segunda-feira, 27 de março de 2017

Vendedor de chocolate

Estava em pé, olhando pela janela e pensando no futuro. Não sei se ter consciência de que o problema não é exclusivamente meu torna as coisas mais suportáveis... Tá todo mundo na merda. Todo mundo não, 1% da população mundial passa muito bem, obrigada. Para todo o restante, a constante ameaça contra sua dignidade.

Várias vozes ocupavam o ar pesado de angústia e fumaça do trem. Confusão. Eu quase não podia compreender o que falavam. Contudo, uma voz masculina se destacou das demais: ela era particularmente bonita e agradável. A voz anunciava chocolate a dois reais em meio a piadas originais que roubavam o riso tímido dos passageiros.  Por um instante abandonei a paisagem cinza da janela para voltar o olhar pra dentro do vagão. Descobri o dono da voz bonita, era um jovem descolado, com brinco alargador, tatuagem, boné. Saciada minha curiosidade, retornei à introspecção, mas por pouco tempo, já que o moço insistia em roubar minha atenção: seus slogans brincalhões se converteram em crítica à mensagem sonora da CPTM que dizia ser ilegal o comércio ambulante.  “Trabalhar é errado? Vocês acham que estou cometendo crime”? Os passageiros concordavam silenciosamente com ele.

Enquanto defendia a dignidade do próprio trabalho e de seus colegas, o vendedor de chocolate, muito bem articulado, fez uma contraposição entre sua honestidade e a dos políticos corruptos. “Querem ver roubalheira? Basta ligar a televisão e ver o que se passa em Brasília”. Ao que mais e mais passageiros concordavam com o vendedor, agora não mais silenciosamente, eles resmungavam baixinho.

A voz bonita ganhou um tom entusiasmado de discurso político. Como num suave de mix de balada, quando as musicas acabam e começam sem a gente perceber, o moço mudou o foco de sua crítica política para as igrejas evangélicas. “As igrejas estão se perdendo na ganância, hoje em dia ninguém mais ama o próximo”, ele dizia cada vez mais alto, enquanto citava versículos bíblicos. Eu podia ouvir “sim, sim!” igualmente entusiasmado dos passageiros. Foi então que no auge o moço perguntou: “Eu posso ouvir um amém”? E todo mundo ao meu redor respondeu “amém!”.

Aquilo tudo me causou uma espécie de vertigem, parecia que acordara de um sonho lúcido. A voz do locutor da CPTM anunciou a chegada à estação final, “o trem não presta mais serviços, favor desembarcar”. Um passageiro que estava sentado no chão se levantou e empurrou violentamente o vendedor de chocolates. Todo mundo ao redor ficou atento e esperando intimamente que os dois partissem para um combate físico, mas quando o trem abriu as portas, cada um simplesmente caminhou em direções opostas pela plataforma.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Porque hoje é domingo



8:06

Mulher de finos cabelos brancos e olhos recém chorados olha pela janela e suspira. Manhã chuvosa de um domingo a se fazer sugere desesperanças. Guarda-chuvas pretos passeiam pela calçada cinza lá embaixo. Sino da igreja badala insistente. É domingo e ela não crê. Guto já não vem mais. Não verá Clara de novo. Domingo que vem quem sabe. A senhora precisa depender menos dos filhos, mãe, ser mais independente. Uma amiga, talvez. É isso, você precisa de uma amiga!

9:57

Chuva aperta. Gotas respingam no rosto enrugado da mulher que chora. Ainda não trocou de roupas e tampouco tomou café. É domingo e está só. Tanto faz se está de pijamas se não há ninguém para vê-la. Faz três meses que não vê Guto. Clara deve estar enorme. Automóvel dos vizinhos desce a rua respingando água nos que aguardam o ônibus das dez. Palavras praguejadas se perdem no redemoinho de um vento frio.  Mulher que chora não sabe o que fazer deste domingo. Nunca sabe. Não sabe se quer saber. Mamãe, eu vou te amar pra sempre!

11:42

Já não chove. Cheiro do almoço dos vizinhos entram pela janela, mas a mulher não tem fome. Guto e Clara lhe sorriem do porta-retratos na estante. Poças de água na calçada divertem a menina de galochas amarelas. Parece com Clara. Já são muitos os que passam lá fora. A mulher de finos cabelos brancos não gosta de sair sozinha aos domingos. Domingo não é dia para se sair só. Um marido, mãe. A senhora precisava era se casar de novo.

13:01

Vento gelado desordena os finos cabelos brancos da mulher na janela. Faz frio e a mulher parece não perceber. Olha, absorta, para a frente. Crianças correm atrás de uma bola na rua. Ventania faz bater a porta do quarto de Guto. Quarto vazio. As cortinas balançam e a mulher lembra. Lembra de cada canto daquele quarto de criança. Mamãe, quando eu estiver com muito medo, posso te abraçar bem forte?

15:17

Família do sobrado em frente comemora um batizado. Casa cheia. Fumaça tremeluzente. Cheiro de carne. Churrasco. É domingo e fazem churrasco. A fome já incomoda, mas ela não comerá. Não gosta de cozinhar só para si. Sobretudo aos domingos. Tímido raio de sol ilumina a poeira que senta na cadeira vazia da sala de jantar. São seis. Seis cadeiras destreinadas pela falta de uso. Essa casa ficou muito grande para a senhora, mãe! A senhora precisa vender esse sobrado e ir morar num canto menor!

17:33

Tela verde da tevê do bar da esquina. É domingo e assistem futebol. A chuva voltou, a fome também. A vontade de se ver livre deste domingo torna-se insuportável. Amanhã será segunda. Amanhã não se comemora nada, não se almoça em família, amanhã pode-se sair sozinha, pode-se estar sozinha, que ninguém repara. Amanhã é cada um por si. Aos domingos não. Domingos são para poucos. E hoje é domingo, mas não devia. A gente é fraco, cai no buraco. O buraco é fundo, acabou-se o mundo...

20:21

Há tempos que anoiteceu. Música do programa de variedades anuncia que o domingo se vai. A mulher de finos cabelos brancos e olhos recém chorados, fecha a janela e suspira.  Por hoje, só lhe resta pegar o telefone e ligar para Guto. Sim, meu filho, é claro que me diverti. Sim, estou bem. É claro que tomei os remédios... viu, filho... quando der, assim, eu sei que você é muito ocupado...  mas quando sobrar assim um tempo... venha com a Clara me ver, é que me dá uma saud... ah, sim... está bem, vai lá, filho, amanhã a gente se fala com mais calma... boa noite, querido, fique bem.

