segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Memórias de um futuro brilhante

Ilustração: Julie Maroh
Naquela manhã o relógio despertara às seis e quinze. Como nos últimos dez anos, Tânia só sairia da cama às sete, mas aos poucos foi retroagindo o alarme e usando a função soneca. Por dez minutos. Vinte. Trinta. Até chegar aos atuais quarenta e cinco minutos. Dez cliques no botão de soneca de cinco em cinco minutos, que raramente eram intercalados por um cochilo. Tânia despertava logo no primeiro toque, por vezes até antes, e ficava lá, na cama. Em algumas manhãs criava pequenos desafios, como a cada toque do despertador mudar a posição na cama e permanecer imóvel nos cinco minutos seguintes. De bruços, lado direito, lado esquerdo. Decúbito ventral. Lembrava desse termo das aulas de biologia. Decúbito. De onde tiravam essas palavras?

Na tal manhã não estava disposta a jogos. Após a terceira soneca estava deitada de barriga para cima, olhando o teto, onde pouco antes de entrar na adolescência havia colado uma dezena de estrelinhas florescentes. Imaginou que com isso tinha a sensação de olhar o infinito. Que bobagem.

A memória difusa foi para o dia em que uma amiga viu as estrelas e disse que parecia a constelação de Áries. Não fazia ideia. Havia colado todas ao acaso, na ponta dos pés e quase caindo da cama. Áries. Que bobagem. Mal sabia qual era seu signo, mas não era de Áries. Peixes, talvez Aquário. Tinha alguma coisa com água. Escorpião! Isso!

As estrelas do teto haviam sido dadas de presente pela professora, uma lembrança daquele ano que chegava ao fim. E lá estava a dezena de estrelas cintilando em verde florescente. Hoje amareladas, elas já quase não brilhavam.

Na época em que ganhou as estrelas Tânia era a aluna modelo. A dona das notas mais altas, que fingia modéstia para despistar o orgulho de ser a primeira da classe por anos seguidos. Hoje passava as sonecas do despertador. Engraçado, os mesmos cinco minutos às vezes passavam num piscar de olhos, outras vezes demoravam horas. Ela precisava conter a ansiedade de olhar para ter certeza de que não havia desligado o despertador sem querer.

A primeira da classe. Imaginava então um futuro bem distinto daquela rotina de ficar acordada, olhando para o teto, por algum motivo esperando o horário de sair da cama. Ao revisitar sua memória sentiu como se tivesse saudade do futuro. Que bobagem. Como alguém pode ter saudade do futuro?

Podendo ou não, era o que ela sentia. Lembrou e sentiu falta daquele futuro que não chegou. Que de brilhante foi ficando fosco, opaco, tal qual as pequenas estrelas que se esforçavam para resistir ao tempo e não apagar de uma vez.

Precisava comprar granola. Tinha que ter feito isso ontem, antes de ir para casa, mas acabou esquecendo. O jeito era improvisar alguma coisa para comer e não se esquecer de passar no mercado depois do trabalho.

Não era a primeira vez que tentava lembrar em que ponto seu futuro desandou. Mas não encontrava nada específico. Buscava algum cruzamento mal sinalizado, uma conversão errada, um retorno perdido. A memória lhe trazia tanta falta de opção que sempre terminava com a sensação de que seguira por uma trilha estreita em meio à mata fechada durante toda sua vida. Uma trilha com placas que indicavam seu futuro brilhante, mas que conduzira para sua cama, ao lado de um criado-mudo que dava suporte ao despertador, logo abaixo da dezena de estrelas.

A granola. Não podia se esquecer da granola. Ela gostava de granola.

Último toque do dia. Sete horas em ponto. Hora de parar de enrolar e seguir a vida. Ainda devia ter um restinho de Nescau vencido na cozinha, dava para quebrar o galho até amanhã. Um café da manhã que resgatava a memória de quando era a primeira da classe. Nescau. Tinha abandonado o achocolatado há muito tempo. Vai ver que foi isso que desandou seu futuro brilhante.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Memórias De Uma Vida No Aniversário



Década de 80: Segunda-feira de carnaval do ano de 1980, já nasci sem pressa de viver, pra viver melhor. Demorei mais dias do que o normal pra chegar e, segundo a minha mãe, cheguei sem chorar, simbolismo irônico do que seria a minha vida até aqui. Cheguei a esse mundo no hospital que levava e ainda leva o nome da minha cidade, São Bernardo, no ABC Paulista, que além do meu berço também já era berço de lutas que se espalharam pelo país. Década em que todos estavam aprendendo a andar com as próprias pernas, inclusive eu.

Década de 90: O ano de 1991, talvez o melhor ano da música, o ano que me fez pular do sofá ouvindo o que mudaria minha vida fazendo disso aquilo que eu quisesse, o Rock era a voz do menino tímido e fechado que estocaria seu arsenal de ideias e ideais para que quando tudo explodisse, ele pudesse tentar mudar o mundo mudando as pessoas a quem lhe ouvisse. O mesmo ano de 1991 também foi o pior, me tirou várias pessoas que eu amava e praticamente de uma vez só, pessoas que me moldaram a ser o que sou hoje, o menino de 11 anos já perdia grandes referências de sua criação. Nasceu o grunge no começo da década, meu maior amigo em anos, pois eu me fecharia ainda mais. Acabou o ginásio, veio o colegial técnico no coração da indústria nacional até então, veio a explosão de fúria e rebeldia contida na segunda metade da década, junto com o auge da adolescência.

os Anos 2000: o começo da década foi baseada no alternativo e underground sendo minha alternativa pra viver e curtir a vida. Trabalhar, viver, tocar a música pra tocar a vida, e curtir. Urbano Cia era a banda, a nossa gangue que ensaiava de dia e andava pela noite paulistana. Metade da década se foi, mas logo no começo da outra metade veio a paz em forma de pessoa pra cuidar de mim e me tornar alguém melhor, a paz no coração que faltava.

