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sexta-feira, 16 de abril de 2021

Gnomos

Acreditava em gnomos. E de acreditar, jurava vê-los correndo pelas gramas da praça ou, ainda mais fantástico, pela baça lente de uma luneta apontada para a lua. Não me lembro de enxerga-los, mas a história virou lenda familiar, repetida tantas vezes a ponto de confundir imaginação e lembrança que formei a partir das narrativas alheias. E nunca houve, para minha felicidade, um adulto que desmentisse a existência dos seres mágicos. Ao contrário, estava cercado de pessoas que incentivavam minha imaginação com mais detalhes, perguntas que estimulavam meu falar. De certa forma, a criança inventiva dava permissão para que os mais velhos liberassem um sentimento lúdico que andava preso pelos anos e pela rotina do concreto.

Ouvi dizer que era preciso deixar uma maçã em um canto da casa para que os pequeninos se alimentassem. Na verdade, não sei se ouvi mesmo esta instrução ou se é mais uma memória construída com ficções. Sei que gravou-se em mim a imagem de uma maçã murchando sob o móvel antigo que atulhava o estreito apartamento. Nossos cômodos tinham móveis rústicos, quase sempre de um marrom escuro (ou seria isso efeito do filme antigo dos meus olhos-registradores?) e uma fina camada de poeira eterna. Não tenho certeza, acho que jamais observei mínimas pegadas. O que só aumentava meu fascínio pelos duendes. Ou gnomos. Só anos mais tarde descobri as diferenças entre eles, porém sempre preferi chama-los de gnomos. Gostava do som da palavra, o choque de consoantes no início, a repetição das letras o’s.

Meu pai trabalhava em uma loja de móveis usados, o que justificava o apartamento então novo mobiliado com objetos antigos. Creio que esta decoração não planejada apontava já meu futuro interesse por ruínas, por vestígios de vidas gastas. Quando um móvel não acompanhava a mudança de gosto da pessoa, lá iam os funcionários da loja buscar na casa do cliente o trambolho. Vez ou quase, um deste objeto surgia como encaixe perfeito para uma parede vazia e uma necessidade cheia, então meus pais ficavam com o móvel por um desconto no salário. E sempre era possível encontrar um brinde, algo deixado pelos antigos donos das gavetas: falsas bijuterias, dinheiro sem valor, retratos.

Rememoro um final de tarde, voltava para casa com minha mãe e meu irmão. Eu balançava entre os seis e sete anos, passava o dia todo na escola, sondando letras. Ainda as descobria e já sentia prazer em observar suas curvas. Aquela terça-feira desabava em chuva, ritmava o barulho da galocha que usava em dias assim, calçado coaxando enquanto subia todos os degraus até o último andar. Meu pai abriu a porta mal chegávamos à sua frente. Tinha o rosto espantado, vigiava por trás de nós, olhando paredes e chão:

- Você não imagina o que aconteceu.

Não esperou que eu perguntasse, tamanha euforia em dar a notícia:

- Quando eu cheguei agora há pouco, abri a porta do apartamento e cinco gnomo saíram correndo, passaram por baixo das minhas pernas e desapareceram na escada. Quando fui ao seu quarto ver porque ele vinha de lá...

Entrei sem pressa de ver o que me aguardava. Estava atento ao relato, minha fantasia se desdobrava na correria dos diminutos entes. Meu pai indicou o caminho, sugerindo que eu fosse descobrir o que tinham deixado para mim. Sob a minha cama, uma pilha de livros fabulosos: Aladim, Peter Pan, Alice no País das Maravilhas. Abracei cada um daqueles livros, ignorei o cheiro de guardado que traziam impressos em suas páginas. Passava os dedos com calma sob as ilustrações, investigava com cuidado as sensações gráficas que um bloco de texto me dava. Aqueles livros, enquanto objetos, foram minhas primeiras sensualidades. Ainda hoje, quando encontro um livro excitante, leio com todos os sentidos despertos. Sou atraído por encantamentos. Porque em algum lugar em mim ficou a discreta crença de que gnomos é que são os verdadeiros editores.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

As primeiras vezes

O primeiro banho;

A primeira roupinha e o primeiro sapatinho;

Os primeiros passos;

A primeira queda;

A primeira palavra;

O primeiro dente;

A primeira cárie;


Tudo registrado, nas peças de roupas ou objetos guardados, fotos e vídeos que capturavam cada momento, e uma história decorada, na ponta da língua, pra ser contada em todo encontro com família que surgisse a oportunidade.


A primeira paixão;

O primeiro beijo;

O primeiro relacionamento;

A primeira vez;

A primeira briga;

A primeira decepção;

O primeiro rompimento;

O primeiro coração partido;


Tudo registrado nas memórias e até naquele aperto no coração que tanto experimentou esses momentos que o fizeram pulsar  mais rápido, e que hoje servem de aviso para as próximas experiências. 

O primeiro emprego;

O primeiro salário;

A primeira promoção ou

A primeira demissão;

A primeira viagem;

A primeira casa ou apartamento;

O primeiro casamento;

O primeiro filho;

...


Tudo registrado nos momentos compartilhados com os amigos, naquela noite bebendo e curtindo que você e seus amigos praticamente fecharam o bar.

São tantas as “primeiras vezes”.

