sábado, 17 de abril de 2010

Velho galpão

Dei pela existência do velho galpão faz tempo, foi quando tinha uns quatro anos. Minha família decidiu abrir uma livraria numa cidade vizinha, bem menor. Meus pais decidiram me matricular em uma creche lá, portanto, todo dia cedo viajava com eles. O trajeto era curto, uns 7 quilômetros, que se tornavam uma eternidade para uma criança.
Com o tempo, aprendi a omitir a costumeira pergunta “tá chegando?”, que tanto irrita os pais. Fui notando que perto do destino havia um galpão gigante, na metade da altura de uma ladeira. A última ladeira antes de chegar à cidadezinha que teve a honra de hospedar a Livraria Tatiana (sim, era esse o nome). De modo que ao avistar o galpão sabia que a viagem e os sacolejos chegavam ao fim.
Na época da abertura da livraria meu pai tinha um fusca branco. Como nunca teve apego a carros e como sempre teve a destreza de negociar, seus bens iam e vinham. Os fuscas iam mudando de cor. Tivemos um amarelo, um vermelho, um azul. Cheguei a criar o passatempo de ficar adivinhando qual era a cor do fusca com o qual meu pai apareceria me buscar.
A livraria fechou, mas a cidade permaneceu no meio do caminho da cidade onde o ônibus para e aquela onde mora minha família. Quando venho visitá-los, meu pai me pega na primeira e me leva até a segunda, geralmente reclamando da vida, querendo saber de tudo. Nem sempre presto atenção no galpão.
Hoje, reparei nele. Muito velho, com as madeiras meio apodrecidas pelo tempo, a pintura descascada. Mesmo assim, imponente sobre a ladeira. Achei engraçado observar depois de pelo menos 20 anos um local que me era um importante ponto de referência. Estranho como as coisas perdem a importância. Mais engraçado ainda olhar para o lado e ver como homem que dirigia o carro também estava velho. Barba longa, fios brancos, testa enrugada pelo tempo, pelos problemas de cada dia.
O galpão, sempre lá. Meu pai, sempre ali.
Não é uma conclusão triste. Mas o galpão, meu pai, as rusgas, as rugas , a sonoridade dos pássaros na cidade tranquila, a chegada, a passagem e a partida me fizeram perceber que nada vai mudar. Será, de um jeito até meio sombrio, sempre assim.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Claro

Devido aos chamados:
  • 201069179016;
  • 201066926041.
Não houve a possibilidade de publicação. O meu Claro 3G, que hoje deixou de ser meu, pois, cancelei a linha. Ficou 2 semanas inoperante.

Cansei de vez, agora migrei para ViVo e espero ser mais feliz!

Postando na data que me compete, todo dia 16.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

(in)citações

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"you develop control by letting go"
Bob Ernst

"on rêve avant de contempler. Avant d'être un spetacle conscient tout paysage est une expérience onirique"
Gaston Bachelard

"sofrer é viver pelo avesso"
Marcelo Dolabela

"Da mihi castitatem et contientiam, sed noli modo"
Santo Agostinho

"yo siempre tengo una gran alegría cuando no entiendo algo y al revés: cuando leo algo que entiendo perfectamente, lo abandono desilusionado"
Enrique Vila-Matas

"aprendi que o tempo era apenas fração de nosso sonho"
Everardo Norões

"Citar é ser injusto"
Fernando Pessoa


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quarta-feira, 14 de abril de 2010

O telefone

-Seu telefone quebrou.
-Como?
-Não sei.
-O que que ele tem?
-Eu fiquei aqui a tarde inteira e ele não tocou.
-Alguém tentou me ligar?
-Como é que eu vou saber? O telefone tá quebrado.
-E como é que você sabe que ele tá quebrado?
-Por que ele não tocou a tarde inteira.
-Mas se ninguém tentou me ligar, o telefone não ia tocar mesmo.
-E como é que eu vou saber se alguém tentou te ligar se o telefone não tocou a tarde inteira?
-O telefone tá dando linha?
-Tá. Foi só a campainha que quebrou.
-Pega o seu celular e liga pra cá. Aí a gente vê se quebrou mesmo.
-Não dá, meu celular tá sem crédito. Liga você.
-Meu celular tá sem crédito também.
-Então liga pra alguém e pede pra ligar pra cá e vê se toca.
-Vou ligar pra quem?
-Sei lá, liga pra qualquer um.
-Tá bom, então. Deixa eu ver um número aqui.
-E aí?
-Calma. Tá chamando.
-Atenderam?
-Alô? Mãe? Sou eu! Como assim quem, mãe? Você tem quantos filhos? Ah, tô bem sim, mãe. E você, como tá? É, eu sei que faz tempo que não ligo. Não, mãe, não esqueci de você. É mesmo, mãe? Que legal...

(Meia hora depois).

-...então tá, mãe. Tchau. Beijo.
-E aí?
-Ela te mandou lembranças.
-Mas ela vai ligar de volta?
-Ih, esqueci de perguntar.
-Como esqueceu? Liga de novo!
-Ai, caramba. Peraí. Alô, mãe? Sou eu de novo. Como assim quem, mãe? Eu acabei de falar com você. Não mãe, não aconteceu nada, é que eu precisava de um favor. Que dinheiro! Eu só quero que você ligue pra mim. Eu sei que a gente tá falando no telefone, mas eu quero ver se ele não tá quebrado. Tá bom então.
-Pronto?
-Pronto. Ela vai ligar.

(Dez minutos depois).

-Eu falei que tava quebrado.
-E se minha mãe esqueceu de ligar?
-Liga pra ela de novo e pergunta.
-Falar com minha mãe de novo? Melhor que esteja quebrado mesmo.

terça-feira, 13 de abril de 2010

VIAGEM


Voltando para casa, às cinco da manhã, manhã, manhanzinha, parei a leitura do livro para filmar a paisagem da janela e as pessoas dormindo no trem que sacudia para Mauá. Pus também música que ouvia no fone de ouvido do mp3 na câmera e filmei a página do conto lindo que estava relendo, Frontal com Fanta. Tudo que edito, com leitura em voz alta, para agora postar lá, no Blog das 30 pessoas.

[CARÍSSIMOS, PERDI O DIA 13 POIS MEU COMPUTADOR ESTÁ COM DATA ERRADA, E EU SOU A DISTRAÇÃO EM PESSOA. MAS PREPARO O VÍDEO, POSTO AMANHÃ, SE TUDO DER CERTO. SEI QUE É FORA DA DATA, MAS É O QUE POSSO FAZER. ABRAÇO.]

domingo, 11 de abril de 2010

Dando uma limpa no armário

Eu adoro a diversidade, a possibilidade de mudanças, mesmo que diante de dois sorvetes de sabores diferentes eu não consiga escolher e fique com um de duas bolas. Acho fantástico poder escolher, e isso desde um simples par de sapatos ao Presidente da República, duas tarefas difíceis, mesmo com tanta discrepância de alternativas. Tenho mania de comprar três vestidos iguais, de cores diferentes, pelo simples prazer de poder escolher depois, entre uma roupa que me deixa bonita, a cor que me cai melhor naquele dia. Para isso preciso também de bolsas, cintos, sandálias, tiaras, brincos, lenços, tudo aquilo que combine ou não, mas sempre é necessário escolher. E escolher toma tempo. É um processo que começa nas vitrines das lojas, nas revistas entregues em domicílio, nas propagandas da televisão. Com o tempo nós sabemos bem aquilo que mais nos agrada, o melhor modelo de calça, blusa, calcinha ou tênis. Aquela fôrma é grande, o outro modelo é pequeno. Determinada marca passa ser a preferida. Assim também acontece nos relacionamentos. No mundo existem milhares de pessoas em exposição: nas ruas, nos escritórios, cinemas, bares, ônibus, danceterias. Olhamos todas, queremos algumas e acabamos ficando com uma. Depois da escolha, levamos para casa. Umas estragam com o tempo, deixam de servir: engordamos, elas encolhem. Outras nós perdemos, emprestamos, não pegamos de volta. Mas aquelas que são preciosas, que nos são caras, exigem um cuidado especial, e mesmo que o tempo (muito tempo) passe, não perdem seu valor. São básicas, nos servem sempre. Rasgam aqui, desfiam dali, mas a gente não "encosta". Não deixa de vestir, não deixa de usar. Se estraga, mandamos consertar. Se suja, mandamos lavar. E elas ficam para sempre, viram relíquia, viram lembrança, viram passado, presente, futuro. Combinam com tudo. Combinam com a gente.


Juliana Morais

sexta-feira, 9 de abril de 2010

"Um amigo espanhol"

Vivo longe de todos os meus melhores amigos. Já estou acostumada, faz parte do meu show, tenho muito talento para o cargo de amiga à distância. Mas não tenho medo de admitir que sinto falta das músicas que me ajudavam a dormir nas madrugadas insones pré-formatura. Dos almoços com suco de limão com rosa seguido de um filme aos sábados, dos abraços coletivos na hora do gol no estádio, do cafuné feito com as pontas dos dedos no ponto mais alto da testa. De fazer o ridículo e se divertir mais do que ninguém nas aulas de Badminton, das intermináveis partidas de Literati, dos torneios de Tetrinet, de fazer as palavras cruzadas a quatro mãos e dividir o Danette ao som de Pat Metheny. De passar as tardes escutando a Rádio Mix enquanto estudamos química, afogar os sonhos mortos em suco de amarelo no bandejão do Coseas e depois ver as nuvens passarem por cima da Torre do Relógio. De adotar as gírias alheias e recontar as mesmas histórias, brigar para que o Estatuto esteja 100% correto, não importa o cansaço dos envolvidos, e o Manual não tenha nenhum erro ortográfico.

