domingo, 22 de janeiro de 2017

Totonho

Totonho era alguém com muita esperança. Totonho sabia esperar. E desde pequeno Totonho esperava. Esperar sempre foi sua única brincadeira. Enquanto os meninos corriam, Totonho ficava num canto pensando. Pensava em como seria bom ser adulto, ter sua própria casa-carro-emprego. Ser dono do próprio nariz. Que bom seria poder dormir na hora em que bem entendesse e não precisar comer rúcula. Detestava rúcula. Que ótimo não ter mais que suportar os meninos que lhe cuspiam no lanche e que lhe chamavam de nomes nada elogiosos.  Por isso Totonho tinha um calendário e nele contava. Contava os dias que faltava para seu próximo aniversário. E pro próximo. E pra outro e pra mais um. Somente assim, numa sucessão de aniversários, chegaria enfim o dia em que Totonho seria adulto. E este dia enfim chegou. A infância era enfadonha, mas uma hora acabava. Totonho percebeu quando assinou o papel. Antônio Carlos Vieira de Camargo. Logo abaixo de um contrato de emprego. Totonho estava empregado. No começo foi difícil. Pessoas estranhas. ambiente idem. Hora pra chegar, hora pra sair. A bunda de Totonho desacostumada com isso de sentar tanto, logo começou a reclamar. Mas Totonho era alguém com muita esperança. Totonho sabia esperar. Sabia que isso logo ia mudar. Bunda se acostuma. Totonho também. Depois de um mês, era o que todos lhe diziam, já estaria enturmado, já estaria acostumado, já estaria até gostando. Por isso Totonho contava. Contava os dias para o fim daquele mês. Um depois do outro, até se acostumar. Comprou uma almofada e um despertador. E sobretudo comprou um relógio. Agora sim. Agora Totonho controlaria melhor o seu tempo e o tempo que faltava para tudo melhorar. Totonho não gostava do trabalho, é verdade, mas com ele conseguia comprar. E Totonho gostava de comprar. Até casa-carro Totonho comprou. Saiu da casa dos pais. Foi morar sozinho. Agora Totonho já podia chegar mais rápido no trabalho. No trabalho que não gostava. O bom é que Totonho era alguém com muita esperança. Totonho sabia esperar. Logo pela manhã, ajustava o seu relógio e começava a contar. Contava os minutos que faltavam para a hora do almoço, hora em que Totonho dava uma pausa no trabalho e começava a pensar no que faria a noite, quando por fim chegasse em casa. O expediente era enfadonho, mas uma hora acabava. E ao final do expediente, Totonho comemorava. Mais um dia que acabava. Logo a sexta-feira chegava. Sexta-feira ia ser bom. Sexta-feira era legal. E Totonho contava. Um dia depois do outro, até que a sexta chegava. A semana era enfadonha, mas uma hora acabava. E Totonho ia pra casa. Não gostava de cinema. Não gostava de teatro. Não gostava de sair. Nem mesmo de sexta-feira gostava. Mas contava. Contava que gostava. Mas o que gostava mesmo era de dormir. Dormir muito. Dormir tudo o que não podia dormir durante a semana. Dormia tanto que se cansava. Sábado era bom. Domingo menos. Domingo não acabava. Faustão-Futebol-Faustão-Fantástico. Sorte da bunda que já estava treinada. Silvio Santos-Tele Sena-Teleton e Totonho contava. Contava os minutos pro domingo acabar. E o domingo não acabava até acabar. O domingo era enfadonho, mas uma hora acabava. Mais uma semana iria começar e depois outra e mais outra. Até que era rápido, Totonho contava. Totonho era alguém com muita esperança. Totonho sabia esperar. Bom mesmo seriam as férias. Elas chegariam e aí tudo ia melhorar. Mas precisava esperar. Doze meses. Cinquenta e duas semanas, intercaladas por cinquenta e duas sextas-feiras, das quais não gostava mas fingia gostar, e por cinquenta e dois domingos que nunca acabavam. O bom é que o ano era enfadonho, mas uma hora acabava. As férias chegavam. E Totonho paralisado, não sabia o que fazer com tanto tempo livre. Viajar-acampar-saltar-mergulhar. Que trabalheira. Fazer mala, desfazer mala, comprar passagem, reservar hotel. Que cansaço. Trabalhar cansava menos. Nas primeiras férias viajou, depois só dizia que viajava, com o tempo passou a só tirar os vinte dias obrigatórios por lei. Trinta dias era demais. Trinta dias era maçante. O bom é que as férias eram enfadonhas, mas uma hora acabavam. E pro trabalho voltava. Ano a ano. O mesmo trabalho. A mesma cadeira. O mesmo rangido. Formulários-Processos-Arquivos. Mas Totonho era alguém com muita esperança. Totonho sabia esperar. E sabia, que logo mais, com um pouco de paciência, com um pouco de preserverança, conseguiria se aposentar. Daí sim tudo ia melhorar. Sem trabalho, sem chefe, sem horário e com dinheiro pra comprar. Logo Totonho que nem gostava mais tanto assim de comprar. E Totonho contava. Ano após anos, até o dia de se aposentar. O bom é que a carreira era enfadonha, mas uma hora acabava. E essa hora chegou. Totonho percebeu quando assinou o papel. Antônio Carlos Vieira de Camargo. Logo abaixo do formulário da Previdência Social. Totonho estava aposentado. Foi bom ter esperança. Foi bom ter esperado. Agora sim. O mundo era só de Totonho. O dia inteiro só para ele. Pra curtir com os amigos, pra curtir com a família, pra fazer o que gostava. Mas Totonho não tinha amigos. Da família não se lembrava. E de gostar, não tinha nada. Nem de dormir Totonho gostava mais. Só gostava de contar. Mas não havia o que contar. Foi então que lhe disseram. Era um domingo e lhe disseram. Que noutra vida, nessa não. Na outra vida é que Totonho ia ver o que era bom. E Totonho só contava. Contava os dias, um depois do outro, pra que a outra vida enfim chegasse. E a vida... a vida é enfadonha, mas uma hora acaba. E uma hora acabou. Dá pra ver lá no papel. Antônio Carlos Vieira de Camargo. Primeira linha do atestado de óbito. E lá está Totonho. Encolhidinho. As duas mãos sobre o peito. Parece até sorrir. Porque Totonho era alguém com muita esperança. Totonho sabia esperar. 

