sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Era outra vez

As roupas coloridas balançam feito bandeiras no varal. No chão do quintal de terra um redomoinho de folhas atiça o gato cinzento que cochilava por ali. O vento uiva como em sinal de mau agouro e embaralha os cabelos da mulher que recolhe as roupas. Todos a chamam de Cida. Ela é alta, magra e parece ter bem mais do que os vinte anos que tem. Hoje é noite de quermesse na igreja da padroeira e ela ainda precisa trabalhar muito se quiser chegar a tempo, se quiser que Dona Célia a deixe sair mais cedo. Cida passou os últimos dias todos com a cabeça longe dali, imaginando como seria bom dançar com Jacó, o jardineiro da igreja que a chama de princesa. Um forte trovão a apressa. A manhã inteira fora gasta com aquelas roupas e ela não pode perder tudo agora, não gosta nem de pensar nisso. Até mesmo porque as roupas são para a noite de hoje, para o casamento da sobrinha de Dona Célia e a patroa quer que tudo esteja impecável.

E ainda tem a comida. Amanhã é domingo, sua folga, e ela precisa hoje mesmo deixar tudo pronto para o almoço de família, o famoso almoço de domingo, umas dez pessoas ou mais. Panquecas. Ela tem de fazer panquecas, porque o Seu Arnaldo gosta de panquecas e a mãe de Seu Arnaldo também gosta de panquecas, das de carne, das de frango e sobretudo, das de brócolis com ricota. Também precisa preparar a saladinha com croutons de Dona Célia e o macarrão para os meninos. Uma pena não comerem todos a mesma comida, é o regime de Dona Célia, a fase de crescimento dos meninos, as vontades de Seu Arnaldo, mas ela não se importa. Trabalha lá desde criança, desde quando ia acompanhar sua mãe, e acabou por aprender o serviço. A mãe morreu ali mesmo na cozinha e desde então Cida mora lá com eles, no quartinho dos fundos, já que também seu pai há tempos havia morrido. Era muito grata à Dona Célia e ao Seu Arnaldo por tê-la adotado, por tê-la amparado, quando o coração de sua mãe deixou de caber no peito. Eles sempre diziam que Cida fazia parte da família.

O vento está cada vez mais forte e Cida quase se enverga com o cesto de roupas. Ela consegue recolher tudo e os primeiros pingos de chuva a fazem correr em direção da casa. São pingos grossos, decididos, com vocação de dilúvio. Cida corre. Tem um jardim inteiro pela frente. Ela se esquiva com habilidade do gato que quase a atropela na corrida. Célere, consegue desviar das gotas mais grossas que caem da copa da mangueira. Uma lástima os meninos deixarem aqueles brinquedos cheios de rodinhas pelo caminho, Dona Célia vivia reclamando, qualquer hora iam acabar se machucando. Um passo em falso, o peso arquejante do cesto de roupa, e lá vai Cida ao chão, a roupa limpa e seca se misturando aos prelúdios de lama que o jardim molhado coleciona. Cida solta um urro de dor.

Dona Célia aparece pela porta dos fundos com o olhar carregado de desespero. A roupa, santo Deus, a roupa. A roupa de toda a família, a roupa do casamento de hoje a noite! Como você pode ser tão desastrada? Cida levanta trôpega, tenta disfarçar a dor. Está sangrando. Ao redor, roupas espalhadas nadam na lama já bastante encorpada. Dona Célia se transfigura, gesta o demônio nos olhos, esbraveja que agora vai ter de comprar roupas novas, mais uma tarde no shopping, meu Deus, e que correria vai ser. Aos berros, diz que Cida terá que lavar tudo de novo, peça por peça, e depois estender, nem que tenha que passar a madrugada toda trabalhando. E que nem ouse se esquecer do almoço de amanhã. Panquecas, o Seu Arnaldo quer panquecas.

Dona Célia entra xingando, os meninos gargalham lá dentro, acham graça dos nomes ditos pela mãe. A chuva não passa. A tarde já avança e Cida não sabe o que fazer para dar conta de tudo. A carne. A roupa. O frango. O brócolis. Os croutons. Recolhe uma a uma as roupas espalhadas na lama, meias, vestidos floridos, chapéus, a gravata de seda de Seu Arnaldo. Ouve a porta batendo com força, depois o motor do carro, é Dona Célia e Seu Arnaldo saindo com os meninos para as compras. Jamais ousaria pedir para sair mais cedo. Tonta! Tonta! Tonta! Por que tinha de ser tão desastrada?! Justo hoje que queria ir a quermesse, justo hoje que veria Jacó, o rapaz que tanto a fazia se perder em distrações. Mas ela iria. E como iria. Não seria um acidente, um estúpido acidente, que a faria desistir. As vizinhas. As empregadas das vizinhas. É sábado a tarde e a uma hora dessas as patroas nunca estão, saem sempre em comitiva para fazer as unhas, para arrumar o cabelo, para depilar os pelos e para tantos outros importantes compromissos. Só costumam voltar no começo da noite. E o que falar dos patrões? São homens ocupadíssimos em suas atividades recreativas de sábado à tarde. Esses nunca estão mesmo. É isso, pedirá ajuda pras vizinhas. As vizinhas jamais falham.

E é isso que Cida faz. Limpa-se como pode, entra em seu quartinho e telefona para cada uma das empregadas vizinhas que conhece. São sempre elas que atendem. Como ela previa, os patrões nunca estavam. São três as que aparecem. Não demora e tudo começa a acontecer. A carne moída na panela, o frango desfiado, os pães secos de ontem virando croutons. Enquanto as três se redobram na cozinha, Cida lava a roupa na área de serviço. Elas precisam ser rápidas. Não demorará muito até os patrões chegarem das compras. Os ovos vão sendo quebrados, a lama se despregando das roupas, a alface lavada na pia junto aos tomates cereja. Barulho de carro na frente da casa. O grito dos meninos disputando o celular de Seu Arnaldo. São os patrões. Correria na cozinha, as empregadas de branco feito pombas se esvoaçavam em direção ao portãozinho dos fundos. Dona Célia, Seu Arnaldo e os meninos entram pela porta da frente.

