sábado, 13 de outubro de 2012

Anos incríveis


Na casa da minha avó tinha um monte de flores chamadas capitães. Todas eram muito coloridas e nelas os insetos, como grilos e borboletas, adoravam pousar.
Uma das minhas brincadeiras prediletas era passar a tarde correndo atrás dos insetos com um pote de vidro e capturá-los para colecionar.
Um dia a mulher que trabalhava em casa me ensinou que eu podia amarrar um cordão nas borboletas e carregá-las para onde eu quisesse, como um “inseto de estimação”.
E assim o fiz.
Apesar de a brincadeira ser maldosa, ela era uma ótima pessoa.
A empregada anterior que trabalhava em casa não tinha muita paciência com crianças e a tarde ela gostava de convidar eu e minha irmã para brincar de “dormir”. A gente dormia nas cadeiras embaixo da mesa (vocês podem imaginar o quão “divertido” era) e às vezes eu era “convidado” a dormir na rede. Como dificilmente o sono vinha, a saída era deitar de cara para baixo e ficar olhando as horas passarem pelas frestas da trama do tecido.
Isso tudo aconteceu numa pequena cidade do interior de São Paulo.
Nessa pequena cidade eu tive a possibilidade de vivenciar aquela infância que os saudosistas adoram encher a boca para falar que tiveram. Sou um deles.
Com uma população estimada em pouco mais de 7 mil habitantes eu e meus amigos tínhamos espaço suficiente para brincar na rua. E como brincávamos.
Era esconde-esconde, mamãe da rua, salva, stop, queimada, fazíamos lojas com os brinquedos, laboratório para extrair o colorido das plantas (chamávamos de brincar de líquido)  e tudo mais que a imaginação e a liberdade permitia.
Ao lado de casa morava a Dona conceição, que fazia um prato de feijão de corda com farinha de mandioca que era delicioso e era carinhosamente apelidado por ela de “cudegrilo”. Era uma grande figura, quase folclórica, saída de um livro de Monteiro Lobado.
Outra casa abaixo morava, a não menos folclórica Dona Darcy; ela era a benzedeira da rua. Negra com a cabeça sempre envolta num lenço, ela era casada com o “Seu” Zé lemão (abreviação de Zé alemão, que de alemão só tinha o nome). Ele era a diversão dos meninos da rua, que entravam em êxtase quando, ao chamarem por seu apelido, o escutavam soltando um sonoro “fio duma égua ou fio duma puta”.
A casinha velha e pequena de madeira continua lá. Os dois, não mais.
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Quando estava na terceira série eu ganhei um concurso de redação. Era para falar sobre a árvore mais bonita da cidade na aula da “Tia” Cleusa e eu escolhi a árvore da estação de trem. Ela era frondosa e imponente. Lembro de admirá-la todas as vezes em que meu pai levava eu e minha irmã para ver o trem passar (e nessa hora tínhamos que nos agarrar muito forte num poste perto da passarela porque ele nos dizia que o trem poderia nos puxar com a sua velocidade. Era perigosamente divertido)
A cidade ainda continua lá a árvore da estação talvez não mais; mas minhas lembranças de infância ainda continuam plantadas em cada canto.
Cada vez que eu volto é como se entrasse num filme projetado pela minha mente. Quando eu parto, tenho a impressão que a câmera vai subir num plano plongeé e eu verei a cidade inteira por cima e mais uma vez guardarei todas essas lembranças, assim mesmo, na visão inocente e pueril de uma criança, já esperando o próximo momento em que as cortinas se abrirão e eu as assistirei aqui mesmo, no escurinho de dentro da minha cabeça.