sábado, 25 de setembro de 2021

27 de julho de 2021

Hoje é dia 25 de setembro, data de eventos importantes como o início da Guerra de Independência de Moçambique (1964), a Proclamação da República Democrática Popular da Argélia (1962) e a assinatura da Convenção sobre a Escravatura na Sociedade das Nações, em 1926. Para outros marcos históricos, pesquisar a data no wikipedia (de onde extrai essas informações). Além disso, dia 25 é o dia que escolhi para escrever neste blog, o que talvez possa causar surpresa à/ao leitor(a) a data que dá nome a este texto

Dia 27 de julho também testemunhou fatos relevantes como a prova de que a insulina regula o açúcar no sangue (1921), a assinatura do acordo para o armistício da Guerra da Coréia (1953) e o nascimento da ex-vereadora Marielle Franco (1979). Há outras ocorrências históricas também (vai lá ver na wikipedia). Contudo, do ponto de vista deste que vos escreve, houve um nascimento muito importante no dia 27 de julho do ano de 2021: o da minha filha Nailah. Há exatos 60 dias. O que não quer dizer que ela já tenha completado dois meses, uma vez que julho e agosto têm 31 dias. Logo, faltam ainda dois dias para o seu segundo mesversário. 

Enfim, hoje venho aqui resgatar seu processo de vinda à luz. Posto, que isso não se deu sem algumas peculiaridades. E, antes de começar, preciso destacar logo de início uma pessoa sem a qual nada do que será narrado nas próximas linhas seria possível, minha companheira e mãe da Nailah, Luciane. 

Nailah começou a chegar, parecendo materializar a letra de Gonzaguinha, isto é, como se o fosse o sol desvirginando a madrugada e fazendo Luciane sentir a dor dessa manhã, nascendo, rompendo, rasgando. Ainda que não tenha sido nada tão imediato assim, como partos de novelas. Às cinco da manhã ela começou a sentir, segundo ela, algumas cólicas. Que lhe incomodaram nas primeiros momentos do dia.  

Já hora do almoço, as cólicas se intensificaram, tomando a forma das tais contrações. O que notamos após comprar um buscopam que só serviu para termos certeza de que era o trabalho de parto de fato. Porque não adiantou, absolutamente, de nada. 

Com o passar da tarde, mentalmente preparada para o pior, Luciane enfrentava as dores crescentes do parto, não sem sofrimento, mas com muita determinação e serenidade. Enquanto eu intercalava a arrumação da casa, com um apoio moral a cada contração. Era uma lavada de louça, seguida de uma massagem, intercalada, com a passagem de pano na cozinha, e um suporte na hora dos picos de dor.

Por volta das 17 horas, o trabalho de parto parecia entrar em sua reta final, saiu o tampão e a bolsa, finalmente se rompeu. Não era o caso de sair desabalados para o hospital (como nas novelas), mas já era hora de começarmos a nos encaminhar para lá. Liguei para um amigo, também chamado Thiago, que viria de não muito perto. Mas confiando que o tempo seria suficiente para chegarmos na maternidade. Até porque, até ele chegar, Luciane tomou banho, se arrumou e botou um vestido; logo depois, trocou de roupa, pois esta se sujou, e ainda pediu, com muita tranquilidade, que passasse hidratante em suas pernas. O que são prioridades, afinal, para quem lamentou ter parido, sem ter feito os cílios, que estavam agendados para aquela tarde. 

O Thiago chegou a tempo, com uma performance, digna de um piloto de corrida, ainda que, seguindo, sem dúvidas, todas as leis e regras de trânsito. Descemos (moramos no oitavo andar) e entramos no carro, com a Luciane alertando-o para os gritos que daria ao longo do trajeto. 

Num dado momento da viagem, Luciane disse que achava que Nailah estava nascendo. Mas, eu nem olhei pra ela, falei que tava tudo bem e que já, já, chegaríamos. Tava tudo certo para chegarmos a tempo no hospital. 

Se não errássemos caminho

Logo após acharmos a rota correta (o que nos atrasaria não mais de 10 minutos), Luciane repetiu que achava que Nailah tava nascendo, eu nem olhei pra ela, fique conversando com o Thiago, como se nada tivesse acontecido, só disse que tava tudo bem.

 

ATENÇÃO: o diálogo a seguir não foi reproduzido com precisão, por motivos óbvios, mas vou me servir da licença poética, mesmo sem ser escritor, ainda que me desculpando, por não ser escritor, como diz outra música que fala sobre cartas de amor. 


