terça-feira, 27 de setembro de 2016

Oração

Crepúsculo. Alto de um cruzeiro. Peregrinos do mundo todo passam pelo local. Uma velha senhora oferece velas coloridas para cada graça a ser alcançada.

Joaquim se aproxima da velha e faz sinal com os dedos de que quer três velas. Paga, agradece e vai embora.

Num pequeno oratório, Joaquim coloca em pé as velas uma ao lado da outra: branca, amarela e vermelha. Olha em volta para verificar se não estava sendo observado e então acende a vela vermelha, talvez o amor possa lhe acontecer durante a viagem. Acende a amarela, porque dinheiro nunca é demais e, por fim, a vela branca, sua antiga e persistente busca por paz interior.

Joaquim se agacha para orar. Quando as três velas estão acesas, um vento forte apaga as velas amarela e vermelha. Ele as acende, calmamente, de novo. Um novo vento forte assopra e a vela amarela cai e derruba a vermelha. A branca permanece de pé.

Joaquim se enfurece, levanta e vai embora do cruzeiro. A vela branca permaneceu acesa.


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Almas em ruínas

Nesta última quarta feira fui até Cambuquira, uma cidade vizinha a minha. Na hora do almoço, me permiti (pois é, ultimamente esses momentos de prazer têm sido na base do “me permitir”) almoçar no Bistrô Villa Solara. Antes mesmo de entrar já me apaixonei pelo lugar. É aquele tipo de ambiente onde todos os detalhes parecem ter sido pensados em você. Enquanto espero o meu almoço, passeio pela varanda de onde avisto a paisagem da foto que ilustra este texto. Me deparei com uma construção inacabada ou um prédio abandonado, não sei dizer, e como de praxe quando vejo estruturas nessas condições me perguntei “- Mas como deixaram chegar a este nível?”.

Iniciei então a reflexão sem fim. Pensei na quantidade de histórias de amigos, conhecidos e familiares nas quais internamente pergunto “ – Como você deixou chegar a este nível?”. Dívidas financeiras, trabalhos enfadonhos, relacionamentos infelizes, conflitos de família, doenças que tiveram seus sinais iniciais ignorados, e etc. Não consigo não fazer essa pergunta, porém chego a parte mais dolorida, quando passo a direcioná-la a mim. Como dói se perguntar uma coisa assim. É nesse tipo de pergunta que a gente sente o peso da responsabilidade das nossas escolhas e se vê obrigada a lidar com o quanto fomos irresponsáveis.

Em todas as situações que essa pergunta me ocorreu, fiquei com a resposta mais rasa: “- Foi descuido!”. Hoje concluí que de fato foi descuido. Descuidamos da nossa própria estrutura para cuidar das aparências, do supérfluo, do que não temos por prioridade (nossa prioridade é sempre externa). Descuidamos de quem somos, do que queremos e do que precisamos para sermos realmente felizes. Descuidamos da nossa alma, do nosso corpo, da nossa mente. Descuidamos de quem amamos, dos sonhos que realizamos, dos objetivos que traçamos. Descuidamos da essência. Descuidamos do que nos mantem de pé e nos entregamos a ilusão daquilo que temos fácil acesso: o ego. Cuidamos e investimos nele a cada segundo de nossas vidas. Destruímos relacionamentos, amizades, parcerias no trabalho por usar o ego como moeda de troca. Endividamos e nos apropriamos de bens para sustentar a aparência que fará o outro desejar a vida que (não) temos. Mantemos relacionamentos, amizades e empregos por status. E aí depois não sabemos dizer como tudo isso se deu, como chegamos a este ponto, como perdemos o controle da situação. Por descuido. Ignoramos todas as pistas que deixamos através das consequências de nossas escolhas. Simplesmente deixamos pra lá. Mais tarde eu vejo. Esse é um problema para o eu do futuro. Depois eu dou um jeito... Até que a torre vem a ruir.

Quando menos percebemos vemos a estrutura assim: se decompondo, enferrujada, cheia de buracos e rachaduras. Passamos a exalar um cheiro de mofo, mesmo usando um perfume importado. De repente até o teto desaba e passamos a viver vulneráveis as intempéries da realidade que construímos. O nosso descuido nos leva a destruição de quem somos. Quando essa estrutura passa a ficar bamba e prenunciando o seu desabamento, ainda há resistência para negar a dor eminente. Adiamos senti-la e descuidamos mais uma vez de nós mesmos, a espera que alguém cuide de nós. Não há terceirização desse cuidado, mesmo insistindo. E então após a devastação de nossa essência que diante do vazio, dos destroços espalhados em nosso íntimo, que nos vemos sem escapatória: é momento de reunir os pedaços que nos tornará inteiros novamente, reaproveitar o que puder ser reaproveitado, construir o que não tiver mais conserto, recompor o que deixamos fragmentar, reconstruir quem esquecemos ser. Apossar da estrutura que abandonamos. Reestruturar. Não é tempo de descuido. É hora de cuidar-se.

Bistrô Villa Solara - Cambuquira / MG

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Escrevo como cozinho



Acrescento palavras ao verso
como alimentos ao caldeirão
provo, mastigo, rumino, peço
que nenhum tempero seja vão

Em fogo baixo, a palavra amansa
desata tramas, pousa macia
em fogo alto, a palavra avança
acende chamas, voa na via

E se ouso não lhes ser zeloso
a vingança é certa, sei bem
Engasgado e não saboroso

O poema e o almoço vêm
Mas se em ambos for cuidadoso
sempre mato a fome de alguém


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Audiopost de 21 de Setembro

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Fora Temer

Uma das grandes conquistas da civilização foram as leis escritas. Pode parecer um mero detalhe, mas imagine o caos que seria instaurado caso não houvesse um código de conduta escrito, limitando ações individuais e institucionais em prol do bem comum.