sábado, 21 de janeiro de 2017

Começando 2017!

Oi minha gente!
Como estão? Tudo bem?
Espero que sim!

Primeiramente, quero desejar à todos os leitores e à todas as leitoras, de ontem e de hoje, um feliz e maravilhoso 2017. Que esse ano seja tudo o quê 2016 não foi, e muito mais!

Pois é. Por causa das correrias do final do ano passado, este que vos escreve acabou lembrando do dia 21 quando já estávamos vivendo o 25. Mas de boa. Faz parte, né?

No momento em que você lê esse texto, estou numa chácara, reunido com meus amigos e amigas num encontro anual que temos. Sempre no início do ano, alugamos uma chácara e lá vamos nós!

Tá certo que nesse ano será um pouco diferente, uma vez que as chuvas insistem em cair. Mas tá ótimo também! Como comentava ontem, com minha amiga no trampo da manhã, só de estar num clima diferente, reunido com a galera, já tá de bom tamanho, dá pra divertir. E chuva nunca foi obstáculo para a piscina!

Compartilho também a alegria em dizer que estou desde o dia 1º de janeiro sem beber refrigerante. E sem jantar também!
Não lembro se já escrevi aqui, num post longínquo, que vivo lutando para atingir meu IMC recomendado. Sempre começava e desistia. Dessa vez, tô conseguindo! Firme e forte! E sendo hoje dia 21, 21 dias de êxito! 

Quero tentar ser pontual com esse blog também, afinal, é uma alegria fazer parte da equipe aqui!

Termino por aqui, desejando um ótimo dia 21 pra vocês!
Nos vemos no mês que vem!

Como de costume, deixo aqui um vídeo musical pra vocês!
Nesse mês, Within Temptation, com "Angels"!
Aquele abraço!


sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Desabafo de um inocente

Prezados leitores,

Primeiro eu gostaria de me apresentar. Sou 2016. É, o ano. Acontece que o responsável pelo dia vinte está de saco cheio da vida e me cedeu o espaço.

Depois gostaria de deixar claro que ainda não terminei. Vocês não dizem que o ano só começa depois do carnaval? Pois é, estamos nesse período de transição e eu quero aproveitar que estou velho e ranzinza para lavar a roupa suja nesses últimos dias.

