segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Neguinho como eu, como você


Neguinho não lê, neguinho não vê, não crê, pra quê?
Neguinho nem quer saber
O que afinal define a vida de neguinho

Neguinho compra o jornal, neguinho fura o sinal
Nem bem nem mal, prazer
Votou, chorou, gozou: o que importa, neguinho?

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei, neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho

Se nego pensa que é difícil, fácil, tocar bem esse país
Só pensa em se dar bem - neguinho também se acha
Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro, um GPS
E acha que é feliz
Neguinho também só quer saber de filme em shopping

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei, neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho

Se o mar do Rio tá gelado
Só se vê neguinho entrar e sair correndo azul
Já na Bahia nego fica den'dum útero
Neguinho vai pra Europa, States, Disney
E volta cheio de si
Neguinho cata lixo no Jardim Gramacho

Neguinho quer justiça e harmonia
Para se possível todo mundo
Mas a neurose de neguinho vem e estraga tudo
Nego abre banco, igreja, sauna, escola
Nego abre os braços e a voz
Talvez seja sua vez:
Neguinho que eu falo é nós

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei, neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho
(Caetano/ Gal Costa)

nesta semana, um médico me perguntou: "você acha que bebe demais?". e eu respondi: "uma pessoa que bebe nunca acha que bebe demais". o médico, silenciado, olhou para mim. parecia surpreso. acho que não esperava por minha resposta. não espera uma mulher dizer que suas dores no estômago podem estar relacionadas aos seus maus hábitos que se traduzem em cerveja e coca-cola.

o mundo está muito chato. 
eu defendo muitas bandeiras. eu não aceito que dividam o mundo em azul e cor de rosa. eu protesto contra o preconceito aos gays aos negros aos pobres aos nordestinos. isso, das minorias. e desde sempre. muito antes de ser moda. assombrei minha família amada quando disse em alto e bom som que não via problema algum em ser gay. e quando me disseram que, além de gay, havia a desconfiança da promiscuidade, eu disse apenas que estava no script. e quem pode negar que é maravilhoso? muito antes de ser politicamente correto. porque não gosto de nada do "politicamente correto" e suas demandas. nunca fumei --- mas me assombra o mundo que varreu os fumantes para as ruas --- entregues à própria sorte da discriminação. Tatupai é fumante. e vez ou outra me preocupo. não quero que ele morra de câncer. mas não querer que seu amor morra é do humano. penso.

o "meu problema" é que penso que passamos por uma higienização do presente que por vezes me dá engulhos. estamos vivendo um revival mal feito dos movimentos sociais dos estados unidos. agora, tudo precisa ter uma ordem bem demarcada. como se, nordestina, precisasse proferir meu ódio aos que odeiam os nordestinos, mas proferir de tal modo que pareça que apenas reivindico o lugar que nunca tive. mas que lugar de reivindicação é este? não é o meu.

odeio a palavra bullying. a porra da palavra já prova nossa submissão às ideias vindas não apenas de fora, mas em forma de onda. quando poeminha foi ignorado por seus coleguinhas por gostar de pôneis, não pensei em bullying. pensei que é do viver em grupo. e vi nisso a oportunidade de explicar a ele que o mundo, às vezes, é bem feio. e que está ao nosso alcance não sucumbirmos. ser feios como os que julgamos ser feios é a pior das posições. acredito nisso. hoje nos impelem a nos afastar de tudo que não tenha uma bandeira efetiva e visível. estou fora. falei para o Poeminha: -------

não quero o mundo no seu contrário. quero o suplemento. quero amar os indígenas e os não indígenas. o branquinho e o negão. ou o neguinho. quero amar as bichas. mas não como categoria.  não quero nada em categorias. e quero poder dizer que, se defendo bandeiras, me cansam os olhares todos voltados para as bandeiras. tenho visto muitos enganos --- e todos passam por este olhar "preservacionista" - amam os indígenas e os negros paramentados de indígenas e negros. quero ver amar o neguinho e o índio com seus cordões de ouro e prata e seus carrões f1000qualquercoisa. pensam num mundo estático, como se todos não estivéssemos neste movimento errante de esquecermos as próprias tradições.

como ser nordestina. ser nordestina é uma desgraça. cearense, então. o cearense não tem o orgulho do pernambucano, do baiano, do paraibano. o orgulho do cearense é ter sobrevivido a grande fome. somos um povo acanhado. não temos o frevo nem o axé. vivemos do forró - que só teve seu período áureo com luiz gonzaga e com o tal forró universitário. mas temos tanto! e foi este tanto que esteve sempre comigo --- o que me permitiu estar aquém ou além da estereotipia, a depender do momento.

em paris fui arrastada pelo meu supervisor de doutorado que ao descobrir aparentemente surpreso que eu havia lido a trilogia de beckett saiu me apresentando como a brasileira que leu... e não esbocei nenhuma reação, a não ser um sorriso amarelo de quem mal sabia falar a língua daqueles que me passaram a ver como exceção. mas me vingo até hoje ao transformar meu supervisor na mesma estereotipia::: um francês idiota que não sabe que no Brasil se lê Beckett. o que quero dizer com isso é que todas essas classificações tornaram o mundo muito chato. entendo a história. indigno-me com a história. mas não. não estou a fim de fazer uma revisão da história a partir de uma higienização do presente. 

porque batalhar pelas diferenças não é o mesmo que querer transpor tudo ao seu contrário. não me alinharei nunca àqueles que nas passeatas defendem a volta à ditadura. essa gente classe média que não me representa. e defenderei até sempre um partido como o PT no poder --- falei ontem mesmo:::: "se vocês pensam que esta universidade existiria se um partido como o PT não estivesse no poder, é porque vocês não entendem nada de política". e vou na marcha das vadias, nas paradas gays. sou a favor das cotas. e meu filho não vai se beneficiar delas, porque ele não é neguinho para os padrões brasileiros e eu não vou ter coragem de mantê-lo na escola pública. mas não me peçam para fazer o jogo da substituição. não me peçam para cooperar na instituição de uma nova cultura --- que tenha como premissa o esquecimento das tantas culturas.

