sábado, 22 de julho de 2017

Crianças



Encontram-se no parque. Cada um com seu rebento. A mulher com o filho dela. O homem com a filha dele. Nunca se viram. São as férias de julho e o parque está cheio. Faz sol. As crianças correm pro tanque de areia. Homem e mulher sentam-se no mesmo banco. Conversam.

- Que bom que hoje saiu sol, não?

- Nem me fale... não aguentava mais aquele frio.

(...)

- Eles nunca se viram e parece que já são amigos desde sempre.

- Como? 

- As crianças... parecem que são velhos amigos, mas acabaram de se conhecer.

- Ah, sim, eu vi. Uma graça, né? Meu filho mal viu sua menina e foi logo a convidando pra brincar. 

- É... as crianças são mesmo demais! Minha filha estava lá entretida fazendo outra coisa e mesmo assim aceitou brincar com seu filho. 

- Ah, esse menino é muito sociável. É a capoeira, né, a capoeira estimula bem a socialização. Ele não perde uma aula, toda quinta de manhã, desde que aprendeu a andar. Era uma graça, bebezinho, o berimbau dava dois dele.

- Pois é, nem me fale. Esporte é tudo pra uma criança! Vê só minha menina, com essa gentileza toda, essa paciência, foi tudo o kung fu. Foi mesmo um achado. O kung fu estimula muito isso. Por isso que toda quarta e sábado, ela sai da aula de circo e vai diretinho pro kung fu!

- Circo?

- Sim, malabarismo. É ótimo pra coordenação, pra destreza, pro equilíbrio. E é bom estimular isso desde cedo, né?

- Ah, sim, mas quanto a isso eu não posso me queixar do karatê. Concentração, equilíbrio, disciplina, respeito aos mais velhos, meu menino desenvolveu tudo isso graças ao karatê. Terças e sextas desde os dois anos! Veja que deu resultado, né? Olha a perfeição dos castelinhos de areia dele, olha com que destreza que ele fez aquela pontezinha ali.

- Sim, sim... mas veja só como ela organizou as pazinhas, da maior para a menor, alinhadinhas ao lado dos baldes... aquilo tudo é kumon, minha amiga, é o kumon dando resultado ao vivo e em cores. Tardes de quinta e manhãs de domingo. Com ela não tem pra ninguém na matemática, no raciocínio lógico, além da concentração, destreza, capacidade para lidar com desafios, tudo isso vem junto, né? 

- Ah, mas o meu muleque nem precisou de kumon. O colégio dele é montessoriano, sabe.  Daí é outra coisa. Com dois anos ele já sabia amarrar o sapato com autonomia, se servir sozinho e comer de garfo e faca com desembaraço.

- Está certo, mas você já leu Piajet? O construtivismo é que é a tendência, viu? Antes dos quatro minha menina já sabia as quatro operações matemáticas e conversava em inglês com qualquer um!

- E mandarim ela sabe? Porque saber inglês é meio século vinte, né? O importante agora é dominar o mandarim. A China vai mandar no mundo, meu caro! Potência! Olha só como tem chinês por aí, de cada quatro pessoas no mundo, uma é chinesa. Meu menino aprendeu o mandarim junto com o português! Pronuncia bem cada fonema, fala bem até os mais nasalares, parece um nativo! Até que lhe cairiam bem uns olhinhos puxados com essa pele bronzeada linda que ele tem. Também, né, treinando surf do jeito que ele treina.

- Mas estamos há mais de cem quilômetros do mar!

- Sim, é verdade, mas para que servem os finais de semana, não é mesmo? Meu marido desce com ele pro litoral todo sábado de manhã e só voltam domingo a noite. Este contato com a água é muito importante!

- Ah, sim, com certeza! A natação é um esporte completo! Minha garota aprendeu a nadar antes dos seis meses. Foi ótimo pra ginástica rítmica e pros saltos ornamentais que ela pratica hoje. Medalha de ouro dois anos seguidos nas competições estaduais. Ano que vem ela vai disputar o nacional, daí sim eu quero ver!  Você nem imagina o orgulho! E além do mais, os jogos olímpicos estão logo aí, né?

- Ah, sim, sim, os jogos olímpicos, claro... estão logo aí... meu menino tem grandes chances na esgrima e até mesmo no arco e flecha. Ele treina os dois desde que saiu das fraldas aos oito meses. São esportes maravilhosos para a formação do caráter e para o desenvolvimento da confiança. Não menos importantes que o halterofilismo que ele pratica desde os três, às segundas, logo depois da aula de yoga, que ele faz junto com o coleguinha que ele conheceu no curso de gastronomia. Tudo ótimo pro conhecimento do corpo e pro controle emocional.

- Ele usou fraldas até os oito meses? Minha menina jamais usou fraldas! É muito anti-higiênico. Existem práticas muito mais assépticas e modernas que essa. Não há nada mais moderno na Alemanha e nos Estados Unidos. Você não assiste o Fantástico? É preciso apenas estar atento aos sinais! Ser um bom observador! Não foi você mesmo quem me falou sobre conhecer o próprio corpo?

- Bom, se é uma técnica alemã meu filho deve conhecer, já que fez intercâmbio na Alemanha dos quatro aos cinco anos. Fez um curso de filosofia e retórica para crianças numa escola cristã, porque além do corpo, também é preciso desenvolver o espírito, não é mesmo?

- Minha filha também fez intercâmbio. Ela trabalhou em uma ONG canadense que combate a fome na África!

- Ah, é? E meu filho já foi embaixador da ONU pelos direitos humanos!

- E a minha já ganhou o Nobel da Paz. Duas vezes!

(...)

A tarde avança. Homem e mulher seguem conversando. Ela sobre o filho dela. Ele sobra a filha dele. Conversam muito e com tanta obstinação que por um momento deixam de prestar atenção nas crianças suadas e remelentas, seus filhos, que brincam no tanque de areia do parque. Se a conversa não estivesse assim tão interessante, eles talvez reparassem no momento em que a menina, seis anos, indigna-se com o menino, seis anos, que lhe atirou de caso pensado areia na cara, e lhe responde com um sonoro safanão no meio da fuça. Talvez também reparassem no momento em que o menino, agudamente magoado, lhe devolve o safanão com mais força do que o recebeu e lhe dirige palavrões dos mais cabeludos que aprendeu numa letra de funk. Os dois engalfinham-se na areia manchada de sangue. A tarde cai no parque. É férias. Homem e mulher seguem sentados no banco. Conversam.