Alguns segundos depois, Luciane exclamou: “Nailah tá nascendo!”, ao que eu falei (me fazendo de bobo): “O hospital já está ali, 200 metros, vamos chegar”.

“Olha”, ela disse; e eu me virei e olhei. Nailah já se encontrava com metade do seu corpo para fora (do corpo da mãe, não do carro). Eu tomei um leve choque e fiquei olhando aquela criança que, após alguns segundos, chorou. Fato que só me toquei da importância alguns minutos depois.

Luciane me tirando de um transe, falou: “Pega”. E eu a tomei, suavemente, em minhas mãos, apenas metade do seu corpinho ainda.

Até que Luciane atentou para o fato de que a outra metade de Nailah ainda estava dentro dela e salientou: “Puxa”, e terminei de conduzir sua vinda à luz. Fazendo o Thiago (o motorista) saber que ela tinha nascido de verdade, que não era só desespero da mãe. 


Rapidamente, chegamos ao hospital, porque, de fato, ele estava perto. Entreguei Nailah à Luciane e fui à recepção, não sem correr e anunciar que minha filha tinha nascido no carro. Eu, com um leve desespero (pois é, Capital Inicial...), e uma enfermeira (ou médica… não sei), com toda a calma do mundo, me perguntou se a bebê havia chorado, eu disse que sim e ela respondeu que eu podia ficar tranquilo, que tava tudo bem. 

E, como nos filmes, ou mesmo nas novelas, sei lá, uma equipe do hospital chegou ao carro retiraram Luciane, com Nailah no colo, enquanto fui preencher a ficha hospitalar. Foi o tempo certinho de subir até a sala de parto, para terminar o serviço e cortar o cordão umbilical. 

Mentira, esse final foi só para dar um grand finale, pois o parto só termina mesmo quando nasce a placenta (pelo que me disseram no cartório, no dia seguinte), mas neste ponto, já havia dado meus préstimos de parteiro, estava cansado. Não sei se vocês sabem, mas conduzir um trabalho de parto é muito extenuante. E esses procedimentos finais ficaram a cargo das profissionais da maternidade mesmo. 


P.S. No mesmo 27 de julho, na mesma cidade do Rio de Janeiro, outra criança nasceu num carro, só que num táxi, o que fez com que nas semanas seguintes ao nascimento, quando falávamos que Nailah nasceu no carro, muita gente perguntasse se fosse a história do táxi, que passou no telejornal local. 

 

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Falta alguma coisa

Nem o mais criativo autor do gênero realismo mágico imaginaria, no início de 2020, uma quarentena tão longa e cansativa. Vicente, que não faz ideia do que seja realismo mágico, imaginava alguns meses de descanso em casa, como todos os seus companheiros de trabalho no escritório.

Depois de alguns dias, algumas semanas, alguns meses, as atividades do escritório já haviam sido adaptadas para o home office. Vicente, que além de avesso à tecnologia era responsável por atividades presenciais, esperou. No escritório fazia pequenos reparos, reposição de materiais, serviços bancários. Tudo o que o home office dispensava.

A secretária já havia colocado todos os salários no pagamento automático do banco. Parece que a estagnação salarial dos últimos anos facilitou o trabalho dela. Foi um pouco antes de pedir demissão e aproveitar a onda de delivery para se dedicar à culinária.

E foi assim que o escritório permaneceu por um ano e meio, no modo automático, até voltarem às atividades presenciais, depois das vacinas, ainda com muito álcool gel e máscaras. O clima era de descontração. Prevalecia o alívio por sair de casa e interagir melhor com as pessoas, mas pairava em todos a sensação de esquecer alguma coisa. Brincavam que devia ser um efeito colateral da quarentena, a ser estudado.

Vicente, em casa, aguardava por novidades. Tinha a certeza de que alguém do escritório entraria em contato quando fosse necessário voltar ao trabalho. Enquanto isso, permanecia em casa, nas férias mais longas que já tivera na vida, desde que começou a trabalhar, aos 14 anos, quando o país também vivia uma crise econômica e caos político, no início dos anos 90.

A rotina entediante era abalada por um SMS. Vicente corria para ver. Geralmente era a operadora de celular oferecendo promoções e vantagens. Para falar com quem? Sequer lembrava da última ligação pessoal, que não fosse para interagir com um robô ou negar serviços oferecidos por telemarketing.