um exemplo::: acho mais importante que o neguinho brasileiro leia o branquinho guimarães rosa e o sarará graciliano ramos do que leia os branquinhos agualusa e mia couto. e acharia diferente se o povo soubesse fazer de outro jeito::: colocar tudo junto e misturado. mas só vejo o contrário. uma parte de professores totalmente envergonhada, e outra indignada, quando se fala em ensino da literatura brasileira, da arte brasileira. agora, só pode ser literatura das minorias, arte das minorias. como se nós mesmos não fôssemos uma porra de país que mal sabe o que seja literatura, o que seja arte. que mal sabe quem foi graciliano ramos e guimarães rosa, quem foi hélio oiticica. mas não::: preferem que agora se saiba quem é mia couto e agualusa (incríveis, sem dúvida, mas quem conseguir me provar que a prosa de agualusa vale um dedo da de rosa, juro, como eu digo::: não corto o dedo do meu filho, mas corto o meu). porque estou falando de deslumbre: do momento ímpar de ler grande sertão: veredas e ficar chapada a vida toda a cada vez que lembra. e eu li barroco tropical, do branquinho agualusa, e vi muito mais pretensão do que qualquer outra coisa. fico cansada, juro. e não é nacionalismo. é política de leitura. defendo que se estude literatura brasileira porque somos brasileiros. e também norte-americana, francesa, italiana, africana, japonesa, porque somos brasileiros e precisamos abrir o olho para o resto do mundo. não para um certo mundo. mas para o mundo todo. me ajoelho diante de mia couto como me ajoelho diante de beckett. é mentira ---- me ajoelho mais diante de beckett de dostoiévski de kafka. e que se dane o fato de eles terem nascido na europa branquinha. são neguinhos como eu. 

quero estar no entremeio. por que diabos não posso? por que diabos não posso ser uma mulher que desconfia que sua dor no estômago é do excesso de cerveja e coca-cola que ingere? ou não. e não sou feminista nem defendo uma masculinização, uma europeização do mundo. sou mulher. tenho uma independência emocional que cultivo com orgulho e dedicação. e conheço poucas pessoas que a tem. preciso ser amada por poucas pessoas. e mal me mexo quando me descubro não amada. mas sou mulherzinha também. cuido da casa. lavo a roupa da casa. passo a roupa da casa --- isso significa que quando o tatupai está aqui eu cuido dele. eu dobro as suas camisas e coloco-as na posição de usar no guarda-roupa. mas Poeminha, quando tinha quatro anos, disse espantado: "Papai, mulher cozinha!", porque nunca tinha me visto cozinhar. porque é isso, né? a porra da diferença é isto. é branquinho e neguinho tudo junto e misturado. é tudo cor. é tudo gente. é tudo sentir na pele. e para mim, esta deve ser a política.

(hoje recebi um abraço muito apertado. da moça que fez uns vinte tipos de raios-x do meu corpo. junto com o abraço, ela me disse que desejava que eu ficasse boa. disse que acreditava em Deus, que Deus era a cura. falou abraçada a mim. e eu a abracei fortemente. agradeci com uma grande alegria no coração. não era ali que teria medo do abraço de uma desconhecida. mas não menti::: disse que não era religiosa. mas que agradecia enormemente aquele abraço e aquele desejo que eu melhorasse. e por fim, fiz a reverência de agradecimento: curvei os meus joelhos e disse: "obrigada!". curvei-me àquele desejo diante da diferença. ela tampouco titubeou. abraçou-me mais uma vez).
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(repliquei esta postagem, que já havia publicado em meu blog, não apenas por falta de tempo de escrever, mas por achar que essas discussões devem ser feitas continuamente)

domingo, 25 de outubro de 2015

Questões feministas, sim.

Mudei o meu post quando li o tema da redação do ENEM: "A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira".

Eu, mulher, quase incansável nas discussões sobre o feminismo, não contive minha alegria ao ler o anúncio do MEC que, já tinha surpreendido com Simone de Beauvoir, ontem. A alegria de ver a questão retirada do armário fez contraponto com a tristeza ao ler diversos comentários que este não é uma tema sério, apenas mimimi das feministas, que mulheres que são dão ao respeito não correm o risco de passar por uma situação assim.

Ô gente, estamos em 2015 e o Moonwalk continua, muitos passinhos para trás.Você não precisa concordar mas precisa entender que existe uma série questão a ser discutida.

Batom vermelho, saia curta, short, roupa transparente, andar sozinha à noite não é sinônimo de vagabunda, nem de merecimento de uma passada de mão.
Ser a favor do feminismo não é odiar os homens. Não é uma briga de gêneros, não é uma briga de poder, é sobre direitos.
Eu não tenho direito em relação à total escolha do meu corpo, não posso decidir se desejo continuar uma gravidez ou interromper. Isso não é ser a favor ou contra o aborto. 

Bato na tecla óbvia que "ninguém aguenta mais ouvir" e continuarei batendo nesta tecla enquanto um lindo discurso teórico não for compatível com a prática.

Vamos somar, homens e mulheres. Vamos discutir e argumentar com aqueles que estão ao nosso redor. Vamos falar sobre o estupro, sobre o assédio, sobre a violência, sobre o abuso. Vamos acolher.


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

De quando me senti muito velho

Quando somos crianças, a amplitude etária de nosso meio social é bem pequena. Geralmente nos relacionamos com pessoas que tem estritamente nossa idade. Às vezes um ano a mais, outras vezes um ano a menos, mas dificilmente mais que isso. Abaixo disso são os crianções indignos de conviver com pessoas com o nosso grau de maturidade e acima disso são os inatingíveis seres do sétimo, oitavo ano, cujo comportamento invejamos, copiamos, mas quase nunca declaramos isso.

Com o tempo, essas diferenças somem e a amplitude etária vai crescendo. Lá pelos 20, geralmente pela entrada na universidade ou no mundo do trabalho, já começa a ser normal convivermos com pessoas consideravelmente mais velhas de igual pra igual (os consideravelmente mais novos ainda costumam ser raros).  Nessa fase, nos surpreendemos ao saber que aquele nosso colega de faculdade tem a mesma idade de nosso tio ou irmão mais velho. É divertido isso.