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Mais textos  meus podem ser lidos no Em Transe To. Apareçam por lá também!










sexta-feira, 21 de julho de 2017

#RIPChesterBennington

quinta-feira, 20 de julho de 2017

O feriado do dia do feriado

Nesse post, em meu mês de férias, pensei em começar dizendo que eu gosto de feriado. Que ideia boba. Todo mundo gosta. Eu gosto de tudo o que me deixa longe do serviço. Se até uma apendicite é bem-vinda, que dirá um feriadinho. Há quem pense o mesmo, mas nesse momento me censura por medo de duvidar de que o trabalho talvez não liberte.

O único problema é que não consigo me identificar com os feriados. Apenas aprecio o ócio que eles proporcionam, mas às vezes isso pesa um pouco na consciência.

A maioria das datas comemorativas é religiosa, destas todas são católicas. Pelo menos é a chance de dizer que é feriado “graças a deus”, independente de sua existência ou da crença do interlocutor. Ainda assim me parece bastante arbitrário salpicar exaltações católicas em um estado teoricamente laico.

Há também os feriados que exaltam a pátria. Nesses a coisa complica. Tem a incoerência da Inconfidência, na qual torturaram o Tiradentes para depois transformá-lo em mártir; a independência da república dependente; a proclamação da república que vê sua democracia minguar, etc. Nessas datas sempre existe a exaltação das forças armadas. Aprecio a folga com muito peso na consciência. Por mim poderíamos pegar toda a verba destinada ao exército e gastar tudo em paçoca.

Carnaval é bonito. Não faço ideia do porquê de sua existência, mas não importa. Esse ano, na véspera do que é considerado o marco do real começo de ano do brasileiro, ouvi um sujeito do meu lado no metrô dizendo que não gosta do Carnaval. Lembrei do ano que tive que trabalhar nesse ‘feriado’, sábado, segunda e terça, sem um centavo de hora extra, pois, pasmem, Carnaval não é feriado.

Não resisti ao impulso de agarrar o desconhecido pelo colarinho e gritar que sim, ele gosta de Carnaval. A menos que fosse um empresário que vê a própria empresa parar de produzir ao longo da folia, ele adora o feriado e só terá certeza disso quando tiver que trabalhar no meio do isquindô.

Só consigo me lembrar de duas datas com as quais eu poderia ter maior consideração. O dia da consciência negra, que sequer ganhou status de feriado nacional, muito menos emplacou uma real consciência sobre a luta negra, e o dia do trabalhador, que acabou virando dia do trabalho, afinal quem é esse tal de trabalhador para ganhar um dia só dele, sendo que nem existe dia do empregador?

Para piorar ainda moro no Estado de São Paulo, que resolveu transformar em feriado estadual o dia da ‘revolução de 32’. Eu apoiaria se fosse o dia da vergonha. A elite paulistana em sua histórica vanguarda do atraso se revolta contra a atenção governamental à população mais pobre, toma um couro do governo federal e transforma isso em feriado para criar uma imagem de vitória que não houve.

De repente poderíamos criar uma data específica somente para ser um feriado. De preferência algo como a primeira quinta-feira de determinado mês, para não correr o risco do dia cair justo no domingo. Uma ode à preguiça, dirão alguns; o dia da vagabundagem, acusarão outros; coisa de comunista que não gosta de trabalhar, afirmarão muitos.

Quem sabe um referendo não resolve o impasse? Um programa político explicando à população que ela pode referendar um feriado sem amarras. Nada de cobranças por exaltação à pátria, a deus, ao exército. Apenas um feriado prolongado para ser usado como bem entender. O feriado do dia do feriado.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Descartável

Seu carrinho de supermercado cheio de pertences,
Descartável como seu copo plástico de café em todas as manhãs,
Como seus sentimentos e sonhos, em todas as noites.

Descartável como maquiagem que encobre faces,
Como discursos para serem gravados e enganarem.
Enganam muitos, menos a fome e o frio.

Descartáveis vidas sujas e vazias para muitos,
Mas muito se tem a aprender com suas bagagens.
Os melhores amigos do homem os acompanham,
Mas os “homens” os descartam, os mesmos que se fazem de heróis.

Descartáveis como seu amor reprimido, seu amigo esquecido, seu orgulho ferido.
Descartáveis como sua velocidade aumentada, sua vida reduzida, seu tempo perdido.
Descartáveis como sua arte apagada, sua espera por nada, seu conto de fadas, sua cidade linda.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Estou bem cansada

E não é pelos afazeres ou pela rotina. Estou cansada mesmo de ver mulherões sofrerem por amores meio bosta. Sei que em um relacionamento existe um equilíbrio, que às vezes um ensina tanto o outro que bobeira é pensar que se começa numa disputa. Mas eu tô mesmo cansada e triste em ver um monte de mulheres que eu admiro pra caramba se doando bem mais que recebendo. E quando a recíproca não é verdadeira, meus amigos, eu tô falando é de um monte de homens babacas. Não é colocá-las em posição de vítima, nunquinha. Até porque, como mulherões, sabe-se que mais que tudo elas são bem inteligentes. Elas batalham, elas se desdobram nas jornadas e, óbvio, triunfam.


Não estou falando de mulheres enganadas, coitadinhas. Estou falando de mulheres que conquistam tudo que querem e ainda estão em falta nos relacionamentos por se envolverem com caras que estão em Dans bem – eu disse bem – menores. O que é meu cansaço então? É de saber que a gente está sempre numa posição de querer saber mais, de querer evoluir, de se cobrar, de ir além. E às vezes caminhar ao lado – ou pior, amar! – uns caras bem nada a ver. E não pense você que estou falando só das mulheres solteiras, porque estou cansada também de ver mulher bem sucedida escondendo do marido que comprou roupa nova. Com o dinheiro dela, sublinhe-se. Porque mulher é isso mesmo, né? Não para de comprar roupa.

Não.