Todo mundo desceu a lenha em mim, sobretudo nos últimos meses, mas eu cansei de ser bode expiatório. Nem vou entrar na polêmica de que vocês só dão ênfase para as coisas ruins e esquecem as boas. Se esqueceram talvez não tenham sido tão boas, ou vocês são masoquistas contidos.

Preciso deixar claro uma coisa: eu não existo. Pois é. Apesar de estar aqui, escrevendo, não passo de uma criação humana, em dois sentidos. Um é que sou um recorte quase aleatório do tempo. O ocidente me chama de 2016, os judeus de 5777, os chineses de 4714 e por aí vai.

Isso é o de menos. Me chamem como quiserem. O principal – e me surpreende ter que dizer o óbvio – é que eu não existo porque não faço nada! Eu só estou de passagem. Parem de fazer bobagem e por a culpa em mim.

“Ai, mas morreu um monte de gente famosa!” E eu, que culpa tenho? Se pararem para pensar, todos os anos uma leva de famosos bate as botas – e nasce também, só que vocês só vão perceber isso daqui algum tempo –, mas por acaso fui eu quem decolou o avião da Chapecoense com menos combustível que o necessário? Bombardeei a Síria? Atropelei franceses e alemães?

Diria até que para cada tragédia famosa se foram vários anônimos, e não venham me culpar por isso. Fui bissexto. No meu Natal teve crime de homofobia – nos outros 365 dias também! No meu último dia teve feminicídio – nos outros 365 dias também! E não é de hoje que vocês repetem crimes sem aprender nada, estou errado?

O 2017 está aqui ao meu lado; pequenino ainda. Foi recebido com muita esperança, principalmente pelos que deixaram sua primeira manhã repleta de garrafas espalhadas pelas ruas e praias. Só vocês mesmo para oferecer uma recepção tão emporcalhada. A minha também foi assim, pensam que eu esqueci?

Vou aproveitar esse período de transição para tentar passar alguns alertas ao novo ano. Já disse que no final será cobrado, desde os famosos que morrerão até os times rebaixados. Os amores desfeitos, os kilos acumulados, os futuros atentados, o calor, o frio, a chuva, etc.

Deixei para ele um alerta que repito aqui: tem gente esperando que a política entre nos trilhos. Já estou até vendo depois de alguns meses isso entrar na conta do pequeno 2017, também! Mas não, isso não é culpa dele nem minha. Não elegemos o Doria, nem o Trump, tampouco colocamos o Temer no poder. Quem plantou que assuma a colheita!

“Ai, mas eu não votei em nenhum desses, não joguei lixo na praia nem matei ninguém!” Ok, não quero cair no mesmo erro de jogar a culpa nas mãos erradas, mas antes de falar mal do pequeno 2017 quando ele já estiver velho igual a mim, pense bem nas suas atitudes. Esse ano não vai fazer nada. Só vai passar.

Passar bem!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A Partida


Inesperada a ida de alguém quando ninguém queria que fosse. Mas foi e se foi.

Estranho achar que tudo tem a hora certa de partir, não há. Há apenas o que restou e talvez suma com o tempo, ou não.

Egoísmo dizer que é injusto perdermos alguém tão cedo, quando nós mesmos os deixamos ir bem antes e aos poucos por culpa do dia a dia da vida entre muros e barreiras.

Espontâneo o peito apertar, mas não tão espontâneo quanto apertamos as mãos e o tempo parar antes da partida.

E assim, partiu... corações, repartiu memórias e distribuiu saudades.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Otimismo em tempos difíceis

É verão, é janeiro, é 2017. 
Vai ser um lindo dia. 
É sexta-feira 13 também, mas foda-se; Estou no Rio.
Abro a janela e vejo uma árvore gigante da janela do meu quarto. Nela moram dezenas de passarinhos que começam a cantar bem cedo. Acordo empolgado.
Faz sol. 
O céu está azul entre nuvens grossas.
Me preparo para ir à praia. É sexta!
Preparo aquele cafezão reforçado para dar uma animada. Sento no sofá e aproveito para ver as notícias enquanto tomo o café:

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

É só uma camiseta! É mesmo?


Sou honesta e sempre aviso, se não querem saber o que penso, não me perguntem, caso contrário eu respondo. E tenho um lado meio vidente, às vezes fico quieta e depois as pessoas reclamam comigo que eu não disse nada de tal situação.