Amanhã você entra nessa lista. Graças à sua partida, a média de altura do grupo de amigos distantes vai subir, é você é o primeiro sócio masculino desse clube que tem mãos pequenas o suficiente para entrar nas minhas luvas sem rasgar-las. Sempre são bem-vindos os integrantes que usam óculos, preferem o Desmond, dançam como se ninguém estivesse olhando e não perdem a compostura depois de beber, porque não precisam de ajuda para praticar a sinceridade.

Da próxima vez que eu fizer um resumo como o do primeiro parágrafo, mencionarei a saudade de ganhar sempre no quebra-cabeça e perder sempre no campo minado, ou a falta que me faz engasgar com a mistura da ventania, a paisagem alucinante e a companhia de alguém que se ofereceu para estar ali tomando vento de graça. Omitirei seu nome e te citarei apenas como “um amigo espanhol”.

Se me pedirem para detalhar um pouco mais, talvez eu lhes diga que nos demos muito bem porque compartilhamos a mesma visão de mundo, apesar de que a maneira como aplicamos essa filosofia na prática é diametralmente oposta. E que ajudou consideravelmente o fato de que desde o início só poderíamos ser amigos. E que era um momento em que me faltava ter por perto essa visão de mundo parecida. E que poderíamos ter tido o triplo do tempo, não fosse pela minha mania de começar as coisas e deixá-las pela metade, mas que isso não importa porque se eu não fosse caótica talvez não fôssemos amigos.

Pode ser que eu lhes conte sobre como ontem falávamos sobre mais uma das nossas muitas diferenças. Você não gosta de quase ninguém e eu gosto de quase todo mundo. Você desviou o olhar e fez aquela cara séria que deixa teu rosto ainda mais esguio e destaca teus óculos de armação preta e grossa. E então pairou uma pausa dramática, à qual contribuí porque preciso de tempo para entender o teu espanhol prolífico e em baixo tom. Também costumo esperar para ver se um dos cantos da tua boca vai se encolher e revelar a ironia que vive na ponta da tua língua e corta seis cabeças de quase todos os bichos.

Mas vão dizer que é amor, isso de ficar falando sobre os cantos da tua boca, a cor dos teus óculos e o teu vocabulário. E eu vou ter que dizer, mais uma vez, que não, não é amor. Mas eu não gosto de mentir, e eu sei que sim, é amor. Mas amor de amigo. O problema é que ninguém se interessa por amor de amigo, platônico, simples e natural. Esse tipo de amor não esgota a bilheteria, não entope a caixa de comentários e não sobrevive muito tempo às fofocas do almoço de domingo. Todo mundo quer emoção, intriga, histórias épicas, braços ao ar e vozes alteradas.

Mas nem tudo na vida precisa lembrar uma novela. Às vezes é bom se contentar com pouco. Quando o pouco basta, o pouco vira muito. E mais não poderia pedir.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Plágio

Leio Blogs, mas comento pouco. Agora aqui no blog, de repente, tenho muito para ler e gosto disso, mas um problema que dá, ou melhor, um medo que me dá, é ler algo e copiar sem querer. Sem querer mesmo, aquela idéia que fica na sua cabeça, vai se infiltrando até que um dia você acha que a idéia é sua.

Comigo é assim, alguém vem me contar uma novidade, e eu interrompo: - Sim, eu sei, eu que te contei isso semana passada,não foi?
Antigamente eu compunha músicas, fazia letra e música com o violão. Algumas eu tocava com amigos, outras guardava e muitas esquecia.Um dia fiz uma música linda , daquelas que se ouve uma vez e pronto, letra e canção.
Toquei vários dias, depois mostrei para alguns amigos que também tocavam. Todos disseram que realmente era boa, muito boa a canção.
Dias depois, emendo ela com uma música da Shakira, que tinha sido hit a alguns meses. Percebi que minha melhor música não era minha, era um mero plágio da Shakira.

Pensei quantas das minhas músicas seriam plágios, ou pior, versões? Ou só seria essa, por isso era mais bonita?
Por fim não fechei contrato com a EMI e não perdi milhões com processos de plágio.





quarta-feira, 7 de abril de 2010

Armas & Rosas

Guns n' Roses, 05/04/2010, Risos de Janeiro.
Realizei um sonho.




terça-feira, 6 de abril de 2010

O funeral da Bisa

Mais um dia de chuva fina e interminável em um funeral, parece que sempre chove quando algum conhecido morre, desta vez era minha bisavó, 96 anos. Não sei explicar o porquê, mas não fiquei surpreso com a notícia e nem triste, bom quanto à surpresa tem explicação, quando alguém tem 96 anos você sabe todo dia que um dia pode acordar com um telefonema lhe informando o horário do velório e funeral.

Em relação a tristeza eu não consigo ver muitas coisas positivas em se viver tanto tempo, copas do mundo? Minha bisavó nem gostava de futebol mesmo... Netos e bisnetos? São legais até o momento em que acham que suas bochechas são feitas de plástico e seus bolsos não tem fundo. Terei eu me deixado ser influenciado tanto pela leitura de “o estrangeiro” que agora estou me parecendo com seu personagem central? Talvez.

Quando cheguei ao cemitério já havia muita gente, muitos cumprimentos, reencontros de longa data, abraços longos e conversas, se minha bisavó estivesse viva certamente iria distribuir alguns cala a boca. Minha mãe contava á minha tia a receita do frango que ela havia feito na noite anterior, meu padrinho contava sobre sua ultima viagem e todas as peripécias que alguém que acabou de se separar pode fazer.

A sala já está cheia, muita gente fica do lado de fora fumando, alguns começam a recordar os melhores momentos da bisa, suas sapequiçes quando era criança, seus namorados estranhos (incluindo o meu bisavô), suas manias de velha – como trocar os nomes dos netos, dormir no pé da cama e cantar absurdamente alto enquanto se trocava – o dia que ela comprou o produto para tingir cabelo da cor errada e apareceu de cabelo azul (era natal...) -.

Rapidamente estavam todos enturmados, as crianças brincavam de esconde-e-esconde entre os túmulos, o vinho que alguém trouxera como presente de aniversário para um primo que mora longe foi aberto e muita gente já começava a falar coisas que não deveria, até que chegou a hora da cremação. Não sei por que minha bisavó quis isso, acho uma cerimônia cansativa e agonizante para os que ficam e nada honrosa ao defunto (acho que alguns têm essa pretensão), fomos todos para uma sala onde o caixão ficava no centro, como se fosse o palco e o morto o ator principal, a gente em volta e em círculo éramos a platéia e foi ali que surgia a primeira piada mórbida - se existia algum vendedor de pipocas por perto - fez relativo sucesso. Depois que todos estavam devidamente acomodados surgiu repentinamente Bach e sua Toccata em Fuga, nos primeiros acordes já uns cinco pularam, uma amiga da minha bisavó teve ataque de soluço teve que se retirar da sala, algumas pessoas não seguraram o riso enquanto outros se perguntavam qual era o próximo passo.

O caixão começou a descer, parecia que ia ser o fim da cerimônia, mas foi então que o caixão travou não se sabe se foi problema elétrico, alguma coisa relacionada à máquina, ele simplesmente não desceu, funcionários correram para tentar consertar, foi nessa hora que acabou a música de Bach, que deu lugar a Maracangalha, foi um caos... Os funcionários berravam e corriam tal qual as crianças, estas assustadas e confusas, algumas pessoas tentavam ajudar, minha avó chorava, eu e meus primos rolávamos de rir, o caixão desceu de repente e então começou uma série de barulhos, a gente não sabia se estavam quebrando o caixão ou se os funcionários estavam brigando.

Terminado o “espetáculo” parece que todos estavam mais aliviados, antes de entrar no carro alguém disse ter ficado sabendo que no próximo enterro prometeram uma música melhorzinha e mais animação, muitos após o funeral foram para casa, minha mãe mostrou o famoso frango para minha tia que anotou com entusiasmo a nova receita, mais vinho e cerveja derrubaram rapidamente os foliões que não demoraram muito a ir embora.

Foi o melhor funeral que já fui e a ultima boa lembrança que tenho de... Perae, mas quem morreu mesmo?

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Vlad Galli

domingo, 4 de abril de 2010

O dilema do homem-bala: osso ou graveto?

Foi uma aterrissagem desastrada. O excesso de pólvora ou um erro na calibragem do canhão atirou o homem-bala para muito além dos limites da cidade.

Como ninguém apareceu para resgatá-lo, ergueu-se com dignidade. Recomposto, espanou com as mãos o pó do uniforme, colocou seu capacete azul embaixo do braço e foi procurar ajuda.

Encontrou uma praia (ou foi encontrado por ela). Sentia no rosto uma solidão solar – e o único ruído audível era o barulho das ondas quebrando de mansinho. Havia um pressentimento rondando, algo que ansiava por tradução, um sussurro qualquer vindo de não sei onde.