Tudo é muito bonito quando somos nós os novinhos em questão. Dia desses, 4 anos após concluir minha graduação e do alto de minhas quase três décadas de vida (oh, céus! Três décadas!) voltei à universidade para fazer um curso de extensão. Minha turma era composta por crianças de 18, 19 anos que, portanto, ainda desfrutam seus primeiros anos de graduação, com toda a empolgação características desses anos.

Nada contra esse tipo de interação, é que a gente se sente meio esquisito quando o professor olha pra classe, faz o reconhecimento do público e conclui: "Bom, é claro que ninguém aqui era nascido em 93...". Como assim, amigão? Em 93 eu já tinha barba (ok, nem hoje eu tenho barba. Admito. Mas enfim...). Daí eu fui fazer uma piada super engraçada sobre o Roberto Baggio e ninguém riu porque absolutamente ninguém naquela turma sabia do que eu estava falando (ou será que a piada não era boa? Pensando bem...). Além disso, descobri que para ser aceito naquele grupo eu precisava usar o adjetivo "massa" para absolutamente tudo. Sim, amigos. Agora as coisas não são mais legais, bacanas, batutas e nem mesmo "dá hora", agora é tudo "massa" mesmo.

Envelhecer é mesmo um caminho sem volta. E sabe o que é pior? Escrevo este post com uma conjuntivite recém diagnosticada. Olho para o teclado e o que vejo é uma sopa de letrinhas. Olho para tela e vejo tudo anuviado, algo tão difuso e difícil de entender como a passagem do tempo.

Coisas da idade...



terça-feira, 20 de outubro de 2015

De volta para o passado

Amanhã é dia de recebermos a tão aguardada visita ilustre. Dia 21 de outubro de 2015 foi o destino do personagem Marty McFly no filme “De volta para o futuro 2”, lançado trinta anos antes.

Não lembro quantos anos eu tinha quando, em uma das tantas vezes que assisti ao filme, perguntei para minha mãe quantos anos eu teria em 2015. Fiquei decepcionado quando ela disse que eu teria trinta e quatro. Já estaria muito velho para usar o tênis que se adapta sozinho ao pé ou para andar no skate flutuante. Meu consolo foi imaginar que os aparelhos do filme haviam sido inventados alguns anos antes para que eu pudesse usar ao menos um pouco.

Eu não estava completamente errado. Hoje costumo usar sapatos e mesmo que existisse um tênis como o do filme, seu modelo já não me agrada. Nem lembro muito bem de como foi essa transição daquela criança que assistiu ao filme para o cara que usa sapatos, mas a trilogia “De volta para o futuro” deixa bem mais que uma expectativa por produtos tecnológicos.

É uma das obras em que a ficção científica não é somente exibida, mas estimulada. O enredo não é nada factível, afinal mesmo em teoria os físicos só consideram possível uma viagem no tempo para o futuro – se viajássemos na velocidade da luz o tempo passaria mais devagar, de forma que ao pararmos o mundo já estaria adiantado em relação aos que fizeram a viagem, estando assim no futuro. Já para o passado não há sequer uma hipótese teórica – ao menos por enquanto.

Ainda assim, o trabalho meticuloso do Dr. Brown associado ao estilo despojado de Marty fascinou toda uma geração nos anos 80. Uma pena que a duração de um filme é curta e quando ele acaba voltamos para a sala de aula, onde todo o encantamento gerado pelo conhecimento regride para informação, que raramente se conecta com a realidade.

Temos a tendência de um olhar utilitarista para tudo, assim vemos um filme como “De volta para o futuro” somente como um entretenimento passageiro, já que uma viagem no tempo está fora de questão. É uma pena que não seja considerado o potencial criativo estimulado pelas obras de ficção científica.

Até agora ninguém inventou o skate que flutua, a pizza instantânea e tantas outras ideias do filme, porém é impossível medir a influência subjetiva daqueles que, encantados com a viagem no tempo e outras maravilhas, buscaram outros filmes, livros ou quadrinhos semelhantes.

Expor crianças desde cedo a obras como “De volta para o futuro” estimula o sonho e a criatividade. Considerar que alguém está supostamente perdendo tempo com histórias em quadrinhos ou filmes é desconsiderar que estes materiais, além de entretenimento (que já não é pouco), oferecem também um capital imaterial que é extremamente valioso, ainda que trinta anos depois essa criança passe o dia de sapatos ao invés de tentar projetar um DeLorean. 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Não estou sentada na varanda

De vez em quando acontecem umas conversas malucas que nem eu sei dizer da onde elas saem, como essa que tive com uma amiga que chegou toda feliz e me disse:

-Sabe fulano?

Sei.

-Então, já pensou namorar ele?

Não.

-Ah, mas devia! Ele é ótimo, vocês são bons amigos, ele sempre te dá apoio e desconfio que ele está meio ''gamado''.

É, digamos que já percebi, ou pelo menos desconfio. Mas o ponto é o seguinte, gosto muito dele, tenho até saudades se fico muito tempo sem falar com ele, mas por que iria além disso? Não sinto atração por ele, não rola química e existem algumas diferenças na maneira de ver a vida que neste momento não tenho saco para discutir.

-Como assim não rola química? Você já ficou com ele?

Não. E não preciso, posso apostar, não rola química. Não sei como funciona para o resto do mundo, mas no meu caso a química começa no olhar e na atração, se não gosto como ele é, não tem química.

-Pra mim você tá errada! O que custa tentar?

Nossa, nessa altura do campeonato custa muito, meu tempo, minha energia e outra amizade perdida.

-E vai fazer o quê? Ficar sentada na varanda esperando alguém ''incrível e especial''?

Não tenho varanda! Mas não estou sentada nem esperando ninguém, não é questão de esperar o príncipe, mas de não gastar energia à toa. Poxa, por que tenho que obrigatoriamente namorar alguém?

-Porque a vida é isso, conhecer, namorar, ficar....

Esse é um ponto que me fez sofrer demais. Não sou igual a todo mundo, nem eu sei o porquê e hoje consigo assumir tranquilamente minha maneira de viver, se para algumas pessoas o legar é namorar, não importa se gostam ou não da pessoa, sorte delas, eu não vivo assim, nem quero. Não tenho nada contra namorar, mas tenho tudo contra namorar só para passar o tempo.

