada, bem como os painéis do segundo andar, por Candido Portinari. Por tudo isso, o Capanema é considerado um dos principais edifícios do modernismo brasileiro, e seu prédio é tombado desde 1948.]


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

"A internet é a própria metáfora da transmissão de pensamento. Isto é ficção científica."

Eu adoro música. Adoro show. Adoro viajar. Quando junta tudo então, aí é uma beleza. E é bom que seja assim, porque morando em BH, não é todo mundo que vem tocar aqui. Ou quase ninguém, pra ser mais exata, principalmente se vier de fora. Tendo tempo, dinheiro e companhia, é difícil eu perder um que eu goste. Mas acontece.
E eu tinha certeza que ia acontecer com o show do Paul.
Quando começaram a vender os ingressos, aquela loucura de sempre de pré-venda, aquela correria, sites congestionados, só pode quem tiver o cartão de crédito tal, ingressos esgotados em pouco tempo, minha irmã deu um jeitinho e perguntou se eu queria que comprasse o meu. Não, brigada. Vou esperar os meninos decidirem, aí compro com eles. Resultado: os meninos não decidiram, ou decidiram que não, ou decidiram por conta própria, em outros dias, outras praças, e eu? Sobrei. Isso. Sold out. Nem mais unzinho pra vender. Quem comprou, agarrando o seu. Resolvi olhar nas agências de turismo, essas que fazem pacotes de avião + ingresso + hotel ou ônibus bate e volta + ingresso ou só o ingresso mesmo. O precinho? Uma pechincha! Tipo 3 vezes o preço normal. Certos eles. Humpf! Aí eu desisti. Ir à falência por causa de um show também já é demais. E é bom pr'eu aprender. Quem mandou recusar a oferta em tempo? Quem mandou dizer que não queria quando começou a vender? Quem mandou ficar de bobona esperando o pessoal todo resolver? Quem mandou, hein? Bem que a minha irmã já me falou - em caso de despressurização da cabine, coloque primeiro a sua máscara, depois a dos outros. Me conformei. E eis que aos 43" do segundo tempo... tcharam!!! Me aparece uma boa (aliás, ótima) alma no Facebook, oferencendo um ingresso de pista, lindão, pelo preço normal, assim, olha só! E eu que até um mês atrás nem tinha Facebook...



terça-feira, 9 de novembro de 2010

Uma DR com SP

Você não me quer, mas não posso te deixar. Desculpa, fui muito direta? É que há dias, já não sei quantos, queria ter essa conversa contigo. Não sei exatamente quando você deixou de me querer. Talvez você nunca tenha me querido de verdade, talvez sonhamos que pudesse dar certo, já que você sempre teve talento para se dar bem com todo tipo de gente e eu só sirvo para vidas com data de validade estabelecidas. Eu sou assim, e assim fugi, e assim voltei.

Voltei de olhos fechados diretamente para os seus braços, mas quando cheguei eles estavam cruzados. Seu coração estava congestionado, as regras mudaram, os preços aumentaram. Aqui descobri que sou sem teto e sem chão.

Você não me quer. Mas não posso te deixar. Voltei decidida a tentar de verdade que por fim pudéssemos ficar juntos, voltei com mil planos para nós. Você também tinha planos, as promessas eram inúmeras, você me desenhava oportunidades que eu jamais pensei encontrar justo aqui, e agora. Busquei planos assim longe daqui, perto daqui, em lugares parecidos, em lugares radicalmente diferentes. E até hoje não entendi como foi o processo decisório para que eu assinasse embaixo desse contrato de voltar para ficar contigo.

Mas você não me quer. E me perguntam por que não posso te deixar. É mentira, ninguém perguntou. Não contei pra ninguém que você fez isso comigo. Justo eu, que tão bem te tratei, mesmo que tenha te afastado sem querer querendo mais de uma vez. Tenho vergonha da minha ingenuidade. Eu, que me conhecia tão bem, agora me olho no espelho e não me reconheço.

Não posso fugir de novo. Não quero mais fazer malas. Não, não, não. Não tenho mais planos, só tenho a sua rejeição contínua, incansável, que me contamina o pulmão em cada escapamento furado, me atordoa o ouvido a cada ruído da catraca, que me ferve o sangue a cada insulto opressor.

E eu aqui, agora aqui, ainda aqui, sentada em terra firme, com meu botezinho amarrado no cais, suportando a urgência de fugir rodeada por todo tipo de distração que decida passar perto de mim. Não tenho um pingo de esperança que um dia você volte a me ver como eu era, como eu acredito que ainda posso ser. Agora só espero o tempo passar.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

domingo, 7 de novembro de 2010

Nota mental

Para lembrar: o para sempre é feito de todos os dias. Logo, ser feliz para sempre começa com a tentativa de ser feliz a cada dia.

sábado, 6 de novembro de 2010

Palmeiras não. É Palestra!

