segunda-feira, 22 de maio de 2017

Eu e ela

Vou te dar um exemplo. As coisas costumam ficar mais claras com exemplos. Digamos que você precisa fazer uma festa e precise de um bolo para ser entregue ao meio-dia. Não, é claro que eu não organizo festas, já disse que é só um exemplo, senhor, podia ser qualquer coisa, disse bolo porque foi a primeira coisa que me veio à mente e disse meio-dia porque é uma hora única, justamente pra você não me vir com perguntas desnecessárias, do tipo "da manhã ou da noite". Meio-dia é meio-dia e ponto. Mas voltemos ao exemplo. Digamos que seja eu quem tenha que lhe entregar um bolo ao meio-dia e digamos que esteja estabelecido, ao menos tacitamente, que seja eu mesmo quem tenha que fazer o bolo. Isso, nada de comprar pronto, digamos que seja eu mesmo o confeiteiro. Bom, você pode estar certo que você terá um bolo ao meio-dia, muito provavelmente antes, mas não muito, para que o bolo ainda esteja fresco ao meio-dia. O bolo será um bolo medíocre e, por favor, não me entenda mal, não quero dizer que será um bolo ruim, jamais. Quando digo medíocre quero dizer apenas isso mesmo, que o bolo estará na média dos bolos. Agradará, mas sem causar nenhuma comoção, a grande maioria dos convidados, justamente por ser igual à absoluta maioria dos bolos que qualquer um já comeu na vida. Dois ou três julgarão o bolo ruim, mas do mesmo modo, sem qualquer tipo de comoção. Para estes dois ou três será apenas um bolo ruim como qualquer outro bolo ruim que eles já comeram na vida. Para uns e para outros, o bolo será esquecido logo depois dos parabéns, mas todos sairão da festa com o bolo comido e você terá uma superfície comestível para colocar sua velinha. É possível e até mesmo provável, por que não, que num próximo aniversário meus serviços sejam novamente solicitados, agraciado que você ficou com um bolo tão pontualmente entregue e tão dentro das expectativas. E só. Agora, preste atenção, se fosse ela a incumbida de fazer um bolo e lhe entregar ao meio-dia, tudo seria bem diferente. Nas duas ou três noites que antecedessem o dia da festa, ela passaria em claro, pesquisando as mais maravilhosas técnicas para se fazer um bolo, não para copiá-las, jamais, mas para superá-las, para criar um bolo único, um bolo jamais comido. Ela buscaria ingredientes frescos e produzidos com a mais alta harmonia com a natureza.  Faria testes, muitos testes. Estudaria a função que cada ingrediente cumpre na receita e faria uma série de substituições, até chegar num resultado perfeito. E resultados perfeitos, o senhor deve saber, não saem assim do dia pra noite, é preciso ter paciência e, sobretudo, perseverança. Na manhã do dia da festa ela te telefonaria e te diria que tudo corria muito bem, mas que se atrasaria um pouco, e que o bolo certamente chegaria antes dos parabéns. Provavelmente não chegaria. Se fosse para entregar um bolo que não pudesse ser chamado de perfeito, ela não o faria. O senhor pode estar certo que ninguém comeria bolo algum naquela festa e o senhor teria de segurar a vela nas mãos, correndo o sério risco de se queimar com isso. Sim, eu sei, alguém poderia sair apressado e comprar um bolo qualquer na padaria, mas já disse que é um exemplo e é sempre bom tornar as coisas mais extremadas nos exemplos, isso facilita a compreensão. É certamente mais didático e tudo o que mais quero aqui é ser didático, quero que o senhor entenda o que se passa entre nós. Bom, voltando ao bolo, ele finalmente ficaria pronto duas ou três semanas depois da festa e ela te chamaria orgulhosa para experimentá-lo com café. Curioso, é provável que você fosse, sobretudo porque ela nada cobraria e talvez até te pagasse algum. Você ficaria bem puto com a falta de profissionalismo, mas por um motivo bem razoável não demonstraria nenhum tipo de chateação, o bolo estaria de outro mundo, o que não quer dizer exatamente que seria um bolo delicioso, mas seria de outro mundo. Talvez você até já tenha provado bolo mais gostoso, mas nenhum tão inesquecível. Você talvez nem saiba explicar porquê, talvez nem goste do sabor, mas você jamais esquecerá daquele bolo e se lamentará até a última migalha de não ter tido a possibilidade de ter este bolo pra sua festa. E se no ano seguinte você se antecipar e lhe encomendar o bolo com quatro meses de antecedência, pode esquecer, por nada neste mundo ela se sujeitaria a fazer o mesmo bolo outro vez e, duas ou três noites que antecedessem o dia da festa, ela passaria em claro, pesquisando as mais maravilhosas técnicas para se fazer um bolo. O quê? Como assim demonstrei hesitação nessa segunda parte? É claro que estou nervoso ou o senhor acha fácil me expor desse jeito? Está certo que estou falando por meio de suposições, de exemplos imaginados, sim, é claro que são imaginados, senhor, eu lá tenho cara de boleiro? Está certo que falo em termos de eu e ela, mas o tempo todo sei que o senhor sabe que estou falando de mim, ou melhor, de nós, quero dizer, não de mim e do senhor, mas de mim e de minha esposa, é claro. E sim, o senhor tem razão ao dizer que fui impreciso. É certo que eu disse que na verdade o bolo não chegaria, mas o mais provável é que chegasse. Jamais chegaria ao meio-dia. Isso nunca. Jamais. E agora não estou sendo impreciso. Pode anotar aí. Jamais chegaria ao meio dia. O desespero tomaria conta de quem estivesse organizando a festa, provavelmente o tal bolo de padaria seria mesmo comprado, mas o bolo dela chegaria, está feliz agora? Eu admito que o bolo chegaria, mas olha lá, chegaria cinco minutos antes dos parabéns, quando ninguém mais acreditasse que ele pudesse chegar e ela ainda sairia na foto soprando as velinhas. É o que eu digo, é o que eu acho, pode anotar aí. A reação das pessoas? Ah, nisso eu não mudo uma palavra do que já disse. Seria mesmo um bolo de outro mundo. Para o bem ou para o mal, senhor.