Uma amiga vai casar e me mostrou as lembrancinhas, vai dar um par de chinelos e o namorado escolheu distribuir uma camiseta, aquela famosa que diz ''Game over''. Como eu quis evitar conflito sugeri que melhor desse de lembrancinhas chocolates e velas, assim não tem erro, mas ela me disse que o seu namorado escolheu a camiseta e ela achou engraçado. Tentei morder a língua, mas acabei perguntando se a camiseta não era ''machista demais''.


Como ela percebeu que não gostei me disse:


-É brincadeira Iara, você precisa relaxar mais na vida, nem tudo é machismo x feminismo, às vezes uma camiseta significa apenas uma camiseta.

Mas não é? Não fiquei quieta porque tenho uma teoria, a pessoa pode e deve fazer o que quiser, desde que saiba a merda que está fazendo, se ela sabe então que vá e faça, mas na ignorância é melhor andar pelas beiradas.


Para amenizar ela disse que não vai me dar a camiseta no dia do casamento, apenas os chinelos. Eu disse que não, quero o conjunto todo e preciso da camiseta, o algodão é bom e vai ser um ótimo pano de chão para meu banheiro.


Não gosto de meias palavras e preferi dizer meu ponto de vista. Eu cresci em um ambiente machista onde diziam que todas as mulheres só se casavam porque ''davam'' um golpe no homem, seduzindo ele. Casamento era uma tortura para o homem e a glória da mulher. Os homens sofriam, eram castrados, mutilados, vigiados e controlados, enquanto as mulheres adoravam viver na sua função de ''esposa'' , parindo, sem gozar nunca e vivendo dos restos e da boa vontade de um ''macho''.


Mas os tempos mudaram e hoje eu digo abertamente, o casamento só é bom para os homens, é de uma conveniência que me assusta, ver como a vida deles fica mansa com um casamento me dá arrepios dos ruins. Não tem essa babaquice de ''Game Over'', porque homem nenhum é obrigado a se casar, se quiser continuar na farra e no ''Game'' ninguém coloca a arma na cabeça, isso não existe, por tanto essa camiseta é machista e nojenta, coloca o homem como um infeliz, coitado, sendo levado ao altar por uma sorridente mulher que diz ''Game Over''.


Ora, se existe ''Game Over'' é para a mulher, que vai destinar todo seu salário para a casa, vai virar figura indispensável para a família do marido, vai parir, amamentar, pagar as contas e ainda coordenar a casa.


Por mim todas essas camisetas de ''Game Over'' deveriam ser queimadas, símbolo das piadas machistas e estúpidas, onde os homens ainda acreditam que são ''obrigados''  a se casar! Que coisa mais cretina!


Se eu tivesse um milhão de dólares apostava agora, o casamento só acaba com a vida da mulher, não do homem. Só se o homem for um sheik árabe bilionário, então pelo menos se a mulher casar e se divorciar uns anos depois sai dali rica, caso contrário casamento é a maior roubada que uma mulher pode passar na vida.


No panorama atual se casar é apenas ter outro emprego em categoria de escravidão, sem nenhum salário ou reconhecimento, não sei quem acha fofo trabalhar mais dez horas por dia de graça, mas cada um é cada um.


E digo isso por mim, se eu me cassasse amanhã o homem ia acertar na loteria, além de musa sou ótima em administrar uma casa e excelente cozinheira, seria um negócio do céu para ele e para mim? Porra nenhuma, seria apenas como abrir a porta da senzala para que eu entrasse.


Essas camisetas mostram como a sociedade é medieval e cega, se recusa a perceber que a única carne moída em um casamento é a mulher, nunca o homem. Casamento hoje é a pior coisa que pode acontecer para uma mulher, atrasa a vida dela, joga mais pressão e pra que? Pra nada, absolutamente nada.


E disse tudo isso para minha amiga que me deu a resposta tradicional, já escutei demais:

-Nossa, Iara, não sabia que você estava tão ressentida com a vida, tão amargurada com as coisas, tão desiludida com o amor!

Mas não estou coisa nenhuma, mas vamos falar claro, escravidão é escravidão, isso não é sinônimo de ''amor'', vamos acordar pra vida e perceber que ser escrava de homem não é a mesma coisa que se ''entregar por amor'' e eles ainda fazem piadinhas com camisetas? Ora, santa paciência Batman, que além de aguentar a imbecilidade de alguns homens vou aguentar suas camisetas ridículas!


