sábado, 11 de outubro de 2014

A Fábula

Amuou. De repente parou de cantar e eu, preocupado reservei 10 minutos do meu tempo para conversar com ele.

- O que há de errado meu pequeno tesouro? Andas tão amuado que amuas também meu coração. -

Dizer-te o que há, não irá livrar-me desta tristeza, mestre. Mas se abriste mão de teu precioso tempo para aqui estar, direi-lhe então. - suspirou e continuou - Lembra-se o pássaro amarelo que pousara em minha gaiola? Livre e solto? Feliz e cantador?

Antes que eu dissesse que me lembrava, quis esquecer, quis ter certeza que poderia não ter visto, mas apenas apertei meus olhos e respondi positivamente com a cabeça

- Pois bem, - disse me o pássaro - conversamos sobre essa tal de liberdade e ele me contou tantas coisas boas que se faz lá fora, que perdi a vontade de cantar aqui dentro.

Você, leitor, que deve estar certo de ter lido isso em algum lugar, provavelmente o fez, e não diferente do que leu, atendi de pronto, embora profundamente deprimido, a abertura dos portões da liberdade. 

- Vá, pequeno tesouro. Já vi incansáveis vezes essa história e não será eu quem irá mudá-la. Vá e seja livre. Seja você em seu mundo real. Eu já não posso mais...

- Cala-te, mestre! Não partirei.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Sobre o ódio aos nordestinos

Sugestão: ler ouvindo Terral


Fiquei chocada ao ver as reações xenofóbicas contra o povo nordestino após a divulgação dos resultados do primeiro turno das eleições para presidente do Brasil, em que os Estados do Norte e Nordeste tiveram votação maciça na Dilma.

No tumblr essesnordestinos há um compilado de declarações preconceituosas que pessoas publicaram no twitter, facebook, etc. Ganharam destaque casos como de uma auditora fiscal, que será investigada pela ouvidoria do MTE por uma declaração em que dizia que o Nordeste merecia ser atingido por uma bomba atômica, e uma comunidade médica no facebook que prega o holocausto contra os nordestinos.

Essa onda de ódio e preconceito pode ser analisada à partir de três pontos importantes: o primeiro é o desenvolvimento desigual que ocorreu no país desde sua colonização, beneficiando algumas regiões às custas da exploração de outras. Esse processo muitas vezes é ignorado e assume-se como verdade que os pobres são pobres por não se esforçarem e o mito do meritocracia, que favorecem o preconceito de classes. 
O segundo é a preferência pelo governo do PT na Região Nordeste, que está relacionada com a questão acima, uma vez que o governo petista proporcionou um desenvolvimento econômico e social importante em benefício da região nos últimos doze anos. Nada mais compreensível do que optarem pela Dilma.  
E por último, há o preconceito racial, que também está relacionado com o preconceito contra os nordestinos, uma vez que grande parte da população que se declara preta e parda no Brasil é nordestina. Fato que pode ser explicado pelas políticas imigratórias do século XIX, que trouxeram europeus para os estados do Sul e Sudeste.

O que acontece é que a falta de respeito está atingindo um nível tão grande que as pessoas não se intimidam em fazer declarações deste tipo. Pelo contrário, recebem apoio de outras tão preconceituosas quanto elas. Publicações com este teor estão caracterizadas na Lei n.º 7.716/89, que trata do crime de discriminação ou preconceito de procedência nacional. Um exemplo de condenação à este tipo de crime ocorreu em 2012, quando Mayara Petruso foi condenada a 1 ano e 5 meses de prisão (pena que foi revertida à pagamento de multa e prestação de serviços comunitários) por postar mensagens preconceituosas contra nordestinos no Twitter na época das eleições de 2010.

Esse comportamento é inaceitável, pois incentiva o ódio, a intolerância e a violência, e deve ser recriminado e denunciado. É possível fazer uma denúncia formal no site do Ministério Público Federal no endereço: http://cidadao.mpf.mp.br/formularios/formularios/formulario-eletronico 


Eu, como paulista, me sinto envergonhada por essa onda de xenofobia que vem ocorrendo, e, como neta de nordestinos, me sinto no dever de mostrar aqui toda minha indignação contra esse tipo de atitude, que retrata uma sociedade reacionária e competitiva, que encara ideais igualitários como uma afronta aos seus objetivos capitalistas mesquinhos. São os famosos "coxinhas", que não votam na Dilma porque não querem ir ao supermercado e não ter opção de iogurte pra comprar, e os integrantes da "direita pão com ovo", que defendem um sistema em que eles mesmos são injustiçados, imaginando enganosamente que um dia farão parte da elite econômicaLamentável. 


Em tempo: há movimentos nas redes sociais contra o preconceito sofrido pelos nordestinos. Procure pela hashtag #menosÓdiomaisNordeste 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

* O real *

Quando a insônia invade a madrugada de um menino de 5 anos, não há contra-indicações, necessidades terapêuticas, intervenções psiquiátricas, tampouco a obrigatoriedade de obedecer um tempo que, dizem, são ponteiros que escrevem incessantemente numa linha que nasceu e não pode mais morrer.

Não, não são sinais de desvios, nem de genialidade. Apenas simples realidade que são a mais pura Verdade. Adultos lutam contra a falta de sono, calam a voz de sua própria vontade de estarem despertos, olhando a janela semiaberta que permite desenhos na parede. Estes se irritam, tomam qualquer remédio para forçar a ilusão. Piedade à essa gente grande.

 O menino, esperto, sabe da luz engraçada. Deixa-a adentrar, brincalhona, quarto adentro. As cortinas balançam, um vento sussurra num vão esquecido assim. Os olhos cansados, pela manhã que logo vai retornar, vibram de alegria quando, no alto (lugar sem graça, quando os adultos acendem a lâmpada) do guarda-roupa escuro, um crocodilo faz um movimento de botar medo em muita gente, mesmo que ele não vá saltar da caixa, onde foi desenhado. A penumbra revela coisa aqui, acolá; uma amiga aranha parece tecer sua casinha, que cresce abrupta. A magia perdura instantes, mas há tempo, até que a gente grande apareça mais abruptos ainda, para desaparecerem com a dona aranha, sua branca e enovelada casa, talvez com quartos que nem mais se contam, tantos, tantos... e a cozinha como aquelas do sítio dos avós. 