Nos últimos meses, ele fazia de uma ida ao mercado um grande acontecimento. Era a motivação para tomar um banho, colocar a melhor roupa, borrifar água de colônia e fazer a barba, ainda que o capricho fosse escondido pela máscara.

Do outro lado da cidade, os funcionários nem perceberam que os meses de clausura ensinaram que todos eram capazes de conciliar tarefas manuais com o trabalho. Era possível trocar uma lâmpada, preparar o café, abastecer as impressoras com papel, regar plantas, fazer pequenas compras; só a sensação de que estavam esquecendo alguma coisa permanecia no ar.

Tanto tempo de espera fez Vicente se dar conta de que após vários anos trabalhando com as mesmas pessoas, sequer conhecia a maioria delas. Teria trabalho para encontrar o telefone de alguém do escritório, além do que não gostaria de incomodar alguém, com quem não tinha muito contato, com uma ligação. Achou prudente esperar.

Voltar ao escritório não era bem uma vontade. Sabia que era necessário, que precisava do salário, que interromperia uma rotina extremamente cansativa – nunca imaginou que não fazer nada cansava tanto –, mas tinha a certeza de que não era hora.

Ele, que não foi incluído em nenhum dos inúmeros grupos de WhatsApp do escritório, não tinha dúvida de que quando voltassem a trabalhar entrariam em contato. Aquele pessoal não saberia se virar sem ele. Sua importância no dia-a-dia era inquestionável, não passava um dia sem ser requisitado dezenas de vezes por aquelas pessoas que não desgrudavam do computador. Jamais conseguiriam se virar sem ele.

Depois de alguns dias, algumas semanas, alguns meses, as atividades do escritório já haviam sido adaptadas para o trabalho presencial novamente. Vez ou outra alguém lembrava daquela estranha sensação de que faltava alguma coisa.

sábado, 18 de setembro de 2021

primeiro suspiro

São Paulo, sábado, 18 de setembro de 2021.

- primeiro suspiro - Cristina Santos - post 17 - Blog das 30 pessoas - 


título: primeiro suspiro

     Pari ideias que voaram ao primeiro suspiro. Suas penas geraram o brilho dos vaga-lumes que iluminam minha mente.
     Não preciso de:
     Só
     Preciso
     Respirar



Oiê! Espero que estejam bem. 
Até o próximo post.
Beijos,
Cristina Santos


P.S.: escrevi esse microconto em agosto de 2017.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Delírios virtuais

pintura de Lugufelo


          Foi há uns dois anos, ou algo por aí. Tinha descoberto que estava com dengue, depois de passar um dia todo no pronto-socorro de um hospital público, onde vi um homem sem nariz, uma criança com o pé torto, algumas idosas com variados problemas, quilos de palavras saídas com gosto de dor e cheiro de raiva. 
          Depois de tomar soro, ainda tonteado pelos primeiros sintomas, topei com um homem que barrou meu caminho e perguntou: você é PT? Não entendi e ele repetiu: você é PT? Confuso como qualquer um quem sai do hospital, o único PT que me ocorria era “perda total”. E apesar da fraqueza nos músculos e nos olhos (desconfio que o olhar também estava convulsionando), perguntei: PT… o partido? Ele confirmou e entendi que sua pergunta era, na verdade, uma afirmação: eu era um homem barbado, de óculos, brinco e camiseta vermelha: se não era do partido, estava vestindo uma aparência muito complicada para a época. Nem esperou que eu respondesse: vociferou contra a corrupção, o descaso com a saúde pública e as sete pragas do Egito. Pensei em mostra-lhe a placa logo acima de nós, com uma imensa logomarca do governo do estado, ponderar sobre a responsabilidade de cada esfera do poder público, mas nem eu nem ele estávamos em condições de travar uma conversa (e alguém ainda está?) sobre a política partidária e seus afazeres. Ouvi seu desabafo enquanto caminhava até o portão e voltei para casa, que a cama era meu único remédio. 
        Durante dias meu corpo era campo de batalha e não suportava interferência: não conseguia mover um músculo e durante muito tempo dormi. Ou acho que dormi. Provavelmente só estivesse assistindo, de olhos abertos, as projeções do meu inconsciente bagunçado por notícias e mosquitos. E assim seguiram os sonhos (ou quase sonhos), passando primeiro por imagens mais imediatas do cotidiano, seguidas de memórias fantasiosas e culminando com criações que eram composições feitas com poemas de Murilo Mendes, Jorge de Lima e desenhos animados. Foi nessa fase que vi uma berinjela recheada de purê de batatas ganhar vida em forma de aranha e acabar devorada pelo meu cão. E também foi nessa fase que assisti os devaneios de uma série que misturava Idade Média e futuro, tecnologias e piratas que falavam línguas completamente novas. Uma série internacionalmente conhecida e desejada, uma produção de milhões de dólares. No auge do sucesso, hackers roubaram os episódios inéditos e chantagearam a emissora, que não quis negociar. Para provar a seriedade, os sequestradores de capítulos vazaram dois desses episódios, o que causou um furor entre os aficionados. Então o canal tomou uma decisão radical e cancelou a série. Em muitos lugares surgiram pequenos protesto. Nas redes sociais, circulavam petições e escritos em caixa alta, responsabilizado a produtora. Alguns fãs tentaram fazer, eles mesmos, outras versões do programa e criaram em suas casas episódios alternativos, outras versões possíveis dos fatos. Mas logo percebeu-se o fracasso dessa empreitada: tudo soava falso, as pessoas percebiam o simulacro. Era preciso a realidade da série. As manifestações virtuais se transformaram em passeatas cheias de cartazes e coreografias. Gritavam, rezavam, pediam intervenção divina ou militar, qual viesse primeiro. Tudo para requerer a volta daquele mundo de causas e efeitos especiais.
        Era febre. Ou um desses delírios que o país pode causar.