20: 47

Porque hoje é domingo, a mulher se deita mais cedo. Se retira para que o domingo termine de se fazer sozinho. Amanhã a semana começa e ela precisa pensar. Pensar no que vai fazer no próximo domingo. Vou dormir segurando a sua mão, mamãe, pra você nunca se desgrudar de mim.

terça-feira, 21 de março de 2017

DE OLHARES QUE ENCANTAM

Adoro quando seus lindos olhos negros me fitam. A sensação de ser olhado por você é encantadora. O jeito que você fala, o som da sua voz, faz o dia parecer mais bonito. Faz valer a pena. Não acredito que você pense o mesmo, mas pra mim não faz diferença. Sou transportado para uma outra dimensão, a qual pensei, muitos anos atrás, nem existir mais. Sei que isso não será eterno. Por mim até seria, mas sei que pra você, é temporário. Até o momento em que outro olhar cruzar o seu, e o meu não fizer mais diferença. Enquanto isso, aproveito. Aproveito para ouvir suas histórias, me alegrar com elas, sentir ciúmes, tristezas, raiva, euforia, desdém. Você desperta em mim aquele que amo ser e também aquele que detesto. Mas vale a pena, porque, como disse um dia um grande sábio, "viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe". Você me faz viver quando olha pra mim. Quando sorri pra mim. Quando mexe no cabelo daquele jeito provocador e inocente, mas que me leva às alturas. Incrível como alguém é capaz de tanta coisa em tão curto espaço de tempo. Tempo. Preciso aproveitar. Porque nunca se sabe quanto tempo temos. Viver, e não ter a vergonha de ser feliz. Obrigado pelo olhar. Janela da alma que me faz tão bem. Sigo meu caminho, pensando no momento em que o meu olhar cruzará o seu novamente. Enquanto isso não acontece, sigo aqui, torcendo para que você tenha a sorte de ver somente coisas belas. Imaginando o seu olhar. Misterioso. Cativante. Amável. Louco. Puro. Menina mulher que encanta somente com os olhos. Pra uns, nada demais. Pra mim, o mundo.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Não há nada acontecendo


As panelas pararam de bater na zona oeste quando ainda havia um restinho de comida nas panelas da zona leste. O objetivo já havia sido alcançado, não tinha porque continuar.

“Vamos, tesouro! Não se junte a essa gentalha”, gritou a mãe, preocupada que a camisa da seleção fosse, de alguma forma, ficar vermelha. Argumentou que já havia simpatizado com o outro lado, mas só até o momento em que se associaram com a banda podre.

Faz sentido. Só não entendi qual a vantagem de deixar, então, só a banda podre. Mas sementes gostam de coisas podres. Esta foi plantada, cresceu e já começa a dar frutos. Parece ser a hora de colocar as coisas nos locais historicamente a elas relegados.

Ouvi dizer que vão reformar o ensino. Alguém tem dúvida de que o ensino está ruim? É óbvio que precisa de reforma. E agora o jovem já vai sair da escola com uma profissão de nível técnico. Para que pensar em fazer faculdade? É caro, demora, é difícil, então que se contentem com um nível técnico mesmo.

E a aposentadoria? A população é composta por uma ampla quantidade de vagabundos que relutam em trabalhar até o fim da vida, ganhando salário baixo e tolerando empregador abusivo, mas não tem outro jeito. A taxa de inadimplência de impostos das empresas brasileiras é uma das mais altas do mundo, a única saída qual é? Dificultar a aposentadoria do trabalhador, claro!

Aliás, esse é outro tema importante. A legislação que protege o trabalhador é de 1940. Não é evidente que precisa ser revista e modernizada? A lei que proíbe o aborto também é dessa época, mas nessa a gente não mexe. O importante são as leis trabalhistas. Hoje o empregador é obrigado por lei a pagar um salário mínimo, se ele quiser pagar mais, tudo bem. É evidente que retirando a obrigatoriedade do valor mínimo, os salários irão aumentar, não?

E isso resolve o desemprego? Claro que não! Mas notar-se-á uma tacada de mestre nesse ponto: as mulheres não vivem reclamando que ganham menos e cumprem jornada dupla? Pois basta retirá-las do mercado de trabalho! Olha que maravilha, elas não terão mais jornada dupla, serão belas-recatadas-e-do-lar, criarão as crianças e nos informarão os preços no supermercado.

Uma exceção fica por conta das empregadas domésticas. Não faz muito tempo começaram a estudar e a ganhar regalias como carteira assinada e horário regulamentado. Há quem tenha orgulho em dizer que esse tipo de coisa nunca tinha acontecido na história desse país. Mas é claro que não! O país tem raízes escravagistas e as mulheres negras ocupam lugar cativo nas neo-senzalas. O ministro do trabalho até impediu a divulgação de uma lista com empresas acusadas de trabalho escravo, tudo em nome dessa tradição nacional que vem desde os tempos de Cabral – o Pedro, não o Sérgio.

A corrupção não acabou, mas seria injusto dizer que nada mudou. Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel. É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional. Com o Supremo, com tudo. Se há um caminho mais fácil, por que ir pelo mais difícil?

sábado, 18 de março de 2017

Sujeito

Das frases que eu não gostaria que você tivesse dito, nunca quis ser o sujeito, mas sim o futuro simples de um pretérito imperfeito.

Das histórias que você tenha que contar, não quero ser o vilão e nem o príncipe, nem protagonista e nem coadjuvante, eu seria apenas e perfeitamente o marcador de páginas do livro da vida, ajudando a separar as páginas viradas das que ainda serão descobertas e aprendidas, mesmo que eu não seja mais útil quando chegar no final.

Não quero ser um motivo, a razão ou a irracionalidade pra algo, mas quero ser eu e estar com você até o final que for, feliz ou não.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Do processo criativo (ou Dia 15).


Por onde começar?
Não me lembro de nenhum causo legal hoje.
Nada na minha própria memória para transformar em ficção.
Também não imaginei histórias de vida e fantasias para ninguém que conheço.
Começo pelo personagem? Quem vai ser?
Começo pelo tema? Esse mês não tem tema.
E se fizer daquele causo... mas transformá-lo em algo que se passa... em 1969?
Vou pesquisar um pouco.
Quem sabe se eu não começar, eu embalo?
Dois parágrafos, já tá bom.
Hmm... não... acho que um jovem em 1969 não iria pedir permissão para pegar o carro do pai. É melhor roubar.
Nossa, meus últimos contos foram todos de protagonista masculino, e sou mulher, por que será?
Melhor escrever algo sobre alguma mulher.
Ou sobre mim. Mas o quê? Não estou muito afim de escrever aqueles textos sentimentais de como vejo a vida.
Tenho curtido minhas ficções verdadeiras, cheias de memória e afeto.
Mas não vem nada hoje mesmo, hein?
Daqui a pouco tenho que ir trabalhar e vou ficar mais um mês sem escrever nada, ou fazer post retroativo.
Por que não começo a pensar nisso antes?
Eu pensei, mas nenhum causo inspirador esse mês.
Quem sabe para um outro dia...
É, mês que vem eu começo antes. 

domingo, 12 de março de 2017

Tem gente que é nuvem

Conversando com uma amiga ela confessou estar preocupada. Namorou durante quatro anos, mas há dois o namoro acabou. Perguntei o que tanto a atormentava e ela disse:

-Acho que tem alguma coisa errada comigo. Eu não sinto nada quando penso nele, nem saudades. Poxa, ele foi um ótimo namorado, eu o amava, como é possível não sentir nada, nem saudades?

Não soube o que dizer porque já passei por isso e não encontrei explicação. Até porque não aconteceu com todos os Romeus, existem alguns que ainda mexem com meus sentimentos e me deixam suspirando, mas outros são uma nuvem distante que não significa nada.

