sábado, 3 de dezembro de 2016

Essência

            O essencial é invisível aos olhos, ele floresce na alma. As inquietudes surgem quando estamos, de alguma forma, longe da nossa essência. Mas como reconhecer o que é essencial em tempos que só corremos contra o relógio? Em um mundo onde crescemos domesticados com regras que fazem sentido aos que nos antecederam? Não é por mal, os mais vividos passam a receita deles do que é ser bem-sucedido e, isso, para muitos, significa ter carreira, família, propriedade.

            Você se obriga a escolher uma profissão logo que sai do colégio, passa mais alguns anos estudando para ter um diploma para ajudá-lo a entrar num mercado de trabalho que, ainda, exige diversos outros cursos. Você estuda, estuda, estuda e trabalha, trabalha, trabalha. Fica das 8 às 18h (quando não mais) trabalhando. Volta pra casa com a exaustão da rotina, toma banho, janta, dorme e, no dia seguinte, tudo de novo. Quando você tem tempo para ouvir nas necessidades da sua alma?

            Há quem seja feliz nesse moinho de gastar gente, mas há uma geração de pessoais infelizes que, depois de muito tempo nessa rotina, se questiona “o que estou fazendo da vida?”. Nesse ponto, o maior salário do mundo nunca será o bastante, ele vira artifícios para suprir a frustração, com copos cheios para minimizar o vazio da rotina insana.

            No vai e vem dos dias, é preciso parar e respirar, observando o que te move, o que te impulsiona a levantar da cama todos os dias. Propriedades e carreira não resumem nossa essência. Ser bem-sucedido é estar em paz, é seguir o que nossa alma pede, é compreender a nossa essência e respeitá-la. Más como? Parando de ouvir o mundo e ouvindo o coração, afinal, só nós sabemos o que realmente se passar no nosso íntimo. O caminho é nosso, só nosso. Ninguém pode nos direcionar ou nos salvar. A essência é nossa, só nossa! E nada é mais gratificante que reconhecer as inquietudes da alma e respeitar a essência. É nesse momento que a vida começa a ter fluidez natural, pois, finalmente, você achou o caminho certo: o caminho que a tua essência pede. Que a essência transborde e viva em constante primavera, florescendo sempre.


          

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A injustificável ausência do ser

Em meio à decadência e tristeza da loucura, nos corredores de um hospício na Áustria do século XIX, um ancião, empurrado em sua cadeira de rodas, declara uma benção para todos os desgarrados em seu caminho: “Medíocres de todos os cantos, eu os absolvo. Absolvo a todos”.

Salieri, em sua mediocridade autoproclamada, fez as pazes consigo. Ainda não consegui isto.

Não me conformo com minha pequenez. Não gosto de ser menos; mas sou. E vou escondendo meus passos, julgando em silêncio os dos outros; dependendo da aprovação alheia enquanto digo não me importar com ela.

Tento justificar os meses sem publicar? Não posso. Está no título. Busco perdão? Não sou disso. Se o texto parece de confessionário, penso mais como divã.

Com os defeitos expostos no papel, fica mais fácil exterminá-los. Mas me falta o ânimo para tratar deles. O tédio me envolve e mais uma vez estou assistindo a vida passar.

Acho que é isso o que faço agora. Minha lista pessoal de falhas. Porque não basta ser mediano, é preciso da preguiça pra completar. Um mundo cheio de possibilidades e eu encontro tempo para me entediar em frente ao computador.

Medíocre.

E mais um dia se passa. E o vejo passar, julgando a mim e aos outros. Ritual macabro, sem fim e sem propósito.

Arre, estou farto de gente! Onde é que há semideuses no mundo?

Preciso que haja mais na humanidade do que vejo passar em todos esses feeds do meu dia. O mundo anda me assustando...

... E fiz de novo. Meu vício. Desculpar minhas faltas nas faltas dos outros. Não tem justificativa, Gabriel. Olha o título.

Me recolho então, sem saber como finalizar o texto. Sem coragem de apertar o botão de enviar. Quem sempre foi júri, se caga em ser réu.

Mas um dia eu melhoro e viro Salieri. Satisfeito em presenciar as maravilhas do mundo do lado de fora. E quando for juiz e executor de mim, quem sabe poderei olhar no espelho e finalmente ter propriedade para dizer “eu lhe absolvo”.  



12 meses não são muito.

E hoje faz um ano que eu fiz a minha primeira postagem neste Blog. Um ano no qual escrevi mais para mim e menos por grana. Um ano no qual ajudei pessoas a alavancarem seus projetos mais do que impulsionei coisas minhas, e isso me deixou muito feliz. Um ano no qual aprendi diversas coisas sobre relacionamentos, sobre respeito, sobre arte, escrita e carreira. Um ano no qual não fiz várias das mudanças que gostaria.
Aceitar o convite para postar nesse espaço foi um dos passos que tomei para mudar a vida. Não sei se posso atribuir tantas mudanças a esse pontapé inicial, mas para mim, como diria Ronnie Von, significa.  Esse blog é o lugar onde posso escrever de forma descompromissada, e que me obriga a, todo dia 1, inventar algo espontâneo e de que eu queira falar. É uma tela em branco, que tem urgência de ser preenchida.
Comemoro esse primeiro ano pensando que estou curtindo muito a experiência, e me prometendo uma regularidade maior de postagens boas nos próximos 12 meses.
Um brinde, então:
"Aos amores perdidos, postagens esquecidas, e à estação dos textos. E que cada um de nós pague a Neil Gaiman os direitos autorais merecidos por plágio"



terça-feira, 29 de novembro de 2016

2016

Antes, quero prestar solidariedade aos familiares, amigos e todos que torcem pela Chapecoense e todos envolvidos nesta tragédia. O mais profundo sentimento. Que haja consolo e amor neste momento de dor.