Esse é o primeiro texto de 2021, e quero te convidar a refletir sobre isso: O que você vai se permitir fazer pela primeira vez esse ano? Com quem vai compartilhar? Que memórias vai guardar?



quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Uma visita inconveniente

Em uma madrugada qualquer, somos acordados por miados desesperados em nosso quintal. De relance parecia Sati. Será que ela conseguiu fugir e está tentando voltar?
Não era Sati. Era um macho. 
Um elemento ativo, não feroz, mas nocivo ao bem-estar comum.
Ao menos ao bem-estar de nossos sonos.
Foi recebido com alimento e água. Retribuiu com carícias características dos gatos, ao resvalar seu corpo peludo em nossas pernas. Estaria perdido?
Fizemos um anúncio, procuramos por alguém que o estivesse procurando. 
Ninguém respondeu. 
E ele voltava todas as noites. E, após muitas noites, voltava também todos os dias.
Foi ficando, e ficou.
O que mais me admira em sua personalidade é a audácia. Audácia de chegar chegando, de acordar todo mundo com seus miados, de se aproximar destemido de humanos e gatos, de entrar e ficar. E de sair, se assim desejar. 
Ele sai e não explica onde vai. E a gente fica sem saber se ele vai voltar. 
Mentira, no fundo, sabemos, torcemos pra ele voltar e sempre volta!
E um dia, por descuido ou ousadia, ele gostou de ficar.

O audacioso Macchu Picchu, dormindo confortavelmente no sofá da sala




segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Dia de finados

Diferente do que pode-se supor, o dia de finados não me remete à tristeza, ou sofrimento. Pelo contrário, tenho memórias afetivas muito alegres com o dia de finados.

Mas antes de falar do dia de finados estabelecido no Brasil em 2 de novembro, quero falar sobre a ideia de um dia específico para prestar homenagem aos mortos. 
A parte japonesa da minha família tem influência budista e comemora o dia de finados em outra data, 14 de julho, conhecido por Obon¹. E utilizei o termo "comemora" de propósito, porque é isso mesmo, uma festa! Muita comida gostosa, reunião de todos os parentes, conversas alegres e abraços carinhosos. É isso que me vem à cabeça quando penso em Obon, além dos rituais de acender senkô, oferecer comida e rezar para os antepassados. 
Esta vivência me mostrou uma forma diferente -mais alegre- de lidar com a morte e com os mortos.

Mesmo do lado brasileiro, o dia de finados era divertido. Isso porque minha avó materna mora bem perto de um grande cemitério da Z/L de São Paulo, e, antigamente, a rua de sua casa, assim como um trecho da avenida do cemitério, ficavam fechadas para carros, e abertas para pedestres. Ambas as vias são muitíssimo movimentadas, com trânsito de ônibus, inclusive, mas, ao menos uma vez por ano -no dia de finados- podíamos brincar livremente, sem risco de atropelamento, tão temido por minha avó.
Em minhas memórias, era um cenário quase idílico. Sol, alegria, barracas e vendedores ambulantes de flores, de pintinhos coloridos², brinquedos e muitos cacarecos. Gostava de brincar com as outras crianças de pega-pega, rouba bandeira e descer a rua de patins ou em carrinho de rolimã emprestado. E isso só era possível no dia de finados, quando a rua ficava colorida e ironicamente aberta para a vida. Essas pessoas estava indo ao cemitério visitar os túmulos de pessoas queridas que se foram, mas não me lembro de ver ninguém chorando. 
As crianças têm um mundo particular, e nesse mundo, o dia de finados era de brincadeiras e alegrias.

O tempo passou, eu cresci, e as ruas não são mais restritas aos carros no dia de finados. No entanto, surgiu um novo motivo para eu amar esse dia, o nascimento do meu sobrinho! Continuamos comemorando a vida em dois de novembro!!!  

E você, que lembranças tem do dia de finados? Você ou sua família homenageia os falecidos? De que forma?










1- Obon é uma tradição budista para consagrar os antepassados. O festival Obon é o segundo maior feriado japonês e pode durar 3 dias ou mais, variando em cada região. Nesta época (em julho, no calendário antigo ou agosto, no calendário atual) os espíritos dos ancestrais retornam ao mundo para visitar suas famílias, e os japoneses os recebem acendendo insensos (senkô) e rezando em altares domésticos (hotokesama).

2- Quando criança eu não tinha consciência, mas esses pintinhos coloridos vendidos em feiras sofriam maus tratos, inclusive intoxicação pelas tintas spray utilizadas para deixá-los mais atrativos, e por isso muitos morriam poucos dias após serem comprados. Além de toda questão ética por trás disso, hoje essa prática configura crime de maus-tratos, previsto no artigo 32 da Lei 9.605 de 1998, com pena de 3 meses a 1 ano. 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Dado



- Dado, come seu almoço.
- Não quero.
- Mas você precisa comer..
- Não quero!! Não vou!

Maria inspirou profundamente e olhou para o pai. Aposentado, na casa dos 87 anos, cabelos brancos, robusto, óculos com uma marca de dedo no canto da lente. A pessoa mais amável do mundo todos os dias. Hoje, excepcionalmente, rabugento.

O resto da família, a mãe e a faxineira, sentadas na mesa, olhavam quietas a cena desenrolar.  A regra era que um por vez falasse, para não atordoar o velho. Existe uma série de cuidados que devem ser tomados ao lidar com um familiar com alzheimer.

Uma esquecida aqui, outra lá. Uma carteira perdida. Eram só fatores que estavam relacionando à senilidade, não a alguma doença específica. Até um dia em que um dos filhos encontrou dado sentado na praça, e ele não sabia onde estava nem o que iria fazer.