Se Dona Célia tivesse caminhado até a cozinha, veria que Cida havia trabalhado por quatro e que a roupa está quase toda lavada e a comida já bastante adiantada para amanhã. Dona Célia, no entanto, está tão atarantada, tão concentrada em seus preparativos, que apenas grita de seu quarto, pra onde se dirigiu assim que entrou, que Cida não ouse em sair de casa enquanto tudo não estiver pronto. E diz que quer tudo bem caprichado, sem desmazelo, porque ela certamente perceberá. Ah, e se percebesse qualquer sinal de coisa mal feita, Cida que se preparasse para procurar outro lugar pra viver, não toleraria gente desleixada e sem responsabilidades, logo com ela que sempre lhe deu tudo. Diz isso e sai rumo ao casamento.

Tonta! Tonta! Tonta! As ameaças de Dona Célia golpeando seus ouvidos e a fazendo apurar o serviço. Dona Célia é tão boa, Dona Célia é uma mãe, se levantou a voz, se fez ameaças é porque tem suas razões. Agora Cida está sozinha pra terminar o trabalho. Ainda bem que teve ajuda. Sem aquelas três, não teria aquilo tudo tão adiantado. Sabia que sempre podia contar com elas. Patroa ajuda patroa, empregada ajuda empregada, era o que sempre lhe dizia Dora, a mais velha das três.  Tonta! Tonta! Tonta! A mãe se envergonharia com tanto desmazelo, se lamenta Cida, a mão espalmada dando tapinhas na testamas não é hora para lamentos, ela tem de terminar o trabalho. Com a ajuda que teve ainda conseguiria pegar o finalzinho da quermesse, ainda conseguiria ver Jacó.

Faltando alguns minutos para as dez, Cida consegue sair, a roupa lavada, a comida pronta para amanhã. Com sorte conseguiria pegar o ônibus das dez e chegar a tempo. O problema é que não poderá ficar muito, já que a linha que precisa pegar para voltar pra casa só funciona até meia-noite. Depois disso somente andando uns bons quarenta minutos a pé naquelas ruas que tanto a amedrontam. O caminho é longo, um tanto deserto e as noticias do que costuma ocorrer ali por perto não são  nada animadoras. Mas Cida quer ver Jacó, quer alguma coisa boa pra terminar o dia. E é com esse pensamento que entra no ônibus das dez.

O ônibus trota pelas ruas esburacadas da cidade. É noite, mas ainda assim há trânsito, muito trânsito e Cida não consegue entender porque. Olha ao redor e todos parecem bastante tranquilos, alguns conversam baixinho, a senhora ao seu lado tricota um cachecol, a netinha dorme em seu colo, um doce de abóbora pela metade nas mãos. Viver em cidade grande é se acostumar com um engarrafamento até mesmo depois das dez, pensa Cida. Ela não consegue ficar tranquila. Tudo aquilo pra não conseguir chegar, pra não conseguir ver Jacó.

Já passa das onze quando o ônibus pára de vez. Buzinas. Buzinas por todos os lados orquestram a sinfonia de uma cidade em caos, as luzinhas miúdas dos prédios de apartamentos como tímidas expectadoras. Burburinho no ônibus, a menina ao seu lado acorda, alguém sugere um acidente. Celulares de todos procurando por notícias. As buzinas aumentam e só são abafadas pelas sirenes da ambulância que passa apressada ao lado do ônibus, os carros abrindo caminho. Acidente, terá sido um acidente? A menina ao lado começa a chorar e Cida não sabe o que fazer. Pensa em descer e continuar o caminho a pé, mas ainda está bem longe pra isso. Mesmo com os ânimos se esfarrapando, o cansaço que lateja, Cida está decidida. Irá a quermesse ou ao que sobrar da quermesse, tentará ver Jacó, irá pra casa a pé se for preciso, mas não desistirá agora. Polícia. Um, dois, três carros cinzas da polícia militar passam com a sirene chorando ao lado. Curiosos se levantam e vão até a janela ver. O ônibus segue devagar. É quase meia-noite e Cida ainda não chegou. Um estampido lá na frente. É tiro, alguém grita. Alguns se abaixam. A menina chora alto, Cida chora baixinho.

- Toque de recolher! Toque de recolher! Toque de recolher! - as vozes gritam convulsas na rua.

Súbito, Cida se levanta e dá sinal pra descer. A porta se abre e ela corre. Corre sem olhar pros lados, só quer saber de sair dali. A igreja. Ela vai se esconder na igreja. Cida corre. Corre muito, corre sem conseguir saber o quanto. Outro estampido a assusta. Gritos. Quando enfim chega à praça da igreja, ao local da quermesse, vê que tudo está fechado, apenas as bandeirinhas tremulando entre os postes de luz, nem sinal de Jacó. Toque de recolher! Toque de recolher! Toque de recolher! É meia noite e Cida precisa sair dali, voltar pra casa antes que as coisas piorem. Ao descer correndo as escadas da igreja, Cida tropeça, uma das sandálias de dedo se desprendendo dos pés com a tira partida. Cida se ergue e continua a correr assim mesmo.


Um estampido.

Outro.

Cida cai em meio a fuligem do meio fio, se retorce de dor, a imagem da igreja à sua frente ficando cada vez mais difusa, águas turvas de um lago que alguém agitou, até tudo ficar bem nítido, iluminado, as portas abertas, a praça cheia. É dia de festa, ela se vê saindo da igreja com um vestido florido como aqueles de Dona Célia, Jacó ao seu lado com a gravata de seda de Seu Arnaldo, o irmão dele, William, tirando fotos do casal. Sua mãe e seu pai sorrindo na porta da igreja, atirando-lhes chuvas de arroz até que tudo fique escuro, bem escuro, escuro como o sangue quente que agora escorre por seu corpo, como a fuligem preto-borralho sobre a qual está deitada, encolhida, apenas uma sandália nos pés.












quinta-feira, 21 de setembro de 2017

"Você é tudo, e tudo é você..."

Era um dia como qualquer outro. Lá estava ela indo para o seu serviço, enquanto olhava as paisagens passar pela janela. Olhava as crianças nas calçadas, e sentia saudade de sua infância, das bonecas que há muito deixara para trás. 
Divagava em meios aos pensamentos diversos que nos atingem nessas viagens de ônibus. Se considerava uma pessoa de sorte por poder sentir aquilo que sentia: a paz.

Num determinado momento da viagem, numa parada do coletivo, viu subir um rapaz, bem apessoado. Ela era a única naquele ônibus, àquele horário. Todos os outros assentos estavam livres.

