quinta-feira, 27 de julho de 2017

Todo mundo é artista

Ouvi por esses dias a famosa frase do artista alemão Joseph Beuys “toda pessoa é artista”. Essa ideia soaria absurda para os Mundugumor da Nova Guiné, porque ser artista é uma condição especial para quem nasceu com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Isso pareceu totalmente fortuito e supersticioso? Coisa de tribo não civilizada do outro lado do mundo?

Sim, nascemos todos artistas. Com vontade de criar e expressar nossos sentimentos e ideias. Eu era assim também. Eu experimentava as diferentes linguagens artísticas sem pudor e me divertia muito com isso. A arte alivia nossas almas e nos deixa felizes. Quando brincamos produzimos arte. Mamíferos brincam. É por isso que não nos cansamos de brincar.

Mas como a maioria dos adultos do mundo ocidental eu também não progredi em aptidão artística muito além do nível atingido na infância. Meus desenhos são bem parecidos com aqueles que eu fazia aos nove ou dez anos. Certo dia alguém me falou que eu tinha outras habilidades e que era melhor me concentrar nelas, então sufoquei meus desejos artísticos para conseguir me encaixar no “mundo adulto” do trabalho. Nada mais poderoso do que uma mente convencida de que não pode fazer algo.

Confesso que ainda não consegui desconstruir o mito do artista com talento nato. Em fóruns e grupos de estudantes e artistas, muitos deles ficam irritados quando ouvem coisas do tipo, porque o senso comum simplesmente ignora todo o investimento de tempo e dinheiro para o desenvolvimento de técnicas artísticas.

Gloria - Theodore Ushev
Chega um ponto da nossa vida que somos confrontados com nossos demônios e dívidas do passado. Estou exatamente em cima desse nó e um desejo latente de voltar a usar criatividade para arte tem pulsado dentro de mim. Mas como isso agora? Aquele embaraço constrangedor de “eu não sei, eu não sei fazer nada, tudo o que eu faço é feio”. Não importa. Eu precisava enfrentar e então me matriculei numa oficina de desenho.

No começo, eu escondia meus desenhos com o braço quando o professor se aproximava de mim, mas com o tempo fui perdendo a vergonha porque ele dava o tipo de incentivo que eu necessitava ouvir. Nada como estar num ambiente acolhedor.

Na aula seguinte, contudo, tivemos uma sessão de modelo vivo. Eu estava com medo de parecer muito idiota porque ainda assombrada por essa ideia de que artistas são seres de outra casta. Na minha cabeça uma sessão com modelo vivo só seria permitida para os verdadeiros artistas. Depois que o medo passou, uma vontade enorme de rir surgiu. O modelo lindo, estático como um deus grego em poses clássicas e eu a maior das impostoras! Será que ele pensa que estou retratando-o fielmente? Se ele visse... fiquei um bom tempo com um sorrisinho de canto que sumiu quando consegui me concentrar.

Sim, nascemos todos artistas. Esse medo que temos dos julgamentos alheios, do ridículo é tóxico e paralisante. Finalizo com o pensamento da cantora americana Nina Simone: “liberdade para mim é não ter medo”.