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quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Objetos sentem saudades?

Se objetos sentem saudades, eu não sei. Mas ainda ouço ecoando as risadas nas tardes ensolaradas. Sinto o calor do sol em minhas paredes, quando ainda eram pintadas de amarelo, antes da tinta descascar e antes do mofo tomar conta.
Sinto o aroma das amoras, e das ervas em meu jardim quando ainda eram cuidadas, regadas, amadas, vivas! 
Ainda ouço o cantar dos pássaros e o barulho da rede balançando em meu quintal, a música no ar, e ainda sinto e o cheiro dos churrascos de fim de semana, quando eu era celebrada.
Ainda sinto os gatos arranhando minhas paredes e repousando em meu piso. E ainda ouço as vozes em meu interior -às vezes sérias, às vezes tristes, mas muitas vezes alegres-, quando eu era habitada.
Ainda sinto a movimentação de pessoas, animais e histórias, sob meu teto e minha proteção, quando eu era refúgio.
Ainda sinto a gratidão e o amor de quem eu abrigava e cuidava, quando eu era lar...

Se objetos sentem saudades, eu não sei. Mas posso testemunhar que as casas sentem, e muitas!



segunda-feira, 5 de junho de 2017

Mafalda

Então perdi alguém
Alguém querido, alguém tão próximo
Mas sei que jamais a perderei
Confuso?
Pois estes tempos também o são...

Perdi sim sua companhia
Sua presença
E até mesmo sua voz
Voz já carregada pela melodia do tempo

Mas não perdi sua sabedoria
Esta, me recuso a perder
Não há como perder suas memórias
Agora que também são minhas
Tantas histórias

Não perderei seus ensinamentos
Sua prosa e seu tricotar
Não perderei nenhum momento
Como naquelas tardes de chá em sua mesa

A casa já não era a mesma
Nem mesmo o ar o foi
O amor também não era o mesmo,
Porque amor verdadeiro cresce
Não se importa com distância ou barreiras

Tantas coisas descem da minha mente
Buscam os meus dedos
Querem ser relatadas
Revividas...

Uma história muito grande
Não cabe em uma madrugada
E nem em um punhado de papeis
Porém cabe no coração.
Cabe na memória.

É lá que a cultivarei
A honrarei
E principalmente
A brindarei com minha saudade.

Fábio Fonseca

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Tudo é só saudade


Entre panos surrados, estampas desbotadas, paredes descascadas e panelas pretas pelo tempo eu ainda vejo borboletas. Ainda é o único lugar no qual eu as vejo voando. Alguns representantes dos coloridos insetos que eu capturava quando pousavam nos capitães também coloridos, na feliz infância.
Quando volto, meu reino tem rainha. E ela reina.
- Não precisava por tudo isso de óleo para fazer arroz.
- Se não por, o arroz fica seco e seu avô precisa de energia.
- A energia não vem do óleo, ele precisa de carboidrato.
E ela não está nem aí para os meus cientificismos de revista e programas de saúde na TV. É o melhor arroz com quiabo, com salada, bife e feijão de todo o mundo.
- Por quê você plantou um alho-poró no meio do jardim e não na horta?
- É planta também e aqui é minha horta.
Manjericão, jurubeba, manga, goiaba, pimenta, pitanga, banana, caju, dália, rosa, pé de cana, acerola, orquídia, boldo, cebolinha,couve, jaboticaba, salsinha.
Desde cedo aprendi que aquele era o jardim mais plural e democrático que conhecia. Tudo ainda está lá e tem para todo mundo.
Hoje quando bebi um suco do limão que ela não deixou colher antes, que estava reservado para mim, pude ver que realmente no meu reino ele tem outro gosto. Não azedo como encontrei por aí.
- Quer açúcar no suco de laranja?
- Não, só tomo natural agora.
- Se quiser eu coloco um pouco, com gelo porque você sabe que eu gosto de tudo bem docinho.
Sei sim, e como eu cresci amando tudo que era tão docinho, feito de um néctar especial, de fonte única.
Pensei: Nossa! Como o limão ta com um gosto diferente. E é bom.
O bolor chegou na cozinha, em alguns cantos da parede. Há bibelôs mancos que ainda lutam com a gravidade e ocupam quase que a mesma posição. Há acúmulo de coisas no quintal.
Digo: - Por quê você junta tanta coisa que não usa? Penso: faço a mesma coisa.
A falta do reboco na parede, a ferrugem na porta e a madeira apodrecida me incomodam; mas o cheiro de dama da noite ainda entra todos os dias pela janela e toma conta da casa sem pedir licença.
Cada vez que vou embora tenho mais medo que o tempo pese sobre esse reino que eu deixei. Não sobre o bolor, sobre a ferrugem, sobre a tinta das paredes ou sobre os panos envelhecidos.
No abraço do reencontro ela pergunta: - O que você achou lá que não volta de vez?
Eu sem saber o que responder, digo:
- Eu não posso voltar.
Volto. Bebo suco de limão que não é limão. Como o pior arroz, caro e sem gosto pra saber que no meu reino tudo é tão diferente.
E mesmo com o medo enorme do tempo me castigar com a ausência dela, eu parto. Minha ausência já a castiga; mesmo sabendo que preciso ir ela finge irracionalidade e pergunta por que eu não fico mais.
- come um chocolate.
- eu acabei de almoçar.
- toma um iogurte então.
- mas eu acabei de comer.
- vou por um copo de vinho pra você.
Sentada numa cadeira no jardim, em meio a tanto verde e sob um céu ardentemente azul com nuvens de paina, ela sempre vai reinar.
Quando o portão bate; tudo é só saudade.