Tenho a impressão que essa confusão acontece porque muitas pessoas confundem ''amar'' com ''achar que está amando''. Talvez quando o amor é real fique alguma sensação boa, mas se foi fogo de palha some na memória. Às vezes que isso vinha no meu pensamento lembrava daquela música do Cazuza que dizia ''o nosso amor a gente inventa''. É, inventamos mesmo, tanto que chega uma hora que não sabemos mais se foi real ou não.

O ano passado aconteceu a mesma coisa comigo. Namorei durante quase três anos, depois tudo acabou e uma amiga me convidou a uma festa de aniversário, mas teve o cuidado de me avisar que o meu antigo Romeu iria estar por lá. Fui, mas tive a sorte de sair antes dele chegar, não planejei fazer isso, é porque tinha outro compromisso. Mas fiquei pensando no assunto e depois conversando com um amigo cheguei a conclusão que talvez eu fosse mesmo uma pessoa fria, porque não sentia nada pelo meu ex-namorado, nem raiva, nem ódio, nem saudade, nem amor e se ele existia ou não neste planeta, não me interessava.

Fiquei tão atormentada com a situação que não parava de falar no assunto, como é possível amar alguém loucamente e anos depois a pessoa não significa nada? Ou pelo menos não sentimos nada.  E como é possível gostar de alguém e nunca mais esquecer isso? Tudo me parecia confuso, estranho, teve gente que me disse que eu ainda amava meu ex-namorado, estava apenas ignorando esse sentimento para não sofrer mais, mesmo assim as coisas não fechavam, saber dele não mexia comigo, nem me fazia sentir saudades.

Me enrolei tanto nessa questão que quanto mais eu pensava menos entendia. Até que cheguei a conclusão de que a vida é assim, nem todas as pessoas deixam marcas boas e merecem um espaço na nossa mente. Tem gente que juramos amar, mas o tempo varre da nossa alma e algumas pessoas que pensamos apenas ''gostar'' nunca esquecemos. Talvez somos menos espertos do que pensamos e nem os sentimentos básicos conseguimos decifrar. Talvez eu pensei ''amar'' e não era nada, foi apenas a visão do mar, que marcou minhas pegadas na areia e as do Romeu, mas na primeira onda tudo foi varrido.

Não me atormento mais com isso porque decidi que o máximo que posso fazer é viver os sentimentos, não decifrá-los. Não tenho mais pilha para fazer as coisas desse jeito. Se um dia eu amei e lembro disso com amor e saudades, que sorte e da minha alma, mas se não significa nada, paciência, vida que segue. Tenho certeza que tudo isso acontece dos dois lados, assim também deve existir no mundo alguns Romeus que nem se lembram de mim e se o fazem não sentem nada, e também tem os que lembram com carinho. A vida é feita dos dois lados e nenhum deve nos atormentar, e não temos como saber quem vai ficar na nossa lembrança no canto mais puro e quem não vai nem passar na porta. Já gostei de tanta gente que pensei que esqueceria e todos os dias me lembro deles. E já amei ou acho que amei, alguns que nem lembro mais. Nem todo mundo é sol que aparece todos os dias na nossa alma e aquece, tem gente que é nuvem, passa logo e não faz diferença.

Iara De Dupont

sexta-feira, 10 de março de 2017

Amarras




Amarras tanto em definições quanto propriamente ditas são bem difíceis de explicar, de soltar.
Passamos anos tentando nos livrar de várias coisas que acumulamos com o passar dos anos, parece uma conta infinita de coisas que nunca terminam e viram um emaranhado de amarras bem feitas às quais muitas vezes mal nos deixa respirar.
Às vezes elas estão tão presentes que se soltar delas gera um medo apavorante do depois, do que seremos sem elas.
Às vezes não as percebemos, vivemos vidas sem saber o que realmente somos ou podemos fazer e esse tipo de amarra é bem comum ela é gritante aos olhos alheios mas invisível ao que vive.
É muito difícil admitir amarras, pois ao admitir que elas existem vem o temido medo de se soltar.
Admitir as vezes significa deixar alguém para trás, deixar alguém caminhar a sua frente, pode significar términos terríveis ou começos apavorantes.
Podem ainda significar deixar de ser.
Mesmo assim com todos os contratempos há uma lenda que diz que se soltar é a melhor escolha.
Eu... Acredito.
Ainda não vejo muitas das minhas, outras já identifiquei e sigo tentando desfazer o emaranhado... As vezes consigo, outras crio novas. Às vezes pensam que elas me tornam eu,  ai lembro que eu tornei todas elas possíveis, reais.

Quando esqueço o que estou fazendo tento só não parar de respirar...

quarta-feira, 8 de março de 2017

Pra Quê?

   Ok , existe em contrato social que diz como a gente pode se portar em determinadas situações.
  Eu entendo, mas é realmente necessário segui-lo ao pé da letra sem pensar?

 Porque sempre que alguém pede informação pra gente na rua, somos tão absurdamente prestativos,chegando as nos sentir mal se não sabemos onde fica tal rua?

  E onde decidiram que no trânsito e na internet podemos ser os mais babacas possíveis.
Já parou pra pensar que a pessoa gentil da calçada pode ser a mesma no carro do lado?
Pra que isso? A pessoa que te ultrapassou, pode apenas estar aprendendo a dirigir, voltando de um velório, indo ao hospital ou tendo um dia ruim.

   Um dos poucos objetivos que tenho no meu dia é não estragar o dia de ninguém. 
Sabe quando alguém te responde atravessado e acaba com o seu dia, faz você se sentir um bosta? Não quero ser essa pessoa, não sei como alguém aceita ser essa pessoa.
  Ah, às vezes a pessoa merece! É verdade, pode ser, mas provavelmente você não está apto para avaliar isso.
  Consegue lembrar de situações antiquíssimas que ainda dão nó na garganta de lembrar? Tenho tantas...
  Sabe uma sensação deliciosa? Quando tem alguém que desses de mal com a vida, querendo discutir com você e você reverte a situação? A pessoa percebe que não vai conseguir te fisgar e muda completamente? É tão melhor do que entrar na dela.

  A menina tinha 16 anos e começou a trabalhar com telemarketing, primeiro emprego, e chegava todo dia chorando em casa, por que todo mundo, ou quase todo mundo, a tratava assim, sabe como? Como você atende uma ligação indesejada?
  Sabe aquele telefonema chato de telemarketing? seja educado com a menina, mande um beijo pro moço que te xingou na rua, escreva com paciência pro revoltado da internet. Para de drama, tente comédia, romance ou aventuras! Tem dias que dá.
  

terça-feira, 7 de março de 2017

[2012]

no poço
esse meu sem fim.


toda calma que me esbarra
é a paz que eu nunca tive.


em clave, meu sol nasceu
sozinho.


que descaminho construiu a mim
filho ininterrupto
de uma dor já renascida.


o parto, é quase o que vale
a sua ferida.


as palavras dançam por entre as línguas
e em que desvario me meti!


como que sem cansaço
o quase sono me persegue


(e o sonho
me deixa dormir).


sexta-feira, 3 de março de 2017

Carnavalizando

          Eu vou acordar com o som das baterias anunciando que logo o centro da cidade será dominado pela multidão fantasiada, dançando enlouquecidamente! Eu vou levantar sambando, recolhendo confetes e glitter do dia anterior! Eu vou abrir a minha casa para meus queridos se arrumarem e tomarem a saideira. Se não for pra sair toda montada, nem vejo graça!  


