quinta-feira, 9 de setembro de 2021
Objetos sentem saudades?
segunda-feira, 16 de novembro de 2020
As Curvas
Claro que sou habitado por memórias, imagens nômades que se confundem nas datas, lembranças que me chamam até a janela para ver o desfile do passado. O que não significa que seja saudosista. Não tenho maior apreço por idades passadas que pela atual. Cada qual com sua índole. Imagino as recordações todas colocadas em um mapa topográfico, carregado de curvas, tantas e tais que é impossível se perceber detalhes. Então, para que não se percam todas no emaranhado do tempo, estacas são colocadas para destacar algumas delas. A escolha é aleatória, nem sequer imagino quem ou o quê lança essas marcas. Quando percebo, já estão ali, pedindo atenção. Esta aqui, por exemplo, mostra um menino de 12 anos com seus brinquedos, cavando túneis em montes de areia. Não era difícil encontrá-los, estavam por toda parte no bairro novo. E enquanto eu organizava uma cidade subterrânea com os bonecos (índios, soldados, robôs), meus colegas de idade descobriam outros jogos: muitos já conheciam os sabores e amores de beijos e toques. Eu imaginava ser bom, mas não tinha pressa, estava ocupado demais recriando o mundo. Os corpos iam crescendo e as roupas diminuindo, as festas se tornavam uma opção aos domingos de árvores e tédio. Os meninos davam a entender que eu estava atrasado, que minha infância se prorrogava além do devido. Eu duvidava: ainda tinha muita imaginação. Também ansiava sentir também o calor alheio, mas projetava isso para um futuro abstrato. Almejava um romance de novela, com direito a trilha sonora, alguma das canções que ouvia ilustrando o enredo. A ficção era minha realidade.
Vai daí que eu me apaixonava
intermitentemente. Bastava que ela soubesse meu nome, ou que aquela fosse
gentil comigo, ou que outra me olhasse por mais tempo e seu nome se tornava
minha fixação, a palavra que eu mais repetiria durante o longo trajeto entre um
e outro acontecimento, paixões que duravam intensos oito ou nove dias. Enfiado
na distração de uma dessas, dividia uma manhã entre observá-la e copiar o que
estava na lousa. Alguém bateu à porta e chamou a professora. Logo ela voltava,
apresentando:
- Essa é nossa nova colega,
Viviane...
Olhei uma primeira vez, passarinho à
toa, à toa. Atentei uma vez mais, para cair na armadilha: Viviane, sardas no
rosto, menina da fazenda, verde-terra na vista. Ali, algo aconteceu. Meu
primeiro alumbramento. A responsável por iniciar os últimos instantes de minha
criancice. Por diante, tudo seria diferente. Isso porque Viviane era diferente,
nenhuma outra era, então, como ela. Viviane tinha seios. Não que nas demais
eles já não iniciavam uma tímida apresentação. Mas nela as curvas se
destacavam, pediam calma e euforia, desassossegavam os afazeres. Puxei uma
salva de palma, assobios e gritos de glória. A escola decretou feriado e uma
parada cívica teve início na quadra. Ninguém notou a festa que se fazia em mim
durante a caminhada dela até sua cadeira.
Filho dos zeladores da escola,
encontrei minha casa à desertos de distância. Palavra alguma significava
aqueles seios. Eu precisava falar com eles. Com ela. Com certeza eu não era o
primeiro navegante à avistar aquelas ilhas, era preciso um plano. Tentei montar
uma prévia com meus brinquedos, e subitamente eles se transformaram em objetos
inúteis. Viviane não quereria nada comigo se me visse com eles: estava decretada
a falência múltipla da meninice. Pela última vez enterrei os bonecos, desta vez
no quintal, sob o pé de maracujá em flor.
Namoramos, conhecemos outras nações, mergulhei em sua história onde construí um templo. Contei a ela todo esse assomo e ela riu, balançando os ombros e lançando a cabeça para trás. E disse:
- Você está
inventando!
