segunda-feira, 20 de agosto de 2018

A recomendação de segurança

Agenor havia sido promovido. Agora seria responsável pela segurança. Começou arrumando uma dívida, mas era por uma boa causa. Precisava comprar um terno caro. Era imprescindível que responsáveis pela segurança vestissem um terno caro.

E lá se foi Agenor para sua tarefa. Em meio aos risos e conversas descontraídas dos clientes do bar, que se espalhavam pelas mesas da calçada, Agenor ficava atento. Prevenir era sempre melhor que remediar, portanto ele interrompia os brindes, as conversas de happy hour e se necessário até mesmo os beijos apaixonados dos casais imprudentes.

Havia passado os últimos três dias em frente ao espelho, decorando o texto e treinando as melhores expressões faciais para passar segurança, afinal era para isso que fora contratado.

"Boa noite. (...) Boa noite? Muito bem. Permitam que eu me apresente. Eu sou o Agenor, sou responsável pela segurança de vocês. Estou aqui para assegurar que nada de mal vai acontecer. Eu conto com a colaboração de vocês. Permitam que eu dê uma recomendação de segurança: caso algum pedinte se aproxime, não entrem em pânico, não deem dinheiro para não estimular a prática, não ofereçam comida, não puxem conversa. Sigam essas instruções e nada de mal acontecerá. Tenham uma boa noite." E se afastava para cumprir sua função.

Tudo seria muito mais fácil, não fossem os imprudentes. A maioria seguia as recomendações, diante do perigo iminente apenas recuava e clamava pela ajuda de Agenor, que corria expulsar os maus elementos que colocavam a paz e a ordem em risco. Tudo na mais perfeita harmonia, não fossem os imprudentes.

Não passava uma noite sem ter que agir com mais vigor, graças àqueles que, contrariando as regras explícitas de segurança, davam moedas – moedas! – aos vagabundos que se aproximavam.

Era a hora de agir sorrateiramente, expulsar os transeuntes que ofereciam um perigo inegável à gente de bem que se espalhava pelas mesas da calçada, lamentando não poder agir com todo o rigor que gostaria.

O maior problema era o direitos humanos. As pessoas que agiam de forma imprudente e ainda criticavam Agenor quando ele realizava seu trabalho da forma mais competente possível. Precisava de todo jogo de cintura para, depois de se certificar de que o perigo havia sido afastado, se aproximar da mesa dos imprudentes com o olhar sério, semelhante ao que lançava aos próprios filhos diante de uma travessura.

“Boa noite. Lembram do que eu disse? Eu conto com a colaboração de vocês! É uma recomendação de segurança. Por favor, não estimulem esse tipo de atitude.”

E voltava a se afastar, dessa vez mantendo uma atenção especial à mesa dos transgressores da ordem. Só não conseguia compreender qual a dificuldade daquelas pessoas de ter uma atitude de gente de bem e ajudar a escorraçar os maus elementos. Vai entender...

domingo, 12 de agosto de 2018

Somos tão fortes assim?

Sempre me intriga visão simplista dos fenômenos que nos cercam.
Alguém disse ''vai ter eclipse no dia 11 de agosto e chuva de meteoros no dia 12, será um espetáculo''.

Dai eu fico pensando, sim, pode ser um acontecimento visualmente interessante, mas que tanto nos afeta a vida? Será que somos tão fortes e estamos tão blindados, a ponto de não sofrer consequências em nossa vida, por causa de um eclipse?

Quem estuda os eclipses garante que nada muda, além da maré que sobe. Ah, sim, apenas a natureza é afetada, o ser humano não, blindando na sua internet, cercado de brinquedos, não sente nem cócegas enquanto os planetas dançam.

Chegamos a esse ponto de acreditar que a natureza é uma coisa, que nos serve, nossa vida é outra, e ambas não estão entrelaçadas nem dependem uma da outra.

Ah, mas tem eclipse várias vezes por ano! Só até agora já foram uns três!

Pois é! Então talvez somos diferentes a cada um deles, mas estamos tão absorvidos pela vida virtual que não reparamos nas mudanças, porque talvez nem sabemos quem somos, parece que não existimos fora de uma tela de computador.