Anos 10: No meu aniversário de 30, a grande notícia e talvez o melhor presente de todos que já tive: Serei pai, do bebê que viria a se tornar minha princesa punk. O DNA do ano de 1980 no ABC estaria nela. Mas na metade dessa década, grandes mudanças pessoais e profissionais e ela veio junto a nós para São Paulo, no bairro em que a mãe dela cresceu, onde surgiu o movimento punk na cidade de São Paulo. Ou seja, numa grande mudança de vida, mas no final das contas estamos todos em casa e sempre carregando as raízes para onde vamos.

Em todos os aniversários eu passo o dia lembrando e pensando na vida, nos que foram, nos que estão e onde estão aqueles que se foram. Justamente hoje não sera diferente... Memórias, história, raízes, esperança e fé no futuro… é a vida, mais um ano de jornada e uma página em branco para futuras memórias.

Obrigado pela leitura, obrigado por fazer parte desse livro!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Convites de casamento

Os convites de casamento se acumulavam sobre a mesa da sala: “Virgílio e família”. Os anos de dedicação e carinho aos tios, primos, sobrinhos, amigos e vizinhos renderam uma boa coleção de caligrafias, pedaços de tules, e papéis cartão em tons diferentes de bege. Na cozinha, o único som era o da geladeira, que mesmo sendo um modelo novo e silencioso, era mais barulhento que os próprios pensamentos.

Na sala, sentava-se de frente para a televisão, mas não ousava tocar no controle remoto. Mantinha-a sempre desligada. A programação era sempre a do seu próprio reflexo. Quando estava escuro, as únicas imagens eram a de suas memórias.

Sua rotina era composta por quatro principais eventos: acordar, ir ao banheiro, comer e dormir. Não necessariamente nessa ordem, e com repetições de ações. Fora isso, tentava andar de um lado para o outro no corredor da casa após o almoço para fazer a digestão. Às sextas-feiras, tinha fisioterapia.

Em suas viagens diárias ao passado, lembrava-se especialmente de sua mãe. Às vezes, em visita da neta, nos momentos em que seus caminhos se bifurcavam, ou quando suas sinapses já não funcionavam, agarrava a mão daquela moça que estava ali à frente e chamava por sua mãe. “Mamãe, mamãe, mamãe”. Voltava à realidade quando entendia quem era ali – “Tudo bem, vô?”, perguntavam os olhos gigantes, porém delicados, e as mãos firmes. Respondia que sim com a cabeça. E logo voltava-se para a programação normal.

Morreu dormindo, logo depois de ter chamado pela mãe, como insistentemente fazia nos últimos anos. Aparentemente, dessa vez ela havia ouvido seus chamados. Deixou a esposa sem rumo, que acabou tomando seu lugar no sofá.

Mais ativa que era, ela ainda estendia as caminhadas até o mercado do centro, para buscar sua marmita diária na hora do almoço – não fazia mais sentido fazer comida para si mesma – fazia seu croché e caçava palavras nas revistinhas de bancas de jornal.

Agora, o neto mais novo fora morar com ela, mas ainda tinha dúvidas frequentes de quem era ele – o neto ou o filho? Dizia, sempre risonha para o resto da família em suas visitas semanais: “dessa vez eu juro que paro de chama-lo de Lúcio. É o Ju.” Segundos depois, desistia da sua proposição. Era o filho. Ao telefone, dizia à neta: “hoje fui almoçar com o Tio Lúcio”.

Mantinha suas tentativas frustradas de acertar. Sempre tivera medo daquele cara alemão que saía por aí roubando as memórias e os afetos. Era o Alzheimer, lhe diziam. Por isso, pegava firme nas caça-palavras.

Essa semana se sentiu estranha pois visitou um lugar que há muito não ia. Viu pessoas que há muito não encontrava. Teve a impressão de que fora ao velório de algumas delas. Visitou o melhor carnaval de rua da sua cidade, na época dos grandes bailes e das marchinhas. Dançou até dar calo nos pés, paquerou o marido, que estranhamente ainda tinha as feições jovens, tomou um porre de vinho, o único da vida. Pensando bem, agora eram dois, já que o havia tomado de novo. Quando voltou para casa, o neto (ou o filho?) lhe levava uma xícara de café e já não tinha mais certeza de onde estava.

Outro dia resolveu passar uns dias com a irmã mais nova, essa tinha Alzheimer, coitadinha. Uma moça tomava conta dela durante o dia. Tomavam café juntas e assistiam televisão. Mas, frequentemente era interrompida pela pergunta: “O Virgílio já morreu?”. E tinha que, com paciência, responder que sim, todas as vezes. Uma pontada no coração, um frio na barriga e uma lágrima acompanhavam a paciência que tinha ao responder a irmã.