Agora, venho alertar que hoje o barato vai ser longo, talvez enfadonho, talvez chato, talvez repetitivo e cheio de palavras desnecessárias.

Hoje quero repetir, assim repetir insanamente as palavras. Então se não quer ler, volte para onde estava e gaste seu tempo como queira, não desperdice aqui, pois o tempo urge e é precioso.


De sexta para cá ressoa dentre tantas, apenas algumas perturbações nesta mente aqui. Sim insana, sabe quando você começa a pensar em tudo e quer falar sobre tudo no mesmo instante.

A primeira perturbação é que em maio de 2016 foi golpe e as notícias dos últimos meses só reforçam e comprovam o que era certeza, tratava-se mesmo de golpe jurídico, midiático e parlamentar e não adianta reclamar viu enquanto viver será repetido como mantra, oração, verso ou vômito onde quer que escreva.

A segunda perturbação, o Trump ou quer dizer o boneco mor venceu e agora Marias, Josés, Jesus, Chicas, Josefinas etc?

A terceira perturbação seu Fidel se foi, assim como grandes referências tem ido descansar e revelam-se enormes perdas para aqueles que almejam de todo ser outra sociedade ou forma de viver.

 E a quarta e última perturbação mais latente, ainda quero falar sobre o “Próxima B” e filme. Daí se pergunta nossa, mas que tanto tem pra falar disso. Nada demais é que queria mesmo falar sobre. Juro, coisa de desocupado sabe.

Então como tudo nesta vida, será por critério e conforme as necessidades e urgências seguem as eliminações, a última perturbação será tratada em janeiro e no mínimo você deve saber o que é “Próxima B” e sugiro que assista ao filme “Prometheus (2012)” para viajar anos luz para o universo das possibilidades.

Da penúltima perturbação e já considerando que o comandante Fidel independente da vontade alheia (seja à direita, meio ou esquerda) jamais poderá ignorá-lo e sem titubear está dos anais da ilha para a história mundial, menciono o meu respeito de colocá-lo como assunto para o próximo ano.

Faço questão de lembrá-lo para além do mês em que se concretizou seu descanso, para me permitir conhecer um pouco mais da história o que para o ano que vem deve bastar. Pelo menos para saber o mínimo e não ser tão leviana e superficial.

Daí os pessimistas ou filhos dos putos que fogem e não assumem os filhos dirão:
- nossa mais já está pensando no ano que vem? Não está vendo como foi 2016 é capaz da gente nem estar vivo.

E oxalá Deus! Repreenda esses pensamentos ai meus santos. Tira esses prótons e elétrons negativos da vida desses seres humanos. Pensemos como as empresas chinesas e japonesas com anarquia e comunismo misturado que fazem o hoje pensando daqui 100/200 anos. Amém.

Assim restaram as duas outras perturbações sendo que falar de uma é mencionar a outra.

Comentar a vitória de Trump é tratar do golpe e dos assuntos no Brasil. Nenhuma situação econômica está descolada da realidade mundial, porque como sabemos não vivemos e até os dias de hoje nenhum país vivenciou a experiência socialista, logo estamos no mundo globalizado, capitalista e desgraçado que partilha apenas as dores e dissabores econômicos, pois a concentração da riqueza está somente com 67 pessoas ou 1% da humanidade.

O Trump ter vencido as eleições é retrocesso sim, mas não é novo no contexto político, como já dizia o tiozão Marx:

 As gerações tendem a conjurar a ajuda dos espíritos malignos e encapetados do passado e “tomam emprestados os seus nomes, as suas palavras de ordem, o seu figurino, a fim de representar, com essa vulnerável roupagem tradicional e essa linguagem tomada de empréstimo, os rumos da nova história mundial”.

Entender esta nova ordem de empresários que se candidata a prefeitos, governadores, presidentes e para outras posições no Estado Moderno é essencial para nos posicionar frente à avalanche de retrocessos que virão no campo dos direitos sociais, mais especialmente no trabalho.

Aqui temos uma característica muito particular que embora tenha procurado quase ninguém pontuou ou se atentou ou esqueceu mesmo ou sei lá não acha que importa pelo menos nos artigos/matérias lidas, o que já confesso não foram muitos.

No livro “Estado e Forma Política” da editora Boitempo de 2013 encontram-se frestas de luzes para senão animar nos fazer enxergar um pouco melhor, principalmente já no início do livro, assim no primeiro capítulo:

“O Estado, tal qual se apresenta na atualidade, não foi uma forma de organização política vista em sociedades anteriores da história. Sua manifestação é especificamente moderna, capitalista. Em modos de produção anteriores ao capitalismo, não há uma separação estrutural entre aqueles que dominam economicamente e aqueles que dominam politicamente: de modo geral, são as mesmas classes, grupos e indivíduos – os senhores de escravos ou os senhores feudais – que controlam tanto os setores econômicos quantos os políticos de suas sociedades.”

Entenda que Alysson Mascaro meteu o pé na porta e na cara da gente com um páááááá! Acordem porra! 

Mentira que ele nem tem jeito de quem fala estas palavras torpes. Quem já o viu sabe da voz calma, do jeito discreto e que entre Marx e Estado faz menção até ao amor, abraço e fraternidade tudo pra meter o socialismo na sua cabeça.

Rindo como hiena. 
Sim, sou besta e nem eu me aguento.

Agora risada de bruxa, pois o assunto é um tédio, porre e estou desdobrando o quanto dá para que seja mais agradável.

Lero lero a parte agora vem Alysson com a cereja no bolo, espia com cuidado:

“Se alguém chamar por Estado o domínio antigo, estará tratando do mando político direto das classes econômicas exploradoras. No capitalismo, no entanto, abre-se a separação entre o domínio econômico e o domínio político. O burguês não é necessariamente o agente estatal. As figuras aparecem, a princípio, como distintas. Na condensação do domínio político em uma figura distinta da do burguês, no capitalismo, identifica-se especificamente os contornos do fenômeno estatal. (pg.17)”

Nesta nova composição, mais exatamente em 2016 com golpes institucionais por toda América Latina, sendo que os invasores destas posições seja na Argentina, Brasil e outros em curso como Venezuela se assemelham muitíssimo com a política atual, de empresário, liberal exalando por todos os poros, de capitalismo selvagem no modo de agir e pensar inteiramente alinhado a figura de Trump.