Científicos dão risada e contam que civilizações antigas tinham medo de eclipses, se escondiam, pensavam que era um castigo. Nós nem olhamos para um eclipse, muito menos para quem somos, e talvez esse seja o nosso grande castigo.


Iara De Dupont

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Bolo

  Não sei bem o motivo, mas a lista de coisas que me irritam anda aumentando.
  Pode ser a idade, o estilo de vida, talvez nesse caso específico o excesso de horas online.

  Embora eu e a cozinha não nos dessemos bem desde a década de 80, conseguimos coexistir sem grandes traumas. Sempre me dá um certo ódio, quando elogio a comida de alguém e esse alguém vem me passar a receita. Eu tento coisas como:  "eu não cozinho!" "eu não gosto de cozinhar!" "não faço nada com mais de 5 ingredientes!"  "eu acabo comendo os ingredientes antes!" porém nada parece funcionar quando um ser quer te passar uma receita, do latim "seita" "re-seita" deve ser.

  No meu tempo online, que é bem variado devo dizer, passava muito tempo ocultando posts de receita, agora querem me ensinar online. Eu acho útil, quando preciso ou realmente quero fazer algo, a internet tá lá, tem até vídeo de como fazer uma singela crepioca, sou grata!

  O que passou por esses dias a me irritar foi esses posts padrão de vídeo de receita, que normalmente começam com musiquinha feliz e alguém cortando um bolo em câmera lenta, que o recheio vaza devagar, ou puxa um pedaço da torta e o queijo estica devagar, quase erótico... Essa lentidão, essa câmera lenta, porque eu tenho que ver chocolate e queijo escorrendo em câmera lenta? Me irrita, fome combina com paz, sossego e pressa, come-se rápido, feio, desleixado, não é bonito, deixem a coitada da comida em paz.
  

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Das angústias em séries

Faltam dois meses e alguns dias para as eleições de outubro. O ano começou nesta perspectiva sobre o acontecimento das eleições. Chegamos a metade do ano e parece que essa ansiedade sobre as eleições são as piores sensações possíveis.


A prisão do Lula é um fato de meses e somente ele está preso em meio a quantidade exacerbada de corruptos ativos na política e seja atuando pelas sombras (no caso de Temer quando era vice ou articulador) ou protagonista político ao longo de décadas atendendo aos interesses mercadológicos da minoria empresarial com fortuna quase que incalculável se comparada a população do globo terrestre.


Até o momento não tivemos uma mobilização que de fato alcançasse a ansiedade ou essa falta de perspectiva minha no caso, aliada a aceitação populacional desse período de intenso retrocesso de políticas públicas e sociais. Não houve greve geral e nenhuma ação de massa que sacudisse as estruturas em especial os institucionalizados e institucional.


Acontecem pequenas ações isoladas porém ao mesmo tempo potentes, seja em atos, grupos ou quaisquer ajuntamento de pessoas interessadas em debater, manifestar e/ou se apresentar como candidato. Como no lançamento da campanha a presidência de Guilherme Boulos no Campo Limpo sendo mostra disso, que embora a ação seja pequena e com pouco recurso havia gente interessada em conhecer e/ou confirma-lo como candidato.


Mulheres estão se interessando pela política juntamente com LGBTs, indígenas e com toda negritude estão agindo para ocupar espaços de poder, compreendido como o efeito direto do assassinato de Marielle Franco até então sem desfecho nas investigações sobre quem mandou matar e por quê. Demonstram a resistência no enfrentamento do genocídio da população negra e periférica nos espaços, inclusive de poder.


A conjuntura está caótica como sempre, porém com uma tendência extremamente fascista com intervenção militar no Rio, militarização das escolas públicas com inspiração no projeto piloto de Goias se espalhando para os demais estados, ainda o constante pronunciamento das forças armadas sobre política. 


A literatura sobre a ditadura civil militar nos situa de como é perigoso as forças armadas discutirem ou compreender a política sob o ponto de vista do poder ao povo e destruição da corrupção. Já assistimos este filme durante 21 anos e mais precisamente durante 400 anos com escravidão quando o exército estava no controle de corpos, da moral e na defesa da propriedade dos senhores.