sábado, 20 de maio de 2017

As brutalidades sociais cotidianas

No dia 12 deste mês o Brasil perdeu um de seus maiores intelectuais. Quase um século de conhecimento personificado. Antonio Candido faleceu aos 98 anos. Sociólogo por formação, consagrou sua carreira como crítico literário, mas Candido não chegava a fazer uma grande distinção entre essas duas áreas.

Em um vídeo gravado há três anos ele fala sobre o direito à literatura afirmando que "o direito à literatura deságua na justiça social". É uma análise que não restringe a literatura ao hobby, mas resgata a origem de histórias criadas e disseminadas como forma de compreender melhor o mundo.

Partindo deste princípio percebemos que a alfabetização é como um pequeno passo de um bebê desengonçado, que parte em busca de novos limites. Sem menosprezar o folclore transmitido oralmente, que retrata situações locais, Candido afirma ser “brutalidade social privar um individuo de boa literatura”.

Fornecer condições de ensino, formação e preparo para que um indivíduo tenha a leitura como hábito e acesse as grandes obras literárias faz com que ele expanda seu universo e passe a compreender melhor o mundo, com uma visão mais ampla e criativa da realidade que o cerca – seja ela uma grande megalópole ou um pequeno sítio isolado no interior.

Colocar a literatura em papel de destaque, como protagonista da justiça social ao invés de um mero entretenimento, é tarefa para poucos. A economia está tão enraizada neste posto que nossos olhos estranham a mudança. Candido não apenas exercia essa tarefa como ia além, aplicando conceitos sofisticados das ciências sociais em suas análises.

Cinco dias depois da morte de Antonio Candido o país foi chacoalhado por uma delação. Delações vêm sendo feitas há meses, mas esta teve uma particularidade, uma prova material. O áudio, a mala de dinheiro rastreada, o popular “batom na cueca”.

Muita gente nunca teve a menor esperança de que algo de bom pudesse vir dos novos delatados, mas entre as várias frases que passaram a ecoar depois do escândalo foi a de que “não sobrou ninguém”. Sobretudo os que colocavam Dilma Rousseff como fonte de todos os problemas, foram surpreendidos por provas contra seu sucessor e contra a alternativa no segundo turno da última eleição.

A frustração política que se espalha pelo país é compreensível, mas acreditar que não sobrou ninguém implica em ter depositado toda a esperança de uma visão restrita em duas pessoas que nunca demonstraram ser, de fato, uma alternativa diferente.

Vale a pena considerar a hipótese de que a crença irrestrita em uma dicotomia tão simples para uma realidade tão complexa é resultado de um aprisionamento pessoal em um mundo que não extrapola os limites do folclore local.

Buscar um mundo mais amplo do que a falsa dicotomia exaltada no país forma um indivíduo mais completo e uma sociedade mais diversificada. A economia não é um caminho para que isso seja alcançado.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

The Day I Tried to Live (Say Hello to Heaven)


Um verdadeiro ídolo musical inspira a vida, acaba virando um grande amigo, suas músicas se tornam como conversas que nos motivam a seguir, que nos confortam ou até nos abraçam em momentos difíceis da vida. Pelo menos é assim que sempre aconteceu comigo, principalmente com aqueles da década de 90, uma década difícil pela adolescência e tudo mais que nela aconteceu para mim.
Ontem, numa noite onde o país estava do avesso, um amigo desses de adolescência estava longe, em Detroit, onde viu o show de um dos nossos ídolos musicais, estes que viram amigos e também heróis pra gente. Conversamos, contei o que estava acontecendo no nosso país e logo depois ele me contou como foi o show que acabara de ver. Chris Cornell e o Soundgarden estavam melhor do que nunca e com uma energia incrível, ele disse.

Dia 18, meu dia de escrever neste blog, o dia que poderá ser o primeiro de uma revolução, virou um dia mais surreal ainda... o amigo que estava no palco ontem se foi! Não se sabe porque ele se foi ou decidiu partir deste mundo, mas meu amigo de adolescência se despediu de outro bem de perto, nos representando, poucos metros dele e poucas horas antes da partida.
Hoje virou apenas o dia de me despedir de um amigo ouvindo suas músicas que em muitos momentos me motivaram e me confortaram, para lhe desejar uma boa passagem. Hoje também já espero o retorno ao Brasil do meu amigo de adolescência, para ouvirmos os discos do Soundgarden e brindarmos em homenagem ao outro amigo de adolescência, um dos nossos heróis que virou Rock Star, no sentido mais bonito da expressão.