Um vira-lata famélico apareceu no horizonte. Daquela distância ainda era impossível precisar se o que ele trazia na boca era um osso ou um simples graveto. “Se tem cão, tem gente”, raciocinou.

E ele seguiu aquela pista. Mas o cão, embora magro, era do tipo velocista – o que impediu que o homem-bala se aproximasse muito.

Por sorte (ou por aquilo que até aquele momento ainda não podia ser chamado de azar), o animalzinho tinha corrido em direção a uma cabana simples, fincada no pé de uma geométrica e caprichosa formação rochosa.

A porta só não estava aberta porque não havia nenhuma esperança de porta ali. O jeito foi bater palmas e aguardar uma resposta. Silêncio. “O dono foi pescar ou tomar banho de mar”. Sem outra alternativa, o homem-bala entrou.

O lugar estava abandonado. Não. Isso não é verdade. Tinha um cão magro (que mordia um osso ou um graveto) escondido embaixo de uma mesa. Em cima dela, um prato de espaguete, talheres de prata e uma taça de vinho tinto.

Uma tentação que o homem-bala só não superou porque sons estranhos saíam de sua barriga. “Eu pago”, repetiu para si mesmo – sem notar que estava sem a sua carteira.

Enquanto degustava aquele banquete, notou que o cão aconchegava-se entre suas pernas. Sentiu-se em casa. Ensaiou um sorriso e foi, lentamente, pegando no sono.

Dormiu. Ou achou que tinha dormido. Acordou com um leve toque no ombro. Ao virar-se, demorou para entender que criatura era aquela. Teve a sensação de que o sujeito ao seu lado era um anão – mesmo sabendo que ele deveria ter mais de 1,80m de altura. “Gostou da refeição?”, perguntou o suposto anão.

Antes que pudesse responder afirmativamente, o anfitrião disse que o espaguete tinha sido uma dica de um velho amigo. “Quando soube da sua chegada, perguntei ao seu avô sobre o seu prato predileto”, comentou.

O homem-bala tentou corrigir o anão de 1,80m. Afinal, seu avô, o primeiro homem-bala da família, havia morrido na Revolução de 1932. “Eu agradeço o espaguete, mas eu não sou a pessoa que você estava esperando”, argumentou.

Um pouco curvado para não bater a cabeça no teto da cabana, o anão (que agora parecia ter quase 2 m de altura) soltou uma gargalhada que fez a praia toda estremecer. Assustado, o homem-bala apanhou o capacete azul, que estava sobre a mesa, e, sem despedidas, fugiu em direção à praia.

Avistou dezenas de pessoas saindo do mar. Feito uma bala (típico do homem-bala), correu ao encontro dos banhistas.

Era como se o mar regurgitasse suicidas. Uma gente pálida, muda, alheia ao tempo, caminhando pela areia com uma rosa de Iemanjá na mão esquerda. O homem-bala bem que tentou, mas ninguém percebeu sua presença.

Sentou-se na beira daquele mar estranho. Seus pensamentos viajavam para uma galáxia distante quando sentiu o cão famélico se aproximar. O que o animal trazia na boca não era um osso, nem um graveto. Mas um dedo. O dedo médio do homem-bala.

sábado, 3 de abril de 2010

Eu, Adulto.

Quando é mesmo que a gente vira adulto? Fiquei me perguntando depois de ver minha mãe pedir desculpa para uma pessoa que eu havia agredido por telefone. “Olha, você tem que entender que ela agiu assim porque ficou com medo, ela é uma menina”.
Há. Eu? Uma menina? Mesmo? Mas eu tenho 27 anos! Eu não deveria ter me tornado um adulto aos 18? Talvez eu seja apenas um adulto sem noção. Ou minha mãe tem razão? Não sei.
Eu nunca entrei no rotativo do cartão de crédito, eu voto, ainda que às vezes nulo, e sei que passo mal se tomar dipirona, então tomo paracetamol. Esses fatores me tornam adulta?
Por outro lado, acho que minha mãe tem que pagar o plano de saúde e as despesas educacionais. Isso faz de mim o que? Um semi-adulto? E tenho uma blusa com estampa do Mickey, dos Sete Anões e uma do Super-Homem. É, isso não é nada adulto, mas acho que teve uma evolução nos últimos anos. Eu não uso mais gorros, por exemplo. Há dois anos eu usava ainda o meu gorro roxo no inverno, ou o listrado. Ano passado eu fui usar e me senti patética. Envelheci, por fim?

Lembro de quando eu estava com meu amigo Glauter no habbib`s e usava chinolochas, ou melhor, crocks. Senti frio nos pés e precisei colocar meias. Esse fato isolado já seria ridículo, mas pra piorar não eram qualquer meias, eram meias que vão quase até o joelho, listadas, e com um espaço para cada um dos dedos separadamente. Sabe qual? Meia de dedinhos? E consegue imaginar uma cena mais patética que essa? Glauter, meu amigo, me perdoe por isso. Hoje em dia eu iria há lugar nenhum com as minhas crocks. No máximo vou do quarto para a cozinha.Tá certo, vou a padaria, mas sair socialmente não.
E você ainda pode dizer que desenvolver o bom senso de não sair por ai de crocks ou gorro é só uma questão de bom senso, e não maturidade, mas não é só isso. Eu deixei de tomar Nescau pra tomar café preto, nem sei qual a programação da MTV, não vejo mais sentido em mascar chiclete, não faço loucuras por amor e trufa de marshmallow é doce demais. E então, eu sou um adulto? Sou?

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Os anos 80 voltaram, ou não.

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“Hapinnes how'd ya get to be happiness”, lembram-se dessa música do Goldfrapp? Faz parte do álbum Seventh Tree, mas felicidade é ouvir Head First, o novo álbum da banda. Rocket é o prenúncio das ótimas canções que virão em seguida, passando por Believer e Dreaming que tem teclados lembrando os anos 80, a excelente Head first que dá nome ao álbum, e Alive que tem um “Q” de disco music e é a mais animada.

Head First inaugura a safra de boas surpresas 2010, que até então estava pacato, e tem tudo para ser um dos melhores do ano – “I’m feeling alive again”.

Alive (Head Fist)


Happiness (Seventh Tree)

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quinta-feira, 1 de abril de 2010

o dia em que eu perdi o menino mais esperto do mundo



Fiquei bem feliz quando soube que seria lançado no Brasil a HQ "Jimmy Corrigan - o menino mais esperto do mundo", do Chris Ware com tradução do Daniel Galera. Tinha ouvido falar do estilo diferente do Ware, "tão difícil quanto Ulisses", do Joyce (que enfeita lindamente minha biblioteca...) e fiquei curioso com este livro dele. Jimmy Corrigan é um homem de meia-idade insatisfeito com o trabalho e dominado pela mãe. Até que um dia seu pai (que nunca o viu) o convida para conhecê-lo em outra cidade e a trama se desenrola a partir deste evento. Me disseram que é uma leitura pesada, realista e dolorida.

Qual não foi minha surpresa ao encontrar a HQ exposta numa bancada da Livraria Cultura de São Paulo, sempre um ponto de encontro meu. Já marquei de tudo por lá e em vários setores, dependendo da pessoa com quem ia me encontrar e do objetivo do encontro. Setor infantil pra alguns, de música pra outros, arte pra poucos outros e assim por diante. Enfim, voltemos ao Jimmy.

Fiquei apaixonado pelo livro. Denso, aparentemente triste, um tanto realista.

Comentei com várias pessoas sobre o livro e, para minha surpresa, no outro dia, recebo a notícia de que ganhei o livro. Não aceitei. Pediram meu endereço. Não dei. Ganhei.

No mesmo dia, ao comentar que tinha ganhado o livro, soube que outra pessoa também tinha comprado o livro pra mim. Fiquem sem saber o que fazer, mas como não consigo deixar minha língua quieta na boca, disse que já tinha ganhado. Perdi.

Na verdade até peguei o livro em minhas mãos, mas a decisão não era minha. O livro não era meu e foi devolvido de onde veio. Pra estante da livraria. O outro livro andou viajando pela mochila e não chegou a mim. E não vai chegar.

No fim das contas, eu, que ganhei dois livros iguais - e que saberia perfeitamente lidar com isso - perdi os dois e acabei comprando - dias depois - da forma mais solitária do mundo. Só eu, minha internet e meu cartão de crédito.