Vi uma palestra esses dias de uma economista citando um estudo que dizia que o índice de miséria entre mulheres na terceira idade era muito alto. Uma das justificativas é que, no casamento, a mulher desembolsa durante a vida bem mais em prol do relacionamento. A mulher compra o presente de aniversário da sogra, banca aqueles gastos a mais do filho na escola, compra coisas para casa. Às vezes a mulher faz o supermercado toda a vida. E não divide a conta.
No final das contas, o marido poupa. O marido tem dinheiro sobrando. E à mulher, que sempre teve a fama de consumista, vejam só, é a altruísta. Uma amiga minha disse que, no seu divórcio, o marido teve contabilizado uma poupança bem maior que a dela. Que quase não foi dividida, porque ela se sentiu culpada de não ter guardado dinheiro no tempo em que estiveram juntos. Só aí ela lembrou de todas as contas do dia a dia, assumidas integralmente por ela. A poupança foi pro bolo.
Quantas não se lembram, ou quantas não têm a chance de dividir, é mais uma das pontas do meu cansaço. Poderia escrever um tratado sobre essas disparidades, sobre o que vai muito mal na sociedade para serem cometidas essas injustiças, que fazem um monte de mulherões terem homens muito aquém delas, por diferentes motivos, em várias escalas do relacionamento. Prefiro dizer apenas que estou cansada em ver tudo isso. Bem cansada.

P.S. Fiquei chateada de terminar esse texto tão pessimista, então resolvi concluí-lo com uma frase que acredito sempre, independentemente dos cansaços.




quarta-feira, 12 de julho de 2017

Um passo atrás


Muitas coisas acontecem em ensaios de peças de teatro. Em geral são horas e horas fechados em uma sala, lendo textos, fazendo exercícios, falando a respeito. Tudo isso gera um ambiente que se parece a uma montanha russa, tanto pode descer, quanto subir ou se estabilizar. Mas é normal que pelo cansaço alguns atores se irritam uns com outros, principalmente os de memória mais lenta. Sempre existem aqueles atores que decoram rápido os textos e ficam impacientes com os mais lentos, isso gera atrito e os diretores são obrigados a contornar  a situação.

Um diretor era muito educado e sempre pedia aos atores mais exaltados que dessem um passo atrás, uma maneira elegante de dizer que esfriassem a cabeça. Então ele pedia para analisar a situação, ficou como uma marcação dele, qualquer dúvida dávamos um passo atrás, uma maneira de sinalizar que não estávamos entendendo a situação e tentávamos  ter outra perspectiva.

Nunca apliquei isso na minha vida, mas já escutei sobre a importância de fazer isso em todas as decisões, dar um passo atrás e ter um panorama neutro, avaliar de maneira fria o que está acontecendo.

A primeira indicação desse diretor era sempre dar um passo atrás para avaliar as coisas, sem agir impulsivamente e depois antes de criticar o colega, o ator ou atriz a nossa frente, deveríamos nos colocar nos sapatos deles e nos perguntar ''eu faria a mesma coisa?''. Isso simplificaria tudo e evitaria desgastes, caso a pessoa fosse honesta e reconhecesse o que pensava fazer.

Por exemplo: em um ensaio uma atriz se irritou comigo, ela mudou o texto e eu me perdi, caso estivesse mais concentrada teria percebido que ela deve ter esquecido as linhas e deu uma improvisada, mas eu estava focada no texto e não a alcancei. Isso fez ela perder a paciência e aquilo acabou em uma discussão. Se ela tivesse se afastado da situação e se colocado nos meus sapatos, teria entendido que eu estava mentalmente fechada no texto e não fui rápida para perceber a improvisação dela.

Quando nos afastamos da situação e pensamos com os sapatos dos outros podemos perceber ou ter uma noção mais clara das atitudes da outra pessoa, podemos analisar com mais calma as decisões alheias.

E nunca pensei nessas indicações teatrais como algo que poderia me ajudar na minha vida amorosa, mas foi assim que aconteceu.

Como todas as mulheres fui educada para receber migalhas de amor e achar isso ótimo, pensar que eu era amada, quando estava sendo usada e que eu era querida, quando estavam comigo apenas por conveniência.

E a primeira pessoa que me deu o alerta foi a mãe do Romeu, que não gostava de mim. Um dia ela conversava comigo, me disse que eu era meiga, muito preocupada com seu filho. Eu confirmei e disse que ele também era legal, eu tinha sorte dele estar comigo e ela respondeu:

-E por que não estaria? Você é um doce, cuida bem dele e ele é inteligente, sabe o que lhe convém.

Não entendi a mensagem na hora, mas registrei. Mais tarde corri para conversar com uma amiga mais velha, tentando decifrar o que a mãe dele tinha dito e minha amiga respondeu:

-Olha, não duvido que goste de você, mas fica no lugar dele, uma mulher como você é super conveniente, você ajuda ele em um monte de coisas, ele pode ficar para dormir na tua casa e ainda por cima tem sexo, não pode ficar melhor!

Mas ele gosta de mim.......

-Não duvido que goste, mas quando alguém facilita nossa vida, nos convém, a gente aprende a gostar.....

Em algum momento deixou de ser vantajoso porque ele terminou o namoro, mas eu não esqueci desse episódio.

E agora vejo essa situação com uma amiga. Ela se casou e o marido parece uma pessoa legal, mas de repente comecei a perceber alguns detalhes estranhos. Ele grudou nela, fica difícil ter acesso, cortou as linhas e dá a impressão de ser possessivo.

Consegui conversar a respeito disso com ela, mas ela me garantiu que ele é carente, é seu jeito de amar, apenas isso.

Analisando a situação com calma me parece um pouco pior. O rapaz veio do interior, conheceu a moça no trabalho, mas o pai dela é dono da empresa. Namorar a herdeira da empresa, ainda por cima bonita e boa pessoa, seria o mais conveniente a se fazer para alguém que chegou na cidade com a roupa do corpo.

Gosto da ideia do amor eterno, das almas que se encontram e se reconhecem, mas a vida real é mais dura do que isso. Minha amiga pensa que é amor e quem sou eu para dizer o contrário? Pode ser, por que não?

Mas tentar ver a situação por outro ângulo não mata ninguém. E pra quê mentir, mulheres temos essa mania de facilitar a vida dos homens, para eles somos convenientes.

