sábado, 22 de julho de 2017

Crianças



Encontram-se no parque. Cada um com seu rebento. A mulher com o filho dela. O homem com a filha dele. Nunca se viram. São as férias de julho e o parque está cheio. Faz sol. As crianças correm pro tanque de areia. Homem e mulher sentam-se no mesmo banco. Conversam.

- Que bom que hoje saiu sol, não?

- Nem me fale... não aguentava mais aquele frio.

(...)

- Eles nunca se viram e parece que já são amigos desde sempre.

- Como? 

- As crianças... parecem que são velhos amigos, mas acabaram de se conhecer.

- Ah, sim, eu vi. Uma graça, né? Meu filho mal viu sua menina e foi logo a convidando pra brincar. 

- É... as crianças são mesmo demais! Minha filha estava lá entretida fazendo outra coisa e mesmo assim aceitou brincar com seu filho. 

- Ah, esse menino é muito sociável. É a capoeira, né, a capoeira estimula bem a socialização. Ele não perde uma aula, toda quinta de manhã, desde que aprendeu a andar. Era uma graça, bebezinho, o berimbau dava dois dele.

- Pois é, nem me fale. Esporte é tudo pra uma criança! Vê só minha menina, com essa gentileza toda, essa paciência, foi tudo o kung fu. Foi mesmo um achado. O kung fu estimula muito isso. Por isso que toda quarta e sábado, ela sai da aula de circo e vai diretinho pro kung fu!

- Circo?

- Sim, malabarismo. É ótimo pra coordenação, pra destreza, pro equilíbrio. E é bom estimular isso desde cedo, né?

- Ah, sim, mas quanto a isso eu não posso me queixar do karatê. Concentração, equilíbrio, disciplina, respeito aos mais velhos, meu menino desenvolveu tudo isso graças ao karatê. Terças e sextas desde os dois anos! Veja que deu resultado, né? Olha a perfeição dos castelinhos de areia dele, olha com que destreza que ele fez aquela pontezinha ali.

- Sim, sim... mas veja só como ela organizou as pazinhas, da maior para a menor, alinhadinhas ao lado dos baldes... aquilo tudo é kumon, minha amiga, é o kumon dando resultado ao vivo e em cores. Tardes de quinta e manhãs de domingo. Com ela não tem pra ninguém na matemática, no raciocínio lógico, além da concentração, destreza, capacidade para lidar com desafios, tudo isso vem junto, né? 

- Ah, mas o meu muleque nem precisou de kumon. O colégio dele é montessoriano, sabe.  Daí é outra coisa. Com dois anos ele já sabia amarrar o sapato com autonomia, se servir sozinho e comer de garfo e faca com desembaraço.

- Está certo, mas você já leu Piajet? O construtivismo é que é a tendência, viu? Antes dos quatro minha menina já sabia as quatro operações matemáticas e conversava em inglês com qualquer um!

- E mandarim ela sabe? Porque saber inglês é meio século vinte, né? O importante agora é dominar o mandarim. A China vai mandar no mundo, meu caro! Potência! Olha só como tem chinês por aí, de cada quatro pessoas no mundo, uma é chinesa. Meu menino aprendeu o mandarim junto com o português! Pronuncia bem cada fonema, fala bem até os mais nasalares, parece um nativo! Até que lhe cairiam bem uns olhinhos puxados com essa pele bronzeada linda que ele tem. Também, né, treinando surf do jeito que ele treina.

- Mas estamos há mais de cem quilômetros do mar!

- Sim, é verdade, mas para que servem os finais de semana, não é mesmo? Meu marido desce com ele pro litoral todo sábado de manhã e só voltam domingo a noite. Este contato com a água é muito importante!

- Ah, sim, com certeza! A natação é um esporte completo! Minha garota aprendeu a nadar antes dos seis meses. Foi ótimo pra ginástica rítmica e pros saltos ornamentais que ela pratica hoje. Medalha de ouro dois anos seguidos nas competições estaduais. Ano que vem ela vai disputar o nacional, daí sim eu quero ver!  Você nem imagina o orgulho! E além do mais, os jogos olímpicos estão logo aí, né?

