domingo, 20 de março de 2022

Uma guerra se faz com ódio

Uma guerra não se faz com armas, se faz com ódio. Bombas, tanques e armas são meras ferramentas a serviço de um sentimento levado às últimas consequências. É o ódio que faz um soldado russo desviar a rota de um tanque para esmagar o carro de um civil desconhecido.

Para alimentar o ódio, a disputa de narrativas utiliza as mesmas táticas seja qual for o lado. Se o ódio for anterior ao conflito tudo fica mais fácil. Por isso as reações às guerras são variáveis.

A população da Ucrânia se encaixa em uma referência idealizada, que motiva um deputado a viajar até próximo ao conflito e tentar colher os frutos da suposta benevolência, até ser desmascarado pelos áudios de bastidores. Mais que ajudar, havia o interesse na beleza caucasiana. Diante do indefensável só foi possível alegar que “pelo menos ele não roubou”, mas a viagem foi paga com dinheiro público.

Conflitos na África ou Oriente Médio não contam com a simpatia ao padrão caucasiano. Não se trata de fiscalizar tristezas. É compreensível que nos sentimos tocados por alguns eventos mais que por outros. Ainda assim, não é por acaso que olhamos para questões internacionais como uma simples divisão de heróis e bandidos.

Em um sistema econômico que traz o capital no nome, a preocupação não está voltada para a sociedade. Se estivesse, as divergências seriam resolvidas com diplomacia. A milionária indústria bélica lucra rios de dinheiros com bombas e armas, comercializada com todos os envolvidos no conflito. A especulação financeira analisa a guerra para decidir de onde tirar e onde aplicar o capital que batiza o sistema econômico.

Alguns ingênuos apostam no capital para solucionar as guerras, com sanções econômicas que só prejudicam a população do país alvo. Hoje há quem boicote o strogonoff e os clássicos da literatura russa, em atitude comparável a tomar cloroquina contra Covid. Não notam que, assim como no livro 1984, de George Orwell, os inimigos a serem odiados são fluidos.

Se ontem a Venezuela deveria ser riscada do mapa, hoje a maior reserva de petróleo do mundo deve ser aliada, para suprir a carência provocada pelo boicote ao petróleo russo. Os direitos humanos, a serem respeitados incondicionalmente, são relativizados quando ao mesmo tempo em que são defendidos na Ucrânia, são desprezados na Arábia Saudita, que executou mais de 80 pessoas enquanto vendia petróleo para também suprir a carência gerada pelo boicote aos russos.

Mais uma vez o ódio entra em cena para relativizar e justificar as execuções sauditas. Eram todos terroristas. Não é de hoje que atividades ilícitas são utilizadas como suposto argumento para invalidar direitos humanos. Uma breve passada por programas policiais no Brasil deixa esse argumento bem claro.

Divergências entre seres humanos que possuem interesses conflitantes são inevitáveis. Existem em pequenos círculos familiares, que dirá entre grandes potências mundiais. Mais útil do que procurar por heróis e bandidos, é compreender que não há heróis em guerras. Há vítimas. Vítimas do ódio, vítimas de aproveitadores, vítimas de interesses econômicos.

sexta-feira, 18 de março de 2022

nascimentos

São Paulo, sexta-feira, 18 de março de 2022

- nascimentos - Cristina Santos - post 22 - Blog das 30 pessoas - 

título: nascimentos

   Do romance da poesia e do conto, nasceu a crônica. A crônica ficou grávida do vento, e pariu uma tempestade. A tempestade destruiu o mundo, e cada pedaço do meu corpo, é uma entrada para outra dimensão. 