Discutir a política sem considerar a estrutura de exploração e explorados, sem classes sociais e período de escravidão que resultou nesta desigualdade sem precedentes é colocar-se no centro das opressões e repressões. 


Entre ganhos e perdas algumas resistências isoladas e nenhuma mobilização para o principal da organização de uma sociedade de fato democrática: a sustentabilidade, a distribuição de renda, o mundo do trabalho  e bem viver.


Enquanto isso as notícias pipocam mundo a fora com endividamento mundial: Rumo ao desconhecido: endividamento mundial, crise monetária e colapso capitalista algo que reflete o endividamento de todos trabalhadores seja por meio do trabalho formal, público, informal e trabalhador reserva ou mais conhecido como desempregados e/ou  a margem da sociedade.


Não vejo possibilidades de pensar em nova organização de sociedade quando todo esforço se resume a eleição ou quando não junta ambos. E no pós eleição ou quando eleito a ação se resume na manutenção do que está posto com algumas melhorias, sem alterar o que é estrutura.


Talvez ainda mantenha as esperanças pouquíssimas devido a ausência de diversidade nestes espaços. Mas e quando toda diversidade estiver nos espaços institucionais? Ou enquanto diversidade ocupando este espaços como alterar a estrutura?


A estrutura do estado é essencialmente burguesa, mesmo com diversidade neste espaço se não alteramos a sua principal regulação que está nas relações sociais e de trabalho não existe a menor possibilidade de mudança e/ou transformação.


Quando se diz regulação ou mediação do trabalho e relações sociais pelo estado temos que lembrar de que não somos números, mas tempo, então o setor público não deve se restringir a quantidade mas a qualidade do que é e faz. Assim para empresas uma vez que todo setor transita ou está regulado pelas ações do estado. 


Exemplo didático e mais recente que possa dar é a greve dos caminhoneiros. Embora tenha todas as contradições a greve teve como reivindicação taxas reguladas pelo estado. Parte dos grevistas compreendendo melhor a função destas taxas e/ou funcionamento delas fizeram as reivindicações para seu lucro e/ou melhorias que os beneficiava. 


Os caminhoneiros autônomos que tinham menor conhecimento sobre as taxas foram atendidos na reivindicação de pronto mesmo que em tese segundo alguns jornais isso os prejudicava. Logo veio a divulgação pelo governo - Temer e hiper golpista - de que a inflação e juros aumentou devido a greve dos caminhoneiros. De repente em todos os jornais a greve parecia ser o problema da economia e não esse endividamento mundial, crise entre capital e trabalho e/ou sistema capitalista.


Essa é uma amostra de como o estado regula as relações sociais, de trabalho e economia, e de como nos dá margem para várias reflexões. Dentre tantas de que os trabalhadores em próximas greves devem sempre reivindicar também pautas macros para o estado elaborar e mediar os benefícios (que  por vezes e somente acontecem para a burguesia) para que não se divida trabalhadores e pautas. 


A questão está em qual a função social do estado nas relações sociais e de trabalho?
E de que forma movimentos sociais, autônomos e sindicatos constroem resistências e mobilizações para transformar a mediação do estado burguês nas relações sociais e de trabalho?
Quanto a partidos e candidatos enquanto organizações políticas do institucional e por vez estado burguês o que pensam, refletem e podem contribuir  para a transformar essa mediação na estrutura que só beneficiam a pequena parcela mundial de 1%?


Talvez não tenham e/ou existam respostas. Por isso procuro organização de sociedade futuristas: a leitura é sobre Buscar vida em Europa ficou mais fácil  e poderia jurar que o título se tratava de fuga em massa e tals de pessoas para a Europa.