- Ah, sim, sim, os jogos olímpicos, claro... estão logo aí... meu menino tem grandes chances na esgrima e até mesmo no arco e flecha. Ele treina os dois desde que saiu das fraldas aos oito meses. São esportes maravilhosos para a formação do caráter e para o desenvolvimento da confiança. Não menos importantes que o halterofilismo que ele pratica desde os três, às segundas, logo depois da aula de yoga, que ele faz junto com o coleguinha que ele conheceu no curso de gastronomia. Tudo ótimo pro conhecimento do corpo e pro controle emocional.

- Ele usou fraldas até os oito meses? Minha menina jamais usou fraldas! É muito anti-higiênico. Existem práticas muito mais assépticas e modernas que essa. Não há nada mais moderno na Alemanha e nos Estados Unidos. Você não assiste o Fantástico? É preciso apenas estar atento aos sinais! Ser um bom observador! Não foi você mesmo quem me falou sobre conhecer o próprio corpo?

- Bom, se é uma técnica alemã meu filho deve conhecer, já que fez intercâmbio na Alemanha dos quatro aos cinco anos. Fez um curso de filosofia e retórica para crianças numa escola cristã, porque além do corpo, também é preciso desenvolver o espírito, não é mesmo?

- Minha filha também fez intercâmbio. Ela trabalhou em uma ONG canadense que combate a fome na África!

- Ah, é? E meu filho já foi embaixador da ONU pelos direitos humanos!

- E a minha já ganhou o Nobel da Paz. Duas vezes!

(...)

A tarde avança. Homem e mulher seguem conversando. Ela sobre o filho dela. Ele sobra a filha dele. Conversam muito e com tanta obstinação que por um momento deixam de prestar atenção nas crianças suadas e remelentas, seus filhos, que brincam no tanque de areia do parque. Se a conversa não estivesse assim tão interessante, eles talvez reparassem no momento em que a menina, seis anos, indigna-se com o menino, seis anos, que lhe atirou de caso pensado areia na cara, e lhe responde com um sonoro safanão no meio da fuça. Talvez também reparassem no momento em que o menino, agudamente magoado, lhe devolve o safanão com mais força do que o recebeu e lhe dirige palavrões dos mais cabeludos que aprendeu numa letra de funk. Os dois engalfinham-se na areia manchada de sangue. A tarde cai no parque. É férias. Homem e mulher seguem sentados no banco. Conversam.




_______________________________________________________________________________

Mais textos  meus podem ser lidos no Em Transe To. Apareçam por lá também!










sexta-feira, 21 de julho de 2017

#RIPChesterBennington

quinta-feira, 20 de julho de 2017

O feriado do dia do feriado

Nesse post, em meu mês de férias, pensei em começar dizendo que eu gosto de feriado. Que ideia boba. Todo mundo gosta. Eu gosto de tudo o que me deixa longe do serviço. Se até uma apendicite é bem-vinda, que dirá um feriadinho. Há quem pense o mesmo, mas nesse momento me censura por medo de duvidar de que o trabalho talvez não liberte.

O único problema é que não consigo me identificar com os feriados. Apenas aprecio o ócio que eles proporcionam, mas às vezes isso pesa um pouco na consciência.

A maioria das datas comemorativas é religiosa, destas todas são católicas. Pelo menos é a chance de dizer que é feriado “graças a deus”, independente de sua existência ou da crença do interlocutor. Ainda assim me parece bastante arbitrário salpicar exaltações católicas em um estado teoricamente laico.

Há também os feriados que exaltam a pátria. Nesses a coisa complica. Tem a incoerência da Inconfidência, na qual torturaram o Tiradentes para depois transformá-lo em mártir; a independência da república dependente; a proclamação da república que vê sua democracia minguar, etc. Nessas datas sempre existe a exaltação das forças armadas. Aprecio a folga com muito peso na consciência. Por mim poderíamos pegar toda a verba destinada ao exército e gastar tudo em paçoca.

