sábado, 22 de setembro de 2018

No terceiro semestre de 2018

No terceiro semestre de 2018
ele terminará de escrever o projeto
ele se matriculará no curso
ele comprará a passagem

No terceiro semestre de 2018
ele se alimentará melhor
praticará exercícios regularmente
e até irá ao dentista

No terceiro semestre de 2018
ele parará de comprar livros
e dará conta de ler
os 414 volumes não lidos em sua estante

No terceiro semestre de 2018
ele pintará o apartamento alugado há 5 meses
uma parede laranja atrás do sofá
e até comprará uma cortina black out para seu quarto

No terceiro semestre de 2018
ele parará de assumir projetos 
que sabe que não dará conta
e apenas seguirá firme e harmonicamente
trabalhando em seus 617 atuais

No terceiro semestre de 2018
ele assumirá seus atos
parará de escrever na terceira pessoa
como se não falasse sempre de si próprio

E andará de bicicleta
Subirá em pau de sebo
Tomará banhos de mar
No terceiro semestre de 2018


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Lembrança enferrujada

Era hora de Dalton fazer uma viagem. Tinha que revisitar o passado nebuloso que a família insistia em manter, se recusando a vender o sítio ainda que proibindo qualquer visita à propriedade.

Há cinco anos chegou a pensar que a viagem seria possível. Após a morte do pai, que sempre censurava qualquer menção ao sítio, acreditou que o caminho estaria livre. Só então que a mãe, sempre tão reservada, assumiu o papel de censora.

Hoje, inválida, a mãe não poderia dar nenhuma informação quanto ao passado nebuloso, por outro lado também não poderia impedir a viagem de Dalton.

Ele sabia que já havia morado no sítio, mas era tão pequeno que não podia contar com as lembranças dessa época. Com um pouco de esforço poderia recuperar algum flash de memória, enviesada e nada confiável. Lembrava de brincar em um triciclo com alguma criança, mas não ficaria surpreso se seu próprio inconsciente estivesse personificando algum boneco.

De concreto sabia que o sítio trazia péssimas lembranças aos pais e que por alguma razão, em nenhuma hipótese eles consideravam vender a propriedade. Agora parecia o momento ideal. Uma visita para se livrar do passado e vender o sítio. A parte arrendada mal cobria os custos e o dinheiro da venda ajudaria no cuidado com a mãe.

Depois de uma viagem longa e cansativa, chegar no sítio não era muito acolhedor. Os sinais de abandono começavam no portão de entrada e o mato alto quase encobria o caminho até a casa. Só o trecho arrendado tinha sinais de cuidado, com uma vasta plantação de soja.

Não foi difícil passar pelo portão. A madeira apodrecida cedeu com um empurrão. Na casa a situação era mais complicada. Os vidros, intactos, já não eram transparentes com toda aquela poeira. As janelas e portas eram bem trancadas e não tinha nada para tentar arromba-las. Em um mezanino anexo ao telhado viu o triciclo de suas lembranças. Talvez fosse ali que havia criado seus amigos imaginários.

Decidiu ir até o vizinho. Sem dúvida teria alguma ferramenta para emprestar. Passou ao lado do poço, próximo à casa. Já fazia um bom tempo que estava com sede. Viu o poço lacrado por uma grossa tampa de concreto, cimentada ao redor da borda. Ficou imaginando qual o sentido de lacrar um poço daquele jeito.

O caminho até a casa vizinha foi longo. Chegou ofegante e encontrou o caseiro junto à cerca. Explicou que precisava de ferramentas e pediu um copo de água. O caseiro estranhou que o rapaz tenha se apresentado como proprietário do sitio ao lado e achou melhor apresentar Dalton à patroa.

Chegando ao alpendre o caseiro chamou e uma mulher já bastante idosa saiu da casa. O desinteresse foi interrompido com um olhar de espanto, assim que olhou para Dalton.

“Danilo?!”

“Não... é Dalton... eu sou filho do dono do sítio ao lado.”

A velha não conseguiu disfarçar a surpresa. Parecia ter visto um fantasma. Ainda assim ofereceu água ao jovem e pediu licença, alegando estar ocupada. O caseiro trouxe uma caixa de ferramentas e Dalton voltou para a casa, desta vez sem sede, mas com o peso extra das ferramentas.

Arrombar a porta não foi tarefa fácil. Além da falta de habilidade do rapaz, a fechadura estava emperrada depois de tantos anos parada. A ideia inicial de danificar o mínimo possível a porta foi deixada de lado. Ele só queria abrir logo a casa e por fim à ansiedade.

Depois de muito suor a porta cedeu. Ali estava seu passado, abandonado, empoeirado e esquecido. Na penumbra dos cômodos onde a energia elétrica havia sido cortada e a luz do sol mal atravessava os vidros sujos das janelas, Dalton começou a abrir tudo o que era possível em busca da claridade.

Dava para notar que boa parte da mobília havia sido levada e o restante combinava com os móveis da casa dos pais. Tudo dentro das expectativas, até a única porta interna que estava trancada. Mais um esforço com as ferramentas, dessa vez com um pouco mais de prática, e o rapaz entrou no único quarto que parecia intacto. Nenhum móvel havia sido retirado.

Cobertos pela poeira estavam a cama arrumada, o guarda-roupas cheio de peças infantis, a prateleira com brinquedos antigos e uma cômoda, onde dentro de uma das gavetas Dalton encontrou um envelope.

Abrindo o papel pardo Dalton encontrou um atestado de óbito, datado quando ele tinha quatro anos. Na filiação estavam os nomes de seus pais. O documento havia sido emitido para Danilo, nascido dois anos antes que ele. A causa da morte, afogamento.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Pela minha salvação

Há uns meses entrei em uma igreja, pensei que estava acontecendo uma missa, mas era um grupo de oração.
No final uma senhora se aproximou e me pediu meu telefone, eles cadastram pessoas interessadas no grupo de oração, mandam  material religioso e uma bênção diária. Bom, não estou em situação de negar uma bênção diária, então me cadastrei.

Recebi durante semanas orações, explicações sobre santos e avisos de missas e comemorações.