Mas seguia de cabeça em pé. “Estou ficando caduquinha”, dizia à neta, “mas ainda tenho muita vontade de viver”. E no seu andar corcunda, caminhava confundindo suas memórias, embaralhando passado e presente. Uma pena é que as fotos digitais já não trazem a materialidade do passado, mas pelo menos, os mais de vinte porta-retratos no móvel de entrada traziam algum conforto. A foto de seu próprio casamento. Como estava bonita! E o Virgílio, tão novo. Isso a fez lembrar de algo: olhou para uma pilha de papéis na mesa da sala e começou a escrever a lista de presentes a serem comprados.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Tudo é só saudade


Entre panos surrados, estampas desbotadas, paredes descascadas e panelas pretas pelo tempo eu ainda vejo borboletas. Ainda é o único lugar no qual eu as vejo voando. Alguns representantes dos coloridos insetos que eu capturava quando pousavam nos capitães também coloridos, na feliz infância.
Quando volto, meu reino tem rainha. E ela reina.
- Não precisava por tudo isso de óleo para fazer arroz.
- Se não por, o arroz fica seco e seu avô precisa de energia.
- A energia não vem do óleo, ele precisa de carboidrato.
E ela não está nem aí para os meus cientificismos de revista e programas de saúde na TV. É o melhor arroz com quiabo, com salada, bife e feijão de todo o mundo.
- Por quê você plantou um alho-poró no meio do jardim e não na horta?
- É planta também e aqui é minha horta.
Manjericão, jurubeba, manga, goiaba, pimenta, pitanga, banana, caju, dália, rosa, pé de cana, acerola, orquídia, boldo, cebolinha,couve, jaboticaba, salsinha.
Desde cedo aprendi que aquele era o jardim mais plural e democrático que conhecia. Tudo ainda está lá e tem para todo mundo.
Hoje quando bebi um suco do limão que ela não deixou colher antes, que estava reservado para mim, pude ver que realmente no meu reino ele tem outro gosto. Não azedo como encontrei por aí.
- Quer açúcar no suco de laranja?
- Não, só tomo natural agora.
- Se quiser eu coloco um pouco, com gelo porque você sabe que eu gosto de tudo bem docinho.
Sei sim, e como eu cresci amando tudo que era tão docinho, feito de um néctar especial, de fonte única.
Pensei: Nossa! Como o limão ta com um gosto diferente. E é bom.
O bolor chegou na cozinha, em alguns cantos da parede. Há bibelôs mancos que ainda lutam com a gravidade e ocupam quase que a mesma posição. Há acúmulo de coisas no quintal.
Digo: - Por quê você junta tanta coisa que não usa? Penso: faço a mesma coisa.
A falta do reboco na parede, a ferrugem na porta e a madeira apodrecida me incomodam; mas o cheiro de dama da noite ainda entra todos os dias pela janela e toma conta da casa sem pedir licença.
Cada vez que vou embora tenho mais medo que o tempo pese sobre esse reino que eu deixei. Não sobre o bolor, sobre a ferrugem, sobre a tinta das paredes ou sobre os panos envelhecidos.
No abraço do reencontro ela pergunta: - O que você achou lá que não volta de vez?
Eu sem saber o que responder, digo:
- Eu não posso voltar.
Volto. Bebo suco de limão que não é limão. Como o pior arroz, caro e sem gosto pra saber que no meu reino tudo é tão diferente.
E mesmo com o medo enorme do tempo me castigar com a ausência dela, eu parto. Minha ausência já a castiga; mesmo sabendo que preciso ir ela finge irracionalidade e pergunta por que eu não fico mais.
- come um chocolate.
- eu acabei de almoçar.
- toma um iogurte então.
- mas eu acabei de comer.
- vou por um copo de vinho pra você.
Sentada numa cadeira no jardim, em meio a tanto verde e sob um céu ardentemente azul com nuvens de paina, ela sempre vai reinar.
Quando o portão bate; tudo é só saudade.


Por Fernando Bonfim, dia 13

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Memórias

Há quem diga que memória boa é aquela que se guarda com carinho de algo que se foi há muito tempo. Há quem diga que memória é um pedaço vivo da saudade. Há quem não tenha saudade de nada, apenas um trauma que se denominou memória por não se enquadrar em outra categoria. Há memória que é de arrependimento e há memória que vira aprendizado.

Memórias.

Memórias são como um artigo de museu, quanto mais antiga, mais rara e quanto mais rara, mais valiosa ela se torna.

Eu aposto que a maioria irá escrever sobre as memórias da infância ou da adolescência, da época da escola ou das férias de quinze anos atrás. Quiçá alguma tristeza em tom de dor daquela que não volta mais.

Hoje eu decidi contrariar esse conceito. Não pretendo ir muito longe para descrever uma memória. Neste contexto eu não pretendo falar de memórias ruins, também não pretendo contrariar as leis temporais: Memórias são feitas de passado e assim será.

Por hoje minhas memórias serão concentradas no amor, um cliché de poucos dias atrás. São memórias recentes sobre alguém que lutou por mim e me provou o porquê valia a pena.

Eu me lembro dos jantares e dos abraços. Me lembro dos beijos e carinhos. Me lembro que há dois anos rimos em demasia a ponto de a barriga doer, rimos assim há um ano atrás, oito meses, seis meses, quatro meses e ontem de novo.

Me lembro que esses dias viajamos muitas vezes, viagens curtas e viagens longas, houve até viagem sem sair do lugar, mas eu me lembro.