O rapaz fazia uso de fones de ouvido. Escutava algo no seu celular.

Para surpresa da moça, o garoto sentou ao seu lado. Foi educado, pediu licença, mas ela estranhou.
Por quê o menino não procurou outro lugar pra sentar? O ônibus estava vazio. Só ela de passageira.

Ia pensando nessas coisas quando o rapaz perguntou assim, de repente:

- Moça, posso pedir um favor?

A cara de espanto que ela fez foi impossível de disfarçar. 
Meio sem jeito, meneou positivamente com a cabeça.

- Poderia ouvir uma música comigo? Te dou um lado do fone, e a gente ouve!
Por favor... É muito importante pra mim...

- Lógico, óbvio, claro que ela ficou desconcertada. Afinal, um estranho estava ali ao seu lado, e pedia que ela ouvisse o quê ele estava ouvindo.

- É que vou descer já já... - Tentou desvencilhar-se ela.

- Por favor, eu insisto... A música é curtinha...

Não tinha jeito. 
Pensou durante uns dez segundos, olhou para o rapaz, no qual não sentiu maldade, e por isso, aceitou o convite.

Colocou então o fone em sua orelha direita. O rapaz, por sua vez, ficou com seu fone na esquerda dele.

Play apertado, eis que a música inicia. 
Era uma música romântica, mas totalmente fora da situação da qual ela participava no momento.
Teve o ímpeto de perguntar para o menino o por quê de ser justamente aquela música, mas quando voltou seu rosto para o mesmo, percebeu que ele estava com os olhos fechados.

Ficou então sem graça de perguntar.
O quê será que aquela música despertava nele? E por quê justamente ela foi convidada por ele para ouvi-la com ele?

Claro, com o ônibus vazio, ele poderia ter se sentado em qualquer uma das poltronas, mas não. Foi até ela, e fez aquele convite. 

"Você é tudo, e tudo é você..."

Ela já conhecia aquela letra, aquela melodia. A música era antiga. Tristemente romântica, romanticamente triste.

Decidiu então seguir viagem, ouvindo a música ao lado do rapaz, que viajava no coletivo ao lado dela, e em seus pensamentos, através da canção.

Estranho.

Sentiu uma tristeza. Não sabia por quê. 
Na realidade, até pensou saber: Tratava-se do garoto, que também tinha uma fisionomia triste.
Mas começou a pensar que achava isso pelo motivo de a música ter uma melodia triste, e que aquele estranho sentimento era fruto da emoção causada por aquela faixa.

De olhos fechados, o menino não parecia mais estar ali. 
Dois minutos e cinquenta e sete segundos que pareceram uma eternidade.
A promessa do menino revelara-se verdadeira. A música foi curta.

Quando acabou, e o silêncio veio, parecia que ela não ouvia o ronco do motor. Não ouvia mais nada.
Se perdeu no momento do estranho menino.

Ele abriu lentamente seus olhos, e só então ela percebeu que suas mãos eram seguradas pelas dele. 
Recuou então, como quem pede desculpas. Ele deu um leve sorriso, guardou o celular no bolso.

- Muito obrigado! Jamais esquecerei esse momento. Não se esqueça de que, se ainda não é, você ainda será tudo na vida de alguém. Seja feliz!

Sem saber o por quê, seus olhos marejaram. Num sinal de positivo, apenas balançou levemente a cabeça pra cima e pra baixo.

O ônibus parou, e o rapaz se foi.

Nunca mais o viu.
Mas não existe uma só vez em que escute a música, e não se lembre dele.

"Você é tudo, e tudo é você..."
Publicado originalmente aqui.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Descobriram

Quarta-feira. Já era tarde e eu estava dormindo quando o telefone tocou. Olhei o número para saber se eu poderia atender xingando. “Número privado”. Ótimo, além de tudo eu teria que ser diplomático. Tentei disfarçar o sono com um lacônico “alô”. Como resposta só consegui ouvir um “Descobriram...” antes que a ligação caísse. Era só o que faltava. Algum idiota ligou para o número errado. O jeito era voltar pra cama e amaldiçoar o sujeito até pegar no sono de novo.

Foi só deitar para surgir a dúvida. E se não foi engano? De repente alguém estava tentando me avisar sobre algo que descobriram! Mas o que era tão urgente que não poderia esperar pelo dia seguinte?

Corri para as redes sociais. Facebook, Instagram, Twitter, Whatsapp, portais de notícias. Nenhuma descoberta bombástica que justificasse a ligação misteriosa. Pensei em ligar para os amigos mais próximos. Loucura. Como eu explicaria uma ligação tarde da noite perguntando se descobriram alguma coisa? Pareceria uma ligação de um ex, bêbado, em plena madrugada de sábado.

Descobriram algo sobre mim, só pode ser. Mas o quê? Eu que sou tão correto. Comecei a vasculhar a memória para saber o que poderia me denunciar. Aproveitei que o computador ainda estava ligado e apaguei todos os meus arquivos. Filmes, músicas, séries, e-books... pirataria é crime!

Mas não fiquei tranquilo. Tem tanto computador pirateando arquivos no mundo, por que logo o meu? Pode ter sido algo no mundo real, ao invés do virtual. Teve a vez que eu furei fila no banco, mas já faz tempo! Eles cobram taxas abusivas e eu vou ser punido por isso?

Quando a moça do supermercado me devolveu troco a mais eu só percebi quando cheguei em casa, não iria voltar lá por causa de mixaria. As uvas que eu belisquei antes de pagar foi para experimentar e ver se estavam gostosas! Além do mais, o cliente tem sempre razão.

Confesso que só não apelei para o meu advogado porque não tenho um advogado. Nunca precisei, sempre falei mal deles, mas agora me retrato, falei mal, mas não foi por mal, só fui na onda dos amigos! O que eu não daria por um habeas corpus preventivo numa hora dessas.

Já passava das quatro da manhã, eu havia desfeito o gatonet, listei um grupo de pessoas para as quais eu pediria desculpa, por vezes sem nem saber o porquê, imaginei todas as situações possíveis. Olha, aquele pum no ônibus lotado foi sem querer, eu estava distraído e... bobagem. Quem iria descobrir?