-E vai conhecer alguém legal como?

Mas eu conheço muita gente legal! O dia que gostar de alguém de um jeito mais intenso vou lá e namoro!

-Você só complica! Acho que fulano está apaixonado, podia ser legal e você fica embaçando!

Mas é legal! É meu amigo, a gente costuma sair, mas é só amizade e está ótimo assim.

-Acho estranho!

Não, estranhas foram as vezes que me machuquei, me envolvendo com homens que não valiam a pena, eu acreditava nessa baboseira de ''é namorando que se conhece'' e muitas vezes namorei sem estar apaixonada. Minha energia ia pelo ralo, meu tempo não valia nada. Por isso decidi aceitar minha natureza, dói menos, não gosto de nada à toa, sem sentido. Se vou namorar com alguém é porque gosto da pessoa e tenho interesse, caso contrário prefiro ficar em casa assistindo novela.

-Pelo menos tenta!

Não, obrigado. Já passei da idade onde a gente ''tenta'', lá pela casa dos vinte. Depois dos trinta nossa margem de acerto começa a melhorar e não precisamos mais tentar tanto. Sei como eu sou, depois de anos sem ter menor noção disso. E esses namoros rápidos, experimentais, nunca me seduziram, sempre gostei de emoções mais intensas, prefiro não sentir nada do que sentir  ''morno''.

-Aff! Você devia desencanar e começar a mudar de ideia sobre os relacionamentos, não precisa levar tudo a ferro e fogo, de vez em quando é bom apenas brincar pela vida.

Mas não é? Concordo, mas eu fiz o contrário, levei os relacionamentos a ferro e fogo a vida inteira, até que cansei e agora quero brincar pela vida. Mas minha ''brincada'' inclui o mais importante, que eu aceite meu jeito de ser e não gosto de namoros onde não entro na história apaixonada, me dá sono. Cada um é de um jeito! O meu é esse, não quero mais gastar um segundo da minha vida beijando quem não mexe com minha alma, cansei disso.

- Eu só avisei! Fulano tá lá!

É, eu estou cá. E assim somos todos felizes, cada um levando a vida do jeito que quer, eu levo do meu e isso significa namorar alguém quando essa pessoa me desperta alguma coisa, poxa, por que é tão difícil aceitar as diferenças e a maneira do outro viver? Não estou ferindo ninguém com minhas escolhas. Nem tudo é para todos e nem todos são para tudo. Quem quiser esquentar sua solidão em diferentes camas que o faça, eu prefiro o silêncio, aquele que me garante que a coisa mais importante na vida é respeitar minha natureza.

Iara De Dupont


domingo, 11 de outubro de 2015

.psychodeliquè.

...e enquanto eles permaneciam fechados, os gráficos coloridos dos equalizadores que a mente criava variavam entre graves e agudos, pulando de lilás pra azul num degradê que traziam tons de roxos e rosas.

...e enquanto tímpanos reverberavam as batidas dos remixes repletos de efeitos metalizados e as alternâncias de pitch, massageava automaticamente a alma num ritmo que só o groove daquela batida podia prover.

...e enquanto os músculos do rosto esboçavam os orgasmos dos ruídos capturados pelos aparelhos auditivos, os pulsos dos dedos digitavam as ondas sonoras por sobre as pernas seguidos de marcações refletidas nas pontas dos pés que ecoavam no chão.

...e enquanto tudo soava, palavras se materializavam e se empunham na ponta da língua pra serem ditas, mas por alguma razão, ficavam ali, presas por entre os dentes, mesmo que os lábios estivessem entreabertos.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Escola de princesas


Não pode sujar o vestido
Aliás, não pode usar outra coisa senão vestido
E tem que ser rosa
Tem que gostar de cor-de-rosa, tem que ser sua cor favorita!
Não pode se sentar de qualquer jeito,
Tem que cruzar as pernas.
Tem que ter boas maneiras
Tem que saber cuidar direitinho do seu castelo
Sem deixá-lo sujo ou desarrumado.
Não pode correr.
Não pode brincar de qualquer brincadeira,
Tem que ser brincadeiras de princesas.
E só pode brincar com outras princesas.
Tem que casar com um príncipe.
Tem que aprender a como conquistar o príncipe.
Só assim, serão felizes para sempre. 




Obs: contém altas doses de ironia.
Baseado na reportagem:
http//sites.uai.com.br/app/noticia/saudeplena/noticias/2015/10/07/noticia_saudeplena,155414/escola-de-princesas-chega-a-bh-ja-causando-polemica-nas-redes-sociais.shtml

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Fofinha

  Minha nova colega de serviço tem uma filha de 7 anos.
  O pai foi pegá-la na escola e a menina contava animada:

  -Gosto tanto de "Fulana de tal" ( se referindo a colega de sala, também de 7 anos, mas longe de ser aluna exemplar).
  O pai só escutava.
  -Ela vive me chamando de nomes carinhosos, de bichinhos.
  -Como ela te chama, filha?
  -De vaquinha, galinha, piranha...

domingo, 4 de outubro de 2015

Sobre o antônimo da derrota

Já parou pra pensar quantas vezes você já deixou um fato estragar a sua felicidade? 

Ontem aconteceu uma situação bem ruim comigo, que não cabe colocar aqui, mas posso dizer que é daquelas de perder a cabeça. Porém, quão forte é uma pessoa que deixa sua vida perder o rumo por um acontecimento ruim no meio de tantas coisas boas que existem? Sim, sou uma dessas pessoas que entendem bem o que significa resiliência. Não foi por opção, a vida me ensinou o quanto é preciso se superar a cada dia, passar por cima dos obstáculos e seguir em frente. 

Sou um asmático que quer correr 10 km três vezes por semana, insiste em jogar bola, mesmo sendo mediano, só pelo prazer de participar, e também salta de pontes por ai. Nunca me preocupei por não ser excelente em nada, sou um pouco de cada coisa, evito comparações pois conheço a prepotência masculina e sei muito bem que as pessoas estão sempre querendo se superar. É claro que também gosto da vitória, é bom quando seu time fica na quadra por 4 rodadas seguidas ou ganha um campeonato. Tem também aquele momento que a gente alcança o cume de uma montanha depois de horas caminhando pela mata. Ou aquela adrenalina ao encarar o medo de frente e se jogar de corpo e alma.  