Também há a recordação de que viramos a noite como dois adolescentes em plena liberdade e cheios de energia. Me recordo que repetimos isso muitas vezes e me lembro também que já não somos assim tão jovens e que o corpo suplicou por descanso.

Há tantas memórias de curto prazo que não me lembro de todas, mas se eu tivesse que escrever este texto amanhã sobre esse mesmo tema, acredito que eu falaria sobre outras memórias não ditas aqui. Não pelo fato de não ter importância, apenas porque nosso tempo de memórias possuem tantas delas que precisaríamos de muitos dias de vinhos e queijos que isso naturalmente nos proporcionaria mais memórias.

São memórias de “ontem”. Todas recentes, mas são essas memórias que estão valorizando em nosso cofre de recordações pra podermos aplicar nas memórias de amanhã.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Adormecidas em nós, faz de nós quem somos.



Algumas vezes quando paro quieta em meu canto, e tento de alguma maneira silenciar minha mente para que elas não venham.
Essas memórias que às vezes mais parecem fantasmas que  na calada da noite se esguiam para assustar crianças malcriadas e alguns adultos medrosos.

Sem pedir elas aparecem e não importa o que eu faça, não há como esquecer.

Sim, aprendi muitas coisas com elas, outras só acumularam na pilha de coisas que não devia ter feito, mas fiz. É incrível como a gente finge que esquece alguma coisa só pra poder errar de novo, um erro que juramos que dessa vez será acerto, mas não, nunca é e a memória está ali pra te lembrar do quanto você foi besta.
Ainda não consegui entender essa linha frágil entre memória boa e memória ruim, não decidi se não queria lembrar de nada ou gostaria de lembrar de absolutamente tudo.

Onde foram parar aquelas que não lembramos? Aquelas que sabemos que aconteceu,  mas não sabemos exatamente como?
Somos também memórias esquecidas?  Aquelas que durante um tempo permanecem vivas e depois vão se esvaindo pouco a pouco ou num instante.

Essas, não sei dizer o quanto de mim guardavam e nem quanto de mim se perdeu.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Fiquei com Febre a Tarde Inteira

 Ouvia uma fita cassete do Legião urbana, e em um pequeno trecho os integrantes do grupo falavam sobre eles mesmos.Não tinha muito a ser falado, já que tinham 20 e pouquíssimos anos e fora estudar e tocar não tinham grandes novidades.Pensei no Renato Russo, no Cazuza, no Álvares de Azevedo, No Kurt Cobain entre tantos outros, e pensei no porque de nossos "poetas" serem tão jovens. Tanta base, tantos princípios, tanta importância vindo de pessoinhas que mal saram da adolescência.

  Lembrei também que no final da minha adolescência, fazia melodias e escrevias versos e poemas para acompanhar, muitos eu já esqueci, mas outros muitos tenho guardado e as vezes me pego cantando uma música que eu mesma escrevi. Como se eu tivesse sido outra pessoa - eu era - não canso de pensar que cabem mil vidas dentro de uma só.

  Com o tempo a vida foi ficando séria e eu também, chorar por um amor não correspondido foi ficando pequeno perto de outros motivos tão grandes que me permitiam chorar, esse choro é amargo e nunca valeu ser eternizado com uma canção quando a gente só quer esquecer.

  Tinha uma teoria, que gente com a vida melhor ouve música "boa" e gente mais simples ouve música "ruim" um arrocha, um pagode, um funk descontraído porque distraí quem tem problemas de verdade. Isso também, as músicas que escuto hoje são tão mais alegres do que o "hoje a tristeza não é passageira", porque vai que não é mesmo.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

n'ouro das memórias

Acordei ressabiada com os sonhos de ontem. Sonhos esses que, na verdade, já foram a realidade de um tempo mais distante. No final das contas, o que nos sobra é isso – a ilusão, a saudade e aquele cheiro de naftalina nas gavetas do armário.
 
 Os fatos travestidos de fantasmas caminharam ao meu lado, como amigos leais, por todas as horas da minha inquebrável rotina. Procurei me manter sensata, distante, como manda o figurino. Mas as memórias daqueles dias abriram uma cratera no meio da sala impossível de ignorar e pouco a pouco fui caindo, submergindo até sobrar um espelho embaçado, incapaz de mostrar a minha face.
 
Naqueles (outros) dias tudo era brisa e montanhas. As pedras da calçada faziam cócegas na alma. Tudo era imenso no coração da gente e, por isso, a gente sonhava. Eu sonhava. Quando fecho meus olhos consigo sentir o cheiro daquelas paragens no início da contagem dos meses: nas roupas que só secavam ao longo de uma semana – devido à umidade -, nos gases vespertinos daquela indústria, no odor sábio dos móveis e das antigas casas.
 
Todo o novo dentro de mim parecia impregnado de possibilidades a se bordarem na roca da vida. O tempo, ali, estava com a sua ampulheta suspensa. Devagar passava e nos enganava – que iria durar.



Ouro Preto, tarde de neblina, 2011.














domingo, 5 de fevereiro de 2017

Memórias

Hoje ouvi dizer sobre lembranças
E tantas memórias guardadas
Então, assim como a luz que se acende
Me vieram imagens, sonhos e devaneios

Lembrei da Londres vitoriana
De seus becos escuros e charmosos
Minha mente me levou à Alemanha
Que chorava em uma guerra sem fim

Foi então que me falaram com ar ríspido
“Mas estas memórias não são suas!..”
Não são Minhas?
Oras! Por que não?
Estão comigo e me foram dadas

Não serão minhas as memórias,
De uma cidade distorcida,
Pelos temores de um Rainer Rilke?