Agora o burguês é sim um agente estatal, que nega veementemente a política e se assume empresário. Empresário que saiu das sombras, do espectro na relação de forças no Estado quando ditavam as regras através de outros agentes públicos que o Estado tem que ser mínimo que não deve ser grande (ter muitos direitos sociais) porque se sobrepõe em impostos, em receitas e dívidas e orçamentos, ou seja, leva a falência o setor público.

Agora, com eleição de Trump, os empresários não são mais mediadores ocultos no Estado.

Notaram que financiar políticos não estava resolvendo as questões centrais e importantes do empresariado, da acumulação capitalista e manutenção da esfera única de poder.

Neste livro que agora leio e não passo os olhos como tempos atrás é mais evidente, principalmente quando Alysson joga focos flamejantes de luzes:

 “A separação entre o político e o econômico permite a valorização do valor, forjando suas formas, mas isso se dá num processo que contém, intrinsecamente, a contradição, justamente por conta da própria separação e do apoderamento dividido.”

Termos empresários no Estado como agente estatal seja quatro anos ou em oito anos nos mostra a necessidade do sistema capitalista em juntar o político (mesmo o negando) do econômico.

Sabe-se perfeitamente que o empresariado se coloca ou a mídia em especial televisiva coloca-os como responsáveis pelo emprego, logo pela roda que faz girar a economia; mas até o momento como apolítico, mesmo que tenha mediadores a seu serviço. O fato de Trump ter esta ascensão política significa e mostra contradições que não são novas, mas devem ser percebidas na relação de forças entre classes sociais.

Resumindo, só existe uma defesa quando tem ataque que abale a estrutura com maiores reivindicações por qualidade de vida e, portanto mais direitos sociais e ainda o desejo latente de um estado, de fato, de bem estar social. 

Também só existe mudança (mesmo que velha) nas peças do jogo quando a crise é extremamente profunda e disso jamais saberemos as proporções e profundidade tendo em vista que os establishment se reúnem de forma isolada e seletiva.

Mais do que isso, as contradições estão mais que postas e contemplo com bons olhos, embora saiba que o que está por vir não é um mar de rosas.

Poderíamos nos ater a evidenciar mais estas contradições do capital, a mais recente em 2015 com o tão falado, mas nem tanto divulgado acordo TTP – Tratado Transpacífico que nada mais é do que o maior acordo comercial de todos os tempos, com os países mais desenvolvidos economicamente.

O megabloco econômico formado por 5 países americanos: EUA, Canadá, México, Peru e Chile; 5 asiáticos: Japão, Malásia, Vietnã, Cingapura e Brunei e outros dois países da Oceania: Austrália e  Nova Zelândia criado com a desculpa de diminuir tributos, impostos, mas que na realidade trata-se da segregação econômica.

Este acordo nada mais é do que o método econômico mais excludente e seletivo e acumulativo de riquezas e capital num sistema capitalista que defende o livre comércio, a globalização e livre circulação de mercadorias entre todos os países.   

O resto. Bom os demais países como Brasil servirão assim:

“A junção do aparato político com o imediato interesse econômico dominante representaria uma volta a modos de produção do tipo escravagista ou feudal. (pg46)

Só lendo o Alysson para perceber que as relações sociais ou luta de classes que serão acirradíssimas, caso haja junção da forma política e econômica e é o que parece que está ocorrendo tendem a diminuir os direitos sociais, humanos, mas com objetivo na relação de trabalho e formas contratuais.  

Sendo mais específica, o trabalho ou forma de contrato tende a ser modificado, as formas de direitos trabalhistas deixarão de existir e serão subumanas.

Ou noutras palavras, sejam bem vindos profissionais liberais ou adeus funcionalismo público ou direitos trabalhistas. Notamos que a mídia já divulga a dificuldade do empresariado em manter os direitos trabalhistas em vários países. 

Seja com golpe ou eleições dos Trumps com apoio das redes na disseminação de informações falsas sendo admitidas por jovens com talento que querem ganhar dinheiro, vemos que o alvo é o mundo do trabalho.

Sabendo que empresários jamais pagaram impostos como deveriam e não digo empresários micros e pequenos, mas o grande, aqueles que dificilmente a Receita Federal (em especial do Brasil) nunca encontra ou que a justiça jamais prende.

Desesperos a parte, Alysson considera algo que julgo de suma importância com direito a POW POW POW no destaque no meu livro, olha só isso:

“O Estado não se altera apenas por conta das decisões de seu próprio poder ou de suas funções internas, mas principalmente, por conta das injunções de demandas estruturais externas a si. No seio da relativa autonomia do Estado perante a dinâmica da sociedade capitalista, revela-se tanto a sua capacidade de reprocessar as contradições sociais, buscando manter seus horizontes econômicos de fundo, quanto a própria permeabilidade do aparato estatal às contradições. Por não ser um aparelho imediato de uma classe, o Estado não pode ter meios de garantia de que padrões específicos da reprodução social capitalista venham a se prolongar infinitamente. (pg48)”

Agora vem o êxtase, aquela sensação de que nada é para sempre  e que mesmo sendo o agente estatal um empresário terá que lidar com a dinâmica das relações sociais e, portanto acirramento da luta de classe por manutenção de direitos e aprofundamento da democracia!!!

“As crise do capitalismo podem ser retrabalhadas, reformuladas e minoradas por meio do Estado, mas podem também ser majoradas e, eventualmente, levar ao colapso do próprio modo de produção capitalista. (pg.48)”

A partir desta analise do Alysson  surgem enes hipóteses de que escolher se colocar como agente estatal sendo empresário pode reverter à lógica a ponto de sucumbir a acumulação e sociedade de classes.