Por Fernando Bonfim, dia 13

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Love Hurts

 Nas paixões, a razão nos desampara.
Bocage

Ilustração: Verônica Vilela


O tempo estava agradavelmente quente. Denis saiu animado de casa para encontrar o grupo de amigos. A noite seria de muito barulho. Na verdade, suas preferências musicais mudaram muito desde a adolescência, quando era fã de Nirvana. Agora preferia musica brega dançante. Combinava melhor com os botecos que frequentava. Mas Adailton insistira tanto para acompanhá-lo que Denis aceitou a dose de nostalgia. Os dois amigos se encontraram em frente à pracinha de sempre:

- E a Letícia, hein? Ela é gente fina. Tomara que a amiga dela seja simpática.

-É... - disse Denis um pouco desanimado.

-Pô! O que importa é que a gente vai curtir hoje, né não? O show vai ser massa, cara!

Uma hora depois e estavam todos reunidos. A casa de show estava cheia. Tanta gente usando roupas pretas fez Denis se lembrar de Ana. Há bastante tempo não se falavam. Lembrou-se daquele dia em que estavam jogando conversa fora e ela lhe mostrou as músicas gravadas no celular, eles tinham gostos em comum. Aliás, tinham tanto em comum, eram mais parecidos do que imaginavam. Do que desejavam. Ou deveriam. Ele odiava o orgulho dela. Mas isso não importava mais. Era passado.

O show iniciara com uma musica animada. Letícia pediu para se aproximarem do palco e todos concordaram. Eles se encaminhavam quando Denis parou instintivamente em um ponto aleatório do público. Sentiu uma sensação estranha na nuca, que lhe acometia sempre que era observado por trás, de modo que se virou para procurar quem o observava. A uma distância de um palmo estavam aqueles malditos olhos de olhar incisivo...

Ana e Denis ficaram se olhando. Ambos esperavam a iniciativa do outro para romper o silêncio. Desconcertado, Denis sorriu primeiro. Ana sorriu de volta com olhos. Ela disse “oi” sem emitir som, num gesto sutil com os lábios. Denis se sentiu encorajado para cumprimentá-la. Ele pôde sentir o cheiro de perfume quando se aproximou dela, mas então se lembrou de ter visto um rapaz e se afastou. Sim, havia um desconhecido ao lado de Ana. Denis o encarou rapidamente, julgando que era melhor evitar constrangimentos. Virou-se para Letícia e disse “vamos pra lá”.