Fica bem aí em Detroit Rock City, Marcelo. Aguardamos você aqui na ZO de Sampa.

Damn, Chris! isn´t your time of dying! But say hello to Andy and keep on rocking!

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Inércia

A rachadura no teto o irritava, mas não tinha ânimo para arrumá-la. Aliás, não tinha ânimo para mais nada. Às vezes desejava ser o inseto de Kafka, pelo menos alguma coisa diferente aconteceria. Tinha dias que não saía de casa. A única coisa que o motivava a levantar daquela cama com os lençóis suados pelo calor era alimentar os sete gatos que cultivava no quintal.

Se sentia  um jovem Dustin Hoffman em “The Graduate”, mas sem sua Elaine. Sem dinheiro, sem emprego, sem nada.  À deriva do mundo, esperando algo acontecer para melhorar. Sentou-se na beira da cama e resolveu começar o dia. Olhou à sua volta e o desânimo bateu mais forte. Ali era favela, era feio. Não tinha verde, não dava para ver o mar. Pensou em sair para pedalar, para longe dali, mas teve mede se ser assaltado e perder sua magrela. O calor era demais até para tomar café. Pegou seu copo de água gelada e mandou para baixo. Aquela sensação de limpar tudo por dentro o fez ter vontade de vomitar.

Lembrou-se de que era hoje que sairia o resultado de um dos muitos concursos que havia tentado nos últimos meses. Ligou seu computador, mas nada ainda. De repente olhou para o relógio e percebeu que passara as últimas três horas imerso em um jogo online. Pelo menos ali era o herói, era reconhecido, sabia que era útil para seu time.

Entrou novamente no site e ali estava o arquivo em PDF o esperando. Procurou seu nome na lista. Aprovado. Tinha sido aprovado. Teve vontade de ficar feliz com aquilo! Mas não conseguiu mexer nem o canto da boca para fazer um auto sorriso. Estava feliz? Aquilo só significaria que iria ter que acordar cedo, enfrentar o trânsito e o calor da cidade, passar dez horas enfurnado em uma sala com ar condicionado fingindo que estava fazendo alguma coisa importante.

Todos fingem nessa sociedade estúpida que criamos para nós mesmos. É a única maneira de sobreviver a ela. O que faria agora? Tinha que juntar uma caralhada de documentos e começar a labuta burocrática antes mesmo de começar a trabalhar. Tinha dois dias para fazer isso.

Foi à cozinha, pegou mais um copo de água gelada e tomou. Coçou a bunda, olhou para os gatos, que brincavam inocentes no quintal de cimento. Como queria ser um gato e poder se satisfazer com o solzinho da manhã, ou com os brinquedinhos eventuais. Tinha que colocar comida para eles.

Entrou debaixo do chuveiro desligado e deixou a água cair. Colocou uma bermuda e uma regata para enfrentar o calor. Enquanto trocava de roupa esbarrou-se em sua bicicleta. Devia ter meses que estava ali, parada, no mesmo lugar, estorvando. Bem que poderia encher seus pneus e tentar ir ao centro com ela. Já não tinha mais nada a perder mesmo, que se foda!

Colocou a pochete por baixo da blusa com sua chave, seu pen drive e seu celular. Foi empurrando a bike até a saída de casa e o barulhinho já lhe trouxe boas lembranças. Ajustou o banco a sua altura, montou e começou a descer o morro.

Deliciosamente o vento batia em seu rosto e de repente todos os barulhos e toda a feiura a sua volta foram esquecidos. Era ele e uma extensão dele mesmo, em alta velocidade. Chegou ao final do morro e automaticamente virou à esquerda sem pensar, como se seus músculos ainda se lembrassem de tudo. Chegou à avenida lotada de carros parados, ultrapassou todos eles. Pedalou mais uns dez minutos até chegar à orla. O mar, tão sem graça. Mas estava hoje tão bonito. O cheiro de água salgada e o murmurinho das ondas logo lhe vieram como uma sensação de estar em casa, uma casa aconchegante.

Por um segundo havia se esquecido para onde estava indo. Ah sim, o concurso, os documentos! Lembrou-se. E naquele momento, sorriu para si mesmo por alguns segundos.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Insistir, persistir, ir......


No meio das dúvidas e incertezas, no meio do mar revolto que às vezes é minha vida, fico na espera, de vez em quando silenciosa, nem sempre barulhenta ou constante.

E desde pequena misturo palavras e seus significados. Meu pai adorava dicionários e sempre me corrigia quando eu repetia uma palavra, me dizia que poderia usar outras dez para dizer a mesma coisa. Mas sou virginiana, apegada as coisas, grudada em palavras que descrevem o que sinto ou deixo de sentir.

E até hoje, mesmo desmontando os dicionários do mundo, me perco entre ''insistir e persistir''.

Não são a mesma coisa, não significam a mesma coisa e ainda são divididos por explicações espirituais e conceitos divinos. Insistir não é bom, é coisa para gente teimosa, que perde seu tempo, mas persistir é divino, ação dos valentes, corajosos e que tem certeza da recompensa de Deus, persistir aparece tantas vezes na Bíblia que é quase um mantra, persistir é sinônimo de espírito forte, que não desiste diante das dificuldades, insistir é atitude de gente burra.

Mas minha vida se divide entre essas duas palavras e arrasta minha alma pelo chão, até quando insistir e por quê persistir em algo?