Também observar alguns esquemas de censuras já empreendidos pelos recursos humanos de empresas que se diga contrata força de trabalho e vende ou comercializa algum produto e deve respeitar acordos democráticos ou seguir a tão mencionada responsabilidade social seja o dono quem for.

Empresas sem ética e responsabilidade se prestam ao desserviço de censurar de forma velada aqueles se manifestam por meio de rede social sendo contrários a retrocessos ou a favor de pautas progressistas.

 Ainda vou cansar de falar deste assunto e faço uso deste suposto poder munida do conhecimento de direitos e, portanto me vendo apta para defender a outros. Afinal os acordos para vender a força de trabalho foram criados na republica e quem a  criou ou defende ou finge respeitar deve se atentar a regras do jogo.

Então cabe pedir desde já, mais respeito com aqueles que buscam por uma vaga de trabalho, independente da posição política.

Parece insano supor,  que a lógica capitalista encontra-se atualmente permeada por sérias contradições, tal como a notícia divulgada  recentemente por jornal de maior circulação ao mencionar que a crise diminuiu a desigualdade social porque todos se tornam mais pobres. (???)


Aqui além de risadas estrondosas no dia anterior, hoje cabe dizer um afffffeeeeeeee  beeeem grande e alertá-los que esta lógica não condiz com os capitalistas que classificam as classes sociais como pobres, médias e ricas. Pior ainda, não justifica aquela ideia de “trabalhe para ter sucesso” ou justifica ou faz jus a quem o próprio sistema elencou como classe média.


A cada pressão em diminuir o Estado de Direito e alterar as relações contratuais de trabalho que se encontram no mínimo é impor o escravismo feudal ou o enfrentamento desta contradição, pois tendo o trabalhador adquirido direitos para aceitar os retrocessos somente com o punho militarizado.

Entre estratégias nas contradições e esperanças para quem almeja outra sociedade versus golpes e vitórias eleitorais do ultraconservadorismo estão postas as possibilidades. Resta identificá-las. 


2017 ou já?


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terça-feira, 22 de novembro de 2016

A voz e a vez do criado mudo


A VOZ E A VEZ DO CRIADO MUDO

No dia em que o criado mudo falou
soltou logo um palavrão
porque era mal criado
mesmo sendo um criado bom

O criado não era cômoda
e tampouco lhe era cômodo
ficar assim acomodado
foi por isso que falou

Falou tanto que fez inveja
ao fogão de quatro bocas
além de fazer cosquinhas
nas frieiras do pé do ouvido

Quando falou, tudo mudou
Não daria mais seu apoio
a copos molhados
celulares vibrantes
livros ruins

Não seria obrigado!

A mudez virou mudança
nas palavras do criado
Fez escola ao tapete
Não seriam mais capacho

Tirou do fundo de si
tudo que estava engavetado
falou o que sempre quis falar
desde que fora criado

(...)

Depois que o criado mudo falou
até mesmo o ponto cego
passou a ver umas coisinhas...


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

EU IA ESCREVER SOBRE...

... Black Mirror, e o quanto esta série retrata (a meu ver) os dias de hoje, nesse mundão tecnológico.
Mas aí vi que já era 21 de novembro, acabei de chegar na rádio e tenho uma pancada de coisa pra resolver aqui.

Por isso, fiquem com essa música, que faz parte da minha playlist no celular.
Ouvi agora há pouquinho, no busão, vindo pra cá.

Boa noite, bom fim de mês, e até 21 de dezembro!

domingo, 20 de novembro de 2016

O que a Lua viu

Superlua vista da Síria
De vez em quando a Lua se aproxima da Terra. Mantém uma distância segura, mas chega um pouquinho mais perto e dá uma espiada para saber o que se passa no planeta que orbita.

A última visita havia sido em 1948. Ficou perplexa. Sentiu logo um clima de constrangimento no ar. Pareciam todos um monte de crianças que haviam acabado de serem pegas em alguma travessura grave, sabendo que era hora de arrumar a bagunça.

Boa parte da Europa estava tão destruída que chegava a assustar. A África com fome. A parte de baixo da América até que não parecia tão mal, mas havia um clima tenso, com divergências que pareciam o começo da fervura de uma panela de pressão; já a parte de cima parecia ter a situação mais tranquila, mas pairava uma vergonha gigantesca, como se a travessura tivesse sido a maior de todas.

Quando chegou na Ásia viu o nascimento de Israel e pareceu sensato, ao menos à primeira vista, aquelas pessoas que saíram da Europa para fundar o próprio Estado. A Índia chorava a morte de Gandhi, assassinato que deixou a Lua triste. E ao chegar ao Japão compreendeu o sentimento de vergonha que testemunhou na América. 

A Lua ficou tão horrorizada que resolveu se afastar. Triste, mas esperançosa. Ficou com a impressão de que a travessura havia chegado ao fim. Era hora de limpar a bagunça, colar os cacos e seguir a vida.

Nesse ano a Lua voltou. Começou pelo Japão e se o que encontrasse por lá ainda mostrasse o que havia visto há quase setenta anos voltaria a se afastar de imediato. Ficou contente. Tudo arrumadinho, nem parecia que estava tudo tão bagunçado da outra vez. Teve até uma grande cratera no meio da rua consertada imediatamente para dar boa impressão.

A Europa também estava bonita. Tudo reconstruído, lavado, pintado, mas com alguns conflitos e tensões. Uma olhada mais ao sul e a África seguia faminta – ainda? até quando? – e o recém-nascido Israel cresceu mimado, o dono da bola que aos poucos foi tomando tudo como se fosse seu. Que pena. Tão promissor...