Denis e Letícia se juntaram aos amigos próximos ao palco. Letícia se queixava com sua amiga, especulando sobre a identidade da moça. Enquanto isso, Denis disse ao ouvido de Adailton “é a Ana”. O amigo não teve dúvidas em procurá-la com os olhos pelo público. Ela é mais bonita pessoalmente. “Mas e esse cara? Será que eles estão namorando?”, perguntou aflito Denis. Adailton não soube responder.

A amiga tentou consolar Letícia, dizendo que ela não deveria se preocupar, mas não adiantou. Letícia decidiu agir e usou todo o seu poder de sedução, beijando longamente o companheiro. Ao abrir os olhos, Denis procurou novamente por Ana, mas ela tinha desaparecido. Mais uma vez. “Não importa. Passado é passado”, repetiu para si intimamente.

domingo, 21 de julho de 2013

O sorriso fez lembrar!

Havia sido um dia daqueles.

O dia no primeiro trabalho havia sido cheio.
Não reclamava, porém! 
Muito pelo contrário, agradecido estava por ter saúde para labutar todos os dias!
Para que pudesse realizar seus sonhos, estava em duas ocupações: Uma de noite, outra de dia.

Naquela noite chuvosa, após um trajeto de sua casa até o centro da cidade, lá estava ele.
Estava feliz, pois descobrira uma nova amiga, super agradável! Adorava estar na presença dela!
Uma menina super comunicativa e sorridente!

Enrolava uns minutos com ela, em frente à Igreja Matriz da cidade, pois seus horários de compromissos coincidiam. Ele pro trabalho, ela pros estudos.

Terminada as formalidades com o famoso "tudo de bom pra você", de ambas as partes, lá ia ele.

Acontece que no caminho, vislumbrou uma figura que o levou à uma viagem, anos atrás!
Uma moça, à época uma menina, e agora uma mulher, cruzou seu olhar com o dele, sorriu e o cumprimentou.

Se viu num  passado distante, num evento no qual participava ,onde a menina em questão aos prantos, chorava copiosamente.
Quanta simpatia! Ela lembrou dele! 

E ele dela, claro!

Que legal!
Quanta lembrança um sorriso pode trazer!

E o mais engraçado, era que ela não havia perdido a jovialidade, típica dos adolescentes.

Começou a pensar... "Qual era mesmo o nome dela?! Carla, talvez?!"

Assentiu que sim, que esse era o nome da moça em questão.
Sorriu, e assim foi pro serviço.

Pensou numa música que o remetesse ao passado, de lembranças boas de serem lembradas, colocou o player no repeat, e começou a digitar o texto que você lê agora!

Pronto.

Agora é só editar o texto, encontrar uma imagem, embutir o vídeo e programar a publicação para o dia 21!



quarta-feira, 13 de março de 2013

As canções da minha mãe

Ao lado do sofá da sala havia um grande vaso e dentro dele um tipo estranho de “flor” de cana de açúcar, como uma grande crina tingida de várias cores. Do lado deste vaso havia um grande aparelho de som, que nesse dia era a estrela da casa.
O tapete estava dobrado ao meio e todas as cadeiras da mesa tinham os pés a apontar para o teto.
A estante, antes povoada por uma série de artigos de porcelana branca, dos quais estavam incluídos, pavões, viados, elefantes e outros tipos corriqueiros em estantes espalhadas por outras casas, agora estava vazia.
Se o meu desejo era continuar na sala para ver algum desenho animado que passaria na TV, estava no sofá, um pequeno canto reservado para mim, pois no resto dele, havia o outro sofá de 2 lugares, virado de ponta cabeça.
A cena pós-apocalíptica se repetia por todos os cômodos da casa, afinal, nada poderia estar no chão, pois passar cera vermelha no piso e encerar com a enceradeira eram árduas e longas tarefas. Era dia de faxina; e lá estava minha mãe, com sua roupinha especial e  pronta pra colocar tudo em ordem.
Todo esse caos era embalado, além do barulho da escandalosa enceradeira, por uma série de canções que habitaram o toca discos por muito tempo e hoje, a minha memória.
Havia o dia em que a faxina era embalada pelo ABBA, num clima quase de discoteca entre as mesas de centro, vasos e corredores a serem limpos.
Logo em seguida tocava as melhores de todos os tempos da Itália, na sessão nostalgia, com o Pepinno di Capri cantando alto:
E logo se ouvia de longe, Torneró, Sapore di sale, Roberta ainda do Pepinno, e muitas outras.
Sir Elton John, Chris di Bugh e Bee Gees também não perdiam uma oportunidade de cantar no dia do lerê lerê da minha mãe.
Há de se fazer uma menção honrosa ainda às fitas K7s do Roberto Carlos e tantos outros da jovem guarda, que tinham uma seleção especial no dia da arrumação, assim como uma fita com a gravação de uma prima tocando várias músicas clássicas no piano – Golfinho Azul era uma das preferidas.
Depois de algumas horas, onde os móveis e objetos da casa dançavam ritimados por essa trilha sonora, estava a casa novamente limpa e em ordem, com aquele brilho conseguido com rigor, pronta para ser chamada de Lar novamente.
Hoje posso dizer que minha vida aprendeu a ter trilhas sonoras e a possibilidade de viajar nelas através das doces lembranças como estas, por causa dela que embalou os momentos mais simples e especiais.