Porque a recompensa vai chegar. 
Bom, isso é teoria, não é fato.

E se estou persistindo em algo errado ou insistindo no lado equivocado?


Já me disseram que a alma avisa, mas não conhecem a minha, cheia de questões, minha alma é como um departamento de trânsito de uma cidade enorme, dividida em setores, cheia de papéis, de tramites burocráticos e cada vez que entro lá dentro me perco, nunca sei onde estão os departamentos que procuro. Se chegou algum aviso sobre o que devo insistir ou persistir, está parado em alguma mesa, perdido no meio da burocracia que me ocupa por inteiro.

E sem respostas me devoro por dentro e por fora, procuro sinais em Júpiter que se aproxima da lua, no chão que piso e nos desenhos que vejo nas nuvens.

E não é de agora que a falta de avisos e sinais sobre o que devo ou não persistir me persegue, quando eu era pequena minha abuelita contava a história de um casal e eu sempre me perguntava, poxa, por quê Deus não mandou um sinal para eles?

Esse casal era amigo da minha abuelita e logo depois de se casaram decidiram alugar um apartamento em uma área um pouco afastada e perigosa, a ideia era morar ali até economizarem para comprarem sua casa. O apartamento era antigo, grande, espaçoso e iluminado.

A moça contou que assim que entrou no apartamento sentiu uma energia diferente, teve a certeza de que ali dentro tinha alguma coisa que mudaria sua vida, mas era o começo de uma nova etapa, estava casada e não pensou mais no assunto.

Quando eles se mudaram o apartamento só tinha sido limpo, não tinha nada além dos armários e as peças do banheiro, estava completamente vazio.

Ficaram ali durante dez anos e parece que foram muito felizes, mas depois desse tempo resolveram que era melhor comprar sua casa e começaram a procurar onde morar, queriam sair dali porque era um bairro perigoso, os parentes e amigos não gostavam de ir ao apartamento, apesar dele ser espaçoso e bonito.

Acharam uma casa e deram a entrada, era um casal simples, com dois empregos estáveis, mas sem grandes recursos. E a moça contou a minha abuelita que assim que começou a arrumar as caixas da mudança e as malas voltou a ter a sensação estranha, sentia que havia alguma coisa ali no apartamento que não poderia ser abandonada. Já tinham sido muitos anos lá dentro e mesmo sendo alugado o casal tinha feito algumas melhorias, estavam apegados ao lugar.

Foram tantas as dúvidas da esposa que o marido procurou o proprietário e perguntou se ele queria vender o apartamento, fizeram uma proposta e foi aceita.

Mas a família do casal entrou no meio, para quê viver em um lugar perigoso, e se eles um dia tivessem filhos? O apartamento era lindo, mas não tinha garagem, era antigo, cheio de problemas, cercado por ruas abandonadas e longe do centro.

E não era barato, pelo tamanho o preço era um pouco alto.

O marido resolveu esquecer a proposta, achou que seriam mais felizes em outra casa, perto da família e longe de um lugar desses, mas a esposa resistia e enrolava para sair dali, dizendo que sentia que alguma coisa a puxava.

Foi tanta a insistência que chamaram uma médium, para saber se a moça tinha algum encosto grudado, fizeram uma sessão e não aconteceu nada, então descartaram a ideia de que tinha algo no apartamento.

A moça acabou indo ao psicólogo e concluiu que como era filha de vendedor e tinha se mudado muito durante a infância talvez desenvolveu um trauma secreto e resistia em se mudar mais uma vez.

E era tanto o sofrimento dela que a mudança foi cancelada várias vezes, deram entrada na casa, mas não se mudavam, até que o marido não aguentou mais e disse a esposa que não poderiam mais pagar o aluguel do apartamento e a prestação da casa nova ao mesmo tempo.

Minha abuelita dizia que o casal era muito cuidadoso com o dinheiro, vinha de muita pobreza, do interior do interior, gente que passou muita fome, que ia de um lado a outro tentando melhorar a vida, até que conseguiram estudar um pouco e entraram em empregos estáveis.

A esposa insistia na sensação, tinha alguma coisa no apartamento que mudaria sua vida, mas o marido dizia que isso era apenas o apego, tinham sido felizes e a alma humana é assim, resiste em abandonar os lugares onde se sentiu bem.

Eles saíram, mas ela jurou que voltaria e compraria o apartamento, pelo menos até saber porque se sentia tão ligada a ele.

Meses depois ficou sabendo que um casal comprou o apartamento, mas pensou que na hora que tivesse dinheiro iria negociar com eles.

Se passaram alguns anos e ela não esquecia o apartamento. 
Um dia resolveu voltar, tocou a campainha, mas ninguém atendeu, até que uma vizinha a reconheceu e chamou para conversar, contou uma história inacreditável.

O casal que comprou o apartamento se mudou em uma segunda-feira e tinha resolvido fazer uma reforma. As únicas peças originais eram os armários da cozinha, que estavam feitos de ferro e as peças do banheiro, a privada, a pia, a banheira e o tubo nas paredes que segurava as cortinas do chuveiro. Como era tudo feito de material nobre estavam bem conservadas, mas o casal resolveu arrancar tudo e ao puxarem o tubo do chuveiro perceberam que era muito pesado, pensaram que era de ferro sólido, mas ao arrancarem viram que estava cheio de moedas de ouro, alguém tinha escondido centenas e centenas de moedas de ouro por dentro do tubo que segurava a cortina do chuveiro.