Mesmo com o diagnóstico, ainda mudaram de médico, não porque não acreditavam no resultado, mas porque não confiavam no tratamento, a doença estava evoluindo rápido demais. Com um especialista localizado, mais resultados: a doença evoluiu rápido pois ele estava submedicado. Não bastasse isto, os remédios tinham efeitos colaterais pesados, aliados a outras limitações advindas da idade, como não poder levantar peso para não prejudicar a coluna, que resultou em um problema na perna.

Com um novo médico, novas orientações, estabelecimento de rotina, cuidado para que não fique doente, remédio em adesivo, falar devagar, não colocar informações demais, não deixar o paciente angustiado…

Pouco a pouco os filhos foram cercando as atividades do pai, para que ele não sentisse que perdeu a autonomia. Com o passar do tempo e a evolução da doença, sem os cuidados necessários, eventualmente um passeio em família poderia virar um desastre.

E era esse cuidado que estavam tomando agora.

Maria respirou e olhou para o pai, foi até a fruteira e voltou. Empurrou o prato de comida, com uma banana junto.

- Dado, você tem que comer esse prato, e com banana, foi a vovó Mariana quem mandou. - Minha mãe? Mandou nada. Ela morreu! - Ela morreu mas veio falar comigo em sonho. - É? - É sim senhor. Ela veio no meu sonho e falou que o senhor tem que comer tudo e com banana, pra cuidar dessa sua cãibra na perna.
Dado olhou para Maria, seus olhos de tartaruga encarando com seriedade.
- Se minha mãe mandou, não posso negar. E em respeito à ela, vou comer tudo. - Com banana. - Com banana.

E pegou os talheres e começou a almoçar.


Dado não sabe que tem Alzheimer, às vezes olha para os netos de maneira desfocada (mas logo que o conhecimento chega, ele abre um sorriso), não consegue mais ver tv ou ler jornal, fica ansioso quando chega o anoitecer, se atrapalha e esquece muitas coisas...


Mas sabe que tem que respeitar a mãe quando ela dá uma ordem, mesmo que seja do além.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

MEMÓRIAS INSISTENTES

Acordou.
Olhou para o calendário, e lembrou. A data era aquela.
Aniversário de quando ela foi embora, porque pensou que não adiantaria mais ficar com ele.

As memórias não sumiam de sua cabeça. Recordações de um tempo no qual se entendiam. Tudo era belo, bonito e gostoso de se viver. Mas nada é para sempre, e no caso deles, não foi diferente.

Ligou o rádio, para espantar a solidão. Essa sim era sua companheira.
De todas as horas. De todos os dias.

Não queria ficar naquela situação. Não queria sentir o quê sentia. Mas não tinha jeito: Por mais que os dias passassem, por mais que o passado existisse há certo tempo, o sentimento do vazio insistia em ficar.
Sabia que era hoje, o resultado de quem foi ontem. E era grato por isso.

Mas precisava continuar. Precisava encontrar forças para seguir.
Memórias insistentes. Memórias felizes, doloridas, como todos temos. Como todos experimentamos.

Já era para estar em pé. Já deveria estar se preparando para o trabalho, mas decidiu que naquele dia, não se importava em faltar. Precisava se cuidar, pois a depressão batia à sua porta. Mas cadê a força para isso?

Nada de interessante tocava no aparelho que ligara havia pouco.

Desligou.

Será que alguém se importava com ele?
Será que alguém se interessava por seu vazio?

Foi então que ouviu um ruído na porta. Algo arranhava, pedindo para entrar.

Levantou a muito custo, e abriu.
Seu cão o lambia, todo feliz, cumprimentando assim com o seu bom dia.

Sorriu!

E pensou que, pelo menos o cão, aparentava felicidade ao vê-lo. Afagou o bicho, e agradeceu.

Quanto mais ele conhecia as pessoas, mais gostava do seu cachorro.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Fragmentos de vida

Memórias são fragmentos de vida capazes de nos transportar no tempo espaço. São registros vivos do passado, das coisas que, por algum motivo, ficaram registradas e permanecem vivas em nossa alma.

Memórias florescem do inusitado, elas têm vida própria. Aromas, cores, texturas, lugares e músicas que despertam esses fragmentos de vida. Tudo o que revela o latente dentro de nós.

Alimentada pela nostalgia, algumas memórias doem pelo nosso ego. Por, de certa forma, não aceitarmos que aquilo seja apenas uma memória. Sim, elas podem ser cruéis, trazendo esse sentimento de inconformidade, mas é impossível tentar trazer para o mundo concreto uma memória, ela jamais será replicada em campo palpável novamente, pois o mesmo homem não entra no mesmo rio duas vezes.

Que a gente possa aplicar a memória seletiva e tirar do nosso “baú de recordações”, todas as memórias que nos consomem. Que não seja preciso guardar as músicas favoritas com medo de criar memórias musicais. Que, daqui para frente, os fragmentos de vida registrados sejam leves e doces.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Depois daquele beijo

E começa mais um ano eleitoral! E antes que os cientistas políticos apareçam nas redes sociais e o arranca-rabo comece a ficar mais sério, vou aproveitar o clima politicamente ameno de Janeiro para falar-lhes um pouco de algo sobre o qual eu costumo ser muito questionado nas ruas e em eventos sociais para o qual sou costumeiramente convidado: minha trajetória política. Quem conhece minha ampla participação nos movimentos sociais e minha constante e contundente preocupação com as questões que afligem a polis, logo me indaga acerca de minhas influências militantes, de meu berço revolucionário. Bom, não gosto de me gabar, mas saibam que tudo começou com um beijo..