Penso de outra maneira hoje, sempre me pergunto ''que tanto ele gosta de mim, que tanto é conveniência?''. Analiso com calma e penso como seria se eu tirasse uma por uma das facilidades que coloco em sua vida, ele ainda ficaria comigo? 
Não é sair batendo portas, mas reconhecendo se estamos recebendo migalhas enquanto Romeu fica porque para ele é conveniente.

Homens encostam, não é segredo de estado isso e nós, mulheres, somos educadas para pensar que um homem encostado é um gesto de amor, poxa, ele quis ficar comigo! E valemos tão pouco assim?

É claro que se responder algumas perguntas tem um custo, é necessário coragem para pensar se Romeu está conosco por amor ou porque sua vida é mais fácil, ninguém quer pensar isso, todas negamos a verdade e nos escondemos dela, mas um dia ela vem à tona.

Amor é matemática e os números precisam fechar, não é um problema em aberto em todas as equações, precisamos dos números que combinam e fecham.

Em um dos últimos relacionamentos que tive fiz essa conta depois que tudo terminou e percebi como era bom para Romeu me ter em sua vida, eu era a roda que fazia tudo girar, estar comigo era deitar na sombra. Doeu muito perceber isso, mas ao mesmo tempo foi uma revelação, me fez acordar e entender que eu mereço amor, não migalhas em troca de tudo o que dou.

É uma conta simples, a gente dá um passo atrás, analisa a situação, se coloca nos sapatos do outro e nos perguntamos ''eu sou ele, então o que me convém ao estar com ela ou é amor?''.

O pior? É que sabemos a resposta. O melhor? É que ela liberta.
Nós mulheres merecemos ser amadas de maneira completa, integral, sem migalhas, não merecemos ser tratadas como seres que facilitam a vida dos homens. Não somos bonecas, nem brinquedos vivos, merecemos o amor que respeita.


É hora de analisar o amor com a frieza que se precisa, é necessário dar um passo atrás e se colocar nos sapatos do outro, porque a vida não é sobre ser conveniente a alguém, mas ser respeitada e amada por quem amamos.



Iara De Dupont

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Talvez

Talvez a vida seja simples.
Talvez a gente que se atropela demais em nome da rotina.
Talvez a vida vire de cabeça para baixo para mostrar o caminho certo.
Talvez a felicidade seja andar no contra-fluxo.
Talvez a vida seja sempre um risco.
Talvez seja pela necessidade de ser.
Talvez a vida seja só essência.
Talvez sossego tenha prazo de validade.
Talvez seja uma brisa que virou um furação.
Talvez a vida seja um turbilhão.
Talvez a gente esteja entorpecido com tanta informação.
Talvez a vida exija uma pausa para meditar.
Talvez seja necessário reavaliar os nossos valores.
Talvez a vida seja uma transformação diária.
Talvez a gente esqueça que o tempo passa para todos nós. 
Talvez a vida puxe o freio de mão quando estamos em alta velocidade.
Talvez seja difícil lidar com as pedras no caminho.
Talvez a vida queira mostrar todos somos frágeis.
Talvez o medo seja uma forma de nos conectarmos com nossas prioridades.
Talvez a vida esteja clamando por momentos mais contemplativos.
Talvez o universo sempre atue de forma misteriosa.
Talvez a vida seja encantadoramente travessa, mostrando que sempre há um motivo para sorrir.
Talvez seja hora de só olhar para dentro e organizar as emoções.
Talvez a vida seja sentir.
Talvez seja amor demais pra guardar em um peito.
Talvez a vida seja transbordar.
Talvez o eterno dure alguns segundos.
Talvez a vida seja ultrapassar dimensões.
Talvez um dia a gente tenha mais respostas do que perguntas.
Talvez a vida seja um sopro, tão breve e intenso, como o vento gelado deste inverno.
Talvez o segredo seja apenas se concentrar em como a vida se apresenta hoje.
Talvez a vida seja mais serena se priorizarmos somente o que transcende.
Talvez a plenitude se apresente em pequenos fragmentos de cotidiano.

Talvez a vida seja comer, rezar, amar e criar

Talvez, entre tantos “talvez”, a única certeza é que a busca pela felicidade deve ser neste exato instante. 


sábado, 1 de julho de 2017

Sobrevivendo no abismo

Há momentos na vida em que nos vemos afundados em espaços mais escuros de nós mesmos.  Todos vamos à fossa, aos nossos piores lugares, com alguma frequência.
Quanto mais acreditamos ter superado certos defeitos infantis, mesquinhezas, bobeiras, imaturidades, rancorezinhos; mais nos deixamos abertos a tropeçar novamente. 
Estar num momento de escuridão é natural, isso acontece com uma frequência assustadora. Meus últimos meses tem sido estranhos. Estou no escuro, tateando.
Pensei em abandonar esse espaço, em largar outros projetos, em me isolar e focar a vida em trabalhar e aguardar uma mudança que não sei se terei forças para projetar. 
Mas as coisas seguem e não se fica no fundo do abismo para sempre. Bora voltar a escalar e ferir as mãos no processo. Mês que vem venho com algo mais significativo e menos biográfico. Obrigado pela paciência =)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

greve geral


Recebi esse cartaz na saída do Terminal Parque Dom Pedro para o mercado da Vovó com as seguintes 4/5 pautas:

- Contra a Reforma Trabalhista;
- Contra a Reforma da Previdência;
- Contra a Terceirização;
- Pelo Fora Temer e Diretas Já.

Do curto trajeto até o mercado os burburinhos para quem entregava os panfletos eram os mesmos:

- sabe dizer se ônibus e motoristas também vão parar? (transeuntes)
- os motoristas não aderiram à greve. Já os metroviários ainda vão decidir. (militantes)

Sigo o caminho e ainda escuto mais gente questionando a mesma coisa enquanto segura o panfleto. Atravesso a rua. Entro no mercado e os cochichos continuam entre filas e corredores.

Passo no caixa o biscoito e o queijo, pago a conta, atravesso a rua e os moços continuam entregando os panfletos sendo questionados por outros se o transporte vai parar.

Ando até o quarto corredor de ônibus, viro a esquerda até o anti-penúltimo ponto, entro naquele ônibus e pago a passagem $3,80 para ser mais precisa, rodo a catraca e me sento.