Coelhos de três orelhas viram patos, basta saber mexer com as duas mãos e alguns dedos ágeis. Cachorrinho poderia ter até rabinho feliz, mas disseram que era difícil demais, então, ele só latia contente, e falava, como nas histórias. 

O menino, respeitando o silêncio que pertencia aos seus amigos da madrugada, sequer emitia uma palavrinha, porque sabia a linguagem dos seres em seu quarto. Silêncio, era, aliás, ordem maior. Sabia que, com o despertar da cidade, lá, depois da janela, ali mesmo, na rua, pessoas loucas voltariam sempre, barulhentas, pisando passadas nervosas, falando, sim, falando sozinhas, maldizendo o próprio existir, ou o dia que mal começava. Carros competindo corridas alucinadas, com pilotos ruins, lentos, ruins em suas profissões ao volante. Motos barulhentas como monstros, cruzando espaços pequeninos e letais.

A sorte é que as madrugadas insones sempre reapareciam! Momento da brincadeira  com os animais-sombra, o assustador crocodilo da caixa de papelão, a dona aranha e sua suntuosa casa que só crescia, com quartos infinitos, talvez iguais aos do menino, com a cozinha igual ao dos avós. A sorte, era mesmo dele. Talvez outros pequenos também tivessem suas horas de silencioso bolinar de coisas. Talvez até gentes grandes tivessem essa sortuda insônia, quem sabe?  

domingo, 5 de outubro de 2014

sábado, 4 de outubro de 2014

#100[complete com alguma coisa]days: Meus #100WitchesDays


Eu acabo de terminar um dos maiores desafios facebookísticos da minha vida virtual, e vice-versa. Eu acompanho algumas séries de amigos, vejo seus estudos, suas fotos, acho graça, compartilho, tenho horror a correntes e a coisas que do tipo "quantas curtidas essa princesa merece?". E estava acompanhando os #100alguma-coisa, sem me interessar por nada. 
Preguiça de ficar postando algo cem dias seguidos.

Mas, quando a Debora Ceccaci, uma feiticeira de respeito, posta no Solstício de Inverno a primeira imagem dos seus #100WitchesDays, eu decidi que eu também iria fazer. 
Acho que, mesmo que naquele momento eu não soubesse, eu precisava. 
Fui entendendo isso à medida em que escrevia.
Uma frase por dia. Uma vivência por dia. Não pensar muito, só escrever, a partir de um conceito, como a Arte dos Sábios, a Tradição, a Feitiçaria responderia àquilo.
Sinceramente? Nunca pensei que fosse dar conta, que não fosse enjoar no meio do caminho, achar algo melhor para fazer. Porém, dia após dia, era como se algo brilhasse mais no correr das horas para virar frase. Era como se as práticas diárias/semanais/mensais tivessem novo sentido, e esse sentido tivesse de ser compartilhado, de uma forma tal que o Mistério se mantivesse nas Sombras do Livro mas tocando a todos, com a leveza de uma melodia. Só pode ser reproduzida por quem conhece, pode ser ouvida por qualquer um, não será marcante para todos.
E agora que terminou, fico pensando no que virá em seguida, mas ainda sob influência do que acabou de passar. O quanto deixamos passar os momentos importantes e cheios de significado por não estarmos atentos a eles, pensando no passado, projetando um futuro. Mais de um, a maior parte das vezes.

Eu me descobri mais feiticeiro que acreditava ser. Como adjetivo e como coletivo. Me achei em outros, me achei em meandros, me reencontrei depois de um bom tempo passeando lá fora. E brinquei de pique-esconde, me perdendo de mim e me reencontrando na lição seguinte.
E meu convite, com esse texto é que, você, leitor, que tem exatos noventa dias até o ano novo, faça suas escolhas, dia após dia, até trinta e um de dezembro, consciente e consequentemente. Celebre o divino dever de ser protagonista da sua vida. E compartilhe conosco, comigo, aqui no blog. Talvez, apenas por hábito, você comece a enxergar-se mais pleno e enxergar cores do mundo que são tão diáfanas que passam batidas quando estamos desatentos. Vamos ver o quão melhores conseguiremos ser, a partir desse desafio tão displicente, tão despretensioso, à primeira vista. Escolha tua trilha sonora, teus filmes, tuas comidas, tuas roupas, envergue seu melhor sotaque e aproveite o seu espetáculo.

Passo a passo, e chegamos aonde sonhávamos ser impossível. Meta a meta, angariamos o nosso tesouro pessoal e tornamo-nos os melhores dentro do nosso universo de atuação.

Eu te desafio. São só noventa dias.

Vem comigo.


Não poderia, de qualquer forma, deixar de dizer algo sobre o santo do dia. Um santo tão, mas tão ecumênico que até pagãos tem afeto por ele. Um santo cuja mensagem já foi reinterpretada de tantas formas - com iconografias tão variadas quanto - que se adapta à fé de qualquer pessoa de boa vontade e empatia. Um louco, um mendigo, um xamã, um feiticeiro, um homem apaixonado, a vivência de Ágape feita carne, a paixão que [i]macula a carne com estigmas.
Salve, São Francisco. Salve-nos da ignorância das Vozes que ecoam ao nosso redor.
E que, como tu, possamos um dia chamar a criação de irmã. 

Um dia por vez. E chegaremos em algum lugar, sem pretensão alguma.

