quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Soluções Práticas - Parte 24

O plano de ataque estava pronto. 

Uma elite dos melhores soldados estava reunida. Homens com o topete necessário para encarar os desafios que estavam por vir. Todos escolhidos a dedo, e era um dedo que vinha de um militar com pulso firme. Nikolai Nikolevich, com seus mais de sessenta anos, não era um estranho à guerra. Sua figura massiva, com cicatrizes por toda a cabeça colocava qualquer pessoa de cabelos em pé à primeira vista, e o inimigo que o aguardava prometia um confronto cabeludo. Porém, mais de trinta anos de conflitos deixaram o general careca de saber que a primeira impressão não era suficiente para vencer.

O portal estava aberto. Os soldados passaram para o outro lado em fila. Cada grupo tinha suas ordens. Os batedores passariam um pente fino na região para localizar o monstro. Assim que fosse descoberto, ele seria atraído para campo aberto, onde o segundo esquadrão lançaria suas redes para prendê-lo, diminuindo assim a ameaça. Tiveram um pequeno contratempo quando um dos soldados mais novos, ainda não temperado pelo combate, assustou-se e descarregou seu pente de balas em um homem que depois foi identificado como Tony Ramos.

Um fio de dúvida passou pela cabeça do general. Será que seus homens não estavam tão prontos quanto esperava?

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Soluções Práticas - Parte 23

A menina que seguira Natasha tinha um papel determinante nas revelações que estavam para acontecer. Seu nome, em homenagem a uma personagem da historia politica do Brasil, era Vana, a neta de José Neemias Cordeiro, e embora ainda nos seus 5 anos, possuía em seu íntimo o conhecimento e fobia a pelos soltos que herdara de seu avô.

O que Vana tinha a dizer mudaria todo o rumo das pesquisas feitas até então. A Vortexsoura não apenas sugava os pelos cortados e os enviavam para uma fenda interdimensional, como também tinha poder de reuni-los, onde quer que eles se encontrassem, em um só aglomerado de pelos. Essa capacidade tornaria possível a resolução de problemas relacionados a golpes de estado provocados sem comprovação de crime de responsabilidade.

O que Natasha presenciou no Brasil foi a emanação do mantra, Fora Temer, que haverá de abrir os portais que se fizeram dissipar todos os pelos. A questão é que a abertura dessas fendas não é o suficiente, é necessário a Vortexsoura para reuni-los e usá-los a favor da democracia.

Vana veio revelar que a Vortexsoura era a arma contra o golpe!

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Soluções Práticas - Parte 22

Catatônicos.

Era assim que continuavam Aleksis e Olegiev quando viram, milagrosamente, Natasha materializar-se na frente deles. Sorria. 

- Deu certo! 
- O quê deu certo? - Aleksis indagou tentando controlar a catatonia.
- Como o quê? O teste com o Vortex-Temporal-Ampliado, besta! Eu estive no Brasil, o lugar onde tudo isso começou, você sabe, o diário...
- No Brasil? - perguntou Olegiev.
- Sim! No Brasil... e foi lá que eu aprendi que não há o que temer. Estamos no caminho certo!

Ao dizer isso, sentiu um  estalo atrás de si. Na sua frente, Aleksis e Olegiev ainda mais catatônicos que antes. Virou-se para trás.

Era ela. A menina que encontrara no Brasil.

Ela também sorria.

domingo, 21 de agosto de 2016

Soluções Práticas - Parte 21

Porém, antes de entrar na fenda, virou-se uma vez mais para ver a manifestação que passava. Estranhamente aquilo a afetou. Sentiu um nó na boca do estômago, uma dorzinha lá no fundo do coração. Sentiu uma saudade não sabia se de algo, ou de alguém. Jovens, homens, mulheres e crianças com suas faixas, cartazes... Seu povo veio à mente, bem como o  velho que morrera horas, dias antes (já nem sabia mais).
"Antes de partir, deixe-me sentar um pouco", pediu ela, à si mesmo. Riu. Riu dela ter pedido algo à ela. Sim. Ela tinha o direito de sentar-se. Estava, na verdade, cansada daquilo tudo. Cansada de viver fugindo, entre segredos russos e temporais. Cansada de não ter uma vida tranquila, como sonhara, anos antes. Antes de entrar em contato com aquela realidade toda.
Havia tempos que não sentia toda aquela estranha emoção que invadia seu coração. Não sabia o quê estava acontecendo. Decidiu, mesmo assim, deixar a lágrima vir aos olhos, juntamente com sua respiração ofegante.

Eis que de repente, da multidão que gritava palavras de ordem, surge uma menininha, de seus por volta de cinco, seis aninhos.

Na inocência linda da criança, uma mãozinha foi dirigida até suas vistas. A criança parecia ter pena dela. 

A menina disse algo, mas não entendeu palavra alguma. Embora estudada demais, conhecedora até mesmo de idiomas de nações longínquas, o português brasileiro não fazia parte do quê entendia.

O quê fazer? Como fazer a criança entender que ela mesmo não entendia?
Pensou consigo: Vou sorrir! O sorriso é universal!