Não existe outro pensamento além da revolta na (des)crença de que as pessoas ainda não absorveram totalmente a gravidade das reformas anti-trabalhadores.

Ainda mais grave neste contexto quando o presidente temerário é denunciado por corrupção passiva.

Mas o pior saber que a população condiciona à participação na greve a paralisação do transporte público.

Quando comentei sobre a Greve Geral do dia 28/04/2017 fiz questão de não mencionar a participação do transporte público na greve.

Outros comentaram muitíssimo bem sobre a participação essencial dos trabalhadores do transporte na greve. 

Todos sabem o quanto é importante quando o transporte público participa, no entanto, assumir a responsabilidade seria essencial para nos fortalecer enquanto trabalhadores. Jogar a responsabilidade de nossas ações/decisões para outros é covardia.


Hoje ao ler rapidamente os jornais saltaram os olhos nos argumentos dos trabalhadores e sindicatos do transporte justamente sobre a dependência do povo em aderir a greve condicionado a greve do transporte público.

O resultado desta dependência está na criminalização da luta através de multas altíssimas aplicadas aos sindicatos pela justiça sob a justificativa de que a greve do transporte público está ferindo o direito de ir e vir de quem não aderiu à greve.


Mas a greve decidida por categoria profissional e /ou profissional é direito garantido na constituição. Constituição esta que está em pleno processo de destruição. 

Aderir a greve é um  exercício do seu direito, e o ter vetado através do impedimento de articulação dos sindicatos por multas da justiça significa o que?


As palavras que me vêem a mente são: censura e criminalização. E se por acaso você está com medo de aderir à greve por receio de ser desligado, dispensado, demitido tem algo errado, significa que você não vive o seu direito e infelizmente não sabe o que é e não vivência o mínimo da democracia.


Já que decidi não encher lingüiça e sem trema por favor mas o computador não aceitou retirar, aqui vai um relato simplista de uma grevista plenamente convicta de seus direitos.


Eu tenho direito à greve. Ponto final.

Não tenho medo, porque não devo tê-lo.

Os motivos são fortíssimos e justificam à adesão a greve:


REFORMA TRABALHISTA
.


REFORMA DA PREVIDÊNCIA
.


TERCEIRIZAÇÃO
.

FORA TEMER
.

E SE O POVO QUISER:
DIRETAS JÁ
.
E/OU
.
ELEIÇÕES GERAIS
.


NENHUM DIREITOS  A MENOS
.

Por aqui não vai ter barganha ou troca de favores. Aqui hoje e amanhã não vai ter peleguice. Não sujeitar a golpistas o seu direito à greve e direito à vida digna é resistir. Por hoje e pelo amanhã: resistência. 
Só a luta muda a vida.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O Ouvinte de si mesmo

Infelizmente esse texto não se refere ao exercício autoconsciencial de se analisar através da fala, ele se trata daqueles que filtram o que o outro diz apenas para aquilo que lhes causam identificação. Tentarei ser mais clara: você já reparou que em conversas simples, até memso aquelas isentas de grande teor afetivo ou relevância, você emite um discurso e a resposta é quase que unânime sobre o ponto de vista alheio? Eu não sei bem como isso começou mas sinto falta de conversar sem precisar que a minha fala seja distorcida para a necessidade do outro falar sobre si, e o pior, falar ilusões sobre si. Porque ele fala aquilo que ele acredita ser ele e infelizmente ele só está dizendo sobre como ele gostaria que enxergássemos a sua história. As pessoas usam as conversas para a autopromoção. Talvez falando em voz alta para mais alguém, ele próprio possa acreditar nas mentiras que conta para si. Não sei.

O ouvir verdadeiro tem que estar disponível para o outro. O outro é o iluminado e a minha escuta o holofote que emite essa luz. Pense então como se a cada vez que essa pessoa falasse, o holofote desviasse a luz dela e direcionasse para si mesmo. Qual o sentido? Para dialogar você não precisa roubar a fala alheia. Quando estou falando de mim ou de qualquer assunto banal, não necessariamente estou querendo ouvir sua opinião sobre isso, como você agiria em tal situação, sua crítica sociopoliticaeconomicaexistencial que é melhor que a de especialistas no assunto, como você se vê mais promissor diante dos problemas que são meus. É difícil conversar nos tempos de hoje. Você fala mas não é ouvido. O outro só ouve o que diz respeito a ele, funciona por identificação e a identificação é uma busca por si mesmo. Você despretensiosamente comenta "Meus pais agiram assim assado em minha infância" e o outro responde "os meus não, os meus foram ótimos, nunca tive que passar por isso". Ou até em questões negativas: "eu tive uma doença muito séria", "eu já quase morri, tive coma, vi a luz  e ressuscitei". Pois é, os diálogos hoje se tratam de competições narcísicas onde não importa o que o outro diz, desde que você sobressaia de alguma maneira.. É triste. Preciso ser ouvida, sinto falta. Estou cansada de entrar em disputas para poder expressar o que quero, mesmo constatando que não estou sendo ouvida.  Afinal, o que você ouve nem sempre diz respeito a você. Sei que alguns podem estar em choque com essa afirmativa, mas é a verdade. 

Conversar  não é se apropriar da fala do outro para em fração de segundos encontrar um jeito de inseri-la na sua experiência e pintá-la de uma forma que aparente ser mais atrativa. No final, quem começou a conversa já parou de falar e o outro ganhou a cena. O movimento tem sido esse, escutar de uma forma que possa ser utilizada para chamar a atenção para si e ser ouvido. As pessoas não querem ouvir, só querem falar.
O ser humano está incapaz de emitir uma resposta que não seja a do reflexo do seu narciso. Pena que ele escolhe ver só o que lhe convém nessa imagem, a sombra, a parte que ele negligencia em si, ele deixa para que os outros se virem para conviver. 
Concluo que a escuta do ego é incapaz de escutar o outro. Enquanto o ego finge escutar, é o narciso quem fala. O alerta é para não se afogar na própria fala, como Narciso se afogou na própria imagem. Deem conta de si mesmos pra não terem que usar os outros como alvo de projeções. Eu só quero conversar em paz. Sem competições, por favor.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

A obra - uma história familiar



Capítulo 01

A obra começa amanhã.