Carnaval é bonito. Não faço ideia do porquê de sua existência, mas não importa. Esse ano, na véspera do que é considerado o marco do real começo de ano do brasileiro, ouvi um sujeito do meu lado no metrô dizendo que não gosta do Carnaval. Lembrei do ano que tive que trabalhar nesse ‘feriado’, sábado, segunda e terça, sem um centavo de hora extra, pois, pasmem, Carnaval não é feriado.

Não resisti ao impulso de agarrar o desconhecido pelo colarinho e gritar que sim, ele gosta de Carnaval. A menos que fosse um empresário que vê a própria empresa parar de produzir ao longo da folia, ele adora o feriado e só terá certeza disso quando tiver que trabalhar no meio do isquindô.

Só consigo me lembrar de duas datas com as quais eu poderia ter maior consideração. O dia da consciência negra, que sequer ganhou status de feriado nacional, muito menos emplacou uma real consciência sobre a luta negra, e o dia do trabalhador, que acabou virando dia do trabalho, afinal quem é esse tal de trabalhador para ganhar um dia só dele, sendo que nem existe dia do empregador?

Para piorar ainda moro no Estado de São Paulo, que resolveu transformar em feriado estadual o dia da ‘revolução de 32’. Eu apoiaria se fosse o dia da vergonha. A elite paulistana em sua histórica vanguarda do atraso se revolta contra a atenção governamental à população mais pobre, toma um couro do governo federal e transforma isso em feriado para criar uma imagem de vitória que não houve.

De repente poderíamos criar uma data específica somente para ser um feriado. De preferência algo como a primeira quinta-feira de determinado mês, para não correr o risco do dia cair justo no domingo. Uma ode à preguiça, dirão alguns; o dia da vagabundagem, acusarão outros; coisa de comunista que não gosta de trabalhar, afirmarão muitos.

Quem sabe um referendo não resolve o impasse? Um programa político explicando à população que ela pode referendar um feriado sem amarras. Nada de cobranças por exaltação à pátria, a deus, ao exército. Apenas um feriado prolongado para ser usado como bem entender. O feriado do dia do feriado.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Descartável

Seu carrinho de supermercado cheio de pertences,
Descartável como seu copo plástico de café em todas as manhãs,
Como seus sentimentos e sonhos, em todas as noites.

Descartável como maquiagem que encobre faces,
Como discursos para serem gravados e enganarem.
Enganam muitos, menos a fome e o frio.

Descartáveis vidas sujas e vazias para muitos,
Mas muito se tem a aprender com suas bagagens.
Os melhores amigos do homem os acompanham,
Mas os “homens” os descartam, os mesmos que se fazem de heróis.

Descartáveis como seu amor reprimido, seu amigo esquecido, seu orgulho ferido.
Descartáveis como sua velocidade aumentada, sua vida reduzida, seu tempo perdido.
Descartáveis como sua arte apagada, sua espera por nada, seu conto de fadas, sua cidade linda.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Estou bem cansada

E não é pelos afazeres ou pela rotina. Estou cansada mesmo de ver mulherões sofrerem por amores meio bosta. Sei que em um relacionamento existe um equilíbrio, que às vezes um ensina tanto o outro que bobeira é pensar que se começa numa disputa. Mas eu tô mesmo cansada e triste em ver um monte de mulheres que eu admiro pra caramba se doando bem mais que recebendo. E quando a recíproca não é verdadeira, meus amigos, eu tô falando é de um monte de homens babacas. Não é colocá-las em posição de vítima, nunquinha. Até porque, como mulherões, sabe-se que mais que tudo elas são bem inteligentes. Elas batalham, elas se desdobram nas jornadas e, óbvio, triunfam.