Não descarto ''amar'', mas devo ter sangue árabe nas veias e acredito que bons negócios são 50% para um lado e 50% para o outro, se já vou entrar perdendo 100% não me interessa e no momento casamento me parece uma canoa furada e até agora não entendo o que o amor tem a ver com isso.


Poxa, tem coisa mais linda do que amar alguém e sentir o amor? Mas desde quando isso significa virar escrava de homem? Ah, não gosto disso, prefiro ser livre. Não entendo, não posso amar alguém sem me casar com ele? Tenho que ser sua escrava para provar que gosto? Ah, comigo não tem essa não, eu amo, mas não entrego minha vida a ninguém e menos ainda para viver em uma ''senzala emocional''.


E disse a minha amiga:
-Olha, se prepara, porque tudo nesta vida é um aviso, se ele nem casou e já está distribuindo camisetas machistas, quero ver lá na frente como vai ser.


Minha amiga disse:


-Iara, você está paranoica, é só uma brincadeira com uma frase boba.

É? Tomara que seja mesmo, porque muitas mulheres já morreram de ''bobice'' e esse ''machismo brincadeira'' mata milhões ao ano.


Mas é ela diz ''É só uma camiseta!''.


É, e os homens depois de matar uma mulher dizem: ''mas é só uma mulher!''.



Iara De Dupont

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Viúva Negra

Ela já sabia, mas pra viver precisava condenar alguém.
Precisava e assim o fez.
Vivera intensamente.
E agora ao leito de sua vítima, lá estava ela, ouvindo os batimentos úmidos de lágrimas e assistindo o definho lento do escolhido.
"Vivemos", disse ela, inexpressiva
"Vivemos", disse ele, com sorriso já caído.
Ela, pra que não houvesse mais rancor, sem lágrimas e nem dor, desligara os aparelhos.
Ela já sabia, mas pra viver precisava condenar alguém.
Precisava e assim o fez...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Desejos

Voem queridas palavras
Com o dever de amar
A mágoa em mim contida
Rogo para que ela se vá
De mim quero alegria
Sorrisos e fantasia
A leveza do sonhar

Não se percam no caminho
Levem meus sentimentos
Para qualquer direção
Não se limitem ao tempo
Atravessem dimensões
Abracem os corações
Corram através do vento

Toquem todas as pessoas
E as encham de carinho
Amorteçam suas dores
O horror de ser sozinho
Vistam-se do pôr do sol,
Um sustenido, bemol
No cantar dos passarinhos

Carreguem a esperança
Façam gigante a paz
Esse é o meu desejo
Isso tudo me apraz
Espero ter animado
Ter também incentivado
O amor que aqui se faz

Fábio Fonseca

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Carregue somente a bagagem necessária

       Você já foi viajar com aquelas malas imensas, com várias opções de roupa, e voltou com ela praticamente intacta por usar somente um terço das roupas? Na rotina quantas vezes carregamos mais bagagem do que precisamos? Somos acumuladores de roupas e de emoções e, no decorrer do tempo, o excesso de bagagem não faz bem para coluna nem para alma.
          A maioria das nossas aflições surgem graças ao apego, sendo o desapego o primeiro passo para uma fase nova e mais leve. É preciso abrir espaço para o novo tirando tudo aquilo que não serve mais, sejam roupas, objetos ou emoções. Desapegar é permitir que os sentimentos se transformem, reciclando as emoções, é esvaziar a mochila da alma e seguir com o coração aberto.
Desapegar do que não agrega mais é abrir espaço para infinitas possibilidades, é se permitir viajar sem roteiro totalmente planejado, parando com sua bicicleta em lugares onde nunca tinha pisado, é sentir texturas, cores e aromas de cada canto descoberto. Desapegar é uma descoberta gradativa.