Claro, o direito não é uma ciência exata e por mais claras e específicas que sejam as leis, sempre haverá a necessidade de um juiz imparcial para analisar cada caso e, em tese, aplicar a sentença correta – o que também está longe de ser um conceito exato.

Qual o problema de abrir exceções nas leis? Quando se condena um inocente, sobretudo em meio a tantos culpados, fica a sensação de que não basta agir dentro da lei, mas é necessário ser amigo daqueles que a corrompem.

A farsa do impeachment constitucional utilizada para mascarar o golpe foi tão mal feita que, em meio a notórios corruptos, alguns procurados até pela CIA, a ex-presidente Dilma Rousseff teve sua vida dos últimos cinco anos revirada e vasculhada nos mínimos detalhes. Contra ela foi necessário alegar uma prática fiscal realizada ao menos por seus dois antecessores, diversos governadores e até mesmo o então vice-presidente Michel Temer.

Há quem diga abertamente que não houve crime, tanto que os direitos políticos de Dilma não foram cassados – não que isso tenha alguma relevância; é notório que Dilma já não tinha outras aspirações políticas antes do golpe –, mas que o impeachment foi pelo conjunto da obra. Ok, o problema é que por pior que seja o governo, isso não justifica o impedimento do chefe do executivo.

Não fosse trágico seria cômico, no dia seguinte ao golpe seus principais mentores reivindicarem o respeito à constituição ao pedir não só a cassação de mandato, mas também dos direitos políticos de Dilma. Em outras palavras, pode-se desrespeitar a constituição, desde que seja em meu favor.

As consequências pelos próximos dois anos é um “presidente” ilegítimo, totalmente refém do congresso. Muito antes da execução do golpe Temer já dava mais motivos para impedimento do que Dilma. Diferente da candidata eleita, o vice foi citado diretamente em delações, ligado a cifras milionárias de corrupção.

Oras, mas se ele era o vice da chapa, tem o direito de assumir de forma legítima. Sim, desde que haja motivos legítimos para isso. Conspirar contra o governo para assumir um cargo para o qual nunca seria eleito por voto direto não está entre as funções de um vice-presidente.

Oras, e porque o PT o escolheu como vice? Ninguém gosta de fazer alianças na política. Do mais extremo ao mais ponderado dos partidos, as alianças são feitas por necessidade, não por vontade. Por necessidade esse mesmo PT fez aliança com o PP, de Paulo Maluf, nas últimas eleições para a prefeitura de São Paulo, tendo sido execrado pela imprensa, pelos adversários e pela população. Esse ano o PP, de Paulo Maluf, fez aliança com João Dória, do PSDB, para a prefeitura de São Paulo. A mídia esqueceu, a população não percebeu, os adversários perdoaram.

Acreditando que com isso conseguiria uma governabilidade mínima, o PT fez aliança com o PMDB e este, sim, escolheu Michel Temer. O “presidente” agora só tem um caminho para concluir os dois anos que a constituição lhe garante: agradar o congresso.

Com maioria esmagadora do congresso formada por empresários Temer começa estendendo a mão para quem tem poder para tirar seu mandato. Flexibilizar leis que hoje favorecem os empregados, aumentar a jornada de trabalho e aumentar a idade para aposentadoria foram as primeiras promessas. As ruas reclamaram, mas quem tem poder direto de ação ficou contente.

Pela constituição Dilma não deveria ter sido impedida. Pela constituição Temer tem mais dois anos de governo ilegítimo. Pelo congresso, quem tem poder para transgredir a constituição uma vez, tem poder para transgredir sempre.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Ele odiava ter virado adulto

Ele havia crescido cercado de todo amor que uma família poderia dar a uma criança. Desde cedo era elogiado por ser educado demais, comportado demais, inteligente demais, bonito demais... Cresceu sabendo que sempre teria apoio, inteligência e capacidade para conquistar seus objetivos. Mas nunca foi ensinado a perder.
Ele, que havia adquirido uma personalidade forte com pensamentos determinados e certeiros a respeito de suas escolhas. Sabia a todo tempo se adaptar e não via problema em recomeçar. Colecionava conhecimentos e habilidades em diversos segmentos profissionais, era uma pessoa cheia de talentos. Tinha sede de aprender e gostava de saber cada vez mais. Era especialista em adquirir, mas não sabia perder.
Despreparado e com sentimento de injustiça, quando as perdas começaram a surgir ele sofria. Sem perceber foi definhando em relação aos seus ganhos antigos. Sofreu durante meses quando seu cachorro, companheiro desde a infância, faleceu. Chorou durante dias com o acidente que levou inesperadamente aquele ator que ele gostava tanto. Não soube recomeçar quando, pela primeira vez, foi demitido ao invés de pedir demissão para iniciar uma nova oportunidade. E devastou-se quando seu namoro perfeito chegou naturalmente ao fim depois de tanto acúmulo de sinais ignorados de que caminhava para o fim.
A vida é feita de ciclos, ciclos são finitos. Uma criança pode ser ensinada que ao invés de ser uma pena o pirulito ter acabado, ele pode comemorar o quanto aquele pirulito estava gostoso. Uma garota devia agradecer seu cachorrinho ter descansado depois de tanto ter brincado com ela. Os cachorros vivem bem menos, e ele a acompanhou até o máximo que pôde. Um homem deve saber que portas são fechadas e abertas por você ou por outras pessoas. E que é função das portas serem passagens, e não gaiolas. E os relacionamentos, embora finalizados enquanto rotina, vão sempre durar para sempre, afinal uma pessoa que conviveu com outra nunca mais será finalizada em suas lembranças. As pessoas deviam aprender a lidar melhor com as perdas focando na gratidão pelo tempo que durou ao invés de pensar no vazio que o prosseguirá. As pessoas ainda precisam aprender. Ele ainda não aprendeu. Por enquanto, ele odiava ter virado adulto.