***

O bairro inteiro estava em estado de grandiosa excitação. As equipes de rádio e TV chegaram cedo para cobrir o evento do século. Donas de casa davam entrevistas, comerciantes comerciavam, e crianças como eu se espremiam como podiam para serem captados pela TV. O orgulho era imenso, afinal, o prefeito em pessoa estaria em nossa humilde quebrada para a inauguração de seu revolucionário conjunto habitacional de influência asiática. Não sei quanto tempo ficamos esperando debaixo do sol, mas o fato é que o prefeito de fato apareceu, em carne e osso, bem na nossa frente. E, para minha mais estupefata surpresa, ele veio chegando em minha direção, postou-se ao meu lado e beijou-me calidamente a face direita, enquanto os fotógrafos davam os cliques que estampariam os jornais do dia seguinte. Os mesmos lábios que falaram “estupra, mas não mata”, que falaram “professora não é mal paga, é mal casada”, foram os lábios que me tocaram calidamente a face direita diante das câmaras de TV. Sim, Felipe Lários afirma: “Já fui beijado por Paulo Malluf”.

Por favor, não me levem a mal. Hoje eu me envergonho muito desse desditoso dia e foi só depois de muita terapia que tive a coragem de vir a público compartilhar isso com vocês. Eu preferia vir aqui e falar que eu era a garotinha que se negou a cumprimentar o Figueiredo ou mesmo o homem que se recusou a fazer a saudação nazista. Tudo era melhor do que ser o garotinho que quase se engalfinhou com outros meninos e meninas para receber um beijo do Malluf, o diferentão, o “rouba, mas faz”, “o Rota na Rua”, o tio Patinhas da Suiça. Entretanto, naquele tempo era diferente. Naquele tempo, eu me sentia o menino escolhido, o Eleito, o aliado do Paulo. Pensei comigo, se o cara confia tanto assim em mim, eu preciso cooperar!

Foi por isso que no ano seguinte eu militei pra valer! Como ainda não existia a reeleição, Malluf precisava fazer um sucessor, um braço direito, um aliado. Seu nome era Celso Pitta, que logo passou a ser também meu braço direito, meu aliado! “Se o Pitta não for um bom prefeito, nunca mais votem em mim”, dizia o Paulo na TV. E lá ia eu tentando convencer minha avó, mãe, tio e irmãos a votarem no sucessor do Paulo.  



Muitos anos se passaram desde o dia em que saí correndo pela rua comemorando a vitória de Pitta como quem comemorava um gol. O Pitta, afinal, não foi um bom prefeito e eu nunca mais votei no Malluf. Eu até pensei que o espírito malufista estava de volta, reencarnado na figura de José Luiz Datena, mas foi alarme falso. Essa semana mesmo ele desistiu de sua candidatura (pelo mesmo partido de Malluf e Pitta), dizem alguns, para não ter que falar mal de si mesmo em seu programa de TV. Mas deixem eu parar por aqui, logo os cientistas políticos chegam e fazer este tipo de confissão pode ser bem perigoso. Por favor, queimem este post logo depois de ler!


terça-feira, 22 de setembro de 2015

Meu Aurélio particular

A língua portuguesa conta hoje com quase meio milhão de palavras. Qualquer um diria que com esse número de palavras dá pra bater um lero bom. Há sinônimos para uma infinidade de adjetivos e o sujeito mais preciosista pode dizer, sem margem para imprecisão, se está triste, infeliz, desgostoso, consternado ou, em alguns casos mais preocupantes, lúgubre. 

Dia desses, entretanto, ouvi uma frase com a qual não posso deixar de concordar: "O dicionário é o cemitério da língua". Sim, a língua é fluida como as águas de um rio (como diria Marcos Bagno) e as palavras novas e mesmo os significados atribuídos às palavras antigas mudam a cada dia, dependendo de variáveis como região geográfica, contexto ou até mesmo a idade do sujeito que a pronuncia. Um dicionário, por sua vez, se não acompanhar o fluxo dessas mudanças, será somente um depósito de palavras caquéticas.

Pensando na fluidez da língua, um fenômeno interessantíssimo de se observar é a existência de léxicos familiares, ou seja, um apanhado de palavras que só são inteligíveis dentro da unidade familiar e que, se utilizado fora desse contexto, é encarado como esquisitice. Dito isso, quero compartilhar com vocês parte do léxico de minha família de origem, o nosso "Aurélio particular".

Gostaria de iniciar pelos termos mais pudendos porque creio que é aqui em que reside o cerne da questão, porque acredito que as famílias não se distinguem pelo sobrenome, mas pelo modo como nomeiam suas partes pudendas. O órgão feminino é, sem sombra de dúvida, aquele que mais atenção recebeu por aqueles de minha laia. A forma mais popular para designá-lo é o curioso monossilabo tchó, que se pronuncia de maneira análoga à palavra tchau. O uso era (é) tão forte que as mulheres de minha familia de origem, ao quererem exprimir preguiça ou impaciência, diziam "não tô com tchó pra isso hoje" (e jamais utilizavam a palavra "saco" nestes casos). Um outro vocábulo para referir-se à tchó é o não menos curioso dissílabo pota (lê-se "póta"), mais largamente utilizado pelas gerações mais antigas e invariavelmente num contexto mais pejorativo do que aquele em que o inocente tchó está presente. A expressão pota lisa (em tradução livre: tchó sem pêlos) pode ser entendida, por exemplo, como alguém que quer se aparecer ou, para utilizar outra expressão de meu léxico familiar, alguém que quer nome.

