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quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Objetos sentem saudades?

Se objetos sentem saudades, eu não sei. Mas ainda ouço ecoando as risadas nas tardes ensolaradas. Sinto o calor do sol em minhas paredes, quando ainda eram pintadas de amarelo, antes da tinta descascar e antes do mofo tomar conta.
Sinto o aroma das amoras, e das ervas em meu jardim quando ainda eram cuidadas, regadas, amadas, vivas! 
Ainda ouço o cantar dos pássaros e o barulho da rede balançando em meu quintal, a música no ar, e ainda sinto e o cheiro dos churrascos de fim de semana, quando eu era celebrada.
Ainda sinto os gatos arranhando minhas paredes e repousando em meu piso. E ainda ouço as vozes em meu interior -às vezes sérias, às vezes tristes, mas muitas vezes alegres-, quando eu era habitada.
Ainda sinto a movimentação de pessoas, animais e histórias, sob meu teto e minha proteção, quando eu era refúgio.
Ainda sinto a gratidão e o amor de quem eu abrigava e cuidava, quando eu era lar...

Se objetos sentem saudades, eu não sei. Mas posso testemunhar que as casas sentem, e muitas!



segunda-feira, 16 de novembro de 2020

As Curvas


Claro que sou habitado por memórias, imagens nômades que se confundem nas datas, lembranças que me chamam até a janela para ver o desfile do passado. O que não significa que seja saudosista. Não tenho maior apreço por idades passadas que pela atual. Cada qual com sua índole. Imagino as recordações todas colocadas em um mapa topográfico, carregado de curvas, tantas e tais que é impossível se perceber detalhes. Então, para que não se percam todas no emaranhado do tempo, estacas são colocadas para destacar algumas delas. A escolha é aleatória, nem sequer imagino quem ou o quê lança essas marcas. Quando percebo, já estão ali, pedindo atenção. Esta aqui, por exemplo, mostra um menino de 12 anos com seus brinquedos, cavando túneis em montes de areia. Não era difícil encontrá-los, estavam por toda parte no bairro novo. E enquanto eu organizava uma cidade subterrânea com os bonecos (índios, soldados, robôs), meus colegas de idade descobriam outros jogos: muitos já conheciam os sabores e amores de beijos e toques. Eu imaginava ser bom, mas não tinha pressa, estava ocupado demais recriando o mundo. Os corpos iam crescendo e as roupas diminuindo, as festas se tornavam uma opção aos domingos de árvores e tédio. Os meninos davam a entender que eu estava atrasado, que minha infância se prorrogava além do devido. Eu duvidava: ainda tinha muita imaginação. Também ansiava sentir também o calor alheio, mas projetava isso para um futuro abstrato. Almejava um romance de novela, com direito a trilha sonora, alguma das canções que ouvia ilustrando o enredo. A ficção era minha realidade.

Vai daí que eu me apaixonava intermitentemente. Bastava que ela soubesse meu nome, ou que aquela fosse gentil comigo, ou que outra me olhasse por mais tempo e seu nome se tornava minha fixação, a palavra que eu mais repetiria durante o longo trajeto entre um e outro acontecimento, paixões que duravam intensos oito ou nove dias. Enfiado na distração de uma dessas, dividia uma manhã entre observá-la e copiar o que estava na lousa. Alguém bateu à porta e chamou a professora. Logo ela voltava, apresentando:

- Essa é nossa nova colega, Viviane...

Olhei uma primeira vez, passarinho à toa, à toa. Atentei uma vez mais, para cair na armadilha: Viviane, sardas no rosto, menina da fazenda, verde-terra na vista. Ali, algo aconteceu. Meu primeiro alumbramento. A responsável por iniciar os últimos instantes de minha criancice. Por diante, tudo seria diferente. Isso porque Viviane era diferente, nenhuma outra era, então, como ela. Viviane tinha seios. Não que nas demais eles já não iniciavam uma tímida apresentação. Mas nela as curvas se destacavam, pediam calma e euforia, desassossegavam os afazeres. Puxei uma salva de palma, assobios e gritos de glória. A escola decretou feriado e uma parada cívica teve início na quadra. Ninguém notou a festa que se fazia em mim durante a caminhada dela até sua cadeira.

Filho dos zeladores da escola, encontrei minha casa à desertos de distância. Palavra alguma significava aqueles seios. Eu precisava falar com eles. Com ela. Com certeza eu não era o primeiro navegante à avistar aquelas ilhas, era preciso um plano. Tentei montar uma prévia com meus brinquedos, e subitamente eles se transformaram em objetos inúteis. Viviane não quereria nada comigo se me visse com eles: estava decretada a falência múltipla da meninice. Pela última vez enterrei os bonecos, desta vez no quintal, sob o pé de maracujá em flor.