A outra trata-se de uma série sobre pessoas perdidas no espaço, mas ainda não terminei de assistir, até aqui é interessante, pois reflete exatamente a atual organização de sociedade da Terra noutro planeta. Deve ser o futuro e/ou sina mesmo.

domingo, 22 de julho de 2018

Das vezes em que sempre soube

Tudo começou com a morte dos Mamonas. Eu acordei naquela manhã de domingo, 02 de março de 1996, com a assombrosa notícia de que o avião que levava a banda havia caído sobre a Serra da Cantareira. Eu tinha 10 anos. Eu lembro que foi um domingo horrível para todos. Olhos grudados na tevê em busca de informações, Pelados em Santos tocada à exaustão em todas as rádios, a cara de tristeza generalizada em todos lá de casa pela perda de nossa banda favorita, sobretudo de nós crianças que sabíamos de cor aquelas canções que falavam de surubas e milagrosos sabões que não deixavam os pelos do corpo enrolarem uns com os outros. Para todos ali aquele domingo foi bem estranho. Mas para mim um pouco mais. Eu tinha um segredo. Eu sabia da morte dos Mamonas antes que ela acontecesse e não contei para ninguém. Sim, na noite anterior eu me revirei diversas vezes na cama. Eu sonhei que que um avião caia por sobre uma montanha e todos os integrantes de uma banda de rock morriam. A banda eram os Mamonas Assassinas.

***

Dois anos depois outro sonho. Eu tinha 12 anos e sonhei que o cantor Leandro morria, justo ele um dos meus ídolos da infância. Na manhã seguinte, acordo com a noticia de sua morte. Não contei isso pra ninguém. Morria de medo. Não queria ser tomado como excêntrico, esquisito. Até podia imaginar minha mãe me levando para o Domingo Legal como menino prodígio, enquanto o Gugu me pediria previsões sobre a vida dos famosos. Não queria aquilo. Por isso me calei.

***

Natal de 2012. Eu tinha até me esquecido de minhas duas isoladas experiências premonitórias. aquilo tinha ficado no passado, coisa de criança. Duas coincidências incríveis apenas. Até que pediram pra tirar aquela foto. Uma daquelas fotos de família, com todo mundo reunido. E eu era convidado ali e não conhecia nem metade das pessoas. De muitos não sabia nem o nome. A única coisa que eu sabia é que alguém ali ia morrer. Sim, no exato momento em que a máquina foi programada e todos se postavam para o "xis" eu tive a total certeza de alguém ali ia morrer, que aquela seria a última foto de algum de nós. Eu tentei afastar aquele pensamento horrível, mas não deu tempo. Nem bem as pessoas começaram a se dispersar e a senhora japonesa da segunda fila caiu no chão, as mãos no peito, os olhos esbugalhados. Morreu dois dias depois. Aquela foi sua última foto.

***

E agora... agora eu sinto coisas... sim, sobre você que está me lendo... não sei bem o que é... mas tome cuidado, tá bom?

***

É brincadeira isso. não estou sentindo nada.

***

***

ou talvez esteja...



sexta-feira, 20 de julho de 2018

Fobia

Acho engraçado pessoas que tem medos irracionais. Medo, não, pânico. Claro que as fobias fogem do controle e são um transtorno para quem não consegue se controlar diante de uma barata.

Sempre trato as fobias alheias com muito respeito. Não que eu tenha fobia de provocar um enfarto em alguém, mas é bom evitar as vergonhas alheias. Claro que quando estão todos a salvo daquele camundongo assustado, é inevitável evocar a fobia da Dona Florinda, do Chaves, no episódio dos ratos no restaurante.

Também já conheci pessoas com fobia de aranhas, sapos, lagartixas e, talvez o que tenha me causado mais curiosidade, de borboletas. O bom é que era fácil bancar o herói. Nem imaginam minha astúcia na hora de encarar o perigo e botar a borboleta pra correr, digo, pra voar, pra bem longe, com suas lindas asas em um voo descoordenado.

Claro que o medo é fundamental para proteger os seres vivos. Por instinto acabamos fugindo do perigo. O que me intriga é quando o medo irracional acaba por nos colocar em risco. Há quem, para fugir de uma barata na calçada, se jogue na rua venha o carro que vier.

Minha racionalidade me impede de entender essas coisas. Eu, sempre tão pé no chão, tão lúcido e tão reflexivo, não consigo ter medo dessas bobagens.