O primeiro raio de sol do dia foi como a lâmpada de ‘eureka’ brilhando na minha cabeça. Eu passei pela faixa de pedestre sem parar para que aquele pobre coitado atravessasse! Pude reconstituir o olhar de fúria que ele me lançou quando busquei sua reação no retrovisor. Adiantaria pedir desculpas? Ele deve ter anotado a placa, fez uma busca detalhada, encontrou toda a documentação do carro, tinha meu endereço, telefone, sabia onde eu trabalhava.

Eu estava acabado. A falta de sono e o peso de ser um criminoso me deixaram com uma aparência cadavérica. Não havia decidido se eu me entregaria para a polícia ou se tentaria o habeas corpus preventivo. Uma coisa era certa, minha vida havia mudado. Não poderia seguir como se nada tivesse acontecido.

A primeira ação do dia seria pedir demissão. Martelava na minha cabeça a voz do capitão Nascimento. “Pede pra sair!” e eu pediria. Melhor que ser escoltado por policiais brutamontes na frente dos colegas de trabalho, em uma condução coercitiva.

Quando cheguei ao escritório todos estavam reunidos na sala de café, como de costume. Entrei sem jeito e antes que pudesse fazer o fatídico anúncio, o Lobato me encarou.

“Rapaz! Você está acabado, hein? Te liguei ontem à noite, mas meu crédito acabou. Descobriram o endereço do cliente?”

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Diploma de ódio

Dentro de todas as mentiras que nos fizeram acreditar, uma se destaca: o ódio que uma mulher sente pela outra.
Poucas mentiras tiveram mais poder do que essa, foi escrita nas pedras, desenhada nas paredes e tatuada no chão.

É fato que o ódio existe e navega pelo coração humano, mas não está direcionado a todas as pessoas de um gênero ou outro que cruzem no seu caminho. Odiar uma mulher que um dia te prejudicou não significa ''odiar'' todas.

Mas ódio ensinado é pior do que arma carregada, sempre está ali em alerta, acorda ao menor sinal e não escuta argumentos nem explicações.

Escutei uma conversa entre duas jovens, sobre uma terceira que estava acabando um mestrado. As duas jovens fizeram uma lista de motivos pelos quais o mestrado da terceira não valeria nada, a lista incluía suposições de que ela teria recebido ''ajuda'' de um professor, que a faculdade era ruim, que nem era bom o mestrado, enfim, parecia que tudo levava a mesma conclusão: o importante era odiar a moça.

Depois de um tempo elas voltaram a conversa e começaram a se divertir com uma história, parece que a moça que fez o mestrado tinha ficado muito tempo longe dos estudos, ficou insegura e contratou uma professora particular para dar uma refrescada e assim tentar um vestibular. Ficou dois anos com aulas particulares, e não eram tanto para se fortalecer nas matérias, mas para vencer sua insegurança. Depois conseguiu entrar na faculdade e acabou fazendo um mestrado.

Não sei os motivos da insegurança da moça, mas posso adivinhar um por um, porque são iguais ao de todas. Crescemos escutando que é bom estudar e ser inteligente, mas não é por essas qualidades que o teu príncipe vai te achar e se apaixonar, ele procura beleza e você tem que ser linda para ser amada.

Sem beleza, não tem amor e quem quer viver assim? Cercada de diplomas e sem um Romeu?

E nas ruas o discurso continua, mulheres fortes que entraram na política ou subiram nas carreiras sempre são criticadas pela sua aparência, quantas vezes escutei e li pessoas dizerem sobre mulheres poderosas ''que bom que é alguém na vida, porque com aquela cara e corpo, não vai achar marido''.

Pois é, isso é dito a todas, a cada segundo, a cada minuto, a cada hora, sem beleza não há vida e diplomas são para as feias, as que não tem outro jeito de sobreviver no mundo, já que não vão conseguir um ''macho'' para sustentá-las.


Somos doutrinadas para sonhar em sermos divas e um dia de nossas vidas, nem que seja um dia, entrar em um lugar e ser vista por ''ele'', essa figura mítica masculina que rege nossas vidas.

E quem é incentivada a sonhar com um mestrado, um doutorado? Não dá tempo!

E colocar um negócio propio? Já viu mulher lidar com o mundo real? Não consegue!

Estudar para muitas é um grande sacrifício, não pelo tempo, mas pela crença de que não é boa o suficiente para aquilo, porque a mensagem é sempre a mesma, mulheres são emocionais e não enfrentam bem os desafios acadêmicos.

E o outro lado da moeda também se aplica, o truque é fazer a mulher se sentir mal, então alguém pergunta se ela estudou, responde que não e logo vem o julgamento ''nossa, mas podia ter pelo menos terminado o ensino médio''.

Ah, sim, mulheres que não estudam se sentem mal, mulheres que estudam se sentem mal. É o mesmo jogo. 

Muitas mulheres que não estudam não o fazem por diversos motivos, o excesso de trabalho, responsabilidades, um marido inútil, filhos pequenos, mas o principal motivo é que não se sentem inteligentes o suficiente, se veem pequenas diante de um tubarão que não existe. Essas mulheres levam orçamentos domésticos, mas não se acham capazes de passar em uma prova de matemática, lidam com centenas de problemas todos os dias, mas não acreditam poder cumprir prazos de trabalhos e provas.

E tudo isso é mentira armada, ódio plantado. O patriarcado nunca quis mulheres em bancos de escolas e faculdades, não é do interesse deles nossa entrada a nenhum mundo que os faça perder o controle que tem sobre nossas vidas.

Nossa suposta burrice é mentira inventada, e tem sido assim durante séculos, nos fizeram acreditar que o mundo acadêmico é demais para nossas pequenas mentes. Depois plantaram o ódio que dizemos ter umas pelas outras, e pronto, o dano estava feito. 

Estamos acostumadas a olhar outra mulher com o mesmo olhar que recebemos do patriarcado, de desprezo e ódio.

E era uma história sobre duas jovens que falavam de uma terceira, ironizavam o mestrado que a moça tinha concluído, era ódio líquido que escorria pela boca.

Se a mentira não tivesse atravessado nossa vida seria uma história sobre duas jovens que se inspiraram em uma terceira e resolveram fazer alguma coisa de suas vidas. Pararam de se sentir mal com o que viam os outros fazerem e resolveram se mexer. Podia ser uma história sobre duas jovens que ficaram comovidas com o esforço da terceira, que contratou um professor particular para entrar em uma faculdade. Podia ser uma história de inspiração, uma mensagem extraordinária a todas as mulheres, acreditem na sua capacidade, inteligência e conquistem o mundo.