Oiê, Pessoal.
Até o próximo post.
Beijos, 
Cristina Santos 

P.S.: escrevi esse miniconto em abril de 2017.
   

quarta-feira, 16 de março de 2022

A casca de nós


Nebulosa Olho de Gato / Telescópio Hubble

Duas imagens acompanham minha infância, vindas sabe-se lá de que distância do tempo ou do espaço, repetindo em ondas um anseio: quero um escritório e um laboratório. Desejava, antes mesmo de saber efetivamente as primeiras letras, que me formaria em duas profissões, ainda que não soubesse exatamente o que esses dois faziam. Não eram vontades gêmeas: escrever nasceu primeiro e não gostava da ideia de ser vontade única. Provavelmente do olhar de espanto diante da existência, inventei de ser também cientista. Entrava em silêncio reverencioso no apertado laboratório da escola pública, onde jaziam em potes de vidros diversos exemplares de cobras e sapos (creio que todo viviam na lama do brejo que servia de assento à escola).

Quando finalmente fomos morar em uma casa com um quintal lateral, meu pai providenciou um laboratório feito de madeiras velhas e papelão. Um resto de estante guardava maçarocas de folhas, misturas de produtos de limpeza e anotações de observações aleatórias. Naquele instante, escrever perdeu a força. O que interessava era descobrir do que era feito o mundo, o que havia além da lua, pensar como alguém vivia em paz sabendo de nossa pequeneza espacial, de nosso rodopiar do nada ao nada. Era disfarçada de teologia a filosofia que ameaçava nascer em mim.

Foi quando cheguei ao Fundamental II, aquele momento da escola em que uma única professora não era o suficiente para caber todo conhecimento. Surgiram disciplinas que desconhecia: física, química, biologia. Matemática. A existência dos números em meio ao X, ainda hoje é, para mim, um absurdo da linguagem. O que tem um X que se meter com números? A matemática jamais fez parada em mim, no máximo passava correndo, deixava cair uma ou outra equação que eu teimava em guardar, mas logo acabava no limbo do esquecimento. E a passagem dos anos só fez piorar minha relação com o que almejava: embora fosse ainda atraído pela ciência, ela me desprezava, com seus múltiplos braços numéricos, seus olhos de hipotenusa. A escritura ganhou velocidade e me encheu de energia, gritando: faça isso.

Muito depois, já fazendo teatro, estudando artes, rascunhando frases, descobri a poesia. E com ela (prima-irmã da filosofia que também ganhava corpo), encontrei modos de dar forma aos meus pasmos. Continuei um investigador, não mais lidando com frações, mas dançando teorias, sons e figuras. Penso que se tivesse estudado em uma escola de melhor qualidade; se tivesse mais paciência comigo e com os números; se tivesse outros tantos Se’s, talvez tivesse me tornado um cientista de exatas, um geólogo, neurocientista. Não me ocorriam as Ciências Humanas, pois nada que era humano me parecia passível de se tornar científico.  Entendia o ser humano como meio, isso é, estava entre o absolutamente minúsculo - dos átomos e bactérias – e o infinitamente gigantesco dos buracos negros e dimensões.

Nem por isso virei a cara para quem eu queria. Continuei vendo documentários, lendo artigos, livros. Chegaram a mim as falas afetivas de Carl Segan, Neil deGrasse Tyson e Stephen Hawking, físicos que beiravam a poesia quando explicavam conceitos; ao lado deles, vieram Haroldo de Campos, Ferreira Gullar, João Cabral de Melo Neto, poetas da matéria, que por vezes sopram conceitos científicos. Nessa alquimia descobri que não estava tão longe, havia uma ligação nessas relações: a escrita nasceu com a ciência, para mim, dos mesmos assombros. E esse vínculo abarcava, sobretudo, a humana percepção de saber-se travessia num mistério sem fim.

Talvez seja mesmo infinito o universo, no entanto não o tempo da vida. Foi em um dia como hoje, 14 de março, que morreu Stephen Hawking, depois de passar a maior parte da existência assolado por uma doença que o fechou fisicamente, mas expandiu sua mente para recônditos do cosmos. Morreu no mesmo dia em que, no Brasil, se comemora (ou já se comemorou? há o que se comemorar?) o Dia Nacional da Poesia. E esse vínculo, cogito, deve ser parte da teoria de tudo.