Giggio, o pequeno Palestrino em
Palmeiras não. É Palestra!

       Como virei Palmeirense? Nunca. Não gosto de dizer que virei Palmeirense, pois isso acarretaria em dizer que já fui algo diferente, não fui.  Antes de pensar em qual seria minha alcunha meus velhos já procuravam utensílios verdes para meu enxoval, dizem que minha primeira palavra foi: “Djalminha”.
         Claro que não começo eu não entendia nada, mas mesmo a família sabendo que eu não conseguia distinguir o verde do laranja, ficavam muito orgulhosos a me ver cambaleando e caindo vestindo aquele macacão comprado na loja do time. Agradeço o bom senso deles de cultivarem e incentivarem esse amor sem precisar ter que me levar ao estádio antes que eu conseguisse controlar minhas necessidades fisiológicas, penso que seria bem embaraçoso isso, fora que eu não ia entender nada mesmo, ia ser demais pro meu sistema nervoso central entender a regra do impedimento ou porque o Galeano era titular.
         Finalmente, aos seis anos chegou o dia da minha “estréia”, a família toda estava presente no Palestra Itália, parecia até que eu ia jogar. Entrei no campo com os jogadores, conheci o estádio e enfim, vi o jogo. Lá pelas tantas do segundo tempo finalmente saiu o gol, não sabia o que fazer, então, comecei a pular e a fazer movimentos sem sentido até que começaram a me abraçar. Então virei para trás e disse para um senhor: “foi gol do Palmeiras!”, ele respondeu: “não filho, gol do Palestra!, do Palestra!”. Não entendi no primeiro momento e só mais tarde fui procurar saber por que ele disse aquilo, na verdade ouvi uma centena de vezes depois a mesma história daquele senhor, 1942, guerra, perseguição, aliados...
         Assim, por livre e espontânea pressão, nasci Palmeirense, ou melhor, Palestrino. Meu avô, “seo” Donato, até hoje fala Palestra, é como se assim se diferencie dos demais Palmeirenses, como se fosse algo a mais, uma patente mais alta.  Não que tenha ranço das pessoas que provocaram a alteração do nome, ou mesmo que não goste da designação Palmeiras, é somente um velho rabugento que tem aversão a mudanças mesmo.

Estória e personagem de: Vlad Galli

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Quindim

O despertador gritava, esperneava, chamava a atenção mais que tudo. A cama estremecia, o quarto todo pedia a paz dos deuses. O sonho interrompido por uma peça de Verdi. Tudo bem, não era o rebolation o alarme do celular e sim a criação de um dos compositores mais influentes do século XIX, mas ninguém merece ser acordado quando o sonho que se sonha é bom, é doce. Ela sonhava com o quindim da padaria da esquina. Para uma garota de doze anos, sonhar com quindim não era um sonho qualquer. Quindim era o balconista.

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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O enterro de um homem coerente (por Gilberto Amendola)