Foi assim que comprei o menino mais esperto do mundo.
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terça-feira, 30 de março de 2010

Há tempo (perdido) para tudo

Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou
Para tudo há uma ocasião certa
Mas tenho muito tempo
há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu
Temos todo o tempo do mundo
tempo de nascer e tempo de morrer

Todos os dias antes de dormir lembro e esqueço como foi o dia
tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou
Sempre em frente
Deus pôs no coração do homem o anseio pela eternidade
Não temos tempo a perder
Não há nada melhor para o homem do que ser feliz e praticar o bem

Nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo
Que proveito tem o trabalhador naquilo com que se afadiga?
E tão sério
Todos vão para o mesmo lugar; todos procedem do pó e ao pó tornarão
E selvagem. Selvagem.
todos têm o mesmo fôlego de vida
Selvagem
e nenhuma vantagem tem o homem sobre os animais; porque tudo é vaidade

Veja o sol dessa manhã tão cinza
Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo
A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos
Descobri também que debaixo do sol: no lugar da justiça havia impiedade
Então me abraça forte
Comer, beber e ser recompensado pelo seu trabalho é um presente de Deus
E diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo
tempo de procurar e tempo de desistir

Temos nosso próprio tempo
tempo de chorar e tempo de rir
Não tenho medo do escuro mas deixe as luzes acesas agora
tempo de abraçar e tempo de se conter

O que foi escondido é o que se escondeu
tempo de procurar e tempo de desistir
E o que foi prometido ninguém prometeu
nada se pode acrescentar, e nada se pode tirar
Nem foi tempo perdido
Tudo o que Deus faz permanecerá para sempre

Somos tão jovens... tão jovens.
Deus fará renovar-se o que se passou
Tão jovens
Para tudo há uma ocasião certa.

Renato Russo & autor de Eclesiastes

segunda-feira, 29 de março de 2010

Rifa-se um coração...um simples coração humano.

Rifa-se um coração Rifa-se um coração quase novo.Um coração idealista.Um coração como poucos.Um coração à moda antiga.Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.Rifa-se um coração que na realidade está um pouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.Um pouco inconseqüente que nunca desiste de acreditar nas pessoas.Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu..."...não quero dinheiro, eu quero amor sincero,é isso que eu espero...".Um idealista...Um verdadeiro sonhador...Rifa-se um coração que nunca aprende...Que não endurece, e mantém sempre viva a esperança de ser feliz, sendo simples e natural.Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar.Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras.Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros.Esse coração que erra, briga, se expõe.Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.Sai do sério e, às vezes revê suas posições arrependido de palavras e gestos.Este coração tantas vezes incompreendido.Tantas vezes provocado.Tantas vezes impulsivo.Rifa-se este desequilibrado emocional que abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.Um coração para ser alugado,ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.Um órgão abestado indicado apenas para quem quer viver intensamente contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo,defendendo-se das emoções.Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.Um coração que quando parar de bater ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas:"O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo,só errei quando coloquei sentimento.Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer" Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo.Um órgão mais fiel ao seu usuário.Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.Um coração que não seja tão inconseqüente.Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,mas que incomoda um bocado.Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda não foi adotado, provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais,por não querer perder o estilo.Oferece-se um coração vadio,sem raça, sem pedigree.Um simples coração humano... Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.Um modelo cheio de defeitos que,mesmo estando fora do mercado,faz questão de não se modernizar,mas vez por outra,constrange o corpo que o domina.Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos e a ter a petulância de se aventurar como poeta.
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. (Clarice Lispector)
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{...e quando as palavras se perdem, ou quando me sinto perdida recorro a Clarice. Algo como uma bússola,para direcionar essa falta.E não é má vontade, e sim,vontade de não errar, talvez, o cuidado com as palavras...rabisquei uns cinco post,tentando antecipar o dia, e acabei deletando todos. Pois notei que comigo não funciona assim. Não consigo programar, gosto de fazê-los no dia, ou poucas horas antes. É arriscado,às vezes dá certo e às vezes não, a mercê de emoções e sentimentos.E abdicar deste dia, seria jogar fora algo muito especial, e isso eu não faço. Então hoje eu vou de Clarice Lispector. O que pra mim não é pouco. Então, deguste à vontade...e adeus}

domingo, 28 de março de 2010

Vá ao Cinema

Sinto falta do barulho no cinema. Pronto, falei! E que todos saibam que cinema é experiência coletiva para ser compartilhada com a pessoa ao lado. E isso inclui risadas espontâneas, cochichos e comentários, disputas pelo encosto de braço e chutes na cadeira da frente.

E que, ao contrário do que o Cinemark diz, você pode, sim, deixar pipoca cair no chão. E se um celular ou outro tocar uma vez, ou outra, tudo bem, faz parte. Pra gente lembrar, desligar, e perceber que estamos diante de um portal pra um mundo paralelo bem nosso, uma experiência cinematográfica explorada em som e imagem para que você se desligue do planeta azul e preste atenção do que está ali, na tela. Verdade ou não, esse é seu mundo por 90 ou mais minutos, caso você esteja assistindo algum filme do Peter Jackson.

Quem quer silêncio daqueles absolutos de se ouvir a respiração que espere e alugue ou DVD ou vá ao The Pirate Bay.org e resolva sua vida. Sou fã de cinema, sou fã de filmes e fã DO cinema. Da sala, dos bancos, das cabeças mais altas que sentam à minha frente e me impedem de ver algumas cenas. E filme foi feito pra ver assim, aos montes, em grupos, em bandos.

Cinema é arte. Seja a sétima ou que número for, deve ser apreciada como tal. Seu veículo principal não é a cópia pessoal, o DVD, o *.mpg, mas a telinha, ver se os outros estão rindo. Ouvir alguém soluçar de choro, do outro lado da sala. Os bancos balançando de casais se pegando no fundo, lá no escurinho.

Não há registro de arte tão cara e elitista. Mesmo independente, fazer filme custa muito dinheiro. Não há sentido em fazer isso para poucos. Fazer um filme cabeça para dois ou três seria criar uma cultura que valoriza as bundas dos assentos mais caros do pedaço. Vamos popularizar o cinema. Menos glamour e mais arte. Menos papo-cabeça e mais bundinhas nos assentos, por favor. Vamos qualificar nossas poupanças. Em vez de dar pão e circo, sugiro pipocas!

Aqui, o que vale mesmo é inovar, ir além, conhecer as regras do jogo e mudá-las. Brincar com o visual. Sentir o 5.1 Dolby Surround estourar os seus tímpanos. Assistir a David Lynch e não dormir. Ver Woody Allen e não bocejar. Spielberg e sua máquina de sonhos, Spike Lee e seu engajamento ever-present, a competência de Clint Eastwood e a medriocridade de Ron Howard. Isso é cinema. Isso é gostar de cinema. Veja filmes. Vá ao cinema.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Noite ordinária

O quente dos corpos recém desentrelaçados ainda se pronunciava no ar. Apenas no ar, porque nas veias dele o líquido gelado. Esfriara quase na hora quando ela, mais uma vez, interrompeu-lhe o vigoroso impulso masculino. Ele mal entendera, na verdade mal ouvira suas explicações infantis, femininas. Explicativas. Ele entendia era a linguagem do corpo. Reconheceria melhor uma mulher tocando-lhe o interior, de olhos fechados, ou sentindo-lhe o cheiro das axilas, do que lhe observando uma foto três por quatro.

“É a última vez. A última”, prometeu a si mesmo. Virou-se de costas para ela e fingiu adormecer. Enquanto repetia a promessa em silêncio, como num mantra, mantinha impaciente um ouvido atento à respiração dela – que não tardou a se tornar pesada. Dormia, tranqüila. Certa de que na manhã seguinte teria novamente a graça de sua paciência.

- Desta vez, não. Ah, não – pensou, quase alto.

Levantou-se bem devagar, como se equilibrasse uma bandeja cheia de taças. Levou minutos. Ainda assim, despertou-a. Inventou uma desculpa qualquer sobre ir ao banheiro. Nem precisou explicar o que faria com um cobertor e um travesseiro em tão desconfortável aposento, pois ela logo voltava ao sono dos justos. Buscou na sala o notebook e, envolto no cobertor, começou a dedilhar a confissão sobre a noite de fome.

Feeling good


Como um beijo doce e delicado, você entrou lentamente cheirosa pelo salão.

Não aceitaria bebida, não dançaria uma única música, não deixaria que tocassem em suas delicadas mãos enluvadas.

As ondas do seu cabelo demonstravam a destreza dos dedos e revelava a fragilidade de uma mulher vaidosa.

(A vaidade sempre entrega as mulheres. E eu sabia disso.)

Você atravessou o bar segurando a bolsa cor de prata que chamava atenção pelo intenso brilho e isso revelava a sua necessidade de atenção.

(Brilho demais sempre entrega as mulheres. Mas disso todos sabem.)

Talvez não aceitasse um drink de qualquer panaca que estivesse babando na barra de seu vestido vermelho, grudado com a língua no chão, lambendo o teu sapato.

Mas eu não sou esse tipo de panaca.

Sou do tipo que todas acreditam ser a pior espécie de marido.

E esse tipo conheço bem.

Atrai mulheres e as deixa apaixonadas com um só beijo.

Naquela noite eu te beijei achando ser o maior sacana do mundo.

Naquela noite meu coração foi sacaneado.

terça-feira, 23 de março de 2010

Desafio

Estou lendo o Pergaminho número um, do livro "O maior vendedor do mundo", do Og Mandino, e quero compartilhá-lo.
Convido à leitura, todos os dias, conforme é pedido: de manhã e após o almoço em silêncio, à noite, em voz alta.
Você nem precisa passar para 10 pessoas. Quem não quiser ler não vai ficar sem beijar por um ano, nem vai morrer num trágico acidente, nem vai acordar numa banheira com gelo e sem um rim.
Fico no aguardo dos comentários de quem decidir ler. Eu acredito em mágica, e você?