Capítulo 02

Nunca na minha vida tive uma reforma em casa. Admito que não sei bem o que esperar. 

Capítulo 03


Sair de um apartamento pequeno e vir para uma casa maior e com quintal pareceu uma ideia bastante razoável, sobretudo com o nascimento de Cecília.


Capítulo 04


Não para Silvana. Ela adorava o apartamento com cheiro de novo e varanda gourmert. Foi um tanto trabalhoso convencê-la a se mudar. Mais trabalhoso ainda foi convencê-la a entrar em obras.

Capítulo 05


Tive a perspicaz ideia de sair de férias para acompanhar mais de perto o inicio dos trabalhos.

Capítulo 06

Cecília está eufórica. Percebeu um clima diferente na casa. Às oito já estava enfiada em seu macacão de bolinhas. Combinamos de dormir cedo para acordar cedo, a tempo de receber o Armando.

Capítulo 07

Sim, o nome do pedreiro é Armando. Nada mais propício, não há como negar.

Capítulo 08

Desperto com o som da campainha disparada. Olho para o rádio-relógio no criado-mudo ao lado e vejo que são seis e trinta e sete. É meu primeiro dia de férias e eu estou acordando às seis e trinta e sete por Armando, nosso pedreiro madrugador. 

Capítulo 09

Saio do quarto para abrir o portão e sou atropelado por um pijama de bolinhas que quer chegar antes de mim.

Capítulo 10

Ouço Silvana me xingando do quarto. Saí e deixei a porta aberta.

Capítulo 11

Armando vem acompanhado. Um rapaz de uns 18 anos que entra olhando pra baixo, sem responder ao meu bom dia. Armando diz que seu nome é Michael, como o do cantor. Cecília os observa desconfiada.

Capítulo 12

Vão direto ao quintal dos fundos. É lá que começarão. Ofereço café. Eles não aceitam. Eu nem percebo, mas eles já estão com monstruosas máquinas nas mãos. Um brilho assustador nos olhos. Acho melhor me afastar. Puxo Cecília e entro pra cozinha. Silvana acorda. Me xinga mas eu não pude entender o motivo. As máquinas foram ligadas.

Capítulo 13

A casa toda treme. 

Capítulo 14

Não consigo chegar nem perto do quintal. O barulho é insuportável. Da sala consigo ver que o quintal vai se transformando num mar de pedras. Meia hora foi o bastante para o cenário de guerra se instaurar lá fora. Silvana me xinga. Esqueci de recolher as bromélias do quintal. Cecília chora assustada com o barulho. Meia hora e a obra já perdeu a graça pra ela. 

Capitulo 15

Não me lembro se contamos à Cecilia que a obra durará alguns meses.

Capítulo 16


Chego a conclusão de que a ideia de fazer uma reforma na casa, com a gente dentro, não é tão boa quanto parecia.


Capítulo 17


A ideia foi minha.

Capitulo 18

Silvana leva Cecília para a casa da avó. Diz que não volta pra almoçar. Vai direto ao trabalho. Agora só estou eu e os pedreiros.

Capítulo 19

O barulho me desnorteia. Não consigo me concentrar em nada. Meu plano de ler Ulisses nessas férias foi interrompido no meio do segundo parágrafo. Quando já ia me acostumando com a britadeira, sou interrompido pela campainha.



Capitulo 20

É o vizinho. Merda. Esqueci de avisar os vizinhos. Solicito aos berros e na base da mímica para que o Armando e o menino que não fala e cujo nome já não lembro - algo como John ou Paul - parem com a britadeira. 

Capítulo 21

Chego no portão me desculpando. Ele diz que não há de quê, que sabe como são obras, que não veio ali para reclamar. Veio, pelo contrário, para me propor algo. Fico curioso.

Capítulo 22

- Já que você está em obras no quintal, que tal aproveitar para refazermos o muro entre tua casa e a minha? Já reparou no tamanho das rachaduras? Dividimos os gastos, é claro.

Capítulo 23

Fingi que há muito reparara nas rachaduras. Faltou-me a coragem para admitir que não reparo nos problemas estruturais de minha própria residência. Concordei com o acordo. Meu lema de vida sempre foi o de manter um bom relacionamento com os vizinhos.

Capítulo 24

Armando me informou que o prazo para o término da obra sofreria um acréscimo de uma semana, um pouco mais, um pouco menos, com a construção do novo muro.

Capítulo 25

No fim da tarde os pedreiros já tinham terminado de quebrar todo o piso e os rebocos das paredes. Adeus, britadeiras. Só quando eles se vão, percebo que deveria ter fechado as janelas. Todos os móveis ostentam uma grossa camada de poeira.

Capítulo 26

Silvana me xinga assim que bota os pés dentro de casa. Cecília chora ao ver os brinquedos empoeirados. Deve estar me xingando por dentro. Me xingaria por fora, se já soubesse falar.

Capitulo 27

Quando Cecília enfim se acalma e vai para a cama - meticulosamente aspirada por mim - informo à Silvana sobre a construção do muro. Silvana me xinga enfurecida, que sou um frouxo que não resisto à menor pressão dos vizinhos. Que nosso muro é ótimo do jeito que está, que se não caiu em quarenta anos, não será agora que vai cair. Que Cecília não vai aguentar todo esse barulho e poeira. Imagina se pra cada cômodo da casa for acrescida uma semana ao muito que já estava combinado. Que amanhã mesmo, quando a menina acordar, vão ambas para a casa da avó, a mãe de Silvana, e só voltarão quando a obra terminar.

Capítulo 28

Eu, do alto de minha incorrigível covardia, emudeço e começo a espanar a casa. Não quero acordar Cecília com o barulho do aspirador, me recorda Silvana.

Capítulo 29

Coloco o despertador para as seis e meia. Lembro que amanhã não terá mais britadeira e durmo feliz.

Capítulo 30

Já fiquei feliz por melhores motivos.

Capítulo 31

São sete horas e ainda não chegaram. É só o segundo dia e já estão relaxando, penso.

Capítulo 32

Ouço um barulho estranho na rua e saio pra ver. Eram eles. Há meia hora que estavam lá preparando a betoneira. Sai a britadeira, chega a betoneira. Quantos avanços!