Quando você estiver cansado, com o peso do mundo das costas, lembre-se que o desapego faz bem para coluna e para alma, tire da sua mochila o que não for essencial, permita-se novas rotas e aprecie a cada detalhe do percurso. 

domingo, 1 de janeiro de 2017

Recomeços


O início do ano é sempre uma esperança simbólica. Um período de repensar os erros, fazer novas promessas e começar de novo. Para mim, está sendo isso mais do que nunca.
Em 2016 eu trabalhei como um camelo, participei de eventos incríveis, me integrei mais às pessoas maravilhosas no mercado literário, fui desligado de um projeto no qual trabalhava já há um ano e sofri o fim de um relacionamento que já durava anos. E isso me ensinou muito, apesar de ainda não ter absorvido e metabolizado tudo como deveria.
Foi um ano de erros. Me dediquei demais a algumas coisas que não davam retorno, fiz diversas cagadas que magoaram pessoas de que gosto muito (inclusive homices, machismos e insensibilidades de intensidades variadas), e me arrependo horrores. Foi um ano de relembrar que eu estou longe de ser perfeito, e que todas as outras pessoas também, e que eu deveria me conformar com isso. Foi um ano de chorar, sangrar, perder a fome, me acomodar e ser expulso da zona de conforto, me sentir vilão e perceber o quanto preciso melhorar.

Também foi um ano de começos. O Liga Madeira(http://www.ligamadeira.com.br/) e o Tempos Fantásticos(http://loja.temposfantasticos.com/tempos-fantasticos-ct-13e528)começaram esse ano, e são dois projetos que eu amo. E após todas as bombas emocionais nas últimas semanas do ano, eu resolvi mudar. Mas mudar mais do que alguma resolução de ano novo do tipo “parar de fumar” significaria. Mudar pra valer a pessoa que eu venho sendo nos últimos 8 anos.
O ano de 2017 d.C. chegou, e quer essa contagem de tempo faça sentido ou não, a minha vida e a de todos nós está em constante transformação. Abracemos as crendices, xinguemos o ano que passou mas não nos olvidemos de aprender com ele. Nenhum de nós é perfeito ou jamais será, mas se manter em constante autocrítica e evolução é a única chance que temos de melhorar.

Um bom Ano Novo a todos. E que em 2017 cada um de nós sofra as boas e más consequências do que viemos plantando.  

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Um ano

Eventualmente, há muito o que reclamar do ano, 

dezenas de situações no mínimo indecorosas e indecentes.

a política, uma latrina;
o mundo, uma estupidez, morticínios


Mas seria difícil eu não falar dela nesse dia. Ela que veio morar comigo dentro e fora de mim.
Com ela toda as tristezas, passageiras e duradouras foram dimizadas e semeadas em novas e renovadas alegrias...


Em cada acordar, dormir, amanhecer e espairecer novas canções foram cantadas ao lado dela...

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

menos peso, por favor

Outro dia estava na estrada e me questionando o peso nas costas. Peso que estava ali, por ser incapaz de encher a mochila com apenas aquilo que fosse estritamente necessário usar durante três ou quatro dias.

Seria bom se ocorresse às vezes, mas quase todas viagens caio na merda e levo o que não precisa.

Caminhar em lugares desconhecidos com o sol da manhã ou tarde, vento nos cabelos e balanço das ondas sejam salgadas e doces é uma delícia, menos quando se está com peso desnecessário que comprime o cérebro e invade o peito a ponto de faltar o ar.

Cada pensamento parece uma nuvem pesada com quilos e quilos de carga negativa que rodeia o corpo, mesmo quando se sabe que o peso está apenas nas costas e não na cabeça.

Em pouco instante o peso desce das costas para as pernas e pés, fica aquela impressão de que o peso aumentou. Assim pode ter a paisagem que for, se tiver peso, nada está da forma que deveria. O sorriso sai, mas é amarelo ou cinza. A alegria surge, mas é sem graça.

Tanta blusa, shorts e saia, sandálias e toalhas, cangas, brincos, pulseiras e vestidos aqui nesta mochila pesada, único pensamento que acompanhava cada passo e suor que escorria sem parar.

Quando chegar no quarto a primeira coisa a fazer: jogar a mochila no chão com toda raiva que esse peso me fez passar.

Assim o fiz.

Logo que coloquei os pés no piso daquele quarto simples, para não dizer ralé. E fui para o mar. Em cada onda, era menos um, menos dois, três pesos. A cada vento um sorriso que saia, um peito que enchia com ar. Ar de leveza.

Voltei com uma certeza, esse peso não carrego mais.

Dessa vez, quando coloquei a mochila nas costas senti mais leve, mas ainda estava pesada, com roupas desnecessárias. Lembrei que parte ia para doação pois estava em bom estado, cheirosa, sem furo ou desgaste que impedisse outras pessoas de usarem.