Ela sabia. Ou antes, ela nunca
soube. Minha timidez permitiu que, no máximo, criasse amizade com seu irmão e
frequentasse sua casa. Nunca frequentei seus seios. Eles ficaram como as
estacas que impedem essa reminiscência de ser levada pelo vento dos dias.
domingo, 9 de agosto de 2020
Memória olfativa ou Há cheiros que são poesias
terça-feira, 9 de junho de 2020
O mar em mim
Seja pelo encanto e violência das ondas bailando e se quebrando nos rochedos, pelos seres ocultos em profundidades por nós jamais alcançadas, por nos afastar e aproximar de nossos irmãos extracontinentais. Seja por seus sons e suas cores... o azul esverdeado, o verde azulado, o branco das espumas, o prateado das sardinhas e o vermelho dos corais...
sábado, 16 de maio de 2020
PESCADAS
terça-feira, 28 de fevereiro de 2017
Dado
Dado não sabe que tem Alzheimer, às vezes olha para os netos de maneira desfocada (mas logo que o conhecimento chega, ele abre um sorriso), não consegue mais ver tv ou ler jornal, fica ansioso quando chega o anoitecer, se atrapalha e esquece muitas coisas...
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
Convites de casamento
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
Tudo é só saudade
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
Rupturas e marcas
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
A primeira leitura de um autor ou acerca da memória
Uma das minhas lembranças mais marcantes de descoberta de um escritor vem da leitura de Relatos de um certo oriente, de Milton Haltoum. Na primeira semana de um ano qualquer, somente porque o lia, chorei desesperadamente numa rodoviária entranhada no meio das rondônias. As pessoas me olhavam curiosas; por fim, quiseram me consolar e trouxeram-me um copo d’agua e me ficavam ainda mais atônitas quando eu dizia que chorava por causa do livro que estava lendo.
Lembro com muita nitidez quando li O processo, de Kafka. Rodeada por livros da biblioteca da minha professora de literatura, eu estava apaixonada e, por isso, sentia-me toda intensa, pronta para tudo e abismava-me sem amarras com aquele mundo labiríntico do sem-explicação e com aquela morte absurda no final.
Porém, uma das minhas lembranças mais fortes está relacionada à leitura de Crônicas de uma casa assassinada, de Lúcio Cardoso. Vários dias depois da leitura, ainda sentia o cheiro das violetas podres e do corpo apodrecido entre as violetas, aterrorizada com aquela catarse delirante de revelações. Desde que vi os objetos de Farnese de Andrade relaciono-o com o universo literário de Lúcio Cardoso. Penso que só ele, no Brasil, pode ser comparado a Lúcio:::: a este desespero pelo próprio destino e o da humanidade.
Ainda lembro do primeiro livro que li do Graciliano Ramos, que não poderia ser outro senão Vidas Secas. Li-o numa tarde em que fui visitar uma pintora. Foi lá que descobri que nas pinturas existiam fundos de uma cor só. Eu deveria ter uns onze anos. Mas é da época de São Bernardo que me recordo melhor: aquelas corujas que não paravam de piar à noite se misturaram com minha própria coleção de corujas. Nunca mais deixei de ler Graciliano.
Lembro, ainda, de Cem anos de solidão, do Gabriel Garcia Márquez. As memoráveis primeiras páginas; o gelo que queimava, os lençóis brancos voando... e o mesmo choro que irrompia em mim. Dessa vez, tanto o agora quanto o porvir pareciam maior que o mundo. E havia tanta gente linda ao meu redor::: do adolescente que me olhou com cara de "é claro" quando eu lhe perguntei se já havia lido Cem anos de solidão ao homem capaz de agregar uma porção de leitores ao seu redor, formávamos uma espécie de confraria que se reunia naquela livraria que não existe mais.
Lembro do encantamento com Cantares, de Hilda Hilst, que nunca mais se repetiu em nenhuma de outros dos seus livros que li. Carreguei-o pra cima e pra baixo numas férias em que estava fugindo de mim mesma. Ou em busca de mim, não sei. Lembro que recolhia pedaços de um amor que, sendo amor, há muito deixara de sê-lo.
Ainda poderia ficar por muito tempo a escarafunchar minha memória, descobrir que a tenho, mas agora ela me pesa muito, como se carregar tanto dentro de mim explicasse por que é preciso que hoje eu esteja fazendo 37 anos, e não menos como gostaria. Paro, então, por aqui, surpreendida com os retalhos do meu passado. Não quero chegar naquela noite branca em que, com O inominável, de Samuel Beckett, dentro da minha bolsa, eu me sentia a pessoa mais feliz do mundo e prometia a mim nunca me dar menos do que a felicidade absoluta. Paro porque existem promessas que não podem ser cumpridas e, por isso, são tão bonitas de serem feitas.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
A desmemória da goiaba
Tenho medo da velhice.