domingo, 18 de setembro de 2016

A Minha Camisa 10

Dia de aniversário do clube de coração, do meu clube há 36 anos e do dela também, desde quando já a percebia tentando estar do meu lado na sala, acompanhando aquele time que normalmente veste verde, mas naquela noite vestia azul e foi difícil explicar o porque. Dia especial, saí para comprar o primeiro ingresso da pequena, missão difícil com a nova realidade dos torcedores sócios nas modernas arenas, mesmo o jogo sendo na semana seguinte. Mas pro torcedor “comum”, ingressos só daqui alguns dias.
Frustrado? Não. Estava eu na rua do nosso estádio, que hoje leva o nome de fundação do nosso clube de coração, no aniversário dele. Aquele dia seria especial ainda...
Lembrei dela entrando algumas vezes em lojas nos shoppings, com seus 5 anos, querendo ver se tinha algum vestido verde do seu time, mas com todas as tentativas em vão. Quando lembrei disso, entrei na maior loja da rua e perguntei se tinham este vestido, a moça disse que para essa idade não tinha mais, que minha menina já estava grande e merecendo uma camisa. Sabe, a moça da loja tinha razão! Me veio à mente a camisa que meu pai mandou fazer para mim nos meus primeiros anos de vida, com meu nome e o número 10 as costas e que tenho guardada como histórica até hoje.
- Moça, vê aquela verde, mas pode por o nome dela e o número 10 as costas?
- Claro, ela respondeu.
Saí da loja ainda sem o ingresso para o primeiro jogo dela, mas tendo em mãos a camisa 10 que iria manter uma tradição de pai pra filho(a).
Andei pela “nossa” rua olhando tudo em volta, muitos preparando as festividades do aniversário do clube que iriam acontecer logo mais à noite, lembrando das vezes que vim com meu pai aos jogos, dos pré jogos com os amigos já adulto, das inúmeras histórias de quando eu ainda nem era nascido, mas que soube pelo meu pai. Lembrei também que neste aniversário do clube, no dia que comprei essa eterna camisa 10 para minha filha, fazia também 1 ano em que a vida me tentou derrubar mas que me fez “cair pra cima”. Sentimentos que me fizeram sentir como se eu estivesse comemorando mais um campeonato naquela rua. Hoje estamos morando perto da nossa “casa”, então pude voltar rapidamente para o lar, pois logo ela chegaria da escola e eu tinha em mãos um presente especial para ela e pra mim também.
Não é só futebol! Nossas vidas possuem grandes e pequenas vitórias e derrotas, mas principalmente, também fazemos histórias. Hoje eu sou um campeão da felicidade pelas coisas simples.
“O Futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes.” (Arrigo Sacchi)

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

De vinis ao Spotify

 
Desde que eu me entendo por gente tenho contato com discos de vinil. Meu pai tinha uma coleção bacana, com clássicos do rock, como Beatles, Dire Straits, Eric Clapton, Pink Floyd, Supertramp e diversos outros.
O som, antigo, com a vitrola, duas caixas de som e um toca discos eram centrais na sala lá de casa, onde não tinha televisão. Eu me lembro que quando era criança eu também tinha os meus, mas acho que eram ganhados de minhas primas, e não comprados, como alguns da Xuxa e da Turma do Balão Mágico. Eu tinha também, e acho que esses sim, minha mãe havia comprado, era uns disquinhos coloridos, do tamanho de EP’s que contavam histórias. Acho que tinha um do Pinóquio e mais uns dois ou três. Eu gostava muito de ficar olhando para eles, pois eram coloridos.
Meu contato com a música sempre foi muito forte. Meu pai é (ou era?) beatlemaníaco e lá em casa ele só deixava rolar “rock n roll”. “Sertanejo aqui não entra”, dizia ele. Mais ou menos em 1994 meus pais fizeram uma viagem aos Estados Unidos e voltaram com um aparelho que tocava CD’s. Trouxeram alguns CD’s junto também. Foi a sensação do momento!
Lembro de uma vez que fomos a Belo Horizonte em uma loja de CD’s, eu devia ter uns seis ou sete anos. Fiquei completamente maravilhada. Minha mãe deixou eu comprar um para mim, e claro, como toda filha rebelde não segui os passos dos pais. O meu primeiro CD foi da Daniela Mercury – influência de ter passado uma temporada na casa de uma tia minha que adorava a cantora. Acho que custo uns catorze reais na época. Me lembro até hoje.
Quando chegamos em casa eu fui correndo colocar o CD para tocar. Ouvi ele inteiro. Quando acabou, eu abri o aparelho, virei o CD de lado, mas nada acontecia. Chamei minha mãe e ela começou a rir muito, e eu não entendia porquê. Até que ela me explicou que CD’s eram de um lado só. Eu achei super esquisito aquilo. Se tinha dois lados, por que não aproveitá-los?
Eu sempre cresci com a música sendo um elemento central na minha vida, do tipo de ligar para a rádio, pedir uma música e ficar a postos com o dedo no REC do gravador do toca fitas. Durante minha adolescência fui descobrindo novos sons, ganhei meu próprio sonzinho e todo aniversário ou Natal era dia de entrar na Kim Som (uma loja antiga daqui de Lavras) e escolher meus presentes. Era um corredorzinho fino e CD’s ficavam dos dois lados.
Fui comprando bastante CD’s, mas dessa vez de rock n’ roll. Guns n Roses, Iron Maiden, coletâneas. Cometi meu pecado, como todo adolescente, de comprar alguns do Nirvana, mas a fase passou. Lembro-me que tinha uns quatro porta-cds, lotados. Dizia para meus amigos “se minha casa pegar fogo um dia, acho que a primeira coisa que eu salvaria seria meus porta-cds”.
Passei para um som mais pesado – Nightwish, Helloween, Angra. Eu sei, eu não entendia muito bem o metal. Nessa época queria cantar como a Tarja Turunen. (Ainda hoje brinco de karaokê às vezes quando estou bêbada tentando cantar Nightwish, mas não conta para ninguém, tá?).
Quando fiz uns 16 anos e comecei a experimentar as delícias do mundo psicodélico, voltei a ter interesse pelos clássicos em vinil. Sempre às 4:20. As capas se tornaram muito mais interessantes e a música também. Cheguei até a fazer aquele famoso combo sincronizado de colocar The Dark Side of the Moon junto à terceira rugida do leão da MGM do filme original do Mágico de Oz. É claro, se você quer que sincronize, ele sincroniza. Depende da sua força de vontade.
Aos 17 fui morar sozinha em Juiz de Fora para fazer faculdade de comunicação. Quando me tornei bolsista de um programa de pesquisa, juntei as minhas duas primeiras bolsas e comprei minha própria vitrola. Foi lindo! Comprei pela internet, toda modernosa. Como não tinha caixa de som, ligava-a na Tv. Fazíamos festas só ouvindo vinil, projetando filmes estranhos na televisão. De Freaks a Pulp Fiction. E era lindo e super cult.
Eu tinha duas lojas preferias para comprar meus vinis lá em Juiz de Fora. Uma era o Museu do Disco – sempre tinha coisa boa. A outra era o Pare Rock, onde torrei boa parte do meu dinheiro com uma boa coleção do Jethro Tull, incluindo o Thick as a Brick, lindo. Tudo bem que a primeira parte da minha coleção acabou sendo com alguns discos “roubados” do meu pai. Afinal, a vitrola dele não funcionava mais e ele nem gastava tempo ouvindo discos.
Vários Beatles, Supertramp, Pink Floyd e Led Zeppelin ainda tem o nome dele escrito na capa do disco. Hoje tenho minha própria coleção. Há alguns anos algumas fábricas começaram a (re)lançar vinis. Até hoje tenho aquele sonho de consumo dos discos dos Mutantes e do Arnaldo Batista. Acho que nessa época comecei a virar adulta e a ficar pão dura.
Para minha maravilha, quando me casei, meu marido tinha uma boa coleção também, e hoje sempre fazemos algumas festinhas ouvindo vinil e sempre temos que ficar o dia seguinte organizando-os. Uma pena foi termos um dia ficado completamente wasted e deixado os discos no sol. Perdemos um dos discos de uma das nossas bandas preferidas, The Band, todo retorcido pelo calor. Triste fato.