O órgão masculino, por seu turno, também recebeu entre os meus alcunhas memoráveis. Os mais antigos referiam-se a ele por malacha (malatcha) ou simplesmente mala. Os de minha geração adotaram o vocábulo benga e, os mais jovens, referem-se ao ditoso membro por badola, demonstrando que o léxico familiar também está envolto por conflitos geracionais.

Mas não só de partes baixas vivia nosso léxico familiar. Assim, deixo as partes pudendas para compartilhar com vocês o mais importante e multifuncional dos vocábulos de minha família, a conhecidíssima palavra colega, que em minha casa sempre foi um grande enigma. A palavra colega sempre era utilizada para designar algo que se queria ocultar. O colega gelado, por exemplo, queria dizer sorvete e era usada nesses termos quando utilizada próximo a crianças para que estas não ficassem com vontade ou algo do tipo. Um adulto poderia dizer no meio do almoço em família, por exemplo: "Alguém comprou um colega gelado para a sobremesa?". O mesmo valia para a pizza que era a colega redonda: "Vamos pedir a colega redonda hoje ou deixamos para outro dia?". E por ai vai. O colega, era sempre alguém tacitamente conhecido pelos interlocutores mas cuja pronúncia do nome era indesejável, geralmente pela existência de um terceiro na cena. Inevitavelmente volto às partes pudendas: "estou com coceira no(a) colega" ou "Não esqueça de lavar o colega cheiroso" eram outras aplicações bem frequentes do coleguismo.

O mais interessante é que este vocabulário próprio saía com naturalidade. Aliás, eu jurava que algumas dessas palavras eram de domínio público até muito tarde. Foi só quando algumas pessoas passaram a me olhar meio torto que eu fui percebendo que era só em casa que eu podia dizer que tinha sobe (dó) de alguém ou que alguém era bocolão (bobão) sem ser taxado de estranho. E mesmo hoje, após tanto tempo de imersão no mundo público, sempre que escuto alguém referindo-se a outro por  "colega", dentro de mim se forma instantaneamente um sorrisinho de cumplicidade.

domingo, 22 de março de 2015

Curriculum Vitae

Acho que a primeira vez que tive que decidir o que seria pro resto da minha vida, foi quando fui conhecer a escola em que faria o Ensino Médio. A escola em questão era profissionalizante, de modo que eu faria o ensino regular no período da manhã e teria que escolher entre algum curso técnico para fazer no período da tarde: Eletrônica ou Administração de Empresas. Julguei a primeira opção mais divertida e enveredei por este caminho "Quero ser técnico em eletrônica" afirmei pra minha mãe na fila da matricula. Minha mãe, que tinha mesmo muitas coisas lá em casa precisando de um conserto, aceitou satisfeita esta minha vocação e marcou "x" no quadradinho correspondente ao curso escolhido. E assim se fez.

Deste tempo eu guardo a lembrança de muitos choques, de minha mãe reclamando da mesa queimada com o calor do ferro de solda e da blusa de nylon novinha que eu furei pelo mesmo motivo. Jamais consertei um radinho a pilhas e ainda quebrei outros tantos, na tentativa de entender como funcionavam. Entretanto, nem tudo foi um desastre. Minha classe tinha 36 meninos e 4 meninas, uma delas era a Carol, a menina que salvava meus projetos, impedindo que eles virassem catástrofes ainda maiores! Ela ficou tão compadecida e preocupada que não me largou nunca mais. Nossa projeto mais recente se chama Júlia, que já aprendeu a nos chamar de "Papai Fê" e "Mamãe Talól".

Com um diploma de Eletrônica em mãos, nada mais óbvio do que procurar um emprego... numa farmácia. Na verdade, lá foi onde eu acabei indo trabalhar, mas também fui aceito como "o-moço-que-fica-andando-de-patins-pelo-supermercado-para-resolver-pequenos-pepinos-com-mais-velocidade", mas como nunca soube andar de patins, acabei indo pra farmácia mesmo. Lá aprendi coisas interessantes como, por exemplo, a diferença entre gel, pomada e creme, a diferença entre Viagra, Cialix e Levitra e o significado da palavra enema. Com estes úteis conhecimentos em mãos, evidentemente, fui prestar vestibular para... Ciências Sociais.

Passei e posso dizer que gostei muito do curso. Gostei tanto, que nunca consegui me decidir em qual área me especializar. Fiz minha Iniciação Científica em "Sociologia do Trabalho", fiz meu trabalho final de metodologia em "Antropologia Urbana", fiz monitoria no "Núcleo de Estudos da Violência" e montei pré-projeto de mestrado em "Sociologia da Educação". Achei todos eles interessantíssimos!

Tão interessantes quanto os estágios que fiz durante minha graduação para ver se descolava uma graninha: um na Faculdade de Saúde Pública, outro na Medicina, um terceiro no Instituto de Saúde e, para finalizar, um no Hospital Universitário! Mais um pouco e tirava meu CRM!

Isso sem falar nos cursos de desenho, ilustração e violão que fiz no meio de tudo isso, para me acalmar.