E nesta semana tudo mudou. Depois de centenas de mensagens sobre santos e seus milagres, chegou ao meu celular um texto longo, explicando a importância de apoiar um candidato a presidência que acabava de sofrer um atentado. Oh, meu Deus, não escrevo seu nome para não alimentar essa energia sinistra, já que ele não me parece um candidato, mas uma energia de esferas inferiores.

Pedi gentilmente a senhora da igreja que tirasse meu número da lista, já que não apoio o candidato e não entendo porque essas mensagens deveriam circular em grupos de oração. Ela respondeu, mandou um texto enorme explicando que esse ''candidato'' que sofreu o atentado, é um cristão que derramou seu sangue pela minha salvação e por isso merece o apoio de todos os católicos, já que ele é o candidato da igreja e assim como Jesus, ele vem sendo crucificado pela mídia e pelos comunistas.

Bom, chegamos em um ponto, os comunistas, essa figura tão temida pela igreja católica.

Nada disso me impressionou, o medo aos comunistas, o candidato que derrama o sangue pela salvação de todos os cristãos, a histeria coletiva, as mensagens de apoio ao candidato, a posição da igreja. Nada, nada, nada, nada, nada alterou minha pressão sanguínea, que apenas balançou quando percebi um detalhe, um pouco escondido, mas estava lá: não estamos em 2018? Século 21? Não estamos cercados de brinquedos futuristas? Não estamos conectados ao futuro? Onde então entra esse discurso de medo dos comunistas e um candidato que derrama seu sangue?

Será que o Brasil está em um universo paralelo? A nossa noção de tempo é diferente do resto do mundo? Estamos vivos? E se o Brasil é um país-limbo, e todos estamos mortos, esperando o perdão divino?

Agora fiquei abalada. Me cadastrei no grupo de oração para receber uma bênção diária, mas parece que abri um portal que leva as trevas.



Iara De Dupont.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

entre os números e caricatura do fascismo

Na história da humanidade quem vem primeiro a escrita ou números? Diante da sobrevivência e organização será que foram os números? Aprendemos a contar e depois a escrever ou escrever e depois contar?

Será que antes da escrita e dos números está a convivência? Quisera ter o tempo e condições objetivas para estudar todas as dúvidas que surgem.

Na organização de sociedade e estado parece que escrita e números são essenciais e aliados permanentes. Mas tenho a ligeira impressão de que os números importam mais.

Na construção de políticas públicas quem determina a existência delas são os números, mais específica do orçamento público, se cabe ou se é possível conter no orçamento, ainda que os números revelem que milhares e/ou milhões de pessoas dependem destas ações e políticas.

O congelamento de gastos públicos por 20 anos demonstram que algumas áreas do estado são consideradas estáticas e por isso não devem ser alteradas no que diz respeito a investimento perante o interesse e respeito à bolsa de valores de mega empresários. Ainda mais de bancos e financeiras.

Os números indicam quando são mais importantes para os interesses hegemônicos. O eterno presidente interino Temer governa com 4% a 8% de aprovação, puro golpe sabemos disso. E posso estar sendo generosa ao cita de 4% a 8% porque posso estar desatualizada, às vezes é 2%  e não sabemos.

Mais é incrível notar a influencia dos números neste exato contexto de pós golpe e/ou concretização do plano político de extrema direita.

Atual presidente interino governa com 4% a 8% de aprovação um país com extensão territorial de um continente. Quando comparamos os 4% a 8% do interino com os candidatos a presidência o cenário se torna desolador.

Guilherme Boulos o candidato mais jovem com 1% de intenção de voto pelo PSOL não participou do debate da emissora com enorme contingente (milhares e milhões) de telespectadores por ter apenas 1%.

Lula candidato experiente com 35% de intenção de voto pelo PT não pode participar das eleições ou pronunciar porque está preso pela justiça da republica curitibana que alega acusação sem apresentação de provas.

Guilherme Boulos com 1% de votos e Lula com 35% ou quase metade da intenção de votos dentre os votantes estão restritos na participação do debate pela simples vontade hegemônica de interesses econômicos.

Essa comparação apenas demonstra a momento de vivência com referencias ainda no golpe de 2015. De que forma um presidente interino com carreira política centenária com 4% a 8% de aprovação tem mais legitimidade do que candidato mais jovem e sem experiência com 1% bem como candidato com experiência e carreira política com 35% de intenção de votos. Democrático? Não. Democracia? Talvez. Golpe. Deixo para pensar.

Os demais candidatos acima de 1% na intenção de votos parecem mais aptos a serem  ouvidos por quem tem interesse no orçamento público.

Neste bonde tem Ciro e Marina, ambos com representação razoável de intenção de votos, mas que se comparada com Lula os dois juntos não representam os 35% de intenção de votos.
                           
Até o momento assisti apenas um debate pelo único canal que disponibilizou por internet porque não tenho televisão.

Já observando os candidatos neste debate nota-se de que explorar os números pode ser estratégia que demarca quais são as prioridades de governo, demonstra algum compromisso e ajuda na compreensão sobre o golpe. Também possibilita o debate sobre a dívida pública, desemprego e retrocesso no social e consequentemente no pouquíssimo bem estar que tínhamos.

Neste debate fiquei desconsertada com discurso do candidato com representação religiosa e que não lembro da intenção de voto e outro com 20% de intenção de votos que odeia as minorias que são maiorias votantes: mulheres, negros/negras e LGBT.

Hoje com a informação de que o candidato da extrema direita favorável ao empresariado e todo poder econômico, aliado ao fascismo e toda má sorte com discriminatórios compareceu a emissora mais popular do país e deixou-me estarrecida ao saber.

O candidato de 20% que não tenho apreço algum em citar o nome é uma caricatura furreca do atual presidente dos states.  Esta caricatura tem aversão aos direitos humanos, liberdade de expressão e entendimento mais que equivocado de que todos problemas resolvem-se com armas e armamento, mais prisões e mortes e não importa de qual lado.

A caricatura do fascismo com 20% de intenção de votos além do discurso tendencioso ao ódio, intolerância, racismo, misoginia, homofobia, senso comum, tem ausência quase que total na menção de números, orçamento público, política pública e social e principalmente em dizer quais são as prioridades de governo.