Na verdade a única coisa capaz de me deixar com medo é uma página em branco, que pede por palavras. Mas isso é óbvio, não acredito que exista alguém que não entre em pânico diante do tracinho vertical do cursor piscando, tal qual um alarme que indica que a bomba está prestes a explodir.

E não me venham com soluções simplistas. A boa e velha folha de papel não resolve o problema. As linhas prestes a saltar do papel e arrancar da alma as palavras que se escondem, os cantos da folha preparados para dobrarem e dar um bote fatal.

Apesar de achar engraçado pessoas com medos irracionais, acabo com um pouco de inveja. Preferia ter um pânico imaginário e na realidade inofensivo, do que esse pavor tão real de algo indubitavelmente perigoso.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

É uma teoria

Gosto muito de teorias, porque nelas tudo é possível.
Teorias são janelas que se abrem para algum lugar, ou não. Nelas cabem minhas vontades e desejos

E me apaixonei por uma nova  teoria, a de que o mundo acabou no dia 21 de dezembro de 2012, os que ficamos, por algum motivo estranho, estamos em uma espécie de limbo, de fim de festa.

Gostei dessa teoria, rapidamente se adaptou as minhas crises existenciais e sensação de desconforto neste mundo. É mais fácil pensar que tudo acabou, por isso nada faz mais sentido. Não me reconheço mais e o futuro não parece assustador.

Tudo que fizemos ou fomos chegou até esse dia em 2012, agora não existimos mais naquela forma ou pensamento. Os que lutam contra isso sofrem muito, agonizam sem saber que tudo já acabou.

E a beleza do fim é que logo atrás dele vem um começo e talvez este seja melhor que o anterior, mais forte que o último, mais definitivo que todos.

No momento não sabemos nada, apenas sentimos as mudanças do fim do mundo, mas em algum ponto vamos nos reconhecer e começar nossa trajetória novamente.

Parece fim de mundo, mas pode ser apenas uma teoria. Ou não.


Iara De Dupont





sábado, 7 de julho de 2018

em uma palavra cabe o universo

luz -
constante
no infinito de nós.

pôr-do-sol -
ósculo 
contemplativo.

saudade -
bichinho
rói
seu
leito.

amor amar -
palavras
do sonhar constante.



semente -
germina
na
mente.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Das pequenas metamorfoses

Ao ver uma partida de futebol, o que mais me encanta não é o momento do gol, mas o momento do replay, sobretudo aqueles em câmera lenta. Não é que eu goste de ver o tento por outro ângulo ou rememorar aquela jogada perfeita. Nada disso. O que me interessa está atrás do gol, entre as balizas e a arquibancada. O que realmente me emociona é ver o momento em que, ao receber a denúncia da torcida, o policial sisudo gira por um lapso a cabeça e, sem perceber, alarga por um nanosegundo a fissura compreendida entre os lábios, ante a rede estufada às suas costas, um quase nada antes de girar a cabeça de volta à torcida e tornar a ser um policial sisudo. 

quinta-feira, 21 de junho de 2018

SAUDADE DO CÉU DA NOITE

No caminho entre o ponto de ônibus e minha casa, me veio o tema para escrever nesse mês. Sim, porque até então, não sabia se gravava mais um programa, se escreveria sobre alguma coisa o sei lá o quê. 

quê compartilhar com vocês nesse mês de Junho? 

Sei que está fazendo um frio daqueles aqui no interior de sampa. 
Não sei se quando você lê a palavra "interior" já pensa em vaquinhas no pasto, riozinhos cortando a praça e essas coisas típicas das revistinhas do Chico Bento! 

Aqui já foi assim. Mas hoje em dia, não chega nem perto. 

Mas então. 

Tá frio pra dedéu por aqui. E geralmente quando está frio assim, até o céu parece ficar mais limpo. AÍ PENSEI: Pronto! Tá aqui a ideia! 

Que saudade de quando eu podia simplesmente ficar na calçada de minha casa, contemplando as estrelas! Eu comprava a revista "Superinteressante", e nela, muitos e muitos anos atrás, vinha o mapa do céu do mês! E lá ia eu, me aventurar para encontrar as estrelas que estavam relacionadas e desenhadas no mapa, em suas constelações! 