         Namoramos, conhecemos outras nações, mergulhei em sua história onde construí um templo. Contei a ela todo esse assomo e ela riu, balançando os ombros e lançando a cabeça para trás. E disse:

- Você está inventando!

Ela sabia. Ou antes, ela nunca soube. Minha timidez permitiu que, no máximo, criasse amizade com seu irmão e frequentasse sua casa. Nunca frequentei seus seios. Eles ficaram como as estacas que impedem essa reminiscência de ser levada pelo vento dos dias.

domingo, 9 de agosto de 2020

Memória olfativa ou Há cheiros que são poesias

O cheiro de bolo quentinho que inunda a casa a tarde, se mistura com o aroma de café recém passado, e me transporta para outro lugar, outro tempo...
Sinto aconchego, um afago na alma,
Um abraço que não vem dos braços, mas das narinas, da memória, da imaginação.
Não é apenas cheiro de bolo caseiro de laranja ainda no forno, é perfume de infância, de uma cozinha de chão de cimento queimado - que antes de ser moda, era uma solucao de baixo custo para casas populares.
De raios solares entre frestas atravessando a janela, permeando a cortina de rendas e fazendo delicados desenhos de sombras enquanto ilumina o cômodo. 
O filtro de barro, a geladeira azul, a cortina de canudilhos e a velha chaleira, apoiada no balcão.
Meus amados avós. 
O chocolate quente e as histórias de ninar que compunham meu ritual noturno.
Carinhos quentes.
O cheiro traz lembranças... Como tudo que é efêmero, impalpável. Não escorre pelas mãos, mas se dissolve no ar, flutua, eleva-se, e vai-se embora.




terça-feira, 9 de junho de 2020

O mar em mim

O mar é mistério, fascínio, beleza, medo, segredo. Inspira histórias, lendas, viagens, aventuras, paixões, despedidas, buscas, poemas, pinturas, músicas...

Seja pelo encanto e violência das ondas bailando e se quebrando nos rochedos, pelos seres ocultos em profundidades por nós jamais alcançadas, por nos afastar e aproximar de nossos irmãos extracontinentais. Seja por seus sons e suas cores... o azul esverdeado, o verde azulado, o branco das espumas, o prateado das sardinhas e o vermelho dos corais... 

Nascemos no mar, viajamos através dele, flutuamos, mergulhamos, observamos as marés, admiramos as vidas marinhas, nos inspiramos e nos afogamos... 

Sabe quando se é criança, e, nas férias, se passa o dia todo no mar, até os dedos se enrugarem e a pele arder? E a noite, já na cama, esperando o sono vir, fecha-se os olhos e é possível sentir o corpo balançando, no ritmo e leveza das ondas do mar? É disso que estou falando.
Uma lembrança doce, de água salgada e cheiro de mar. Já me esqueci quando foi a última vez que coloquei uma concha na orelha para ouvir o som do mar...

Ontem foi o dia mundial dos oceanos, um lembrete para nós contribuirmos com a preservação dos oceanos (e do planeta) através de nossas escolhas e atitudes, inspirados por nossas relações com o mar e suas simbologias.

Qual a sua relação com o mar?