Discursos com números são interessantes para demonstrar realizações e intenções:
1º para quem fez algo, o Lula com 35% de votos pelo PT com certeza e sem dúvidas usaria para demonstrar o que fez durante o governo;
2º para quem pretende fazer algo demonstrando compromisso,  Guilherme Boulos com 1% pelo PSOL;
3º para quem promete mas não faz, ex prefeito de SP por menos de dois anos e colega do candidato a presidência 20 anos como governador de SP são exemplos contundentes.


Mas onde está o lugar do candidato com caricatura do fascismo e 20% de intenção de votos? Está na rede social, considerando que organização deste espaço se dá pela quantidade de vezes em que o tema, assunto e pessoa estão sendo citado, ele deve estar em primeiro lugar. Os números não têm filtros, infelizmente.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Dossiê Marco - Operação saideira

DO DIÁRIO DE MARCO, 15 DE JULHO DE 2013
Todas as escolhas que já fiz na vida combinam perfeitamente bem com cerveja. E com maconha também, é verdade, mas vou me ater à cerveja. Se eu fosse boêmio ou minimamente conseguisse tomar álcool sem ter a sensação de que estou tomando um remédio, e veja bem, não qualquer remédio, mas um remédio amargo, desses que a gente só toma quando é estritamente necessário, eu ia achar isso muito bom, realmente muito vantajoso. Mas não. Absolutamente não é assim. Eu preciso confessar, e minha crescente covardia só me permite fazê-lo aqui, que é absolutamente penoso para mim engolir um copo de cerveja e, se o faço – e sim, o faço – é apenas porque quero ser sociável, quero ter amigos, ser aceito num desses grupos de valdevinos que escolhi pra mim.

DA AGENDA DO CELULAR DE MARCO, SEMANA DE 14 A 20 DE JULHO DE 2013
  • dom_14:
14:00 – Encontro com o grupo de teatro (levar as coisas do Chico)
17:00 – Niver do Tuco no Bar da Ieda
  • qua_17:
21:00 – Futebol na TV (comprar comida)
  • qui_18:
19:00 – Oficina de escrita criativa (fazer o exercício do Caetano)
21:00 – Leitura de poemas no Bar do Tim
  • sáb_20:
11:00 – Oficina de escrita criativa
14:00 – Sarau
21:00 – Niver da Cecilia no Bar da Glória

DO DIÁRIO DE MARCO, 18 DE JULHO DE 2013
Acho que começo a perceber alguns padrões nos hábitos de meus amigos. Digo de meus amigos, mas talvez isso possa se estender a qualquer tomador de cerveja. Quando alguém te convida para assistir a uma partida de futebol, porque sim, esta pessoa é sua amiga e sabe que você gosta de futebol, na verdade esta pessoa está te convidando para tomar cerveja e para fumar maconha – mas vou me ater à cerveja, acho que já disse isso antes. Quando você chegar ao local combinado, todos estarão paramentados, é verdade, com a camisa de seus times de coração e você ficará empolgado com isso. Valeu a pena ter deixado o conforto de seu sofá para ver o jogo com pessoas tão animadas, com verdadeiros torcedores. Mas quando estiver chegando a hora do jogo e você ficar ansioso com a proximidade da peleja – afinal, você ingenuamente pensa que está ali para ver a uma partida de futebol – os torcedores já estarão tão animados consigo mesmos e com todos os preparativos que envolvem a partida, que provavelmente se esquecerão de ligar a tevê. Você, que gosta de futebol e que está ali para ver futebol e que até já tinha se programado todo para ver a partida no conforto de seu lar, provavelmente se sentirá constrangido em atrapalhar toda aquela alegria, em ser o único preocupado com uma coisa tão menos importante como uma partida de futebol. Provavelmente encherá seu copo e se unirá a turba de torcedores elevados, que não precisam de uma partida para torcer. Negará até a morte que você não está imensamente feliz com toda aquela patuscada, mas ficará atento a cada mínimo sinal de fogos que venha do vizinho – e como você ficaria feliz em ser amigo do vizinho nessas horas. É verdade que tudo pode ocorrer de uma forma um pouco menos drástica. Sempre pode haver um tio que se lembrará de ligar a tevê. Mas você pode ter certeza de que ela será uma tevê de tubo, de catorze polegadas, cheia de chuviscos – minorados talvez pelo chumaço de bom bril xuxado em cada haste de uma antena piramidal – e que provavelmente ficará lá esquecida em algum canto, longe o suficiente para que seu constrangimento e seu incorrigível senso de sociabilidade permita que você se aproxime.

DA GRAVAÇÃO CLANDESTINA FEITA PELA DRA. MILENA VERÍSSIMO, EM OCASIÃO DE CONSULTA PSICOLÓGICA PRESTADA A MARCO EM 14 DE AGOSTO DE 2013
Eu juro que já tentei de tudo, doutora, mas a verdade é que não consigo me envolver com outro tipo de gente, com gente mais Fanta Uva, se é que a senhora me entende. Me chame de preconceituoso, doutora, mas ou você bebe Fanta Uva ou você é legal. Eu sou uma completa aberração. Alguma coisa certamente deu errado em algum ponto de minha formação. Eu bebo Fanta Uva E sou legal. Ao menos é assim que eu me vejo. Jamais, doutora. Ninguém jamais pode saber que eu faço isso e espero que a senhora mantenha essa informação no mais absoluto sigilo. Estou certo que o fará. Se não posso confiar numa doutora, em quem poderei confiar, não é mesmo? Faço tudo escondido, na calada da noite, bem longe dos meus amigos. E que delícia que é botar aquele treco roxo na boca, a sensação inebriante daquelas bolinhas descendo goela a baixo. A senhora toma Fanta Uva, doutora? Bom, não importa, mas estou certo de que não toma. Logo se nota de que a senhora é uma pessoa agradável. Esses dias li uma reportagem alertando para o risco de se ter câncer ao se consumir Fanta Uva. O cara que disse isso só pode ser do tipo que toma Fanta Uva, gente chata pra caralho. Eu nunca consegui me envolver com esse tipo de gente. Veja bem, na escola eu até tentei e era confortável. A gente se reunia e podia tomar nossa Fanta Uva a vontade, sem ter que esconder isso de ninguém, mas e depois, doutora? Depois era cada um pra sua casa antes das oito. Não haviam as gargalhadas espalhafatosas, as promessas de amizade eterna, as conversas desinteressadas entrando pela madrugada. Nada, doutora, nada disso combina com Fanta Uva. Tudo isso combina com aquela bebida amarga que eu me esforço tanto para tomar. Não se pode ter tudo, não é mesmo, doutora? Ou será que pode, doutora? Algum desses livros aí atrás da senhora diz que pode, doutora? Eu preciso de ajuda, poxa!