Isso transformou o casal em milionários, cada moeda valia muito dinheiro, não apenas pelo ouro, mas porque eram moedas históricas, dessas que qualquer museu paga o que for para ter no seu acervo. Eles não tinham nem passado vinte e quatro horas no apartamento e já estavam ricos.

A mulher achou a história fantasiosa demais, o casal assim que se descobriu milionário fechou o apartamento e sumiu no mundo, então a mulher resolveu investigar a história do apartamento, queria ver se era possível mesmo que alguém tivesse escondido tantas moedas de ouro em um tubo.

Ela nunca conseguiu ir muito longe, o máximo que conseguiu saber foi que o proprietário do apartamento, o primeiro, tinha sido um homem que também construiu o prédio, era dono de tudo, morava sozinho, nunca se casou, nem teve herdeiros. E parece que sua família tinha encontrado um ''tesouro'' há mais de cem anos, mas nunca se confirmou essa história. A única hipótese é que ele tenha tido acesso as moedas de ouro e achou que o melhor lugar para guardar seria o tubo do chuveiro.

Eu era pequena quando me contavam essa história, não tinha a menor noção do que era ouro ou se tornar milionário da noite para o dia, mas sempre que escutava essa história me invadia uma sensação enorme de injustiça, poxa, por quê Deus não ajudou e iluminou a moça para que ela achasse essas moedas antes do casal? Desde que ela entrou no apartamento ela sentiu que tinha alguma coisa ali que mudaria sua vida e nada muda mais a vida da pessoa do que dinheiro.

Sempre senti muita revolta com essa história, minha abuelita diz que a moça nunca quis reformar o banheiro porque achava as peças originais lindas e precisaria de autorização para mudar, porque era inquilina. Mas caramba, penso o seguinte, por que ela um dia não escorregou no chuveiro, tentou se segurar no tubo, ele não aguentou o peso dela, então caí e ela recebe essa chuva de moedas?

Essa história ainda me atormenta, não é só o valor econômico, mas a injustiça em si, ela morou dez anos ali, sentindo que alguma coisa poderia mudar em sua vida, por que não se deu um sinal a ela?

E se ela tivesse insistido e comprado o apartamento? Talvez faria uma reforma no banheiro e encontraria as moedas.

Não sei, mas anos fiquei mais perturbada quando li o livro ''O alquimista'', de Paulo Coelho, a história de um rapaz que corre o mundo, quebra a cara e no fim volta a sua casa e encontra o tesouro debaixo de sua cama.

E sempre tem gente que vai dizer ''mas eram apenas moedas de ouro, dinheiro, quem se importa?''.
Não! Não era apenas isso, era uma mudança de vida, e por que o ouro não tem o mesmo respeito de outras coisas? Caramba, se a moça vinha de uma situação tão difícil, imagina o que teria sido para ela achar essas moedas?

Me pego pensando nessas moedas e em tudo que representam, até quando insistir, até quando persistir? E se existe esse ''tubo'' na vida das pessoas, aquele ouro que está acima de nossas cabeças, por quê nem sempre se recebe um sinal? E a metáfora de ficar no mesmo lugar, esperando que talvez um dia o tubo arrebente e caiam aos chão as moedas, ou largar tudo e cair no mundo? É melhor ficar ou se mexer?

Cansei dessas história de que ''o que é teu te encontra'', pois então tem o endereço errado, porque estou esperando!

Minha abuelita dizia que a moça não achou as moedas porque não eram para ela, mas caramba, ela ficou ali dez anos, sentindo a energia, sentindo a proximidade e no fim outros acharam em menos de vinte e quatro horas? 

A vida é assim! Meu irmão diz ''a vida não é justa, é o que é''.

Por que ela não sonhou com as moedas e saiu quebrando tudo? Posso me imaginar no lugar dela, se eu entro em um apartamento vazio como poderia adivinhar que existe uma fortuna no tubo do banheiro?

Esse é o ponto da vida! Nenhum de nós sabe onde está o tubo com as moedas, mas tantos persistimos e insistimos em tantas coisas, caramba, onde está o sinal?

Não sei se eu insisto e persisto no que penso fazer, não sei se quebro o chão até achar as moedas ou faço como a moça, abandono a sensação e começo outra coisa. Minha mãe se desespera quando minha alma começa a bater nas paredes e sempre me diz ''vai indo, depois você pensa no que fazer, o importante é não parar''.

Mas eu me pergunto, indo pra aonde?



Iara De Dupont


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Na Capa de Meu Rosto

Toda vez que te vejo, eu te leio com um sorriso estampado na capa do meu rosto.

Seu prefácio descreve que não será assim, mas eu ainda assim te leio com um sorriso estampado na capa do meu rosto.

Então vem o Sumário, que detalha em capítulos o que está por vir. Não parece ser alto astral, mas eu, ainda assim, tenho na capa estampado um sorriso e não temo em mostrar a capa de meu rosto.

Durante a leitura dessa doce tragédia, tristes contos e poesias desdenham que tudo caminhe para o fim. Nesse momento, uma mancha surge na minha capa.

Perco a vontade de ler por um instante, mas me esforço. Ainda que o contexto não pareça propício, mostro de novo o sorriso que estampa a capa de meu rosto.