Confesso que por mais que ame os meus discos e por mais que gostaria de passar mais tempo escutando-os, a vida adulta tem sido muito corrida e quase não sobra tempo para isso. Nos mudamos de casa já tem mais de uma semana, e nem sequer ligamos as caixinhas de som na vitrola. Mas é assim mesmo. 
Que fã de vinil nunca teve aquela conversa sobre a qualidade do som? "Vinil é melhor"! "Tá doido? CD é muito melhor!". Por mais que a gente saiba que mp3 não é lá grandes coisas, ultimamente o Spotify tem reinado aqui em casa. Os discos, eles precisam de carinho e de atenção. Prometo reservar em breve um final de semana para eles, pobrezineos. 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Quem disse que brasileiro é gente?


Em 2006 estava em um grupo de teatro que fazia uma pesquisa sobre moradores de rua. A peça era apresentada no centro de São Paulo e sempre estávamos ali, ensaiando e conversando com todos os moradores que encontrávamos.

A maioria das histórias se parecia, pessoas que perdiam empregos, casas, famílias, fosse pela bebida, pelo dinheiro, e acabavam morando na ruas. Alguns queriam voltar as suas cidades, mas tinham vergonha, então preferiam ficar, outros estavam mal mentalmente, corroídos pela bebida e pela droga. Mas todas as histórias eram comoventes, nunca conheci ninguém que quisesse continuar na rua, todos diziam a mesma coisa, se tivessem uma oportunidade de sair não estariam ali.

E lembro de uma moradora que ficava em frente ao lugar onde nos apresentávamos, ela sempre estava por ali, uma moça meiga, que tinha se envolvido com um namorado traficante e acabou morando na rua. Nós nos apresentávamos em uma casa destruída, cuidada por uma ONG, que trabalhava com os moradores de rua, esse lugar tinha um anexo com banheiro e cozinha e era frequente que os moradores de rua entrassem ali, assim nossa convivência era maior.

Um dia essa moça entrou procurando alguma coisa, eu tinha chegado cedo, fui a um canto fazer minha maquiagem e ela se sentou do meu lado, começou a me fazer perguntas sobre maquiagem, queria saber para que funcionava cada produto. Acabamos chegando na conversa sobre sua vida, porque não voltava para sua casa, mas ela me disse que sua mãe tinha morrido e seu pai não queria ela por lá. Comentou que não era tão ruim morar na rua, a única coisa que a fazia sentir mal era o ''banheiro''. Eu não entendi e ela me explicou que não se importava em dormir na rua, acordar e procurar comida no lixo, mas na hora que tinha que fazer suas necessidades se sentia como um animal, procurando um lugar escondido e se comportando como se fosse bicho. Me olhou fixamente e disse:

-É a coisa mais humilhante do mundo.


Fiquei chocada, nunca tinha pensado nisso.

Contei essa história para o grupo e saíram outras parecidas, inclusive de uma moça que usava pedaços de jornal no lugar dos absorventes.

Tudo isso era apenas causado pela falta de banheiros públicos. Uma coisa simples e comum em países civilizados, mas não aqui.

E tenho sentido muita revolta nos últimos dias porque venho assistindo a quantidade enorme de estrangeiros que chegou ao país para acompanhar as Olimpíadas, sem um lugar para ficar e a prefeitura disponibilizou lugares enormes, áreas em rodoviárias e aeroportos com toda a infraestrutura, banheiros químicos e chuveiros.