Arte de Estela Miazzi @estelamiazzi

sábado, 16 de maio de 2020

PESCADAS

Luz apagada, fecho o livro e os olhos. O corpo relaxado, um suspiro longo para acomodar o sono e ouço um eco do que acabo de ler: o pai do escritor Lima Barreto, subitamente, enlouqueceu. Foi dormir lúcido e, no meio da madrugada, acordou delirando. Nunca mais se recuperou. A imagem desse pai dormindo na véspera da loucura me traz a curiosidade de saber como é o meu próprio rosto neste momento em que estou estirado na cama, madrugada nascendo. Das questões infantis que me acompanham ainda hoje: saber com qual rosto os outros me reconhecem. E ao pensar em meus traços, a imagem que surge é do meu avô (com quem eu me pareço) deitado em seu caixão, prestes a virar cinzas. Sou eu ali, morto? Sorrio, como também minha mãe sorria em seu próprio velório. Meu avô estava lá, se despedindo da filha. Quando na vez dele, eu estava lá, (como estou agora, revendo seu rosto) velando o corpo ao som da música caipira que tocava ao fundo: Saudade de Matão. A convivência com o gosto musical desse avô, aliada ao discos que meu pai escutava, fez do caboclo que habita em mim alguém que muitas vezes toma minhas mãos para escrever meus textos. E quando adentro essa roça da imaginação, a referência é quase sempre uma fazenda em que fui uma única vez, criança. Parentes de uma vizinha que gostava muito de mim. E sua sobrinha, moradora da fazenda, também me gostava, à ponto de procurar subterfúgios, naquela exclusiva visita,  para me arrancar um beijo. Na época não percebi esse estratagema, estava ocupado em apreender a vida no campo. Quando me dei conta de que Raquel queria me beijar, já estava longe e, num misto de vergonha e raiva, ri exageradamente de qualquer piada que fizeram no carro.
Raquel era sobrinha de dona Ana, o rosto que me visita agora, luz fechada, livro apagado, olhos por dentro. Por que penso em dona Ana agora? Lembro que passava muito tempo na casa dessa mulher, mais velha que minha mãe. Ela parecia gostar da minha presença, mas talvez minha memória não enxergue os olhos virados de quem preferiria estar assistindo televisão. Não, dona Ana gostava mesmo de mim, me trazia laranjas da fazenda, me oferecia leite com chocolate, me apresentou o café. Dona Ana e seu marido (como era o nome dele?) que tinha um dedo à menos por conta de um acidente com fogos de artifício. Imagino o estouro e logo sou lançado a uma recordação: estou na rua, ano-novo pipocando e meu avô me ajudando a estourar um rojão. Saiu um tiro. Saiu o segundo tiro. O terceiro se recusou. Esperamos alguns segundos, mas nada. Meu avô, segurando o rojão comigo, abaixou o objeto, que estourou o pavio no exato momento em que estava frente aos meus olhos. Gritos, choro. Os adultos me socorrem. Meu avô se desespera e fico com pena de sua culpa materializada em uma caminhada sem sentido. Paro de chorar, está tudo bem, vô. Olha, até consigo piscar.
Pisco de olhos fechados, forçando as pálpebras que já descansavam, livro sem luz. Dona Ana rindo porque bebi água com formiga sem perceber, ela dizendo que tamanduás não precisam de óculos, uma vez que esses insetos fazem bem para a vista. Acho que engoli poucas formigas, minha miopia bem sabe. Só agora me atento que sempre gostei da companhia dos mais velhos. Ao mudar de bairro, deixo dona Ana (por onde anda Ana, dona?) e começo a frequentar a casa da tia paterna. Anete gostava de ler - muito - e compartilhava comigo este sabor. Contava enredos, me fazia inventar outras histórias (meu pai também tinha prazer em criar comigo; era brincadeira familiar deles?). Anete foi que me ensinou  a língua do P, da qual fiquei fluente, conversando por horas nesse nosso idioma secreto. Ela quem me apresentou o kiwi, a fruta-pássaro que conseguiu se colocar em um patamar próximo ao das laranjas, paixão do menino. Ana, Anete, Iolanda, a tia materna que virou minha próxima companheira mais velha. Esse “an” se repetindo nos nomes pelos anos. Iolanda e nossas risadas madrugada adentro, acordando meu avô: vocês falam muito, ele resmungava, antes de voltar para a cama.
Abro os olhos novamente, não deliro nem estou morto. O pai de Lima Barreto continua ali no livro, recontado em sua repentina insanidade. O quarto escuro, a respiração da companheira e dos cães espalhados no quarto nessa noite fria confirmando a vida. Tudo ocorrendo por décadas ou – eita! – nos últimos dez minutos. Luz apagada, livro os olhos de estar acordado e dou boa noite a todos que conversam aqui dentro: vocês falam muito.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Dado



- Dado, come seu almoço.
- Não quero.
- Mas você precisa comer..
- Não quero!! Não vou!

Maria inspirou profundamente e olhou para o pai. Aposentado, na casa dos 87 anos, cabelos brancos, robusto, óculos com uma marca de dedo no canto da lente. A pessoa mais amável do mundo todos os dias. Hoje, excepcionalmente, rabugento.

O resto da família, a mãe e a faxineira, sentadas na mesa, olhavam quietas a cena desenrolar.  A regra era que um por vez falasse, para não atordoar o velho. Existe uma série de cuidados que devem ser tomados ao lidar com um familiar com alzheimer.

Uma esquecida aqui, outra lá. Uma carteira perdida. Eram só fatores que estavam relacionando à senilidade, não a alguma doença específica. Até um dia em que um dos filhos encontrou dado sentado na praça, e ele não sabia onde estava nem o que iria fazer.