         
       Eu vou ser um arco-íris de glitter, brilhando nas cores mais sortidas! Eu vou me enrolar nas serpentinas jogadas! Eu vou dançar até ficar descabelada! Eu vou sambando de costas para o bloco! Eu vou conseguir pular meu carnaval mesmo apartada na multidão, no melhor do calor humano! Eu vou recolher os confetes que caíram no decote do meu vestido e vou jogá-los novamente pro alto! Eu vou rir com as 300 fotos que chegam no dia seguinte, mostrando o quanto eu me diverti! 


     Eu vou sair sambando em todas as poças deixadas pela chuva, pois chuva nenhuma atrapalha minha folia! Eu vou deixar o meu celular dormir no arroz, pois guardar ele na bolsa térmica não protege o suficiente! Eu vou tirar minha lente de contado no meio da multidão, não vou perder a música só pela lente estar cheia de glitter!
    

     Eu vou compartilhar a minha catuaba e meus abraços com todo mundo! Eu vou mandar mensagens sem me preocupar em ter ressaca moral! Eu vou deixar a minha euforia transbordar! Vou pular enlouquecidamente ao som de Caetano! Eu vou viver em looping, saindo de um bloco e tropeçando no outro! Eu vou perder a voz de tanto cantar! Eu vou de columbina veneziana, de Carmem Miranda da Tropicália, de Frida Amy Winehouse Kahlo e de dama de ouro! Eu vou ficar tão cansada de dançar que, na quarta-feira de cinzas, vou me sentir atropelada por um trio elétrico!   

A ressaca do fim do carnaval é a hipocrisia. É ver as pessoas tirando suas fantasias e colocando suas máscaras sociais. Como voltar a viver depois do carnaval? Definitivamente, eu não tô segurando essa barra que é gostar de você dig dig iê o fim do carnaval! Quem nasceu para poesia não se contenta com a vida em tons de cinza. Quem nasceu para poesia precisa do transbordar de cores e da cidade dominada pelo clima de “anarco felicidade”.

E na depressão pós-carnaval ainda bem que existe o cenário alternativo na capital paulista, aonde podemos ter um pouquinho desse encantamento toda semana. Aonde existem pessoas que também precisam do riso fácil com os amigos, da música alta, do dançar freneticamente, do glitter, do amor fraternal... É, nós seguimos carnavalizando a vida, não trocamos a fantasia pela máscara social, pois, para nós, a vida é um eterno carnaval.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Os Hermanos barbudos mentiram.


Dia 3: Eu nunca vi grande mérito nessa festa criada por bicheiros. Às vezes os amigos conseguem me convencer, mas dessa vez tô disposto a ficar em casa. A menos que o Juvenal apareça, com ele é sempre diversão garantida.

Dia 4: O Juve tá na área! Improvisei uma fantasia e bora pra festa!

Dia 8: A extensão do evento por mais uma semana foi uma excelente ideia. Não sei como as empresas aceitaram, mas quanto mais feriado, mais folia. Perdi as contas de quantas pessoas beijei e meus pés doem, mas vamo que vamo!

Dia 12: Desisti das ruas. Estou curtindo pela televisão e paro na varanda para cumprimentar os entusiasmados que passam. Fico desidratado só de olhar, mas admiro muito o pique desse pessoal. Quando acabar eles vão achar difícil voltar ao normal.

Dia 20: Começo a achar que é uma pegadinha. Várias empresas tentaram voltar a abrir, mas houve saques, destruição e confusão em muitas delas. Apenas supermercados, lojas de conveniência e vendedores de rua parecem estar prosperando.

Dia 26: A tempestade de poeira brilhante ainda não parou. Tudo que eu tenho parece estar coberto de glitter, e nada mais é sagrado. Sons repetitivos martelam minha cabeça e eu às vezes não consigo controlar meu corpo. O ponto da fadiga se foi há muito tempo. Eu não sei mais o que é real.

Dia 35:
Tentei escrever sem rima
Não funcionou, bora pra cima
A feeeeeeesta continuaaaaaa
Larga o papel, e bora pra ruaaaaaa!

Dia 62: O corpo do vovô não pode mais…

O número de falecidos no evento ainda não foi contabilizado, mas há indícios de que o culpado foi um folião que, ao ver uma estrela cadente, pediu que “ O evento nunca acabasse”


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Dado



- Dado, come seu almoço.
- Não quero.
- Mas você precisa comer..
- Não quero!! Não vou!

Maria inspirou profundamente e olhou para o pai. Aposentado, na casa dos 87 anos, cabelos brancos, robusto, óculos com uma marca de dedo no canto da lente. A pessoa mais amável do mundo todos os dias. Hoje, excepcionalmente, rabugento.

O resto da família, a mãe e a faxineira, sentadas na mesa, olhavam quietas a cena desenrolar.  A regra era que um por vez falasse, para não atordoar o velho. Existe uma série de cuidados que devem ser tomados ao lidar com um familiar com alzheimer.

Uma esquecida aqui, outra lá. Uma carteira perdida. Eram só fatores que estavam relacionando à senilidade, não a alguma doença específica. Até um dia em que um dos filhos encontrou dado sentado na praça, e ele não sabia onde estava nem o que iria fazer.

Mesmo com o diagnóstico, ainda mudaram de médico, não porque não acreditavam no resultado, mas porque não confiavam no tratamento, a doença estava evoluindo rápido demais. Com um especialista localizado, mais resultados: a doença evoluiu rápido pois ele estava submedicado. Não bastasse isto, os remédios tinham efeitos colaterais pesados, aliados a outras limitações advindas da idade, como não poder levantar peso para não prejudicar a coluna, que resultou em um problema na perna.

Com um novo médico, novas orientações, estabelecimento de rotina, cuidado para que não fique doente, remédio em adesivo, falar devagar, não colocar informações demais, não deixar o paciente angustiado…

Pouco a pouco os filhos foram cercando as atividades do pai, para que ele não sentisse que perdeu a autonomia. Com o passar do tempo e a evolução da doença, sem os cuidados necessários, eventualmente um passeio em família poderia virar um desastre.

E era esse cuidado que estavam tomando agora.

Maria respirou e olhou para o pai, foi até a fruteira e voltou. Empurrou o prato de comida, com uma banana junto.

- Dado, você tem que comer esse prato, e com banana, foi a vovó Mariana quem mandou. - Minha mãe? Mandou nada. Ela morreu! - Ela morreu mas veio falar comigo em sonho. - É? - É sim senhor. Ela veio no meu sonho e falou que o senhor tem que comer tudo e com banana, pra cuidar dessa sua cãibra na perna.
Dado olhou para Maria, seus olhos de tartaruga encarando com seriedade.
- Se minha mãe mandou, não posso negar. E em respeito à ela, vou comer tudo. - Com banana. - Com banana.

E pegou os talheres e começou a almoçar.