Sou a favor disso, acho legal receber as pessoas assim, a maioria são jovens e querem apenas se divertir, viajam pelo mundo de carro e acham engraçado ir chegando nos países sem nada garantido. Como cidadã apoio essa iniciativa e acho importante pensar nessas pessoas.

Mas e os cidadãos brasileiros? São tão invisíveis assim que não merecem uma área com banheiros públicos e chuveiros disponíveis?

Algumas pessoas podem argumentar que para isso existem os abrigos, mas eles são uma realidade que as pessoas não conhecem, se soubessem como funcionam entenderiam porque os moradores de rua têm tanta resistência em passar a noite lá. As pessoas não pode entrar com animais de estimação na maioria dos abrigos e muitos moradores estão sempre com seu cachorro, até por proteção. Os abrigos exigem que os moradores se cadastrem antes para ter acesso, mas ignoram que eles perdem seus documentos de maneiras sinistras onde muitas vezes a polícia está envolvida. Também são comuns os relatos de água fria e violência nesses lugares.

E o que custaria ter pelo menos banheiros químicos na cidade? Ah, uma fortuna, pelo menos os dos estrangeiros são provisórios! É? Mas eles foram instalados com meus impostos e eles não são provisórios, são quase eternos. Não vejo nenhum motivo para não instalar banheiros químicos em uma cidade onde mais de vinte mil pessoas dormem nas ruas. E São Paulo é a segunda cidade onde mais aparecem fezes humanas nas ruas, a primeira fica na Índia.

Para os estrangeiros tudo, seguindo aquela lógica da família real portuguesa, eles ficavam com o bom e o melhor, o resto que explodisse.

Canso de dizer isso, na hora de fazer gracinha para os estrangeiros somos os melhores, ''pagar de gatinho'' é quase esporte nacional, mas respeitar nossos cidadãos e devolver sua dignidade isso ninguém quer saber.

É terrível morar em uma cidade onde uma moradora de rua se sente um ''animal'' por ter que fazer suas necessidades na rua e outra se sente mal por usar jornal no lugar de absorventes, porque mesmo que usasse absorventes onde poderia fazer sua higiene íntima?

Isso não acontece, mas dar asilo a centenas de estrangeiros, inclusive um grupo enorme que depredou as cadeiras de um estádio, tudo bem, brasileiros somos assim mesmos, uns fofos.

Os estrangeiros vão embora achando que somos uma graça de povo, que até chuveiros mandou instalar. Mas ficamos com uma população de vinte mil pessoas na rua e mais de duzentas mil no Brasil inteiro, vivendo na rua como animais, comendo como animais e nem sei se é correto usar a palavra ''animais'', porque conheço muita gente que prefere cortar um braço a deixar seu cachorro dormindo na rua e virando o lixo para comer.

Por que essas pessoas são tão invisíveis e achamos normal a maneira como são tratadas pela prefeitura e governo? Por que sorrimos ao ver os estrangeiros serem tratados como reis enquanto brasileiros morrem na rua?

Alguém vai dizer que esses estrangeiros vão deixar dinheiro aqui, mas se fossem mesmo deixar estariam hospedados em hotéis, assim nas ruas deixam pouco e nada que mude a economia do país e não falo de dinheiro, falo de dignidade, o que custa um banheiro químico?

É triste pensar que um dia muitas pessoas disseram que os negros não tinham alma e os índios não passavam de animais, parece coisa do passado e uma simples anotação ao pé da página, mas esse pensamento é uma realidade que se vive em todo o país. Aqui se acredita que os cidadãos não valem nada e não tem dignidade, como se fossem umas plantas de plástico.

O governo perpetua essa ideia, quem mora na rua é um animal sem alma, não merece nem um lugar, nem chuveiros ou banheiros, ele que se vire com suas necessidades por aí, como se fosse um cão sem dono.

Acho lindo a palavra ''cidadão'', mas sei que vou morrer sem ver ela exercida neste país, aqui não existem ''cidadãos'' para o governo, somos todos uns pobres coitados que se esfolam pagando impostos. Não somos gente, nem temos alma, somos apenas umas sombras que sustentam toda a rede de corrupção que favorece a poucos. Falta muito para chegar a ser um ''cidadão'' aqui, porque ainda nem fomos reconhecidos pelo governo como seres humanos que têm sua dignidade. Nem a isso chegamos ainda.

Iara De Dupont

domingo, 11 de setembro de 2016

Corações Cintilates

Éramos centenas quando nos libertaram. Estávamos todo livres pelas ruas. Corríamos e cintilávamos em massa, como se fosse uma novidade respirar.
Já de cara, algumas dúzia tomaram rumos solitários, acreditando ser assim a forma de encontrar a felicidade. Resolveram cintilar pr'aqui e pr'acolá sozinhos, com penas a luz que os seguiam. Até quando?
Um outro punhado deles ficaram pra trás logo na primeira traição. Traídos pela desatenção do destino, foram macerados pela brutalidade das rodas da discórdia antes mesmo que pudessem cintilar por alguma por razão.
Dos tanto outros que restaram, dançaram ao som do vento e cintilaram à luz da rua, à luz da lua. Muitos se encontraram com as folhas secas que sambavam já secas e sem vida e assim, mais um pouco deles perderam seus brilhos.
E como numa estrada livre e desimpedida, aprendemos que há perigos e desafios. Alguns aprendem da forma mais cruel, outros com a sorte e poucos com as oportunidades.
Daquelas centenas já subtraídas restaram pouco mais que duas dúzia que logo foram vistos em grude com os chorumes escorridos nas sarjetas.
Agora éramos dezenas. Dezenas estas que  juntas mal formavam uma unidade. Cansados e já sem brilho, não viam mais graça nessa tal de liberdade. Cintilavam agora não mais por alegria, mas por necessidade de iluminar seus próprios caminhos e o que era alegria por brilho, passou a ser alegria por vencer obstáculos.
De todos os corações, não sei exatamente o que houve com muitos, mas certeza tenho eu, que agora tenho caneta e papel pra descrever as desventuras de uma estrada traiçoeira e árdua, mas que para mi, até agora serviu de lição. Agora cintilo em comemoração por ter saído vitorioso e contar a vocês a minha versão do que é verdadeiramente cintilar.