"Hoje começo uma nova vida. Hoje mudo minha pele velha que sofreu, por muito tempo, as machucaduras do fracasso e os ferimentos da mediocridade. Hoje renasço e meu berço é uma vinha onde há frutas para todos. Hoje colherei uvas de sabedoria da mais cheia e produtiva videira da vinha, pois elas foram plantadas pelos mais sábios de minha profissão que me antecederam, geração após geração. Hoje provarei o sabor das uvas destas videiras e, em verdade, engolirei a semente do êxito incrustada em cada uva para que uma nova vida possa germinar dentro de mim. A carreira que escolhi é plena de oportunidades, embora repleta de desgostos e desapontamentos e, se os corpos daqueles que fracassaram fossem empilhados um em cima do outro, lançariam sua sombra sobre todas as pirâmides da Terra. Contudo, eu não fracassarei como os outros, pois em minhas mãos tenho agora o roteiro que me guiará por águas perigosas às praias que, ontem mesmo, pareceriam apenas um sonho. O fracasso não será mais pagamento pelo meu esforço. Assim como a Natureza não preparou meu corpo para tolerar a dor, também não determinou que minha vida sofra o fracasso. O fracasso, como a dor, é elemento estranho a minha vida. No passado eu o aceitei, como aceitei a dor. Agora eu rejeito a ambos e estou preparado para a sabedoria e os princípios que me guiarão das sombras para a luz da riqueza, posição e felicidade, bem além dos meus sonhos mais extravagantes, quando até mesmo as maçãs douradas do Jardim das Hespérides me parecerão justa recompensa. O tempo ensina tudo para quem vive eternamente, mas não tenho o luxo da eternidade. Contudo, dentro do tempo que me foi concedido, devo praticar a paciência, pois a Natureza jamais age apressadamente. Para criar a oliveira, rainha de todas as árvores, cem anos são necessários. Em nove semanas a cebola já está velha. Eu tenho vivido como uma cebola. Isto não me agrada. Agora, desejo tornar-me a maior das oliveiras e, em verdade, o maior dos vendedores. E como se realizará isto? Pois não tenho nem o conhecimento nem a experiência para alcançar grandeza e já tropeço na ignorância e caio nas águas da lamúria. A resposta é simples. Começarei minha jornada desembaraçado do peso de conhecimentos desnecessários e de obstáculos da experiência sobre trabalhos sem resultados. A Natureza sempre me forneceu conhecimento e instinto maior do que a qualquer animal da floresta, superior até mesmo ao valor da experiência em geral superestimado por velhos que parecem sábios, mas falam tolices, Em verdade, a experiência ensina a fundo, porém seu curso de instrução devora os anos dos homens e dessa maneira o valor das lições diminui com o tempo necessário para adquirir-se sua sabedoria especial. Seu objetivo desperdiça-se com a morte dos homens. Ademais, a experiência é comparável à moda; uma ação que resulta em êxito hoje poderá ser inaproveitável e impraticável amanhã. Apenas princípios permanecem e estes eu agora tenho em meu poder, pois as leis que me levarão à grandeza estão contidas nas palavras dos pergaminhos. O que eles ensinarão será mais evitar o fracasso do que obter êxito, pois o que é o êxito senão um estado de espírito? Dois, entre mil sábios, se tanto, definirão o êxito nas mesmas palavras,enquanto o fracasso é sempre descrito de apenas um modo. O fracasso é a incapacidade do homem em atingir seus objetivos na vida, sejam eles quais forem. Na verdade, a única diferença entre aqueles que falharam e aqueles que tiveram sucesso está na diferença de seus hábitos. Bons hábitos são a chave do sucesso. Maus hábitos são a porta aberta para o fracasso. Assim, a primeira lei que obedecerei é: formarei bons hábitos e me tornarei escravo deles. Quando criança, fui escravo de meus impulsos; agora sou escravo de meus hábitos, como todos os adultos. Abri mão de minha vontade própria, cedendo aos anos de hábitos acumulados e os últimos feitos de minha vida já parecem estar marcados por um destino que ameaça aprisionar meu futuro. Minhas ações são ditadas pelo apetite, paixão, preconceito, avidez, amor, medo, ambiente, hábito, e o pior de todos estes tiranos é o hábito. Se, portanto, devo ser escravo do hábito, que seja um escravo de bons hábitos. Meus maus hábitos devem ser destruídos e novos sulcos preparados para boas sementes. Eu formarei bons hábitos e me tornarei escravo deles. E como realizarei esse difícil feito? Através destes pergaminhos, pois cada um deles contém um princípio que expulsará o mau hábito de minha vida e nela recolocará outro que me conduzirá para mais perto do sucesso. Pois é outra das leis naturais que apenas um hábito pode dominar outro hábito. Assim, para que estas palavras escritas realizem a tarefa escolhida, devo disciplinar-me ao seguinte, que é o primeiro de meus hábitos: Eu lerei cada pergaminho por trinta dias seguidos, da maneira recomendada, antes de passar ao pergaminho seguinte. Primeiro, lerei as palavras em silêncio, ao acordar. Depois, lerei em silêncio, após almoçar. Finalmente, lerei de novo, antes de retirarme para o leito e, mais importante, nesta ocasião lerei em voz alta. No dia seguinte, repetirei o processo e continuarei dessa maneira por trinta dias. Tomarei, então, o pergaminho seguinte e repetirei esse processo por outros trinta dias. Continuarei assim até viver com cada pergaminho por trinta dias, e minha leitura se torne um hábito. E o que será conquistado com esse hábito? Aqui está o segredo oculto das conquistas humanas. Com a repetição das palavras diariamente, elas logo se tornarão parte de minha mente ativa, porém, mais importante, também se infiltrarão em minha outra mente, essa misteriosa fonte que nunca dorme, que cria meus sonhos e freqüentemente me faz agir de maneiras que mal percebo. Assim que as palavras destes pergaminhos forem assimiladas pela minha mente misteriosa, eu começarei a despertar, cada manhã, com uma vitalidade que jamais conheci antes. Meu vigor aumentará, meu entusiasmo se levantará, meu desejo de encontrar o mundo ultrapassará qualquer medo que um dia conheci ao nascer do sol e serei mais feliz do que jamais acreditei ser possível neste mundo de luta e tristeza. Finalmente, encontrar-me-ei reagindo em todas as situações que confrontar, como foi recomendado nos pergaminhos, e, logo, essas ações e reações se tornarão fáceis de executar, pois cada ato, com a prática, torna-se fácil. Assim, nasce um novo e bom hábito, pois, quando um hábito se torna fácil, através de constante repetição, é um prazer executá-lo e, se é um prazer executá-lo, é da natureza do homem executá-lo freqüentemente. Quando eu o executo freqüentemente, ele se torna um hábito e eu me torno seu escravo; e desde que seja um bom hábito é a minha vontade. Hoje começo uma nova vida. E juro solenemente a mim mesmo que nada retardará o crescimento de minha nova vida. Não perderei um dia sequer destas leituras, pois este dia não pode ser recuperado nem posso substitui-lo por outro. Não devo, não quero quebrar o hábito de ler diariamente estes pergaminhos e, em verdade, os poucos momentos passados cada dia com este hábito são apenas um pequeno preço a pagar pela felicidade e êxito que serão meus. Ao ler e reler as palavras dos pergaminhos, nunca permitirei que a brevidade ou a simplicidade de suas palavras me faça encarar a mensagem como se fosse superficial. Milhares de uvas são amassadas para encher uma jarra de vinho, e a casca da uva e sua polpa ainda são bicadas pelos pássaros. Assim é com estas uvas de sabedoria das gerações. Muito tem sido filtrado e abalado pelo vento. Apenas a verdade pura permanece destilada nas palavras, para ser lembrada. Beberei segundo as instruções e não perderei uma só gota. E absorverei a semente do êxito. Hoje minha pele velha se assemelha a poeira. Andarei a prumo entre os homens e eles não me reconhecerão, pois hoje sou um novo homem, com uma vida nova."

segunda-feira, 22 de março de 2010

versos bobos de uma menina com os olhos vermelhos.

esse é um post dedicado a todos que um dia acordaram, mas não conseguiram abrir os olhos: estavam com conjuntivite.

que seus olhos não fiquem inchados,
que sua cabeça não doa.
que em breve você fique normal,
caso sua conjuntivite não seja viral.

que a ardência logo passe,
que sua vista desembace.
que você receba uma boa mensagem:
você não precisa fazer raspagem!

que os dias de repouso sejam alegres,
e que as noites sejam breves.
que o oftalmologista seja um bom profissional,
e que em duas semanas você fique legal.

"nem que eu tivesse fumado toda maconha do mundo eu estaria com o olho tão vermelho assim."

domingo, 21 de março de 2010

Entre quatro paredes


O marido chama a mulher para o aposento:

- Vamu logo qui hoji é dia da gente "nhanhá", minha gordinha tesuda!

- Ihihihih! Pshhh... Ó, as criança podi iscuitá!

- Cala boca e vem logo aqui sua assanhada!

Depois de uns cinco minutos trancados no quarto, os murmuros e risinhos contidos davam lugar aos sons de gritos e gemidos de prazer. O escândalo era tão grande que os dois filhos do casal comentavam entre si com o caçula tapando os ouvidos:

- O pai e a mãe tão briganu di novo?