domingo, 21 de outubro de 2012

Sobre o tempo que se foi, e que não volta nunca mais...

Pois é!
Tava aqui pensando com os meus botões, dias atrás, sobre o tempo do qual dispúnhamos na época em que éramos felizes e não sabíamos.

Tempo esse que é cada vez mais raro nos dias de hoje. Impressionante como isso colabora com a chatice nossa de cada dia, não?! Mas isso é assunto de daqui à pouco! 

Por ora, falemos da saudade dos brinquedos, dos amiguinhos da escola e algo mais!

Lembro que acordava todos os dias lá pelas 07:30, 08:00 da manhã (vai entender as crianças, né?) e ia direto para o portão de minha casa! 


Meu vizinho, o Duda, tinha um caminhãozão do Playmobill muito loko memo! 
Na verdade era um caminhão de bombeiros!
Eu tinha um fusquinha da puliça, pretinho, bonitinho, que ganhei não lembro de quem, vindo direto de Pariscida do Norte! Mas era meu xodó! 

Além dele, tinha também um chevete verdinho! Tudo de plástico! 
Àquela época, a internet engatinhava! Celular nem pensava em existir (e se pensava, obviamente eu não sabia disso) e as redes sociais eram compostas por pessoas de verdade, em círculos de amizade que incluíam o real aperto de mão, e não somente curtidas ou cutuques!

Como as coisas mudam...

Lembro que em 1.988, então na segunda série, minha turma foi transferida para o salão da igreja Menino Jesus (ainda não era Paróquia), porque na escola, não havia mais sala disponível, pelo número de crianças que estudariam na mesma sala. Meu bairro tinha apenas uma escola naquela época.

Lembro também que o primeiro registro de morte vem desse ano.
Nossa professora de educação física, Isabel, tão novinha, perdeu a vida num acidente de moto. 
A professora de Português chegou com os olhos marejados numa manhã gelada, e deu-nos a notícia.
Coisa estranha essa tal de morte...

Mas a vida seguiu. E chegamos aqui!

A parte do tempo que nos deixa chatos, começa agora!

Penso que as responsabilidades muitas vezes deixam as pessoas mais duras, sei lá!
Claro que a vida ensina a desconfiarmos até mesmo de nossa própria sombra! A medida que crescemos, perigos que não enfrentávamos na infância, vão surgindo também!

Olhando algumas fotos com carinhas felizes aqui no meu computador, antes de começar a redigir esse texto, enquanto procurava uma foto minha quando criança (aquela lá no alto, no início do post), pensava comigo "nossa! Que saudade desse sorriso que desapareceu..."

Tá certo! As coisas mudam, eu sei! A gente muda! Faz parte do processo!

Mas sempre gosto de dizer que somos crianças que crescemos! Acho que já escrevi isso num post aqui (ou teria sido no meu blog?). Não deveríamos perder a capacidade de sonhar e amar como criança!

Mas numa cabeça de adulto, isso parece uma utopia...