O amor é maior que isso.

Bom vamos lá... 
Esses dias eu assisti todo o filme Como eu era antes de você, eu digo todo porque havia lido o livro, que por sinal procurei quase em todas livrarias aqui perto de casa e acabei fazendo o download para ler, quando terminei quis jogar a mídia pela janela. 
Mesmo assim decidi ver o filme, as vezes eles mudam as coisas, as vezes não... 
Comecei, quando vi que ia acabar no mesmo final grotesco e fatídico parei. 
Massss esses dias estava de bobeira e resolvi ver de novo mas a mesma sensação que fiquei quando o livro terminou, talvez até um pouco maior para o filme foram a mesma: 
- MAS QUE PORRA É ISSO? 

AVISO: -Não continuem lendo se você não assistiu o filme e pretende assistir... 

Esse filme é uma história de amor magnífica que poderia ser mostrada como superação, vitória, conquista e motivação mas nãooo a autora resolve passar o que na minha opinião uma imagem negativa de que o amor NÃO é nada de mais além do amor... 
Não importa o quanto você ame ou se dedique, se algo muito ruim acontecer deveremos entender se você preferir se matar. 
O cara tinha uma vida maravilhosa aí acontece um acidente, ele fica tetraplégico a namorada larga ele e resolve se casar com o melhor amigo dele (genteee que melhor amigo faz isso?), como se tudo isso já não fosse ruim o suficiente depois disso ele se apaixona de novo por uma mocinha que também se apaixona por ele mas mesmo assim, a decisão dele de cometer eutanásia ou seja lá como isso se chama não muda. 
Não era pra ser uma mensagem de amor? 
Olha! Na boa pra mim esse filme é uma merda. 
Se não podemos acreditar que o amor salva, que muda sua vida para algo melhor já poderíamos sair correndo para o precipício, (kkkk) a vida não faz mais sentido. (em choque) 
Eu sinceramente fiquei chocada com esse filme, por que já têm tantas coisas ruins nessa vida ai vem mais essa com o amor... Poxa logo o amor? 
Posso não ter entendido o filme, ou a real mensagem que a autora quis passar, a única coisa que ficou foi a tristeza de que só o amor não basta pra nada. 

Mas quero deixar claro que eu acredito no amor, acredito que ele possa salvar vidas, almas e tudo que ele toca de verdade. 
Acredito que ele é iluminado e ilumina tudo. 
Sigo acreditando.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Dona Raquel

  Primeiro dia indo para o novo trabalho. Eu estou de cabeça cheia na fila do ônibus quando chega logo atrás de mim, uma senhora de 60 e poucos anos puxando conversa.
  Dona Raquel começa a contar a vida toda, conta que tem dois filhos e que o marido com quem era muito feliz morreu tem dois anos.
  Ela diz que cuidou dele, que agora está começando a sair com outros homens e que era difícil porque ela e o marido se entendiam muito bem na cama, e ela sentia falta disso.
  Entre outras histórias que foi da fila do ônibus até chegar na casa da amiga, uma de quando era jovem me fez esquecer por alguns minutos minhas ansiedades:

  Dona Raquel ainda jovem, com uns vinte anos, esperava o marido chegar em casa, planejando uma noite apimentada na cama. Mas nessa época os dois filhos do casal já eram nascidos e dormiam em um beliche no quarto do casal.
  O marido chega em casa e a família senta na mesa para jantar, inquieta ela pergunta para o marido:
  -Vai ter "festinha" hoje?
  -Vai sim! -responde ele, entendendo a indireta.

  Acontece que a noite é longa, e o filho mais velho não quer dormir por nada, uma hora o sono vence e enfim o casal pode se divertir.
  Logo que acabam, conversam baixinho, pra ver quem vai tomar banho primeiro:
  -Vai você primeiro, depois vou eu.-diz dona Raquel ainda deitada na cama.
  Logo o marido liga o chuveiro, e o filho mais velho acorda nervoso e começa a chamar o irmão no beliche:
  -Acorda tonto! Não tá vendo? Eles vão sair para uma festa e vão nos deixar aqui sozinhos! 

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Versos sobre o universo e a vida

Inacabado é o eterno presente que te habita,
ilusório de sua efêmera durabilidade
Se assim te faz é para que não se perca
na imensidão do passado-futuro 
que nos espreita
e espera
com a sua foice do tempo.
ampulheta
roda da vida.

*

Contemplo o infinito e sua inveterada face.
Nos anos da minha idade
todo ele já se fazia séculos-milênios
navegações completas no movimento do oceano.
Se me calo diante de sua figura
é que minha alma -
 arrebatada de sua grandeza
não absorve os fios
a tecitura de seu bordado
Mas, antes
os pressente em suas matizes.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Vida Vadia

Maria morreu na mira da metralhadora
Máquina mortífera manuseada por Marcos
Morreu Maria na mira da matadora
Mais uma mulher morta movida ao mato

Carlinhos carregava um coração cardíaco
Cheio de carisma, carinho e curiosidade
Cremado fora carregando seu carrinho
Cinzas de uma criança coberta de coragem

Dagoberto durou apenas dois dias
Diante daquele distinto diário
Doido... delirava sobre doenças e duendes
Descrevia tudo dirigindo documentário

A vida voa como vento veloz
Vão-se uns e voltam outros vários
Voando vamos vivendo sem tom de voz
Vamos voando e vivendo nossos desvairos