Não estou falando de mulheres enganadas, coitadinhas. Estou falando de mulheres que conquistam tudo que querem e ainda estão em falta nos relacionamentos por se envolverem com caras que estão em Dans bem – eu disse bem – menores. O que é meu cansaço então? É de saber que a gente está sempre numa posição de querer saber mais, de querer evoluir, de se cobrar, de ir além. E às vezes caminhar ao lado – ou pior, amar! – uns caras bem nada a ver. E não pense você que estou falando só das mulheres solteiras, porque estou cansada também de ver mulher bem sucedida escondendo do marido que comprou roupa nova. Com o dinheiro dela, sublinhe-se. Porque mulher é isso mesmo, né? Não para de comprar roupa.

Não.

Vi uma palestra esses dias de uma economista citando um estudo que dizia que o índice de miséria entre mulheres na terceira idade era muito alto. Uma das justificativas é que, no casamento, a mulher desembolsa durante a vida bem mais em prol do relacionamento. A mulher compra o presente de aniversário da sogra, banca aqueles gastos a mais do filho na escola, compra coisas para casa. Às vezes a mulher faz o supermercado toda a vida. E não divide a conta.
No final das contas, o marido poupa. O marido tem dinheiro sobrando. E à mulher, que sempre teve a fama de consumista, vejam só, é a altruísta. Uma amiga minha disse que, no seu divórcio, o marido teve contabilizado uma poupança bem maior que a dela. Que quase não foi dividida, porque ela se sentiu culpada de não ter guardado dinheiro no tempo em que estiveram juntos. Só aí ela lembrou de todas as contas do dia a dia, assumidas integralmente por ela. A poupança foi pro bolo.
Quantas não se lembram, ou quantas não têm a chance de dividir, é mais uma das pontas do meu cansaço. Poderia escrever um tratado sobre essas disparidades, sobre o que vai muito mal na sociedade para serem cometidas essas injustiças, que fazem um monte de mulherões terem homens muito aquém delas, por diferentes motivos, em várias escalas do relacionamento. Prefiro dizer apenas que estou cansada em ver tudo isso. Bem cansada.

P.S. Fiquei chateada de terminar esse texto tão pessimista, então resolvi concluí-lo com uma frase que acredito sempre, independentemente dos cansaços.




quarta-feira, 12 de julho de 2017

Um passo atrás


Muitas coisas acontecem em ensaios de peças de teatro. Em geral são horas e horas fechados em uma sala, lendo textos, fazendo exercícios, falando a respeito. Tudo isso gera um ambiente que se parece a uma montanha russa, tanto pode descer, quanto subir ou se estabilizar. Mas é normal que pelo cansaço alguns atores se irritam uns com outros, principalmente os de memória mais lenta. Sempre existem aqueles atores que decoram rápido os textos e ficam impacientes com os mais lentos, isso gera atrito e os diretores são obrigados a contornar  a situação.

Um diretor era muito educado e sempre pedia aos atores mais exaltados que dessem um passo atrás, uma maneira elegante de dizer que esfriassem a cabeça. Então ele pedia para analisar a situação, ficou como uma marcação dele, qualquer dúvida dávamos um passo atrás, uma maneira de sinalizar que não estávamos entendendo a situação e tentávamos  ter outra perspectiva.

Nunca apliquei isso na minha vida, mas já escutei sobre a importância de fazer isso em todas as decisões, dar um passo atrás e ter um panorama neutro, avaliar de maneira fria o que está acontecendo.

A primeira indicação desse diretor era sempre dar um passo atrás para avaliar as coisas, sem agir impulsivamente e depois antes de criticar o colega, o ator ou atriz a nossa frente, deveríamos nos colocar nos sapatos deles e nos perguntar ''eu faria a mesma coisa?''. Isso simplificaria tudo e evitaria desgastes, caso a pessoa fosse honesta e reconhecesse o que pensava fazer.

Por exemplo: em um ensaio uma atriz se irritou comigo, ela mudou o texto e eu me perdi, caso estivesse mais concentrada teria percebido que ela deve ter esquecido as linhas e deu uma improvisada, mas eu estava focada no texto e não a alcancei. Isso fez ela perder a paciência e aquilo acabou em uma discussão. Se ela tivesse se afastado da situação e se colocado nos meus sapatos, teria entendido que eu estava mentalmente fechada no texto e não fui rápida para perceber a improvisação dela.