Será que as lembranças que tenho,
Daquela Itabira de um José qualquer,
Não me foram dadas?

Lembro-me perfeitamente do Inferno
Assim como do Céu da bela Beatriz
Quantas horas ficamos por lá conversando!

Tantas são as histórias que tenho comigo
De São Paulo, Pernambuco, Ceará e Piauí
Algumas outras até importadas do Japão

Sim! São minhas memórias
Não me importa se vieram do Cinema
De notas agudas ou graves
Ainda mais se me vieram em papel
Seja ele branco e novo
Ou amarelado e perfumado
Pelo cheiro do tempo!

São minhas memórias
Assim como outras que vivi
Esta aqui, separei para quem quiser levar

 Fábio Fonseca

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Plástico derretido

Lembranças nos fazem crescer. 
Algumas são tristes, outras felizes. 
Levo boas recordações,
entre feridas e cicatrizes.

Tenho uma marca no pulso,
Feita por um amigo.
Brigamos feio aquele dia,
Mas ele sempre esteve comigo.

E nem podia odiar o cara,
Afinal, sempre foi bem legal.
Só fiquei com raiva na hora. 
Perdão, segue a vida, normal.

Na verdade, agora,
Fico até envergonhado comigo.
Vejo mais a cicatriz,
Que esse meu velho amigo.

Decidi mandar uma mensagem,
Perguntar por onde ele andava.
Falei desse poema,
E que com saudade estava. 

É complicado manter amizade,
Quando trocamos de cidade.
Mas a afinidade prevalece,
Não se esquece quem é de verdade.

Nada de cobrir com tatuagem.
Para mim está tudo bem.
Prefiro essa marquinha,
Pelo menos lembro de alguém.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Fragmentos de vida

Memórias são fragmentos de vida capazes de nos transportar no tempo espaço. São registros vivos do passado, das coisas que, por algum motivo, ficaram registradas e permanecem vivas em nossa alma.

Memórias florescem do inusitado, elas têm vida própria. Aromas, cores, texturas, lugares e músicas que despertam esses fragmentos de vida. Tudo o que revela o latente dentro de nós.

Alimentada pela nostalgia, algumas memórias doem pelo nosso ego. Por, de certa forma, não aceitarmos que aquilo seja apenas uma memória. Sim, elas podem ser cruéis, trazendo esse sentimento de inconformidade, mas é impossível tentar trazer para o mundo concreto uma memória, ela jamais será replicada em campo palpável novamente, pois o mesmo homem não entra no mesmo rio duas vezes.

Que a gente possa aplicar a memória seletiva e tirar do nosso “baú de recordações”, todas as memórias que nos consomem. Que não seja preciso guardar as músicas favoritas com medo de criar memórias musicais. Que, daqui para frente, os fragmentos de vida registrados sejam leves e doces.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Rupturas e marcas

Memórias não são fatos sólidos. Não são o que aconteceu, dito de forma impessoal e imparcial. Isso, num mundo ideal, seria a História. Memórias são pedaços de nós. Pedaços de nossos sentimentos e impressões. E apesar de empatia já ser difícil no tempo presente, quando se trata de relembrar o passado, ela se torna ainda mais complexa.

Entre as memórias que se tornam mais difíceis de ver com objetividade, e até mesmo de lembrar em momentos comuns, estão as de rupturas.

Perdas. Demissões. Mortes na família. Humilhações memoráveis. Todos esses eventos, e muitos outros, nos deixam aquele tipo de cicatriz que ao mesmo tempo em que nos faz esquecer muito do ocorrido para seguir em frente, surgem em nossas mentes nos piores momentos. A memória, longe de ser uma serva fiel ou uma agenda de momentos doces, muitas vezes se apresenta como um catálogo de dores. E a forma de lidar com isso é muito pessoal.

Nem todas as memórias são doces, e muitas vezes as amargas realmente são as de maior destaque. Mas em momentos em que a luz parecer distante, é importante lembrar que as memórias são subjetivas, e nós muitas vezes nos julgamos com dureza demais. E mais que isso, que essas marcas todas são o que nos construiu. Se você hoje é uma colcha de retalhos, lembre-se que cada um desses pedaços está aqui porque sobreviveu às cisões. 

Carregar marcas não é vergonha, e assim como aprendemos com os erros do passado, devemos aprender a nos perdoar e a perceber que o que passou, passou. As memórias podem nos ensinar lições, nos fazer melhores e mais sábios, mas não podem nos escravizar. Porque se estamos aqui é porque sobrevivemos a todas elas.

Um ano memorável a todos. 




domingo, 29 de janeiro de 2017

não vadeia na política dos homens! não vadeia!

O ano começou pesado e pelo jeito a leveza anda passando longe, pelo menos por aqui na terra da banana. Mas como a gente não se entrega e sempre acredita no dia depois de amanhã, com aquela fé e esperança de que algo bom ainda está por vir, seguimos.

A quantidade de mulheres que foram vadiar pelas ruas com cartazes e gritos nesta semana, principalmente em Washington D/C foi o fôlego, a respiração, a vitamina D noturna que precisava para espantar o mar de desilusão.