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ps: Hawkins morreu no mesmo dia em que Marielle Franco foi assassinada em plena luta. Quatro anos em que ecoa a pergunta: quem mandou matá-la?

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ps 2: para quem gosta de ler minhas crônicas, tenho publicado semanalmente crônicas curtas lá no Instagram: @tadeu_renato

 

terça-feira, 15 de março de 2022

São Paulo 0 X Edimburgo 1 (Coleta de lixo)

Fala galera!

Acreditam que já vai fazer 6 meses que estamos na Escócia? O tempo passou muito rápido! 

Ao contrário do que parece, o título desse post não se refere a um jogo de futebol, nem a nenhum outro jogo. Como comemoração aos 6 meses vivendo em Edimburgo, vou iniciar uma séries de posts contando alguns detalhes do dia a dia da vida aqui, fazendo um contraste com São Paulo, minha cidade natal. 

Vamos começar falando sobre a coleta de lixo. Aqui no Reino Unido, a coleta de lixo é muito organizada! Para começar, a prefeitura fornece 5 lixeiras diferentes (veja exemplos na imagem abaixo), uma para cada tipo de material:

  • Vidro: não é bem uma lixeira, é mais uma caixa de plástico sem tampa. Essa não tem uma cor específica, cada casa pode receber uma cor. Mas ela é fácilmente identificada pelo formato diferenciado.
  • Comida (crua ou cozida): é uma lixeira pequena da cor cinza - tem um exemplo na foto.
  • Recicláveis: é uma lixeira bem grande da cor verde (veja foto). Aqui, devemos colocar papel, papelão, garrafas de plástico.
  • Jardim: é igual a lixeira de recicláveis, mas da cor marrom.
  • Todos os demais: o formato da lixeira é igual o da lixeira de recicláves, mas a cor é cinza e ela é mais fina, propositalmente pensada para caber menos lixo. 




O caminhão de lixo passa uma vez por semana. Aqui no nosso bairro é na quinta-feira. Semanalmente, os restos de comida são levados embora. Já os recicláveis e não recicláveis são coletados a cada quinze dias, na forma de revezamento: numa quinta-feira leva-se o lixo reciclável e na outra quinta o não reciclável. O lixo de jardim é coletado uma vez por mês.

Para quem mora em casa, essas lixeiras não são fixas na rua. Elas devem ser guardadas no jardim ou em algum cantinho perto da sua casa. Daí, no dia de coleta, você coloca para fora, como indicado na foto. Para quem mora em apartamento, as lixeiras tem outro formato - são maiores - e ficam fixas na rua, mas a divisão da coleta seletiva é igual.

Aqui em Edimbirgo venta MUITO! Então, é muito comum perder a lixeira pequena de comida. O vento é tão forte que leva ela embora para um lugar que ninguém acha ou pode até quebrar. Nesse caso, a gente precisa ir no site da prefeitura e solicitar uma nova, que é entregue em poucos dias. O vento também costuma tombar as lixeiras grandes, e nesse caso o lixo que está lá dentro sai voando pela cidade. Vira e mexe encontramos um saco plástico preso numa árvore, culpa do vento.

Em São Paulo, não tinha nada disso! No bairro onde nasci e vivi a maior parte da minha vida (uns 28 anos), a coleta de lixo passava duas vezes por semana e não tinha coleta seletiva. A gente separava os materiais recicláveis em casa por conta própria e entregava para uma cooperativa.

Portanto, no questio coleta de lixo, pelo menos ao meu ver, Edimburgo (e o UK em geral) dá um banho de organização em São Paulo (parafraseando a senhora minha mãe). Por isso, o nosso placar de hoje é São Paulo 0 X Edimburgo 1.

No próximo post, vou escrever sobre o transporte coletivo. Depois me conta aqui nos comentário o que você gostaria de saber sobre Edimburgo, que daí eu preparo um post especial.


Abraços!

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