A segunda sacola estava abarrotada, mas de roupas para doação. Parte considerável para ela, outra seria para outros usarem. De fato e na verdade, tem pouco peso para retornar daqui 15 ou 20 dias.

Sequer os livros vieram, mas logo algum me achou.
Frida veio numa tarde de vento forte e calor escaldante. 

Quando existe a ausência  do mar para no mesmo instante causar sinergia e anestesiar quaisquer tipos de males, resta para esvaziar o rio e o livro para vazar pensamentos e tirar o peso.

O livro numa frase te arremata: tenha coragem de viver porque qualquer um pode morrer.
É uma frase ofensiva, de efeito. Porque logo se pensa em quem já perdemos, naqueles que se foram.

Ou se cria uma resistência no efeito, principalmente quando alguém teve a coragem de defender outra pessoa da covardia, ódio e preconceito nesta semana.

Pensando bem e com a Frida a frase se encaixa perfeitamente para ele, que agora vive noutras pessoas e marcou a passagem com algo que era cotidiano.

A solidariedade ou prestar gentileza para aliviar o peso de alguém deveria valer ouro.

Todo os dias a gente esbarra ou tem a má sorte de ter por perto ou de passagem pelo caminho quem morreu faz tempo. Aqueles que absorvem com facilidade sentimentos ruins e pensamentos de destruição, de ódio e senso comum arraigado no preconceito.

Desejar que 2017 seja o ano da leveza com grito de liberdade é utópico, mas não custa tentar desejar. Vivemos  disso de acreditar que o ano pode ser melhor, que as pessoas podem ser melhores, que cada dia é novo amanhã. 

Daí nasce aquela esperança tola e sabe-se lá para que. Mesmo na razão vemos alguma, afinal a água do rio nunca é a mesma.

Assim seja, para o ano que vem.


Boas entradas de  novo ano,  2017 vem aí ;)))
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Com mais luta sim, com mais resistência com certeza
Mas de preferência e por favor Jah com leveza aqui dentro.


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Circo pegando fogo


É fim de ano e talvez o mais indicado fosse um texto otimista, inspirador, com dicas de estratégias para alcançar sonhos e objetivos. Mas... é 2016. Ano de tantas turbulências políticas. Futuro?

Black Mirror é uma série de televisão britânica criada por Charlie Brooker, sucesso mundial. Assistimos nos perguntando entre angústia, tensão e sorrisos nervosos, “que mente insana criou isso daqui”? Estamos num tempo em que quase não se fala em utopia, mas talvez nunca tenha se falado tanto em distopia.

Apesar de todos os esforços das Nações Unidas, estudos sobre desigualdade de renda projetam o crescimento da extrema concentração de riquezas no mundo. No último relatório da Oxfan, 1% da população mundial reunia a mesma riqueza dos 99% restantes. Ou ainda, 62 pessoas, sim 62 PESSOAS, tem no seu saldo bancário o mesmo que a metade da população mais pobre do mundo. 62 seres humanos...

Diante disso tudo, o progresso. Afinal, estamos na “era da automação”. Menos trabalhadores para fazer o serviço, mais máquinas nos substituindo e máquinas cada vez mais eficientes. Temos aqui um excedente populacional ou, em outras palavras, gente que SOBROU, simplesmente não cabe todo mundo nesse barco. É indiscutível: o desemprego estrutural só cresce. Previdência social em falência... etc etc.

Políticos e intelectuais tem se dedicado a pensar em como contornar esse quadro desagradável. Um deles é o premiado jornalista holandês Rutger Bregman, que defende a ideia  “free money for everyone”,  algo parecido com o nosso Bolsa-Família. Em resumo, a ideia é que a desigualdade social pode ser combatida através de uma renda básica oferecida pelo Estado. A proposta é assim apresentada como um “jeito civilizado de combater à pobreza”. O vídeo pode ser assistido aqui.

No entanto, fico me perguntando nesse final de ano: até quando ficaremos assistindo atônitos a nossa vida se transformar em episódios terríveis de Black Mirror ou em qualquer outra distopia, enquanto 1% goza de toda riqueza mundial? Até quando faremos remendos num sistema econômico e político que já provou ser incompatível com a vida na Terra? Levaremos esse jogo até as últimas consequências, até o circo pegar fogo?