Então, em meio às lágrimas, deixou que brotasse um sorriso triste, apertado, mas ainda assim, um sorriso. Que surtiu efeito! A menininha sorriu de volta, disse mais alguma coisa e voltou para junto de uns dois adultos que a observavam de longe. Toda animada, falava alegremente, sobre o fato de ter logrado êxito na missão de alegrar alguém que parecia não estar tão bem naquele momento de sua breve história.

Enxugou os olhos, olhou para a fenda, e disse, de maneira que pudesse se ouvir: - Vamos lá, Natasha. Eles precisam de você.

sábado, 20 de agosto de 2016

Soluções Práticas - Parte 20

É claro que ninguém faria uma guerra por causa de chumaços de cabelo. Mas também é claro que alguém faria guerra por alguma coisa, como sempre. Prevendo a iminência do conflito, Natasha, Aleksis e Olegiev sequer tiveram tempo de lamentar a morte de Vassili. Correram para o laboratório o mais rápido possível. O tempo estava cada vez mais apertado. Talvez fosse precipitado, mas não havia alternativa e o invento precisava ser novamente testado.

Com base na Vortexoura o avô de Natasha começara a pesquisar uma forma de ampliar seu poder, para que o transporte entre dimensões fosse além de fios de cabelo. O diário deixado pelo falecido avô foi fundamental para que Natasha utilizasse os equipamentos do laboratório de Olegiev. O problema é que da última vez que tentaram testar o Vortex-temporal-ampliado com seres humanos, Natasha acabou com o ouvido sangrando, diante de uma criatura bizarra materializada não se sabe como, que só foi entretida e destruída depois de alguns truques de Aleksis. Em contrapartida o mágico exigiu passar a acompanhar de perto os experimentos.

Depois de ajustes às pressas Olegiev acreditava ter consertado os problemas do invento, mas para tirar a prova teriam que tentar testar mais uma vez. Aleksis, que sempre foi mais adepto dos truques de mágica do que da ciência, não se dispôs a servir de cobaia; Olegiev hesitou; e Natasha tomou a Vortexoura modificada de suas mãos e disse que honraria o trabalho de seu avô. 

O coração batia forte. A última experiência havia sido bastante dolorida. Natasha estava diante de uma daquelas situações em que devemos deixar a razão de lado e pular de cabeça, caso contrário nunca criaria coragem para dar continuidade ao projeto do avô. Era necessário testar o Vortex-temporal-ampliado com alguma longa distância e, tendo lido no antigo diário que todo o projeto da Vortexoura teve início com um tal José Neemias Cordeiro, resolveu resgatar essas raízes e testar o Vortex-temporal-ampliado fazendo uma ponte temporal entre Russia e Brasil.

Empunhou o objeto em formato de tesoura. Fechou os olhos. Respirou fundo. Abriu os olhos. Abriu as hastes e cravou uma das extremidades no vazio, como se atingisse um tecido esticado. O golpe fez um ponto de luz, que se abriu em uma fenda quando Natasha deslizou o aparelho para cima. Aleksis e Olegiev olharam catatônicos a moça dar um passo a frente e sumir em meio à fenda de luz.

Natasha estava atônita. Mal conseguia acreditar que havia dado certo. Estava no país onde tudo teve origem e, sem saber quase nada sobre o Brasil, deu de cara com um grupo de pessoas que fechava a rua, com vários cartazes escrito "Fora Temer". Estando no país do futebol, concluiu que Temer deveria ser algum time e que pela cara dos torcedores esse time estava muito, mas muito mal.

Não havia tempo para tentar entender o que estava acontecendo naquela rua. O cerco estava se fechando. A KGB, o exército, talvez até o Vladimir Putin em pessoa buscavam desesperadamente o pequeno laboratório que, segundo investigações secretas, havia desenvolvido a maior invenção de todos os tempos. O Vortex-temporal-ampliado poderia requentar a Guerra Fria. Natasha abriu outra fenda no espaço. Precisava voltar ao laboratório.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Soluções Práticas - Parte 18

Uma grande batalha está apenas começando, não é mais uma no leste europeu que já sofreu tanto, é talvez a maior batalha que toda aquela parte do planeta já acostumada com sofrimentos, angústias e caos já presenciou. Batalhas que não apenas serão feitas de disparos, lutas, mortes e perdas, batalhas que também serão superações de fantasmas do passado, de traumas e também de memórias.

Natasha, Aleksis, Olegiev e todos os envolvidos carregam com eles histórias pesadas, mais pesadas que as armas que estarão em riste. Todos estavam com esse peso no limite. 

De repente, toda essa energia concentrada, de cada um em seu canto de angústia, medo, esperança e saudades, tornaramVassili mais forte! Ninguém tinha conhecimento dessa sinergia, quantas e quantas vezes isso aconteceu na história, nas guerras e nem ficamos sabendo... foi isso que tornou Vassili forte, a sinergia de tanta gente sofrida em busca de esperança, dos seus companheiros. Vassili então saiu da cafeteria correndo com raça e coragem, pegou seu copo de capuccino escrito "Fora KGB" e jogou pro alto, distraindo aquele monstro e então tomado de algo inédito pra ele, começou a disparar a sua AK-74M aos gritos de "Essa é pelo velho lenhador, seu maldito!"