Mesmo com o diagnóstico, ainda mudaram de médico, não porque não acreditavam no resultado, mas porque não confiavam no tratamento, a doença estava evoluindo rápido demais. Com um especialista localizado, mais resultados: a doença evoluiu rápido pois ele estava submedicado. Não bastasse isto, os remédios tinham efeitos colaterais pesados, aliados a outras limitações advindas da idade, como não poder levantar peso para não prejudicar a coluna, que resultou em um problema na perna.

Com um novo médico, novas orientações, estabelecimento de rotina, cuidado para que não fique doente, remédio em adesivo, falar devagar, não colocar informações demais, não deixar o paciente angustiado…

Pouco a pouco os filhos foram cercando as atividades do pai, para que ele não sentisse que perdeu a autonomia. Com o passar do tempo e a evolução da doença, sem os cuidados necessários, eventualmente um passeio em família poderia virar um desastre.

E era esse cuidado que estavam tomando agora.

Maria respirou e olhou para o pai, foi até a fruteira e voltou. Empurrou o prato de comida, com uma banana junto.

- Dado, você tem que comer esse prato, e com banana, foi a vovó Mariana quem mandou. - Minha mãe? Mandou nada. Ela morreu! - Ela morreu mas veio falar comigo em sonho. - É? - É sim senhor. Ela veio no meu sonho e falou que o senhor tem que comer tudo e com banana, pra cuidar dessa sua cãibra na perna.
Dado olhou para Maria, seus olhos de tartaruga encarando com seriedade.
- Se minha mãe mandou, não posso negar. E em respeito à ela, vou comer tudo. - Com banana. - Com banana.

E pegou os talheres e começou a almoçar.


Dado não sabe que tem Alzheimer, às vezes olha para os netos de maneira desfocada (mas logo que o conhecimento chega, ele abre um sorriso), não consegue mais ver tv ou ler jornal, fica ansioso quando chega o anoitecer, se atrapalha e esquece muitas coisas...


Mas sabe que tem que respeitar a mãe quando ela dá uma ordem, mesmo que seja do além.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Convites de casamento

Os convites de casamento se acumulavam sobre a mesa da sala: “Virgílio e família”. Os anos de dedicação e carinho aos tios, primos, sobrinhos, amigos e vizinhos renderam uma boa coleção de caligrafias, pedaços de tules, e papéis cartão em tons diferentes de bege. Na cozinha, o único som era o da geladeira, que mesmo sendo um modelo novo e silencioso, era mais barulhento que os próprios pensamentos.

Na sala, sentava-se de frente para a televisão, mas não ousava tocar no controle remoto. Mantinha-a sempre desligada. A programação era sempre a do seu próprio reflexo. Quando estava escuro, as únicas imagens eram a de suas memórias.

Sua rotina era composta por quatro principais eventos: acordar, ir ao banheiro, comer e dormir. Não necessariamente nessa ordem, e com repetições de ações. Fora isso, tentava andar de um lado para o outro no corredor da casa após o almoço para fazer a digestão. Às sextas-feiras, tinha fisioterapia.

Em suas viagens diárias ao passado, lembrava-se especialmente de sua mãe. Às vezes, em visita da neta, nos momentos em que seus caminhos se bifurcavam, ou quando suas sinapses já não funcionavam, agarrava a mão daquela moça que estava ali à frente e chamava por sua mãe. “Mamãe, mamãe, mamãe”. Voltava à realidade quando entendia quem era ali – “Tudo bem, vô?”, perguntavam os olhos gigantes, porém delicados, e as mãos firmes. Respondia que sim com a cabeça. E logo voltava-se para a programação normal.

Morreu dormindo, logo depois de ter chamado pela mãe, como insistentemente fazia nos últimos anos. Aparentemente, dessa vez ela havia ouvido seus chamados. Deixou a esposa sem rumo, que acabou tomando seu lugar no sofá.

Mais ativa que era, ela ainda estendia as caminhadas até o mercado do centro, para buscar sua marmita diária na hora do almoço – não fazia mais sentido fazer comida para si mesma – fazia seu croché e caçava palavras nas revistinhas de bancas de jornal.

Agora, o neto mais novo fora morar com ela, mas ainda tinha dúvidas frequentes de quem era ele – o neto ou o filho? Dizia, sempre risonha para o resto da família em suas visitas semanais: “dessa vez eu juro que paro de chama-lo de Lúcio. É o Ju.” Segundos depois, desistia da sua proposição. Era o filho. Ao telefone, dizia à neta: “hoje fui almoçar com o Tio Lúcio”.