Depois de passar por tantas áreas de minha Universidade, eu criei apego e resolvi ser funcionário dela. Trabalho na área financeira e, uma vez por semana, assisto aula como ouvinte no curso de "Literatura Infantil e Juvenil". Estou cheio de ideias na cabeça e ainda sem saber o que quero da vida, ou melhor, sabendo que quero muitas coisas dela! 

   

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Sobre o sertão, ou os sertões


Sugestão: ler ouvindo "Um violeiro toca", de Almir Sater e Renato Teixeira


O sertão, no meu imaginário, uma pessoa que nasceu e viveu na região sudeste do Brasil, é seco, triste, árido, quente, distante, amargo.

O sertão que conheci é mais ou menos assim, mas de um jeito diferente:


A seca e a aridez dividem espaço de uma forma ao mesmo tempo contrastante e harmoniosa com as águas do Velho Chico, que encheram meus olhos com uma beleza tocante, e meu coração de uma felicidade sem tamanho. Banhar-me em suas águas foi a realização de um sonho, renovou minhas energias, refrescou meu corpo e acalmou minha alma.

A tristeza, que vem da fome e da morte, se escondeu. Acabei por encontrar um povo alegre por saber da sorte que possuem em viver ali.

O sertão que conheci é quente... muito quente! O calor é intenso, seja do clima, que atinge facilmente os 30 graus no meio da noite, seja na receptividade das pessoas, muito gentis e generosas. Não apenas as que são de lá, mas também as que são de outros lugares e a vida as levou a ficarem lá. Não é tão difícil querer ficar.

A distancia é relativa... longe de umas coisas, mas próximo de outras... E é bom se afastar de vez em quando da nossa zona de conforto. Viagens nos proporcionam isto: ao viajar entramos em um estado mais aberto a novas experiências, a conhecer novas pessoas, novos sabores e sensações... e só temos a ganhar com isso. Sei que valeu a pena cada uma das 22 horas de viagem.

O amargor? Esse não vi por lá, não. O sertão foi bem doce comigo... me proporcionou momentos incríveis, amigos queridos, lembranças lindas e convites para voltar, e para ir além.




quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Sobre lembrar

Lembranças e memórias impedem a porta de fechar.

Atrasam as horas, o tempo se arrasta e o passado se espalha no presente, como uma onda se espalha pela praia quando quebra na areia. 

Ver você de novo. Reviver. Até mais forte do que antes, até mais real?

Como o vento que não se vê...reviver de olhos abertos.

Um jogo de luzes....qual é a real cor se a luz que incide transforma aquela natureza?

Lembrar também é criar. Sentir o cheiro daquela casa, sentir alegria, angústia e até frio.

Reconstruir cenas inteiras.

Viver é infinito...

domingo, 22 de junho de 2014

A Copa de 94 e Eu...


Aos 8 anos eu não entendia nada de futebol. Minha mãe, muito preocupada com aquele meu defeito, espalhava bolas pela casa toda na esperança de que eu esbarrasse em alguma e - tomara Deus - tomasse gosto pela coisa. Não adiantava. Na escola eu declarava a todos que não tinha time e logo mudava de assunto quando alguém começava com aquele assunto que eu não dominava.

O tempo foi passando e minha mãe foi perdendo as esperanças. Ela passou a se conformar com o fato de que o filho dela não tinha os mesmos interesses de todos os meninos daquela idade e deixou de tentar remediar o irremediável. Deus haveria de cuidar de mim e me dar amigos, ainda que eu fosse daquele jeito. 

***

Aos que não gostam de futebol, devo dizer que esta história não acaba bem. Eu não passaria ileso aquele ano de 94. 

***

O ano ia se aproximando da metade e meu irmão mais velho estava de namoradinha nova. Eu, que não sabia nada de futebol, entendia menos ainda de namoros, de modo que alugava a pobre moça para brincar comigo, sem me importar com o infortúnio que aquilo representava a ele que, afinal, não tinham lá muito tempo para ficar junto dela. 

O fato é que até mesmo ela parecia se interessar bastante por aquele esporte. Aliás, naquele mês de junho todos ao meu redor só falavam disso. Era a Copa do Mundo, ela me explicava, um campeonato que acontece a cada 4 anos e que o Brasil não ganhava há mais de 20! Opa, aquilo começava a ganhar ares desafiadores e, consequentemente, a me interessar. Essa coisa de competição era algo que me atraia bastante naquela época.

Os dias foram passando e eu fui me interessando por aquelas conversas. O Brasil, diziam, tinha um time apenas regular e dificilmente iria muito longe naquela Copa, o que só aumentava minha recém adquirida ansiedade futebolística. Por fim, o primeiro jogo. Me lembro da família reunida na sala e do gol do Raí, de pênalti, contra a Rússia. Nesse jogo, eu aprendi o que era um pênalti. Com a minha futura cunhada, como a essa altura já se supõe.

No jogo seguinte eu aprendi o que era uma goleada e também aprendi que havia um país chamado Camarões. Contra a Suécia eu aprendi que aquele tal de Romário era bom mesmo e que se podia contar com ele em jogos difíceis como aquele. O Brasil havia se classificado para as oitavas de final, minha didática e tão solicita cunhada me explicava, e agora não poderia mais perder se quisesse ser campeão. Foi nesse dia que aprendi o que era uma prorrogação e disputa por pênaltis. Aquilo estava ficando cada vez mais interessante! 