Por Gilberto Amendola 


Morreu um coerente. Um sujeito que teve sempre a mesma certeza - do cordão umbilical até o derradeiro suspiro. Um homem sem esquinas na alma, sem becos obscuros desembocando no esgoto do peito. Morreu um triste.
Os parentes se aproximavam do caixão sem crer. Não havia um sinal de dor, uma marca, um corte ou qualquer outro indício da morte que ali se apresentava. Seu corpo inerte não era diferente daquele que até ontem gozava de boa (eu diria, perfeita) saúde.
Amigos? Uns dois ou três - que eram mais frutos de uma conveniência corporativa (subalternos ou lambe-botas) do que de laços fraternais. O morto, o coerente, não perdia tempo regando a flor errática da amizade, que além de dar trabalho não traz nenhuma garantia de boa colheita.
Se algum amor chorou por ele? Só o da própria mãe - que é compulsório e, que me perdoem as mães, não conta. Uma mãe é capaz de amar o pior canalha. Mas, justiça seja feita, o coerente nunca foi um canalha. Seria demasiado humano para os padrões dele.
O coerente, como se percebe agora, sempre manteve uma distância segura de seus pares. Nunca se envolveu em nada que representasse uma possibilidade de dúvida. Nunca quis saber de alguém que dissesse 'A' - quando acreditava que o correto seria ouvir 'B'. O coerente não alimentava baboseiras. Era uma linha reta em direção ao precipício do entendimento.
Não se tem notícia de lama em seus sapatos; de chicletes em seu cabelo ou cárie em seus dentes - não era muito de comer doces, dizem. Se não era perfeito, ora bolas, que criem uma outra definição para perfeição.
Mas a vida, que não é feita para ser poupada, deu o troco. Por infelicidade, o pobre rapaz morreu cedo, com o bolso cheio de medalhas, honras ao mérito e outras quinquilharias de gente de bem. Não se sabe se foi vítima de alguma doença extravagante e sacana - dessas que só matam pessoas extremamente limpas e educadas.
Não sofreu. Ou, talvez, tenha sofrido. A questão é que o coerente não sabia o que era e o que não era sofrer. Sabia o que era uma gripe ou uma pequena enxaqueca. Agora, sofrimento, ele não sabia não.
Morreu dormindo. Vai saber se algum dia esteve acordado? Mas se foi dormindo. E neste intervalo entre a vida e a morte, o corpo rogou por um sonho. E o que aconteceu? O coerente se viu mergulhado em uma palidez abissal, dando braçadas desconexas no ar. Era pura comédia física. Aliás, o que é a vida se não uma comédia física.
Enfim, foi o sonho possível de um homem coerente. Ele mesmo teria gargalhado se não fosse esteticamente incorreto gargalhar. Vamos dizer que o coerente sorriu ironicamente, tal qual um lorde inglês (melhor assim).
Mas eis que o coerente morreu. O caixão foi fechado. O corpo desceu. Os presentes fizeram aquele ar de tristeza, tudo de praxe, tudo coerente com o sujeito coerente que tinha partido desta para uma melhor.
E todos foram embora daquele cemitério: abraçaram suas mulheres, beijaram seus maridos, usaram seus iPhones, limparam seus pés de barro e pegaram seus carros. Na primeira curva depois do portão já não havia mais nada para ser dito sobre o homem coerente. Todo dia morre um. E ninguém (ou quase ninguém) liga.
Enquanto o esquecimento varria a antessala do pensamento, os vermes, sempre eles, rodeavam o corpo do homem coerente. Aquilo, que se pretendia um banquete, parecia indigesto.
Os vermes não farejaram algo apetitoso, algo suculento, algo que tenha sido embebido na cachaça da vida. Era molho ruim. Comida sem graça. Nem os vermes quiseram petiscar o defunto mais coerente da história.
Acho que o homem coerente nunca vai apodrecer.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Super bactérias, ativar!


















Esses dias me perguntaram se eu sabia algo sobre a super bactéria. Respondi que não e que não queria saber. Tá, eu ouvi por alto, vi um link de noticia aqui e ali, mas me recuso a prestar atenção. Já estava cansada do papo de bactérias comuns, agora me inventam uma super?

Desde que eu sou criança eu comemoro meu aniversário na Festa Uai, uma festa que tem todo ano aqui na minha cidade no mês de Agosto. Esse ano falaram que não teria. Como assim? Corte de verbas, disseram. Fiquei puta. Pelo visto outros também ficaram e por fim resolveram fazer a festa por míseros 4 dias. Antes eram 15, mas ok. Como dizem por aqui, melhor pingar do que secar.

Fomos. A família toda. Escolhemos a barraca de sempre, aquela que serve feijão tropeiro, couve, pernil e torresmo. Na hora de servir a tia da barraca me entrega uma marmitex quadrada e talheres de plástico. Pensei que era um erro e afirmei que não tinha pedido para viagem. Normas da vigilância Sanitária, ela me explicou.

Engraçado que a vigilância sanitária parece não ter muita consciência ecológica, né? Antes comíamos em pratos normais, talheres normais, que depois eram lavados e usados por outra pessoa. Esse ano não. Sacos e sacos de lixo de produtos descartáveis. Tudo em nome das bactérias. As temidas.

Eu queria que a agente sanitária responsável me apresentasse um atestado de óbito de alguém de foi infectado por alguma bactéria na festa e morreu ali mesmo, com a cara no tutu de feijão. Só assim faria sentido. Ou radicalizasse geral. Não pode falta de higiene? Então quem comer espetinho de gato que os camelôs vendem na porta da festa está preso. Sem direito a fiança. E mais do que isso, queria que ela se sentasse na minha mesa e me ensinasse como diabos se espeta um torresmo com garfo de plástico.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Dois textos em um: Gastronomia Fail + Dakota´s battle

Gastronomia Fail

- Além do galeto, vou querer o arroz maluco.