domingo, 12 de setembro de 2021

O barco

Alguns momentos de nossa vida são como se estivéssemos em um barco. Não temos para onde correr, estamos rodeadas de água e é um perigo pular.
E tudo parece igual e imóvel. Ao contrário de um carro, que sentimos a velocidade, o barco parece não se mexer.
Mas ele se mexe, impulsado por ventos invisíveis aos nossos olhos. Hoje não estamos no mesmo lugar que ontem, mesmo que tudo pareça paralisado.

São momentos muito duros de viver, quando temos consciência de que queremos sair, que aquilo que nos rodeia não nos pertence mais. Esse momento se divide entre a luz e a sombra, a luz da consciência e a sombra da impotência.

O vento está lá e o barco está navegando, logo chegará a seu destino, terra firme.
Não se desesperem, nem corram pelo barco, isso não acelera a viagem.
Respirem fundo e tenham consciência de que isso é apenas um momento na vida de vocês, ninguém fica rodeado de água a vida inteira, pés foram feitos para caminhar na terra, o destino de todos.

Confiem no vento silencioso que leva o barco. Respirem, orem, meditem, rezem.
Não se afoguem nas águas imaginárias do desespero.
O barco vai chegar ao seu destino.
Confiem nisso. Tempestades passam, barcos chegam ao porto.
A vida melhora, a terra firme espera pelos passos apressados dos pés.
Serenem o coração. Falta pouco.
O vento faz o seu trabalho.
Falta pouco para chegar a um lugar melhor.
Falta pouco para ser feliz.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Objetos sentem saudades?

Se objetos sentem saudades, eu não sei. Mas ainda ouço ecoando as risadas nas tardes ensolaradas. Sinto o calor do sol em minhas paredes, quando ainda eram pintadas de amarelo, antes da tinta descascar e antes do mofo tomar conta.
Sinto o aroma das amoras, e das ervas em meu jardim quando ainda eram cuidadas, regadas, amadas, vivas! 
Ainda ouço o cantar dos pássaros e o barulho da rede balançando em meu quintal, a música no ar, e ainda sinto e o cheiro dos churrascos de fim de semana, quando eu era celebrada.
Ainda sinto os gatos arranhando minhas paredes e repousando em meu piso. E ainda ouço as vozes em meu interior -às vezes sérias, às vezes tristes, mas muitas vezes alegres-, quando eu era habitada.
Ainda sinto a movimentação de pessoas, animais e histórias, sob meu teto e minha proteção, quando eu era refúgio.
Ainda sinto a gratidão e o amor de quem eu abrigava e cuidava, quando eu era lar...

Se objetos sentem saudades, eu não sei. Mas posso testemunhar que as casas sentem, e muitas!



sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Talebozo



Depois de algumas décadas o mesmo grupo volta ao poder, seguindo o mesmo terror do passado. Com uma interpretação radical e insana da religião como justificativa, ameaçam opositores de morte, desprezam a ciência, sufocam a cultura e menosprezam as mulheres, com o líder se referindo à própria filha como resultado de ‘uma fraquejada’.