Mas chegaremos.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O cantor belga que conquistou o mundo

Outro dia acabei descobrindo sem querer um compositor e cantor belga que chamou minha atenção por fazer música pop americana cantada em francês e ter cerca de 190 milhões de views no YouTube num único vídeo. Não obstante as influências de música francesa, rumba e música africana, o som dele é essencialmente pop dance, ou seja, ele está no mesmo estilo de Lady Gaga, Katy Perry, David Guetta, Avicii, Rihanna e Miley Cyrus. É com essa galera que ele divide prateleiras numa loja de discos. Ok, ele tem uma pegada forte de rap, então pode adicionar aí um Eminem, Iggy Azalea, 50 Cent, Nicki Minaj e sei lá o mais o que. Tudo isso pra dizer que o cara canta em FRANCÊS num universo totalmente cantado em inglês. E ao contrário da maioria dos artistas citados nesse texto, ele tem estilo próprio e sabe cantar de verdade. Destaque para as músicas "Papaoutai", "Tous les mêmes" e "Formidable". Se você não conhece esse cara, vale muito a pena ouvir. Já me tornei fã.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

perfume

infelizmente não disponho de tolerância suficiente para simplesmente ignorar comentários ignorantes e bestiais. confesso tenho problemas sérios com isso e para não perder o costume e personalidade porque faz parte ter uma resposta tão idiota quanto ou pouco menos ignorante aceito algumas provocações e até me permito o luxo e riqueza de rir alto com alguns comentários.


sempre gostei de perfumes, tenho uma relação íntima para não dizer quase louca com cheiros sejam dos mais estranhos e esquisitos; por exemplo cheiro de mato queimado, de banho, de chuva em terra seca, de folhas e flores molhadas com garoa, de tijolinho à vista em casa nova ou velha com chuvas torrenciais, de casa limpa ou até suja desde que seja a minha, de shampoo no cabelo seco, de esmalte, de acetona, de tintas, de gelo seco, de brisa, de mar, de cachoeiras e quedas dágua em pedras, cheiros de quase tudo me causa sensações de alquimia pura.


talvez tenha o olfato apurado ou não talvez apenas goste de apreciar os cheiros. quanto se trata de perfume isso remete diretamente para minha mãe pois não existe mulher mais cheirosa no mundo pode ter a certeza; com ela aprendi a escolher os perfumes a saber qual tem 100% de entrada e saída, qual fica melhor na pele e quais lugares devem receber várias borrifadas.


aprecio sem moderação perfumes e se pudesse teria vários com ou sem marca um para acordar outro para dormir, gosto tanto de um certo cheirinho para dormir, aninhar num peito e ficar, sentir aquele cheiro de banho no pescoço, tão bom e gostoso.


se me perfumo leio e se leio viajo. desta vez fui para áfrica e a viagem iniciou já no pegar o livro e ao sentir o cheiro. sabe cheiro de papel velho, gasto, onde traças passearam e deixaram aquele amarelado do tempo, um cheiro de ideologia do passado de esperanças passadas. 


em mayombe é quase impossível imaginar cheiros que não sejam das árvores, folhas e flores, rios e terra. como também é inconcebível imaginar homens de guerrilha com empenho total em tomadas de terras e tribos e na realização da revolução preocupados com os cheiros do sovaco a ponto de parar o conflito e pedir licença para descarregar uma borrifada de desodorante x ou z ou pingar uma gota da essência francesa. 

então imagine o operariado na metade do conflito na comuna ou o che ou hugo chavez em reunião de acusações da onu pedindo pausa para fazer o ato de se perfumar para guerra e quem sabe vencer o inimigo pelo cheiro. pior do que isso é imaginar que neste século comentários se prestam ao desfavor do conhecimento ao tentar desconstruir uma ideologia que se pauta na equidade e justiça social embora contenha todos erros históricos ainda que menores ao que está posto hoje.


em tempos eleitorais a distorção de fatos e propostas ganham proporções assustadoras em simples comentários, entrevistas e debates; chega a ser ridículo para não dizer absurdo, cansa e estarrece. e para jamais estagnar o conhecimento, a curiosidade e a esperança sigo as letras do querido pepetela com o cheiro de mayombe.


(...) quando alguém afirma que tem de acreditar no desinteresse de alguns homens, porque isso corresponde a ideia que ele tem de humanidade, mesmo que os fatos mostrem o contrário, então que é isso? tem-se uma ideia preconcebida do gênero humano, uma ideia otimista. por isso, recusa-se toda realidade que contrarie essa ideia. é o esquematismo da política. é um aspecto religioso, uma concepção religiosa da política. infelizmente é a maneira de pensar de muitos revolucionários. 

- mas, camarada comandante não achas que há camaradas que estudam desinteressadamente? 

- crês que haja alguma coisa que se faça desinteressadamente da vida?

lutamos pensou que encontrava apoio do comandante. sentiu coragem para proferir. 

- é por isso que não estou de acordo com o comissário que nos obriga a ir à escola. (...)


as pessoas devem estudar, pois é a única maneira de poderem pensar sobre tudo com a sua cabeça e não com a cabeça dos outros. o homem tem de saber muito, sempre mais e mais, para poder conquistar a sua liberdade, para saber julgar. se não percebes as palavras que eu pronuncio, como pode saber se estou a falar bem ou não? terás de perguntar a outro. dependes sempre de outro, não és livre. por isso toda gente deve estudar, objetivo principal duma verdadeira revolução é fazer toda gente estudar. (pepetela, 1982:78-79)

domingo, 28 de setembro de 2014

Culpabilização e a Falácia do Mundo Justo

Escrever um texto, mesmo que superficial, sobre alguns dos temas em pauta nos discursos feministas, como a culpabilização da vítima, não é exatamente uma tarefa simples. Primeiro porque sinto que me falta embasamento suficiente (e, creio que sempre irá faltar), então acredito que o texto ficaria incompleto. Segundo, porque, de certa forma, enquanto branca, hétero e de classe média, pertenço a um grupo primordialmente opressor, e não passarei pelas mesmas situações que uma mulher negra ou alguém trans*. Racismo e transfobia são potencializados, quando associados à misoginia, e a luta deles é ainda mais difícil que a minha.

Entretanto, ainda sou mulher, ainda estou inserida numa sociedade que prima por um discurso machista e onde ter comportamento feminino é algo ruim. E acredito que começar a falar sobre isto abertamente é um primeiro passo.