O bom é que as mentiras são frágeis paredes que um bom martelo derruba e podemos derrubar essa. Não somos burras e podemos estudar, evoluir, ter um negócio, ou ser dona de casa, não importa o que queremos ser, importa não se sentir burra.

O outro problema que o ódio traz é a conta alta, sim, pagamos pelo ódio que sentimos, ele nos puxa para baixo. Cada vez que vemos o sucesso de alguém e pensamos que poderia ser o nosso, vamos para baixo. Ódio não inspira, pelo contrário, te faz sentir mal.

A moça ao lado estudou, mudou de emprego, viajou, começou do zero?
Especular sobre como conseguiu isso e querer diminuir, não ajuda ninguém. Bom mesmo é olhar para o lado e se inspirar, pensar que se ela conseguiu, bom, eu posso estar mais perto do que quero. Foi possível para ela? Pode ser para mim. Em vez de jogar ódio e ressentimento, é melhor se aproximar e puxar uma conversa, conhecer um pouco inspira mais.

Mulheres são inspiradoras pela alta resistência a tudo, pela profundidade do seu amor e intensidade, e porque seguem em pé, apesar de tudo.

Quem está perto e muda algo, te prova que isso é uma coisa possível, sim, podemos reconstruir nossa vida, apesar de toda a terra que é jogada no nosso rosto.

E tenha a certeza, nenhuma mulher teve nada fácil nesta vida, todos escutamos as mesmas bobagens, recebemos as mesmas cargas de ódio e somos convencidas desde pequenas do nosso fracasso.

Quando odiar uma mulher sem motivos se pergunte se é real ou uma reação ao ódio que foi ensinado, se não é apenas um resto do lixo que carregamos. 

E pense duas vezes, se inspire, é mais fácil enfrentar um dragão quando sabemos que alguém já fez isso, do que ficar paralisada sem acreditar que pode fazer isso.

Todas as mulheres tiveram e têm os mesmos desafios, se inspire nas diferentes maneiras de enfrentá-los, de vivê-los.

Era uma história que poderia ser sobre duas jovens falando de uma terceira e no fim dizendo ''poxa, escutei a história dela e me senti inspirada para mudar minha vida, porque ela é parecida a mim, talvez seja eu, talvez seja eu lá na frente, quando tudo já deu certo''.


Iara De Dupont










quinta-feira, 7 de setembro de 2017

independência ou sorte?

Do alto do morro
um urro nos surra o sono

se aproxima ligeiro
aos galopes
solitário

sua ira 
irrompe a noite
e rasga o céu

sem nenhum exército.

do alto do sono
um sonho urra
ansiando morros:

Independência
ou
Sorte?






terça-feira, 29 de agosto de 2017

TERRA - O Filme


terça-feira, 22 de agosto de 2017

Você não pode sentir

Você não pode sentir, mas a lateral da caixa é áspera e a linha que o palito de fósforos faz nela é a minha linha da vida. Sabe, acho que não foi muito prudente ter me avisado que não tranca a porta quando sai de casa, sobretudo quando se tem um porteiro tão facilmente ludibriável quanto o seu. Você está fazendo escola, não é mesmo? Você sempre foi a minha grande referência quando o assunto é engambelar pessoas, a não ter o menor escrúpulo para ter qualquer um aos seus pés.

Você não pode sentir, mas já está começando a esquentar. O álcool parece ter sido o bastante, acho que sou realmente bom em causar estragos, ao menos é o que você sempre diz. Sempre foi assim, desde aquele dia quente, muito quente, em que nos conhecemos, daquela foto, a primeira, em que você aparece com a camisa toda mijada e com cara de nojo. A foto, assim como o álbum que a continha, foi a primeira coisa que atirei no fogo, você não faz ideia de como nossa família é inflamável! Foi só aproximar o fósforo da ponta que logo aquele plastiquinho amarelado começou a engruvinhar todo, a se retorcer que nem gato atropelado, se misturando a todos aqueles sorrisos de cera, que o fogo foi desmanchando ao menor contato. Uma pena você não ter visto, mas a vovó ficou muito bem chamuscada. 

Você não pode sentir, mas já está começando a feder bastante. Você não tem ideia de como todas estas coisas fedem. Se soubesse, talvez não tivesse acumulado toda essa bugiganga. O cheiro de tinta de sua coleção da Quatro Rodas me fere as narinas e os efeitos pirotécnicos que fez seu computador ao explodir fariam inveja a qualquer um daqueles filmes que você assiste. Sim, seu escritório, o imaculado, já foi inteiramente consumido. Daqui posso ver que as chamas já avançam para a sala e logo chegarão ao seu quarto. Demorou, mas finalmente consegui ter um lugar entre suas coisas e logo mais, não haverá escapatória - está tudo trancado e há grades nas janelas - eu me misturarei a todas elas, serei cinzas como elas, tão importante pra você como elas.

Você não pode sentir, mas meus olhos já ardem com toda essa fumaça. E não sou o único que sofre. Daqui da mesa da cozinha, único cômodo onde o fogo ainda não visitou, posso ver o desespero de seu gato siamês vindo da sala, os olhos esbugalhados, desenhando no chão uma trilha negra, feita com seu rabo em chamas. Mas estou certo de que você irá suportar bem isso, homem forte que sempre foi. Eu é que sempre fui um viadinho, não é mesmo, que chorava feito uma mocinha quando o gato do vizinho comeu o periquito australiano, não era assim que você dizia?

Você não pode sentir, mas o desespero já toma conta do prédio todo. Ouço gritos vindos dos cinco andares que estão acima e dos cinco andares que estão abaixo. Ouço vozes e passos desesperados dos que se atropelam nas escadas tentando fugir. Ouço também o porteiro, que a essa hora já percebeu o logro, e bate tresloucado a porta da sala. O fogo já se alastrou por todo o apartamento, aquele pra onde você fugiu quando concluiu que era perfeito demais para nós, ocupado demais para nós, probo demais para nós. Demais para nós. O calor me afoga, o fogo me circunda. Já não há mais tempo para muito, antes de lhe enviar isto e me desfazer também deste aparelho, única coisa que ainda me atrela ao mundo que divido com você.