Logo ao lado entendeu boa parte da tensão europeia. Encontrou a origem de toda aquela gente que chegava ou tentava chegar, dividindo opiniões e buscando espaço, ao mesmo tempo em que faziam acusações pesadas.

A América estava estranha. Há quem diga que as divergências que começavam a ganhar corpo em sua última visita implodiram criando uma espécie de buraco negro em algumas regiões, que depois foram tampados, mas agora tinha gente com saudade do buraco negro. Que povo confuso.

O norte da América também parecia estranho. Uns felizes pela promessa de sair da crise, outros revoltados pela tendência de entrar em crise. Estão em crise ou não? Que confusão!

De novo a Lua achou melhor se afastar. Se da última vez ficou com a impressão de que estava ruim com indicativo de melhora, dessa vez achou prudente não criar expectativas. Preocupada com os próximos acontecimentos, reduziu o intervalo das visitas e agendou a próxima para 2034. Temos menos de vinte anos para melhorar nosso cartão de visitas.



sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Home Office


Bom dia!
Relógio desperta (sim, também colocamos relógio para despertar)
Hoje eu tenho um job para entregar as 16h.
Pai, faz meu todinho?
Bom dia, filha! Faço sim.
Telefone... Alô, você tem interesse no nosso cartão? Não, obrigado.
Pai, faz meu todinho?
Sim, filha. Um minuto!
Acabou o filtro de café, droga...
Não posso esquecer de pagar o convênio.
Pai...
Já sei! O todinho! Aqui filha, não esquece de escovar os dentes depois.
Interfone... Sr. André, chegou uma encomenda na portaria.
Obrigado, já já busco aí. Valeu!
Pai, posso ver Bel no computador?
Já escovou os dentes?
Emails da loja! Tenho que responder agora. Mas tenho o job pra entregar as 16h... vou responder os e-mails e começar.
Pai... a senha do computador!
Já vou...
Mais café.
Emails respondidos!
Filha, hora de se arrumar pra escola...
Vou fazer o arroz pro almoço.
Pai, cadê meu tênis?
Vê no seu quarto, oras!
Arroz feito, agora preparar a lancheira.
Tá pronta, filha?
Tô, pai.
Vem almoçar.
Vou pagar o convênio enquanto ela almoça.
Pai, acabei...
Então vamos. Vou pegar sua mochila e lancheira.
Sr. André, a encomenda está aqui, tá?
Legal, na  volta eu pego.
Boa aula, filha! Até daqui a pouco.
AH, o filtro de café... vou precisar para a tarde, vou passar no mercado na volta.
Sr. André, aqui a encomenda para o Senhor.
Valeu, desculpa a demora, boa tarde!
De volta para casa... falta pouco pra acabar o trabalho até as 16h.
Opa, mensagem com cliente querendo reunião no Skype. Ok... Boa notícia, prazo prorrogado para amanhã as 9h da manhã.
Vou fazer um café para trabalhar até o horário de buscar a filha na escola.
John Coltrane faz a trilha sonora do trabalho, jazz sempre cai bem nessas horas.
Mais e-mails da loja, vou responder.
A tarde voou, hora de buscar a pequena na escola.
Pai, a lição hoje é difícil. Você me ajuda?
Claro, filha!
Mamãe chegou! Oi amor...
Ainda bem que posso entregar o job amanhã cedo, vou acabar o restante a noite.
Ufa, amanhã é só mandar por email o trabalho. Depois disso, vou publicar meu texto do mês no blog.
Bom descanso... ou bom trabalho!

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Lado B

               