Contemplá-las na vadiagem pelas ruas mesmo de longe e sem entender o que falavam é a evidência e certeza de que acreditar no dia seguinte é melhor que pensar no dia anterior que passou e deixou arestas do machismo na forma de desânimo, chateação e tristeza.

Também é a ratificação do não me calo diante do machismo seja na família ou em qualquer lugar.

O ano de 2016 do ponto de vista político foi terrível para as mulheres. Digamos que todos os anos são difíceis, mas na política em especial tivemos grandes derrotas.

Ler matérias e artigos nomeando Hillary Clinton como a candidata da guerra e Trump apenas como conservador com excesso de autoestima, mesmo sendo por meio de discursos: xenofóbico, machista, misógeno, fascista, ultraconservador, eurocêntrico, egocêntrico, primata,  boçal, antiquado e figura política das mais ridículas de todos os tempos foi no mínimo horrendo para não dizer o fim do mundo.

No mundo dos homens, pois afinal, trata-se do mundo dos homens e para os homens uma vez que os lugares de poder são ocupados quase que exclusivamente por homens, o registro histórico da humanidade nos ensina que as principais guerras (inclusive dos EUA)  foram proclamadas pela excelência e magnitude do poder de homens.

Sanders o candidato para presidente considerado progressista estava apoiando a candidata da guerra quando não tinha chance de vencer. A candidata da guerra estava disputando um cargo político no país considerado número um no sistema capitalista e portanto o senhor da guerra.


Daí ressurgiu aquela sagrada dúvida que toda gente de esquerda ou quem queira pensar sobre tem: de que adianta mudar alguém do cargo quando o sistema ou o conjunto da obra (normalmente econômico) determina as condições e decisões das opressões sejam de exploração, golpes ou guerras?

A candidata da guerra também foi acusada de ser mentirosa, de mentir muitíssimo em favor de uma política favorável a guerra. Mentir. Algo que os homens mais fazem na política, mentir, se tornou um peso quando se tratava de uma mulher ao disputar o cargo mais poderoso.

Mas se entrarmos no mérito se mentir é fazer ou é parte da política, também podemos questionar uma vez que a política sempre foi uma criação evidentemente dos homens e não das mulheres, pois a maioria seja na Grécia ou em qualquer pedaço de chão estava nos lares cuidando dos filhos (hoje família) ou do trabalho quando escravizada.

Não se trata de defender a estratégia da candidata da guerra de assumir que iria a guerra (algo que o boneco fascista apenas não admitiu mas que com certeza irá fazer), e que se diga estava sim alinhada à política dos EUA como todo e qualquer político que se propunha ao cargo, ou seja, capitalista, exploradora e centralizadora para garantir a posição de país número um durante décadas.

Obama embora quisesse ou pelo menos demonstrava querer não conseguiu se isentar de guerras, aliás, os historiadores podem informar qual o presidente dos EUA que menos declarou guerra, para não dar a impressão de que a loucura ou histeria pairou na cabeça da mulher aqui, o que não é difícil, uma vez que esse bicho é bipolar e sangra todo mês e não morre.

Para as mulheres fica a sensação de que política não é assunto para nos dedicarmos, não é algo que deve ser uma meta para a vida. Perder a eleição mesmo com porcentagem pequena para Trump é violência e opressão para a vida das mulheres e das futuras que existirão.

Até quando vamos nascermos crescermos e morrermos nas mesmas condições, sendo inferiorizadas por homens, por nos julgar incapazes de pensar a organização de uma cidade, estado, país e sociedade?

Ler os comentários e imaginar os risos de Putin e Trump sobre as mulheres, mesmo após a derrota estar consolidada reafirma que a política não é nosso lugar, pior  estão nos dizendo de uma forma um tanto debochada e escarnecedora aonde é que devemos estar: em qualquer lugar desde que servindo aos homens.

E mesmo quando se decide não servi-los, cabe ressaltar que as decisões dos homens nos impõem uma servidão que está além da nossa vontade e alinhada ao estado e sistema capitalista.

Nos hospitais quem são os cuidadores, se para enfermos, grávidas e acamados?

Nas prisões como visitas (mãe, irmã, esposa/união estável) quem é a maioria?

Nas guerras quem supre o lar e quem é responsável pelo cuidado com os filhos?

Nas epidemias quem é cuidadora?

No dia a dia trabalhando e fazendo o serviço doméstico, quem é unanimidade?

Aponte um lugar que esta minoria que é maioria no mundo não esteja?

Não se trata de fazer o discurso do ódio aos homens, mesmo porque a maioria de nós tem pais, irmãos, genros, tios, primos, amores, amigos, colegas. O feminismo na sua plenitude trata do direito de igualdade (inclusive na política) entre nós, mas reconhecendo nossas diferenças. Feminismo não se propõe ao discurso do ódio aos homens, mas  enfrentamento dos privilégios machistas dos homens na sociedade.

Representação política importa e interessa. Naturalizar somente os homens na política reforça o sistema capitalista, racista, classista, homofóbico e machista que vivemos. Mundo e sistema dos quais apenas oito homens são bilionários, com perspectiva de nos próximos anos existir o primeiro homem com trilhões na conta.

Daqui alguns meses irá completar quase um ano do golpe político no Brasil. O golpe através do impeachment da presidenta Dilma está entre as perdas e naturalização da política de homens a serviço do sistema mais degradante e destruidor de vidas.