Você não pode sentir.

Aliás, pai... você nunca sentiu nada. Mas eu sim. Eu sempre senti e agora... agora não há mais tempo. Fique apenas com minhas cinzas e com esta nossa primeira carta de amor.











domingo, 20 de agosto de 2017

Cultura inglesa

Quando decidi dar um upgrade na minha vida profissional, comecei pensando em um startup. Apesar de ser proativo não costumo ter insight, portanto achei melhor mobilizar contatos da minha network e selecionar alguns stakeholders.

Marquei um meeting com amigos headhunters. Eles me indicaram que o mercado de games estava aquecido. Poderia montar um home office e pegar alguns jobs, afinal eu já estava habituado a ser freelancer.

O deadline dos jobs costumam ser apertados, mas um bom coach poderia me orientar e facilitar as coisas. Logo teria um feedback que me diria se minha startup era ou não um case de sucesso.

Em pouco tempo fui alertado que poderia ter um handicap. Um handicap! Espero que isso não seja dolorido. De qualquer forma, imaginei que um bom outsider poderia me ajudar com isso. Do que não é capaz um bom outsider, não é mesmo?

Não precisaríamos da nada muito formal. Quem sabe uma trip juntos não contribui para fugirmos do maistream e um date na night pode perfeitamente me ajudar a entrar no mundo das offshores.

Por influência do meu manager comecei a pensar em um bom flyer. Isso ajudaria a divulgar meu business plain para os targets, o que, convenhamos, é essencial. Para esse job mais leve eu poderia utilizar o próprio home office, montar uma playlist que me agrada e partir para o make do flyer. Mechandising é tudo.

Depois já estaria tudo encaminhado. Um bom setlist com as tarefas do day by day facilitaria minha vida. Só precisava tomar cuidado com o borderline. Quem, no auge da empolgação nunca se esqueceu do borderline?

Com uma boa interface, que cuidadosamente passei a pronunciar ‘interfeice’, não tenho a menor dúvida de que conseguiria bons sponsors. Resiliência era a chave. Com dedicação e empenho, poderia tranquilamente ser um ageless. Gostei da ideia. Ageless.

Claro que nem tudo é fácil para quem é um self made man. Eu teria que ser CEO de mim mesmo. Aproveitar o happy hour para fazer network, marcar brunchs de negócios e trabalhar para me tornar um shareholder agressivo.

Resolvi não poupar esforços. Minha nova empreitada estava decidia. Ontem mesmo dei meu primeiro passo. Fiz minha matrícula em um curso de inglês.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Os peixes no aquário

Olhei para os peixes, nadando placidamente no aquário. Ocupando o espaço especialmente construído para este fim. Nadando placidamente. Objeto de decoração. Preenchendo o aquário, recortado, montado, criado, especialmente para este fim. Escolhidos a dedo, os peixes, bonitos, de preferência bem vistosos, coloridos, decorados. É preciso ainda que nadem. E brinquem, vez em quando outra, com as plantas subaquáticas, recortadas, montadas, criadas especialmente para este fim. O aquário é objeto de decoração, parque de diversões, paraíso artificial dos peixes especialmente reunidos, não por afinidades, não por laços consanguíneos. Os peixes no aquário selecionados, especialmente recortados, montados e criados para serem coloridos, vistosos, decorados. Plácidos. Não há predadores no recorte. Moleza. O caminho é fácil, plácido, colorido e selecionado. Basta nadar. Não há nem que seguir a corrente, pois o balanço do recorte subaquático é especialmente criado e artificialmente criado para este fim. Peixes estimulados, especialmente pensados a recriarem o movimento natural. Como se estivessem fora do recorte. Do paraíso. Os peixes são vigiados a todo momento. Caso não nadem ou apresentem sinais de rebeldia contra o pacote artificialmente criado, pensado e construído para este fim, são substituídos por outros peixes mais vistosos, decorados, coloridos e plácidos. A imitação da vida natural é uma falácia. Tudo o que vestem os peixes são máscaras. Especialmente colocadas e montadas para este fim. Ser objeto de decoração. Bonito, colorido, vistoso, plácido. Pouco importa se não é este seu habitat. Espera, um dos peixes comeu o outro. Não há moleza neste baile de máscaras. O balanço foi justamente criado, pensado e construído para este fim. Não existe inércia no balanço. Há que se mexer as barbatanas, ainda mais as vistosas, coloridas, decoradas especialmente para este fim.
Não me surpreende se um peixe decide morrer para sair do aquário. Especialmente para este fim.

Childe Hassam - “Bowl of Goldfish”

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Morte e morte de Maria

Maria morria de medo de morrer. Na verdade seu nome era Helena, mas gostava de ser chamada de Maria Helena. É mais chique, dizia ela. Com seus noventa e dois anos, as rugas das expressões brutas dominavam seu rosto. Odiava a vida, odiava as pessoas, odiava não conseguir fazer mais nada. Odiava não enxergar direito. Mas odiava mais a morte.

Lembrava-se frequentemente de quando era criança, no velório do pai. Que péssima lembrança, não devia ficar pensando nisso. O pai morrera de derrame, bem novo, e por isso, sua perna havia encolhido, sua mãe lhe explicara. No velório, na cidade pequena, lembrava-se do bafo do bêbado que, trocando as palavras, interrompera o luto da família. Cidade pequena é cheia dessas coisas.

São da família do falecido? perguntou o bêbado, passando correndo o olhar pela criança encolhida no canto. Forçando os olhos, se aproximou do caixão, chamando a atenção da matriarca da família. A perna dele está errada no caixão, apontou o bêbado para o caixão. Vou arrumar, disse, puxando a perna encolhida para baixo. A perna caiu do caixão.

Que horror, se lembrava Maria Helena. Não quero morrer, não quero ser isso. Não quero ser objeto de riso. Odiava a morte e a fragilidade do corpo. Por isso, pensava tanto nisso. Mas não devia, dizia de si para si.

Nos últimos anos, abandou o catolicismo e se tornou espírita. Na verdade, era uma espírita fajuta, pois nunca vira um espírita com medo de morrer. Afinal, a morte é apenas uma passagem. Ou deveria ser. No fundo, sabia que seria apenas comida de verme.