Todos os presentes se admiraram com tamanha bravura que a muito tempo não se via naquela região, Vassili inspirou os presentes a lutarem, não só pelas suas sobrevivências, mas a lutarem pelas suas angústias e medos.

Vassili esta ferido gravemente agora, sua AK-74M está no chão... mas o monstro não reina mais absoluto em seu poder, ele está acuado e assustado com a coragem de revolta. A sinergia de luta de Natasha, Aleksis e Olegiev está mais forte ainda em todos agora e qualquer um que presenciou o ato heróico de Vassali pode pegar a arma dele no chão e continuar essa luta.

Vassili está sofrendo em dor física, mas sua alma está leve e feliz.


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Soluções Práticas - Parte 15


Bateu a mão no criado mudo à procura do telefone. Um copo de vidro se estatelou no chão, ao lado de uma garrafa de vodka vazia, que estava caída ao lado da cama. Na segunda mãozada, o cinzeiro lotado de bitucas e cinzas também foi ao chão. Ignorando a bagunça, Natasha tateou até o telefone. Colocou-o no ouvido ainda sem ter certeza se já estava acordada. Uma voz masculina do outro lado disse-lhe:
- Ligue a televisão no canal 5. Agora.
Levantou-se da cama tentando evitar os cacos de vidro. O cheiro de vodka e de cigarro no ar fez seu estômago revirar. Não sabia se estava com fome ou se queria vomitar. Ainda seminua, ligou a televisão e ficou ali, em pé, olhando para a tela como se fosse um zumbi.
Uma repórter de cabelos loiros por volta dos seus 40 anos, de feições sisudas e quase sem sobrancelhas, dava a notícia em tom desesperador:
- Já são mais de cem as cidades na Rússia atingidas por uma entidade ainda desconhecida. Em Moscou, moradores afiram que tudo começou com uma infestação inexplicável de pelos e cabelos aparecendo em suas residências, vindos do que disseram ser explosões de luz. A cidade declarou estado de calamidade pública até que se entenda o que está acontecendo. Somente na capital, mais de trezentas mortes por asfixia foram confirmadas e cerca de outras três mil pessoas esperam atendimento médico, pois com tanta coceira, começaram a se automutilar.
A câmera muda para um homem mais velho, careca, vestindo um terno azul marinho com gravata amarela. Continuou a dar as notícias em tom de desastre e comoção:
- Acabamos de receber novas informações do gabinete do Estado. Atenção! Fiquem em suas casas e permaneçam em locais sem janelas! Parece que monstros de pelo estão causando destruição nas ruas das principais cidades de todo o mundo! Fiquem em suas casas!
De repente, um estrondo e todos os aparelhos elétricos da casa se desligam.

...

A alguns quilômetros dali, um ponto de consciência experimentava, pela primeira vez, a sensação de existir. Não entendia muito bem aquela voz conversando consigo mesmo e não entendia o que via ao seu redor.
- Quem sou eu? Onde estou? Qual a minha razão de ser? Por que eu sinto essa sensação de algo, digamos assim, de algo “coçando” em todo o meu ser? Em toda a minha existência? Por que eu sou tão escuro comparado aquelas pequenas existências abaixo de mim? O que são esses caixotes enormes, cheios de, vou chamar de... pessoas? Por que aquela massa gigantesca de coisa acima de mim é tão suave, e tão... azul?

...

Era o primeiro dia na nova divisão e Vassili já tinha que combater um monstro gigante. Coisa de filme!
- O alvo está a caminho! Alinhem-se e não atirem até eu dar as ordens, gritou o tenente-coronel de sua infantaria.

O soldado estava nervoso, mas duvidava do relato exagerado de seu tenente-coronel. “Não existem monstros! Deve ser algum ataque terrorista”, pensou Vassili, com um crescente frio na barriga.
Em questão de segundos o chão começou a tremer e o silêncio tomou conta da tropa. Civis corriam desesperados pelas ruas, buscando abrigos em cafeterias e no comércio local. Um vento forte trouxe consigo uma enorme quantidade de pelos, que começou a grudar nos rostos, nas armas, nos vidros e em toda e qualquer superfície.
Vassili sentiu a garganta coçar e começou a tossir. Ouviu uma ordem rouca:
- Atirem, atirem agora!
Sem saber para onde mirar, começou a disparar sua AK-74M. O caos era total. Gritos, tosses, barulho de pessoas sufocando, armas disparando. Assim que conseguiu se livrar dos pelos para botar os olhos no tal monstro, foi que ele pode ver claramente o que enfrentavam e o quão ineficiente eram.
- É um monstro de pelos! Gritou Vassili, na esperança de que alguém também estivesse pensando o que estava pensando, e saiu correndo para dentro do primeiro Starbucks que viu.




domingo, 14 de agosto de 2016

Soluções Práticas - Parte 14

O telefone tocava insistentemente no escritório empoeirado. O som do velho aparelho ecoava pelo cômodo vazio, mas ela não conseguia alcançá-lo. A mancha. A mancha formada por aquele líquido viscoso deformava tudo à sua volta. De repente ela não estava mais no prédio às margens do Rio Neva. Estava numa estrada deserta por onde andou durante o que pareceu uma eternidade até chegar a um precipício. Demorou um tempo para perceber que estava na beira de uma cratera gigantesca criada pelo impacto de um asteróide. Ainda saía fumaça do pedaço retorcido de metal que estava aos seus pés com a inscrição “CCCP - Combate Categórico aos Chumaços e Pelos”. A mancha. A mancha novamente encobriu toda a paisagem e ela sentiu como se estivesse deitada e sua cama voasse.  