Superação remete a desejos, valores e necessidades  pessoais, se nos compararmos com outras pessoas talvez seu resultado alcançado não tenha tanta relevância. Pode sim existir uma boa diferença entre um competidor amador de corrida e um atleta olímpico, mas o gosto da vitória, proveniente da superação, esse é o mesmo. Isso também vale para nossa vida social. Aquela pessoa famosa e colocada como grande vencedora como, por exemplo, Cris Garden que se viu sozinho com um filho na rua e abandonado pela esposa, passou por necessidades e teve de enfrentar barreiras físicas e mentais para alcançar o sucesso, esteve no mesmo barco de grande parte da população hoje em dia.

A sociedade moderna tem perdido o gosto pela vida, e esquece que um dia ela passa. Quem busca a superação deve se colocar acima de alguns problemas que por um outro prisma se tornam pequenos. Recomendo que assistam o vídeo da Doutora Ana Cláudia Quintana Arantes, intitulado: A morte é um dia que vale a pena viver. A palestra me fez pensar bastante sobre quão frágil somos, despertando o desejo de viver mais e ajudar ao próximo. O que me remete a um trecho de uma palestra do professor Clóvis de Barros Filho [...Se você quer saber se aquele instante está valendo a pena, pergunte-se se você gostaria que ele durasse um pouco mais. A vida é boa quando você torce pra ela não acabar. Perceba que a maior parte do tempo você torce pra acabar. Torce pro dia acabar pra poder chegar em casa. Torce pra semana acabar por causa do final de semana. Torce pro mês acabar por causa do quinto dia útil. Torce pro ano acabar por causa das festas e das férias. E sem perceber, a gente tá torcendo pra vida passar rápido. A felicidade é o contrário disso. A felicidade é quando você gostaria que não passasse, é quando você lamenta o final do dia, quando você lamenta o final de alguma coisa que está fazendo... A vida vale a pena quando você torce pra ela não acabar...]

A superação tem a ver com ousadia, romper as barreiras do comum e reconhecer que tem força e personalidade para lidar com os fatos da vida. Alguns são desestimulados a perseguir seus sonhos porque os outros não conseguiram. Nesses momento eu lembro sempre da cena que o personagem Cris Garden (filme, À Procura da felicidade) citado anteriormente, diz pro seu filho que imaginava ser profissional no basquete: "Nunca deixe ninguém dizer que você não pode fazer alguma coisa. Se você tem um sonho, tem que correr atrás dele. As pessoas não conseguem vencer, e dizem que você também não vai vencer. Se quer alguma coisa, corre atrás." 

Às vezes algumas pessoas só sabem o quanto são fortes quando precisam ser. Quando você quer muito alguma coisa, quando você ama alguém, ou quando houver apenas uma saída para sobreviver, o ser humano se torna extremamente poderoso, reage com grande velocidade e objetividade. Infelizmente alguns são mais lentos, a ponto de arriscar suas vidas e de mais alguém. Todos convivemos com problemas pessoais e coletivos diariamente, dizer que eles não existem é ignorar a vida. Infere-se então que o fator que influencia quais vão ser as consequências das adversidades enfrentadas é simplesmente a sua atitude diante delas.   

Palestra, Professor Clóvis de Barros filho




Palestra, A morte é um dia que vale a pena viver 


Conselho ao filho, À Procura da Felicidade 

terça-feira, 29 de setembro de 2015

o que é família?


Foi à pergunta em determinado processo seletivo.

Confesso que até então, jamais tinha pensado no que considerava ser uma família. Mesmo porque a minha sempre esteve super desajustada no refere aos padrões margarina; ou tive enormes dificuldades na parte teórica para definir.

Desde então, busco saber.

E seja em palestras, cursos, seminários e afins percebo que tem se discutido mais sobre as famílias. Mesmo porque elas tem se modificado no mesmo ritmo que a sociedade. Tornou-se tão complexa e em crise quanto à crise do capital e aquém de respostas prontas.

Então para além da teoria, em sua opinião o que é família?

Também considero que o inenarrável interesse pela discussão e definição de forma categórica e jurídica se deve ao fanatismo religioso e aquela besteira de ameaça comunista as famílias.  E confesso que se esta ameaça de fato existisse beneficiária muitíssimo elas. Afinal veja o que o projeto de sociedade democrática, porém capitalista faz com as famílias: sírias, africanas etc.

Mas a discussão deve-se também à demanda gigantesca em equipamentos públicos que vivenciam crises sem fim desde a sua implementação pelo Estado de Direito, porém super burocratizado que potencializa a desigualdade social agrava ainda mais os problemas sociais das famílias.

O interesse religioso está relacionado ao fanatismo medíocre, que se diga depende muitíssimo das famílias para se perpetuar através de dízimos e ofertas na sociedade. Independente do estado de sofrimento que elas estejam todo problema social se resolve com oração (nada contra afinal também oro) e persistência nas provas com Deus.

Exagero? Imagina filho (a).

Veja que o Estatuto da Família (PL 6.583/13) aprovado por 17 votos a 5 que exclui  famílias diferentes do tradicional (ou seja família é apenas o  papai, mamãe e filhinhos) nos prova isso, principalmente quando se nota o oportunismo de partidos que não necessariamente são religiosos.

No que refere à demanda, ela existe e é requerida em debates da assistência, saúde e justiça pelos profissionais que vivenciam nos atendimentos a decante condição em que se encontram as famílias fora dos padrões de comercial e foto em rede social, ou seja, exclui a família real, do cotidiano sabe.

E tão decadente quanto é notar que mais se preocupam com a definição  do que com as famílias e suas demandas. Ou alguém realmente acredita que definir o que é família impedirá os diferentes e/ou iguais de se relacionarem tendo em vista que o homem é um ser social e precisa do outro, portanto, viver em comunidade, família, seja o que for.

Ou acreditam que definir o que é família vai impactar as demandas?

Sem pestanejar creia que definir o que é não contribui em absolutamente nada para impactar demandas e problemas sociais das famílias.

Hoje compreendo que o conceito de família é amplo e, portanto extrapola o âmbito do fanatismo religioso, extremismo teórico e oportunismo político de classe social privilegiada.