Mantinha suas tentativas frustradas de acertar. Sempre tivera medo daquele cara alemão que saía por aí roubando as memórias e os afetos. Era o Alzheimer, lhe diziam. Por isso, pegava firme nas caça-palavras.

Essa semana se sentiu estranha pois visitou um lugar que há muito não ia. Viu pessoas que há muito não encontrava. Teve a impressão de que fora ao velório de algumas delas. Visitou o melhor carnaval de rua da sua cidade, na época dos grandes bailes e das marchinhas. Dançou até dar calo nos pés, paquerou o marido, que estranhamente ainda tinha as feições jovens, tomou um porre de vinho, o único da vida. Pensando bem, agora eram dois, já que o havia tomado de novo. Quando voltou para casa, o neto (ou o filho?) lhe levava uma xícara de café e já não tinha mais certeza de onde estava.

Outro dia resolveu passar uns dias com a irmã mais nova, essa tinha Alzheimer, coitadinha. Uma moça tomava conta dela durante o dia. Tomavam café juntas e assistiam televisão. Mas, frequentemente era interrompida pela pergunta: “O Virgílio já morreu?”. E tinha que, com paciência, responder que sim, todas as vezes. Uma pontada no coração, um frio na barriga e uma lágrima acompanhavam a paciência que tinha ao responder a irmã.

Mas seguia de cabeça em pé. “Estou ficando caduquinha”, dizia à neta, “mas ainda tenho muita vontade de viver”. E no seu andar corcunda, caminhava confundindo suas memórias, embaralhando passado e presente. Uma pena é que as fotos digitais já não trazem a materialidade do passado, mas pelo menos, os mais de vinte porta-retratos no móvel de entrada traziam algum conforto. A foto de seu próprio casamento. Como estava bonita! E o Virgílio, tão novo. Isso a fez lembrar de algo: olhou para uma pilha de papéis na mesa da sala e começou a escrever a lista de presentes a serem comprados.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Tudo é só saudade


Entre panos surrados, estampas desbotadas, paredes descascadas e panelas pretas pelo tempo eu ainda vejo borboletas. Ainda é o único lugar no qual eu as vejo voando. Alguns representantes dos coloridos insetos que eu capturava quando pousavam nos capitães também coloridos, na feliz infância.
Quando volto, meu reino tem rainha. E ela reina.
- Não precisava por tudo isso de óleo para fazer arroz.
- Se não por, o arroz fica seco e seu avô precisa de energia.
- A energia não vem do óleo, ele precisa de carboidrato.
E ela não está nem aí para os meus cientificismos de revista e programas de saúde na TV. É o melhor arroz com quiabo, com salada, bife e feijão de todo o mundo.
- Por quê você plantou um alho-poró no meio do jardim e não na horta?
- É planta também e aqui é minha horta.
Manjericão, jurubeba, manga, goiaba, pimenta, pitanga, banana, caju, dália, rosa, pé de cana, acerola, orquídia, boldo, cebolinha,couve, jaboticaba, salsinha.
Desde cedo aprendi que aquele era o jardim mais plural e democrático que conhecia. Tudo ainda está lá e tem para todo mundo.
Hoje quando bebi um suco do limão que ela não deixou colher antes, que estava reservado para mim, pude ver que realmente no meu reino ele tem outro gosto. Não azedo como encontrei por aí.
- Quer açúcar no suco de laranja?
- Não, só tomo natural agora.
- Se quiser eu coloco um pouco, com gelo porque você sabe que eu gosto de tudo bem docinho.
Sei sim, e como eu cresci amando tudo que era tão docinho, feito de um néctar especial, de fonte única.
Pensei: Nossa! Como o limão ta com um gosto diferente. E é bom.
O bolor chegou na cozinha, em alguns cantos da parede. Há bibelôs mancos que ainda lutam com a gravidade e ocupam quase que a mesma posição. Há acúmulo de coisas no quintal.
Digo: - Por quê você junta tanta coisa que não usa? Penso: faço a mesma coisa.
A falta do reboco na parede, a ferrugem na porta e a madeira apodrecida me incomodam; mas o cheiro de dama da noite ainda entra todos os dias pela janela e toma conta da casa sem pedir licença.
Cada vez que vou embora tenho mais medo que o tempo pese sobre esse reino que eu deixei. Não sobre o bolor, sobre a ferrugem, sobre a tinta das paredes ou sobre os panos envelhecidos.
No abraço do reencontro ela pergunta: - O que você achou lá que não volta de vez?
Eu sem saber o que responder, digo:
- Eu não posso voltar.
Volto. Bebo suco de limão que não é limão. Como o pior arroz, caro e sem gosto pra saber que no meu reino tudo é tão diferente.
E mesmo com o medo enorme do tempo me castigar com a ausência dela, eu parto. Minha ausência já a castiga; mesmo sabendo que preciso ir ela finge irracionalidade e pergunta por que eu não fico mais.
- come um chocolate.
- eu acabei de almoçar.
- toma um iogurte então.
- mas eu acabei de comer.
- vou por um copo de vinho pra você.
Sentada numa cadeira no jardim, em meio a tanto verde e sob um céu ardentemente azul com nuvens de paina, ela sempre vai reinar.
Quando o portão bate; tudo é só saudade.