Fomos criadas e condicionadas a uma cultura de medo revestida de “boa educação”, uma lógica de negação das coisas básicas, de "garotas não devem jogar futebol" a evitar usar uma roupa curta num dia quente, para não sofrer assédio – e ainda assim, o pior acontece: mesmo quando você toma as.... “medidas preventivas”... e sofre o assédio, há a acusação: sua roupa, seu comportamento, sua vida sexual... justificando a violência, a responsabilidade recai sobre a vítima, não no agressor. A brutalidade é minimizada a qualquer custo.

Creio que o pior disso é que, não basta você se sentir podre por ter passado por aquela situação, sofrer a tensão diariamente, ainda vem algum idiota e te culpa e, se você não tiver a cabeça no lugar, começa realmente a achar que o problema é com você. Isto é a chamada falácia do mundo justo, a crença de que sistema em que vivemos é justo e cada um tem exatamente o que merece. Como uma punição universal, só que adaptada para valores individuais.

Mas, acredite, o problema não é você.

The Victim, by KkFranca: http://kkfranca.deviantart.com/art/The-Victim-408071661

Este mês foi julgado o último envolvido no caso de estupro coletivo das mulheres de Queimadas, crime ocorrido em fevereiro de 2012, as famílias das vítimas ainda sofrem agressões por parte da população – as garotas mereciam, ora porque eram prostitutas, ora porque se faziam de difíceis.

Em outubro de 2013, em Goiânia, Fran teve vídeos íntimos vazados na internet pelo ex-namorado, e foi publicamente hostilizada por ter feito sexo e ter permitido que ele gravasse. No mesmo ano, outras garotas que sofreram com situação semelhante, optaram pelo suicídio.

Em março de 2013, Simone Lima, uma professora, foi esfaqueada por um estudante, Thomas Hiroshi Haraguti, de 34 anos; ele foi condenado a 16 anos de prisão por homicídio duplamente qualificado – o advogado de defesa pretende recorrer da decisão, alegando Síndrome de Misoginia Involuntária.

Em fevereiro de 2011, na zona rural de Pindorama, um fazendeiro foi pego em flagrante com duas adolescentes, uma de treze e outra de quatorze anos, ao ser detido, alegou que havia pago pelo sexo – foi detido, acusado de favorecimento à prostituição e estupro de vulnerável, foi absolvido há dois meses atrás.

São alguns casos famosos, mas a história se repete em vários lugares e de maneiras absurdas, às vezes entre quatro paredes, às vezes a céu aberto. Existem mulheres que conseguem se erguer e dizer basta, existem outras que ajudam e as que são ajudadas, e, infelizmente, aquelas que são silenciadas.

A mulher que morre no aborto clandestino (uma a cada dois dias), a que apanhou do namorado lutador (e o título da matéria estampa que ele levou “arranhões em briga com a namorada”), a garota que sofreu abuso por não ter usado o vagão rosa, a mulher trans* que foi retirada do vagão rosa e foi destratada pelos seguranças do metrô, a mulher que deixa de conseguir emprego porque está grávida... Infinitos casos escondidos e nenhuma destas pessoas é menos importante, só porque teve menor visibilidade. São vítimas de uma sociedade doente.


Já sofri abuso sexual.

Já fui assediada ao andar na rua.

Já mudei de roupa antes de sair de casa.

Já me culparam por ter sido assediada.

Fizeram brincadeiras sobre o abuso.

Já desisti de sair, por não querer correr o risco de passar por alguma situação desconfortável.

Não garanto que tudo isto vá se repetir amanhã, mas, certamente, vai se repetir. É um fato.

É justamente por isto que é preciso falar. Cada vez mais. Cada vez mais alto.

Ser conivente não é uma opção.

sábado, 27 de setembro de 2014

Brasil, o país em que nada dá certo?

"Ouvi dizer que no Brasil todo mundo é feliz"

Desprezar a história é produzir verdades com a experiência limitada de vida de qualquer pessoa. Em tempos de eleição, a política ganha espaço no cotidiano. Mudam alguns atores, esse ou aquele candidato, mas me parece que uma coisa permanece: a baixa autoestima dos brasileiros.

É comum ouvirmos por aí “o Brasil é um lixo”, “aqui nesse país nada dá certo”, falas que carregam aquela ideia de que o problema está no outro, de que quem fala não é responsável também, não é sujeito, mas vítima, objeto. A síntese genial é “você não está no trânsito; você é o trânsito”.

Há pouco mais de um mês terminou um festival que gosto bastante, o “Anima Mundi”. Trata-se de uma importunidade rara de ser apreciar toda sorte de técnicas de animação, curtas e longas metragens, de toda parte do mundo. No último dia do festival, há a premiação dos melhores filmes, em diversas categorias. Durante o anúncio de um dos ganhadores, pude ouvir “ah... é brasileiro? Deve ser uma merda!” 

Durante a última Bienal do Livro o consagrado fotógrafo mineiro, Sebastião Salgado, foi convidado para um bate-papo com o público. Em dado momento, ele chamou a atenção para o fato de que, em geral, nós brasileiros tentamos esconder nosso passado indígena. Ele até brincou dizendo que em São Paulo todo mundo era descendente de italiano! Somado a esse exemplo, basta observar a tentativa do Brasil de querer diferenciar-se do restante da América Latina, como se não compartilhássemos nada. “A Bolívia é indígena, nós não”, só pra ficar entre vizinhos.

Com o livro “O povo brasileiro”, temos uma ótima oportunidade de ser menos ignorantes com relação ao nosso passado. Nele, Darcy Ribeiro discute a criação da colônia, desde a invasão (e não descobrimento) dos portugueses até o século XX. Não podemos nos esquecer de que quando os portugueses invadiram, não trouxeram consigo as portuguesas; logo, as índias foram as mães dos chamados brasilíndios. Interessante notar é que esse sujeito ficou perdido, sem identidade. Por um lado, ele era desprezado pelo pai, que não o reconhecia como europeu, branco; por outro, desprezava a mãe indígena, considerando sua cultura subalterna. A introdução da cultura negra é igualmente considerada menor, sob essa perspectiva.