Não medo de olhar pro espelho e ver minha cara murcha. Mas tenho medo de não poder confiar mais na minha memória. Um amigo me disse uma vez que nossa vida é memória, e estabeleceu um diálogo mais ou menos assim:
Ele - O que você não gosta?
Eu – De comer? Do que?
Ele – É, pode ser.
Eu – Goiaba.
Ele – Mas como você sabe que não gosta de goiaba?
Eu – Porque comi e não gostei.
Ele – E você só sabe que não gosta porque tem memória. Se não tivesse, poderia comer a goiaba com uma ‘boca nova’ e quem sabe, né?
E pronto. Ficou na minha cabeça. Vocês perceberam que as coisas se alojam na minha cabeça e eu posso pensar nisso o resto da vida, né? Como na história do ridículo lá.
Enfim, voltando à velhice. Minha vovó (Deus a tenha!) faleceu com 81 anos. Muito linda, cara boa, forte e lúcida. Mas tinha falhas na memória, como era de se esperar. Confundiu por muitas vezes eu com minha mãe. “Neuzinha, sabe quem eu vi hoje? A Simone, sua amiga da igreja”. Eu sorria e a corrigia. Ela, envergonhada, pedia desculpa. Falava que a gente era muito parecida nessa idade, coisa e tal. E um dia que ela me disse que andou, andou, andou e quando deu por si estava a 3 km de casa? É, tenho medo disso. Ela pegou um taxi, fez a gata, voltou bonita pra casa e rindo da história. Mas eu fiquei assustada. Coisa assim, que pode acontecer com qualquer um.
Digo qualquer um porque é qualquer um mesmo! Não adianta fazer curso de memorização aqui, ler demais ali, fazer chá de não sei o que, misturar livros com, sei lá, brócolis? Bom, digo isso pela minha avó, que leu mais que qualquer pessoa que eu conheça. E faleceu com uma cruzadinha do lado da cama, coisa que ela tinha um vício insuperável.
Guardamos muitas coisas na memória. Tenho vontade de escrever tudo o que tem aqui dentro, pra saber do que gosto, do que não gosto, do que estimo, de que lado da cama eu durmo, se como farofa de boca aberta, se faço as unhas em casa ou pago manicure, se tenho dor de estômago de comer tomate com semente, se gosto de som baixo, enfim. Muita coisa pra guardar.
Mas seria até bom esquecer das coisas de vez em quanto. Quem sabe o gosto pela vida não seria mais sincero, não é mesmo? Com um ‘boca nova’ você prova aquela laranja azeeeeda, que te fez entortar o nariz a vida inteira e... gosta? É, você gosta do azedo. Você gosta porque experimentou sem um conceito predeterminado sobre aquilo. Não é seu paladar que tem problema em gostar das coisas azedas, é você quem o obrigou a não gostar disso. O problema é seu, na verdade. Ou meu, no caso da goiaba.
Mas seria até bom, né? Esquecer desavenças, desrespeitos. Passar por aquela pessoa que você cismou em brigar a vida inteira sem motivo e sorrir pra ela. Ou ter suas lástimas perdoadas também. Vale pros dois lados.
Uma vez, passeando internet afora, li uma coisa interessante. Falando sobre uma tal de desmemoria. Se não me engano, escrita por Eduardo Galeano. E, caramba! Parece que o cara me adivinhou.
“O bebê sorri porque ainda não tem memória; o velho porque já não tem nenhuma. Eis aí a felicidade perfeita. Não a quero.”
E não é? É lindo. Mas eu não quero, não! Não quero perder isso que levei anos para construir. Não quero acordar um dia e ficar em dúvida se eu prefiro leite morninho (urgh!) ou gelado, ou se eu não como chiclete porque não gosto ou porque tenho alergia fatal.
É legal esquecer das coisas, e vou me esforçar um pouco pra isso. É um exercício. Esquecer daquilo que não faz bem pra gente. Comer com ‘boca nova’ o que vem por aí. Ainda pretendo comer a goiaba com uma ‘boca nova’. Só não sei quando. Mantenho-os informados.

twitter: @tabataaa