LISTA DE COMPRAS ENCONTRADA NA POCHETE DE MARCO EM 12 DE SETEMBRO DE 2013
  • 3 pães
  • 100 gramas de mortadela
  • pipoca para microondas (bacon, se não tiver, provolone)
  • 1 pote de Nutella
  • macarrão
  • Toddynho (a embalagem com 3 da promoção)
  • 2 litros de Fanta Uva
  • 1 caixa de bom bom (daquela que vem com o Sensação)
  • papel higiênico (pacote com 8)

DO DIÁRIO DE MARCO, 23 DE SETEMBRO DE 2013
Voltemos aos padrões de comportamento. Acho que estou ficando perito nisso, um antropólogo dos botequins. Mas nem é preciso tanto para perceber que um copo de cerveja sempre precisa estar cheio, copos vazios ou meio vazios (neste mundo não há copos meio cheios) são considerados verdadeiros disparates, um desrespeito ao grupo. É dever de todos ficar atento para que nenhum copo na roda esteja vazio. Ao menor sinal de escassez deve-se imediatamente pegar a garrafa mais próxima e proceder pelo preenchimento de todos os copos do grupo. Encher apenas o próprio copo e devolver a garrafa à mesa é a pior infâmia que se pode cometer. Negar que alguém complete seu copo vazio, a segunda pior. Amizades antigas terminam por coisas assim. Por isso, e admito que sou bastante ingênuo por só perceber isso agora, uma estratégia óbvia para não ter que beber doses insuportáveis de cerveja é manter o máximo de tempo possível o copo cheio. Nada de bancar o boêmio e descer tudo de uma vez. Não. Isso só fará com que alguma alma pretensiosamente caridosa encha meu copo imediatamente e eu tenha mais uma sessão de tortura pela frente (veja bem, ninguém faz isso com qualquer outra coisa. Ninguém vê seu pão na chapa pela metade e pede ao chapeiro pra já ir descendo outro pra você. Absolutamente, não. Isso só funciona com cerveja e com outras dessas coisas amargas). Então, devo bebericar aos poucos e até mesmo fingir uns goles. Ser o cara que serve a cerveja nos copos também me rende muitos pontos e ajuda a disfarçar minha artimanha.

DO DIÁRIO DE MARCO, 24 DE SETEMBRO DE 2013
Começo a me arrepender do que escrevi ontem (será que é isso que chamam de ressaca moral?). Ser o único sóbrio num antro de ébrios (e dissimular isso, santo Deus) não seria, no mínimo, desonesto?

DO DIÁRIO DE MARCO, 01 DE OUTUBRO DE 2013
Preciso parar com essa história de tomar suco em público. Ontem quase aconteceu o pior. A Simone almoçava na padaria e quase me pegou com a boca no canudo. Ia ser uma lástima.  Cobri a cena bem em tempo com o Jornal do Metrô.

DO DIÁRIO DE MARCO, 05 DE OUTUBRO DE 2013
Acho que ontem passei dos limites. Jogar cerveja fora escondido é um pouco demais. Até mesmo pra mim.

DA GRAVAÇÃO CLANDESTINA FEITA PELA DRA. MILENA VERÍSSIMO, EM OCASIÃO DE CONSULTA PSICOLÓGICA PRESTADA A MARCO EM 07 DE OUTUBRO DE 2013
Chega uma hora nessa vida, doutora, que temos que tomar uma decisão, temos que mostrar, afinal, quem somos, pra que viemos, o que queremos nesse mundo. A senhora pediu e aqui estou eu, finalmente resoluto, por mais difícil e improvável que esta decisão seja, mas decido agora o que já não posso mais tardar: vou começar a beber! Pois posso repetir, caso a senhora não tenha entendido, caso o nervoso tenha embargado minha voz: vou começar a beber! Não, não desse modo vergonhoso como bebo hoje, quero ser um bebedor de verdade, como meus amigos, sim, quero ser como eles! Não, não acho que me diminuo com isso. Longe disso. Se escolhi segui-los, preciso do pacote todo. Não há como ser boêmio sem a boemia. Me entrego. Rirei com eles das piadas ébrias e dançarei nu se preciso for, só não quero mais manter-me sóbrio. Será que consigo, doutora? Estou delirando?

DO DIÁRIO DE MARCO, 12 DE OUTUBRO DE 2013
O orgulho transborda em mim. Ontem consegui tomar dois copos cheios. Sigamos. Um dia de cada vez.

DO DIÁRIO DE MARCO, 19 DE OUTUBRO DE 2013
Dois copos de novo. Sem avanços. Sem retrocessos. Um pequeno progresso, na verdade: emiti dois comentários minimamente razoáveis e convincentes sobre a superioridade das cervejas artesanais em relação às industrializadas. Obtive olhares respeitosos. Pesquisei na internet.

DA GRAVAÇÃO CLANDESTINA FEITA PELA DRA. MILENA VERÍSSIMO, EM OCASIÃO DE CONSULTA PSICOLÓGICA PRESTADA A MARCO EM 23 DE OUTUBRO DE 2013
Tenho me esforçado muito, doutora. Acho que não tenho motivos para envergonhá-la. Esses nossos encontros têm sido realmente decisivos. Confesso que no começo achava tudo isso uma grande perda de tempo, quase uma charlatanice. Desculpe, doutora, se não confiei na senhora, mas acho que aqui posso falar a verdade, não posso? Bom, deixa pra lá. Mas o fato é que depois que passei a encarar a cerveja não mais como uma simples bebida, como algo que servisse apenas para me matar a sede, mas como a chave de um portal que me transportasse para um outro estado de espírito, como uma poção mágica que me desse acesso ao lado mais obscuro das pessoas que quero perto de mim, ah, doutora, quando passei a ter essa perspectiva das coisas, tudo ficou bem mais fácil. Afinal, poções mágicas não precisam ser docinhas, não é mesmo, doutora? Pelo contrário, se quero passar para uma outra dimensão, para um outro estágio de existência, tenho que ser submetido a um rito de passagem e ritos de passagem precisam ser bastante dolorosos, não é mesmo, doutora? Diga que sim, doutora! Por favor! Diga alguma coisa doutora, veja bem, qualquer coisa, doutora! Eu não estou indo bem? Estou, não estou?