Ontem mesmo falava com meu irmão sobre quando, eu, ele e nosso vizinho, fazíamos uma "caveira" com purunga (não sei explicar o que é isso, mas é parecido com um côco oco), colocávamos uma vela dentro e íamos para o pasto, acender a uma certa altura, e ficar vendo as reações das pessoas que passavam! 

Hoje em dia, nada é tão mais divertido assim, e somamos a esse fato, os boletos que precisamos pagar. 

Quanta coisa surge de uma noite fria e estrelada! 

A foto que ilustra esse post, é da Lua! Não quis editar a imagem.  
No lado esquerdo, a luz meio amarelada, é a luz de um poste. 
A Lua, você já sabe, né? E como estou falando de noite, escolhi a música da Tiê, "A noite", para dar um tom aqui no blog. 

Galera, nesse mês, é isso! 
Obrigado a vocês que ouviram meu programa no mês passado! 

Se Deus quiser, mês que vem estou de volta com mais um post fresquinho pra vocês! 
Tenham uma excelente noite com Tiê, e "A noite"!

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Torcer ou não, eis a questão

  • Não entendo essas pessoas que fazem questão de trabalhar durante os jogos da copa!
  • É que eu não gosto de futebol.
  • Você acha que eu gosto do Natal? Nem cristão eu sou e não é por isso que eu faço questão de trabalhar no feriado.
  • Futebol aliena as pessoas. Ainda mais no ano de eleição.
  • Claro, em 2016 não teve copa e São Paulo elegeu o Doria no primeiro turno.
  • Mas a copa é na Russia, olha o governo dos caras reprimindo homossexuais, várias atitudes machistas e tudo mais.
  • O problema aí é a homofobia e o machismo, não o futebol, né? Bem que a Fifa poderia ser mais incisiva nesse ponto mesmo. Só que preconceito deve ser combatido como um todo.
  • E o Putin? Influenciou até na eleição do Trump, vai acabar provocando uma guerra!
  • Guerra, homofobia, machismo, alienação política... parece que futebol é uma das poucas coisas boas que as pessoas fazem!
  • ...
  • ...
  • Mas esse cabelo do Neymar, hein!
  • É... complicado, mesmo!

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Águas da Prata

                           Caminhavam pela noite. Ouvia-se pequenos burburinhos no interior das casas – a TV e seu milagroso creme com o retorno da juventude em duas aplicações, a dança das tampas e suas panelas no fundo da cozinha, um avô tossindo suas dores. A cidade era pequena, conservara um charme decadente, vestígios da época em que os cassinos eram a festa e a água, a cura. O vazio ocupava as largas ruas repletas de noites. Eles continuavam a perambular, cambaleantes de conhaque e cigarro. O vento de outono atingia a pele com rispidez a cada trago que compartilhavam.

            Caminhavam pela noite, mas, ouso dizer, a noite os encaminhava. Havia uma urgência de vida. Despertos, sonhavam realidades possíveis.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

o constante nocaute


- qual a sua opinião sobre a greve dos caminhoneiros?

- greve é sempre algo bom.

- bom por quê?

- porque tem trabalhador que parece com a gente e está tão lascado quanto.

- mais lá tem patrão.

- ué aqui no mercadinho da esquina também tem e ele não pode fazer greve?

- mas é diferente.

- estamos falando do mesmo nível de patrão.

- nada a ver.

- por quê?

- patrão não faz greve, faz locaute e é contra a lei.

- nocaute?

- não fia é locaute.

- sei.

- não acredita? assisti a esses vídeos aqui.


uns minutos depois.


- assistiu?

- sim.

- e aí?

- a opinião não mudou.

- como assim???

- não viu os caras.

- é eu vi, são bem diversos.

- ainda está sem TV.

- sim.

- é terrível ficar sem TV, a gente não sabe o que se passa no mundo.

- pois é. Mas ainda tem a internet.

- não é a mesma coisa.