Quando nos afastamos da situação e pensamos com os sapatos dos outros podemos perceber ou ter uma noção mais clara das atitudes da outra pessoa, podemos analisar com mais calma as decisões alheias.

E nunca pensei nessas indicações teatrais como algo que poderia me ajudar na minha vida amorosa, mas foi assim que aconteceu.

Como todas as mulheres fui educada para receber migalhas de amor e achar isso ótimo, pensar que eu era amada, quando estava sendo usada e que eu era querida, quando estavam comigo apenas por conveniência.

E a primeira pessoa que me deu o alerta foi a mãe do Romeu, que não gostava de mim. Um dia ela conversava comigo, me disse que eu era meiga, muito preocupada com seu filho. Eu confirmei e disse que ele também era legal, eu tinha sorte dele estar comigo e ela respondeu:

-E por que não estaria? Você é um doce, cuida bem dele e ele é inteligente, sabe o que lhe convém.

Não entendi a mensagem na hora, mas registrei. Mais tarde corri para conversar com uma amiga mais velha, tentando decifrar o que a mãe dele tinha dito e minha amiga respondeu:

-Olha, não duvido que goste de você, mas fica no lugar dele, uma mulher como você é super conveniente, você ajuda ele em um monte de coisas, ele pode ficar para dormir na tua casa e ainda por cima tem sexo, não pode ficar melhor!

Mas ele gosta de mim.......

-Não duvido que goste, mas quando alguém facilita nossa vida, nos convém, a gente aprende a gostar.....

Em algum momento deixou de ser vantajoso porque ele terminou o namoro, mas eu não esqueci desse episódio.

E agora vejo essa situação com uma amiga. Ela se casou e o marido parece uma pessoa legal, mas de repente comecei a perceber alguns detalhes estranhos. Ele grudou nela, fica difícil ter acesso, cortou as linhas e dá a impressão de ser possessivo.

Consegui conversar a respeito disso com ela, mas ela me garantiu que ele é carente, é seu jeito de amar, apenas isso.

Analisando a situação com calma me parece um pouco pior. O rapaz veio do interior, conheceu a moça no trabalho, mas o pai dela é dono da empresa. Namorar a herdeira da empresa, ainda por cima bonita e boa pessoa, seria o mais conveniente a se fazer para alguém que chegou na cidade com a roupa do corpo.

Gosto da ideia do amor eterno, das almas que se encontram e se reconhecem, mas a vida real é mais dura do que isso. Minha amiga pensa que é amor e quem sou eu para dizer o contrário? Pode ser, por que não?

Mas tentar ver a situação por outro ângulo não mata ninguém. E pra quê mentir, mulheres temos essa mania de facilitar a vida dos homens, para eles somos convenientes.

Penso de outra maneira hoje, sempre me pergunto ''que tanto ele gosta de mim, que tanto é conveniência?''. Analiso com calma e penso como seria se eu tirasse uma por uma das facilidades que coloco em sua vida, ele ainda ficaria comigo? 
Não é sair batendo portas, mas reconhecendo se estamos recebendo migalhas enquanto Romeu fica porque para ele é conveniente.

Homens encostam, não é segredo de estado isso e nós, mulheres, somos educadas para pensar que um homem encostado é um gesto de amor, poxa, ele quis ficar comigo! E valemos tão pouco assim?

É claro que se responder algumas perguntas tem um custo, é necessário coragem para pensar se Romeu está conosco por amor ou porque sua vida é mais fácil, ninguém quer pensar isso, todas negamos a verdade e nos escondemos dela, mas um dia ela vem à tona.

Amor é matemática e os números precisam fechar, não é um problema em aberto em todas as equações, precisamos dos números que combinam e fecham.

Em um dos últimos relacionamentos que tive fiz essa conta depois que tudo terminou e percebi como era bom para Romeu me ter em sua vida, eu era a roda que fazia tudo girar, estar comigo era deitar na sombra. Doeu muito perceber isso, mas ao mesmo tempo foi uma revelação, me fez acordar e entender que eu mereço amor, não migalhas em troca de tudo o que dou.