Capítulo 33

Silvana e Cecília saem cedo. Nem olham pra minha cara.

Capítulo 34

Armando me passa uma lista de materiais para comprar. Finalmente um motivo para sair de casa. Uma manhã inteira no depósito de materiais de construção.

Capítulo 35

Não entendo nada de materiais de construção.

Capítulo 36

Chego em casa com as compras. Armando esbraveja comigo, que não era Vedacit, era Vedalit. Que eu tinha que voltar na loja e fazer a troca.

Capítulo 37

Fico um pouco contrariado por Armando esbravejar comigo logo assim no segundo dia, em minha própria residência, por um erro não assim tão grave e facilmente justificável, veja bem, a letra dele não era assim nenhum primor. 

Capítulo 38

Represo, no entanto, o desejo de esbravejar de volta. Meu lema de vida sempre foi o de manter um bom relacionamento com pedreiros. Saio e efetuo a troca.

Capítulo 39

Não consigo cozinhar. O som da betoneira toma conta de toda a casa e isso me desconcentra. Peço um marmitex. 



Capítulo 40

O pedreiro-ajudante, o Brian ou algo assim, me olhou com uma cara bastante perturbadora. Baixei a cabeça assustado e um pouco preocupado.

Capítulo 41

É noite e estou sozinho. O silêncio me atordoa. Nada se move, mas posso ouvir o som baixinho da betoneira que acampou em meus ouvidos. 

Capítulo 42

Ligo pra Silvana. Digo para parar com aquilo, que temos que lidar com aquela nova situação juntos e que estou com saudades de Cecília. Ela me xinga. Diz que já não aguenta mais minha incapacidade para lidar com as coisas mais simples da vida. Diz que Cecília já dormiu e que ela não voltará atrás. Só retornará mesmo com o fim da obra e quando tudo estiver imaculadamente limpo.

Capítulo 43

Mais um dia. É apenas o terceiro e parece que já se passou um mês. São seis e quinze e a campainha me desperta antes do despertador.

Capítulo 44

Armando parece furioso com minha demora em atender. Não responde ao meu bom dia e ignora minha tentativa de desculpas. Ouço ele me xingando baixinho. Finjo que não ouvi nada.

Capítulo 45

Resolvo fazer uma cópia da chave e deixar com Armando. Isso evitará o desconforto com a campainha.

Capitulo 46

A betoneira preenche a manhã.

Capítulo 47

Mais um dia de marmitex. Dessa vez, o motoboy chega bastante atrasado e a comida um tanto fria. Requentei no microondas. Algo dentro de mim me dizia para ligar no restaurante e reclamar, mas eu preferi dar mais uma chance. Acho que serão ainda muitos dias de marmitex e o meu lema de vida sempre foi o de manter um bom relacionamento com as pessoas que fazem minha comida.

Capítulo 48

Depois de uma manhã inteira sem se dirigir a mim, Armando me chama para eu ver uma manilha que ele encontrou no corredor de meu quintal. 

Capítulo 49

Não sei o que é manilha. Fico olhando pro objeto que ele chama de manilha, fingindo que estou achando surpreendente. Ele começa a fazer conjecturas sobre o avanço da obra. De cada três substantivos que ele usa, eu desconheço dois. Concordo com tudo.

Capítulo 50

Ao retornar para dentro de casa penso ver o pedreiro-ajudante, o tal do Nick, me mostrando o dedo do meio. Julgo que estou cansado, que ando a ver coisas, e sigo meu caminho.

Capítulo 51

Parece que o problema com o encanamento no quintal é um pouco maior do que Armando pensava. A primeira fase da obra vai levar uns dois ou três dias a mais do que o imaginado.

Capítulo 52

Ligo pra Silvana. Informo a ela sobre o contratempo na obra. Ela não me xinga. Desliga o telefone na minha cara e só. Achava mais confortável quando ela me xingava.

Capítulo 53

Mais um dia. Acordo assustado com o Armando na porta do quarto. Esqueci que eu tinha deixado a chave da casa com ele. Ele achou por bem me acordar para que eu comprasse mais areia. A obra não pode parar, senhor. Saí sem tomar café.

Capítulo 54

Sigo sem saber qual é a voz de Kevin, o pedreiro-ajudante. Os olhares dele pra mim seguem cada vez mais assustadores.

Capítulo 55

Aproveito a hora do almoço dos pedreiros para pesquisar na internet. Encontro com alguma facilidade um excelente glossário da construção civil. Manilha, mansarda, mão-francesa, maquete. Ótimo. Agora já posso conversar com Armando com alguma propriedade. Pilar, pilastra, pilotis, pináculo.

Capítulo 56

Hoje é dia de quebrar o muro que divido com o vizinho. Hoje é dia de marretas.

Capítulo 57

Ouço o som de um veículo pesado estacionando em frente de casa. Não pode ser a caçamba, penso. A última caçamba já tinha sido retirada pela manhã e Armando, que eu saiba, ainda não havia pedido outra. 

Capítulo 58

Do caminhão desce Silvana. Carrega Cecília no colo. Papai, papai. A menina ainda me ama, penso.

Capítulo 59

Era um caminhão de mudanças. Silvana havia tomado medidas extremas sem nem sequer me consultar. 

Capítulo 60

Silvana me xinga alto na rua. Cecília balbucia uns xingamentos em seu auxilio. Quem diria que as primeiras palavras da menina seriam crápula e sacripanta.



Capítulo 61

Percebo que os pedreiros param o serviço para acompanhar nossa discussão. Parecem deliciar-se com cada palavra de Silvana. Não ouvem nenhuma palavra minha porque eu não as disse, covarde que sempre fui para brigar em público. 

Capítulo 62

Dois homens saem do caminhão e passam por mim como se eu não existisse. Entram em minha residência e começam a retirar coisas sob a orientação de Silvana. Vejo passar por mim o berço de Cecília. Ouço os pedreiros rindo. Ao menos agora sei que Adam é capaz de emitir algum som.

Capítulo 63

Peço aos pedreiros para suspenderem a obra por hoje. Ou bem se reforma ou bem se divorcia. As duas coisas numa só tarde, eu não consigo conciliar. Armando não aceita. Em primeiro lugar a obra, senhor. A obra não pode parar. E se põe a marretar até o fim da tarde.