Notar que Temer é incapaz de produzir qualquer reação prometida seja o famigerado crescimento na economia ou a tal estabilidade política mesmo com golpe e rodeado de cuecas, com a grande mídia servindo de apoio é a prova convicta de golpe com machismo.

Golpes nos trabalhadores, pois as reformas (trabalhista, previdência, educação, saúde, cultura etc.) seguem o curso planejado com financiadores.

Golpe também nas mulheres.

As doces palavras, tais como incompetente, histérica, centralizadora, autoritária bem como os números apresentados em altos índices de desemprego todos os dias nas principais capas dos jornais e em gráficos nas TVs; ou a divulgação sobre a lama de corrupção com direito a estrelas e destaque jamais serão dele, serviram apenas para ela.

A única candidata a presidência eleita, reeleita e deposta pelo vice com um golpe institucional: político, jurídico e midiático serviu de chacota e discurso de ódio.  A única a ouvir em rede nacional ao vivo e a cores um sonoro: vai tomar no cu como forma de ofensa enquanto o "princeso" político foi apenas vaiado.

Fica a certeza de que política aqui no Brasil (e no mundo) não é para mulheres. Mesmo quando têm muitos diplomados/políticos/homens piores do que selvagens.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O Mergulho

"Você tem que se amar antes de amar o outro". Perdi as contas de quantas vezes ouvi esta frase nos últimos anos, ignorando todos os sinais e dizendo que a superfície era mais segura e confortável que um mergulho (interno). Até que em algum momento, o ar dessa superfície me deixou tão sem fôlego quanto pular nas profundezas.

Eu, que nem sou fã de Engenheiros do Hawaii, me vi cantarolando "Feche os olhos, tome o ar: é hora do mergulho. O poço não é tão fundo, super-homem não supera a superfície".

Saltei. Mergulhei. Estou mergulhando, Consigo descer mais. Não é tão escuro quanto parece, não é tão assustador, não é muito bagunçado. É apenas um lugar com espelho mostrando sombras que são nossas. A primeira lição é que além de amar o outro antes de si mesmo, também é preciso parar de projetar nossas sombras no outro. E aqui, eu agradeço ao Jung e sua sabedoria.

Não volto à superfície tão cedo. 


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Carta para o eu do futuro

Essa carta é para o eu do futuro, mesmo que esse futuro seja daqui a pouco.

Eu do futuro, ou do daqui a pouco, as coisas não estão saindo como tínhamos planejado, você vai perceber quando o seu tempo tornar-se presente. Fizemos muitas decisões desesperadas, não tem como negar a nossa dificuldade em desapegar. Descobri recentemente que tenho tampinhas de garrafa de 2005 e tive um certo pesar em jogá-las fora, mesmo não lembrando o que elas representavam. Fiquei com medo do eu do passado aparecer e brigar comigo alegando que pode ser que um dia precise. Dói muito mudar para a gente, é bom que você tenha consciência disso. Você vai se lembrar de todas as vezes que você cortou a franja e chorou de arrependimento. Você vai lembrar do quanto sofreu com a transição escola-faculdade. Vai ver que no fundo você tem dificuldades de se relacionar com o novo, com pessoas novas. O velho é mesmo um conforto para nós três, o eu do passado - do presente - do futuro, temos essa percepção de que o que temos foi muito difícil para conquistar e então é melhor não abrir mão tão facilmente.

Tenho que te alertar que os sonhos do eu do passado não correspondem mais com os do eu do presente. Sei que você vai se assustar quando descobrir isso mas infelizmente, ou não, os sonhos também mudam. Foi triste para que eu aceitasse, e ainda não sei se aceitei mas sei que estou tentando. Tenho a intuição que o nosso problema está no medo de sermos felizes. Talvez seja medo de ser quem somos, ou nos aproximarmos de quem somos.

Você vai notar que nessa carta tem muito "ou", "talvez", é porque fui obrigada a abandonar as certezas. Tive que me desfazer da ilusão de controle que eu tinha. Não existe garantias de absolutamente nada. Quero que saiba que tudo o que fiz foi para te privar do sofrimento que eu enfrentei. Algo aconteceu e me despertou a consciência que não era só você que merecia ser feliz, o eu do presente também merecia isso. Então tive que me movimentar para não deixar para ser feliz depois. O agora é quem somos e não posso mais me deixar para o futuro.

Você vai sentir falta de algumas pessoas. Por algum motivo elas tiveram que sair de nossas vidas, mas foi para o nosso bem, acredite. Vai encontrar algumas cicatrizes no coração. Espero que essas cicatrizes não latejem mais. Infelizmente você vai ter lembranças dolorosas sobre algumas experiências que tive e que herdei do eu do passado. Fizemos o que nossa compreensão permitia. Creio que você fará escolhas mais assertivas que nós. 

Houve pessoas que não souberam nos valorizar muito bem. Não foi nada legal passar por isso. Tivemos a ilusão de que o outro saberia reconhecer valores em nós que nós mesmas não reconhecemos (acabou contribuindo para abandonarmos a estratégia de transferir essa responsabilidade para terceiros). Em alguns casos foi covardia mesmo, mas é bom você acostumar que gente assim vai aparecer de vez em quando. Te aconselho a não permitir que elas fiquem por muito tempo, os desastres que elas provocam podem nos deixar de cama.