               Hoje era seu aniversário e estava preparando algo especial. Já eram 17h15 no relógio e hoje decidira que iria fechar a drogaria às 18h. Sabia que seu pai não itiaa gostar, pois sempre dizia “é entre as 18h e 19h que as grandes vendas acontecem, porque as pessoas estão saindo de seus trabalhos e indo para a casa”. Desde que assumira a loja, não havia constatado muito bem se isso era ou não verdade, e além disso, hoje fazia 42 anos, mais precisamente às 22h38, e a velha botica que fora do avô e depois do pai, agora era sua e tinha a liberdade de fazer o que bem entendesse.
            Batia os dedos ansiosos para o relógio andar mais rápido, mas com um misto de alívio e angústia, pois o último carregamento de esmaltes iria chegar ainda hoje. Ansiava por esse carregamento há muito tempo. O esmalte amarelo da coleção nova da “MagicNails” faria parte dessa noite tão especial.
            A bexiga apertava e resolveu ir ao banheiro. Como seria rápido não achou necessário fechar as portas da loja, até porque nesse horário os moleques do bairro estavam na escola e o máximo que poderia esperar de cliente era alguém que ficaria frustrado em ver o resultado dos números digitais na balança, após um final de semana regado a cerveja e carne.
            O banheiro era mal iluminado e isso era uma das coisas que mais lhe incomodava. Não tinha janelas e parecia totalmente improvisado. A caixa d’água da descarga, aquelas de puxar a cordinha, já estava encardida e gotejava, pendendo torta para um dos lados. O espelho era daqueles mais vagabundos possíveis, não mais de vinte centímetros de comprimento, e tinha a borda laranja. Sem querer, olhou seu reflexo e ali ficou absorto em seus pensamentos. Os cabelos oleosos e bem negros já quase chegavam nos ombros. Seu cabelo era seu novo xodó. No entanto, aquela careca no meio da cabeça era algo que não havia previsto quando era mais jovem. Quanto a isso, já não tinha o que fazer. Os olhos azuis estavam caídos e passavam uma sensação de cansaço e velhice. O peso da idade já estava lhe atingindo. Talvez não devesse passar tanto tempo se olhando. Quando não se olha muito no espelho, é possível criar uma imagem de quem achamos que somos, e não precisamos ser quem a realidade nos mostra. Talvez fosse exatamente por isso que tinha seu segredo tão bem guardado.
            Um barulho lá de fora chamou sua atenção, e quase que por um segundo, achou que a imagem do espelho continuara olhando-o, mesmo quando virou a cabeça. Saiu apressado do banheirinho, com o coração palpitando. “Chegou, finalmente chegou”, dizia de si para si. Assinou correndo o documento e mal olhou para a cara da moça que realizava a entrega. Como se fosse um dia de natal e ainda uma criança, pegou uma faca e rasgou a fita adesiva que selava a caixa ao meio. Procurou pela embalagem que dizia “Doce de Ovos”. O esmalte reluzia um amarelo gema bem forte. Ficou uns dois minutos olhando para a beleza daquela cor. Enfiou o frasco no bolso, caminhou para os interruptores, apagou a luz, pegou um frasco de tamanho médio na prateleira, suas chaves e começou a fechar a drogaria.
            Verificou duas vezes se havia trancado a porta e começou a andar rapidamente para sua casa. Apertava o frasco no bolso como se fosse um pomo de ouro prestes a fugir. Refez mentalmente seus planos: tomaria um banho de banheira, com direito a velas e sais aromáticos. Abriria uma garrafa do vinho que estava na promoção, colocaria seu álbum preferido para tocar na vitrola e começaria sua noite.
            Morava na casa antiga de seus pais, desde que a mãe, já viúva, abandonou também o planeta Terra. Era desses casarões antigos com direito a porão, banheira de louça, cristaleiras antigas e tudo o mais. O piso range a cada pisada, mas não trocaria seu lar por nenhum outro lugar no mundo. Até porque ficava a somente dois quarteirões da farmácia e poder morar a cinco minutos do trabalho é um grande luxo hoje em dia.
            Chegou em casa meio sem querer chegar. Quando se planeja algo por muito tempo não se tem mais certeza de querer fazer tudo aquilo, pois depois de feito, não teria mais pelo que esperar e cairia naquela rotina monótona e sem cores do dia a dia. Hesitou alguns segundos com a chave na fechadura, mas por fim lembrou-se de seu esmalte novo e abriu a porta rapidamente.
            Foi fazendo cada etapa de seu plano calmamente, prestando atenção em cada detalhe e apreciando aquele momento tão esperado. Afinal, não era todos os dias que podia se dar ao luxo de ter uma noite como essas. Ligou as torneiras da banheira e jogou seus sais de lavanda e camomila. Arrumou a penteadeira, que era da mãe, com o kit de maquiagem, o secador de cabelo, as escovas, os grampos, o laquê que se lembrara de pegar apressadamente na loja, “ainda bem, pois se eu o tivesse esquecido, teria acabado com minha noite”, tudo milimetricamente ajeitado. Bem no meio, seu esmalte amarelo estava pronto para ser passado. Em cima da cama a roupa escolhida e logo abaixo o sapato.
            Durante o banho, Tony pensava em como seria feliz se pudesse fazer seu ritual todas as noites. “Não sei o que meus pais fariam se eu o fizesse. Mas hoje já sou dono da minha vida, então, por que não pensar em fazer isso mais vezes?”. Sabia que eram raros os momentos como esse, nos quais se sentia tão realizado. Por fim, quando a pele já estava totalmente enrugada, os cabelos lavados e as cutículas moles, levantou-se e saiu da banheira, deixando pingar água no tapete.
            Secou-se, colocou um roupão velho, mas confortável, listrado de branco e verde, e sentou-se em frente à penteadeira. Ali, um grande espelho emoldurado o olhava. Abriu a garrafa de vinho tinto, um Cabernet Sauvingon bem frutado, e começou a arrumar os cabelos, ou o que lhes restava. Penteou-os, passou alguns cremes e começou a dar-lhe volume. Com o secador e escovas, levantou-os de um jeito que parecia pouco provável. Sabia que a moda dos cabelos dos anos 80 era horrível, mas era exatamente por isso que gostava. Completou o penteado com uma peruca tão negra quanto seus próprios cabelos.
            Virou uma taça de vinho e demorou-se no espelho por alguns minutos, observando seu penteado de vários ângulos. Achou que dessa vez havia se superado. “Eu me superei”, disse de si para si, ou talvez tinha sido o espelho quem disse isso.  Pensou que seria melhor maneirar na bebida. Fechou os olhos e esparramou bastante laquê por todos os lados. Adorava aquele cheiro, de tia-avó e festa de família.  
            Abriu o estojo de maquiagens, cheio de pincéis diferentes e começou a se pintar. Passou a cola sobre a sobrancelha, aplicou a base e começou a se transformar em si mesmo.  O batom escolhido foi um roxo bem escuro, pois ficaria bom em contraste com as unhas amarelas. Após finalizar com o curvex, levantou-se da cadeira e buscou o talco. Jogou um pouco dentro da meia calça preta e começou a vesti-la, cuidadosamente para não furar. Subiu-a até acima dos joelhos. Vestiu seu espartilho e delicadamente prendeu-o às meias. Calçou as sandálias, novinhas, cheirando a recém compradas. Abotoou no pescoço o colar de pérolas que também fora de sua mãe. Tomou mais uma taça de vinho e sentou-se novamente à penteadeira.
            Abriu o vidro do esmalte mais lindo que já vira. Não que particularmente gostasse de amarelo, mas a ideia de ter aquela cor sobre as unhas, que já estavam crescendo há duas semanas, era uma ideia que não conseguia largar. Cheirou o esmalte, observou-o por alguns segundos e começou a pintar pelo mindinho da mão esquerda. Foi passando suavemente o pincel por todos os dedos, até que havia pintado as duas mãos. Olhou-as meio de longe e soprou uma por uma. Estava magnífico.
            Levantou-se e olhou-se no espelho, que o olhava de volta com um olhar compenetrante. Da unha dos pés ao último fio de cabelo: Tony, você está magnífico. Agora faltava a última parte para sua noite ficar completa. Caminhou até a sala e com todo o cuidado do mundo, tateou pelos discos, sem deixar estragar as unhas. Pegou o escolhido com a ponta dos dedos e meio roboticamente colocou-o na vitrola. Aquilo era uma pepita de ouro: a trilha sonora de The Rocky Horror Picture Show. Colocou a agulha no disco, aumentou o volume e voltou para o quarto, mas dessa vez, desfilando. Olhou-se novamente no espelho, enquanto tocava “Sweet Transvestite”. Abriu as mãos pintadas e colocou-as próxima ao seu rosto maquiado, com o amarelo vibrante de frente refletindo e dando cor a todo o seu visual preto. Tony era uma mulher de dar inveja a qualquer Tim Curry. Terminou a garrafa de vinho e comemorou ali seu aniversário, de frente para si mesmo. O disco continuou a tocar a noite toda.
           