Fábio Fonseca

sábado, 3 de setembro de 2016

Um a cada três

Um a cada três pensamentos é sobre reminiscências. Um a cada três é sobre o hipotético. Um a cada três é somente para onde a melodia me levar. E ela insiste em me levar para longe, beirando os limites lineares dos pensamentos onde, um a cada três, são arrebatadoramente plenos. Longe o suficiente onde um, a cada três, dança ~~ guiando subversivamente as palavras que precisam ser dedilhadas. Longe aonde o tempo vai passando, e o ritmo cede em conformidade com as fagulhas dos insights, de um a cada três. Tão longe... onde um a cada três se funde em um enredo em tons de sépia de uma tarde de outono. Em um fim de tarde de outono. Em um fim de outono na praia. [Seria esse um deja vú  distorcido?] Lá longe em uma brisa suave bagunçando o meu cabelo, em um “moça, sobre o que você tanto escreve?”, em um fragmento do que poderia ter sido, mas, não, não é possível me adequar ao que não traz impulsos de vida, ao que não me instiga a esticar os dedos para ver se tamanha plenitude pode ser palpável, inundando minha alma de novas sensações. Seria como tentar dançar uma melodia que não toca na alma! Permeando brechas eu descobri uma intensidade fascinante dentro da serenidade de pura e simplesmente estar aqui, e nada além. Estou de braços abertos para um a cada três desejos de liberdade. Que me tome de jeito e arrebate todos os meus teoremas impalpáveis sobre o que vem a ser concreto. Que agregue aos meus devaneios e me proporcione novas poesias. Que alimente essa minha sede de viver. Que sinta a frequência da melodia tocando na alma. Que me leve para longe, longe o suficiente, aonde eu esqueça de um a cada três.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Soluções Práticas - Final


Olegiev pensou em mundos. Muitos mundos possíveis. Havia tempos ele perdera a noção de quantos mundos. Se o que ele viveu de fato foi algo a ser contado como uma só história. Quandos mundos são possíveis de serem alçados? De quantos mundos são feitos os cabelos, as histórias e as vidas. Natasha hoje era só uma palavra bonita de ser dita quando pensamos em alguém. Especialmente russa, Natasha. Enquanto passava o tempo se lembra também de outras eras e nomes.Vassili e a batalha perdida.Perdido em algum tempo depois ele retornaria a cidade onde nasceu. Reza a lendas. Alexis também reza a lenda pendurou suas armas na estante. O tempo nos deixa arrogantes e nos faz crentes de que nossas batalhas são as batalhas que valem a pena ser vencidas. Mas não, o mundo é feita de guerras tanto quanto de vasos de plantas e equipamentos multidimensionais velhos. Após Natasha ter voltado do portal, muito se disse sobre o que aconteceria. Revoluções, soldados, golpes, paz, etc. Palavras que se diz quando se fala de política, mas Nikolai só disse:"Perdemos". Nada mais. Soldados não vieram, preferiram repetir palavras onde pudessem. A coisa toda continuou como estava. Batalhas perdidas também são batalhas. Se são são perdidas, devem ser recontadas e renomeadas.  Nikolai voltou pra casa anos depois sem ter entendido o que teria dado errado. Afinal, era só gritar 

 Nomes que passaram a ser somente nomes. Palavras que se esquecerão nas brumas de mil tempos e mil mundos. Enquando estamos aqui sentados à beira da existência, contemplamos  a vaga noção de que fato existimos. Escritos num papel feito de carne. Ele se lembrava de muitas e muitas histórias. Desconexas entre si, inacabadas, intrincadas tecidas com instrumentos de madeira ou de metal, cabelos, tesouras e desejos. E enquanto pensava sobre os mundos possíveis, os mundos visitados e os abandonados, pensava realmente sobre o que significava tudo aquilo. Ser alguém é ao mesmo tempo não ser algo, mas como sabemos que não somos ou somos algo? Disperso em tempos diversos e incapaz de saber quem foi ou o que fui, ele se lamenta ter passado tanto tempo achando importante ser algo que teima em se dizer EU. Um nome ou palavra pra dizer que aquelas histórias pertencem a mesma ordem de coisas. 

Ele continua a pensar sobre os muitos mundos possíveis. Os muitos lugares que não terá tempo de voltar ou de conhecer. Nada disso importa agora. Ele já se decidiu. É hora de dar um fim. Uma solução prática às vezes existe. Outras tantas vezes não. Ainda que esse fim venha com a dúvida sobre sua vida.Se pode chama-la de vida e, principalmente ,se pode chama-la de sua. Quem vive nossas vidas quando nossas vidas podem ser muitas? Quando acaba-se o espião, o militar, o militante, o homem, a mulher e o velho de todas horas. Eu ou eles, posso ou pode-se dizer que não existo. As vidas como as histórias acabam.Tristes, fugazes, intensas, ébrias, alegres, felizes ou nada disso. Histórias são como os mundos possíveis que passamos. Simplesmente assim. No final, só resta morrer ou acabar a história.Do último ponto final só adiante o que se vê é um espaço em branco. 

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

soluções práticas - parte 26 (ou FORA TEMER)

Entrou e sentou nos fundos. Cansada de carregar o peso nos braços e mãos, olhou para uma delas e viu a vermelhidão, era tanta coisa na sacola do supermercado que sentiu raiva de ter comprado. Raiva do que, ali só tinha arroz, macarrão, óleo e outras coisas básicas para fazer o jantar.  Mas o que pesava mesmo era o cansaço do corpo, da mente.

Eliolete era a filha mais velha de um casal de nordestino com cinco filhos. Trabalha como balconista na 25 de março, com um salário mínimo mais comissão. Comissão rara que quase não dava em nada. Era a crise, os outros diziam, ela por muitas vezes repetia sem saber ao certo por quê. 

Moradora do Brás, nos cortiços em 2 cômodos que mais parecia um. Dividia o banheiro com outras seis famílias, e os dois cômodos com uma amiga. A estudante do quarto ano de história que ganhou uma bolsa de estudos pelo Enem.  Amiga Lena, assim Eliolete a chamava. 