Mas sabe o que é?

Agora estou pescando. É isso mesmo, estou caindo pela tabelas, lutando contra o sono. Mas garanto desenrolar noutro instante o que considero família.


Sendo deixo o vídeo para mostrar um pouco:

ay qué família yo tengo
***

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

líquido


líquido
adjetivo
1. fís. diz-se do estado da matéria intermediário entre os estados sólido e gasoso, caracterizado por apresentar forças de coesão intramoleculares mais fracas que as dos sólidos, e mais fortes que as dos gases.
2. que flui ou corre como água.

Era o segundo cigarro que acendia em menos de quinze minutos. Assoprou a fumaça enquanto olhava de soslaio para a carta fechada em cima da mesa. Tamborilava os dedos no tampo de madeira enquanto dava mais um trago.

Anne, 28 anos, solteira, virginiana, ascendente em aquário. E quem raios escreve e envia uma carta hoje em dia?!

Apagou o cigarro no cinzeiro e ficou encarando o envelope. Ela sabia quem era, conhecia aquela letra cursiva do diabo mais do que gostaria de admitir. E adorava e odiava aquela caligrafia.

Amor fati. Amor líquido. Tantas definições apenas para esconder o quanto foi otária.

 “Líquidos mudam de forma muito rapidamente, sob a menor pressão. Na verdade, são incapazes de manter a mesma forma por muito tempo. No atual estágio “líquido” da modernidade, os líquidos são deliberadamente impedidos de se solidificarem. A temperatura elevada — ou seja, o impulso de transgredir, de substituir, de acelerar a circulação de mercadorias rentáveis — não dá ao fluxo uma oportunidade de abrandar, nem o tempo necessário para condensar e solidificar-se em formas estáveis, com uma maior expectativa de vida.” (BAUMAN, Zygmunt)

Levantou da cadeira e começou a andar pelo apartamento.

“...  Tudo para disfarçar o antigo medo da solidão.”

Olhou para o chão enquanto andava, os braços cruzados e inquietos.

Eventualmente, tudo o que queria era não se sentir descartável. Aquela carta, e não precisava nem abrir para saber aquilo, carregava uma série de feridas antigas, promessas que deixaram de se cumprir e outras coisas largadas pelo caminho.

Não foi ela quem simplesmente desistiu de tudo. A ela só coube encarar com dignidade e seguir em frente. É isto o que fazemos quando acreditamos demais, fingir que superamos e aguardamos silenciosamente pela próxima decepção, virando a esquina. Acender um cigarro, olhar para os dois lados e atravessar a rua, uma parte sua torcendo para chegar do outro lado enquanto todo o resto deseja ansiosamente pelo motorista ensandecido que vai te fazer voar pela pista. Talvez quando você estiver no seu leito de morte no hospital, quem você espera surja, falando o quanto você fez falta.

Mas foda-se. Não vai acontecer e ninguém perguntou nada.

E a carta ainda estava ali. Chegou junto com as contas, como se fosse algo banal.

Talvez banal fosse mesmo a palavra.

 “As relações se misturam e se condensam com laços momentâneos, frágeis e volúveis. Num mundo cada vez mais dinâmico, fluído e veloz. Seja real ou virtual.
(...)
 Vivemos tempos líquidos, nada é feito para durar, tampouco sólido. Os relacionamentos escorrem das nossas mãos por entre os dedos feito água”.

Olhou mais uma vez para o envelope em cima da mesa. Inquisidor. Pegou o isqueiro.

“...as pessoas precisam sentir que são amadas, ouvidas e amparadas. Ou precisam saber que fazem falta. (...) Ser digno de amor é algo que só o outro pode nos classificar. O que fazemos é aceitar essa classificação. Mas, com tantas incertezas, relações sem forma - líquidas - nas quais o amor nos é negado, como teremos amor próprio? Os amores e as relações humanas de hoje são todos instáveis, e assim não temos certeza do que esperar”.

Apreciou a carta enquanto pegava fogo. Não precisou nem abrir para saber o que era. Se seu remetente tinha sido covarde por tantos anos (e não era menos covarde agora), não cabia à Anne ser corajosa ou forte mais uma vez. Pra que se dar a chance de se machucar novamente, por alguém que foi sem olhar para trás?

Não importa. Meios que justificam fins inacabados só são detalhes.

E aquilo, num mar de promessas inacabadas, estava finalizado.

“E foda-se você” – disse, ao acender o cigarro no envelope.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Projeto Desapega Parte #1

Depois de muitos meses sem postar volto a dar o ar da graça com um novo projeto.
Quero me desfazer das coisas que não uso e ter uma vida mais leve e organizada.
Sei que esse é um processo a longo prazo e espero não desistir no meio do caminho.
Para que isso não aconteça, vou compartilhar com vocês cada etapa.

A cada mês vou focar em um dos itens abaixo:
- Material de estudo de Ingles
- Material de estudo de Espanhol
- Material de estudo de Frances
- Apostilas 
- Livros
- Documentos
- Sapatos
- Roupas
- Cremes
- Dispensa 

Farei um levantamento do que tenho, do que quero me desfazer, e de como organizar o que ficar.
A idéia não é finalizar cada um em um mês, mas sim iniciar um novo item a cada mês e atualizar o status de todos.  

Comecei pelo Material de Inglês. 
Foto de como ele está hoje: 


Como quero que fique:
Apenas esse caderno com anotações
Levantamento do que tenho para organizar/ estudar:
- passar 29 folhas de rascunho a limpo
- 274 páginas de livros diversos (xerox)
- 1 livro com 148 páginas (Ingles para Secretárias)
- 1 livro com 456 páginas (Anybody Out There? - Marian Keyes)
- Curso de Idiomas Globo Ed 1 a 9
- Curso Alps Step 9 (2 livros + 1 CD)

Recompensa: Livro "Objective IELTS advanced student´s book"

Não consigo prever quanto tempo vou levar para terminar de revisar todo esse conteúdo, mas espero conseguir dedicar pelo menos 1 hora do meu dia à esse projeto.
Quem tiver interesse nesse material se manifeste, pretendo doar todos, menos os rascunhos e as xerox de livros.
Wish me luck! :-)

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Meu Aurélio particular

A língua portuguesa conta hoje com quase meio milhão de palavras. Qualquer um diria que com esse número de palavras dá pra bater um lero bom. Há sinônimos para uma infinidade de adjetivos e o sujeito mais preciosista pode dizer, sem margem para imprecisão, se está triste, infeliz, desgostoso, consternado ou, em alguns casos mais preocupantes, lúgubre. 