Capítulo 64

É noite quando o caminhão se vai. Cecília me dá tchauzinho da boleia. Papai sacripanta. Papai sacripanta. Silvana me dirige uns últimos impropérios antes de partir, algo sobre passar dos limites e cavar a própria cova. 

Capítulo 65

Ainda não consigo digerir bem os acontecimentos do dia anterior. Armando não parece ter se abalado. São seis e dezesseis e já sinto o cheiro do café vindo da cozinha. 

Capítulo 66

Terei que fazer outro café. O de Armando só foi o bastante para ele e para Justin. Uma pena.

Capítulo 67

Armando me chama para conversar. Lá vem mais lista de material, penso.

Capítulo 68

Armando reclama de cansaço. Mora do outro lado da cidade e precisa madrugar para chegar em minha casa tão cedo. Sugiro que chegue mais tarde. Armando não aceita. A prioridade tem que ser a obra, senhor.

Capítulo 69

Armando sugere que não precise mais voltar pra casa dele ao fim do expediente. Agora você tem um quarto livre, senhor. Dá muito bem para Michael e eu.

Capítulo 70

Com uma argumentação tão consistente assim, não vejo meios de negar. Cedo o quartinho de Cecília para os pedreiros até o fim da empreitada, desde que o entreguem limpo e em perfeitas condições de uso ao final.

Capítulo 71

Aproveito a manhã sem marretas para estudar um pouco. Sacada, saguão, saibro, samca. Preciso reconquistar minha autoconfiança perdida, meu respeito para com os pedreiros. Taco, talude, tapume, telhado.

Capítulo 72


Cai a tarde. Melodia de pregos sobre tábuas. Não vou ligar pra Silvana.

Capítulo 73

Fico curioso para ver como está a obra. Me constranjo em ir para o quintal assim de sopetão. Seria muita indiscrição. Os recentes olhares de Arnold, o pedreiro-ajudante, desencorajam qualquer investida desse tipo.

Capítulo 74

Dou voltas a esmo pela casa. Não consigo ficar sentado.

Capítulo 75

Encontro com a minha cara no espelho grande do corredor. Me sinto muito velho.

Capítulo 76

Este passeio pela casa me deprime, sobretudo quando chego na cozinha, nunca vi tanta areia assim desde a última vez que fomos pra praia. Me tranco no escritório.

Capítulo 77

Fim da tarde. Ouço barulho do chuveiro.

Capítulo 78

É Armando que se banha depois do expediente. Agora eles moram comigo, me recordo. 

Capítulo 79

Peter espia a geladeira com cara de desgosto. Explico constrangido que amanhã mesmo farei compras. Vou dormir cedo para evitar maiores constrangimentos.

Capítulo 80

É sábado. Armando não se importa. O encontro no corredor às seis e quinze e de pijama. Com meu pijama. Não me diz bom dia.

Capítulo 81

Começo a ficar preocupado com os pedreiros. Decerto que não estou os tratando bem. Vou conversar com Armando.

Capítulo 82

Armando deixa tudo bem claro. Que o trabalho vai bem, obrigado. Que mais uma semana termina o quintal, que até amanhã me passa mais uma lista de compras, que posso já ir chamando mais uma caçamba que vem entulho grosso por aí, repete que não, que definitivamente não tem nenhum problema com o trabalho, mas que ele e Michael não podem dormir juntos no mesmo quarto.  A noite passada havia sido um sufoco para pegar no sono, que nem havia hoje disposição para trabalhar e que só o fazia porque, afinal, a obra não pode parar.

Capítulo 83

Me compadeço e cedo meu quarto ao Armando. Me envergonho por não ter oferecido antes. A partir dessa noite, dormirei na sala.

Capítulo 84

O muro já está pronto e o vizinho ainda não pagou a parte dele. Finge que não me vê quando o encontro na rua.

Capítulo 85

O dinheiro está acabando. O gasto com material está sendo bem maior do que o imaginado. Ligo para Silvana e a secretária eletrônica informa que o número não existe. 

Capítulo 86

Me excluiu das redes sociais também.

Capítulo 87

Vou ter que bancar a obra sozinho. Refaço as contas e vejo que que não vai dar pra continuar comendo marmitex. 

Capítulo 88

Reparo que os pedreiros finalizaram o canteiro no quintal. Há embalagens de sementes espalhadas pelo chão. Vejo que são de cenoura. Eu não gosto de cenouras, Armando. Mas eu gosto, senhor.

Capítulo 89


Cristopher toma banho, enquanto Armando se diverte jogando em meu computador.

Capítulo 90


Pediram pizza. Meio a meio. Metade para Armando, metade para Donald. Durmo com fome.

Capítulo 91

É sábado e os pedreiros decidem ficar acordados até mais tarde. A luz da tevê e as gargalhadas me impedem de dormir.


Capítulo 92

Os dois sentam-se em banquetas já que estou ocupando o sofá inteiro. Me constranjo com a indelicadeza. Que péssimo anfitrião que sou.

Capítulo 93

Saio pé ante pé para não atrapalhar o filme e me dirijo à garagem.

Capítulo 94

Com algum esforço encontro a barraca de camping. Estava um pouco empoeirada, mas o suficiente para passar a noite. Não a usávamos desde a lua-de-mel.

Capítulo 95

É domingo e acordo com dor nas costas. 

Capítulo 96

Não me encorajo a sair da barraca. Penso sentir cheiro de churrasco.

Capítulo 97

Escuto a campainha. Por um momento penso que é Silvana, mas logo percebo que não.

Capítulo 98

Pela conversa noto que são os familiares de Armando que vieram visitá-lo. Uma voz de senhora que certamente é sua mãe. Imagino que a família de Joe também deve vir mais tarde. Domingo é dia de receber a família, afinal. Também costumava fazer isso com Silvana.

Capítulo 99

Pela primeira vez ouço a voz de Stuart, o pedreiro-ajudante. Ele está cantando.

Capítulo 100

Sem que ninguém perceba, pulo o muro e deixo a casa. Ainda tive ímpetos de voltar e pedir algo para comer, mas não quis atrapalhar a família.