- talvez não. Pra uns a TV é melhor, só diz o que gente não quer ver.

- os caminhoneiros querem o caos e o governo só fechou acordo com patrão.

- li algumas coisas sobre, mas os caminhoneiros autônomos não aceitaram.

- sim. Mas vai gerar o caos, já pensou todo mercado sem produtos. Eles estão pedindo intervenção militar não dá para acreditar nisso?

- a maioria desconhece a ditadura civil militar. Não apoio a intervenção militar no RJ e não será para o país que vou apoiar , mas tem que compreender que nenhum movimento será uma unanimidade politizada. Outra tem caminhoneiro contra a globo e que viveu a ditadura, também quem se posicione contra os reacionários e político como bolsonada.

- não. Isso vai ser o caos.

- já está o caos, olha os preços das coisas, reforma trabalhista, lula preso.

- mas greve com patrão não está certo.

- tem autônomos e precarizados no meio.

- vou explicar. Greve tem pautas que contempla a todos. Então essa não pode ser legítima.

- entendo. Quando os professores fazem greve para vetar a reforma da previdência referente apenas ao servidor municipal isso contempla a todos?

- de certa forma sim.

- por quê?

- ué professor precarizado piora o ensino público.

- e o caminhoneiro autônomo que passa noites sem dormir e corre risco de causar a própria morte e vários acidentes? E o petroleiro que fica nas estações correndo risco de vida, o agente operacional que está sujeito a todo tipo de situação e acidentes, e as domésticas, os pedreiros e mestres de obras que gastam a vida no trabalho árduo e milhares de trabalhadores que deixam de comprar o básico para se alimentar para pagar mais caro nos combustíveis -  do ônibus inclusive com aumento das passagens, no gás de cozinha, na conta de luz eteceteras.

- é. pensando assim é muito generalista. mais ainda são coisas distintas?

- o que?

- ainda é locaute porque faz uso do direito de greve para benefício próprio.

- sim.

- mais ainda tem o nocaute.

- nunca ouvi dizer.

- nocaute é quando os patrões de patrões de todos os patrões torna-se um burguês e com manipulação faz esforços políticos e usa recursos públicos para mudar a política de preços do que eu, vc, o caminhoneiro, o petroleiro e  todos milhares de trabalhadores pagam, inclusive gás de cozinha, combustíveis etc.

- é mais ainda é locaute.

- vai fazer o que mais tarde ou amanhã?

- nada. vou ficar em casa e aproveitar a emenda de feriado,  abastecer no posto pra ter uma reserva, ir ao supermercado, descansar e assistir TV.

terça-feira, 22 de maio de 2018

A mancha

Eu comecei a terminar de ser criança no dia em que vi a mancha. 
A mancha em formato de lua, atrás da orelha esquerda do Jordão. 

O amigo Jordão. 

O Jordão que sempre estava, 
mas nunca ficava, 
jamais se demorava. 
O Jordão que me olhava, mas nunca me via, 
o olhar fugidio de quem queria mas não podia. 
Jordão, o amigo eterno de minha mãe. 

Amigo, vejam só, o amigo de minha mãe. 

Naquele dia, 
ao se despedir como sempre, 
ele se virou como nunca.
E foi assim que eu vi.

E quando vi a mancha, em forma de lua, atrás da orelha esquerda, senti súbito minha mão saltando célere pra trás de minha própria orelha esquerda, pousando sobre a minha própria mancha em forma de lua, que eu achava 

- oh, céus, eu achava - 

que era só eu no mundo quem tinha. 

segunda-feira, 21 de maio de 2018

AUDIOPOST 21 DE MAIO

domingo, 20 de maio de 2018

¿Quién eres?

Oi, eu sou a Dolores. Pediram pra me apresentar. Mas logo eu, que não tenho nada pra falar? Sou Dolores, que era para ser Maria das Dores, mas minha mãe achou um nome triste e acabou mudando para Dolores.

Tenho 50 anos. O que eu vivi mesmo foi os últimos dez, depois que eu me livrei daquele traste. Quando eu vejo mocinha nova se engraçando por aí dá até um aperto. Eu casei com 22, vestido branco, véu, grinalda, meu irmãozinho todo arrumadinho pra levar as alianças até o altar. Depois um belo churrasco pra vizinhança toda!