DO DIÁRIO DE MARCO, 02 DE NOVEMBRO DE 2013
Amanhã… ah, amanhã! Aniversário do Wagner no Isca Bar. Acho que chegou a hora de queimar umas etapas.

DO DIÁRIO DE MARCO, 03 DE NOVEMBRO DE 2013
É hoje!

DESCRIÇÃO DA CÂMERA DE SEGURANÇA DO ESTABELECIMENTO “ISCA BAR” NA NOITE DE 03 DE NOVEMBRO DE 2013, FEITA PELA PERITA DRA. CAROLINA DO VAL
O investigado chega ao estabelecimento de nome “Isca Bar” por volta das 20h45. Está sozinho. Traja camisa polo branca, calça jeans e pochete. Encontra duas pessoas numa das mesas da calçadas e as cumprimenta. Aparenta estar sóbrio e com perfeito controle de suas ações. O investigado se senta junto às duas pessoas. Ato contínuo, o garçom aparece com um copo americano e enche seu copo de cerveja. O investigado sorri com discrição ao garçom e quando este sai, propõe um brinde. Todos riem e bebem juntos. O investigado esvazia seu copo em duas grandes investidas. Um pouco antes das 21h mais duas pessoas se unem ao grupo. O garçom é solicitado novamente. Chegam mais garrafas à mesa. O copo do investigado é enchido mais uma vez. Risadas. Após três investidas, o copo do investigado fica vazio. A pessoa que chegou por último, uma mulher, imediatamente enche o copo do investigado. Ele diz algo e todos riem. Ele ri muito. Dá uma primeira investida no copo e começa a tamborilar os dedos na mesa. Parece inquieto. Um segundo gole. Alguém diz algo e o investigado bate com a palma da mão na mesa e ri alto. Desta vez, ninguém o acompanha no gesto. Por volta das 22h, mais alguém chega à mesa. O investigado completa o terceiro copo. Olha para os lados. Parece muito inquieto. Segue tamborilando os dedos e passa a também a bater a perna direita no chão. Com um gesto, chama o garçom e solicita mais garrafas. Emite um comentário. Aparentemente só ele ri. O garçom chega com as cervejas. O investigado pega uma das garrafas e começa a encher todos os copos da mesa, aparentemente proferindo comentários chistosos a cada um. Alguns lhe sorriem de volta. Alguns parecem se incomodar. Enche seu próprio copo, deixando cair boa parte do conteúdo no chão. O investigado passa a dançar de forma descompassada com o copo na mão. O investigado ri de modo espalhafatoso. Duas das pessoas mais próximas se afastam do investigado com olhares aparentemente assustados. O investigado tira a pochete e a atira na mesa. Segue dançando sozinho com o copo nas mãos. São 22h30 quando ele termina o quarto copo. Todos estão de pé. O quinto copo é enchido. Um gole. O investigado fica em silêncio. O investigado vomita. O investigado desmaia. São 23h12 quando chega a ambulância.

DO ATESTADO DE ÓBITO DE MARCO EMITIDO PELA MÉDICA LEGISTA DRA. THAIS ROCHA, EM 04 DE NOVEMBRO DE 2013
Coma alcoólico diagnosticado às 0h12. O falecido era solteiro e não deixa herdeiros.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

A recomendação de segurança

Agenor havia sido promovido. Agora seria responsável pela segurança. Começou arrumando uma dívida, mas era por uma boa causa. Precisava comprar um terno caro. Era imprescindível que responsáveis pela segurança vestissem um terno caro.

E lá se foi Agenor para sua tarefa. Em meio aos risos e conversas descontraídas dos clientes do bar, que se espalhavam pelas mesas da calçada, Agenor ficava atento. Prevenir era sempre melhor que remediar, portanto ele interrompia os brindes, as conversas de happy hour e se necessário até mesmo os beijos apaixonados dos casais imprudentes.

Havia passado os últimos três dias em frente ao espelho, decorando o texto e treinando as melhores expressões faciais para passar segurança, afinal era para isso que fora contratado.

"Boa noite. (...) Boa noite? Muito bem. Permitam que eu me apresente. Eu sou o Agenor, sou responsável pela segurança de vocês. Estou aqui para assegurar que nada de mal vai acontecer. Eu conto com a colaboração de vocês. Permitam que eu dê uma recomendação de segurança: caso algum pedinte se aproxime, não entrem em pânico, não deem dinheiro para não estimular a prática, não ofereçam comida, não puxem conversa. Sigam essas instruções e nada de mal acontecerá. Tenham uma boa noite." E se afastava para cumprir sua função.

Tudo seria muito mais fácil, não fossem os imprudentes. A maioria seguia as recomendações, diante do perigo iminente apenas recuava e clamava pela ajuda de Agenor, que corria expulsar os maus elementos que colocavam a paz e a ordem em risco. Tudo na mais perfeita harmonia, não fossem os imprudentes.

Não passava uma noite sem ter que agir com mais vigor, graças àqueles que, contrariando as regras explícitas de segurança, davam moedas – moedas! – aos vagabundos que se aproximavam.

Era a hora de agir sorrateiramente, expulsar os transeuntes que ofereciam um perigo inegável à gente de bem que se espalhava pelas mesas da calçada, lamentando não poder agir com todo o rigor que gostaria.

O maior problema era o direitos humanos. As pessoas que agiam de forma imprudente e ainda criticavam Agenor quando ele realizava seu trabalho da forma mais competente possível. Precisava de todo jogo de cintura para, depois de se certificar de que o perigo havia sido afastado, se aproximar da mesa dos imprudentes com o olhar sério, semelhante ao que lançava aos próprios filhos diante de uma travessura.

“Boa noite. Lembram do que eu disse? Eu conto com a colaboração de vocês! É uma recomendação de segurança. Por favor, não estimulem esse tipo de atitude.”

E voltava a se afastar, dessa vez mantendo uma atenção especial à mesa dos transgressores da ordem. Só não conseguia compreender qual a dificuldade daquelas pessoas de ter uma atitude de gente de bem e ajudar a escorraçar os maus elementos. Vai entender...

domingo, 12 de agosto de 2018

Somos tão fortes assim?

Sempre me intriga visão simplista dos fenômenos que nos cercam.
Alguém disse ''vai ter eclipse no dia 11 de agosto e chuva de meteoros no dia 12, será um espetáculo''.

Dai eu fico pensando, sim, pode ser um acontecimento visualmente interessante, mas que tanto nos afeta a vida? Será que somos tão fortes e estamos tão blindados, a ponto de não sofrer consequências em nossa vida, por causa de um eclipse?

Quem estuda os eclipses garante que nada muda, além da maré que sobe. Ah, sim, apenas a natureza é afetada, o ser humano não, blindando na sua internet, cercado de brinquedos, não sente nem cócegas enquanto os planetas dançam.

Chegamos a esse ponto de acreditar que a natureza é uma coisa, que nos serve, nossa vida é outra, e ambas não estão entrelaçadas nem dependem uma da outra.

Ah, mas tem eclipse várias vezes por ano! Só até agora já foram uns três!

Pois é! Então talvez somos diferentes a cada um deles, mas estamos tão absorvidos pela vida virtual que não reparamos nas mudanças, porque talvez nem sabemos quem somos, parece que não existimos fora de uma tela de computador.

Científicos dão risada e contam que civilizações antigas tinham medo de eclipses, se escondiam, pensavam que era um castigo. Nós nem olhamos para um eclipse, muito menos para quem somos, e talvez esse seja o nosso grande castigo.


Iara De Dupont

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Bolo

  Não sei bem o motivo, mas a lista de coisas que me irritam anda aumentando.
  Pode ser a idade, o estilo de vida, talvez nesse caso específico o excesso de horas online.

  Embora eu e a cozinha não nos dessemos bem desde a década de 80, conseguimos coexistir sem grandes traumas. Sempre me dá um certo ódio, quando elogio a comida de alguém e esse alguém vem me passar a receita. Eu tento coisas como:  "eu não cozinho!" "eu não gosto de cozinhar!" "não faço nada com mais de 5 ingredientes!"  "eu acabo comendo os ingredientes antes!" porém nada parece funcionar quando um ser quer te passar uma receita, do latim "seita" "re-seita" deve ser.

  No meu tempo online, que é bem variado devo dizer, passava muito tempo ocultando posts de receita, agora querem me ensinar online. Eu acho útil, quando preciso ou realmente quero fazer algo, a internet tá lá, tem até vídeo de como fazer uma singela crepioca, sou grata!

  O que passou por esses dias a me irritar foi esses posts padrão de vídeo de receita, que normalmente começam com musiquinha feliz e alguém cortando um bolo em câmera lenta, que o recheio vaza devagar, ou puxa um pedaço da torta e o queijo estica devagar, quase erótico... Essa lentidão, essa câmera lenta, porque eu tenho que ver chocolate e queijo escorrendo em câmera lenta? Me irrita, fome combina com paz, sossego e pressa, come-se rápido, feio, desleixado, não é bonito, deixem a coitada da comida em paz.
  

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Das angústias em séries

Faltam dois meses e alguns dias para as eleições de outubro. O ano começou nesta perspectiva sobre o acontecimento das eleições. Chegamos a metade do ano e parece que essa ansiedade sobre as eleições são as piores sensações possíveis.


A prisão do Lula é um fato de meses e somente ele está preso em meio a quantidade exacerbada de corruptos ativos na política e seja atuando pelas sombras (no caso de Temer quando era vice ou articulador) ou protagonista político ao longo de décadas atendendo aos interesses mercadológicos da minoria empresarial com fortuna quase que incalculável se comparada a população do globo terrestre.


Até o momento não tivemos uma mobilização que de fato alcançasse a ansiedade ou essa falta de perspectiva minha no caso, aliada a aceitação populacional desse período de intenso retrocesso de políticas públicas e sociais. Não houve greve geral e nenhuma ação de massa que sacudisse as estruturas em especial os institucionalizados e institucional.


Acontecem pequenas ações isoladas porém ao mesmo tempo potentes, seja em atos, grupos ou quaisquer ajuntamento de pessoas interessadas em debater, manifestar e/ou se apresentar como candidato. Como no lançamento da campanha a presidência de Guilherme Boulos no Campo Limpo sendo mostra disso, que embora a ação seja pequena e com pouco recurso havia gente interessada em conhecer e/ou confirma-lo como candidato.


Mulheres estão se interessando pela política juntamente com LGBTs, indígenas e com toda negritude estão agindo para ocupar espaços de poder, compreendido como o efeito direto do assassinato de Marielle Franco até então sem desfecho nas investigações sobre quem mandou matar e por quê. Demonstram a resistência no enfrentamento do genocídio da população negra e periférica nos espaços, inclusive de poder.


A conjuntura está caótica como sempre, porém com uma tendência extremamente fascista com intervenção militar no Rio, militarização das escolas públicas com inspiração no projeto piloto de Goias se espalhando para os demais estados, ainda o constante pronunciamento das forças armadas sobre política. 


A literatura sobre a ditadura civil militar nos situa de como é perigoso as forças armadas discutirem ou compreender a política sob o ponto de vista do poder ao povo e destruição da corrupção. Já assistimos este filme durante 21 anos e mais precisamente durante 400 anos com escravidão quando o exército estava no controle de corpos, da moral e na defesa da propriedade dos senhores.


Discutir a política sem considerar a estrutura de exploração e explorados, sem classes sociais e período de escravidão que resultou nesta desigualdade sem precedentes é colocar-se no centro das opressões e repressões. 


Entre ganhos e perdas algumas resistências isoladas e nenhuma mobilização para o principal da organização de uma sociedade de fato democrática: a sustentabilidade, a distribuição de renda, o mundo do trabalho  e bem viver.


Enquanto isso as notícias pipocam mundo a fora com endividamento mundial: Rumo ao desconhecido: endividamento mundial, crise monetária e colapso capitalista algo que reflete o endividamento de todos trabalhadores seja por meio do trabalho formal, público, informal e trabalhador reserva ou mais conhecido como desempregados e/ou  a margem da sociedade.


Não vejo possibilidades de pensar em nova organização de sociedade quando todo esforço se resume a eleição ou quando não junta ambos. E no pós eleição ou quando eleito a ação se resume na manutenção do que está posto com algumas melhorias, sem alterar o que é estrutura.


Talvez ainda mantenha as esperanças pouquíssimas devido a ausência de diversidade nestes espaços. Mas e quando toda diversidade estiver nos espaços institucionais? Ou enquanto diversidade ocupando este espaços como alterar a estrutura?


A estrutura do estado é essencialmente burguesa, mesmo com diversidade neste espaço se não alteramos a sua principal regulação que está nas relações sociais e de trabalho não existe a menor possibilidade de mudança e/ou transformação.


Quando se diz regulação ou mediação do trabalho e relações sociais pelo estado temos que lembrar de que não somos números, mas tempo, então o setor público não deve se restringir a quantidade mas a qualidade do que é e faz. Assim para empresas uma vez que todo setor transita ou está regulado pelas ações do estado. 


Exemplo didático e mais recente que possa dar é a greve dos caminhoneiros. Embora tenha todas as contradições a greve teve como reivindicação taxas reguladas pelo estado. Parte dos grevistas compreendendo melhor a função destas taxas e/ou funcionamento delas fizeram as reivindicações para seu lucro e/ou melhorias que os beneficiava. 


Os caminhoneiros autônomos que tinham menor conhecimento sobre as taxas foram atendidos na reivindicação de pronto mesmo que em tese segundo alguns jornais isso os prejudicava. Logo veio a divulgação pelo governo - Temer e hiper golpista - de que a inflação e juros aumentou devido a greve dos caminhoneiros. De repente em todos os jornais a greve parecia ser o problema da economia e não esse endividamento mundial, crise entre capital e trabalho e/ou sistema capitalista.


Essa é uma amostra de como o estado regula as relações sociais, de trabalho e economia, e de como nos dá margem para várias reflexões. Dentre tantas de que os trabalhadores em próximas greves devem sempre reivindicar também pautas macros para o estado elaborar e mediar os benefícios (que  por vezes e somente acontecem para a burguesia) para que não se divida trabalhadores e pautas. 


A questão está em qual a função social do estado nas relações sociais e de trabalho?
E de que forma movimentos sociais, autônomos e sindicatos constroem resistências e mobilizações para transformar a mediação do estado burguês nas relações sociais e de trabalho?
Quanto a partidos e candidatos enquanto organizações políticas do institucional e por vez estado burguês o que pensam, refletem e podem contribuir  para a transformar essa mediação na estrutura que só beneficiam a pequena parcela mundial de 1%?


Talvez não tenham e/ou existam respostas. Por isso procuro organização de sociedade futuristas: a leitura é sobre Buscar vida em Europa ficou mais fácil  e poderia jurar que o título se tratava de fuga em massa e tals de pessoas para a Europa.


A outra trata-se de uma série sobre pessoas perdidas no espaço, mas ainda não terminei de assistir, até aqui é interessante, pois reflete exatamente a atual organização de sociedade da Terra noutro planeta. Deve ser o futuro e/ou sina mesmo.

domingo, 22 de julho de 2018

Das vezes em que sempre soube

Tudo começou com a morte dos Mamonas. Eu acordei naquela manhã de domingo, 02 de março de 1996, com a assombrosa notícia de que o avião que levava a banda havia caído sobre a Serra da Cantareira. Eu tinha 10 anos. Eu lembro que foi um domingo horrível para todos. Olhos grudados na tevê em busca de informações, Pelados em Santos tocada à exaustão em todas as rádios, a cara de tristeza generalizada em todos lá de casa pela perda de nossa banda favorita, sobretudo de nós crianças que sabíamos de cor aquelas canções que falavam de surubas e milagrosos sabões que não deixavam os pelos do corpo enrolarem uns com os outros. Para todos ali aquele domingo foi bem estranho. Mas para mim um pouco mais. Eu tinha um segredo. Eu sabia da morte dos Mamonas antes que ela acontecesse e não contei para ninguém. Sim, na noite anterior eu me revirei diversas vezes na cama. Eu sonhei que que um avião caia por sobre uma montanha e todos os integrantes de uma banda de rock morriam. A banda eram os Mamonas Assassinas.

***

Dois anos depois outro sonho. Eu tinha 12 anos e sonhei que o cantor Leandro morria, justo ele um dos meus ídolos da infância. Na manhã seguinte, acordo com a noticia de sua morte. Não contei isso pra ninguém. Morria de medo. Não queria ser tomado como excêntrico, esquisito. Até podia imaginar minha mãe me levando para o Domingo Legal como menino prodígio, enquanto o Gugu me pediria previsões sobre a vida dos famosos. Não queria aquilo. Por isso me calei.

***

Natal de 2012. Eu tinha até me esquecido de minhas duas isoladas experiências premonitórias. aquilo tinha ficado no passado, coisa de criança. Duas coincidências incríveis apenas. Até que pediram pra tirar aquela foto. Uma daquelas fotos de família, com todo mundo reunido. E eu era convidado ali e não conhecia nem metade das pessoas. De muitos não sabia nem o nome. A única coisa que eu sabia é que alguém ali ia morrer. Sim, no exato momento em que a máquina foi programada e todos se postavam para o "xis" eu tive a total certeza de alguém ali ia morrer, que aquela seria a última foto de algum de nós. Eu tentei afastar aquele pensamento horrível, mas não deu tempo. Nem bem as pessoas começaram a se dispersar e a senhora japonesa da segunda fila caiu no chão, as mãos no peito, os olhos esbugalhados. Morreu dois dias depois. Aquela foi sua última foto.

***

E agora... agora eu sinto coisas... sim, sobre você que está me lendo... não sei bem o que é... mas tome cuidado, tá bom?

***

É brincadeira isso. não estou sentindo nada.

***

***

ou talvez esteja...



sexta-feira, 20 de julho de 2018

Fobia

Acho engraçado pessoas que tem medos irracionais. Medo, não, pânico. Claro que as fobias fogem do controle e são um transtorno para quem não consegue se controlar diante de uma barata.

Sempre trato as fobias alheias com muito respeito. Não que eu tenha fobia de provocar um enfarto em alguém, mas é bom evitar as vergonhas alheias. Claro que quando estão todos a salvo daquele camundongo assustado, é inevitável evocar a fobia da Dona Florinda, do Chaves, no episódio dos ratos no restaurante.

Também já conheci pessoas com fobia de aranhas, sapos, lagartixas e, talvez o que tenha me causado mais curiosidade, de borboletas. O bom é que era fácil bancar o herói. Nem imaginam minha astúcia na hora de encarar o perigo e botar a borboleta pra correr, digo, pra voar, pra bem longe, com suas lindas asas em um voo descoordenado.

Claro que o medo é fundamental para proteger os seres vivos. Por instinto acabamos fugindo do perigo. O que me intriga é quando o medo irracional acaba por nos colocar em risco. Há quem, para fugir de uma barata na calçada, se jogue na rua venha o carro que vier.

Minha racionalidade me impede de entender essas coisas. Eu, sempre tão pé no chão, tão lúcido e tão reflexivo, não consigo ter medo dessas bobagens.

Na verdade a única coisa capaz de me deixar com medo é uma página em branco, que pede por palavras. Mas isso é óbvio, não acredito que exista alguém que não entre em pânico diante do tracinho vertical do cursor piscando, tal qual um alarme que indica que a bomba está prestes a explodir.

E não me venham com soluções simplistas. A boa e velha folha de papel não resolve o problema. As linhas prestes a saltar do papel e arrancar da alma as palavras que se escondem, os cantos da folha preparados para dobrarem e dar um bote fatal.

Apesar de achar engraçado pessoas com medos irracionais, acabo com um pouco de inveja. Preferia ter um pânico imaginário e na realidade inofensivo, do que esse pavor tão real de algo indubitavelmente perigoso.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

É uma teoria

Gosto muito de teorias, porque nelas tudo é possível.
Teorias são janelas que se abrem para algum lugar, ou não. Nelas cabem minhas vontades e desejos

E me apaixonei por uma nova  teoria, a de que o mundo acabou no dia 21 de dezembro de 2012, os que ficamos, por algum motivo estranho, estamos em uma espécie de limbo, de fim de festa.

Gostei dessa teoria, rapidamente se adaptou as minhas crises existenciais e sensação de desconforto neste mundo. É mais fácil pensar que tudo acabou, por isso nada faz mais sentido. Não me reconheço mais e o futuro não parece assustador.

Tudo que fizemos ou fomos chegou até esse dia em 2012, agora não existimos mais naquela forma ou pensamento. Os que lutam contra isso sofrem muito, agonizam sem saber que tudo já acabou.

E a beleza do fim é que logo atrás dele vem um começo e talvez este seja melhor que o anterior, mais forte que o último, mais definitivo que todos.

No momento não sabemos nada, apenas sentimos as mudanças do fim do mundo, mas em algum ponto vamos nos reconhecer e começar nossa trajetória novamente.

Parece fim de mundo, mas pode ser apenas uma teoria. Ou não.


Iara De Dupont





sábado, 7 de julho de 2018

em uma palavra cabe o universo

luz -
constante
no infinito de nós.

pôr-do-sol -
ósculo 
contemplativo.

saudade -
bichinho
rói
seu
leito.

amor amar -
palavras
do sonhar constante.



semente -
germina
na
mente.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Das pequenas metamorfoses

Ao ver uma partida de futebol, o que mais me encanta não é o momento do gol, mas o momento do replay, sobretudo aqueles em câmera lenta. Não é que eu goste de ver o tento por outro ângulo ou rememorar aquela jogada perfeita. Nada disso. O que me interessa está atrás do gol, entre as balizas e a arquibancada. O que realmente me emociona é ver o momento em que, ao receber a denúncia da torcida, o policial sisudo gira por um lapso a cabeça e, sem perceber, alarga por um nanosegundo a fissura compreendida entre os lábios, ante a rede estufada às suas costas, um quase nada antes de girar a cabeça de volta à torcida e tornar a ser um policial sisudo. 

quinta-feira, 21 de junho de 2018

SAUDADE DO CÉU DA NOITE

No caminho entre o ponto de ônibus e minha casa, me veio o tema para escrever nesse mês. Sim, porque até então, não sabia se gravava mais um programa, se escreveria sobre alguma coisa o sei lá o quê. 

quê compartilhar com vocês nesse mês de Junho? 

Sei que está fazendo um frio daqueles aqui no interior de sampa. 
Não sei se quando você lê a palavra "interior" já pensa em vaquinhas no pasto, riozinhos cortando a praça e essas coisas típicas das revistinhas do Chico Bento! 

Aqui já foi assim. Mas hoje em dia, não chega nem perto. 

Mas então. 

Tá frio pra dedéu por aqui. E geralmente quando está frio assim, até o céu parece ficar mais limpo. AÍ PENSEI: Pronto! Tá aqui a ideia! 

Que saudade de quando eu podia simplesmente ficar na calçada de minha casa, contemplando as estrelas! Eu comprava a revista "Superinteressante", e nela, muitos e muitos anos atrás, vinha o mapa do céu do mês! E lá ia eu, me aventurar para encontrar as estrelas que estavam relacionadas e desenhadas no mapa, em suas constelações! 

Ontem mesmo falava com meu irmão sobre quando, eu, ele e nosso vizinho, fazíamos uma "caveira" com purunga (não sei explicar o que é isso, mas é parecido com um côco oco), colocávamos uma vela dentro e íamos para o pasto, acender a uma certa altura, e ficar vendo as reações das pessoas que passavam! 

Hoje em dia, nada é tão mais divertido assim, e somamos a esse fato, os boletos que precisamos pagar. 

Quanta coisa surge de uma noite fria e estrelada! 

A foto que ilustra esse post, é da Lua! Não quis editar a imagem.  
No lado esquerdo, a luz meio amarelada, é a luz de um poste. 
A Lua, você já sabe, né? E como estou falando de noite, escolhi a música da Tiê, "A noite", para dar um tom aqui no blog. 

Galera, nesse mês, é isso! 
Obrigado a vocês que ouviram meu programa no mês passado! 

Se Deus quiser, mês que vem estou de volta com mais um post fresquinho pra vocês! 
Tenham uma excelente noite com Tiê, e "A noite"!