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sexta-feira, 20 de maio de 2022

Torcida de futebol na política

Há alguns anos a seleção brasileira de futebol despertava paixões. Em ano de copa do mundo o país ganhava milhões de técnicos, desde o torcedor que acompanhava futebol com frequência e tinha certo fundamento nos palpites, até aquele que mal diferenciava o Ronaldo fenômeno da bola, mas opinava com a autoridade de um novo Pelé.

O curioso é que pelos comentários de torcedores, parecia que ganhar uma copa era a coisa mais fácil do mundo e a única pessoa que não percebia as obviedades gritantes do campo era justamente o técnico. Nem mestres do futebol, como Telê Santana, escapavam de serem chamados de burros por aqueles que juravam que “era só por um atacante”.

Apenas oito países já foram campeões, sendo que o mais vitorioso é justamente o Brasil, com cinco títulos. Racionalmente é claro que ganhar uma copa é dificílimo para qualquer time, o que não impede que a cada quatro anos surja um novo gênio da técnica, jurando que é só por um atacante.

Mais recentemente, com a empolgação do futebol em queda e a polarização política esquentando, os anos de copa perderam espaço para o destaque das eleições. Todos aqueles milhões de técnicos viraram estrategistas políticos e parece que só uma pessoa não sabe como ganhar as eleições, justamente o líder das pesquisas.

Assim como conquistar a copa, ganhar uma eleição presidencial é dificílimo. Tão difícil que alguns preferem tentar levar no tapetão. Em decisões de segundo turno são necessários mais de 50 milhões de votos e em um país tão desigual, para conseguir tantos eleitores é preciso muito malabarismo para agradar a setores com interesses muito divergentes, costurando alianças políticas em 27 estados.

Ao ler algumas matérias que analisam a corrida eleitoral deste ano, é possível concluir que um dos candidatos não tem a menor chance. Os estrategistas não se entendem, o partido está dividido, as ideias são ultrapassadas, a pré-campanha é ineficiente, o candidato só fala para os próprios eleitores, não há comando, não há objetivos claros, sobram decisões equivocadas e o candidato está isolado dentro do partido.

O cenário trágico é referente ao líder das pesquisas, estável desde meados do ano passado, com possibilidade de ganhar no primeiro turno, enquanto nomes da fantasiosa “terceira via” patinam no lamaçal criado por eles mesmos ao longo dos últimos anos.

Com a mesma cara-de-pau do amador que aconselhava técnicos profissionais, há quem aponte caminhos supostamente fáceis, óbvios e certeiros para uma campanha presidencial, inevitavelmente tortuosa e sujeita a empecilhos e alianças para lá de questionáveis.

Assim como no futebol, eleições também possuem regras inegociáveis. Em ambos é inaceitável a presença de um juiz ladrão, por exemplo. Por outro lado, pode ser necessário aceitar mudanças inimagináveis, como receber aquele político, digo, jogador que até a temporada passada jogava no grande rival.

A torcida, seja a favor ou contra, é inflamada pelas paixões e emoções, mas na hora de tomar decisões, talvez seja melhor deixar para os profissionais experientes. Nem toda decisão é fácil, nem toda escolha é óbvia e dizer qual é o caminho sem ter que arcar com as consequências é bem diferente de viver as escolhas e responder por erros e acertos.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Das pequenas metamorfoses

Ao ver uma partida de futebol, o que mais me encanta não é o momento do gol, mas o momento do replay, sobretudo aqueles em câmera lenta. Não é que eu goste de ver o tento por outro ângulo ou rememorar aquela jogada perfeita. Nada disso. O que me interessa está atrás do gol, entre as balizas e a arquibancada. O que realmente me emociona é ver o momento em que, ao receber a denúncia da torcida, o policial sisudo gira por um lapso a cabeça e, sem perceber, alarga por um nanosegundo a fissura compreendida entre os lábios, ante a rede estufada às suas costas, um quase nada antes de girar a cabeça de volta à torcida e tornar a ser um policial sisudo. 

domingo, 22 de junho de 2014

A Copa de 94 e Eu...


Aos 8 anos eu não entendia nada de futebol. Minha mãe, muito preocupada com aquele meu defeito, espalhava bolas pela casa toda na esperança de que eu esbarrasse em alguma e - tomara Deus - tomasse gosto pela coisa. Não adiantava. Na escola eu declarava a todos que não tinha time e logo mudava de assunto quando alguém começava com aquele assunto que eu não dominava.

O tempo foi passando e minha mãe foi perdendo as esperanças. Ela passou a se conformar com o fato de que o filho dela não tinha os mesmos interesses de todos os meninos daquela idade e deixou de tentar remediar o irremediável. Deus haveria de cuidar de mim e me dar amigos, ainda que eu fosse daquele jeito. 