Natasha acordou com um leve gosto de chutney na boca e não acreditou no que viu.  

sábado, 13 de agosto de 2016

Soluções práticas - parte 13

Enquanto comiam chutney e sambar com um já quase frio chá de hortelã, Rajan e sua família, sentados num canto da sala, não perceberam o teto de madeira se tornando mais claro e a temperatura do ambiente aumentado. Como era de costume aquela hora na Índia, o calor começava a avançar a casa dos 29°. Jaya, a filha mais nova, tentava chamar a atenção dos pais para o teto que se tornava azulado. Foi em vão.

O pai ainda trôpego de sono e a mãe atarefada em alimentar todas as crianças, não deram a mínima atenção a Jaya até o momento em que se encontraram totalmente no escuro.
A escuridão foi precedida por um rápido raio azul esverdeado no teto e no minuto seguinte, ninguém podia ver quase nada. O som foi seco e veloz. Todos deram um salto e trombaram uns nos outros, esbarrando na comida e em tudo o que encontravam a frente.

Rajan passou do momento de cegueira, no meio da escuridão, ao momento que percebeu uma leve chuva negra e não molhada, cair lentamente do teto de sua humilde casa.
A mulher tocava o chão com enorme curiosidade e espanto enquanto aquela fuligem negra se depositava no assoalho da cozinha.

Todos petrificados com o ocorrido só movimentaram-se quando a mulher, com os olhos estalados, gritou:

- É cabelo!!!

O mesmo ocorria na sala do Primeiro Ministro da Inglaterra, na cozinha de Dona Tânia em uma pequena vila nos arredores de Medelín, no banheiro de Marilyn, numa luxuosa casa de Cape Town, na varanda de Valery, numa pequena e confortável casa no interior da Suíça e em diversas partes do mundo.

Todos os assolados pelo raio azul esverdeado e consequentemente pela chuva de cabelos, em todas as partes do mundo, não faziam ideia de que em uma cidade fria e pequena da Rússia, Aleksis e Natasha eram os responsáveis pelos estranhos eventos.

O que os dois não imaginavam, ao juntar mágica com tecnologia e física, era que estavam sendo espionados pelo Komitet Gosudarstvennoi Bezopasnosti, também conhecidos por KGB, e que eles tinham um plano muito maior para o uso da Vortexsoura.


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Soluções práticas - Parte 11

Aleksis parecia uma pantera negra. Seus olhos eram de um amarelo ocre penetrante que pareciam ter o poder de desvendar os pensamentos mais submersos. Seus companheiros evitavam olhá-lo diretamente, afinal, nem tudo deve ser compartilhado. Era um dos homens mais condecorados de Olegiev. Respeitado e temido, nunca hesitava. Exceto naquele dia.

Sem ser descoberto, Aleksis praticava truques de mágica toda noite. Era um sonho que alimentava desde a infância: ser mágico. Entretanto, as adversidades da vida, a tradição familiar e o fato de ser filho único o fizeram integrar a Patrulha Inter-Lumis, assim como sua mãe, sua avó e sua tataravó. Sim, a sua linhagem na Inter-Lumis foi, até 2005 da dimensão 7, portaria 14, feita de mulheres. Voltemos aos fatos que antecederam àquele momento.

Aleksis praticava truques de mágica em um depósito de armas obsoletas. Ali era um local que jamais seria procurado. Seus colegas de trabalho eram high-tec demais para se debruçarem sobre o pretérito. Cada noite se entregava a um truque diferente: cartas, panos coloridos, coelho na cartola, pomba no paletó. Naquela noite tentou, pela primeira vez, um truque de adivinhação através de uma bola de acrílico que se passava por uma bola de cristal. Ideia ridícula, uma vez que não havia mais ninguém ali e, portanto, nada a ser adivinhado. Como pouco lhe importava a racionalidade das coisas quando estava em seu universo particular, inventou que uma bela moça da plateia do Teatro Odeon havia se oferecido para participar daquele número.

Não possuía muito contato com mulheres, a não ser as de sua família. Ao passar pelos corredores da Sede semanas antes, escutou Olegiev fazer referência a uma “Natasha”. Havia aprendido na escola russa que Natasha era um diminutivo de Natalya e significava “dia do nascimento de Cristo”. Lembrou-se disso rapidamente na ânsia de atribuir logo um nome à moça imaginária.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Soluções práticas - Parte 10

Olegiev esfregou os olhos por alguns instantes, olhou ao redor certificando-se de que os outros estavam vendo o mesmo que ele. 
Todos com cara de espanto o deixou ainda mais apreensivo, não era bem o imprevisto que imaginavam.

Chamem mais homens! Gritou.