Por Fernando Bonfim, dia 13

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Rupturas e marcas

Memórias não são fatos sólidos. Não são o que aconteceu, dito de forma impessoal e imparcial. Isso, num mundo ideal, seria a História. Memórias são pedaços de nós. Pedaços de nossos sentimentos e impressões. E apesar de empatia já ser difícil no tempo presente, quando se trata de relembrar o passado, ela se torna ainda mais complexa.

Entre as memórias que se tornam mais difíceis de ver com objetividade, e até mesmo de lembrar em momentos comuns, estão as de rupturas.

Perdas. Demissões. Mortes na família. Humilhações memoráveis. Todos esses eventos, e muitos outros, nos deixam aquele tipo de cicatriz que ao mesmo tempo em que nos faz esquecer muito do ocorrido para seguir em frente, surgem em nossas mentes nos piores momentos. A memória, longe de ser uma serva fiel ou uma agenda de momentos doces, muitas vezes se apresenta como um catálogo de dores. E a forma de lidar com isso é muito pessoal.

Nem todas as memórias são doces, e muitas vezes as amargas realmente são as de maior destaque. Mas em momentos em que a luz parecer distante, é importante lembrar que as memórias são subjetivas, e nós muitas vezes nos julgamos com dureza demais. E mais que isso, que essas marcas todas são o que nos construiu. Se você hoje é uma colcha de retalhos, lembre-se que cada um desses pedaços está aqui porque sobreviveu às cisões. 

Carregar marcas não é vergonha, e assim como aprendemos com os erros do passado, devemos aprender a nos perdoar e a perceber que o que passou, passou. As memórias podem nos ensinar lições, nos fazer melhores e mais sábios, mas não podem nos escravizar. Porque se estamos aqui é porque sobrevivemos a todas elas.

Um ano memorável a todos. 




quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A primeira leitura de um autor ou acerca da memória


Quando é a hora? Qual o momento em que descobrimos que não podemos mais viver sem ler os escritos de um autor? E por que um escritor nos toca mais do que outro? E nos toca diferentemente em momentos diferentes? Ando assim. E deliro como se todo livro precisasse, antes, ser desejado, ansiado. Precisasse me atormentar, me fazer resmungar no meio da minha desatenção. Ou ainda rememorado, mesmo quando o escoadouro da memória é maior do que a memória.

Uma das minhas lembranças mais marcantes de descoberta de um escritor vem da leitura de Relatos de um certo oriente, de Milton Haltoum. Na primeira semana de um ano qualquer, somente porque o lia, chorei desesperadamente numa rodoviária entranhada no meio das rondônias. As pessoas me olhavam curiosas; por fim, quiseram me consolar e trouxeram-me um copo d’agua e me ficavam ainda mais atônitas quando eu dizia que chorava por causa do livro que estava lendo.

Lembro com muita nitidez quando li O processo, de Kafka. Rodeada por livros da biblioteca da minha professora de literatura, eu estava apaixonada e, por isso, sentia-me toda intensa, pronta para tudo e abismava-me sem amarras com aquele mundo labiríntico do sem-explicação e com aquela morte absurda no final.

Porém, uma das minhas lembranças mais fortes está relacionada à leitura de Crônicas de uma casa assassinada, de Lúcio Cardoso. Vários dias depois da leitura, ainda sentia o cheiro das violetas podres e do corpo apodrecido entre as violetas, aterrorizada com aquela catarse delirante de revelações. Desde que vi os objetos de Farnese de Andrade relaciono-o com o universo literário de Lúcio Cardoso. Penso que só ele, no Brasil, pode ser comparado a Lúcio:::: a este desespero pelo próprio destino e o da humanidade.

Ainda lembro do primeiro livro que li do Graciliano Ramos, que não poderia ser outro senão Vidas Secas. Li-o numa tarde em que fui visitar uma pintora. Foi lá que descobri que nas pinturas existiam fundos de uma cor só. Eu deveria ter uns onze anos. Mas é da época de São Bernardo que me recordo melhor: aquelas corujas que não paravam de piar à noite se misturaram com minha própria coleção de corujas. Nunca mais deixei de ler Graciliano.