Os donos da casa estavam em nosso caminho. Os Estados Unidos eram os anfitriões e disputavam aquela partida justamente no dia em que comemoravam o aniversário da independência do país, mas naqueles tempos eu pouco entendia da importância daquilo tudo e só queria saber qual era a dificuldade de se enfiar uma bola minúscula num gol daquele tamanho. Naquele dia, pela primeira vez uma partida de futebol me deixou nervoso. Avançamos com Bebeto e enfrentaríamos a Holanda!

Ah, a Holanda! Eles conseguiram empatar um jogo que parecia ganho e fizeram do gol do Branco, no fim do jogo, um acontecimento épico em minha memória futebolística. Foi nesse dia que Bebeto inventou a icônica comemoração do bebê sendo embalado e que seria muito imitada por mim em meus gols infantis, eu que ainda nem tinha filhos. O Brasil estava na semifinal e jogaria novamente contra a Suécia.

Contra os suecos eu aprendi que meu nervosismo poderia atingir níveis estratosféricos e que um baixinho de 1,68 poderia fazer um gol de cabeça e levar o Brasil à final. 

Àquela altura eu já estava mergulhado naquele mundo e já não dependia tanto dos ensinamentos de minha cunhada, já podíamos torcer de igual pra igual naquele jogo contra a Itália. E foi o que fizemos. Por 3 angustiantes horas...

***

Já se vão 20 anos daquela final, mas ainda me lembro de minha avó, com um terço na mão, rezando por cada jogador durante o hino nacional, da angústia da prorrogação e das cobranças de pênaltis, da alegria que atingiu a todos em minha casa naquela noite e dos pulos que iam mais altos que a bola de Roberto Baggio! 

Aos 8 anos eu não entendia nada de futebol. Não sabia que os jogadores eram milionários e que trocavam de time conforme a conveniência financeira. Não sabia que muita gente se digladiava por causa do futebol e que, naquela mesma Copa, um jogador colombiano fora assassinado em seu país por ter tido a infelicidade de ter feito um gol contra. Não entendia nada de xenofobia, racismo e machismo e muito menos a relação disso tudo com o futebol. Não sabia que o futebol era um negócio e que ele poderia movimentar tanto dinheiro. Não sabia o que era máfia e nem corrupção. Pensava que o futebol era apenas um esporte.

Em 94 eu gostava bem mais de futebol do que eu gosto hoje. Não porque em 94 o futebol fosse mais inocente. Mas porque eu era...













domingo, 22 de dezembro de 2013

De como deixei de acreditar em Papai Noel

Não, "acreditar" não é a palavra. Isso porque eu jamais coloquei em dúvida sua existência. Para mim o Papai Noel existia, assim como minha mãe existia e assim como eu próprio existo. Não era o tipo de coisa que dependia de algum tipo de crença. Ele não existia. Ele ERA.

Era todo ano a mesma coisa. Conforme os ponteiros do relógio iam se aproximando da meia-noite, os adultos, devidamente mancomunados, iam trocando olhares suspeitos. Como ninguém em minha casa tinha fantasia de Papai Noel, os ardilosos mandavam minha irmã e eu nos escondermos no banheiro "já que o Papai Noel teria uma longa noite pela frente e não tinha tempo de cumprimentar cada criança de cada casa"- diziam. 

Até hoje não entendo como este argumento mequetrefe nos convencia: lá íamos nós, com o coração aos pulos e a curiosidade nas alturas, nos trancar no pequeno banheiro dos fundos. De repente uma campainha tocava (sim, os malandros pensavam em tudo e sim, minha casa não tinha chaminé), uma conversa era forjada entre os adultos e o Papai Noel (sim, ele não tinha tempo para cumprimentar crianças, mas ficava de papo furado com os adultos. Velho hipócrita!). De repente, um murmurinho indefinido e um silêncio. Daí, alguém mandava nos chamar! Atravessávamos a casa antes de alguém conseguir dizer "ho ho ho" e lá estavam os presentes que o velhinho gorducho nos deixara (os melindrosos ainda tinham a sutileza de deixar um copo de refrigerante pela metade, para simular que alguém muito apressado o bebericara).

A farsa deu certo por 7 anos. 

No início do oitavo, o SBT estreava o programa dominical Hot Hot Hot, apesentado por Silvio Santos. Este fato, aparentemente inocente, transformaria para sempre os hábitos natalinos de minha família. Numa certa ocasião, em uma atração voltada para crianças, Silvio Santos entrevistava o ator-mirim que interpretava Julinho em Éramos Seis (a melhor telenovela de todos os tempos, segundo meu próprio julgamento e sim, minha família assistia muito SBT naquele tempo). Papo vai, papo vem, até que o proprietário-apresentador pergunta: "Má oi, Julinhoam, hihi, oi, vem pra cá, quando você deixou de acreditar em Papai Noel?".

Um filme se passou na minha cabeça em questão de segundos. O banheiro. A campainha. O refrigerante.

A verdade veio à tona. Me senti como Truman (em "O Show de Truman. O show da Vida"), quando seu barco se chocou no cenário que era seu mundo.

E foi assim que deixei de acreditar em Papai Noel e passei a acreditar em Silvio Santos.