Invejava os personagens de suas ficções favoritas. Que coragem tinha Brás Cubas, ao dedicar suas memórias ao verme que primeiro roeu as frias carnes de seu cadáver. Por isso, resolveu fazer alguma coisa em relação a sua morte.

Pediu para a família o caixão mais barato. Não queria flores e não queria passar tempo em velório, com medo de aparecer um bêbado ou outra pessoa indesejada qualquer. Vai ser em casa, disse às filhas, que já não conversavam entre si.

Um dia resolveu pedir à neta que a buscasse em casa. Quero dar um passeio, pediu. Aonde vamos, vó? Quero ir ao cemitério novo da cidade, disse decidida.

Foram, e ao chegar lá, pegou todos os folhetos da recepção e foi caminhar pela área cheia de verde. Mas e o túmulo do vovô, por que a senhora não quer ser enterrada lá? - perguntou a neta. Não quero, respondeu. E o túmulo do seu pai e da sua mãe? Não quero ser enterrada perto de gente chata, esbravejou a avó, já resmungando.

Aqui é bonito, mas fica muito longe da cidade, refletiu em voz alta enquanto se apoiava em um corrimão para descer os degraus de volta ao estacionamento. Uai, mas que que tem? Indagou a neta. A senhora vai querer ir comprar pão na padaria todo dia, por acaso? Brincou a neta sorrindo, já acostumada com o jeito da avó.

Deu uma última olhada no cemitério antes de entrar no carro. Pelo menos tem muitas árvores. Resignada, Maria Helena comprou ali seu espaço e esperou silenciosamente o momento de se mudar para lá. 

sábado, 12 de agosto de 2017

Romeu e sua boneca de papel



 

Nos últimos tempos, digo, anos, aprendi a questionar tudo, penso duas vezes cada vez que escuto alguma coisa e chego a várias conclusões. Me pergunto mil vezes a quem convém o que é dito ou o que pode estar atrás disso.

Pode parecer paranoia, mas em um mundo onde a mulher é carne moída, não me parece errado prestar atenção em tudo que nos cerca.

Aprendi a desconfiar de uma figura bem popular, o famoso  ''Romeu'', aquele ser que amamos e na maioria dos casos decidimos dividir a vida com eles.

Mas Romeus não são grátis, nem transparentes, são humanos e neste caso humanos que cresceram debaixo das regalias dadas ao gênero masculino. Mesmo sem querer eles agem de um jeito misógino, educados e doutrinados nos privilégios e no excesso de direitos, ou de pensar que os têm, eles não são os anjos que pensamos que são.

Eu não critico eles abertamente, entendo hoje que são fruto de uma cultura, mas percebo também que a maior responsabilidade é minha, sou eu que tenho que estar atenta as armadilhas, consequências da educação que eles recebem.
Mas para que isso aconteça preciso tirar meus óculos cor de rosa e deixar de ser romântica, ver Romeu apenas como ele é, um homem que é resultado de uma cultura e age de acordo com isso.
Também não gosto disso, se fosse tudo de acordo as minhas fantasias eu preferiria viver em um mundo onde homens são parceiros legais e eu posso relaxar, sem estar atenta aos detalhes. Gostaria de estar em um planeta onde nada tivesse segundas intenções e não viessem coelhos escondidos na cartola, mas não tive essa sorte, sendo assim a melhor coisa que posso fazer é manter os olhos abertos e a mente flexível, deixar meus óculos cor de rosa enterrado no jardim e seguir a vida.

Veio minha amiga dizer que mudou de ideia, vai colocar silicone. Ela sempre foi magra e com pouco seio, mas dizia estar feliz desse jeito, seguiu um tempo a carreira de modelo e isso parecia ser uma vantagem, o pouco peito. Como viajou bastante conheceu outras culturas e  padrões de beleza, assim nunca se incomodou por ter o peito pequeno.

Ela começou a falar sobre algumas mudanças e falou sobre o silicone. Na hora perguntei a ela se ainda estava namorando e me confirmou que sim.

Minha percepção sobre o assunto mudou na hora. Se uma mulher me diz que vai colocar silicone e está sozinha, eu percebo que foi uma decisão dela, mas se tem um Romeu na história desconfio de tudo, de cada vírgula, de cada palavra.

E faço isso baseada na minha fantástica experiência com homens. Eles são doutrinados para pensar que tem poder sobre nossa aparência, acreditam que decidem o que vestimos ou não e que os seduzimos usando a roupa que eles escolhem.
Como não pode mais ser um jogo tão aberto, para não parecer dominante, o discurso mudou, agora Romeus falam mansinho e começam a frase dizendo ''eu te aceito do teu jeito, mas poxa amor, podia ter mais peito ou ser mais magra né?''.

Se eu namorasse hoje os homens que um dia namorei, com certeza pesaria cinquenta quilos, porque algumas vezes sofri a pressão aberta e direta e outras vezes a voz mansinha que me alertava que eu estava engordando, mas sempre era a voz do macho ditando regras sobre minha aparência.

Eles nos veem como bonecas e nós, mulheres, fazíamos isso com nossas bonecas na infância, cortávamos seu cabelo e mudávamos suas roupas, eles fazem a mesma coisa e acham que têm o direito de modificar algumas partes do nosso corpo para satisfazer suas fantasias sexuais.
E não param, se a mulher der uma folga, eles caem matando, começam a buzinar de leve, seja para que  a mulher emagreça ou coloque silicone, mas eles apertam, se aproveitam do desejo criado nas mulheres em querer agradar os homens que amam, essa é a porta do inferno.

Canso de escutar amigas dizendo ''eu não me incomodo em ser gorda ou não ter peito, mas Romeu me diz que se posso melhorar, por que não fazê-lo?''.
É, por que não fazê-lo?

E até onde vamos por isso? É viável deitar em uma mesa, levar anestesia geral, apenas porque Romeu gosta de mulheres com peitos grandes? Eles valem esse risco? E o que ganhamos em troca? Ele vai fazer um implante para aumentar o tamanho do pênis?

Alguma mulher já sugeriu isso ao seu Romeu, que aumente seu pênis?

Nós temos feito muitas coisas por ingênuas, aceitamos outras por ignorância, mas isso tem que acabar, não podemos continuar dessa maneira, sendo controladas por homens e seus caprichos.

E digo uma coisa, já temos conhecimento para reagir, não somos mais as bobas que tinham o acesso a informação negados,  hoje sabemos que vivemos em um emaranhado social onde somos as presas, tudo é voltado para nos caçar.