Aleksis ainda na porta olhando Natasha desfalecida, na maca transparente que a colocaram reparou que o corpo parecia diferente, parecia uma capa de borracha sem vida.

Pensou:
Onde diabos vim me meter, não posso parecer ter medo disso tudo, já vi tantas coisas por aqui, mas nunca nada assim.
Isso é loucura! 
Sair correndo não é uma opção, não iria muito longe.
Concentre-se, concentre-se!
Estava difícil pensar em algo coerente, em questão de segundo várias imagens passaram em seus pensamentos: cabeça de animal, pelos crescendo, armas reluzentes, computadores, táxi amarelo, sangue preto, revólver, mesa de madeira, portal, chave de casa...


ALEKSIS! Um grito acordou dos instantes em que se ausentou de si mesmo.

Mecha-se homem! Não temos muito tempo até terminar a fusão.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Soluções práticas - parte 9

Ao notar o espanto no rosto de Egor, Natasha tocou o líquido quente que saía de seus ouvidos com mais atenção e sentiu uma certa viscosidade na textura. Sangue! Pensou de sobressalto, ao mesmo tempo que olhava para suas mãos molhadas com o líquido que, para seu temor, não era vermelho e sim negro como uma noite sem luar. 
Natasha arregalou os olhos sem entender o que estava acontecendo, o líquido continuava escorrendo e se empoçando. Todos na pequena sala ficaram enauseados ao sentir o odor que o líquido emanava, então o comandante Olegiev segurou Natasha firmemente pelos braços e a levou para fora. Não deu tempo de percorrer todo o corredor espelhado e reluzente, Natasha caiu desmaida. 
Gastrov, preciso de você, traga ajuda, disse Oliegov em seu verberal, aparelho muito pequeno utilizado para comunicação interdimensional.
Segundos mais tarde surge Gastrov com outro homem igualmente forte, mas utilizando um uniforme diferente, de qualidade inferior. Ele segurou Natasha desfalecida em seu colo e seguiu Oligiev por todo corredor, até chegarem em um laboratório de alta tecnologia. 
O ajudante que acompanhava Gastrov ficou parado na porta da sala pequena.
O líquido viscoso e preto finalmente parou de escorrer, mas seu volume era considerável. As poças e gotas deixadas para trás começaram a se mover, na mesma direção, como se atraídas umas pelas outras, até se unirem em uma forma impressionante!  




segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Soluções Práticas - Parte 8

  Poucos minutos depois (ou talvez longas horas), e Olegiev voltou a pequena sala agora acompanhado de diversas bugigangas, produtos, substâncias, anotações e outros mais.Tropeçava e tentava organizar tudo como tinha em mente, com certa pressa.

 Ele mal começou a falar, mas Natasha não conseguia prestar atenção, seu ouvido coçava violentamente. Ela coçou e inclinou a cabeça para o lado, e sentiu um alívio: a água gelada do balde escorria agora quente de seu ouvido.
Em seguida viu Egor pálido olhando para ela. Não era água o que dela escorria.

 -Imprevisto! - murmurou Olegiev, chutando um dos trambolhos que havia trazido.

domingo, 7 de agosto de 2016

Soluções Práticas - Parte 7

Natasha enfim saiu da casa. Por fim, uma súbita escuridão.

Quando deu por si, atrapalhada com uma luz forte vinda de um lanterna clínica, começara a sentir a dor da pancada. Um balde de água gelada a fez esquecer da dor e voltar à vida como num instante.

- Egor? – espantou-se esfregando os olhos.

O comandante Olegiev logo interceptou:

- Eu nem acredito que tenho essa equipe fabulosa dentro deste metro quadrado! Estou extasiado em começar trabalhar com vocês! Quero dizer... De vocês trabalharem para mim!

Após uma gargalhada de quem parece ter dominado o mundo, Olegiev gritou - VORTEXSOURA!!! – e saiu da sala deixando um rastro de intriga, medo e dúvidas.

Natasha e Egor lamentaram seus fins, um por ser phD e achar ter sido fadado ao fracasso, a outra por ter sua busca interceptada por alguém que parece saber bem mais do que ela: a Vortexsoura.

sábado, 6 de agosto de 2016

Soluções Práticas - Parte 6

Os monitores chiavam estrondosamente a falta do sinal perdido. A parede coberta deles com fragmentos daquela história, agora só tinha uma letra pichada, o "A" simbolo da resistência anarquista.

No chão os corpos das pessoas que Natasha estava acostumada a ver nas telas, todos com a cabeça escalpelada. 
O sangue formava poças e também criava letras na outra parede, uma mensagem em código ou seria outra língua. 

Pensou em voltar pelo portal, mas lhe pareceu pior conviver com o sangue do avô.  

Sentou sobre um dos cadáveres e começou a reler o diário. Podia recita-lo de tantas vezes que já tinha visto aquelas palavras. 

O cheiro de morte ajudava a afastar o sono. 

Desistiu de reler o diário, palavras que se tornaram sua família. E começou a organizar os papéis que enfiara as pressas nos bolsos, na casa do avô. A maioria tinha o garrancho torto que conhecia bem, outros de pessoas distintas.