***

Retrospectiva dos dias 22 em 2013



sábado, 13 de outubro de 2012

Anos incríveis


Na casa da minha avó tinha um monte de flores chamadas capitães. Todas eram muito coloridas e nelas os insetos, como grilos e borboletas, adoravam pousar.
Uma das minhas brincadeiras prediletas era passar a tarde correndo atrás dos insetos com um pote de vidro e capturá-los para colecionar.
Um dia a mulher que trabalhava em casa me ensinou que eu podia amarrar um cordão nas borboletas e carregá-las para onde eu quisesse, como um “inseto de estimação”.
E assim o fiz.
Apesar de a brincadeira ser maldosa, ela era uma ótima pessoa.
A empregada anterior que trabalhava em casa não tinha muita paciência com crianças e a tarde ela gostava de convidar eu e minha irmã para brincar de “dormir”. A gente dormia nas cadeiras embaixo da mesa (vocês podem imaginar o quão “divertido” era) e às vezes eu era “convidado” a dormir na rede. Como dificilmente o sono vinha, a saída era deitar de cara para baixo e ficar olhando as horas passarem pelas frestas da trama do tecido.
Isso tudo aconteceu numa pequena cidade do interior de São Paulo.
Nessa pequena cidade eu tive a possibilidade de vivenciar aquela infância que os saudosistas adoram encher a boca para falar que tiveram. Sou um deles.
Com uma população estimada em pouco mais de 7 mil habitantes eu e meus amigos tínhamos espaço suficiente para brincar na rua. E como brincávamos.
Era esconde-esconde, mamãe da rua, salva, stop, queimada, fazíamos lojas com os brinquedos, laboratório para extrair o colorido das plantas (chamávamos de brincar de líquido)  e tudo mais que a imaginação e a liberdade permitia.
Ao lado de casa morava a Dona conceição, que fazia um prato de feijão de corda com farinha de mandioca que era delicioso e era carinhosamente apelidado por ela de “cudegrilo”. Era uma grande figura, quase folclórica, saída de um livro de Monteiro Lobado.
Outra casa abaixo morava, a não menos folclórica Dona Darcy; ela era a benzedeira da rua. Negra com a cabeça sempre envolta num lenço, ela era casada com o “Seu” Zé lemão (abreviação de Zé alemão, que de alemão só tinha o nome). Ele era a diversão dos meninos da rua, que entravam em êxtase quando, ao chamarem por seu apelido, o escutavam soltando um sonoro “fio duma égua ou fio duma puta”.
A casinha velha e pequena de madeira continua lá. Os dois, não mais.
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Quando estava na terceira série eu ganhei um concurso de redação. Era para falar sobre a árvore mais bonita da cidade na aula da “Tia” Cleusa e eu escolhi a árvore da estação de trem. Ela era frondosa e imponente. Lembro de admirá-la todas as vezes em que meu pai levava eu e minha irmã para ver o trem passar (e nessa hora tínhamos que nos agarrar muito forte num poste perto da passarela porque ele nos dizia que o trem poderia nos puxar com a sua velocidade. Era perigosamente divertido)
A cidade ainda continua lá a árvore da estação talvez não mais; mas minhas lembranças de infância ainda continuam plantadas em cada canto.
Cada vez que eu volto é como se entrasse num filme projetado pela minha mente. Quando eu parto, tenho a impressão que a câmera vai subir num plano plongeé e eu verei a cidade inteira por cima e mais uma vez guardarei todas essas lembranças, assim mesmo, na visão inocente e pueril de uma criança, já esperando o próximo momento em que as cortinas se abrirão e eu as assistirei aqui mesmo, no escurinho de dentro da minha cabeça.




quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Lc 10:25-37

Esses dias me lembrei de meu primeiro emprego.

Era balconista, operador de caixa, lavador de banheiro e substituto da gerente em uma das unidades da rede Drogasil. Lá, de jaleco branco com gola vermelha e listras pretas, eu aprendi de tudo, até mesmo atender ao telefone com classe: "Drogasil Bonfiglioli, com descontos de 10 até 55% em todos os medicamentos tarjados, Felipe, boa tarde!"

Mas não quero vir aqui me gabar por ter usado a maior saudação telefônica de todos os tempos. Me lembrei de meu primeiro emprego porque lembrei de uma cena um tanto curiosa que presenciei por lá. Estávamos para fechar a loja, devia ser umas dez e meia da noite e estava  muito frio. Fazia um inverno com I maiúsculo em São Paulo naquele ano de 2005 e, a exemplo de outros estabelecimentos nesta época do ano, mantínhamos uma caixa da "Campanha do Agasalho" na porta da loja. A caixa já estava quase cheia e mais dia, menos dia, um caminhão passaria para recolher os agasalhos para doação.

Estava eu todo agasalhado, com o jaleco por cima da blusa, só contando os minutos para abaixar a pesada porta da loja, até que eles apareceram. Na distração em que estava não vi bem de onde vieram e nem quando entraram, mas reparei bem como se vestiam: estavam de camiseta regata, bermuda rasgada e chinelo Havaianas, olhavam para a caixa com os agasalhos. A gerente da loja, que naquele dia fazia plantão, logo se aproximou "O que vocês querem aqui?". O menino mais novo fez menção de partir, puxando o mais velho pelo braço. O menino mais velho, ainda que timidamente, tomou coragem para falar com minha gerente: "Será que a gente pode pegar uma blusa da caixa?". Minha gerente, muito bem agasalhada, prontamente lhes respondeu: "Não, essa caixa é para a "Campanha do Agasalho", para ajudar as pessoas que sentem frio"...

Os meninos não questionaram a resposta daquela senhora tão bem apessoada e tão distintamente agasalhada e  se foram... abraçados um ao outro para tentar esquentar aquela noite que acabara de se revelar ainda mais fria...