Dado não sabe que tem Alzheimer, às vezes olha para os netos de maneira desfocada (mas logo que o conhecimento chega, ele abre um sorriso), não consegue mais ver tv ou ler jornal, fica ansioso quando chega o anoitecer, se atrapalha e esquece muitas coisas...


Mas sabe que tem que respeitar a mãe quando ela dá uma ordem, mesmo que seja do além.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Vivendo na lata

Vou sentar comigo hoje pra contar uma história.

Dentro de mim morava uma menina com medo da vida. Sorria um sorriso apagado e andava um andar calejado. Quando falava o tom era baixo, quando feliz a vergonha era o ato. Um ritmo pueril, de menina doce que não quer ser reprovada. Mãos suando e se entrelaçando uma a outra. Demorou mas descobriu que o medo era de ser ela. Não sabia dizer quem ou quando aconteceu, aquele dia em que dizem ou fazem algo que te faz se esconder da própria alma. É de se ter receio de ser quem se é. 

"Onde já se viu, saber quem é? Ninguém precisa saber quem você é, basta agradar e fica fácil socializar."

Será que é por isso que vida social passou a ser tão maçante e a sugar todas as suas energias? Forçar ser quem não se é demanda energia em dobro: energia pra lutar contra o que é natural e energia pra encenar o personagem que ao longo da vida você é instigado a desenvolver. No fim fica fácil, o personagem tem identidade própria, mas ao mesmo tempo pesado, carregar uma pessoa nas costas não se sustenta a longo prazo.
Reforçamento positivo, foi o que teve todas as vezes que fugiu de si pra ser quem esperavam que ela fosse. Chorou tantas vezes, mal sabia que o plano era apenas torná-la mais uma. 

"O volume da TV é o 4. Quando for brincar, proibido gritar. Não vá a casa de ninguém, você vai incomodar."

Assim ela encolheu ao invés de crescer. A ação exitada com o medo do incômodo se tornou condicional.

"Afinal, o que tem em mim que incomoda tanto?"

Do receio surgiu a culpa, da culpa a angústia e da angústia um modo de existir na vida. Sofreu enlatada enquanto pode, até que com pequenos vislumbres da vida nao somente assistida a fez enxergar o que de fato incomodava:

"Isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além
(Leminski)

Como não pensei nisso antes? Se eu for quem sou, que poder terão sobre mim? Quão incomodo posso provocar ao deixar de servir? Quanta pedra no sapato vou substituir?
Fez por que fez e a lata explodiu. Voou sonhos para todos os lados, e por que não,revolta? Como podem fazer isso com uma criança? Fazê-la acreditar que pra não incomodar deve-se passar pelo mundo despercebidamente. Ninguém me perguntou se eu tinha vocação pra ser invisível. Pois não, agora tratem de enxergar quem eu sou. E se incomodar, lembre-se que você não é obrigado a ficar.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

desmemórias de menina

menina amuada de tranças 
segue a turba de correntes-crianças 
sem olhar pros lados. 
tem medo-vergonha do que vão falar, 
do que podem pensar 
quando  virem o tonho. 
hoje a mãe vai voltar tarde. 
tonho te pega na escola. 
respeite o tonho, se comporte. 
agora o tonho é teu pai! 
menina, o olhar pro chão, finge não se incomodar. 
padrasto. 
nada mais que padrasto. 
o pai já morreu. 
ela viu o caixão. 
modelo jasmim da prefeitura. 
quinze minutos pra despedidas. 
o tonho estava lá. 
sete oito pás de terra. 
a menina se sufocando pensando no pai lá dentro. 
a mãe toda de preto. 
vestido tia emprestou. 
lágrimas secas.

mãe, com tanta terra assim, como é que o pai chega no céu?

cheiro do álcool de ontem. 
camisa preta de sempre. 
o olhar perdido de tonho encontra a menina de tranças. 
passos rápidos da menina, 
mãos nos bolsos, 
os passos trôpegos de tonho. 
nossa senhora permita que ninguém tenha notado. 
ônibus vazio, 
no último assento, tonho esboça um sorriso. 
com medo-vergonha-pavor menina retribui. 
se encosta disfarçada para o extremo do banco. 
isso é roupa pra andar perto do tonho, menina? 
motorista e  cobrador discutem futebol. 
as mãos de tonho em suas pernas.

pai, se um dia a gente quiser muito, a gente pode assim sumir?

casa só tem dois cômodos. 
banheiro no quintal. 
colchão improvisado pra menina na cozinha. 
o olhar de tonho a acompanha a cada gesto. 
ela sabe o que a espera. 
- vem almoçar, menina. 
depois de comer, tonho conta a história pra você. 
grades grossas nas janelas afastam qualquer chance de fuga. 
se um dia a mãe descobre ela está morta. 
não, a mãe não pode saber. 
ainda se o enfrentasse. 
as vizinhas. 
será que as vizinhas sabem, meu deus? 
som esganiçado do programa esportivo na tevê. 
o olhar vidrado de tonho a acompanha desde a mesa do almoço, 
filete de óleo da comida nauseosa escorrendo pelo canto da boca. 
- come tudo que depois tem historinha, 
tem a nossa brincadeira. 
o olhar de tonho lhe dá mais nojo que a comida.

pai, depois de morrer a gente vira semente e nasce do novo?

o sol da tarde que se vai colore de âmbar a parede caiada da casa de dois cômodos. 
cadeado trancado no portão de madeira. 
desenhos de giz na calçada. 
uma cabeça de boneca que alguém esqueceu. 
passarinho que canta na normalidade quente de uma casa de criança. 
- não conta nada pra sua mãe, senão ela morre. 
menina amuada de tranças senta na calçada e espera. 
espera a tarde acabar, 
espera a mãe retornar, 
espera. 
tonho dorme. 
brincadeira acabou. 
as facas brilham no escorredor de louça.

mãe, você sabe se morrer dói?

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

MEMÓRIAS INSISTENTES

Acordou.
Olhou para o calendário, e lembrou. A data era aquela.
Aniversário de quando ela foi embora, porque pensou que não adiantaria mais ficar com ele.

As memórias não sumiam de sua cabeça. Recordações de um tempo no qual se entendiam. Tudo era belo, bonito e gostoso de se viver. Mas nada é para sempre, e no caso deles, não foi diferente.

Ligou o rádio, para espantar a solidão. Essa sim era sua companheira.
De todas as horas. De todos os dias.

Não queria ficar naquela situação. Não queria sentir o quê sentia. Mas não tinha jeito: Por mais que os dias passassem, por mais que o passado existisse há certo tempo, o sentimento do vazio insistia em ficar.
Sabia que era hoje, o resultado de quem foi ontem. E era grato por isso.

Mas precisava continuar. Precisava encontrar forças para seguir.
Memórias insistentes. Memórias felizes, doloridas, como todos temos. Como todos experimentamos.

Já era para estar em pé. Já deveria estar se preparando para o trabalho, mas decidiu que naquele dia, não se importava em faltar. Precisava se cuidar, pois a depressão batia à sua porta. Mas cadê a força para isso?

Nada de interessante tocava no aparelho que ligara havia pouco.

Desligou.