Séculos se passaram desde então. Muitas mudanças, mas essa percepção de hierarquia, ao que parece, permanece intacta. É claro que não podemos nos esquecer de que com o fim da Segunda Guerra, a cultura produzida nos EUA foi elevada ao mesmo patamar da cultura europeia (talvez num status até maior) e continua a ideia “a grama do vizinho é sempre mais verde”. Qual é? Não se trata de nacionalismo irracional, mas já está mais do que na hora de melhorarmos a nossa autoestima!

Eu não acredito em nacionalismo porque é fácil cair no fanatismo e se esquecer da solidariedade entre os povos, já que o resto do mundo não presta, entre muitas outras coisas, mas é importante desenvolver um olhar mais generoso para conosco. É óbvio que temos um montão de problemas, que tem gente corrupta, oportunistas de toda ordem, injustiças, violências, mas isso não significa que seja próprio do nosso DNA. Quanto mais nos livrarmos da ideia de que as coisas sociais são naturais, melhor. Nascemos assim ou fomos levados a agir desta ou daquela forma?

Particularmente acho triste esse ódio ao Brasil quando ele vem da boca de jovens. Muitos deles sequer cruzaram a fronteira. As notícias que chegam do estrangeiro são da internet, filmes, séries televisivas, boatos e etc. Para alguns, pode ser chocante imaginar que nos EUA há pobres ou que só se tem atendimento médico quem tem um seguro saúde (algo como nossos convênios particulares). Veja, não estamos falando em atendimento de má qualidade, não existe atendimento médico para quem não pode pagar, simples assim. Vale a pena lembrar que muitos brasileiros contribuem para o desenvolvimento da ciência e das artes no exterior, por exemplo, mas o que se sobressai é o país que financia.

Acredito que enquanto seres humanos podemos  –e devemos!- nos inspirar nas boas ações de outros povos, buscando viver num país melhor. A troca é saudável, inteligente. Minha avó dizia que só não tem solução para a morte. E quais alternativas estão sendo pensadas por você? Não dá para ter resultados diferentes com as mesmas ações.  


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Carta a Alguém

Os diálogos que tive contigo desde que decidir virar as costas e ir embora, foram inúmeros. Ainda rio de algum comentário sarcástico que você faria, do jeito empolgado que cantaria músicas antigas ou a utilização do pretérito perfeito em qualquer frase.
Demorei a entender que a verdade estava escancarada enquanto o irracional acobertava. Era nítido que o encontro de nossos caminhos seria breve e é por este motivo que escrevo a carta de despedida à você,  Alguém.
Sou muito grata por ter me tirado do lixo que me escondi com o meu último pseudo relacionamento, proporcionando o que tinha esquecido: a reciprocidade de afeto, mesmo que por um curto período. Nossas afinidades imediatas carregaram as baterias de possibilidade da paixão. A paixão veio e com ela, seu tempo limitado. Como a maioria dos encontros na vida adulta, há sempre três na relação a dois. Seja um fantasma, um amor mal resolvido, uma porta aberta. Não foi diferente contigo que entre duas pessoas, acabou arrastando uma terceira pessoa: eu.
Na falta do amor próprio e com as migalhas alimentando as poucas borboletas que ocupavam o estômago, segui esta dieta por um ano. As borboletas acostumaram e não havia fome ou gula, apesar de vez ou outra, o estômago embrulhar pedindo novos alimentos, como no dia que eu vi vocês dois atravessando a rua sem querer,  ou passando por mim na tarde que deveria ser apenas minha. Antes, enxergava como coincidência e hoje, percebo o quanto fui teimosa em não olhar os sinais que o universo me enviou sobre a brevidade da sua vida na minha.
Fui tão culpada quanto você neste relacionamento velado. Era cômodo para ambos, compartilhávamos nossas angústias, desejos, ríamos de besteiras no período de segunda a sexta. Não tinha cobranças e por qual motivo, teria de existir algum se não tínhamos nada? A parte boa, você guardava para ela. Os beijos, o sexo e os carinhos trocados. Os problemas e o ombro, poderiam esperar até segunda, quando eu estava de volta à sua rotina.
Adorava não precisar arriscar nada além de algumas noites com qualquer outro homem. Tinha você e eles supriam algumas carências físicas. Nas comparações, você sempre ganhava. A zona de conforto era meu espaço conquistado. Vez ou outra, recordava de como por um triz, quase fui a escolhida. Diversos dias, revirei na minha mente o que foi que eu fiz de errado para ser a segunda e não, a primeira.
Mas, como todo relacionamento a três, depois de muito treinar e ensaiar, percebi que poderia escolher e deixar de ser a escolhida. Um dia, a gente cansa da segunda opção e percebe que isto e nada são a mesma coisa no ponto de partida, do nada a qualquer lugar que ainda não conhecemos. Foi assim que virei as costas e fui embora sem ao menos te dizer tchau, Alguém.
Doeu você não vir atrás, dizer que sentia minha falta e que gostaria de me ter de volta. Tempos depois, senti alívio por isto não ter acontecido. Diante das minhas fraquezas, era capaz de puxar a cadeira na zona confortável e continuar assistindo ao teu relacionamento, me sentindo um lixo por não ter o meu contigo ou com outro alguém. Os meses passaram e o tempo ajudou a amenizar a saudade e abastecer a confiança de tentar novamente. Ainda não encontrei o que procuro, mas mantenho firme que olhar para trás não é opção.
Espero que você esteja feliz, Alguém. De maneira ingênua, acho que não fez por mal. Que talvez tenha se embolado tanto quanto eu dentro deste novelo. Do lado de cá, quase caí em outra armadilha parecida com a tua. Obrigada por me ensinar que este não é o caminho.
Hoje, minha fome não se contenta com migalhas e as borboletas, esperam mais.
Um beijo,
Ninguém.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Férias!

Passei uma semana em Gramado/RS e o que mais me chamou a atenção na cidade foi o chocolate a falta de semáforos. 
O pedestre coloca o pé na rua e o carro para. Simples assim. 
Acho que nem se passasse um ano lá me acostumaria. 
Nas primeiras vezes não acreditei. Achei que fosse pegadinha do Mallandro. Comecei a reparar nos outros pedestres e todos faziam o mesmo: atravessavam a rua. E os carros paravam. Incrível!
Tive vontade de abraçar os motoristas. Foi emocionante. E no meu país!
Não sei se foi isso ou a overdose de chocolate, mas restaurei minha fé na humanidade..