Agora o Afeganistão segue o mesmo roteiro, com instituições ainda mais frágeis e ações mais radicais do grupo paramilitar que ocupou o poder, o que leva a população ao pânico, exceto aqueles que concordam com a interpretação fundamentalista do islamismo e ainda acreditam que levam alguma vantagem com o governo Taleban.

Lá e cá um governo de lunáticos, ainda que armados, não se sustentaria sem o apoio de parte da população, para a qual não importa o caos em que o país agonize, desde que sejam mantidos privilégios, que vão desde a isenção de impostos milionários e o tráfico internacional de ópio, até ações mesquinhas, como não dividir o aeroporto com os pobres e obrigar as mulheres a usarem burca.

Além da ausência de um poder moderador, que lance ao menos uma nota de repúdio às arbitrariedades do governo, os afegãos têm uma diferença marcante. Querem, ao menos no discurso, romper definitivamente com qualquer vestígio do ocidente. Ainda que líderes do Taleban tenham acesso ao luxo que vetam à população, a ideia é manter o país sob o rigor da sharia, a lei islâmica. Aqui os patriotas batem continência para a bandeira norte-americana e vendem o patrimônio nacional a preço de banana.

Desde o fim teórico da escravidão a elite brasileira tem uma obsessão: transformar o país em um território europeu ou norte-americano. Voltam de viagens ao exterior maravilhados com a organização, segurança, limpeza e como a sociedade funciona de forma harmônica.

Apesar da estupefação, qualquer tentativa de reformas sociais que sigam o padrão europeu coloca a mesma elite em pânico. Taxar grandes fortunas, regulamentar a mídia, prestar assistência aos necessitados, fazer reforma agrária ou manter empresas estratégicas sob a tutela do Estado são medidas apocalípticas para a classe média verde e amarela.

Diante da mera sugestão de um país um pouco menos desigual, a elite brasileira não hesitará em derrubar um governo e apoiar um genocida. Para isso tem apoio da classe média, que prefere achar que é rica do que se assumir muito mais próxima dos pobres.

Assim imitamos o Afeganistão e esperamos que com isso tenhamos um resultado europeu. Naturalizamos as armas, as ameaças, a tortura – que após a ditadura militar segue praticada na periferia –, com milicianos aliados a líderes religiosos. Diante dos olhares incrédulos do mundo com a política medieval, bolsonaristas, ao melhor estilo Taleban, afirmam libertar o país.

Temos uma pequena vantagem. Ao menos em teoria as eleições ocorrerão no ano que vem. Uma derrota maciça dificultará os delírios golpistas do atual governo. Resta saber até que ponto os brasileiros estarão dispostos a imitar o Afeganistão visando a Europa.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

hortelã extra forte

São Paulo, quarta-feira, 18 de agosto de 2021.

- hortelã extra forte - Cristina Santos - post 16 - Blog das 30 pessoas - 

título: hortelã extra forte

   Ele estava pronto para pular quando desconfiou que o videogame já não era mais importante; quando percebeu que não dava mais para prestar atenção nas aulas; e quando confirmou que não poderia mais guardar o que sentia por ela, ele estava pronto para pular.
   E foi assim, decidido, que colocou a mochila nas costas, pegou no bolso da calça a bala hortelã extra forte e caminhou em sua direção.
   Ela, ela já tinha pulado. E ao notar o olhar dele, Ela, ela sabia que Ele, ele estava pronto para pular.
   Pularam romanticamente em câmera lenta, como naqueles filmes dos anos oitenta que não fazem mais. E quando pararam de pular, sorriram ... ao notar que ele/ela seria a pessoa com quem pulariam para sempre, experimentando todos os gostos do universo.


Oiê! Espero que dentro do possível, vocês estejam bem. 💜
Até o próximo post.
Beijos,
Cristina Santos 

P.S.: escrevi esse conto em julho de 2015. 


   

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

O Caso do Circo





Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma época que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Éramos não-nascidas?

Minhas filhas, boca presa,
que memória  é chicote:

se recua, toma força,
se retorna, bate forte.

Nossa mãe, dizei depressa,
que história é este vestido?

Minhas filhas, já me esqueço,
esqueçam disso também.

O vestido, nesse prego,
é fogo morto, passado.