- Não, tão juntando suas carnes numa coisa só!

- Quê qui cê falô, Sara?

- Cê é muito novo pra sabê desses troço dos adulto, Juãozinhu! Vamu drumi.

Mas Joãozinho não conseguia pregar o olho antes dos pais terminarem com a algazarra semanal. A paz na casa só reinava depois que ele escutava a porta do banheiro bater e o chuveiro ser aberto: “- Mania de tomar banho tarde da noite, credu!” Não sabia quem ia primeiro, se o pai ou a mãe, mas ele sempre ouvia um tomar banho seguido do outro.

Dia seguinte a matriarca notou que o menino estava amuado. Bem aquietado no seu canto, no que ela lhe perguntou:

- Quéquifoi, mulequi? Por que é que cê tá com essa cara di bosta? Nem tomou sua mamadeira!

- Mainha, xô lhi perguntá uma coisa que tá isquentanu minha caixola?

- Pois pergunte qui eu detesto vê criança cum cara feia!

- O quiéqui ocê e painho fizeram ontem de noite trancados lá no quarto? É verdade que ocêis juntam suas carnes numa só?

- Valei-me, meu Jesus Cristo, qui eu tô crianu um disajustadu ni minha pópria casa!

Antes de saírem apressados, a mulher indignada esfregou a boca do menino com sabão de coco, não sem antes puxar-lhe pelas orelhas. Feito o serviço de limpeza corporal, Berenice levou Joãozinho para o padre de sua igreja lavar-lhe a alma. Ele só podia estar com o capeta. Só podia ser!


sábado, 20 de março de 2010

Ensaio para a velhice

Estou vendo o tempo passar e não sei o que isso quer dizer.

Vejo o contraste da virilidade presente em meu pai nos retratos antigos com os cabelos grisalhos da realidade que se põe a minha frente.

Quando pequeno, prometi para mim mesmo que, mesmo na inevitável ruptura com a idade tenra, conservaria em mim a vitalidade pura e sincera das crianças, unida a insaciável sede de viver pelas coisas boas e simples, sempre.

Hoje, aos 30, me afundei na ilusão de que estava perdendo o controle da situação. “A Crise” veio diante do espelho, que me insultava com sua franqueza ao expor que nada é eterno.

Essência? sabedoria? experiência? O que nos faz maduros? Os anos que se passam? A seriedade para o ato de trabalhar/viver/trabalhar? Esquecer a vida, esquecer o passado.

Não pai, não é por esse caminho que vou. Não quero chegar ao fim da vida com tristeza nos olhos, mas também não quero decepcionar aqueles que depositam em mim a esperança de que um dia crescerei.

Fiz minha escolha, num pacote completo com todos os erros e acertos, toda a dor e prazer, toda facilidade e dificuldade. Nem pior nem melhor, apenas um caminho.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Dezenove

Um dos meus pontos fracos na escola sempre foi Redação. Não chegava a tirar notas baixas, mas raramente passava de 8,0 (o que, para uma pequena CDF, era motivo de grande tristeza). Por outro lado, sempre recebia elogios de parentes e amigos pelas loucuras que escrevia no falecido blog e era até famosa pelos quadrinhos de fundo de caderno.

É bobagem, eu sei, mas até hoje quando percebo que um texto meu agrada, ou recebo convites lisonjeiros como esse para postar em blogs coletivos, lembro dos professores e corretores que tanto me desencorajaram.

Nada não. Eles não eram o meu público.









(...espero que vocês sejam...)

quinta-feira, 18 de março de 2010

Quem é o senhor do Bonfim?

Wikipedicamente falando, Jesus Cristo venerado em sua morte.
Padroeiro do coração dos baianos, e também, cidade baiana.
Pouco importa, cuidando de mim.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Para Alice, com carinho

Tentei tirar a cara de homenagem clichê, embora desconheça alguma que não seja, ainda mais no dia do aniversário do homenageado. Tentei não imprimir certo ar de nostalgia, apesar de o tempo ter passado. Tentei colocar aqui um pouco mais de você, que também é um pouco de mim...

Uma vez, tivemos a ideia de nos ocupar de apenas cinco linhas para contar das nossas vidas distantes, divididas apenas por alguns minutos de conversas instantâneas. Nada melhor para combinar com isso que a objetividade de linhas concisas, abordando apenas os temas principais: “fico com ele de vez em quando, mas sei lá”, “estou gorda, voltei para a academia”. Mas a complexidade do cotidiano foi aumentando e, da mesma forma, surgiu a necessidade de ampliar a estratégia para cinco tópicos, nos quais cada um por si só valiam cinco linhas.
Serei um tanto clichê se disser que precisarei não de cinco linhas, mas de cinco mil toques para expressar tudo o que você significa pra mim? Não o farei, até porque essa melação não combina contigo. Às vezes rola uns ataques e você solta o “eu te amo”, mas, na sua essência, você é aquela mesmo que larga um “ordinária, vai ficar nessa palhaçada até quando?”
É difícil explicar para os outros, de antemão, quem é você. Tento ‘desbocada’, ‘engraçada’, ‘hilária’, mas acabo sempre no ‘espera, você vai ver’. Aí, quando você começa a contar a história do movimento punk ou de pegar ônibus carregada de tupperware, meu interlocutor deve concluir que a falta de definição é perfeitamente plausível. É difícil explicar alguém que te faz rir até doer a barriga, debocha na sua cara até o último segundo, mas aí, quando lembra que você viveu um episódio de depressão, arrepende-se até o último fio de cabelo em questões de segundos.
Ou alguém que jamais irá esquecer que você a deixou caída passando mal e continuou a dormir, fazendo questão que o fato pese na sua consciência até o Apocalipse. Alguém que carrega, como eu, um inconformismo gritante, tão indefinível que foi denominado, em comum acordo, de ‘a coisa que cutuca’. Alguém que quer, como eu, um mundo de pessoas e lugares.
Um dia alguém te definiu como eu queria ter feito. Disse que você era uma estrela. Não lembro as justificativas. Se pelo fato de você brilhar, sempre. Ou pelo fato de você conseguir estar sempre presente, distante, mas presente. Talvez, concluo eu, estrela signifique que, de uma forma ou de outra, você sempre acaba nos guiando.

Eu te amo, Lis. Ordinária.

terça-feira, 16 de março de 2010

mito

"Entre a verdade e o mito, fique com o mito".

 Acreditar no mito é embelezar a vida. É a cor, movimento, dança, é o molho barbecue no McNuggets. A realidade pálida nos obriga a mitificar, a sonhar e acreditar nessa realidade que não existe.


Gosto do mito da nossa possível convivência sem degradação do meio ambiente. Do mito da seleção de 82. Daquilo grosso, possivelmente fora de linha, que preenche bem a sua garagem. Que o Google é o grande Big Brother. Que o governo estadunense intercepta tudo que é relacionado a bomb in a big apple.


Que o cinema brasileiro agora vai. Que o Simonal foi dedo duro. De que Cobain foi assassinado. De que morena de olhos verdes do cursinho pagava pau pra mim.

segunda-feira, 15 de março de 2010

aprendizagem

.


o livro
me ensina
espera:

palavra
na página
muda

na mão
que alimenta
o olho...


lento leitor
não deduz

que ensina
ao livro
alívio

quando dá
suas letras
à luz.


.

domingo, 14 de março de 2010

Hábito

Ele saiu do banheiro, entrou no quarto e encontrou-a deitada no lado esquerdo da cama, já completamente levada pelos sonhos que sonhava dentro da cabeça que estava apoiada no travesseiro. Mas não foi o fato de já estar dormindo que o espantou - havia mesmo demorado no banheiro, entretido com uma reportagem na revista - e sim o fato de ela estar no lado esquerdo da cama.

Dezessete anos. A vida é curta demais para as coisas que deixamos de fazer, longa demais pra aguentar a rotina diária. Dezessete anos não foram nada para o rapaz que não vê a hora de poder dirigir, terminar a escola, comprar cigarro, frequentar um lupanar, ser dispensado do serviço militar. Dezessete anos num mesmo emprego podem ser uma eternidade entediante. Em dezessete anos de casamento, não há nada que não se saiba um do outro - quanto tempo leva pra tomar banho, qual a hora preferida do dia para usar o banheiro, a localização exata de cada mancha na pele, doenças, alergias, vergonhas da infância, a cara que faz quando se preocupa à toa com os filhos, a quantidade exata de sal necessária na pipoca e o lado da cama que dorme.

Alguém já disse (muita gente já deve ter dito, provavelmente) que as pessoas não mudam de hábitos com a mesma facilidade que mudam a cor do cabelo. Por que ela mudou de lado na cama depois de dezessete anos de casamento? Não que os dois tenham jamais combinado qualquer coisa a esse respeito, mas sempre foi assim. E ninguém enjoa de uma coisa depois de dezessete anos, enjoa depois de dezessete dias, dezessete semanas, talvez. Ele não pensou em acordá-la só para perguntar o motivo. Talvez ela estivesse com dor no braço direito. Mas se estivesse, por que não disse? Perguntaria o motivo pela manhã e o problema estava resolvido. Pronto, agora era só dormir e esperar o café da manhã. Alguém já disse que as pessoas não mudam de hábitos com a mesma facilidade que mudam sua opinião sobre o seu filme favorito de todos os tempos.