Ao fim do romance, a esperança de um novo começo. Eis que leio que tudo parace estar certo para o lamento dos que não voltam. 

Mas eu, abro a capa que estampa o sorriso de meu rosto e te mostro que em meu peito há algo bem mais forte e incandescente. 

Te deixo então ler que em meu livro descrevo que te ter é o que dá sentido ao estampo do sorriso na capa de meu rosto.

domingo, 7 de maio de 2017

Amanhã.

Os passarinhos entoam canções que desconheço.
A vida me venda.
Tudo o que vejo
é mistério sem constelação.

Talvez seja esse o abismo
que invade o espaço
em que nos desencontramos.

Em que, momentaneamente
nos perdemos.

Amanhã, quem sabe
a melodia nos seja familiar.
E fácil.

Quem sabe.
Amanhã.

sábado, 6 de maio de 2017

Acordares - 5:31

Era vazio no parado do dia.
O silêncio inundado.
Não dormia quando o sol entrou.
O amanhecer veio aos olhos estatelados.
Aquela hora, dia preenchendo noite,
sem ser.
O dia seria dia, era determinado, fato.
Ele sofria do não ser.
O corpo sentia o cobertor até as fibras.
Aspirava o por menor
de grandezas suas.
Fazia frio, esticava pernas.
Pensamento fundo que os olhos davam.
A pele brilhava alinhada.
Expirava orgulhos outros.
Emaranhados desejos do não

ser. 

O silêncio inundado.
Não dormia quando o sol entrou.
O amanhecer veio aos olhos estatelados.
Aquela hora, dia preenchendo noite,
sem ser.
O dia seria dia, era determinado, fato.
Ele sofria do não ser.
O corpo sentia o cobertor até as fibras.
Aspirava o por menor
de grandezas suas.
Fazia frio, esticava pernas.
Pensamento fundo que os olhos davam.
A pele brilhava alinhada.
Expirava orgulhos outros.
Emaranhados desejos do não
ser. 

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Meu querido Verbo


Você que sempre foi vilão
Digno de qualquer quadrinho
Sempre causando confusão
Proporcionando este ou aquele errinho

Você que sempre teve mil faces
Sempre clamou por atenção
Hoje atravessa uma triste fase
E chora a falta de dedicação

Meu amigo que morre pouco a pouco
Vai sofrendo bem devagar
Quando alguém precisa “escrevê”
Que necessita comigo “falá”

Derrubaram por terra o seu charme
Derrubam assim o seu encanto
Busco meios de consolar-me
Mas o vejo perdido sempre aos prantos

Rogo então para não te “perdê”
Preciso de meu passado
Perfeito, imperfeito ou mais que perfeito
Preciso do meu futuro
De hoje ou de ontem

Então não morra meu amigo
Você que tem muitos sujeitos
Fique aqui comigo
Respeitaremos esse seu jeito

Fábio Fonseca

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Equilibrista

Queria poder controlar os diálogos que se perdem enquanto meu café esfria, mas, neste breve período, ouço uma melodia que me transporta para outra dimensão. Vou parar lá longe, nos limites do meu horizonte, onde brinco de equilibrista na linha tênue que separa razão e emoção, penso demais, sinto demais.



 Vejo um fash condensando um instante logo ali na frente. O que realmente acontecia ali? Quais emoções, aromas e texturas não foram eternizadas na imagem? O que se leva da vida são histórias e eu até querida condensar essa história, mas com prazo de validade, pois, hoje, tudo o que soa como eterno parece estranhamente fútil, coisa de gente que tem preguiça, preguiça do novo, preguiça de viver...

Eu quero muitos instantes infinitos, sem noção do tempo espaço, em histórias mescladas, agregando o lado bom de tudo que cruza meu caminho. Eu quero me deslumbrar com cores que máquina nenhuma conseguirá reproduzir, quero o volume das gargalhadas no momento do flash, quero o aroma, as texturas e os sabores. Entre o café, a melodia, o flash, os instantes infinitos e a corda bamba, sigo despejando esse fragmento de cotidiano no papel. O tempo passa, o café esfria e eu sigo me equilibrando na corda bamba, mesclando meus passos na dicotomia entre o pensar e sentir.

sábado, 29 de abril de 2017

síndrome do pensamento pequeno ou vai na fé e tenta a sorte

O dia em que o país parou 100 anos depois da primeira greve geral causou mais dúvidas do que certeza sobre o “sucesso” mencionado pela avaliação quase que unânime da esquerda e sobre a possibilidade de eliminar ou destruir as reformas antitrabalhadores.

Não cito à avaliação da mídia de grande circulação porque é nítido à ausência de compromisso com os fatos e seriedade com a matéria do jornalismo. A Rede Globo se coloca como partido político na sociedade e ultimamente não se dá o trabalho de disfarçar o quanto se lixa ou não se importa com às pautas dos trabalhadores.

Entendo que ver as ruas de São Paulo e demais cidades dos estados silenciosas na parte da manhã e aquele frisson nas redes sociais com a greve causa esperança absurda em quem acredita noutra sociedade ou para quem está de algum modo organizado seja de forma autônoma ou institucionalizada com propósito de defender, garantir ou angariar direitos.

E é aí que quero chegar, na institucionalização da luta.

Não vou fazer resgate histórico mesmo porque não me sinto apropriada de forma criteriosa sobre a questão do sindicalismo e movimento grevista do país. Mas o fato de termos a greve geral somente após 100 anos significa algo ou quer nos dizer algo.