O garçom era muito atencioso e simpático. O local era limpo, bem decorado e bem arquiteturado. Galeto primoroso, no ponto certo, saboroso ao extremo. Na minha mente, pipocavam os seguintes pensamentos: “que delícia”, “porra, bom pra caralho”, “tomara que não chova, quero muito jogar futebol hoje”, “sempre em busca do novo do novo. Do novo”, “por que você cisma com esse conceito publicitário? É muito ruim, cara. Esquece essa merda”, “que tal misturar logo o galeto com a porra do arroz maluco?”.

(Evito ao máximo usar palavrões nos meus textos. Mas como eu tive que relatar os pensamentos que pipocavam na minha mente, que são sempre recheados de palavrões, eu não tive outra escolha.)

Então eu coloquei o arroz maluco no prato e senti um gostinho de indústria, inaceitável para um restaurante daquele nível. Examinei a travessa de arroz e vi que a batata palha era daquela que vem em saquinho, como se fosse Ruffles. Qual é a dificuldade em fazer uma porcaria de uma batata palha verdadeira, no óleo, crocante e saborosa? Me lembrei de um restaurante mexicano que teve a indecência de servir guacamole com Doritos. Pode ser que para muita gente o Doritos ou a batata palha industrializada não seja um problema muito grave. Mas para mim foi tão grave quanto se eu tivesse visto três ratos e uma barata transitando pela galeteria. A propósito, chama-se Galeteria Mormaço e fica no Jardim Botânico.

Então agora vocês já sabem. Podem ir sem susto, a comida é muito boa, só não me peçam o arroz maluco. Tem que ser muito maluco mesmo pra pedir aquele arroz.

Dakota´s battle

Hoje eu sonhei que a Dakota Fanning havia se mudado para a minha casa graças a um sensacional e totalmente impensável namoro do meu pai com a mãe da menina prodígio. Ela se tornou rapidamente a minha irmãzinha querida. Andávamos na Lagoa quase todos os dias, levei-a para conhecer as praias menos badaladas, assistimos os seus filmes preferidos e o meu inglês progredia numa velocidade extraordinária. Então, numa manhã de domingo, ela me deu um abraço apertado e disse que eu era o melhor irmão do mundo. Eu estava tão feliz que não conseguia dizer nada. Mantive os olhos fechados por um bom tempo, envolto no seu abraço apertado. Ao abrir os meus castanhos olhos sem graça e comuns para fitar os seus belos olhinhos azuis, eu vi um armário aberto, um aparelho de som e uma calça pendurada na parede.

Voltei a dormir e sonhei que o meu pai era morto por uma espécie de urso que pulou de uma árvore enorme enquanto passeávamos na sua fazenda. Foi uma cena bastante traumática. O urso era seis vezes maior que um urso convencional, mas ele lutou bravamente. A sua morte custou caro e ele não se desesperou em nenhum momento. Encarou o urso gigante de igual pra igual. Fiquei orgulhoso do meu pai. Não só pelo confronto com o urso, mas principalmente por ter namorado a mãe da Dakota Fanning.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

o dia em que fui atingido por uma bolinha de papel e não morri, obrigado

31 de outubro de 2010. eu tava quieto em casa trabalhando em pleno domingo à noite. daí a dilma rousseff resolveu ser a primeira mulher presidente do brasil. a presidenta dilma. pow, momento histórico, não? fogos, helicópteros, buzinas foram invadindo meu apê e eu fui convencido a dar um pulinho ali na paulista sapear a festa. sabe ano-novo? então....

cheguei lá, encontrei amigos, escritores, artistas, diplomatas, jornalistas, mendigos, vovós e crianças. todo mundo gritando DILMAAAA.

de repente, não sei de onde, uma bolinha de papel cai na minha cabeça e eu desmaio, quase morro. um jornalista viu a cena e chegou a tirar essas fotos no momento exato deste ato de vandalismo e agressão. corri pro hospital pra fazer uma tomografia, mas tava tudo bem. a bolinha de papel não me matou.




voltei a tempo de ver a queima de fogos à meia-noite.

e gravei um trecho da "festa da democracia". o dia em que o "feminismo ressuscitou". o dia em que uma mulher assumiu o poder no brasil. um dia que vai ficar na memória de todos, independentemente de sua escolha partidária.



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é complicado descrever o que foi este evento, mas emocionante talvez seja mesmo a melhor palavra. sei que amanhã ou depois eu posso me arrepender amargamente pelo meu voto e por aparecer no fim desse vídeo fazendo joinha, mas pelo menos tenho certeza de que eu, que vinha desanimado de política há anos, começo a pensar que alguma coisa pode - enfim- mudar.
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ps.: a parte da tomografia é mentira, mas né, tenho que explicar isso porque tem gente que acredita em tudo que escrevo.