Será que alguém se importava com ele?
Será que alguém se interessava por seu vazio?

Foi então que ouviu um ruído na porta. Algo arranhava, pedindo para entrar.

Levantou a muito custo, e abriu.
Seu cão o lambia, todo feliz, cumprimentando assim com o seu bom dia.

Sorriu!

E pensou que, pelo menos o cão, aparentava felicidade ao vê-lo. Afagou o bicho, e agradeceu.

Quanto mais ele conhecia as pessoas, mais gostava do seu cachorro.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Memórias de um futuro brilhante

Ilustração: Julie Maroh
Naquela manhã o relógio despertara às seis e quinze. Como nos últimos dez anos, Tânia só sairia da cama às sete, mas aos poucos foi retroagindo o alarme e usando a função soneca. Por dez minutos. Vinte. Trinta. Até chegar aos atuais quarenta e cinco minutos. Dez cliques no botão de soneca de cinco em cinco minutos, que raramente eram intercalados por um cochilo. Tânia despertava logo no primeiro toque, por vezes até antes, e ficava lá, na cama. Em algumas manhãs criava pequenos desafios, como a cada toque do despertador mudar a posição na cama e permanecer imóvel nos cinco minutos seguintes. De bruços, lado direito, lado esquerdo. Decúbito ventral. Lembrava desse termo das aulas de biologia. Decúbito. De onde tiravam essas palavras?

Na tal manhã não estava disposta a jogos. Após a terceira soneca estava deitada de barriga para cima, olhando o teto, onde pouco antes de entrar na adolescência havia colado uma dezena de estrelinhas florescentes. Imaginou que com isso tinha a sensação de olhar o infinito. Que bobagem.

A memória difusa foi para o dia em que uma amiga viu as estrelas e disse que parecia a constelação de Áries. Não fazia ideia. Havia colado todas ao acaso, na ponta dos pés e quase caindo da cama. Áries. Que bobagem. Mal sabia qual era seu signo, mas não era de Áries. Peixes, talvez Aquário. Tinha alguma coisa com água. Escorpião! Isso!

As estrelas do teto haviam sido dadas de presente pela professora, uma lembrança daquele ano que chegava ao fim. E lá estava a dezena de estrelas cintilando em verde florescente. Hoje amareladas, elas já quase não brilhavam.

Na época em que ganhou as estrelas Tânia era a aluna modelo. A dona das notas mais altas, que fingia modéstia para despistar o orgulho de ser a primeira da classe por anos seguidos. Hoje passava as sonecas do despertador. Engraçado, os mesmos cinco minutos às vezes passavam num piscar de olhos, outras vezes demoravam horas. Ela precisava conter a ansiedade de olhar para ter certeza de que não havia desligado o despertador sem querer.

A primeira da classe. Imaginava então um futuro bem distinto daquela rotina de ficar acordada, olhando para o teto, por algum motivo esperando o horário de sair da cama. Ao revisitar sua memória sentiu como se tivesse saudade do futuro. Que bobagem. Como alguém pode ter saudade do futuro?

Podendo ou não, era o que ela sentia. Lembrou e sentiu falta daquele futuro que não chegou. Que de brilhante foi ficando fosco, opaco, tal qual as pequenas estrelas que se esforçavam para resistir ao tempo e não apagar de uma vez.

Precisava comprar granola. Tinha que ter feito isso ontem, antes de ir para casa, mas acabou esquecendo. O jeito era improvisar alguma coisa para comer e não se esquecer de passar no mercado depois do trabalho.

Não era a primeira vez que tentava lembrar em que ponto seu futuro desandou. Mas não encontrava nada específico. Buscava algum cruzamento mal sinalizado, uma conversão errada, um retorno perdido. A memória lhe trazia tanta falta de opção que sempre terminava com a sensação de que seguira por uma trilha estreita em meio à mata fechada durante toda sua vida. Uma trilha com placas que indicavam seu futuro brilhante, mas que conduzira para sua cama, ao lado de um criado-mudo que dava suporte ao despertador, logo abaixo da dezena de estrelas.

A granola. Não podia se esquecer da granola. Ela gostava de granola.

Último toque do dia. Sete horas em ponto. Hora de parar de enrolar e seguir a vida. Ainda devia ter um restinho de Nescau vencido na cozinha, dava para quebrar o galho até amanhã. Um café da manhã que resgatava a memória de quando era a primeira da classe. Nescau. Tinha abandonado o achocolatado há muito tempo. Vai ver que foi isso que desandou seu futuro brilhante.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Memórias De Uma Vida No Aniversário



Década de 80: Segunda-feira de carnaval do ano de 1980, já nasci sem pressa de viver, pra viver melhor. Demorei mais dias do que o normal pra chegar e, segundo a minha mãe, cheguei sem chorar, simbolismo irônico do que seria a minha vida até aqui. Cheguei a esse mundo no hospital que levava e ainda leva o nome da minha cidade, São Bernardo, no ABC Paulista, que além do meu berço também já era berço de lutas que se espalharam pelo país. Década em que todos estavam aprendendo a andar com as próprias pernas, inclusive eu.

Década de 90: O ano de 1991, talvez o melhor ano da música, o ano que me fez pular do sofá ouvindo o que mudaria minha vida fazendo disso aquilo que eu quisesse, o Rock era a voz do menino tímido e fechado que estocaria seu arsenal de ideias e ideais para que quando tudo explodisse, ele pudesse tentar mudar o mundo mudando as pessoas a quem lhe ouvisse. O mesmo ano de 1991 também foi o pior, me tirou várias pessoas que eu amava e praticamente de uma vez só, pessoas que me moldaram a ser o que sou hoje, o menino de 11 anos já perdia grandes referências de sua criação. Nasceu o grunge no começo da década, meu maior amigo em anos, pois eu me fecharia ainda mais. Acabou o ginásio, veio o colegial técnico no coração da indústria nacional até então, veio a explosão de fúria e rebeldia contida na segunda metade da década, junto com o auge da adolescência.

os Anos 2000: o começo da década foi baseada no alternativo e underground sendo minha alternativa pra viver e curtir a vida. Trabalhar, viver, tocar a música pra tocar a vida, e curtir. Urbano Cia era a banda, a nossa gangue que ensaiava de dia e andava pela noite paulistana. Metade da década se foi, mas logo no começo da outra metade veio a paz em forma de pessoa pra cuidar de mim e me tornar alguém melhor, a paz no coração que faltava.

Anos 10: No meu aniversário de 30, a grande notícia e talvez o melhor presente de todos que já tive: Serei pai, do bebê que viria a se tornar minha princesa punk. O DNA do ano de 1980 no ABC estaria nela. Mas na metade dessa década, grandes mudanças pessoais e profissionais e ela veio junto a nós para São Paulo, no bairro em que a mãe dela cresceu, onde surgiu o movimento punk na cidade de São Paulo. Ou seja, numa grande mudança de vida, mas no final das contas estamos todos em casa e sempre carregando as raízes para onde vamos.

Em todos os aniversários eu passo o dia lembrando e pensando na vida, nos que foram, nos que estão e onde estão aqueles que se foram. Justamente hoje não sera diferente... Memórias, história, raízes, esperança e fé no futuro… é a vida, mais um ano de jornada e uma página em branco para futuras memórias.