"Não volte! Você já tem cabeças demais na sua coleção."



sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Soluções Práticas - Parte 5


                Acordou e o relógio, velho e de madeira rústica, apontava que eram 2 horas da manhã. Era difícil admitir, mas ao brilho do luar que entrava pela grande janela atrás da mesa de seu avô, aquelas cabeças eram belas e bem vivas.

Aqui cabe apresentar-lhe agora o nome da moça, nestes dias ainda com 30 anos:

Natasha.

Sabia ela que um enorme quebra-cabeça familiar estendia-se a sua frente e somente ela poderia resolver, ainda mais agora com a morte de seu único parente que poderia lhe dizer mais sobre o começo de toda a história.

                Até então, o único fato que era certo, era o velho diário de seu pai que explicava com exatidão o motivo simples pelo qual tudo havia de ter começado. Dizia seu pai no diário, sobre a agonia que sofria ao cortar o cabelo e como isso definira sua profissão.

                Quando ainda lhe vinham os fatos do dia à mente um após o outro, trazendo consigo uma leve dor de cabeça, uma luz que não era a da lua encheu aquela sala. Vários veículos se aproximavam em alta velocidade pela estrada de terra.

                “Tsc... Todo dia!”


                Sabia que eram os Russos que vinham lhe cobrar respostas que ela mesma ainda tinha dúvida se lhes entregaria... De súbito, todas as memórias terminaram de chegar à consciência e ela não pensou duas vezes.

                Pegou todos os papeis que pode e os meteu nos bolsos enquanto corria para a velha lareira e rapidamente puxou o dente de uma das cabeças de urso mais próxima. Logo uma passagem se abriu e uma luz lhe encheu os olhos.

                A passagem se fechou atrás de suas costas e a saleta voltou ao ar de abandono que sempre tivera. Do outro lado, porém, algo ainda mais espantoso a esperava...

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Soluções práticas - Parte 4

_O que a traz aqui? Depois de tanto anos pensei que já havia se esquecido de mim. Te ensinei a pescar, a caçar, a atirar... De repente você ganhou asas e saiu pelo mundo.
_Vô, sinceramente, devo ir direto ao ponto, não temos tempo a perder. Preciso de algumas informações, preciso da sua ajuda.  
_Ora, que tipo de informação teria um velho como eu que interessaria alguém que parece ter tudo ao seu alcance? Vocês, modernos, cheios da razão e donos da verdade...

Na sua juventude rebelde já teria se irritado com o velho avô, e desistido da conversa. Mas, agora ela simplesmente bebeu mais um gole de vodka e ficou lendo desinteressadamente o que estava escrito - aparentemente com uma faca - naquela mesa:"Onde há cabeça, se encontra um chapéu".
O lenhador prosseguiu: _Bem, como você já sabe, em outras épocas aqui nessa região era só dor, sofrimento e humilhação. Mas, são outros tempos. As pessoas vem para cá a procura de salvação, apoio e paz, o que a traz de fato até aqui?

Por duas vezes ensaiou dizer, apesar da voz não sair. Parecia haver um bloqueio, tomou outra dose, e confessou: _Sei que posso confiar em você, apesar de tudo que aconteceu, eu fui enviada para encontrar uma chave escondida aqui desde essas tais "outras épocas". Porém, não sei nem por onde começar. O Avô, que apesar da idade tinha um corpo forte, resistente ao tempo de um bom e velho lenhador, que serviu ao exército soviético se espantou ao ouvir falar da chave, antes mesmo da moça terminar a frase ele se levantou, olhou-a firmemente no fundo dos olhons e acenou dando a entender que ela deveria segui-lo.

***

Não precisaram andar muito lá fora até ela perceber que estava ao redor do antigo Mosteiro Solovetsky, situado nas Ilhas Solovetsky, também conhecidas por Solovki, localizadas no Mar Branco, 161 quilômetros abaixo do círculo polar ártico. Aquele silêncio, aquelas pessoas, tudo parecia tão diferente, mas o silêncio é que a intrigava mais. "Como pode algum lugar no mundo ser tão silencioso e frio?" perguntava a si mesmo em pensamento. Diziam os anciões que há muito anos atrás, naquela ilha, havia um grande labirinto que levava aos portões do céu ou do inferno. Agora, do lado de fora dos muros do mosteiros as vacas e cabras pastavam livremente em uma vila contendo pouco mais de mil habitantes, boa parte já na melhor idade. Do outro lado dos muros, no mosteiro, mais uma centena de monges tentando manter o lugar preservado.