                

sábado, 12 de novembro de 2016

Ninguém tem mais nada a ver com o outro


Fui ao cinema com um casal de amigos, mais jovens do que eu. Chegando lá os ingressos para o filme que tínhamos escolhido tinham se esgotado, coisas de São Paulo. Ficaram três opções, sou virginiana e tenho um problema de broxar mentalmente com as coisas, se não é mais o filme que queria ver, já não fazia mais diferença qual assistir, eu já estava frustrada mesmo. O casal começou a tentar decidir, me afastei deles e cinco minutos depois frases assim voavam pelo lugar ''você não tem nada a ver comigo'', ''eu nem sei porque topei vir com você'', ''sempre tem que ser do teu jeito'', ''a gente não consegue nem escolher um filme, imagina dividir uma vida'', ''você só quer o outro filme pra me chatear'', ''não é só o filme, a gente não tem nada em comum''.

Quando a coisa esquentou, fui lá e disse pra eles que não era pra tanto, a gente podia fazer outra coisa, mas o rapaz irritado foi embora e eu acabei com a moça em um bar, onde escutei durante horas que ''eles não tinham nada a ver''.

Esse tipo de discussão entre casais jovens é muito comum porque eles não tem grande experiência nas relações humanas, estão tão centrados neles que qualquer coisa diferente que o outro pedir é uma declaração de guerra.

Quando era pequena tinha um aparelho de som na sala da minha casa. Eu adorava música e meu irmão também. Brigávamos no tapa para usar, berrávamos, ele chegou a quebrar um disco meu, na época eram discos, e perdíamos mais tempo brigando do que escutando música. E só tínhamos uma televisão, objeto também de altas brigas, a gente brigava até cansar, mas depois acabávamos vendo o mesmo desenho.

Na adolescência eu já tinha uma televisão no quarto e meu aparelho de som, mas as brigas continuavam na cozinha por doces e sorvetes, minha mãe dividia, mas ele comia minha parte ou eu a dele.
Tudo isso pode parecer bobagem, mas no dá a dimensão do outro, nos mostra que o outro existe e têm vontades diferentes das nossas.

Já na vida adulta dividi apartamento com meu irmão. Nunca mais brigamos pelo som porque ele tem seu ipod e eu tenho o meu. Eu nem saberia dizer o que ele escuta e tenho certeza que ele também não sabe o que eu escuto. O computador foi dividido, mas deu tanta briga, que cada um acabou comprando um novo e se fechou essa questão.

E tenho uma amiga que tem três filhos com menos de dez anos. Cada um tem seu celular, seu ipod, seu computador, seu quarto, sua televisão, seu dvd e praticamente sua vida. Não é culpa deles, mas estão crescendo assim, concentrados no que gostam, querem e consomem, sem entender que não são os mesmos gostos que o de outra pessoa.

Por isso uma escolha de um filme pode virar essa tragédia, fica difícil entender porque temos que dividir o nosso gosto com outra pessoa. Quem têm todos esses brinquedos sabe que é responsável por colocar as músicas no seu ipod, carregar seu celular e sua rede de contatos, assim a pessoa foca tanto naquilo e não tem que perguntar nada pra ninguém, então começa a achar que só seus gostos importam.

Nunca discuti com amigos ou namorados em porta de cinema, muitas vezes fui arrastada para filmes que eu nunca escolheria, mas acabei gostando. E se não fosse o gosto musical do meu irmão o meu seria muito pior, de tanto escutar as músicas que ele gostava e assistir os desenhos que ele gostava aprendi muito.

Mas entendo o casal de hoje, também vivo como eles, presa as minhas decisões e meus gostos, não me interessa muito a opinião dos outros e prefiro assistir um filme que escolhi do que um indicado por alguém.

Esses aparelhos fizeram que a gente se concentrasse no nosso mundo, construísse ele e reclamasse quando alguém batesse na porta. A moça não queria assistir o filme que o namorado sugeriu e ele não queria assistir o filme que ela queria. Mas atrás disso eu vi a indignação dos dois lados, a dificuldade de entender que os outros tem gostos diferentes. Estamos cada vez mais fechados no nosso planeta, até porque a manutenção dele depende de nós, isso nos aprisiona mais, se eu não colocar minhas músicas no ipod ninguém vai colocar pra mim.

Isso se junta com outras teorias, onde no passado a mulher cedia, simplesmente porque ela não existia no mundo. Na minha casa quem escolhia os filmes que iríamos assistir no fim de semana era meu pai. Mas hoje os tempos mudaram e esse papel de ceder vem acabando, mulheres são livres e fazem o que querem e sabem o que querem assistir, não vão ceder pra agradar o namorado.

E minha amiga disse mil vezes ''Não tenho nada a ver com ele''.
Cansei de dizer que a briga pelo filme não indicava isso, era apenas a visão que estamos acostumados a ter, somos mimados e queremos as coisas do nosso jeito, o problema é que outra pessoa no nosso mundo começa a não ''ter nada a ver com a gente'', apenas porque não faz a mesma coisa que fazemos, nem quer a mesma coisa.