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

40 pequenos prazeres da vida

Felicidade se acha é em horinhas de descuido...
(Guimarães Rosa)

01. Cheirar página de livro novo.
02. Arrancar casquinha de ferida.
03. Estalar os dedos, um por um, enquanto se ouve aquele barulhinho.
04. Fazer bolas de sabão bem sucedidas.
05. Estourar plástico bolha.
06. Comer a cabeça de uma Tortuguita.
07. Raspar com uma moeda uma raspadinha.
08. Colar figurinhas num álbum.
09. Encontrar uma peça difícil num quebra-cabeças.
10. Soprar no canudinho e ver a água borbulhar no copo.
11. Acertar uma bolinha de papel em cheio no alvo.
12. Bocejar.
14. Surpreender alguém falando bem de você pelas costas.
15. Conseguir lembrar o nome de todos os 7 anões.
16. Descobrir que alguém gosta da mesma coisa estranha que você.
17. Receber o primeiro jato de água de um banho quente.
18. Arrotar depois de beber refrigerante.
19. Descobrir catupiri no meio da coxinha que você achava que era só de frango.
20. Completar uma página de cruzadinhas.
21. Fazer um trocadilho perfeito.
22. Achar dinheiro na rua.
23. Brincar com a vela quando falta luz.
24. Conseguir puxar uma salva de palmas.
25. Encontrar uma casinha de João de Barro.
26. Pisar descalço na areia.
27. Apertar massa de pão.
28. Ganhar alguma coisa num sorteio (qualquer coisa).
29. Cantar no chuveiro.
30. Encontrar lugar vazio no ônibus (ou isso deveria estar na lista dos "grandes prazeres"?).
31. Fazer bigode em fotos de revista.
32. Cantar "Faroeste Caboclo" inteira e sem errar (e aumentando a voz no "tem baguio bom aí").
33. Abrir presente.
34. Descer pela frente no busão porque o cobrador estava sem troco.
35. Dar-se conta de que é sábado e que o despertador está tocando por engano.
36. Fazer um strike.
37. Dormir com barulho de chuva.
38. Conseguir acertar qual vai ser o final de um filme.
39. Atirar pedra na água.
40. Ler listas alheias.

E você? Com quais itens desta lista você se identifica? Qual a sua lista de "pequenos prazeres da vida"? Compartilhe-a conosco nos comentários!

domingo, 21 de setembro de 2014

A loirinha do ponto

Àquela hora da tarde, o sol já estava estalando no céu.

Graças às pessoas que iam embora no coletivo, todas ao mesmo tempo, era corriqueiro o fato de ele ter de ir a pé.

Mas eis que uma visão do céu o animou!
Uma linda loira estava parada no ponto central.
Ela não ia tomar o ônibus no qual ele estava, mas o fato de poder ver tal anjo o animou e tirou dele um sorriso!

Seus pensamentos foram longe!
Já imaginou a jovem moça dentro de um vestido de noiva!
Quem sabe o destino não faria algo no mínimo sobrenatural para que se conhecessem uma hora dessas! 


Pedia à Deus que tivesse a oportunidade de poder saber qual seria a linha que ela utilizaria.
Geralmente, no ponto onde se encontrava, as pessoas tinham a tendência de serem mais lerdas mesmo. Quando o coletivo parava ali... Podia esperar que ia demorar uma eternidade para dali sair.

Mas naquele dia ele não se importava nem um pouco.
De repente, surge no horizonte o ônibus pelo qual a moça estava aguardando.

"Aaaaah, então ela é de lá!" - pensou, quase que em voz alta.

Fitava aqueles fios loiros esvoaçantes do cabelo da princesa que ensaiava adentrar ao veículo, quando nota que ela faz uma cara de espanto, e tira do seu delicado bolso um iPhone 5S branquinho como algodão.

O semblante da jovem moçoila então se transforma. 
Exibe um belo sorriso, desiste de entrar no ônibus, e volta para a proteção contra o sol, do ponto onde estava.

Olhava ao longe, como quem procura alguém.

E foi assim que ele começou a aceitar que aquela talvez não seria um dia a mãe de seus filhos. Não seria ela a menina que se apaixonaria pelo seu lado romântico. Nem seria com ela o jantar de aniversário de três anos juntos, numa bela união, dali a três anos.

Sentiu então um forte chute no seu calcanhar.
A dor foi intensa. Quem causou aquilo estava munido de uma bota com bico de aço ou titânio, não saberia dizer.

O "agressor" pediu desculpas, e ele, com aquela cara de sofrimento, gemeu um "não tem problema" e decidiu voltar-se para a cena que há pouco tomava toda a sua atenção.

Mas espera aí... Cadê a moça?

O ônibus que ela quase utilizou há muito saíra dali. 
No ponto, ela não estava.
"Será que ela entrou nesse?" - Devaneou ele, num súbito lampejo de esperança!

Mas que nada.

Viu, um pouco mais atrás, que ela estava envolta nos braços de um moleque que faria jus à promoção "Colírios" da Capricho.

Mais uma que não seria dele.
Mais uma que alimentou seus sonhos, em aproximadamente cinco minutos de pessoas vagarosas adentrando o busão no qual estava.

O namoro, o noivado, o casamento, os filhos e os netos teriam de esperar um pouco mais.
Não seria a loirinha do ponto sua namorada, sua noiva, sua esposa.

Não quis continuar olhando para o jovem casal que desfrutava de um bonito momento de afeto, abaixo daquela palmeira, que ficava pertinho da Igreja Matriz.