Após caminhar por quase 2 horas, dentro e depois fora do mosteiro, o lenhador parou em frente à uma antiga Igreja e disse: _Muitos morreram nesse lugar, hoje morre um segredo. Eu sei que vai ser difícil para você, só que preciso contar. Sua avó me fez prometer que eu guardaria esse segredo até o dia da minha morte, mas você é a última do sangue dela e merece saber a verdade. Seus pais morreram assassinados e imagino que a pessoa que fez isso com eles também deverá tentar te assassinar. Tome muito cuidado filha, muito cuidado. Eu te treinei para isso, e um dia você precisará usar tudo que lhe ensinei. Nesse momento o silêncio que predominava em toda ilha deu lugar a um breve choro, depois de anos, ela se ajoelhou aos prantos e subitamente foi tomada por um sentimento de ódio e vingança, misturado com saudade e dor. Seus pais sempre fizeram de tudo para protegê-la e bancar a casa, seu irmão, ninguém sabe se está vivo, ou morto, somente que sumiu. De repente ouviu um barulho bem alto de tiro, em seguida mais outro e outro. Imediatamente levantou, sacou o revólver, olhou para os lados e não viu ninguém. Só deu tempo de segurar o velho lenhador nos braços, sentiu o sangue escorrer, tentou estancar com as mãos, mas não parava de jorrar sangue e mais sangue. Ele era muito grande, muito pesado, ela gritou: _Socorro, socorro! A moça continuou gritando em vão: _Me ajudem, me ajudem! Infelizmente estava muito longe para pedir ajuda a alguém. Sentiu na pele a dor dos que estiveram por ali, em outras épocas, pedindo por socorro sem ninguém ouvir, clamando por um herói que nunca apareceria, um Deus dito onipotente, onipresente, porém indiferente.

Conformado, proferiu o lenhador: _Eu já sabia, 94 anos, uma hora tinha que partir mesmo. Velhos como eu já não sentem dor, e nem medo da morte. Após isso se deitou, segurando as mãos da moça em meio às lagrimas e risadas fracas, lembrando vagamente de momentos felizes em sua longa e interessante vida. _Dizem que aqui é o melhor lugar para encontrar a solidão, tão importante para a alma. Talvez por isso tenha vindo, experimente meditar, quem sabe encontre o que procura. Se eu aprendi algo nessa vida é que a história não pode ser mudada, pois é passado, mas pode ser analisada. Reconhecer os erros e fazer diferente, é assim que crescemos, é assim que nos tornamos humanos. Sem isso, somos nada mais do que animais, disputando bens, territórios e satisfazendo desejos pessoais. O velho lenhador respirou fundo, olhou para a neta que o abraçou fortemente como uma última tentativa de mantê-lo vivo, e lentamente fechou os olhos, era hora de partir.

***

Após todo o trauma, restaram os encargos de tratar da documentação e destino dos pertences e bens do falecido avô. O vilarejo estava assustado com o assassinato e o frio estava chegando com mais força, o que só apertava ainda mais o desejo de ir embora daquele lugar. Sobre a mesa havia apenas alguns documentos, um velho chapéu que o moribundo usou durante a vida inteira, e uma garrafa da melhor bebida da região. Naquela tarde que parecia não ter fim, após participar de uma cerimônia no mosteiro, foi dar umas voltas pela ilha e depois voltou à casa que antes pertencia ao velho, sentou-se na mesma mesa que estivera há dois dias atrás, abriu a boa e velha garrafa de vodka - agora já no final - olhou as cabeças de animais na parede, e depois se pegou lendo novamente a intrigante frase, quase apagada pelo tempo e escrita à faca: "Onde há cabeça, se encontra um chapéu". 

Em outras épocas pode até não ter feito sentido, mas agora tudo se encaixava, a mensagem, as cabeças, o chapéu, a chave... só não esperava enterrar alguém para conseguir desvendar esse mistério. Contudo, ficou com mais dúvidas do que certezas. Seria seguro voltar e entregar a chave agora? Quem mataria um velho lenhador a troco de nada? E, por quê não a matou também? Pensou a moça, já exausta, que bebeu a última dose antes de cair profundamente nos braços de Morfeu.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Soluções Práticas - Parte 3

            Abriu os olhos. Ainda deitada, a luz daquela pequena sala era tão forte que a cegava. Apertava os olhos e pensava em se levantar do chão gelado. Sem portas, sem janelas, apenas com seus pensamentos naquele cubículo branco 2x2.  

            Sentou-se no chão. Tirou o maço de cigarros do bolso. Olhava fixamente para um ponto no teto enquanto abria o maço e levava o cigarro de filtro amarelo para a boca. Calmamente, ela ascendeu o cigarro e deu um sorriso daqueles de canto de boca, do tipo que carrega uma ironia de um segredo.

            Entre uma tragada e outra, tirou uma pequena caderneta do bolso. Seu sorriso ficava mais nítido. Manteve o olhar fixo, naquele mesmo ponto do teto, e segurou o cigarro com os lábios. Suas mãos deslizavam pelo chão branco, levando a caderneta para o meio da sala. Assim que parou, colocou o indicador firmemente posicionado na capa de couro marrom.  

 Na capa, as marcas do tempo. Em cada ruga, um segredo. O que teria naquelas páginas com as pontas dobradas? Quais segredos estão eternizados pela tinta no papel?

Ela deu mais um trago em seu cigarro. Levantou-se ainda olhando para o mesmo ponto no teto. Ouviu movimentação. Quanto mais forte ficava o som dos passos, mais a ironia se fazia presente em seu sorriso. Ela ergueu a caderneta para o ponto que tanto olhava e, de relance, dava para ver gravado no couro surrado: J. – Vortexsoura. O silêncio se fez presente. Ela guardou a caderneta no bolso e foi em direção a uma das paredes que, de repente, se desmaterializou.