Bonito, né? Nessa época o traste ainda valia alguma coisa. Daí já veio falando em mudar para São Paulo, que ia ser melhor, que a gente ia ganhar dinheiro e melhorar de vida. Eu fiquei contrariada, mas já estava esperando meu filho mais velho. Achei que ia ser melhor pro menino.

Chegando aqui alugamos um quartinho, ele arrumava uns bicos de pedreiro e a vida foi engrenando. Logo meu menino nasceu e pra ajudar nas despesas eu comecei a pegar uns servicinhos. Fazia faxina, manicure, vendia Avon, pegava umas encomendas de doce, salgado… Tudo coisa que eu já fazia desde menina, mas agora até me pagavam.

O problema é que quando o dinheirinho começou a entrar o traste começou a ficar preguiçoso. Eu tinha que cuidar da casa, trabalhar e cuidar do menino, que logo ganhou um irmãozinho. Quando o traste arrumava uns bicos chegava em casa e se jogava no sofá. Dizia que o serviço era pesado. E o meu serviço, era o que?

Eu criei meus filhos com rédea curta. De tranqueira já bastava o pai, que quando não estava na frente da televisão estava no bar. Ainda me convenceu a engravidar de novo, pra tentar uma menininha. O bom é que pelo menos daí nasceu minha caçula, que também criei bem pertinho de mim, porque a meninada da vizinhança era louca para se perder na vida. Nela eu nunca bati, mas vontade às vezes não falta, pra ver se entra alguma coisa naquela cabeça dura!

Como o tempo passa! De repente eu já estava com 30 anos. Queria ter 30 anos com a cabeça que eu tenho hoje. Naquela época eu estava cansada. Trabalhando que nem uma doida, criando 3 filhos e sustentando aquele vagabundo que ainda ficava se engraçando com a garçonete do bar.

Não vou falar mal do pastor da igreja que eu ia. Muitas vezes ele era a única pessoa que eu tinha pra desabafar. Mas foi ele que fez minha cabeça pra continuar casada, que homem é assim mesmo, que ia rezar pra ficar tudo bem. Eu fui deixando tudo como estava, pensando que as crianças não podiam crescer sem pai. Era melhor não ter pai do que ter aquele traste dentro de casa. Mas agora já passou.

A gente acha que a vida é pra sempre e quando vê já está velha. Tomei um susto quando meu mais moço disse que ia casar. Logo foi o mais velho e um pouquinho mais tarde minha caçula apareceu com o namorado em casa pedindo a mão dela. Até chorei, vê se pode! Minha menininha!

Ficou um vazio tão grande em casa. Só eu e aquele traste, que não tinha mais com quem implicar e depois de velho deu de me tratar mal. Era só o que faltava! Pois não tinha nada mais pra me segurar naquela casa. Fiz minha mala, peguei meu dinheirinho que eu juntei com tanto suor e fui embora. 

Acredita que o traste arrumou um escândalo na porta de casa? Me chamando de louca, de irresponsável, até de vagabunda! E o pastor que não pense que eu não sei de que lado ele ficou. Fofoca corre rapidinho e eu nunca mais fui naquela igreja.

Não vou dizer que foi fácil. Não foi, não. Mas o que é fácil nessa vida, me diz? Só sei que já faz 10 anos que eu estou vivendo minha vida! Como o tempo passa! Queria ter 30 anos com a cabeça que eu tenho hoje. Continuei fazendo meu servicinho aqui e alí, só que agora sem as crianças e sem aquele traste pinguço pra sustentar.

A vida é esse negócio que quando a gente vê já passou. Eu fiquei tanto tempo ouvindo conselho errado e quando tomei coragem de fazer o que eu queria é que eu comecei a aproveitar a vida. E hoje se alguém quiser me criticar pode começar pagando as minhas contas.

Mas é isso. Pediram pra me apresentar. Meu nome é Dolores, mas eu não tenho nada pra falar, não.