Lembro, ainda, de Cem anos de solidão, do Gabriel Garcia Márquez. As memoráveis primeiras páginas; o gelo que queimava, os lençóis brancos voando... e o mesmo choro que irrompia em mim. Dessa vez, tanto o agora quanto o porvir pareciam maior que o mundo. E havia tanta gente linda ao meu redor::: do adolescente que me olhou com cara de "é claro" quando eu lhe perguntei se já havia lido Cem anos de solidão ao homem capaz de agregar uma porção de leitores ao seu redor, formávamos uma espécie de confraria que se reunia naquela livraria que não existe mais.

Lembro do encantamento com Cantares, de Hilda Hilst, que nunca mais se repetiu em nenhuma de outros dos seus livros que li.  Carreguei-o pra cima e pra baixo numas férias em que estava fugindo de mim mesma. Ou em busca de mim, não sei. Lembro que recolhia pedaços de um amor que, sendo amor, há muito deixara de sê-lo.

Ainda poderia ficar por muito tempo a escarafunchar minha memória, descobrir que a tenho, mas agora ela me pesa muito, como se carregar tanto dentro de mim explicasse por que é preciso que hoje eu esteja fazendo 37 anos, e não menos como gostaria. Paro, então, por aqui, surpreendida com os retalhos do meu passado. Não quero chegar naquela noite branca em que, com O inominável, de Samuel Beckett, dentro da minha bolsa, eu me sentia a pessoa mais feliz do mundo e prometia a mim nunca me dar menos do que a felicidade absoluta. Paro porque existem promessas que não podem ser cumpridas e, por isso, são tão bonitas de serem feitas. 
*

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A desmemória da goiaba

Tenho medo da velhice.

Não medo de olhar pro espelho e ver minha cara murcha. Mas tenho medo de não poder confiar mais na minha memória. Um amigo me disse uma vez que nossa vida é memória, e estabeleceu um diálogo mais ou menos assim:


Ele - O que você não gosta?

Eu – De comer? Do que?

Ele – É, pode ser.

Eu – Goiaba.

Ele – Mas como você sabe que não gosta de goiaba?

Eu – Porque comi e não gostei.

Ele – E você só sabe que não gosta porque tem memória. Se não tivesse, poderia comer a goiaba com uma ‘boca nova’ e quem sabe, né?


E pronto. Ficou na minha cabeça. Vocês perceberam que as coisas se alojam na minha cabeça e eu posso pensar nisso o resto da vida, né? Como na história do ridículo lá.

Enfim, voltando à velhice. Minha vovó (Deus a tenha!) faleceu com 81 anos. Muito linda, cara boa, forte e lúcida. Mas tinha falhas na memória, como era de se esperar. Confundiu por muitas vezes eu com minha mãe. “Neuzinha, sabe quem eu vi hoje? A Simone, sua amiga da igreja”. Eu sorria e a corrigia. Ela, envergonhada, pedia desculpa. Falava que a gente era muito parecida nessa idade, coisa e tal. E um dia que ela me disse que andou, andou, andou e quando deu por si estava a 3 km de casa? É, tenho medo disso. Ela pegou um taxi, fez a gata, voltou bonita pra casa e rindo da história. Mas eu fiquei assustada. Coisa assim, que pode acontecer com qualquer um.

Digo qualquer um porque é qualquer um mesmo! Não adianta fazer curso de memorização aqui, ler demais ali, fazer chá de não sei o que, misturar livros com, sei lá, brócolis? Bom, digo isso pela minha avó, que leu mais que qualquer pessoa que eu conheça. E faleceu com uma cruzadinha do lado da cama, coisa que ela tinha um vício insuperável.

Guardamos muitas coisas na memória. Tenho vontade de escrever tudo o que tem aqui dentro, pra saber do que gosto, do que não gosto, do que estimo, de que lado da cama eu durmo, se como farofa de boca aberta, se faço as unhas em casa ou pago manicure, se tenho dor de estômago de comer tomate com semente, se gosto de som baixo, enfim. Muita coisa pra guardar.

Mas seria até bom esquecer das coisas de vez em quanto. Quem sabe o gosto pela vida não seria mais sincero, não é mesmo? Com um ‘boca nova’ você prova aquela laranja azeeeeda, que te fez entortar o nariz a vida inteira e... gosta? É, você gosta do azedo. Você gosta porque experimentou sem um conceito predeterminado sobre aquilo. Não é seu paladar que tem problema em gostar das coisas azedas, é você quem o obrigou a não gostar disso. O problema é seu, na verdade. Ou meu, no caso da goiaba.