Nem teve muita chance mesmo.
O coletivo arrancou, e ele deu sequência para mais uma tarde de descanso.
Ainda solteiro.
E pensando, quem sabe, numa possibilidade de num desses ônibus da vida, encontrar alguém que topasse viajar com ele.
Rumo ao desconhecido que a vida é.

sábado, 20 de setembro de 2014

Imprevistos previsíveis

Segunda-feira: Choveu na metrópole. O fato deveria ser encarado como uma grande sorte. A seca acima da média associada à falta de investimentos do governo fizeram com que os reservatórios atingissem os níveis mais baixos da história. Apesar disso as notícias não foram boas. A chuva em pleno começo de semana atrapalhou o trânsito, que ficou caótico em toda a cidade. Não chegou a ser uma tempestade, mas não precisa muito. Semáforos falharam, o número de automóveis aumentou ainda mais por conta dos que não queriam chegar molhados ao serviço, a prudência de motoristas no asfalto molhado, entre outros fatores, fizeram o trânsito parar.

Terça-feira: O sol voltou a brilhar forte, os semáforos foram consertados e a cidade estava seca – até demais – novamente. Neste dia manifestantes reunidos através do sindicato aproveitaram que o tempo havia melhorado para fazer um protesto por melhores salários e condições de trabalho mais dignas. Já estavam em greve há várias semanas, tinham apoio de outros setores, obtiveram vitórias na justiça contra supervisores intransigentes e seguiam em uma luta dura por seus direitos. As notícias giraram em torno do caos gerado nas ruas bloqueadas, transformando rapidamente o trânsito da cidade em um verdadeiro inferno. Não somente onde havia bloqueios, mas também nas ruas ao redor os carros não tinham como avançar, gerando uma reação em cadeia. Tudo parado.

Quarta-feira: Sol forte, nada de manifestações. Em uma das vias mais importantes da metrópole um motoboy corria contra o relógio para tentar cumprir os prazos cada vez mais curtos de entrega. Não fazia ideia que poucos metros adiante alguém mudaria de faixa sem dar seta. A cidade perdeu um motoboy. Ele, que passara a vida correndo feito louco para não deixar os patrões esperando, teve agora que esperar pelos peritos, que chegaram sem a menor pressa, várias horas depois do acidente. As notícias correram rapidamente: o trânsito parou. Só o acidente já havia bloqueado três faixas das cinco que formam a via, não bastasse isso os curiosos ainda passavam bem devagar, complicando o trânsito, travando as ruas adjacentes, gerando impacto nas grandes avenidas ao redor. Um caos.

Quinta-feira: O sol brilhava – insuportavelmente – na metrópole. Nada de manifestações e nenhum acidente grave havia sido registrado. No centro da cidade a polícia militar deu início à desocupação forçada de um edifício, dada à necessidade que este permanecesse desocupado, como nos últimos dez anos. As famílias, dezenas delas, que não queriam ceder a moradia à especulação imobiliária, reagiram. Foram paus e pedras contra cassetetes, bombas de gás, spray de pimenta, escudos, blindados, balas de borracha. As notícias repercutiram pelo país inteiro. Mais de 30 linhas de ônibus foram interrompidas e as ruas do centro totalmente interditadas. O trânsito sofreu os impactos por toda a cidade. Com o centro parado as principais avenidas começaram a travar, estendendo o engarrafamento para as ruas menores e parando toda a cidade. Um caos.

Sexta-feira: O sol apareceu novamente, não houve nenhuma manifestação, nada de acidentes de grandes proporções nem ações de reintegração de posse. Nada atrapalhava o trânsito a não ser, é claro, o excesso de carros. As ruas teimavam em permanecer engarrafadas, com buzinas em uníssono produzindo o som que parecia um grito de socorro atendido por ambulâncias que tentavam, sem sucesso, abrir caminho em meio ao caos. As notícias encontraram um caminho próprio e provavelmente definitivo. Deixavam claro como as novas faixas exclusivas para ônibus e, sobretudo as novas ciclovias passaram a fazer com que o trânsito da metrópole vivesse um estado de caos permanente. Não havia mais solução. De agora em diante os motoristas seriam obrigados a suportar, cada um dentro de seu próprio veículo, os congestionamentos monstruosos formados entre ciclovias e faixas de ônibus.



quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Papo entre amigos

Estou fazendo um intercâmbio e estou há 1 mês sem comer o nosso arroz e feijão e em uma conversa depois do almoço eu e meus amigos começamos a falar de traição, então surgiu a pergunta: Porque ela acontece? E a resposta foi "Como já estamos habituados a comer sempre a mesma coisa não vemos mais graça naquilo e então surge o hambúrguer prometendo toda aquela delícia que não resistimos. Mas depois de comermos hambúrguer todo o santo dia não aguentamos mais vê-lo, ai dizemos "Queria tanto o arroz e feijão da minha mãe!" Portanto, o cotidiano faz nossa chama acalmar mas a distancia faz ela arder intensamente e o mesmo acontece com o nosso companheiro, como comemos ele todo dia já não há a vontade da primeira vez, porém se ficamos longe percebemos que é o feijão com arroz que amamos.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Indiana

Andei pensando nas lembranças que terei daqui a alguns anos, quando não morar mais na maior cidade da América do Sul.
 
Listei mentalmente 
As pessoas maravilhosas que já conheci e ainda vou conhecer
Os lugares fantásticos
Os lugares ordinários
As pessoas ordinárias que já conheci e ainda vou conhecer
As experiências extravagantes
As gargalhadas no metrô
As lágrimas na chuva (drama) 
Os domingos sobre duas rodas
As segundas sob muletas
As terças chuvosas
As lágrimas nas terças chuvosas
As quartas maravilhosas
As quintas extravagantes
As sextas fantásticas
Os sábados ensolarados
E as filas. 

Sim, as filas. Eu, enquanto paulistana, fui feita de filas. Para filar qualquer coisa, ou mesmo pagando caro, para qualquer coisa, filas para que te quero. As filas que não quero. Filas que emendam uma na outra, filas que se perdem, filas para nada. Um paulistano atrás do outro forma uma fila, que forma a pergunta: "para que essa fila?" que aumenta a fila em ordem aritmética, geométrica, em milhas, a perder de vista. A fila em São Paulo é uma instituição. Justamente no lugar em que menos se pode perder tempo, os cidadãos se dispõem mecanicamente, cordeiramente, um atrás do outro, acreditando que é preciso, organizadamente ou não, esperar alguma coisa. São Paulo espera. São Paulo é feita de esperas. Espero não cansar logo.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Sobre a arte de não se adaptar e de se sentir confortável com isso

Para ler ouvindo:





Bem, este é o primeiro texto que escrevo para o blog e eu tinha sérias dúvidas se eu conseguiria me adaptar a este espaço, visto que não sou muito boa em enxergar a tal poesia do dia a dia. 