Lenira era uma feminista, independente, aguerrida na luta pelo fim da exploração. Defendia o livre direito de pensar e a liberdade  do corpo, a ponto de desejar e rolar com quem fosse. Mas pouco conseguia viver a liberdade - da mente – essa era a mais difícil. Namorada do cara mais machista do movimento. Nem ela sabia o motivo. Era excitação só podia ser. Também dependência  financeira. Largou a família porque não aceitava o machismo, violência e opressão do pai.

Mas o que perturbava era ver a irmã apelidada de Laia ser tão obediente ao homem que lhe expulsou de casa. Larina de 17 anos era irmã mais nova, frequentadora da igreja, do coral e secundarista, participava dos atos e movimento escondida da família. Recentemente levou uma surra do pai por que apareceu em foto divulgada na internet, aquela pendurada nos muros com um punho cerrado pra cima pedindo o “fim da reorganização das escolas”.

 Larina se desdobrava entre a igreja e as reuniões auto-organizadas, boa aluna tirava notas altas, aplicada na hora da explicação não olhava para o lado, gostava de poesia, musica e daquele menino. Mas também sem grandes apegos. O objetivo era mesmo a universidade, prestar vestibular para engenharia. E mudar a engenharia do sistema só para homens.

O pai controlava seus passos, tinha planos para casá-la com o homem mais abençoado da igreja, o diácono de 42 anos. Também político e deputado federal engajado pela Escola sem Partido, dizia constantemente ao pai de Vânia que era a escolhida de Deus para ele.

As filhas da dona Julina, casada há mais de 25 anos com mesmo homem e primeiro namorado.  O pastor e comerciante que participava do congresso para empresários e ia religiosamente todo final de semana a igreja. Rígido, expulsou a filha de casa por ser feminista, a mais nova trazia na linha, porque ia ser gente, nada de protestos nesta família. Com ele a conversa era na pancada. Deus não se agrada de baderna, quer ordem e só existe progresso quando obedecemos. Protestar somente quando eles ordenarem.

A maioria era político e ele também almejava um cargo assim, se candidatar para vereador, deputado, prefeito, governador ou quem sabe presidente. Pastor Antônio, não faltava nos cultos. Principalmente os que Verona estava. A mais nova convertida, de prostituta a diaconisa. Que mulher! Que corpo! Que oração! A cada som da sua voz, seu corpo tremia. Mas chorava pedindo a Deus perdão, por esse sentimento e sensações.  Na última direção de Deus, ofertou um carro. Deus é que sabia, era tanta culpa que só assim para sentir paz.

Julina era mulher extremamente bonita, tinha mais de 50 anos, mas com ar de 40. Mesmo com rugas, tinha no rosto a expressão de pouco ter vivido. O sofrimento não transparecia nos traços marcantes. Os cabelos tingidos de preto para esconder os fios brancos na menor lavagem ou retoque da raiz transbordavam sensualidade, aquele cabelo no vento, as pernas torneadas, com seios fartos, bunda arredondada e quadril roliço caiam perfeitamente nas saias longas. Discreta. Mas evidente, notada onde quer que passasse.

Gostava de se vestir para si, mas detestava quando era recriminada ao colocar uma calça jeans, onde tudo ficava mais evidente. Aceitava que os anos tinham sido generosos mesmo com todo desgaste no casamento e enfado de vida.  Andava cheirosa e adorava sair sozinha à tarde quando o marido estava no comércio, sentia um ar de liberdade.

Mais alegre que de costume, ninguém percebia nada, nem os filhos e menos ainda o marido. Por acaso, numa tarde conheceu Alzerina, mulher inteligente, com papo interessantíssimo, proprietária de loja alugada de artesanatos e professora de filosofia aposentada. Suspeitava ser lésbica. Mas não perguntava.  Alzerina gostava de conversar, de ficar por perto. E com ela sentia o prazer da conversa e atenção que o marido não tinha. Esquecia do peso das mãos do marido. Sentia que de certo modo, nestas conversas era livre.

Eliolete não entendia a família religiosa que vivia no inferno. Menos ainda da exploração que a amiga tanto falava. Mal compreendia qualquer significado do por que é tão pobre. Largou os estudos no primeiro ano do ensino médio. Veio para São Paulo para ficar com uma tia.
A tia fazia dela empregada. Dava uns empurrões quando não fazia algo certo.. Já que é assim, apanhava do pai lá, não ia apanhar aqui.

Desde então é só. Mas tem facilidade para fazer amizade. Faz com quem quer, tenta ser solidaria, mas se abusar e moscar vai ver o retété. Às vezes tem um affer e outro que logo acaba em meses ou em anos, mas acaba. Usa o pouco para se divertir, não quer ter filhos: pra quê sofre o que sofri? Era mais livre do que alguns podia imaginar.

Chegou. O próximo ponto já era o seu. Quando desceu, deu de cara com uma manifestação com muitos cartazes e bandeiras, na grande maioria vermelha e preta. Lembrou que a comissão do mês não veio sequer para fazer a feira. E continuavam dizendo que era a crise.
Crise ela vivia desde pequena, pensou.

Subiu as escadas, abriu a porta, deixou as sacolas na mesa. Flexionou as mãos para a dor e marcas passar. Falou oi para Lúcia  que estava varrendo a casa, foi em direção a janela e ficou olhando a manifestação seguir com cartazes e gritos de: FORA TEMER, FORA GOLPISTAS!

Pela primeira vez, aquilo fez algum sentido. Virou-se para a Lúcia e Lena e disse:
- Vamos?
 Desceram as escadas, abriram o portão e correrão na direção da manifestação para gritar:
FORA TEMER, FORA GOLPISTAS!

Lenira conhecia bem esses rompantes, era o começo de. Eliolete, não entendia, mas queria estar ali e continuar gritando com toda as forças e ar dos pulmões.