Nossa mãe, esse vestido,
tanta renda esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

O circo vinha de longe,
andante de déu-em-déu,

trazia no ventre de lona
artistas de línguas outras.

Do meu ventre, já paridas,
as filhas que Deus me deu

sem saber se eu queria
ser esposa, mãe ou o quê.

Fui vivendo sem vontade
de me haver nessa viagem,

existindo assim, sem brilho,
sem viço, sem assombro.

Quando o circo cá esteve
com todo seu explendor,

me atravessou por dentro
um medo de permanência

e o ardor de uma paixão
de pele se iluminar.

Quis não ser espectadora,
quis a lona por meu lar.

Deixei vocês com a avó
e com o circo me casei.

Nossa mãe, porque nos faz
confissão de abandono?

Minhas filhas, escutai
o que conto e não escondo,

insistiram que eu lembrasse,
pois partilho tudo, agora.

Secai vossas lágrimas,
já que aqui estou de volta.

Mil cidades adicionei,
fiz cartaz, bilheteria…

mas foi como equilibrista,
sapatilha de cetim,

que meu brilho se fez sol
e existir ganhou sentido.

O vestido era a glória
dos meus dias bailarinos;

meu funâmbulo viver
foi feito de fantasia;

tive amores de plateia,
semeei risos suspensos;

me atirei em rede baixa,
fiz da queda meu descanço;

plantei vogal de surpresa,
tantos aplausos eu colhi.

 Passei terras, passei pastos,
passei ponte, passei rio,

conheci diverso povo,
mandei cartas e retratos

perguntando à vossa avó
como estavam minhas filhas.

Poucas palavras voltavam,
pontuando os meus dias,

os meus dias que voavam
nas alturas do equilíbrio.

Por um fio ia a vida
variando experiências,

mais enchendo de vontades,
vontades que, enfim, eu tinha.

Sonhei em sumir no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia, porém, sem jeito,
em meu peito fez-se susto.

Pequeno, inocente, mudo,
no princípio nem me dei.

Era um aperto, um entrave
de fazer perna tremer

quando deveria andar.
A cabeça me pesava

pensamento sem ideia,
só um nó no raciocínio

de ver tanta gente embaixo
que babava por meu tombo:

mesmo que nem percebessem,
desejavam a vertigem

de presenciar, de frente,
próximo passo em falso

seguido de um corpo em queda
rumo ao chão sem proteção.

Olha, eu mesma me disse,
olha como são pequenos

e te enxergam pequenina
qual formiga caminhando,

a qual basta uma brisa
para ser arrancada

de tudo o que conhece,
de tudo aquilo que se é.

Eu não tinha mais impulso
de andar quase miudo

naquele arame fino
de bamboleio certeiro.

Quede o brilho que eu tinha,
quede força ovacionando?

Quede anseio de aventura
que deixava a assitência,

inquieta, em silêncio?
Quede a vida me chamando?

Tudo isso se passava
em meu medo indomado,

em meus olhos fez morada
a indesejada Morte.

Me senti feita de vidro,
frágil, atarantada, humana.

Despertava em madrugadas,
suada, sobressaltada,

arrancava os cabelos,
gemia, encolhia pernas.

Não sabia pesadelo
ou se estava acordada.

Antes o pavor não vinha,
ao depois pavor pesou.

No rodar de mundo, o circo
retornou à esta cidade

Da lona, fui partejada,
pesando quilos de casos,

com a pele amarrotada
e marcada pelo tempo.

Saí do picadeiro
sem voltar minha visão,

para ignorar a morte
que o risco me gritava.

Parei no portão de casa,
sua avó me recebeu,

disse: eis aqui vossas filhas,
te esperam cochilando.

O vestido que eu usava
ficou pregado à parede,

confundindo aqui dentro
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho, 
vestido não há, nem circo.

Minhas filhas, guardem bem,
que este conto não repito.

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Esse texto, junto com mais outra versão, foi escrito em 2017 para uma intervenção poética. É uma variação do famoso poema de Carlos Drummond de Andrade 'O CASO DO VESTIDO'. 
Como experiência, parti do poema original (me valendo da mesma métrica e quantidade de versos do poeta mineiro, bem como de uma ou outra frase), mas propondo uma origem completamente diferente para o objeto Vestido. 
Talvez publique, em outra oportunidade, a segunda experiência que escrevi para esse narrativa-poema-dramaturgia.