***

Aos que não gostam de futebol, devo dizer que esta história não acaba bem. Eu não passaria ileso aquele ano de 94. 

***

O ano ia se aproximando da metade e meu irmão mais velho estava de namoradinha nova. Eu, que não sabia nada de futebol, entendia menos ainda de namoros, de modo que alugava a pobre moça para brincar comigo, sem me importar com o infortúnio que aquilo representava a ele que, afinal, não tinham lá muito tempo para ficar junto dela. 

O fato é que até mesmo ela parecia se interessar bastante por aquele esporte. Aliás, naquele mês de junho todos ao meu redor só falavam disso. Era a Copa do Mundo, ela me explicava, um campeonato que acontece a cada 4 anos e que o Brasil não ganhava há mais de 20! Opa, aquilo começava a ganhar ares desafiadores e, consequentemente, a me interessar. Essa coisa de competição era algo que me atraia bastante naquela época.

Os dias foram passando e eu fui me interessando por aquelas conversas. O Brasil, diziam, tinha um time apenas regular e dificilmente iria muito longe naquela Copa, o que só aumentava minha recém adquirida ansiedade futebolística. Por fim, o primeiro jogo. Me lembro da família reunida na sala e do gol do Raí, de pênalti, contra a Rússia. Nesse jogo, eu aprendi o que era um pênalti. Com a minha futura cunhada, como a essa altura já se supõe.

No jogo seguinte eu aprendi o que era uma goleada e também aprendi que havia um país chamado Camarões. Contra a Suécia eu aprendi que aquele tal de Romário era bom mesmo e que se podia contar com ele em jogos difíceis como aquele. O Brasil havia se classificado para as oitavas de final, minha didática e tão solicita cunhada me explicava, e agora não poderia mais perder se quisesse ser campeão. Foi nesse dia que aprendi o que era uma prorrogação e disputa por pênaltis. Aquilo estava ficando cada vez mais interessante! 

Os donos da casa estavam em nosso caminho. Os Estados Unidos eram os anfitriões e disputavam aquela partida justamente no dia em que comemoravam o aniversário da independência do país, mas naqueles tempos eu pouco entendia da importância daquilo tudo e só queria saber qual era a dificuldade de se enfiar uma bola minúscula num gol daquele tamanho. Naquele dia, pela primeira vez uma partida de futebol me deixou nervoso. Avançamos com Bebeto e enfrentaríamos a Holanda!

Ah, a Holanda! Eles conseguiram empatar um jogo que parecia ganho e fizeram do gol do Branco, no fim do jogo, um acontecimento épico em minha memória futebolística. Foi nesse dia que Bebeto inventou a icônica comemoração do bebê sendo embalado e que seria muito imitada por mim em meus gols infantis, eu que ainda nem tinha filhos. O Brasil estava na semifinal e jogaria novamente contra a Suécia.

Contra os suecos eu aprendi que meu nervosismo poderia atingir níveis estratosféricos e que um baixinho de 1,68 poderia fazer um gol de cabeça e levar o Brasil à final. 

Àquela altura eu já estava mergulhado naquele mundo e já não dependia tanto dos ensinamentos de minha cunhada, já podíamos torcer de igual pra igual naquele jogo contra a Itália. E foi o que fizemos. Por 3 angustiantes horas...

***

Já se vão 20 anos daquela final, mas ainda me lembro de minha avó, com um terço na mão, rezando por cada jogador durante o hino nacional, da angústia da prorrogação e das cobranças de pênaltis, da alegria que atingiu a todos em minha casa naquela noite e dos pulos que iam mais altos que a bola de Roberto Baggio! 

Aos 8 anos eu não entendia nada de futebol. Não sabia que os jogadores eram milionários e que trocavam de time conforme a conveniência financeira. Não sabia que muita gente se digladiava por causa do futebol e que, naquela mesma Copa, um jogador colombiano fora assassinado em seu país por ter tido a infelicidade de ter feito um gol contra. Não entendia nada de xenofobia, racismo e machismo e muito menos a relação disso tudo com o futebol. Não sabia que o futebol era um negócio e que ele poderia movimentar tanto dinheiro. Não sabia o que era máfia e nem corrupção. Pensava que o futebol era apenas um esporte.

Em 94 eu gostava bem mais de futebol do que eu gosto hoje. Não porque em 94 o futebol fosse mais inocente. Mas porque eu era...













sexta-feira, 11 de março de 2011

Ficha técnica

Filomena, colorada, vinte e quatro anos, desceu as escadas na madrugada depois de ter ganho da retranca são paulina, com cãimbras no pé. Entrou no carro. Ganhou uma garrafa de vinho pra segurar. Foram. Continuou com cãimbras.