Depois de refletir por um tempo, cheguei à conclusão de que a questão principal não é a dificuldade em me encaixar no blog, que conta com vários indivíduos únicos e especiais, cada um a seu modo, e sim a dificuldade em me encaixar na vida. Acredito que me tornei profissional nessa arte, pois, desde que me entendo por gente, tenho dito pra mim mesma que não há problema em ser diferente, que não sou obrigada a pensar ou agir como todo mundo. Outra coisa que me incomoda é essa falsa noção de “todo mundo”, nove letrinhas são muito pouco para dar conta de alguns bilhões de pessoas, logo, acho muito pretensioso quando um grupo começa a vender uma ideia do que é ser normal, baseada em padrões inatingíveis, que causam muitos danos àqueles que se aventuram a tentar segui-los. 

Felizmente, a cada dia que passa, mais pessoas tem tido a coragem de se assumir como elas realmente são e de sentir orgulho disso, e isso tem ocorrido em várias esferas, que abarcam desde etnias até a orientação sexual.

Contudo, esse avanço traz com ele uma série de problemas seríssimos em decorrência da intolerância e quando digo isso não me refiro apenas aos vários casos de espancamento contra homossexuais ou aos estupros em que a vítima é transformada em culpada por usar uma saia curta demais. A intolerância está tão arraigada em nossa sociedade que todos os dias vemos pessoas que se dizem esclarecidas e livres de preconceito fazendo piadinhas ou comentários maldosos sobre gays, por serem muito “afetados”; sobre pessoas acima do peso, “por só fazerem gordices”; sobre mulheres que optam por não manter relacionamentos sérios, por não serem moças “decentes”; sobre meninas que não alisam o cabelo, “por terem o cabelo ruim”. 

Enfim, eu poderia continuar essa lista por muitas linhas, mas acho que já é o suficiente para perceber que qualquer um que resolva abraçar sua individualidade em um mundo de aparências e opressão merece aplausos, e não tapas, elogios, e não ofensas. Então, não! Não vou mudar, nem me adaptar às regras sociais estabelecidas bem antes de eu nascer. E quem realmente gostar de mim vai ter de aceitar isso.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Parlenda Low Carb

Um, dois;
pareço um peixe-boi.
Três, quatro;
vou cortar carboidrato.
Cinco, seis;
já faz quase um mês.
Sete, oito;
mas sou muito afoito.
Nove, dez;
acabei com os canapés.

ad infinitum.




domingo, 14 de setembro de 2014

Formação

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Não sou lutadora de judô.

Não sou pintora, nem sei tocar violão.

Não falo inglês fluente, nem francês. Não sou atriz. Nem socióloga, antropóloga ou cientista política.

Não sou ginasta olímpica. Não sou cantora, nem bailarina de lindy hop ou de ballet clássico.

Não toco piano. Não sei jogar capoeira.

De todas as coisas que fiz e que me fizeram. De todos os abandonos, impermanências, desistências.



Não sou casada.

Não tenho filhos.

Não moro sozinha.

De todas as escolhas que fiz e que me fizeram.



Não fiz intercâmbio pra Europa. Não li tantos textos. Não planejei.

De todas as escolhas que não fiz, sonhos que não realizei.

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Sim. 

Esses nãos formam sins.

Sou pouco, quase nada. Sou no que deu.

Sim! Do tipo "tipo medíocre".

Sou o que sou por que também sou o que não sou.

Tudo o que se pode fazer é ser. Sem comparações.  
Completamente diferente e único e por isso mesmo tão igual a todos.

Ser o que se é. O ideal vem sempre de fora. O mapa está dentro.
Olhar pra dentro, mesmo quando está tudo escuro. Não ter medo do escuro.

Felicidade, sucesso, reconhecimento: pra quem? O que é pra você?

Para mim sucesso é poder escrever e enviar esse texto sem ficar me culpando por não ter pensado nele antes, por não ter me dedicado e escrito antes. Aceitas a imperfeição. O ideal não alcançado. A foto não encontrada. Desejar que o próximo seja melhor, mas agora é isso! Viver é aqui e agora. Tem sido isso e eu respeito, mas talvez um dia mude.

Que um dia eu mude? Que um dia eu melhore? 
           Só se for para ser mais parecida comigo mesma.
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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Porque eu sumi

De vez em quando eu sumo e alguém me pergunta ''por que você sumiu?''.
Não sei o que dizer. Queria ter boas explicações, dizer que estava do outro lado do mundo, no gelo, estudando focas ou talvez em algum país perdido trabalhando de voluntária. Mas meus sumiços não têm motivos nobres nem humanitários, eu sumo porque a cidade na qual moro, São Paulo, me engole e levo tempo para voltar a superfície. Me perco nas beiradas da existência urbana e acabo sumindo, mas estou ali como todo mundo, no panorama onde todos os rostos são iguais.

Meu sumiço é tão comum que todos os dias tenho a mesma rotina e mesmo assim consigo desaparecer nela, como se eu não passasse por essa ponte.

Talvez isso aconteça porque nunca me achei aqui e acabo sumindo no desenho da cidade, como se ela não absorvesse minha vida, parece que não existo neste chão cinza, fico invisível para todos. Dura uns dias, semanas, meses e anos, mas eu volto a aparecer como se nada tivesse acontecido. Em uma cidade maluca e sem tempo posso mandar um ''oi'' sem data, todos os ''oi'' são iguais para quem mora aqui. Desconfio que não sou a única a desaparecer na rotina e sumir no cinza da cidade, a frequência de pessoas que saem do meu radar é tão grande que parece ser uma cidade de ''sumidos''.
Eu sumi, mas já apareci novamente. Só não sei por quanto tempo.