Os sindicatos perderam a essência e objeto da ação de existir que trata da defesa irrestrita do trabalhador e não a mediação de conflitos entre interesses de chefes e empregados. Também estão resignados e acomodados na institucionalização por meio de cargos, alianças com chefes e apoio a partidos políticos o que contribuiu para desmobilização e descrédito de trabalhadores nos sindicatos.

O sindicato que considero com maior relevância de atuação e enfrentamentos sobre direitos é o sindicato dos bancários. Independente de reformas pautadas pelo congresso quando o assunto é demissão ou precariedade do trabalho o sindicato está presente, mesmo com os problemas em torno da mobilização algo comentado durante palestras que participei no ano de 2013 e 2014.

Nota-se o comprometimento quando o sindicato publica nota mencionando a demissão de trabalhadores antigos, mesmo sendo em pouco número em determinado banco que estavam prestes de aposentar. Isso significa enfrentamento da questão e defesa do trabalhador além de atenção com os desdobramentos do que ainda não está concretizada: a terceirização do trabalho.

Outro sindicato de atuação semelhante a bancários é o sindicato de professores, todo ano tem mobilização e greve na educação sendo a pauta principal em torno do reajuste de salário. E demora meses ou semanas para ser atendida. Nenhuma pauta visa às condições de trabalho dos professores ou pelo menos não é citado nos protestos ou discutido de modo mais sério.

Então o sindicato está apenas para reivindicar aumento salarial? E as condições de trabalho? E a saúde dos trabalhadores na educação? E a estrutura? Etc.

Os demais sindicatos de outras categorias estão presentes quando se trata de demissão ou quando pautas como reforma trabalhista antitrabalhador surgem no congresso. Propostas reavivadas de outros séculos por decrépitos e negociadores de direitos sociais. E aí pudera, se os sindicatos não mobilizassem em torno das reformas  trabalhista e previdência era realmente para extinguir a existência e sentido do mesmo.

Temos quase 14 milhões de trabalhadores desempregados e desesperados. Mas os sindicatos apenas se mobilizam em torno daqueles que estão empregados. Não existe uma defesa, olhar para quem precisa trabalhar, pois até agora quem usou e abusou desta necessidade foram os golpistas com intuito de justificar a reforma trabalhista para gerar mais emprego.

A terceirização não gera mais emprego, o que faz é produzir subempregos e subempregados com a vida mais precarizada e principalmente com objetivo final de extinção dos direitos trabalhistas.

No mês passado disse que é fácil ver  trabalhadores da limpeza ou prestação de serviços terceirizados. Hoje reafirmo outra vez. Além de ser uma classe paupérrima e com cor definida para o trabalho braçal reafirmo que continua sendo fácil  seja do ponto de vista dos ricos ou  dos sindicatos/partidos que não fortaleceram outras categorias e julgou de menor proporção ou impacto. 

Estamos acostumados a julgar tudo normal, mas se olhar superficialmente para a história dos direitos trabalhistas nenhuma atividade relacionada ao trabalho deveria ser terceirizada.

A existência dos sindicatos é justificada e se vale de lutar por direito e defesa do trabalho e trabalhadores. Hoje vemos que os sindicatos falharam e permitiram uma brecha ao admitir que fosse terceirizada qualquer atividade. Resultado que permitiu para hoje enfrentarmos uma reforma trabalhista antitrabalhador que sequer deveria existir.

O f#d# é que esta mobilização do dia 28/04/2017 ainda foi parca e desorganizada. Demorar um mês para organizar uma greve geral só demonstra o quanto os sindicatos estão longe das necessidades e urgências de pautas dos trabalhadores.

A França ano passado organizou greve geral em dias e parou o país impedindo retrocessos. O movimento de mulheres Ne Una Menos (Nenhuma a Menos) na Argentina rapidamente promoveu uma greve de forma massiva no país em torno da violência contra as mulheres.

Observando este dois países em torno de questões que nos são pertinentes vejo que não tivemos o sucesso tão comemorado. Sendo realista e pé no chão bora pelo óbvio, somos mais de 206 ou 207 milhões e apenas 35 milhões aderiram a greve e pouco menos foram as ruas.

Então temos uma parcela aí que está indiferente e/ou não aderiu por três motivos ou hipóteses: não reconhece o compromisso dos sindicatos com suas questões; acredita que se trata de movimento partidário; não compreendeu como deveria os efeitos desastrosos da reforma trabalhista na vida.

E aí não importa aprovação de 5% do golpista e reivindicação de diretas já se não há mobilização generalizada a ponto de existir aquele corre e corre com caras assustadas pelo congresso. E aquele tal o que aconteceu?

Algo que somente em 2013 vimos acontecer. Jamais saberemos a proporção de pessoas nas ruas naquele período.  Então não adianta vir com essa conversa fiada de sucesso hein.

Também não se trata de fracasso como dito pelo governo golpista. Trata-se de desorganização afinal porque fazer manifestação em plena sexta-feira com final de semana e feriado seguido. Óbvio que iria dispersar o povo.

O melhor trabalho de base continua sendo atos sucessivos e isso até a direita entendeu, tanto que copiou os passos do MPL em 2013. Entendeu tanto que copiou o movimento.