É uma conta simples, a gente dá um passo atrás, analisa a situação, se coloca nos sapatos do outro e nos perguntamos ''eu sou ele, então o que me convém ao estar com ela ou é amor?''.

O pior? É que sabemos a resposta. O melhor? É que ela liberta.
Nós mulheres merecemos ser amadas de maneira completa, integral, sem migalhas, não merecemos ser tratadas como seres que facilitam a vida dos homens. Não somos bonecas, nem brinquedos vivos, merecemos o amor que respeita.


É hora de analisar o amor com a frieza que se precisa, é necessário dar um passo atrás e se colocar nos sapatos do outro, porque a vida não é sobre ser conveniente a alguém, mas ser respeitada e amada por quem amamos.



Iara De Dupont

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Talvez

Talvez a vida seja simples.
Talvez a gente que se atropela demais em nome da rotina.
Talvez a vida vire de cabeça para baixo para mostrar o caminho certo.
Talvez a felicidade seja andar no contra-fluxo.
Talvez a vida seja sempre um risco.
Talvez seja pela necessidade de ser.
Talvez a vida seja só essência.
Talvez sossego tenha prazo de validade.
Talvez seja uma brisa que virou um furação.
Talvez a vida seja um turbilhão.
Talvez a gente esteja entorpecido com tanta informação.
Talvez a vida exija uma pausa para meditar.
Talvez seja necessário reavaliar os nossos valores.
Talvez a vida seja uma transformação diária.
Talvez a gente esqueça que o tempo passa para todos nós. 
Talvez a vida puxe o freio de mão quando estamos em alta velocidade.
Talvez seja difícil lidar com as pedras no caminho.
Talvez a vida queira mostrar todos somos frágeis.
Talvez o medo seja uma forma de nos conectarmos com nossas prioridades.
Talvez a vida esteja clamando por momentos mais contemplativos.
Talvez o universo sempre atue de forma misteriosa.
Talvez a vida seja encantadoramente travessa, mostrando que sempre há um motivo para sorrir.
Talvez seja hora de só olhar para dentro e organizar as emoções.
Talvez a vida seja sentir.
Talvez seja amor demais pra guardar em um peito.
Talvez a vida seja transbordar.
Talvez o eterno dure alguns segundos.
Talvez a vida seja ultrapassar dimensões.
Talvez um dia a gente tenha mais respostas do que perguntas.
Talvez a vida seja um sopro, tão breve e intenso, como o vento gelado deste inverno.
Talvez o segredo seja apenas se concentrar em como a vida se apresenta hoje.
Talvez a vida seja mais serena se priorizarmos somente o que transcende.
Talvez a plenitude se apresente em pequenos fragmentos de cotidiano.

Talvez a vida seja comer, rezar, amar e criar

Talvez, entre tantos “talvez”, a única certeza é que a busca pela felicidade deve ser neste exato instante. 


sábado, 1 de julho de 2017

Sobrevivendo no abismo

Há momentos na vida em que nos vemos afundados em espaços mais escuros de nós mesmos.  Todos vamos à fossa, aos nossos piores lugares, com alguma frequência.
Quanto mais acreditamos ter superado certos defeitos infantis, mesquinhezas, bobeiras, imaturidades, rancorezinhos; mais nos deixamos abertos a tropeçar novamente. 
Estar num momento de escuridão é natural, isso acontece com uma frequência assustadora. Meus últimos meses tem sido estranhos. Estou no escuro, tateando.
Pensei em abandonar esse espaço, em largar outros projetos, em me isolar e focar a vida em trabalhar e aguardar uma mudança que não sei se terei forças para projetar. 
Mas as coisas seguem e não se fica no fundo do abismo para sempre. Bora voltar a escalar e ferir as mãos no processo. Mês que vem venho com algo mais significativo e menos biográfico. Obrigado pela paciência =)