Meu deus, eu já achei que Tubarão era o melhor filme do mundo! Fui ver Blade Runner quatro vezes no cinema! Agora não sei se prefiro O Poderoso Chefão ou A Lista de Schindler. Acho que tô ficando velho, só gosto de filme de velho. E como é que ela pode achar que Beleza Americana é um ótimo filme?
Tudo isso ele pensava por que não conseguia dormir do lado direito da cama - se virava pro lado direito, não conseguia achar um jeito confortável de deixar o braço direito, se virava pro lado esquerdo, não conseguia respirar direito por causa do cabelo dela muito perto do seu rosto. Levantou e foi fazer um chá.

Ele gostava mais de chá preto, mas a cafeína não ia ajudar em nada a essa hora da madrugada. Fez chá de camomila, que era o preferido dela. Ficou pensando se não havia alguma outra coisa que ela tinha mudado e ele não tinha percebido. Será que essa mudança era um sinal de que ela estava mudando ou queria mudar? Talvez fosse o primeiro sinal de muitos. E em alguns meses, ela o acusaria de ser sempre o mesmo, de nunca fazer nada diferente, de ser o tédio, o velho representando a tradição estúpida, um reacionário. Ele a acusaria de ter outro, de ter vários, de ser promíscua, inconstante, imatura, querendo ser jovem e inconsequente depois de velha. Seria um fim triste para um casamento que se não foi belo, foi pelo menos normal. O chá já tinha esfriado mais que o pé dele. Despejou o chá na pia e decidiu esquentar o pé no lado direito da cama, pois já passava das duas horas.

No quarto, ela tinha voltado para o lado direito.

sábado, 13 de março de 2010

Dia 13 postei aqui

No blog das 30 pessoas:


[A gafe já foi cometida, como é 13 e o espaço é meu, fica. Outra razão são os comentários, como apagá-los? Fica tudo. E justifico: queimando com uma febre de 40 graus, como se o inferno estivesse dentro de mim. Três injeções depois e, só agora, à noitinha, vejo o fora. O fora fica. Tudo é a vida, com seus tantos erros e acertos. Beijos a todos.] 

Do amor ou Para os que nunca dizem eu te amo

Sei que o amor exige palavras fáceis, para soar sincero, como velhos boleros, guarânias, calipsos e baladas. Não sou desses. Não rimo flor com amor, coração com paixão, nem me empenho demais, também, em rimas ricas. Escrevo o amor com a palavra sargaço, intuindo um azul que pode ser mar e céu e viração de seu olhar. Digo, apolíneo, como quem alinha o sol tendo à vista a extensão da sombra. Contorno o amor sem brusquidão, roço-o, não toco, sem desespero. Meu amor não "desfalece", ele tomba, precipitado na palavra abissal. Porque o meu amor exige sempre o melhor de mim, que a minha língua adivinhe o melaço, bagaço de cana, mel e melissa. Que a palavra escrita exprima exímia, sua delícia. Falar de amor sem paixão? Sem a ilusão da eternidade? Amor sem coronárias, pontes de safenas que não vão dar na aorta?

Mais que palavra, o meu amor é carne, e amo mais o gosto deste encontro de corpos, do não-silêncio dos lábios em busca, as artimanhas das mãos mudas, o braille cheio de manha em curvas, a virtuose dos instrumentos que dedilham finos mamilos salientes. Meu amor é todo dança, música e alguma luta desesperada. É brega, franco-atirador de setas, coração partido, bobo de paixão, coitado; e mundo-cão.

E eu queria tanto trocar o “sabe" que eu te amo pelo “eu te amo” sem sabedoria, na mesma entrega desses náufragos que só vêem pela frente o mar.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Um Filme Sem Sexo

Eu já postei este filme uma vez, aqui. Ele foi roubado daqui. E daí que anteanteontem, segunda-feira, dia oito de março, eu achei ele de novo, aqui mesmo. Eu, que sempre achei esse negócio de dia internacional da mulher uma bobagem. Nem por feminismo, nem por machismo. Mas uma grande bobagem. Tem que ter dia pra tudo? Não pode ser todo dia? Sempre? Ou dia nenhum, nunca, sei lá.

Mais uma vez não resisti. É bem como disse a Cris Guerra, não é demais repetir:

Feliz Dia Internacional da Pessoa (atrasado).

terça-feira, 9 de março de 2010

Amor de radiador

Descobri hoje que a cor da pele e o roxo produzem um degradê fascinante nos nós dos meus dedos da mão. Basta que eu esqueça as luvas em casa.

Não, não foi assim que começou a história. Eu as deixei em casa propositalmente. Trata-se do par "oficial" de luvas de lã cinza, de mangas compridas que chegavam até o cotovelo e furos para que os dedos ficassem unidos*. Comprei-as ano passado e resolviam minha obsessão tola por blusas e jaquetas que não alcançavam meus pulsos.

Mas hoje decidi deixá-las em casa, e apenas cogitei levar o par de luvas do camelô**, mais fáceis de manusear.

Fui confiante na minha posição de veterana. Levava o segundo inverno na flauta, em comparação com o primeiro. Há poucos dias me dei conta de que já era março, estava na rua sem gorro e sem luvas e não tiritava.

Ignorei que isso havia sido há poucos dias, quando os graus Celsius estavam por aqui em dúzia, e hoje metade deles havia sido levado pelo vento para longe da Calle Barcelona, onde fui para tirar fotos da intervenção feminista da rua dos imigrantes. O segundo destino só se podia alcançar a pé. E só lá parei para ver as minhas mão. Os dedos, Roxo 5 graus. Contraste com o esmalte Vermelho 40 graus.

Claro que, como veterana, também havia abolido o combinando calça-dupla. Nada como meia hora no ponto de ônibus para que os joelhos comecem a dançar por conta própria.

O corpo agüentou como pôde. Cheguei em casa faminta e só mesmo o radiador para derreter o gelo do lado de fora. Pensei em várias metáforas para explicar o gelo do lado de dentro e criar um post digno desse blog. Mas do lado de dentro a temperatura está confortável, o clima está ameno, a vida vai bem.



*Aprendi no Canadá que o calor do próprio corpo é mais eficaz que o de membros envoltos só em lã, e por isso as luvas que deixam os dedos juntos esquentam mais.
**Aprendi no Canadá que lá elas são inúteis.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Meu primeiro celular

Semana passada comprei meu primeiro celular. Na verdade foi o terceiro, porque o primeiro meu pai me deu quando eu tinha uns 18 anos. E eu chorei.
Eu odiava celular. Eu odeio celular. Ganhar um aparelho era uma ofensa, então devolvi, recusei, sem apertar um botão sequer.
O segundo foi quando casei, não tinha telefone fixo e meu pai me deu pra usar como se fosse telefone de casa. Era um tijolão usado, que a bateria não durava nada. Novamente devolvi, recusei, sem apertar um botão sequer.
Agora eu comprei um, o primeiro de verdade. Vou passar mais de hora por dia em ônibus, ruas, sozinha, e realmente vou precisar.

Sinto falta dos cartões, das fichas, local e ddd, em longas carreiras de papel.De ligações para o pai buscar, de ficar ouvindo o papo alheio na fila, dos trotes a cobras para a Bahia.
Odeio celular, vejo mais pessoas nas ruas com celular do quê com cigarros.
Um dia fui comer no Mcdonalds (o que pra mim é um passeio capitalista e gostoso) e um cara solitário teve uma longa e alta conversa no celular enquanto comia. Achei uma puta falta de respeito com seu bigmac.

Não adianta, pra mim a pessoa está falando sozinha, rindo sozinha, brigando sozinha, gritando no meio da rua sozinha. E se não tiver falando com ninguém? E se estiver mesmo falando sozinha? Se for uma louca?
Uma vez um cara chapado, bêbado talvez, andava numa rua perto da minha casa, tinha uma conversa bem gesticulada na calçada, ele conversava com um 2, um 2 pixado no muro perto da firma.
Celular pra mim é um 2, um 2 pixado no muro.

domingo, 7 de março de 2010

dois corpos esticados na calçada da grande avenida.

a declaração de amor entre
os passos, as conversas, as risadas abafadas
se perdia dentro deles. era eles.

dois corpos esticados na calçada da grande avenida.

essa é a minha primeira lembrança viva de amor
além de mim.

sábado, 6 de março de 2010

Neblinas, Sombras e Vermouth

Ao som de ">


O poeta está mudo, perdeu o lápis,
Sem saber o que fazer decide por não ter decisão alguma
E passeia pelas ruas.
Não há ninguém nas ruas,
Somente sombras e neblinas.
A sensação de o próprio passo parecer ser o de uma multidão,
Não parecia estar tão frio antes.
Uma sombra ele reconhece,
Que nunca abandonou nem se fez abandonar,
Uma garrafa de Vermute.
A paixão não veio pelo gosto,
Pelo nome, Vermute,
Ainda mais se escrito com a grafia, Vermouth,
Nada mais agradável poderia sair daquela neblina ,
Da garrafa não saí nenhuma bebida,
Tem música,
e entorpece.
O poeta volta para casa,
Chegou não sabe como, chamou de acaso.
O poeta pensou ter achado
Mas era só sombra
E neblina


Vlado Galli

quinta-feira, 4 de março de 2010

É bom pra pele. Paga mal, mas pega bem

Eu tinha duas alternativas: me mandar ou fingir que não me importava. Só que a logística de ir embora trazia implicações práticas que estavam fora do meu alcance (largar o trabalho, mudar de casa...). Optei por fazer o simples.