A luz está nos movimentos sociais, sem esses o ato de 28/04/2017 provavelmente seria um desastre. Considero o MTST com enorme relevância e se trata de movimento que mais cresce, deixa para trás até mesmo MST (diga-se tem sua importância histórica) porque se ajustou as necessidades dos trabalhadores dos centros urbanos com a questão da moradia e ultimamente tem sido frente também noutras questões. Mas aí temo e me pergunto até quando?

Pergunto porque até 2012 outros movimentos de moradia tinham certa relevância de atuação em SP o que se dispersou com a institucionalização, aí entendedores entenderão para não expor de forma ridícula a situação que a esquerda vive.


Então temos o movimento Passe Livre que está atuante mas tem tanto. Ainda não entendeu ou não conseguiu segurar a responsabilidade dos mais de 9/10 anos de mobilização que resultou nas jornadas de 2013. Não conseguiu aliar a sua pauta com as questões de hoje, reformas que afetam nitidamente o transporte e mobilidade de trabalhadores.

Aliás está insuportável ver no cotidiano tantos casos em torno do transporte público, falta de recursos das famílias.Aumento da pobreza, famílias em situação de rua, violência contra crianças e adolescente, violência contra as mulheres e chegamos no movimento de mulheres.

Movimento que nitidamente está sendo disputado em narrativa, representatividade e pautas com objetivo de velar discussões centrais e importantes do próprio movimento de mulheres, pretende também dispersar atenção em torno das reformas antitrabalhadores.

Esta disputa acirrada pela mídia no que diz respeito a pautas mobiliza em torno de questões superficiais e minimizam outras que são fundamentais para as mulheres.

Neste mês tivemos o assassinato da Maria Eduarda no RJ que infelizmente não viralizou nas redes como a vencedora do programa y.

Também temos mães que cotidianamente perdem seus filhos e não se enxergam no movimento feminista, mas no movimento de mães que pouco tem apoio do movimento feminista.

Ah mas essas pautas não são nossas. Ok. Então temos a exploração e abusos entre jovens mulheres que estão distantes da discussão do movimento feminista seja pelo discurso ou indiferença ou pela pobreza ou pela cor. E aí?

E finalmente chegamos no ponto chave da discussão ou na identificação da ausência de pelo menos metade dos 206 ou 207 milhões que não aderiram ao movimento de greve: a população negra.

As reformas antitrabalhadores afetarão de forma exponencial a população negra. Então o movimento negro tem o problema de se preocupar com as reformas e também a urgência de se preocupar com a sua existência, devido o genocídio quase que diário da população negra nas cidades de todo país. Acrescento aqui os indígenas, mas sabendo que em quantidade de ocorrências a população negra enfrenta a questão quase que diariamente.

Daí temos o resultado do descaso de todos, sindicatos, movimentos, partidos e governantes sobre a população negra. O resultado deste descaso está na prisão de 3 manifestantes do MTST no ato de sexta, enquadrados na lei sob a justificativa de associação criminosa e terrorismo.

Em 2013 tivemos um único preso das manifestações de junho de 2013, na ocasião por porte de pinho sol, em seguida por associação ao tráfico e os esforços para liberdade de Rafael Braga foram mínimos por parte da maioria pela simples e ordinária ausência de empatia e entendimento do racismo institucional.

Recentemente condenado há 11 anos no país mais seletivo no âmbito criminal ao conceder delação premiada e prisão domiciliar a ricos que negociam e compram direitos sociais e trabalhistas entendemos duas coisas: não importa quem coloquemos na cadeira da presidência as questões sociais são minimizadas ou reduzidas por empresários que compram mais ou menos a política a depender do partido; a centralidade da pauta está e sempre estará no trabalho mesmo que cada um discuta no seu quadrado (sindicato, movimento, partido).


Aí lembramos que a questão do negro (a) não é central em nada. Os atos e protestos esvaziados quando ocorrem assassinatos da população negra relembram de modo escancarado esta realidade e constatação.

Então a violência institucional da segurança pública está nos corpos negros. E qual o resultado do descaso? Agressão ao estudante de Goiânia, quando policial quebra o cassetete na cabeça do jovem sendo hospitalizado em estado grave. Menos mal, pois se fosse negro estaria morto como milhares.

Pareço cruel ao dizer isso? Não sou ou não quero ser, talvez se tratarmos assim entendam que seja no trabalho com postos terceirizados ou a falta de empatia com questões alheias cedo ou tarde vão atingir o seu corpo branco.

Seja na reprodução reduzida da violência ou crescente subalternização através de reformas desconexas com a realidade os corpos brancos serão atingidos. 

A indiferença mais que justificada com ausência massiva da população negra na adesão de greves e atos é compreensível, pois a vida se torna e é mais importante que qualquer coisa.

Posto isso, teremos sucesso em algum momento daqui anos, quando a população na grande maioria pobre e negra realizarão o seu levante, daí junho ou greve geral vai ser pequena perto do que está por vir.

Então continuem nesta gama de angariar atenção e participantes da classe média; perdure na indiferença e na imbecilidade de querer ocupar somente a paulista com showmício no dia do trabalho enquanto aqueles que sustentam a casta sejam de sindicatos e/ou partidos quiçá o país está longe dali.


O resultado da indiferença e descaso será visto com total espanto outra vez e com certeza não irá agradar os institucionalizados. A sorte é que não vamos esperar por 100 anos para novos atos ou greves de magnitude e impacto né.