Com uma autocritica já construtiva, me vejo no dever de te lembrar do quanto nós temos um potencial alto de sermos injustas e rígidas com algumas pessoas, principalmente aquelas que estão mais próximas. É uma característica nossa que quando refletida no espelho provoca lágrimas, vergonha e arrependimento. Mas venho te trazer novos progressos, aprendemos a nos reconhecer como humanas e deixamos o desejo de sermos perfeitas. Você vai notar alguns quilos a menos depois disso. O auto perdão faz bem para a saúde e para a pele.

Alma futura, o ego já não é tão inflado quanto costumava ser. Essa novidade vai te ajudar a se relacionar melhor com você mesma e com o mundo. É curioso te dizer que de repente passou a ser prazeroso ser eu. Lembra daquelas orações que você fazia pedindo para experimentar o amor próprio? Pois é, aconteceu e mesmo que eu queira não vou saber te explicar como é, então simplesmente sinta e colha todos os frutos de uma relação autentica com a vida.

É com muito orgulho que digo que você continua chorando lendo Fernando Pessoa e que ás vezes lê a página de um livro e fica tão extasiada que não consegue continuar a leitura por alguns dias. Deve ser aquela história de período refratário. BeatleWeek ainda é uma meta. Você continua querhendo um toyota bandeirante e o sonho de viajar começou a se concretizar. O teu modo de viver em Deus mudou, se tornou mais íntimo e consciente. Finalmente conseguimos abandonar aquele bairrismo ridículo que nos aprisionava em um ideal falido. A alimentação continua ruim, sinto muito.  

Futuro, houve momentos que tentaram nos convencer que a vida não pode ser além do que é. Por pouco não caí nessa. Foi uma luta bem difícil para mim. Concordar com o comodismo do dia a dia não é uma opção para nós, tatue isso se possível. Muitos vão querer te enquadrar nesse padrão e você vai ter que ser forte para escapar dessa ladainha. Confie em mim, a vida pode ser mais que isso, e é.

Tive amigos dos quais apenas eu fui amiga deles e eu levei um tempo para perceber isso. Mas não se engane, houve pessoas que você também não soube valorizar e o peso disso vai cair sobre você mais cedo ou mais tarde. Um segredo é realmente não forçar amizade, você terá condições de discernir sobre quem é quem, afinal já caminhei um bom caminho para você.

Houve crenças que não sobreviveram ao tempo. Aliás, essas crenças não são nossas mais, tá com o eu do passado. Tirei o tarot muitas vezes e A Torre se desfez em quase todas elas. Tive que erguer uma nova e não foi fácil desapegar até mesmo dos destroços da torre antiga. Eu torço de verdade que quando o seu tempo chegar essa questão com o desapego já tenha sido trabalhada e quem sabe resolvida. Ela foi um grande empecilho para a minha felicidade e realização. Ainda estou me acostumando com a ideia de que o novo sempre vem.

O mais difícil para você vai ser se desapegar de mim. Eu sei que é complicado pensar nisso mas para você chegar eu vou ter que partir e me juntar ao eu do passado. Tente não chorar muito, até porque eu chorei bastante enquanto presente. No meu período de atuação estive de certa forma gestando você. O parto está se aproximando, creio que eu até tenha te segurado tempo demasiado aqui dentro. Peço desculpas também por isso, essa questão do desapego ainda é forte. Eu tenho medo que você sofra como eu sofri, porém não houve apenas sofrimento. Não foi bem assim e é até outra coisa que você deve se atentar: aprender a viver os momentos bons. Eu não soube muito bem como vivê-los, sabe? Estava sempre preocupada com você e tentando controlar as variáveis que te causariam alguma dor. Tive que soltar as rédeas e deixar a vida ser ela mesma, só assim terei tempo e energia para ser quem sou. Ainda estou aprendendo e você já vai ter uma base quando chegar.

Eu espero que você não me odeie. Fiz o que foi preciso e meti os pés pelas mãos algumas vezes, por desespero e medo. Peço que saiba me perdoar e também perdoar aquelas pessoas que não ficaram. Hoje dói bastante em mim mas não vai doer para sempre, mais uma coisa que você vai aprender. A dor também vai embora mas para ir precisa chegar e ser sentida. Sinta quando ela chegar, ela cuida bem dos nossos machucados e sem ela não há cura. Com resignação aprendi que a dor é a melhor das enfermeiras.

O acaso trabalha com a força do invisível e o que ele te trouxer vai ser melhor do que qualquer expectativa mensurada. Simplesmente aprenda a se permitir. Tem coisas que é tipo pra ser.

Estou deixando para você a vida que o eu do passado havia abandonado. Resgatei a essência daquele eu. Tive que fazer mergulhos muito profundos, mas com sucesso resgatei todas nós. O prenuncio é auspicioso. Você terá em mãos o que não tivemos forças para viver até o momento. Com muito cansaço e pouco fôlego, te informo que chegou a vez do eu presente realizar. A felicidade está batendo, vou deixar para você abrir a porta. Por favor não tenha medo de recebê-la, deixei o seu sonho de infância para você viver como pedido de desculpa pelas fugas que escolhi. Não olhe para trás e nem para frente. O agora vai ser a melhor época da sua vida e você esperou por esse momento desde o seu nascimento. Ah, o outro nascimento. Já estou sentindo as contrações, logo logo chega a hora do seu parto. Eu parto para você viver. Apenas viva.

Com amor,

Agora o eu do passado