Obrigado pela leitura, obrigado por fazer parte desse livro!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Convites de casamento

Os convites de casamento se acumulavam sobre a mesa da sala: “Virgílio e família”. Os anos de dedicação e carinho aos tios, primos, sobrinhos, amigos e vizinhos renderam uma boa coleção de caligrafias, pedaços de tules, e papéis cartão em tons diferentes de bege. Na cozinha, o único som era o da geladeira, que mesmo sendo um modelo novo e silencioso, era mais barulhento que os próprios pensamentos.

Na sala, sentava-se de frente para a televisão, mas não ousava tocar no controle remoto. Mantinha-a sempre desligada. A programação era sempre a do seu próprio reflexo. Quando estava escuro, as únicas imagens eram a de suas memórias.

Sua rotina era composta por quatro principais eventos: acordar, ir ao banheiro, comer e dormir. Não necessariamente nessa ordem, e com repetições de ações. Fora isso, tentava andar de um lado para o outro no corredor da casa após o almoço para fazer a digestão. Às sextas-feiras, tinha fisioterapia.

Em suas viagens diárias ao passado, lembrava-se especialmente de sua mãe. Às vezes, em visita da neta, nos momentos em que seus caminhos se bifurcavam, ou quando suas sinapses já não funcionavam, agarrava a mão daquela moça que estava ali à frente e chamava por sua mãe. “Mamãe, mamãe, mamãe”. Voltava à realidade quando entendia quem era ali – “Tudo bem, vô?”, perguntavam os olhos gigantes, porém delicados, e as mãos firmes. Respondia que sim com a cabeça. E logo voltava-se para a programação normal.

Morreu dormindo, logo depois de ter chamado pela mãe, como insistentemente fazia nos últimos anos. Aparentemente, dessa vez ela havia ouvido seus chamados. Deixou a esposa sem rumo, que acabou tomando seu lugar no sofá.

Mais ativa que era, ela ainda estendia as caminhadas até o mercado do centro, para buscar sua marmita diária na hora do almoço – não fazia mais sentido fazer comida para si mesma – fazia seu croché e caçava palavras nas revistinhas de bancas de jornal.

Agora, o neto mais novo fora morar com ela, mas ainda tinha dúvidas frequentes de quem era ele – o neto ou o filho? Dizia, sempre risonha para o resto da família em suas visitas semanais: “dessa vez eu juro que paro de chama-lo de Lúcio. É o Ju.” Segundos depois, desistia da sua proposição. Era o filho. Ao telefone, dizia à neta: “hoje fui almoçar com o Tio Lúcio”.

Mantinha suas tentativas frustradas de acertar. Sempre tivera medo daquele cara alemão que saía por aí roubando as memórias e os afetos. Era o Alzheimer, lhe diziam. Por isso, pegava firme nas caça-palavras.

Essa semana se sentiu estranha pois visitou um lugar que há muito não ia. Viu pessoas que há muito não encontrava. Teve a impressão de que fora ao velório de algumas delas. Visitou o melhor carnaval de rua da sua cidade, na época dos grandes bailes e das marchinhas. Dançou até dar calo nos pés, paquerou o marido, que estranhamente ainda tinha as feições jovens, tomou um porre de vinho, o único da vida. Pensando bem, agora eram dois, já que o havia tomado de novo. Quando voltou para casa, o neto (ou o filho?) lhe levava uma xícara de café e já não tinha mais certeza de onde estava.

Outro dia resolveu passar uns dias com a irmã mais nova, essa tinha Alzheimer, coitadinha. Uma moça tomava conta dela durante o dia. Tomavam café juntas e assistiam televisão. Mas, frequentemente era interrompida pela pergunta: “O Virgílio já morreu?”. E tinha que, com paciência, responder que sim, todas as vezes. Uma pontada no coração, um frio na barriga e uma lágrima acompanhavam a paciência que tinha ao responder a irmã.

Mas seguia de cabeça em pé. “Estou ficando caduquinha”, dizia à neta, “mas ainda tenho muita vontade de viver”. E no seu andar corcunda, caminhava confundindo suas memórias, embaralhando passado e presente. Uma pena é que as fotos digitais já não trazem a materialidade do passado, mas pelo menos, os mais de vinte porta-retratos no móvel de entrada traziam algum conforto. A foto de seu próprio casamento. Como estava bonita! E o Virgílio, tão novo. Isso a fez lembrar de algo: olhou para uma pilha de papéis na mesa da sala e começou a escrever a lista de presentes a serem comprados.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Tudo é só saudade


Entre panos surrados, estampas desbotadas, paredes descascadas e panelas pretas pelo tempo eu ainda vejo borboletas. Ainda é o único lugar no qual eu as vejo voando. Alguns representantes dos coloridos insetos que eu capturava quando pousavam nos capitães também coloridos, na feliz infância.
Quando volto, meu reino tem rainha. E ela reina.
- Não precisava por tudo isso de óleo para fazer arroz.
- Se não por, o arroz fica seco e seu avô precisa de energia.
- A energia não vem do óleo, ele precisa de carboidrato.
E ela não está nem aí para os meus cientificismos de revista e programas de saúde na TV. É o melhor arroz com quiabo, com salada, bife e feijão de todo o mundo.
- Por quê você plantou um alho-poró no meio do jardim e não na horta?
- É planta também e aqui é minha horta.
Manjericão, jurubeba, manga, goiaba, pimenta, pitanga, banana, caju, dália, rosa, pé de cana, acerola, orquídia, boldo, cebolinha,couve, jaboticaba, salsinha.
Desde cedo aprendi que aquele era o jardim mais plural e democrático que conhecia. Tudo ainda está lá e tem para todo mundo.
Hoje quando bebi um suco do limão que ela não deixou colher antes, que estava reservado para mim, pude ver que realmente no meu reino ele tem outro gosto. Não azedo como encontrei por aí.
- Quer açúcar no suco de laranja?
- Não, só tomo natural agora.
- Se quiser eu coloco um pouco, com gelo porque você sabe que eu gosto de tudo bem docinho.
Sei sim, e como eu cresci amando tudo que era tão docinho, feito de um néctar especial, de fonte única.
Pensei: Nossa! Como o limão ta com um gosto diferente. E é bom.
O bolor chegou na cozinha, em alguns cantos da parede. Há bibelôs mancos que ainda lutam com a gravidade e ocupam quase que a mesma posição. Há acúmulo de coisas no quintal.
Digo: - Por quê você junta tanta coisa que não usa? Penso: faço a mesma coisa.
A falta do reboco na parede, a ferrugem na porta e a madeira apodrecida me incomodam; mas o cheiro de dama da noite ainda entra todos os dias pela janela e toma conta da casa sem pedir licença.
Cada vez que vou embora tenho mais medo que o tempo pese sobre esse reino que eu deixei. Não sobre o bolor, sobre a ferrugem, sobre a tinta das paredes ou sobre os panos envelhecidos.
No abraço do reencontro ela pergunta: - O que você achou lá que não volta de vez?
Eu sem saber o que responder, digo:
- Eu não posso voltar.
Volto. Bebo suco de limão que não é limão. Como o pior arroz, caro e sem gosto pra saber que no meu reino tudo é tão diferente.
E mesmo com o medo enorme do tempo me castigar com a ausência dela, eu parto. Minha ausência já a castiga; mesmo sabendo que preciso ir ela finge irracionalidade e pergunta por que eu não fico mais.
- come um chocolate.
- eu acabei de almoçar.
- toma um iogurte então.
- mas eu acabei de comer.
- vou por um copo de vinho pra você.
Sentada numa cadeira no jardim, em meio a tanto verde e sob um céu ardentemente azul com nuvens de paina, ela sempre vai reinar.
Quando o portão bate; tudo é só saudade.