Não tenho nada contra a tecnologia, mas ela não ia passar pela nossa vida sem causar algum estrago. E pelo menos esse ela causou, vem nos dando a impressão que ninguém tem nada a ver com nós.


Iara De Dupont 

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Estrela Cadente

É óbvio! Tá claro do que eu vou falar.
Seria até sem graça dizer que "estava escrito nas estrelas!".

Pois é,  você não se enganou se o título entregou o que diria, mas acredite, não havia estrelas.
Um céu escuro, sem nuvens, limpo e inacreditavelmente sem estrelas.

Nada no céu, não no sentido que eu olhava. Era oeste ou noroeste. Era sul ou talvez um horizonte sem norte.
Devia haver lua, mas também não procurei saber. Nem para cima eu estava olhando! Mas num deslize da minha parte, olhei.

Agora sim o óbvio.
Nem eu creio e não espero também que creias. Não deve ser com todos que acontece, mas comigo aconteceu. Não tenho por onde não crer.

Ela, a estrela cadente, passou por meus olhos no momento exato que eu para lá olhei, mesmo que por um instante.

Um sinal? Sempre. Destino? Talvez. Por entrelinhas, estrelas cadentes sempre trazem um aviso.
Se fiz um pedido? Fiz, mas me intrigo.

Quantos de mim viram aquela estrela? Será que foi só eu? Seria uma prepotência minha acreditar que fora só eu?

Não sei. Espero que sim pro tamanho do pedido que fiz. Ele foi bom, afinal, quem desdenha algo ruim pra algo mágico tão repentino?

Mesmo que em poucas palavras, desejei algo bom, desejei nosso bem, seja lá por onde levará.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Depois da chuva

Ela escuta chover lá fora
e sente as lágrimas escorrerem pelo rosto.
Ela ouve o vento movimentando as folhagens
e sente um vazio no peito.
Nem amor, nem ódio nem nada.
Nem o próprio coração a bater.
Um vazio irritante.
Ela sente a brisa úmida.
e deseja um sopro de emoção.
Quer sentir-se viva.
Quer sentir.
As lágrimas, por não fazerem mais sentido, secam.
A chuva, por já ter molhado a terra, cessa.
Será que vai florir?


terça-feira, 8 de novembro de 2016

Só Isso.


 Na vida adulta, procuramos amigos que tenham "a ver com a gente", gente que pense parecido, viva parecido.
  Grande erro.

  É muito mais divertido viver com gente diferente, religiosos, fãs de Bolsonaro, machistas, e outras coisas mais. Com esses sempre sinto o peso da obrigação de tentar mostrar minha opinião e o lado que considero correto, tenho que acostumar com frustração quando na maioria das vezes não conseguir resultados.

  Parece que me rodear de mins mesmos me deixa acomodado e preguiçoso.
  Achar alguém concorda genuinamente em diversos assuntos não é mais pré-requisito de 
convivência e sim um pequeno presente da vida, como achar dez reais, ali no chão.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Carta para Sofia

Querida Sofia,
você não deve se lembrar de mim, afinal, nos esbarramos pouquíssimas vezes pelas ruas e confesso que demoro a conseguir interagir com crianças. Da última vez que te vi com seu pai já não consegui identificar em você os elementos que caracterizariam a filha de um amigo - me senti velha, já que você não mais parecia estar na infância que eu imaginava.

Ao principiar de todos os anseios que vivemos com as notícias e - sobretudo - com a ausência delas no mês passado, ao invés de me debruçar sobre o luto de um amigo, me surpreendi pensando em você. Talvez a sua travessia de agora seja a conclusão de um quebra-cabeça que tenho montando desde julho do ano passado. 

No viver, Sofia, como diria Guimarães Rosa, "tudo cabe", inclusive a dor, a desigualdade, a injustiça, a morte. E, infelizmente, não é porque nossos sonhos são belos e as nossas ações nobres que seremos poupados. A passagem da morte por minha vida - assim como na de inúmeros amigos, inclusive, amigos do seu pai - foi muito precoce. Não consola saber disso, eu sei. A perda de alguém querido, sobretudo de um pai tão amado, é avassaladora. Assim como venho me equilibrando nessa corda bamba, caberá a você - e somente a você - encontrar maneiras de enfrentar os dias e seus ecos de ausência. 

Sim, o luto é tocar na solidão. Talvez minhas palavras não sejam adequadas para uma menina tão nova, mas é assim que tenho atravessado o tempo bom e ruim: somos metade vazio, metade completude e quem conduz o volume desse liquido tenro chamado vida somos nós.

Certa vez me peguei pensando como gostaria de ser mexicana e vivenciar, por dentro, a "Fiesta de los Muertos". Se aqui nossa comemoração é demarcada pela finitude dos "finados" em contraste com suas terríveis flores de plástico (que não morrem), no México a data é um período de visita dos que não estão mais aqui, e eles são recebidos com banquetes e muitas música.

Se a passagem de fato nos permite escolher onde queremos estar, acredito que nossos pais estejam às margens de um belo rio, felizes e pescando.


B.

sábado, 5 de novembro de 2016

Meu fio de luz!


Hoje resolvi olhar uma estrela
Tão pequenina, uma centelha
Um pedaço do passado

Um pequeno fio de luz
Brilhando em tons azuis
De tão longe enviado

Nasceu antes de mim
E mesmo assim
Nasceu para me encontrar

E se eu não olhasse?
E se o desperdiçasse?
Onde haveria ter ido parar?

Não, este fino raio é meu
Não divido com ninguém
E o quero admirar

Ele não é igual ao teu
O meu vai mais além
Pois ele soube me conquistar

Olhe agora para o céu
Mesmo que haja um teto
Desvencilhes este véu
Sinta todo esse afeto

Pare...
Ame o seu fio de luz!
Uma nuvem se foi.
Olha outro logo ali!!!

Fábio Fonseca