Deu um passo à frente. Jogou o cigarro no chão, pisou na bituca e seguiu pela esquerda pelo corredor estreito. Sua caminhada terminou quando chegou a uma sala grande. De um lado, uma parede com monitores enormes que mostravam diversos fragmentos de uma história que ela conhecia tão bem. Do outro lado, dois totens feitos de um material muito reluzente.

Ela caminhou até esses totens. Esticou sua mão. Fechou os olhos e, quando os abriu, estava em outro local. Sentou-se e aguardou. Enquanto olhava as cabeças de caça expostas como item de decoração, um homem entrou na sala. Ele se sentou no outro lado da mesa. Abriu a gaveta de onde tirou dois copos e uma vodka. Encheu os copos e disse “você aqui, de novo?”.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Soluções Práticas - Parte 2

Egor Alieksieiv levantou antes do sol, como fazia todos os dias, já cansado ao antecipar o que estava por vir. Vestiu-se em silêncio, beijando a testa da mulher ao sair, com cuidado para não despertá-la. Ao passar pela sala, viu a mãe já acordada, sentada no canto, olhando para o vazio como vinha fazendo há dias. Maneirismos de velho, pensava ele. Tomou o café requentado em um gole, sem sentir o gosto, e engoliu o pão velho rapidamente enquanto a mente viajava para longe da mesa.

Há semanas escutava boatos sobre demissões na fábrica. A mulher já havia perdido o emprego dois meses atrás e estremecia sua espinha a ideia de perder o ganha-pão. O filho já ajudava na renda, trabalhando no açougue, mas nem de perto era o suficiente para botar comida na boca de quatro pessoas. Recolheu o chapéu e foi-se para enfrentar a vida.

O dia passou como um borrão. Não que o trabalho exigisse muito de sua capacidade, mas não conseguiu concentrar-se em nada durante o expediente. Antes que pudesse olhar para a janela e ver a tarde terminando, o alarme tocou anunciando o fim da jornada.

Chegou em casa a tempo de ver o ritual diário da mãe, levantando-se da cadeira com a vassoura e pá na mão, resmungando novamente: “Tsc. Todo santo dia”. A velha Evgeniya tinha visto muito na vida. Ainda pequena, perdera o pai para a guerra e o marido, ativista político, havia sido levado pelo regime. Era dessas que dava de ombros para as agruras do mundo e seguia achando que a vida era assim mesmo, fazer o quê?

Ao ver a mãe dedicando-se a esse rito há mais de semana, Egor começava a preocupar-se pela anciã. “Mais essa pra conta”, pensava ele, já contabilizando a demência da pobre senhora na lista de seus problemas a resolver.
....

Levantou antes do sol, como fazia todos os dias. Não se preocupou com o beijo na mulher, nem no café velho ou no pão seco. Partiu como que anestesiado em direção ao emprego. O trabalho não rendeu novamente. Bateu o ponto de entrada e de saída como se nem ali tivesse estado. Ao chegar em casa, dona Evgeniya já havia limpado a pá velha na lixeira: “ Tsc. Todo santo dia”.
....

O sol finalmente ficou de pé antes dele. Não tinha forças para sair da cama. A notificação tinha vindo no dia anterior. Já não era mais necessário na fábrica. A mulher lhe serviu o café e o pão, com um olhar que era misto de compaixão e desespero pela situação do companheiro. Egor sentou na sala, observando a mãe que encarava fixamente a parede. “Pobre mulher. Pobre de nós”, murmurou para si.

Na hora do almoço, o filho chegou com uns bifes velhos que o dono do açougue havia separado para o funcionário. Egor olhou com orgulho para o belo rapaz que havia criado e sorriu. Comeram e o jovem voltou para a labuta. A tarde passava sem que o homem soubesse o que fazer com o tempo. Observava a mãe, enquanto sua esposa fazia as tarefas da casa.

Ouviu de longe o alarme da fábrica e o burburinho dos trabalhadores. “Aproveitem, amigos, enquanto podem”, pensou. O filho chegou em casa, cabisbaixo por não ter conseguido comprar o pão para a noite. “Tudo bem, moleque. Para tudo dá-se jeito”. A família reuniu-se na sala na hora exata em que Evgeniya agitava-se em seu assento. O filho correu para acudi-la e foi nesse instante que viu algo que seus olhos não puderam compreender.

No canto da sala, um filete de luz pequeno começava a se manifestar no ar, como mágica. Um leve tremor era sentido no cômodo, enquanto o feixe crescia em tamanho e intensidade. Um estrondo forte fez-se ouvir no local da manifestação e, assim como surgiu, a luz desapareceu, deixando em seu lugar um chumaço espesso de cabelos emaranhados.

Antes de poder absorver o que havia presenciado, Egor viu a porta da casa sendo arrombada por homens em estranhas roupas de proteção, carregando armas. Os soldados renderam a família, colocando todos em fileira, ajoelhados no chão. Uma figura imponente, também em roupa isolante, entrou na sala.
“O local do portal está seguro, comandante Olegiev. O que fazer com estes quatro?”, perguntou um dos homens. “Sem testemunhas”, disse a voz cortante.

A velha Evgeniya teve tempo de olhar para o chumaço uma última vez e resmungar para si: “ Tsc. Todo santo dia”.