Por Fernando Bonfim, dia 13

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Memórias

Há quem diga que memória boa é aquela que se guarda com carinho de algo que se foi há muito tempo. Há quem diga que memória é um pedaço vivo da saudade. Há quem não tenha saudade de nada, apenas um trauma que se denominou memória por não se enquadrar em outra categoria. Há memória que é de arrependimento e há memória que vira aprendizado.

Memórias.

Memórias são como um artigo de museu, quanto mais antiga, mais rara e quanto mais rara, mais valiosa ela se torna.

Eu aposto que a maioria irá escrever sobre as memórias da infância ou da adolescência, da época da escola ou das férias de quinze anos atrás. Quiçá alguma tristeza em tom de dor daquela que não volta mais.

Hoje eu decidi contrariar esse conceito. Não pretendo ir muito longe para descrever uma memória. Neste contexto eu não pretendo falar de memórias ruins, também não pretendo contrariar as leis temporais: Memórias são feitas de passado e assim será.

Por hoje minhas memórias serão concentradas no amor, um cliché de poucos dias atrás. São memórias recentes sobre alguém que lutou por mim e me provou o porquê valia a pena.

Eu me lembro dos jantares e dos abraços. Me lembro dos beijos e carinhos. Me lembro que há dois anos rimos em demasia a ponto de a barriga doer, rimos assim há um ano atrás, oito meses, seis meses, quatro meses e ontem de novo.

Me lembro que esses dias viajamos muitas vezes, viagens curtas e viagens longas, houve até viagem sem sair do lugar, mas eu me lembro.

Também há a recordação de que viramos a noite como dois adolescentes em plena liberdade e cheios de energia. Me recordo que repetimos isso muitas vezes e me lembro também que já não somos assim tão jovens e que o corpo suplicou por descanso.

Há tantas memórias de curto prazo que não me lembro de todas, mas se eu tivesse que escrever este texto amanhã sobre esse mesmo tema, acredito que eu falaria sobre outras memórias não ditas aqui. Não pelo fato de não ter importância, apenas porque nosso tempo de memórias possuem tantas delas que precisaríamos de muitos dias de vinhos e queijos que isso naturalmente nos proporcionaria mais memórias.

São memórias de “ontem”. Todas recentes, mas são essas memórias que estão valorizando em nosso cofre de recordações pra podermos aplicar nas memórias de amanhã.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Adormecidas em nós, faz de nós quem somos.



Algumas vezes quando paro quieta em meu canto, e tento de alguma maneira silenciar minha mente para que elas não venham.
Essas memórias que às vezes mais parecem fantasmas que  na calada da noite se esguiam para assustar crianças malcriadas e alguns adultos medrosos.

Sem pedir elas aparecem e não importa o que eu faça, não há como esquecer.

Sim, aprendi muitas coisas com elas, outras só acumularam na pilha de coisas que não devia ter feito, mas fiz. É incrível como a gente finge que esquece alguma coisa só pra poder errar de novo, um erro que juramos que dessa vez será acerto, mas não, nunca é e a memória está ali pra te lembrar do quanto você foi besta.
Ainda não consegui entender essa linha frágil entre memória boa e memória ruim, não decidi se não queria lembrar de nada ou gostaria de lembrar de absolutamente tudo.

Onde foram parar aquelas que não lembramos? Aquelas que sabemos que aconteceu,  mas não sabemos exatamente como?
Somos também memórias esquecidas?  Aquelas que durante um tempo permanecem vivas e depois vão se esvaindo pouco a pouco ou num instante.

Essas, não sei dizer o quanto de mim guardavam e nem quanto de mim se perdeu.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Fiquei com Febre a Tarde Inteira

 Ouvia uma fita cassete do Legião urbana, e em um pequeno trecho os integrantes do grupo falavam sobre eles mesmos.Não tinha muito a ser falado, já que tinham 20 e pouquíssimos anos e fora estudar e tocar não tinham grandes novidades.Pensei no Renato Russo, no Cazuza, no Álvares de Azevedo, No Kurt Cobain entre tantos outros, e pensei no porque de nossos "poetas" serem tão jovens. Tanta base, tantos princípios, tanta importância vindo de pessoinhas que mal saram da adolescência.

  Lembrei também que no final da minha adolescência, fazia melodias e escrevias versos e poemas para acompanhar, muitos eu já esqueci, mas outros muitos tenho guardado e as vezes me pego cantando uma música que eu mesma escrevi. Como se eu tivesse sido outra pessoa - eu era - não canso de pensar que cabem mil vidas dentro de uma só.

  Com o tempo a vida foi ficando séria e eu também, chorar por um amor não correspondido foi ficando pequeno perto de outros motivos tão grandes que me permitiam chorar, esse choro é amargo e nunca valeu ser eternizado com uma canção quando a gente só quer esquecer.

  Tinha uma teoria, que gente com a vida melhor ouve música "boa" e gente mais simples ouve música "ruim" um arrocha, um pagode, um funk descontraído porque distraí quem tem problemas de verdade. Isso também, as músicas que escuto hoje são tão mais alegres do que o "hoje a tristeza não é passageira", porque vai que não é mesmo.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

n'ouro das memórias

Acordei ressabiada com os sonhos de ontem. Sonhos esses que, na verdade, já foram a realidade de um tempo mais distante. No final das contas, o que nos sobra é isso – a ilusão, a saudade e aquele cheiro de naftalina nas gavetas do armário.
 
 Os fatos travestidos de fantasmas caminharam ao meu lado, como amigos leais, por todas as horas da minha inquebrável rotina. Procurei me manter sensata, distante, como manda o figurino. Mas as memórias daqueles dias abriram uma cratera no meio da sala impossível de ignorar e pouco a pouco fui caindo, submergindo até sobrar um espelho embaçado, incapaz de mostrar a minha face.
 
Naqueles (outros) dias tudo era brisa e montanhas. As pedras da calçada faziam cócegas na alma. Tudo era imenso no coração da gente e, por isso, a gente sonhava. Eu sonhava. Quando fecho meus olhos consigo sentir o cheiro daquelas paragens no início da contagem dos meses: nas roupas que só secavam ao longo de uma semana – devido à umidade -, nos gases vespertinos daquela indústria, no odor sábio dos móveis e das antigas casas.
 
Todo o novo dentro de mim parecia impregnado de possibilidades a se bordarem na roca da vida. O tempo, ali, estava com a sua ampulheta suspensa. Devagar passava e nos enganava – que iria durar.



Ouro Preto, tarde de neblina, 2011.