E não existem palavras doces de Romeu que não venham carregadas de manipulação e controle, ele pode ser ótimo, mas foi educado para conseguir o que quer em cima de uma mulher, se ele quer peitos grandes, ela vai ter peitos grandes.

E todas aquelas histórias que algumas mulheres me contam, como ''ele me dá apoio'' são mentira, parte de uma fantasia, ora, por que não daria apoio se você está fazendo o que ele mandou?

Se você abrir bem os olhos vai perceber que esse apoio só é dado quando é alguma coisa do interesse dele, não do teu.
Romeus podem parecer fofos e prontos para dar apoio, mas apenas estão vendo o que é conveniente ou não, parecer um cara legal é um bom negócio, dá lucro, ficar de fala mansa na orelha da mulher, dizendo que ''enlouqueceria se ela tivesse peitos maiores'', vai dar resultado.

Sou a favor de todas as mudanças físicas que uma mulher queira fazer, é seu corpo, mas cada vez que sei que tem um Romeu na história, fecho a questão. Posso me ver ali, sendo massacrada pelos meus doces namorados, escutando a mesma coisa.

Uma vez um deles me disse ''olha, você é bonita, mas se perdesse peso seria um escândalo''. Outro dizia ''poxa, pra quê se largar desse jeito, tenta uma dietinha, eu te ajudo''.

Ah, mas também namorei os legais, aqueles que comiam pizza comigo, mas o jogo deles era o contrário, adoravam que eu engordasse para que ficasse mais insegura, porque me excesso de peso me deixava insegura, eu não me aceitava, assim ficava na mão deles para ser facilmente manipulada.

Na frente de um homem, qualquer homem, nossa aparência não passa daquelas bonecas de papel, eles acham que podem cortar, tirar e amassar, até se aproximar das doentes fantasias que carregam.

Chega de colocar a culpa neles, somos nós, mulheres, que temos que acordar e cortar todas essas cordas de manipulação. Romeu quer uma namorada magra? Bom, não sou eu, ele que vá procurar outra se isso é tão importante assim. Quer uma namorada com peitos maiores? Que procure, eu não vou viver em um relacionamento onde não me aceitam como sou. E o principal, que me tratem como eu trato, porque jamais disse a nenhum homem para aumentar o pênis e olha que eu tinha motivos para dizer isso, mas sempre respeitei e nunca tratei ninguém como pedaço de carne.
Por cultura, conveniência e estrutura social, os homens não vão mudar, somos nós que temos que colocar a linha do limite.

Não podemos mais aceitar o controle masculino em nossas vidas e corpos, não adianta fazer textão nas redes e depois correr para colocar silicone porque Romeu pediu.

Se a mulher quer mudar sua aparência, colocar silicone, emagrecer, cortar o cabelo, o que for, tem que tirar os óculos cor de rosa e parar para pensar, abrir todas as janelas, jogar todas as possibilidades na mesa e se perguntar de maneira sincera ''é minha vontade ou a discreta pressão do Romeu?''.
Caso a resposta seja a ''discreta pressão do Romeu'' é fim de linha, melhor mudar de amor.

Amor bom é aquele que nos aceita como somos e não quer mudar nada, isso é amor, o resto é um Romeu criado em uma sociedade doente pensando que mulheres são suas bonecas de papel. Tá na hora de colocar fogo nessa ideia. 



Iara De Dupont




quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Quando te vi


Quando te vi não poderia imaginar quem você era, e quem seria na minha vida.
[Não sabia sequer se você seria parte da minha vida]

Te ver, te rever, te conhecer.
Indagar sobre suas preferências, suas crenças e suas opiniões.
Sentir o toque, o cheiro, o arrepio, o gosto.
Descobrir seus medos, seus sonhos, suas angústias e inspirações.


Segredos, confidências e coisas que nunca foram verbalizadas, mas acabam sendo compartilhadas ao cair da noite, ao luar contemplado da varanda ou sob os lençóis.

Nunca te conhecerei completamente.
Nunca conhecerei a mim mesma completamente.
Estamos sempre nos descobrindo, acrescentando de um lado, aparando do outro, reinventando a nós mesmos e as nossas relações. 

Essa é a graça.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Favor confirmar presença

 Ninguém precisa ficar até o final da festa.
 Ás vezes a gente nem queria ter vindo.
 Eu não conheço quase ninguém aqui.
 Ninguém aqui tem nada a ver comigo.
 Talvez esse meu desânimo esteja atrapalhando.

  Quando eu for embora,
  vou sair de fininho, ninguém vai notar.
  "À francesa", sem me despedir, sem chamar atenção.
  Quando repararem (se é que repararem) eu já sai.

  Meu objetivo nem é voltar pra casa; é só, pura e simplesmente, sair daqui.
  Ficar seria sempre a pior opção, e qualquer tempo que eu fiquei foi tempo demais.

  Pode ser que alguns se chateiem.
  Mas essa frustração é passageira.
  Pensa no tempo que tentei ficar.
  Pensa no tempo que fiquei.
  Nunca foi por mim, que esse tempo baste para que se sinta bem.

  Às vezes a gente só não se encaixa.

  Não aguento mais , preciso tomar coragem e ir embora.
  Pensei tempo demais nisso, não é mais questão de ir ou não, é só de quando.

  Tem gente que se mata.
  Não apóio, não incentivo, mas eu entendo.
  Eu admiro, entendo e respeito.
  Tento não julgar.

  Tenho dó só de quem ficou.
  Assim como todo mundo.
  E pavor, de ser quem fica.
  Quero todos comigo até a última canção.

  Mas mesmo assim a festa uma hora termina, não é?!
  Que triste se forçar a sofrer só pra me fazer companhia.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Dislexia criativa

Dos quadros que não terminei
Das palavras que soltei
Do quanto esperei
De quando deixei
De quando cantei
De quando simplesmente dancei
De tanto sentir
Do que se é
Do que compreende
Do que ninguém entende
Do choro
Das dúvidas
Do cansaço
Do riso fácil
Da necessidade de transbordar
De querer tentar
Do que traz a calma
Do que faz silenciar
Das dicotomias
Da vontade de voar
Do que traz vida
Do que faz criar
De simplesmente respirar
Da necessidade de mudar tudo de lugar