Mas seria até bom, né? Esquecer desavenças, desrespeitos. Passar por aquela pessoa que você cismou em brigar a vida inteira sem motivo e sorrir pra ela. Ou ter suas lástimas perdoadas também. Vale pros dois lados.

Uma vez, passeando internet afora, li uma coisa interessante. Falando sobre uma tal de desmemoria. Se não me engano, escrita por Eduardo Galeano. E, caramba! Parece que o cara me adivinhou.

“O bebê sorri porque ainda não tem memória; o velho porque já não tem nenhuma. Eis aí a felicidade perfeita. Não a quero.”

E não é? É lindo. Mas eu não quero, não! Não quero perder isso que levei anos para construir. Não quero acordar um dia e ficar em dúvida se eu prefiro leite morninho (urgh!) ou gelado, ou se eu não como chiclete porque não gosto ou porque tenho alergia fatal.

É legal esquecer das coisas, e vou me esforçar um pouco pra isso. É um exercício. Esquecer daquilo que não faz bem pra gente. Comer com ‘boca nova’ o que vem por aí. Ainda pretendo comer a goiaba com uma ‘boca nova’. Só não sei quando. Mantenho-os informados.




Imagem: Alex Silva


twitter: @tabataaa

domingo, 6 de junho de 2010

Memória Cinematográfica



















      Sexta-feira faz chuva e sol, as raposas estão se acasalando e não querem que ninguém as perturbe, mais uma vez acordei atrasado para ir trabalhar, o relógio da porcaria da televisão estava errado, acordei vinte minutos mais tarde com a moça do tempo falando em nuvens, neblinas, sombras, dia da marmota e outras coisas que não faziam o menor sentido na minha cabeça que latejava. Minha sobrinha de um ano e meio não me deixou dormir, chorava, esperneava e se debateu até que seu carrinho descesse as escadas e encontrasse meu vizinho, um senhor que essa semana irá receber uma honraria na universidade que leciona, por seus anos, aliás, décadas de carreira, é alguma efeméride, acho que são cinqüenta anos. Ninguém se machucou apesar de meu vizinho ter achado que tinha quebrado o fêmur, mas, já esperava algo semelhante vindo dele, hipocondríaco irritante que uma vez causou tumulto porque pensara que uma mancha escura em sua camisa se tratava de um melanoma.

      Apressado, preferi ir tomar café ao lado de uma joalheria que tem perto do trabalho,  já na empresa percebi um clima de agitação, era dia de entrevistas para contratar novos empregados. Lembro me bem como foi minha entrevista...Uma serie de perguntas estúpidas e invasoras, logo de início a pessoa quis saber a minha data de nascimento, eu lhe informei, aí então o cretino inquiriu: “qual a sua idade?”, não agüentei e depois de um “faça as contas oras”  ,  preferi responder da maneira mais protocolar possível os outros questionamentos, afinal, precisava do emprego.
     Saí para almoçar um pouco mais tarde que o habitual, o restaurante já estava cheio, achei que mesmo assim conseguiria almoçar sozinho quando vi uma mesa vazia, mas, logo depois de eu me acomodar, veio um casal que pediu licença e se sentou na minha frente.  Não satisfeitos em compartilhar somente a mesa começaram a discutir sua relação, até o marido dizer: “E aquele caso que você teve não conta?”, a esposa retrucou: “Caso? Não foi um caso, foi apenas um breve interlúdio de infidelidade, e, aconteceu há anos!”, depois disso preferi deixar os dois a sós, guardei meu chocolate para o jantar e voltei pro serviço.
     Pouco antes de ir embora tive que protocolar um documento no palácio dos bandeirantes, nunca havia entrado lá, muito bonito, uma moça chamada Silvana me acompanhou até a sala em que eu deveria ir, uma excursão que me lembrou o filme “A Arca Russa”, um lugar enorme, com muitas estátuas e ornamentos, tudo muito branco e brilhante, além disso, havia uma escada bem parecida com a do hotel de “O Iluminado” (versão Kubrick).     
     Bom finalmente após isso pude voltar para casa e assim terminar de ler “Adeus Meninos”, não sei se sou aquele que sabe viver e se isso foi interessante mas é assim que me lembro do dia de ontem, e, poderia lembrar bem mais e melhor se não tivesse doente e me sentindo frágil tal como Abacuc em sua ultima jornada.

                                                              Sábado, 25 de Maio de 2010

Por Vlad Galli