Dia desses, entretanto, ouvi uma frase com a qual não posso deixar de concordar: "O dicionário é o cemitério da língua". Sim, a língua é fluida como as águas de um rio (como diria Marcos Bagno) e as palavras novas e mesmo os significados atribuídos às palavras antigas mudam a cada dia, dependendo de variáveis como região geográfica, contexto ou até mesmo a idade do sujeito que a pronuncia. Um dicionário, por sua vez, se não acompanhar o fluxo dessas mudanças, será somente um depósito de palavras caquéticas.

Pensando na fluidez da língua, um fenômeno interessantíssimo de se observar é a existência de léxicos familiares, ou seja, um apanhado de palavras que só são inteligíveis dentro da unidade familiar e que, se utilizado fora desse contexto, é encarado como esquisitice. Dito isso, quero compartilhar com vocês parte do léxico de minha família de origem, o nosso "Aurélio particular".

Gostaria de iniciar pelos termos mais pudendos porque creio que é aqui em que reside o cerne da questão, porque acredito que as famílias não se distinguem pelo sobrenome, mas pelo modo como nomeiam suas partes pudendas. O órgão feminino é, sem sombra de dúvida, aquele que mais atenção recebeu por aqueles de minha laia. A forma mais popular para designá-lo é o curioso monossilabo tchó, que se pronuncia de maneira análoga à palavra tchau. O uso era (é) tão forte que as mulheres de minha familia de origem, ao quererem exprimir preguiça ou impaciência, diziam "não tô com tchó pra isso hoje" (e jamais utilizavam a palavra "saco" nestes casos). Um outro vocábulo para referir-se à tchó é o não menos curioso dissílabo pota (lê-se "póta"), mais largamente utilizado pelas gerações mais antigas e invariavelmente num contexto mais pejorativo do que aquele em que o inocente tchó está presente. A expressão pota lisa (em tradução livre: tchó sem pêlos) pode ser entendida, por exemplo, como alguém que quer se aparecer ou, para utilizar outra expressão de meu léxico familiar, alguém que quer nome.

O órgão masculino, por seu turno, também recebeu entre os meus alcunhas memoráveis. Os mais antigos referiam-se a ele por malacha (malatcha) ou simplesmente mala. Os de minha geração adotaram o vocábulo benga e, os mais jovens, referem-se ao ditoso membro por badola, demonstrando que o léxico familiar também está envolto por conflitos geracionais.

Mas não só de partes baixas vivia nosso léxico familiar. Assim, deixo as partes pudendas para compartilhar com vocês o mais importante e multifuncional dos vocábulos de minha família, a conhecidíssima palavra colega, que em minha casa sempre foi um grande enigma. A palavra colega sempre era utilizada para designar algo que se queria ocultar. O colega gelado, por exemplo, queria dizer sorvete e era usada nesses termos quando utilizada próximo a crianças para que estas não ficassem com vontade ou algo do tipo. Um adulto poderia dizer no meio do almoço em família, por exemplo: "Alguém comprou um colega gelado para a sobremesa?". O mesmo valia para a pizza que era a colega redonda: "Vamos pedir a colega redonda hoje ou deixamos para outro dia?". E por ai vai. O colega, era sempre alguém tacitamente conhecido pelos interlocutores mas cuja pronúncia do nome era indesejável, geralmente pela existência de um terceiro na cena. Inevitavelmente volto às partes pudendas: "estou com coceira no(a) colega" ou "Não esqueça de lavar o colega cheiroso" eram outras aplicações bem frequentes do coleguismo.

O mais interessante é que este vocabulário próprio saía com naturalidade. Aliás, eu jurava que algumas dessas palavras eram de domínio público até muito tarde. Foi só quando algumas pessoas passaram a me olhar meio torto que eu fui percebendo que era só em casa que eu podia dizer que tinha sobe (dó) de alguém ou que alguém era bocolão (bobão) sem ser taxado de estranho. E mesmo hoje, após tanto tempo de imersão no mundo público, sempre que escuto alguém referindo-se a outro por  "colega", dentro de mim se forma instantaneamente um sorrisinho de cumplicidade.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Ufa! Deu tempo!

Desculpem pelo mês passado, e pela demora de hoje!
Vida mais corrida do quê o costume!
Mas tá aí!
Abração, e até o mês que vem! 

domingo, 20 de setembro de 2015

Pretérito Imperfeito

Escolher. Tentar. Errar. Aprender. Melhorar. Acertar.

Com tantas opções com as quais nos deparamos ao longo da vida, essa parece uma sequência inevitável. Do sabor da pizza a algo que muda nossas vidas para sempre, estamos inevitavelmente sujeitos a errar na escolha. Tem o lado bom. Aprendemos, melhoramos, desenvolvemos experiência e tudo mais.

O lado ruim é a lei da ação e reação, emprestada da física para ser empregada metaforicamente na vida. Além de ações ruins implicarem em reações ruins, nossas situações de escolha se tornam ainda mais complexas quando relacionadas com as de outras pessoas.

É difícil conciliar interesses, expectativas, desejos e vontades. Às vezes erramos em uma simples omissão, coisa boba, ou mesmo na reação que temos quando a outra pessoa erra. Por um momento nem parece que somos humanos, pois cobramos uma perfeição inexistente.

Diante de escolhas, erros e acerto, a ponderação parece ser primordial. Nem tudo é imperdoável, nem sempre precisamos ser inflexíveis, nem todo erro deve ser marcado com ferro quente para que deixe uma cicatriz eterna.