Ele, colorado não praticante, não sabe de retranca nem de emoção futebolística, mas deu parabéns a ela pela vitória depois de brigarem um pouquinho, e ele se render ao que ela queria. E ela queria uma cama balançando, com ele.

Chegaram. Dvd's musicais. Charutos. Móveis mudados de lugar. Cama, cobertas, taça. Taças temos todas. O beijo podia esperar, porque se acontece, ficam sem roupa. Conversaram. Cheirou o pescoço dela. Cinco minutos e ele continuava a cheirar o pescoço. Afeto em forma de abraço. Beijaram musicando de pé, de quatro, de bruços, dear & bella putinha delicada, meias no talo das coxas, bunda empinada, coxas encoxadas,  goles de uísque intercalando com uns d'agua.

Na hora os dois pensam o quanto o mundo e os outros são um nojo, e eles eram eles, com secreções sexuais que até o cheiro agradava. E não adiantava ele fingir que só fingia ter afeto, o sexo e o vento carregando as chamas e as cinzas vermelhas de amor, estampavam a testa do baixinho e da dear & bella.

Exausta e com os cabelos suados, deitou. Ele a segurou forte. Ficaram uma hora dormindo com a pressão do impagável bem estar, que culmina em afeto, e após, em pavor. Ela solta os braços dele para um bom sono e dorme de bruços. Sonhou, dormiu bem. Acordou. Chamou pelo nome dele, e a mesma frase de sempre “Hora de acordar...”. E agora ele pensava na relação - sexo tarde da noite - poucas horas de sono, não ser tão benéfica assim. 06:59am. Cedo demais. Ele leva Filomena em casa. Bye, bye. Te cuida colorado não praticante, amor sexual da Filomena.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Côte d'Ivoire

Quem ainda se lembra diz que a Costa do Marfim só perdeu para a Coréia do Norte pra fazer graça. O time sensação da Copa de 2010, disputada na África do Sul (um país que ocupava boa parte do território setentrional mais extremo do continente africano - daí o nome) não poderia ter perdido um jogo, ainda mais contra a Coréia do Norte (que naquele tempo ainda não era a potência econômica e esportiva que é hoje). Mas quem sabe mesmo o que aconteceu? O tempo faz tudo virar mitologia.

O fato é que muitos achavam improvável, se não impossível, que a Costa do Marfim ganhasse do Brasil e, até mesmo, de Portugal, conforme comprovam as poucas fontes que temos disponíveis. Em um raro vídeo, um dos poucos sobreviventes do grande apagão digital de janeiro de 2017, conseguimos ver trechos de um programa brasileiro de discussão esportiva (cujo nome não conseguimos recuperar), feito após a vitória marfinense sobre Portugal, onde os participantes dizem acreditar que a Costa do Marfim ficaria em segundo lugar no grupo, atrás do Brasil. Ninguém previu, porém, que poderia acontecer o mesmo ocorrido na final de 1998, quando um jogador brasileiro passou mal horas antes do jogo contra a França. Mas o fato de que cinco jogadores passaram mal na véspera do jogo contra Les Éléphants despertou suspeitas, embora mais tarde nada ficasse provado. Esse fato deu origem à expressão “amarelar”, em referência à cor da camisa então usada pelo time brasileiro.

Após a já mencionada derrota para a Coréia do Norte, passou com facilidade por Chile, Holanda (na maior goleada sofrida pelo time laranja até hoje), Inglaterra (o primeiro W.O. que se teve notícia em Copas do Mundo desde a década de 30) e finalmente, Espanha (uma das favoritas, pelo que pudemos apurar). Um jornal, conseguido pelo nosso jornalista-espião nos arquivos do governo (apesar de ainda comuns em 2010, muitos jornais impressos se perderam durante o “Ano Mundial da Reciclagem de Papéis – 2016”) classificava essa vitória como “A maior zebra da história” (a expressão “zebra” indicava um resultado inesperado, embora o animal em si ainda não estivesse extinto), o que pode soar um pouco estranho para o leitor que acompanha o mundo do futebol hoje em dia e sabe que ali começava a história de sucessos e vitórias do time costa-marfinense. O jornal também faz referências a um suposto gol de mão marcado por Drogba (o gol de mão só foi incorporado ao futebol a partir da copa de 2026).

O histórico time campeão de 2010


O Brasil ainda tentou se vingar dos “tais elefantes” na copa seguinte. Disputaram a final (vestidos de azul), mas outra vez não se deram bem. O episódio ficou conhecido como “o segundo Maracanaço”, embora não tenhamos conseguido descobrir qual foi o primeiro, pois o Brasil perdeu da primeira vez no estádio Soccer City e não no Maracanã.

Amanhã a seleção da Costa do Marfim tentará o inédito hexacampeonato contra a Coréia do Norte, em Pyongyang. Eles garantem que dessa vez não vão brincar.