Mas quem disse que seria simples? Quem disse que seria simples não escolher os números do seu celular gravados na memória do meu? Quem disse que seria simples escrever alguma coisa que não fosse um aviãozinho de papel atirado contra o seu coração? Sua cabeça, minha pista de pouso no ar.

Sim, não é tão palpável como trocar de endereço ou tentar a sorte como garçom em um pub londrino, mas mudar o que se sente de lugar também deixa suas tatuagens na casca dura - âncora enferrujada fincada em nuvens de faz de conta.

Quem disse que seria simples? Ao contrário, é como transportar cristais na corcova de um camelo embriagado. Alguma coisa sempre acaba quebrando. E depois de quebrado, não tem saliva, farinha ou Super Bonder que restaure o quadro todo.

Quem sabe, descalça e distraída, você ainda não corta o pé num desses cacos de tristeza que espalho pelo chão? Seu sangue azul pintaria avisos de contramão pela avenida. “Acidentes acontecem”, você dizia (ou imaginava?).

Quem disse que seria simples fingir cegueira diante de tubos de pasta de dente, cremes, xampus, lingeries, óculos escuros e páginas grifadas de um romance inacabado. Aliás, fui a única coisa que você começou e terminou, literalmente.

No meu lugar, você faria o quê? Fogueira com as tranqueiras românticas que empilhei na sua escrivaninha? Queimaria uma floresta inteira com meus poemas chulos e escreveria com fumaça preta um pedido de socorro? E quem te salvaria?

Os heróis estão de férias.

Quem disse que seria simples seguir em frente? Sou um coelho de quermesse trincando de desejo - e entrando na casa errada mais uma vez. A gente poderia simplesmente ficar parado, não podia?

E olha que eu sempre tive duas alternativas: me mandar ou fingir que não me importava.

Só que me mandar tinha lá os seus prazeres. A ilusão de começar de novo em outra praia, com outra identidade e um novo corte de cabelo. É... A ideia era boa, mas optei por fazer o simples. Ficar.

(Fake no Twitter; fake no Orkut; fake no Facebook; fake na frente do espelho do banheiro; fake no fake que carrego comigo nos dias úteis e feriados prolongados. Lembre-se de nunca mais acreditar em mim, tá?)

Quem disse que seria simples? Foi preciso inventar atividades lúdicas para não pensar na sua cara de desconforto ao me ver atravessar a rua. Talvez me quisesse atropelado, talvez me quisesse do outro lado do mundo. Me queria chinês, Inês?

Agora, quem disse que seria simples? Quem foi o filho do cão que, na boa intenção de consolar um amigo, emplacou essa cascata? Não, nunca seria simples.

Não com você. Não pra mim.

Quem disse que seria simples? Uma matemática para iniciantes, divisão de números pares, dois pra cada lado e pronto. Vou multiplicando sua conta, caderneta cheia de pendências. Saldos, dívidas e empréstimos. A única coisa simples é calcular quem saiu perdendo. Noves fora, sempre eu.

Portanto, não facilite as coisas pra mim. Não queria jogar o bote salva-vidas depois que a água já baixou. Não me ofereça nada que eu deseje muito, mantenha-me fora do seu esquadro - como num velho bolero, “risque meu nome do seu caderno”. Quem disse que seria simples? Sofra um pouquinho. Só um pouquinho. Humaniza. É bom pra pele. Paga mal, mas pega bem. Não pode ser sempre tão fácil, meu amor.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Um filho

Eu sempre quis ter um filho, ou um punhado deles, e isso sempre me pareceu algo certo na vida. Quando minhas amigas falavam que não queriam, que não teriam por nada no mundo, eu achava que elas estavam blefando.
Já agora que estou mais velha as coisas não me parecem mais tão simples assim. Eu? Mãe? Eu mal sei passar uma roupa, meu café é doce demais e meu ovo frito sempre gruda no fundo da panela. Como vou cuidar de alguém?
Fora as probabilidades de tudo dar errado. Traço listas mentais de prós e contras. Bebês são bonitinho, mas e se o meu não for? E se e ele for esquisito? Tá, isso é superficial, eu sei. Mas e se ele for um drogado que vai vender toda a minha mobília em troca de pedras de crack? Um assassino, um serial killer, matando e esquartejando por ai. Culpariam quem? A natureza falha? A anatomia cerebral? A sociedade opressora? Não, eu seria a culpada. A mãe. Ausente, violenta, ou sei lá o que. Não importa se levava café da manhã na cama, se comprava brinquedos bacanas, o título mãe bastaria pra me transformar em culpada e ponto final.
E o problema é que eu não poderia simplesmente mandar ele voltar pro lugar de onde veio. E tirando filhos, o que mais na vida é pra sempre? Casamento não mais e tatuagem também não. Ok, ainda temos AIDS, herpes e outras doenças, mas essas coisas a gente não escolhe, então não vale.
Sim, ele pode ser um bebê amável, é verdade. Risonho, de bochechas rosadas, mas que foi parar no jornal nacional por ter sido abandonado no balcão de uma loja de departamento. Claro que é possível! Eu esqueço meu celular, minha chave, minha carteira,minha blusa, tudo, e se eu esquecer meu bebê? Já imaginou? Eu seria presa, abandono de incapaz. O delegado não acreditaria na minha justificativa. “Defict de atenção? O caramba! Joga essa ai na cela 12”. E lá estaria eu, separada das outras presas, jurada de morte,com um advogado indicado pelo estado, porque nenhum outro quis me defender.
Não, não é tão simples ter um filho.

terça-feira, 2 de março de 2010

caderno velho

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Pensei em escrever aquele texto, aquele que nós começamos a fazer juntos, mas preferi não fazê-lo. Aquele texto começou em uma noite com vinhos e fotos, a medida que bebíamos e falávamos mais, mais fotos eram tiradas. Era como se tudo precisasse ser registrado, como se soubéssemos que noites iguais aquela não se repetiriam. De repente, você surgiu com um caderno, uma caneta e uma proposta...cada um escrevia uma parte e outro completava, tendo liberdade de adaptar a história como preferisse. Nós fizemos isso, é fizemos...a história foi tão adaptada que descaracterizou-se toda, não reconhecíamos mais as personagens, as situações, o enredo. Depois de um tempo, o caderno foi deixado de lado, nós nos deixamos de lado e a história ficou suspensa...sem final.
Acho que não somos bons com desfechos, só introdução e clímax.
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segunda-feira, 1 de março de 2010

eu acho é muito




normalmente escrevo meus textos alguns dias antes e programo pra ser publicado no dia primeiro. acontece que desta vez decidi acordar e escrever. é que os dias têm sido tão diferentes, que sei lá, se eu programasse ontem a noite o que dizer hoje de manhã, seria algo totalmente diferente do que estou vivendo agora. não que isso interesse a você, mas preciso contar que os últimos meses não têm sido fáceis, o que não significa que não foram bons. by the way, de nada adiantou esperar pra escrever hoje, pois vou falar mesmo é do carnaval em recife. enfim. uma viagem linda e estranha à uma cidade que amei e quero voltar pra ela o mais breve possível. lá vivi o carnaval, o meu primeiro carnaval em vinte e nove anos. sim, não gosto, mas precisava experimentar aquela coisa toda pra dizer que não quero mais. o bloco eu acho é pouco - bom demais - descendo as ruas de olinda e se afunilando a cada verso de suas músicas e que me fez lembrar o metrô de são paulo em horário de pico, só que com pessoas lindas, felizes e bêbadas. o galo da madrugada, o maior do mundo, provando que tristeza tem fim, felicidade não. os encontros na escadaria em frente ao museu de arte contemporânea na treze de maio, com seus beijos, agarrões e arrastões denotando um desrespeito consentido, uma decepção sem arrependimentos, uma vergonha alheia e a vontade de voltar pra casa. brennand, casa de banho, arrecifes e outros passeios maravilhosos. o desencontro com amigos de são paulo, o encontro com desconhecidos e amores eternos sem identidade que terminaram em vinte segundos. as mais de quatrocentas mensagens trocadas, os telefones anotados e apagados em seguida, o sentimento de inferioridade e a alegria de ver a imensidão da praia de boa viagem. as festas vip, os shows, a vodka. a despedida definitiva enquanto aguardava pra retirar a bagagem na volta à minha cidade e a espera surpresa no aeroporto. porto de galinhas não é tão bonita como pensava, mas os últimos minutos naquela praia valeram a viagem. as hospedagens camaradas, as recepções sempre boas e acaloradas, o sotaque pernambucano... ah, o sotaque....

no fim, creio que também deixo lembranças boas na cidade. algumas delas faço questão de esquecer, como aquela sombrinha de frevo que ganhei e acabei deixando por lá. no mais, trago comigo algumas fotos, uma cicatriz de queimadura de cigarro no braço direito e outra aqui dentro.

mas volto ao meu marco-zero.

e sem máscara.
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