O tempo é abstrato demais para determinar determinar decisões concretas. Pode ser que a melhor opção seja deixá-lo passar, tranquilo e sereno enquanto nosso interior está revolto e caótico. Um dia percebemos que certas escolhas têm volta, sim. Nossa aprendizagem se concretiza quando nos proporcionamos uma nova tentativa, depois de ter tentado, errado, aprendido, melhorado, para finalmente acertar.


terça-feira, 15 de setembro de 2015

De raiz

Desde que casaram, meus pais nunca se mudaram de casa. Ela já passou por várias reformas e hoje não se parece nada com aquele bloco quadradão rodeado com a calçada vermelha que parecia infinita quando eu era criança. Mas continua lá, na mesma rua, que até já mudou de nome. 

Em compensação, eu já tive outras nove. Comecei saindo de casa cedo, para terminar o colegial. Me mudei para fazer cursinho. Durante as duas faculdades, foram outras três diferentes moradas. Vivi um ano em outro país e, apesar de saber que ali eu tinha um prazo de validade determinado, também considero que tive um lar. No traumático primeiro emprego, tive uma diferente casa brevissimamente. Mudei-me outra vez para trabalhar na mesma cidade na qual terminei o colegial e ali permaneci pelo maior período de tempo em um mesmo lugar, tirando a casa dos meus pais. Há alguns meses estou na maior cidade da América do Sul, também a trabalho. 

Às vezes me pergunto se um dia isso irá acabar. Se em algum momento, assim como meus pais, eu terei um CEP fixo. Da mesma forma, me questiono se eu quero que isso aconteça. Ainda não encontrei respostas, mas confesso que elas não são relevantes. Estar sempre de mudança é chato, trabalhoso e doloroso. Em contrapartida, traz experiências poderosas que só entende quem é meio nômade, assim como eu. Com a vida cigana, conheci lugares incríveis, aprendi a me virar na cozinha, economizar no mercado, usar transporte público, ser menos desorganizada, mais criativa e até a limpar calhas. O mais importante: fiz amizades que, mesmo que de convivência efêmera, permanecem até hoje. Mudanças assustam, mas novidades me encantam.

Diferente dos meus pais, talvez eu nunca crie raízes físicas. Entretanto, quando a coisa arrocha é para a velha casa de número 655 (hoje com calçadas brancas) que eu volto correndo. É lá que eu passo as férias e ganho sopa quando estou doente. Foi para lá que eu sempre corri aos prantos quando o coração partiu ou apertou. É lá que eu quero estar quando eu preciso recarregar a bateria. 

Eu já nasci com raízes. Mas não me entenda mal. Elas não são feitas de tijolos e argamassa, com um teto por cima. Elas são invisíveis, superelásticas e me ligam a dois seres iluminados que respondem prontamente quando eu grito "mãe!" e "pai!". Só coincidiu de elas estarem geograficamente no mesmo lugar durante toda a minha vida.

Quarentolândia


O corpo humano considera que cruzar a fronteira da Quarentolândia é um grande feito. Por isso ele celebra com vários eventos comemorativos no seu organismo que é para você ter certeza da doce alegria que é trilhar o caminho para a velhice. 
 
Aos 40 anos, suas costas doem. Músculos que você nem sabia que existiam doem. Você se pega esticando o braço e colocando o papel lá longe porque não consegue mais ler as letras tão pequenas. É, meu caro. Sua vista, assim como todo o resto do seu corpo, está cansada. 

Certeza que os 12 Trabalhos de Hércules, o coroa quarentão, incluem “colocar linha na agulha” e “ler a data de validade na cartela de Tylenol”. É o paradoxo da bula. Quanto mais você precisa de remédios, menos consegue ler as instruções.
  
Aos 40 anos, você atinge uma nova marca. Quarenta em algarismos romanos é XL. EXTRA LARGE. Ou seja, você agora é gordo até na idade. 

Seguindo essa linha de raciocínio, o universo resolveu me dar de presente uma gordura localizada nos quadris chamada carinhosamente de “culote”. Que é mais ou menos como se as suas coxas estivessem eternamente entre parênteses.

Até então eu tinha sido gorda em apenas um sentido – não apenas o literal, mas frente e verso. Barriga e bunda. Norte e sul. Agora sou gorda também para os lados. Para todos os lados. Trezentos e sessenta graus de pura fofura. 

Mas eu não sou velha, eu sou retrô. Sou old school. Sou vintage (quarentage, como diria @andreh77). Sou um clássico.

E como acontece com todos os bons clássicos, fizeram uma remasterização para marcar essa data redonda – e bota redonda nisso! Por isso, ao completar quarenta anos, eu não engordei para os lados. Eu simplesmente fui relançada numa edição especial em 3D.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Oi! Que Bom Te Ver Aqui...

Mas não fique muito perto e nem fale nada.

Qualquer assunto que fluir entre nós, assim como sempre acontece, vai me fazer derreter novamente.

Não quero derreter de novo, pois demoro a me recompor.

A não ser que você me dê um beijo agora, ingrediente primordial pra me dar consistências suficientes pra enrijecer nossos laços e dar base a qualquer assunto, ação ou situação que vier a calhar.

Agora é assim, só aceito sob essa condição. Me beije pra que eu não desmorone e me torne atônito.

Me beije e terei força pra dar fluidez a tudo que nos envolver e assim, poderás permanecer ao meu lado, mais próxima que quiser, sem que eu derreta e suma nas pequenas entranhas da minh'alma.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Sobre você

Cansei de escrever sobre mim. Vou escrever sobre você.
Sobre seu medo de avião.
Sobre seu prazer em cozinhar comigo.
Sobre seu olhar apaixonado.
Sobre sua mania de achar que tudo tem que ser do seu jeito.
Sobre sua mania de inventar apelidos e carinhos e promessas.
Sobre seu carinho por sua família.
Sobre sua falta de organização.
Sobre suas músicas e seus livros.
Seu time.
Seu trabalho.
Seu signo.
Sua cama.
Sua barba.
Sobre como você me acha engraçada.
Sobre como você gosta do meu café.
Sobre como você dispensa a sobremesa.
Sobre sua groovagem frenética.
Sobre seus pesadelos.
Sobre seus sonhos.
Sobre quando você começou a me amar.
Sobre todo amor que sinto quando você me abraça forte,
Quando dança comigo,
Quando inventa musiquinhas,
Quando passeamos de mãos dadas...
Quando você entrou em minha vida (como um sol no quintal), e me deixou entrar na sua.






Para ouvir: