terça-feira, 22 de maio de 2018

A mancha

Eu comecei a terminar de ser criança no dia em que vi a mancha. 
A mancha em formato de lua, atrás da orelha esquerda do Jordão. 

O amigo Jordão. 

O Jordão que sempre estava, 
mas nunca ficava, 
jamais se demorava. 
O Jordão que me olhava, mas nunca me via, 
o olhar fugidio de quem queria mas não podia. 
Jordão, o amigo eterno de minha mãe. 

Amigo, vejam só, o amigo de minha mãe. 

Naquele dia, 
ao se despedir como sempre, 
ele se virou como nunca.
E foi assim que eu vi.

E quando vi a mancha, em forma de lua, atrás da orelha esquerda, senti súbito minha mão saltando célere pra trás de minha própria orelha esquerda, pousando sobre a minha própria mancha em forma de lua, que eu achava 

- oh, céus, eu achava - 

que era só eu no mundo quem tinha. 

segunda-feira, 21 de maio de 2018

AUDIOPOST 21 DE MAIO

domingo, 20 de maio de 2018

¿Quién eres?

Oi, eu sou a Dolores. Pediram pra me apresentar. Mas logo eu, que não tenho nada pra falar? Sou Dolores, que era para ser Maria das Dores, mas minha mãe achou um nome triste e acabou mudando para Dolores.

Tenho 50 anos. O que eu vivi mesmo foi os últimos dez, depois que eu me livrei daquele traste. Quando eu vejo mocinha nova se engraçando por aí dá até um aperto. Eu casei com 22, vestido branco, véu, grinalda, meu irmãozinho todo arrumadinho pra levar as alianças até o altar. Depois um belo churrasco pra vizinhança toda!

Bonito, né? Nessa época o traste ainda valia alguma coisa. Daí já veio falando em mudar para São Paulo, que ia ser melhor, que a gente ia ganhar dinheiro e melhorar de vida. Eu fiquei contrariada, mas já estava esperando meu filho mais velho. Achei que ia ser melhor pro menino.

Chegando aqui alugamos um quartinho, ele arrumava uns bicos de pedreiro e a vida foi engrenando. Logo meu menino nasceu e pra ajudar nas despesas eu comecei a pegar uns servicinhos. Fazia faxina, manicure, vendia Avon, pegava umas encomendas de doce, salgado… Tudo coisa que eu já fazia desde menina, mas agora até me pagavam.

O problema é que quando o dinheirinho começou a entrar o traste começou a ficar preguiçoso. Eu tinha que cuidar da casa, trabalhar e cuidar do menino, que logo ganhou um irmãozinho. Quando o traste arrumava uns bicos chegava em casa e se jogava no sofá. Dizia que o serviço era pesado. E o meu serviço, era o que?

Eu criei meus filhos com rédea curta. De tranqueira já bastava o pai, que quando não estava na frente da televisão estava no bar. Ainda me convenceu a engravidar de novo, pra tentar uma menininha. O bom é que pelo menos daí nasceu minha caçula, que também criei bem pertinho de mim, porque a meninada da vizinhança era louca para se perder na vida. Nela eu nunca bati, mas vontade às vezes não falta, pra ver se entra alguma coisa naquela cabeça dura!

Como o tempo passa! De repente eu já estava com 30 anos. Queria ter 30 anos com a cabeça que eu tenho hoje. Naquela época eu estava cansada. Trabalhando que nem uma doida, criando 3 filhos e sustentando aquele vagabundo que ainda ficava se engraçando com a garçonete do bar.

Não vou falar mal do pastor da igreja que eu ia. Muitas vezes ele era a única pessoa que eu tinha pra desabafar. Mas foi ele que fez minha cabeça pra continuar casada, que homem é assim mesmo, que ia rezar pra ficar tudo bem. Eu fui deixando tudo como estava, pensando que as crianças não podiam crescer sem pai. Era melhor não ter pai do que ter aquele traste dentro de casa. Mas agora já passou.

A gente acha que a vida é pra sempre e quando vê já está velha. Tomei um susto quando meu mais moço disse que ia casar. Logo foi o mais velho e um pouquinho mais tarde minha caçula apareceu com o namorado em casa pedindo a mão dela. Até chorei, vê se pode! Minha menininha!

Ficou um vazio tão grande em casa. Só eu e aquele traste, que não tinha mais com quem implicar e depois de velho deu de me tratar mal. Era só o que faltava! Pois não tinha nada mais pra me segurar naquela casa. Fiz minha mala, peguei meu dinheirinho que eu juntei com tanto suor e fui embora. 

Acredita que o traste arrumou um escândalo na porta de casa? Me chamando de louca, de irresponsável, até de vagabunda! E o pastor que não pense que eu não sei de que lado ele ficou. Fofoca corre rapidinho e eu nunca mais fui naquela igreja.

Não vou dizer que foi fácil. Não foi, não. Mas o que é fácil nessa vida, me diz? Só sei que já faz 10 anos que eu estou vivendo minha vida! Como o tempo passa! Queria ter 30 anos com a cabeça que eu tenho hoje. Continuei fazendo meu servicinho aqui e alí, só que agora sem as crianças e sem aquele traste pinguço pra sustentar.

A vida é esse negócio que quando a gente vê já passou. Eu fiquei tanto tempo ouvindo conselho errado e quando tomei coragem de fazer o que eu queria é que eu comecei a aproveitar a vida. E hoje se alguém quiser me criticar pode começar pagando as minhas contas.

Mas é isso. Pediram pra me apresentar. Meu nome é Dolores, mas eu não tenho nada pra falar, não.

sábado, 12 de maio de 2018

O pacote inteiro

Cresci em uma casa de ateus, mas apaixonados por arte sacra. Tinha um altar, várias imagens e quadros. Sempre tinha na minha direção o olhar doce de alguma estátua de Virgem ou Santa, até no meu quarto.
Eu não sabia o significado, mas como cresci com isso sempre gostei dessas imagens.

Um dia caminhava pelo centro quando vi uma estátua maravilhosa, não sei qual era, mas talvez fosse a Virgem da Consolação, lembro dos vários anjos de cerâmica ao redor dela. Era uma estátua grande, talvez sobrevivente de alguma igreja e o preço não era alto, menos de mil reais. 

Paquerei essa estátua durante meses, pensava que um dia compraria e a levaria para casa, até que um dia caminhando por ali caiu uma chuva pesada, a rua era uma ladeira e a água corria na calçada como se fosse um rio. O dono do antiquário me viu tentando escapar da água e me disse para entrar na sua loja, onde estava a estátua. Sentei na sala que tinha ali e fiquei um bom tempo conversando com ele, comentei minha vontade de levar a estátua da Virgem, e ele me perguntou se eu era católica. Disse que era batizada, mas não fui educada na igreja, pelo contrário, eu nem sabia o nome da estátua que queria. Ele me disse que era a Nossa Senhora da Consolação.

Ah, eu acertei! 

Voltei a comentar meu interesse nela e ele respondeu:

-Vai levar o pacote todo?

É, quando puder, eu levo.

-Ela tem um bom tempo aqui e já foi devolvida umas quatro vezes, vai e volta, mas eu aviso que não devolvo o dinheiro.

E por que devolvem ela?

-Porque é o pacote inteiro.

Mas o que é o pacote inteiro?

-É uma estátua antiga, quase cem anos. A igreja foi demolida e alguém a comprou, depois veio parar aqui. Não é uma peça de decoração, é uma peça de devoção e isso carrega muitas coisas, você pode imaginar quantas pessoas, durante cem anos, ajoelharam e pediram misericórdia? Algo deve ter ficado ali, na estátua, e as pessoas levam sabendo disso, mas depois reclamam.

Mas reclamam do quê?

-Ah, elas dizem que depois que levaram a estátua escutaram vozes na casa, pessoas chorando, rezando, enfim, como se estivessem em uma igreja, sabe aquele silêncio de igreja, mas que você escuta um zum-zum de gente rezando? É isso.

A estátua vem com fantasmas?

-Não sei se são fantasmas, cada um dá uma explicação, dizem que é energia, um pouco das pessoas que tanto pediram ajuda a estátua, podem ser almas que se apegaram tanto que não soltam mais. Arte sacra é assim, às vezes nas mãos de ateus e às vezes nas mãos de devotos, mas antes disso era objetos de devoção de muitas pessoas. E o que essas estátuas devem escutar? Quantas pessoas ajoelham e contam suas tragédias? Tudo vai ficando no ar, ao redor da estátua.

E aqui não aparecem fantasmas?

-Nunca vi. E só fico aqui durante o dia, é muito barulho externo, não escuto nada nem vi nada estranho, mas talvez durante a noite seja possível escutar algo.

E seria melhor se ela fosse levada à casa de algum católico, alguém que seja devoto?

-Já tentei, mas ela foi devolvida. Esteve em quatro casas, três eram de apaixonados por arte sacra e um era devoto dela, mas acabou devolvendo porque disse que apareceram sombras e ele rezou, rezou, e não foram embora, então trouxe a estátua de volta.
Sempre digo isso, é uma estátua, mas leva o zum-zum de uma igreja, de tantas missas, tantos pedidos, tantas orações. 

Minha avó dizia a mesma coisa, guardava suas imagens de santos e santas e não dava para ninguém, mas sempre dizia que gostaria que ficassem em  família, infelizmente, por esses azares da vida, foram cair nas mãos de uma neta indiferente, que para está altura já deve ter jogado tudo no lixo, apesar dos apelos das tias. 

No desespero almas grudam no que conhecem e a Nossa Senhora da Consolação é uma figura acolhedora, deve arrastar um sem fim de devotos.

Fiquei olhando para a estátua e desisti de comprar. O dono tinha razão, é um pacote inteiro, não é uma peça de decoração, carrega todas essas energias da qual foi objeto toda sua vida. E não se pode culpar ninguém, também já me vi ajoelhada pedindo algo a uma Santa, também joguei um pouco de minha energia no ar que a envolvia.

E de repente o dono me disse:

-Tem horas que não quero vender, acho que ela ficou bem aqui, sossegada, talvez estava cansada de tantos pedidos, e parece que gosta daqui, ninguém a incomoda aqui.

Olhei de novo e dei razão a ele, realmente ela parecia ter um ar tranquilo, sereno, ali no meio da sala, em um antiquário no centro.

Seres humanos perturbam tudo ao seu redor, desde a natureza até os santos, todos precisamos folga dessa humanidade neurótica.

Objetos, estátuas, imagens, tudo se contamina com a presença humana, com suas descargas energéticas desequilibradas, seus impulsos histéricos.

A estátua em si é maravilhosa, mas vem com essa energia humana, esses gritos abafados, paciência.

De vez em quando eu passo na mesma rua, vou lá dar uma olhada e digo a Nossa Senhora da Consolação, você é maravilhosa, uma das mais lindas que já vi e vou embora.

Queria ela na minha casa, mas sem todas essas pessoas que ela carrega ou esses restos de energia. 

E conheço bem o coração humano, sei que é uma energia pesada porque poucas pessoas ajoelham e agradecem o milagre, o que elas fazem é se desesperar e pedir as coisas, mas na hora de receber nem lembram a que santo pediram. Sei de todas as correntes de dor e angústia que o ser humano carrega e tenta jogar em cima dos outros.

É uma linda estátua, pena que esteja tão saturada com a energia humana, ela não merecia isso. Espero que encontre um pouco de paz naquele antiquário, longe do desespero humano.



Iara De Dupont

terça-feira, 8 de maio de 2018

A Cilada de exceção e a falsa superação

  Todo mundo já ouviu algumas histórias de superação, jornal, facebook, e-mail, pessoalmente, amigo do amigo...

Tem aquele lá, que tinha tudo para dar errado na vida, a história começa com enxurrada de desgraça, nasceu sem pernas e mãos, a mãe abandonou, o pai morreu, andava 20 km a pé pra chegar à escola, trabalhava e cuidava de dez irmãos, a casa pegou fogo, perdeu tudo. Mas a gente escuta sabendo que no final a reviravolta vem, e o seu esforço será recompensado.
  A moral é tentar te levantar, serve de chacoalhão e te diz que por pior que você esteja, tem como vencer e se ele conseguiu, com um pouco de esforço, você também pode.
É, a gente pode, mas não é com pouco esforço não, é com muito, e com sorte também, por que tem coisas que todo esforço e vontade do mundo não bastam.

 Essas histórias sempre me irritam porque são a história na minoria, de um em um milhão, elas vem sem o número de candidatos por vaga. Não contadas, existem mil histórias de quem deu errado, mesmo tentando, mesmo fazendo quase o impossível.

  Essas histórias criam ilusões que podem levar gente pro abismo, por que falhar nem sempre é culpa nossa, tem gente demais no mundo, tem sorte, tem berço, tem coisa de mais em jogo, não existe justiça cósmica e o universo está se lixando pra você.
  
Arrisque, tente, mas por favor, saiba suas chances e não compre um bilhete de loteria com certeza que vai vencer.
  Saiba a história da maioria, da grande maioria, os finais podem ser tristes, mas são reais e nada te fará mais forte do que boas doses de realidade.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

poe-ser

queria fazer poesia
como quem fere
rasga
a efêmera matéria
trazendo à superfície
o sangue
e a foice
as vísceras
e vértices
do que constitui
as gentes.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

o controle e a autodefesa

Estou na rua, é noite e a cabeça está no céu. No giro de 360 graus dos olhos sobre alguma estrela e no como a estrela maior está. Não tem lua, só algum frio. Tem a música na caixa, o som estrondando e cantora soltando a voz. Mais uma olhada, em algo girando e filmando todos os passos, fumaças e rostos. Na ponta de um prédio uma câmera instalada no centro da rua cruzada. Não sei se ela sempre esteve ali ou foi programada para a virada de dois dias.

Durante uma caminhada alguém relata sobre a reação do cidadão de bem ao dar tiros sobre pessoas acampadas pacificamente. Antes teve uma explicação sobre a câmera instalada na ponta do prédio e sobre o custo de milhões pois ela identifica nos mínimos detalhes a fisionomia mesmo a distância considerável, o que naquele momento não consegui enxergá-la. Alguns minutos depois, no meio de muita gente entre o por do sol e nascer da lua, visualizei a câmera. Era a mesma da virada.

Na sexta-feira final de tarde sentada num banco de ônibus conversando com alguém, olho para a ponta de um prédio público próximo da Sé e comento sobre a mesma câmera instalada em toda cidade e que custa caríssimo. É o espetáculo de saber os passos de todos com justificativa de controle da criminalidade o que é muito aceitável para população embora não tenha relação estatística.

Entre ontem e hoje está mais próxima a possibilidade de movimentos sociais e lideranças serem criminalizados mas também pessoas comuns que simplesmente participam de organizações sejam partidárias, movimentos ou apenas de atos e manifestações.

Noutra vez no transporte público alguém comenta o quanto está difícil emprego e de como as entrevistas estão difíceis com exigências absurdas e com avaliações desconexas,  pois a recrutadora queria saber maiores informações sobre a postagem noutro ano referente a política, aborto e violência ou suposta aceitação da desordem. 

Outro dia, alguém orienta sobre como enviar currículo para estagiar em x local: por favor preencha os dados em nossa rede social. Ao preencher site de vagas, um dos primeiros itens, informe a rede social. Além disso tivemos com a recém reforma trabalhista aprovada e continuidade de crise o aumento do desemprego em 13,1% segundo a grande mídia.

Recentemente o criador da rede social que possibilitou ou facilita a comunicação e articulação entre aqueles que queiram ou tenham interesses semelhantes assumiu publicamente que a criatura está fora de controle ao dizer que existem milhares e milhões de fake news. E sendo convocado para se explicar perante autoridades americanas, dentre tantas coisas para justificar, está por que permitiu a eleição de Trump? Nesta semana o criador divulga que financiadores de páginas devem ser identificados, a princípio parece ótimo mas serve mesmo para controlar o que não pode sair de controle.

A televisão continua sendo o poder maior de comunicação e educação reacionária, mas ainda não sabemos ou não querem que saibamos até quando. Pareci que breve. Principalmente quando existe de fato, enorme disputa de mentes, corações, votos e ações. 

Sendo faltam 6 meses para escolher seu candidato. Faltam 6 meses para quem não tem candidato se organizar com o povo que luta. O resultado de votos será o medidor deste controle para todos. A organização ou falta de também. 

domingo, 22 de abril de 2018

Continho de merda


Maria vivia na merda, mas era bem quentinho. 

Fazia tempo que Maria vivia lá. Nem se lembrava o quanto. Um dia foi parar ali e por ali ficou. E dali jamais queria sair. Encolhidinha, sossegada, no seu canto. Havia o cheiro, sim, Maria admitia que havia. Aquele cheiro úmido e meio amargo que toda bosta tem. Mas era tão quentinho e confortável aquele canto meio melado de bosta em que Maria vivia, que ela nem dava bola para aquele cheiro. Às vezes dizia que até gostava, que aquilo era um aroma inspirador, era o preço afinal que se pagava por ter um cantinho tão confortável no meio daquela bosta toda, daquela merda tão fresquinha que alguém (ou algum) certa vez deixou por ali e Maria logo tomou para si. Alojou-se por medo de que não fosse encontrar algo melhor, ao menos não tão cedo. Medo não, por pura perspicácia, senso de oportunidade. E Maria era esperta, precavida, ajuizada. Maria não era boba de perder a chance de se envolver naquela bosta toda. 

É certo que também haviam as moscas. De tempos em tempos elas vinham e aquilo não era bom. Pensando bem, era até um pouco opressor. Mas Maria se acostumava com isso também, afastava as moscas como dava e com o tempo até passou a se acostumar com aquelas companhias. Do cantinho em que estava, Maria podia ver as moscas sondando a bosta e às vezes até se melando um pouco em seus trechos mais pegajosos, as patinhas todas salpicadas de merda mole. Aquilo era até divertido. Como estar na bosta era bom, pensava Maria, aquilo lhe rendia mesmo prazeres indescritíveis, como inebriar-se naquele odor pitoresco ou apreciar o regojizo das moscas. Maria era alguém de muita sorte por viver naquela merda. Aquela merda era o melhor lugar do mundo! 

E era tão confortável a bosta toda em que Maria estava metida, que ela nem botava a cabeça pra fora, nem se lembrava (ou se forçava a não lembrar) que além da merda em que estava, havia um jardim enorme, onde um dia aquela bosta fora deixada. Era só Maria levantar um pouquinho a cabeça que já daria para ver o imenso do jardim ao redor. E lá fora era tão grande e tão assustador que era difícil ter a coragem de se desgrudar daquele bom pedaço de bosta e aceitar, enfim, aquela aventura toda, a aventura que seria se desgrudar da merda e seguir. 

Até que um dia aconteceu. E só aconteceu porque Maria não pôde fazer nada, absolutamente nada, para impedir que acontecesse. Aconteceu de alguma força estranha, dessas que movem o mundo, completamente alheia à vontade e ao controle de Maria, a ter lançado longe, a ter cuspido pra fora da bosta quente, em direção ao assustador jardim. Maria, ainda toda respingada de merda, mas já sem aquele peso e calor que antes a envolvia, ficou desnorteada. Não sabia o que fazer diante de tanta insegurança, desprovida que estava da bosta que tão confortavelmente a acolhia, a afagava, a protegia. Maria não saberia viver sem aquilo e a primeira coisa que pensou foi em voltar de onde veio e procurar a bosta de novo. Mas ela já não podia voltar. A bosta já não existia tal qual Maria havia conhecido, já era um arremedo daquela bosta que antes a envolvia. Era uma bosta escangalhada pela mesma força que lançara Maria longe. Não tinha jeito. Maria teria que encarar as aventuras e perigos que o jardim lhe apresentava. 

E como Maria não tinha saído da bosta com suas próprias forças, com cuidado, mas sim de uma hora para outra, lançada por forças estranhas, não foi sem ferimentos que ela chegou ao jardim. Ferida e toda lambuzada de bosta, o que a fazia lembrar a cada momento da merda de onde tinha vindo, da merda que já não existia. Sentiu raiva. Sentiu medo. Sentiu culpa por não ter conseguido evitar de ser lançada longe daquela bostinha tão boa. 

Demorou, mas um dia Maria conseguiu aceitar que agora teria que lidar com o jardim. A vida na bosta tinha mesmo ficado para trás. 

Foi então que ela começou a caminhar pela grama e percebeu que conforme andava, a bosta ia aos poucos se desgrudando de seu corpo e a deixando livre para sentir a brisa cada vez menos assustadora que lhe atingia diretamente a face. 

É preciso dizer que haviam montes de bosta espalhados aqui e ali e Maria, vez ou outra, até se deixava pisar em um ou outro, com mais ou menos intensidade. Mas o melhor é que em nenhuma outra oportunidade Maria caiu na tentação de atolar-se fundo na merda novamente (ou no caso de ter se atolado, saiu tão rápido ou escondeu isso tão bem que ninguém ficou sabendo). Havia muito mais do que merda por ali, afinal, coisas e cheiros e texturas e sabores que Maria nem sabia que existia. 

Atolou-se naquilo tudo. 

O jardim era imenso e a vontade de explorá-lo inteiro só crescia. Já não sentia nem mais o cheiro de sua antiga vida na merda.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Nas mãos da saudade

Da última vez que eu havia segurado a mão direita de Toninho entre as minhas tive dificuldade em aceitar que era a mesma pessoa. O que eu tinha na memória era uma imagem de minha infância, a mão enorme do único adulto que não me cumprimentava com um afago na cabeça ou um aperto na bochecha. Toninho me estendia a mão para um comprimento sério, de adulto. Era assim que eu me sentia no auge dos meus dez anos. Como um adulto que cumprimentava com um aperto de mãos.

O que eu havia segurado da última vez era a mão mirrada que sumia entre as minhas. Me arrependi de não ter simplesmente estendido a mão direita para cumprimentá-lo. Fui mais um a segurar sua mão entre as minhas, em um ato de compaixão com quem definhava na cama. Fui só mais um para aquele que fazia com que eu me sentisse único.

Perguntei por onde tinha andado aqueles anos todos. Por onde não tinha? Viveu aventuras de fazer inveja aos mais heroicos personagens, conheceu chefes de estado, morou em hotéis de luxo, fez viagens homéricas. Narrativas contadas com tamanha riqueza de detalhes que minha única reação diante de eventuais incoerências era um leve sorriso, facilmente interpretado como aprovação.

Quando eu era criança, sempre soube que as histórias fantasiosas, repletas de monstros e criaturas sobrenaturais eram mentira. Também sabia que não conseguiria dormir por algumas noites após ouvir aqueles relatos com toda a atenção, mas ainda assim não resistia. Naquele dia, ao lado da cama, fiquei com a impressão que Toninho havia perdido tudo, menos o dom de contar histórias.

Demorei para tomar coragem. Minha iniciativa veio mais pelo fim do horário de visita se aproximando que pela decisão de tocar no assunto.

“A tia morreu dizendo que ainda ia encontrar com você mais uma vez.”

“Parece que eu me livrei dessa”, ele disse, tentando esboçar um sorriso sem graça.

“Eu sempre quis saber porque você sumiu. Ela nunca contou.”

“Quando ela dizia que ainda ia encontrar comigo, que sentimento ela passava?”

Lembrei das vezes que a tia falava do Toninho na mesa do jantar, enquanto apertava o cabo de uma faca com toda a força. "Acho que tinha saudade", falei.

"Pois é." Pela primeira vez era ele quem fingia acreditar em algo que eu dizia.

Fui salvo pela enfermeira que apareceu na porta do quarto. O horário de visita havia acabado. Me despedi todo atrapalhado, sem jeito, com vergonha. Toninho, que fazia com que eu me sentisse adulto aos dez anos, agora fazia com que eu me sentisse uma criança encurralada.

Naquele dia senti saudade da mão enorme que sozinha envolvia a minha quando eu era criança. Hoje sinto saudade daquele dia em que a mão mirrada de Toninho sumia entre as minhas da mesma forma que agora. Naquele dia ela não estava fria e rígida.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Vai poupar Romeu?

De vez em quando escuto algumas coisas e fico horrorizada.
Tenho uma amiga que sofre há anos de síndrome do pânico, ficamos amigas em um trabalho de grupo. Mas a gente não comenta sobre isso na frente dos outros, a maioria das pessoas acha frescura, besteira, então só tocamos no assunto quando estamos sozinhas.
O seu cunhado vai se casar fora de São Paulo e ela não quer ir, quem teve ou tem síndrome do pânico, sabe o terror que isso significa. Sair da cidade quer dizer que vamos a um lugar que não conhecemos nem sabemos suas saídas e entradas. Eu fui a vários casamentos fora da cidade e odeio tudo o que me custam, não gosto, fui porque não tinha alternativa.

Sugeri a minha amiga que ela falasse com seu namorado, pensassem em um plano B, caso tivesse um ataque de pânico. E minha amiga arregalou os olhos e disse:

-Esse é outro problema, ele não sabe que tenho síndrome do pânico, acha que sou apenas ansiosa.

Como é que é? Você mora com ele!

-É, mas ele está muito estressado, mudou de emprego, quero poupá-lo desse desgaste, prefiro não dizer nada.

Já fiz isso e perdi o namorado, vi ele ir embora porque não sabia o que estava acontecendo, achava que eu estava dando desculpas para não sair com ele e terminar o namoro.

Voltei ao ponto, poupar o Romeu do que?

-Dele ficar preocupado, sei lá, ele é do tipo que se exige muito, se ficar sabendo vai ser mais uma pressão para ele.

Meu Deus! Só quem teve um ataque de pânico sabe o horror que é, e ter que engolir essa sensação para que os outros não percebam, apenas acentua o problema. Sei disso porque passei anos engolindo ataques para que ninguém reparasse. Mas poupar Romeu disso? E quem a está poupando da síndrome?

Minha pergunta ao mundo e a Jesus é a seguinte, quantos anos faltam para acabar com essa mentalidade de  ''poupar um homem?''. Vai demorar? Porque está ficando difícil poupar os homens de tudo.

Não sei a origem disso, mas tenho uma lista de histórias inacreditáveis de mulheres que ''pouparam os seus homens''. Tenho uma amiga que esconde o quanto ganha, para poupar Romeu de se sentir humilhado, outra evita falar de sua família, que Romeu não gosta, para o poupar do aborrecimento.

Até quando nós, mulheres, vamos viver para fazer a vida dele simples e agradável à custa da nossa pele? 
Não condeno minha amiga, eu também escondi minha síndrome do pânico durante meses e até quando o vi ir embora fiquei quieta, não disse nada. Mas não pensei em poupar ele de nada, estava apenas afundada na depressão e na vergonha.

Já me falaram que relacionamentos são assim, a gente poupa o outro e também será poupado, mas quem pode negar a capacidade infinita da mulher de poupar um homem?

Tenho um tio distante que foi poupado e parece que não deu certo. Ele era de classe média baixa, se formou em agronomia e se encantou com a filha  de um industrial, da área de açúcar. Casou-se com a moça, mas ela muito digna, tomou uma decisão estranha. Disse que não queria humilhar meu tio, largou mão da vida no seu tríplex e do cartão de crédito do papai. Resolveu que iriam viver apenas do salário de agrônomo do marido. Fizeram uma casamento super simples, que meu tio conseguiu pagar, e foram viver felizes em um pequeno apartamento de um quarto. Ela teve três meninos e brigou com a família inteira, proibiu a todos de dar brinquedos caros e viagens, nem o avô milionário conseguiu a fazer  mudar de ideia. Só comprava o que o marido podia pagar. Minha mãe diz que tinha pena dos filhos, tão ricos, herdeiros e nunca tiveram uma festinha de criança porque o pai não podia pagar três festas, passaram a infância inteira na base de  ''um bolinho em casa com guaraná''.

Já na adolescência dos meninos, meu tio estava mais estável no emprego, mas não podia pagar os aviões e helicópteros que o avô tinha e dois de seus filhos, cansados da vida de classe média baixa e querendo viver melhor, se mudaram para a fazenda dos avós.

Todo mundo chorou, implorou para a mãe, pediu a ela que parasse com essa bobagem de não querer que o marido se sentisse humilhado, mas ela não mudou de ideia.

A esposa continuava firme no seu propósito, uma vez disse a minha mãe que seu dever como esposa era apoiar o marido e o fazer sentir bem, era importante incentivar os logros dele e tinha medo de começar a usar o dinheiro do pai e o marido se sentir um perdedor quando comparasse o cheque dele com o cartão de crédito do pai dela.

Imagino que isso colocou uma pressão maluca no casamento, meu tio se esforçou muito, tinha dois empregos, mas agronomia não é a mesma coisa que distribuir açúcar para o Brasil inteiro.

A mulher fez o que acreditou, renunciou a vida de compras e viagens, passou apertos com os filhos e como meu tio recompensou tamanho sacrifício? Ah, ele se apaixonou por outra herdeira (peso pesado), de banco. Mas essa era jovem e divertida, sem vontade de queimar cartão de crédito e meu tio sumiu no mundo com ela, sabe Deus onde estão.

Já a sua ex-mulher teve mais problemas. No fim voltou à fazenda dos pais com o outro filho. As crianças cresceram revoltadas por tudo que poderiam ter tido e não tiveram, se tornaram jovens que não gostam de estudar nem trabalhar, vivem como o que são, herdeiros, gastando tudo em festas e mulheres.
Para quebrar o tédio de sua vida ela foi estudar filosofia e deve ser difícil viver com isso, a sensação de que anos protegendo um homem não valeram de nada. Todas as festas que perdeu, as coisas que deixou de comprar e meu tio lá, deitando com uma menina de vinte anos.
Minha conclusão é sempre a mesma, a gente pode fazer o que quiser na vida, menos querer agradar aos outros.

É vital para uma mulher aprender a ficar em pé e parar de se dobrar para poupar um homem, o proteger da tempestade como se fosse uma criança abandonada. Não vale a pena se diminuir por ninguém, meu tio se apaixonou por ela, não pelo seu dinheiro, quem decidiu viver de maneira modesta como prova de amor foi ela, ele sempre disse que jamais pediu isso, pelo contrário, até queria ver seus filhos desfrutando do dinheiro do avô.

Ah, ela foi babaca! É, muitas são mesmo, não tem jeito, como a minha amiga, que sofre uma síndrome tão séria como é essa e prefere esconder tudo para que Romeu não se sinta sobrecarregado.
Ora e nós, mulheres? Quantas vezes estamos sobrecarregadas e eles cagam na nossa cabeça?
Bem feito, quem mandou se dobrar e deixar a vida de lado?

Vi minha avó fazer isso, minha mãe, tias, primas, amigas, se dobrando para que o homem se sentisse bem, mesmo que fosse difícil para elas. Cansei de ver mulheres poupando homens, evitando problemas para eles, editando as palavras para não estressar Romeu e fingindo estar bem quando não estão, para que Romeu não ficasse chateado.

E pela minha experiência posso dizer uma coisa, não vale a pena, eles não reconhecem e não faz nenhuma diferença na vida deles. Quem se diminui para que o outro cresça é uma heroína sem medalhas, uma guerreira solitária brigando com o invisível, ou seja, uma burra.

Aprendi, depois de anos poupando homens, que eu sou a única pessoa no mundo que merece isso, eu mereço e devo me poupar de muitas coisas, mas não tenho que estender meu manto para ninguém, muito menos um Romeu.

Tudo que evitei fazer ou dizer para poupar Romeu, ele não evitou fazer nem dizer.
Hoje lido com adultos, se tenho que poupar Romeu de alguma coisa não é homem suficiente para mim, não estou saindo com criança que precise ser protegida.
Se Romeu tem que ser cuidado, protegido e poupado, sugiro que corra para debaixo da saia da mamãe, porque se for da minha eu chuto.

Iara De Dupont

sábado, 7 de abril de 2018

menina-vaga-lume

noite adentro
lua baixa
pequenos pontinhos
centelham no gramado rasteiro

não deixam a noite 
um dia de sol

tampouco
embebida em sua própria escuridão

eles brilham
(pequenos mistérios)

reluzem
(qualquer riso sério)

afagam
devagarinho
o coração.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Sobre fases

Tenho uma relação de amor e ódio com o clichê. Nos odiamos sim, mas não sabemos viver um sem o outro. E teria algo mais clichê do que encerrar uma fase de minha vida com um textão??

Me diverti muito escrevendo nesse blog, ele deu razão para as minhas poesias, que boas ou ruins, me completam e inspiram. Foi inspirador compartilhar um mesmo espaço com tantas ideias diferentes, tantos pensamentos "aleatórios" e principalmente: as mais diversas razões para a arte de verbalizar.

Pude conhecer um pedacinho de cada um através de suas palavras e foi muito divertido. Entretanto, receio que essa fase da minha vida tenha terminado, ou quem sabe, apenas pausada. O fato é que novos ares já chegaram. 

Sempre vem a cabeça a boa e velha desculpa do "não tenho tido tempo", porém acredito que a falta de tempo é o eufemismo da falta de motivação, ou quem sabe, da seleção de outras motivações. Sinceramente, neste momento tenho sido mais espectador do que atuante e de fato isso tem me bastado. Mesmo que a cabeça nunca pare. 

De qualquer forma, esses novos ares pedem reflexão e a decisão de um rumo (olha o clichê aí de novo), desta forma então que agradeço a todos os que leram minhas poesias e principalmente aos meus companheiros que colaboram todos os dias para o funcionamento deste Blog. Desta vitrine de ideias e ideais.

Agradeço de coração, foi muito bom e, quem sabe, até logo!

Fábio Fonseca

quinta-feira, 29 de março de 2018

Por que mataram Marielle Franco?

Por que ao ser nomeada relatora da comissão da intervenção militar no RJ  a vida de Marielle Franco estava em risco?

Por que Marielle Franco foi impedida de acompanhar a intervenção militar?

Por que a intervenção militar é para ser tratada apenas e somente pelo alto escalão do governo a portas fechadas?

Por que o atual governo interino e ilegítimo recriou o Ministério da Segurança?

Por que o estado do RJ foi escolhido (a história demonstra que sempre foi) para ser um experimento de militarização?

Por que mataram Marielle Franco?

Por que não era do agrado de outros que uma vereadora do PSOL ciente do processo de intervenção militar e segurança pública pelas UPPs acompanhasse a violação de direitos em curso?

Por que Marielle Franco reconhecia os direitos humanos dos policiais?

Por que Marielle Franco denunciava milícias e policiais?

Por que temos polícias militarizadas?

Por que as polícias são militarizadas?

Por que a polícia civil é militarizada?

Por que a polícia militar é militarizada?

Por que todas as polícias estão militarizadas?

Por que as polícias deste país não se desconectam do exército como em outros países?

Por que tivemos 21 anos de ditadura civil militar e não menos?

Por que foi uma ditadura civil e militar?

Por que todos os governos desde os considerados mais progressistas não conseguiram alterar o paradigma da segurança pública?

Por que os policiais que discutem a militarização há pelo menos ou mais ou menos uns 20 anos não tem visibilidade?

Por que os policiais que discutem  a legalização das drogas são repudiados?

Por que mataram Marielle Franco?

Por que temos em pleno período democrático em todas esferas bancadas da bala?

Por que policiais violentos, com número considerável de confrontos seguidos de morte recebem medalha de honra e mérito?

Por que a frase do Douglas "porque o senhor atirou em mim" não comoveu, moveu e articulou as polícias para discutir outras formas de abordagem?

Por que mesmo sendo o braço armado do estado é necessário discutir segurança pública?

Por que o carro de 5 jovens que estavam preparados para comemorar o primeiro salário de um deles foi alvejado por balas e assassinados pela segurança pública?

Por que policiais fazem bico em dias de folga?

Por que a segurança patrimonial privada é a que mais lucra e tem como membros policiais?

Por que o RJ recebeu os principais mega eventos e consequentemente muita  expertise tecnológica  para a segurança pública e ainda sim policiais não recebem o salário?

Por que a segurança pública e propagandas recebem altíssimos recursos financeiros do orçamento público?

Por que temos a taxa de homicídio semelhante a países que entraram ou estão em guerra?

Por que até hoje a população negra e pobre ainda é alvo?

Por que existe um genocídio da população negra, pobre e indígena?

Por que estão executando as lideranças (principalmente aqueles que defendem a questão da terra) de movimentos populares e sociais?

Por que mataram Marielle Franco?

Por que o delegado que investigava a morte de Teori foi assassinado?

Por que lideranças institucionais ou populares são assassinadas quando se colocam a disposição para tratar de assuntos sobre a segurança pública?

Por que os maiores protestos tomaram as ruas do país quando a segurança pública agrediu brutalmente os manifestantes?

Por que não é do interesse de grandes veículos de comunicação tratar de assuntos sobre a segurança pública?

Por que jornalistas que discutem a segurança pública são perseguidos e assassinados?

Por que temos a mesma arquitetura institucional desde a ditadura civil militar?

Por que o exército e segurança pública são contra a corrupção menos quando se trata deles?

Por que existe solidariedade corporativa entre polícias?

Por que existe solidariedade corporativista/institucional/política e judiciária no que diz respeito a violação de direitos humanos pela segurança pública?

Por que existiu o massacre do Carandiru?

Por que temos as polícias que mais mata?

Por que temos a polícias que mais encarceram?

Por que temos os políciais que mais morrem?

Por que temos as políciais que mais se acidentam em trabalho?

Por que policiais não tem plano de carreira pautado em estudos?

Por que os direitos trabalhistas de policiais são parcos/irrisórios?

Por que policiais não podem se manifestar ou discutir/fazer política progressistas sem sofrer assédios e boicotes?

Por que discursos de ódio, intolerância e repudio a direitos humanos ganham a simpatia das polícias?

Por que a população adora programas policiais e cenas de violência com sangue nas ações de polícias?

Por que as polícias em grande parte aceitam de bom grado que os direitos humanos seja escrachado como: direitos dos manos?

Por que a segurança pública (em quase todos estados) decide quem assumirá cargos públicos seja para prefeito e governador?

Por que temos expansão de colégios militares?

Por que o discurso sobre a segurança pública foi determinante para presidentes conseguirem o cargo?

Por que mataram o Amarildo?

Por que as polícias (civil e militar) mantem até hoje o hábito (treinamento da ditadura civil militar) de torturar "suspeitos" para obter informações?

Por que ainda existem desaparecimentos forçados pela segurança pública?

Por que mataram Marco Jonathan 17 anos ,  Sávio Oliveira 20 anos, Matheus Baraúna 16 anos e Patrick da silva todos sem passagem pela polícia e trabalhadores?

Por que autos de resistência sempre foram licença para execuções na segurança pública?

Por que arrastaram e mataram a Claúdia?

Por que a segurança pública atua de forma violenta com a juventude e da mesma forma que a ditadura civil militar?

Por que ainda hoje para a segurança pública negros e pobres são inimigos?

Por que a(s) polícia (s) atira primeiro e pergunta/aborda depois?

Por que a segurança pública glorifica governadores que dizem: "quem não reagiu está vivo"?

Por que para a polícia "bandido bom é bandido morto"?

Por que para a população e senso comum "bandido bom é bandido morto"?

Por que bombeiros que salvam vidas são militares e também reserva do exército?

Por que até hoje os crimes de maio são “incógnita” para o judiciário mesmo com lutas de movimento social e investigação/estudo  (Achaque) de outros países?

Por que a segurança pública escolheu até hoje manter estreitas relações comerciais com Israel, os maiores violadores de direitos humanos de palestinos?

Por que mataram a Marielle Franco vereadora pelo PSOL com tênue proximidade com o tema e segurança pública?

Por que o judiciário é conivente com tantas violações por parte da segurança pública?

Por que ainda temos uma justiça militar para julgar policiais que violam direitos ou assassinaram pessoas inocentes?

Por que somente uma parte da polícia sabe investigar?

Por que quando policiais atiram em “suspeitos” é justamente no crânio?

Por que ainda hoje temos grupos de extermínio como na ditadura civil militar?

Por que questionar a segurança pública é motivo para perseguição?

Por que as polícias ainda são reserva do exército?

Por que o exército ainda é ou faz trabalho de polícia?

Por que temos a polícia mais agressiva/violenta e sem desenvolvimento próprio de condução da “segurança”?

Por que o policiamento/abordagem em territórios classe média alta são totalmente opostos e dispares quando em territórios com pobreza?

Por que o racismo institucional é parte estrutural na segurança pública?

Por que o presidente interino mesmo com golpe e após recriar o Ministério da Segurança e fazer a intervenção no RJ considera pertinente se candidatar a presidente (ainda com popularidade ínfima) na eleição de outubro?

Por que nenhum presidente se arrisca a transformar/modificar a estrutura institucional da segurança pública inviolada e transferida de períodos políticos sórdidos para a suposta democracia que vivemos?

Por que tratar/discutir/questionar/intervir sobre a segurança pública é um risco ou quase que uma sentença de morte?

Por que mataram Marielle Franco?

terça-feira, 27 de março de 2018

Homem Vitruviano

Eles estavam há mais de duas horas ali. Na mesa, garrafas de litrão se acumulavam. Seu João se aproximou cuidadosamente, como se não quisesse incomodá-los:
-O bar está fechando... Vocês podem acertar a conta?
Saíram ainda inflamados pela discussão. Ele gesticulava muito. Ela sorria ironicamente.
-Vocês não entendem! Há algo muito maior do que todas essas questões de identitarismo. Vocês estão sendo usados para nos enfraquecer, nosso alvo maior é a economia, deve ser ela, estamos brigando por bobagens – ele dizia inconformado.
-Bobagens? Minha liberdade é inegociável, vou brigar por ela no primeiro plano, não vou deixar pra depois. Você diz isso porque é homem e branco. – Após uma pausa, ela disse calmamente: “Você não entende os próprios privilégios...”.
 -Sabe, é isso que ta insuportável! A gente não pode mais conversar sem vocês apontarem o dedo “porque eu como mulher”, “porque eu como negro”, “porque você como homem branco”... Cara, não dá, a gente não consegue mais conversar sobre política ou qualquer outra coisa sem ouvir isso. Qualquer opinião que eu dou, lá vem o dedo me apontando. O cara dá uma “escorregada” e pronto! Já é linchado, sem levarem em consideração todo o seu histórico e o que ele fez pela nossa causa. A mina é assassinada porque estava brigando com os grandes da corrupção policial e política e só falam que ela era negra, da periferia, lésbica, como se isso tivesse alguma coisa a ver... Eu te amo, mas odeio quando você fica com essa sua cara arrogante! Por que a esquerda...
-A esquerda?! Diga, meu bem, como nós acabamos com a esquerda unificada e forte, pronta para iniciar a revolução!
-Tá vendo! Como vamos construir algo assim?
-Exato! Como vamos construir algo assim? Sabe qual é a novidade? Vocês, homens brancos de classe média/elite, nunca se deram conta de que são a régua padrão para tudo simplesmente porque o seu corpo tem passe livre. Vocês nunca se deram conta de que os corpos são marcados socialmente, que quando alguém me vê, o meu corpo chega antes do meu argumento porque vocês nunca viveram isso até agora. Mas se aplica a vocês também. O lance é que vocês dispõem de uma falsa neutralidade, que é de dominância.
-Eu sei, mas acho que vocês exageram, porque tem gente que é muito radical e aonde vamos parar? Você não acha?
-Não.
-Você não acha radical?!
-Não. Acho que sem questionar as coisas na raiz, nunca conseguiremos avançar. Eu não quero lutar por uma sociedade justa ao lado de pessoas que não me enxergam e não me tratam como par. Que me interrompem quando estou desenvolvendo um argumento, que me tratam como se eu fosse uma criança, explicando coisas que obviamente sei, que me assediam de forma constante e inoportuna...
-Mas e a paquera?
-Não. Eu me recuso a falar disso de novo. Chega! Estou cansada. Meu ônibus está parado ali, eu vou indo.
Ele baixou a cabeça chateado.
-Você não vai me dar nenhum beijo? – Ele perguntou sem jeito, sem se sentir seguro o suficiente para tocá-la.
Ela o encarou e sorriu.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Aliás

A menina de 4 anos se envaidece toda quando se põe a falar as "palavras difíceis". É um mundo totalmente novo, um mundo que ela não domina, mas que lhe encanta, um mundo que ela quer se apropriar, quer fazer parte. Ela tem 4 anos, afinal, e falar coisas que qualquer criança de 2 ou 3 já consegue falar com propriedade já não lhe interessa mais. Então ela arrisca. Mesmo sem saber exatamente o que está falando, ela arrisca. Combina uma palavra à outra com o mesmo cuidado com que já combina suas peças de roupa. Uma palavra parece harmonizar com a outra, então ela junta as duas. Eu, com os meus 32, só consigo dizer que o critério é o som. Eu consigo perceber que as palavras se atraem pelo som. Ela com os seus 4, consegue perceber muito mais do que isso. Para ela palavra tem cor, palavra tem cheiro, palavra tem textura, palavra tem sabor. E é assim, com toda essa riqueza de sentidos que a menina de 4 anos vai se apropriando do mundo das "palavras difíceis". Combinando. Arriscando. E quase sempre produzindo construções certeiras."Esta banana não está nada sensata hoje, mamãe", a menina de 4 anos arrisca, jamais deixando transparecer qualquer insegurança quanto à correção de sua frase, para logo depois confirmar "Aliás, mamãe, o que quer dizer 'sensata?'". Sim, "aliás". Como qualquer terreno nunca antes visitado, o terreno das "palavras difíceis" precisa ser conquistado com muito tato, com idas e retrocessos, nem que para isso a menina de 4 anos tenha que se valer de outra palavra difícil, "aliás", para confirmar e se sentir segura de seus novos achados linguísticos, do novo pedacinho de mundo que agora passa a lhe pertencer.  "Acho que isso não é razoável, papai" diz a menina e emenda "Aliás, papai, o que quer dizer 'razoável'?". Diante da resposta (um pouco confusa, é verdade) do pai a menina complementa com a pergunta que só agora lhe ocorre: "Aliás, papai, o que quer dizer 'aliás'?".

quarta-feira, 21 de março de 2018

A SEGUNDA OPÇÃO

Dias atrás, na nonagésima edição do Oscar, uma frase de um ator me chamou bastante a atenção. Trata-se do que Willen Dafoe disse, quando perguntado sobre o seu "não protagonismo" nos filmes. 

Quem acompanha a carreira do ator norte-americano sabe que, a grande maioria dos papéis que lhe são oferecidos, são os de coadjuvante. 

Que legal quando ele falou que nunca esquentou a cabeça com isso, pois sempre preferiu se submeter às vontades de quem o dirigiu/dirige. 

Ele é feliz assim! 

Gosto dos filmes que não são clichês. Mas também dos que contém isso neles.  
Na vida, aprendemos, quase sempre, na maioria das vezes, que nem todos nascemos para ser protagonistas nas histórias daqueles(as) que admiramos. Nem todos somos os "saradões" por quem as meninas suspiram! Nem todas são as gatas que arrancam suspiros de nós, homens. 

Por quê trato disso hoje, aqui no meu blog, e no blog das 30 pessoas, no próximo dia 21? 

Porque quero deixar bem claro pra mim que não há problema nenhum em ser preterido pelas ocasiões. "Because of reasons"!  
Enquanto escrevo esse texto, sei que pode denotar ser o discurso de um perdedor, pois poucos são os que admitem que nem tudo precisa ser como a sociedade praticamente impõe. Sim. É verdade que, dependendo de suas escolhas, muitas consequências virão. Mas isso não foi, não é e nunca será o fim do mundo.  
Existe alguém que não o/a verá como segunda opção um dia. Se você ainda não encontrou esse alguém, tenha certeza de que um dia ele(a) virá. 
Todos nós, de uma maneira ou de outra, já fomos protagonistas na vida de alguém.  
Quer por erros nossos, quer por decisões que tomamos, ou continuamos a ser, ou deixamos o posto. Outro(a) ocupou nosso lugar.  
Olhar no espelho e repetir para você mesmo aquela máxima que diz "Não trate como prioridade quem te trata como opção" dói. Ninguém quer ser uma segunda opção na vida de alguém. Principalmente na vida daqueles que tanto amamos. Mas olhando por um lado realista, não agradamos a todos como gostaríamos. E não digo isso no sentido de fazermos para ter um retorno. Digo isso no sentido de completarmos a lacuna que falta na(o) amada(o). 
A bem da verdade, as pessoas nem esperam isso da gente. É a expectativa que criamos que nos força a vivermos assim. 
E é fato que não adianta alguém dizer isso pra gente. Não adianta alguém chegar e dizer "Pô, a pessoa te trata como estepe, e você ainda lambe?" 
Só o tempo vai ensinar que, para amar, primeiro é necessário se amar. Ninguém dá aquilo que não tem. E se não tomarmos cuidado, acabamos projetando no outro a felicidade que lá no fundo, nós é que gostaríamos de desfrutar. 
Se (e quando) você perceber que está sendo o nº 2 na vida de alguém, não se rebaixe. Dê o carinho que você acha necessário dar. Um dia, a ficha cai. A sua, no caso. E toda a energia que você gasta amando essa pessoa, será canalizada à alguém que te amará da mesma forma. 
Lembra: As pessoas só dão valor para aquilo que tinham, depois que perdem. 
Precisamos atentar aos que nos valorizam. Não só como segundo plano, mas também àqueles(as) que já nos olham com o olhar de admiração, e que tantas vezes não vemos, pelo motivo de estarmos cegos por quem nos pisa. 
Como diz a canção, "a vida é mesmo assim". Se você, como eu, nunca foi um Gianechini, ou você, garota, nunca foi uma Bruna Lombardi, não se preocupe! Todos temos nossos atrativos! Todos temos algo de bom que salta aos olhos de quem vê o invisível, que é o essencial. 
à quem acha que isso é discurso de um perdedor, espero que um dia enxergue também aquilo que os santos e os poetas talvez notem: a riqueza individual, única, e própria, que cada ser humano tem. Não espere perder para valorizar. Cultive, para que algo bonito ao seu lado não seque, e procure água em outro lugar. A sombra que lhe é proporcionada, e que agora você não nota, poderia, quem sabe, ser essencial em sua vida, em algum ponto de sua existência. Alguém é feliz pelo fato de você existir. Não mate essa felicidade. Ninguém merece que a admiração que tem seja pisoteada por quem não vê a grandeza desse sentimento.