Tempo! Que falta ele faz!
Vamos nos transformando em robôs.
Na escola, ensinam o valor da amizade, do companheirismo e por aí vai.
Daí você cresce, a competitividade aumenta, começa a trabalhar, e os que lhe são caros, você vê sim!
Mas quase sempre nos finais de semana, porque no meio da mesma, você só tem tempo de ser o adulto no qual se tornou...

Ok. Sei que a vida é assim mesmo. Mas falar de infância causa isso em mim.
Agora mesmo, enquanto escrevo essa linha, entra pela janela um cheiro de gasolina queimada, proveniente do escapamento de algum caminhão, que me faz lembrar minha infância também.
A infância tem cheiro! Quando nas tardes de outono a lua começa a surgir no céu, os pássaros noturnos começam a piar, e a brisa traz o odor dos brejos que ainda existem em algum lugar longínquo...

Que saudade desse tempo que se foi... E que não volta nunca mais...

Agora deixa eu ir lá, ser adulto!
Mas sempre valorizando a criança que ainda existe em mim.
Isso não pode se perder! Não quero que isso se vá. Nunca.
Sou apenas um menino que cresceu!

E se algum amiguinho meu, da época da escola passar os olhos por esse post, agradeço por fazer parte dessa minha história! 

"Você já se sentiu tão perdido? Conhecia o caminho, e mesmo assim se perdeu...?"

quinta-feira, 21 de junho de 2012

E sorrir, lembrando do seu olhar!

Andando por essa estrada, que me leva nem sei pra onde, vou lembrando de você!
Sempre me encantei com seu olhar que penetrava a alma! Seu sorriso que me fazia me perder em meio aos pensamentos que iam e vinham...

Mais do que palavras! O sentimento era tudo! Foi tudo!
Simplesmente inesquecível!

Penso comigo: Por quê determinadas coisas acabam?!
Será que é por que a gente não cuida direito?!

Puxa vida... A história teria sido tão diferente! 
Queria ter feito de você a pessoa mais feliz nessa Terra, quiçá do Universo!

Não... Ainda seria muito pouco...
Prefiro dizer que seria algo que não fosse temporal. Que duraria a eternidade.
Que não fosse eterno enquanto durasse, mas que prevalecesse em meio a tudo e em meio a todos!

Restaram as lembranças! 

Do seu cheiro! Do seu perfume! Do seu xampu!

Enquanto escrevo, vou rindo, lembrando das brincadeiras que fazíamos! E também desses detalhes que citei no parágrafo acima, que podem até parecer banalidades, mas que fazem parte das coisas que mais gosto de lembrar em você!


Bendita vida essa que faz com que cada um de nós tomemos caminhos diferentes...


Lembro que adorava fazê-la chorar... Mas de felicidade! 
E também de quando te fiz chorar de tristeza. Disse à você e à mim mesmo que eu não era digno do seu amor, que a mulher que eu amava não deveria chorar por aquele motivo.

E você me abraçou, e continuou dizendo que me amava...

Sei lá... Engraçado, sabe?! Por quê coisas assim acabam?!
Acho que a pior parte disso tudo, é que nunca saberei a resposta...

Hoje você está tão longe de mim! E eu de você!
Entre tantos "por quês" que eu gostaria de entender, está também o por quê de eu ser tão saudosista!
Não é que isso me faça triste. Muito pelo contrário! 

Gosto muito dessas recordações!
Só queria que não fossem recordações! Queria que fosse o presente!
Agora, já!
Mas...
A vida apronta o que ela bem entender...

Será que você lembra daquele dia que eu coloquei a música, quando estávamos sozinhos na sua casa, e disse que queria dançá-la com você?! Ahahaha!

Você me chamou de louco! Doido!
E eu disse que era mesmo! E que você era a culpada!

No final das contas, você topou!
Aaaaah... O olhar... Janela da alma...
Parecia que eu te conhecia tão bem... E acho que até conhecia!

Cada acorde, cada palavra... Cada balançar pra lá e para cá dos nossos corpos, embalados ao sabor daquela música... Mas o olhar... Era impossível não amar o seu olhar!

Que me falava tanto em meio ao silêncio! 
Que me entendia tanto quando nem eu mesmo me entendia! 
Como é bom lembrar de você... E sorrir, lembrando do seu olhar!
Agora deixa eu ir! Meu ônibus acabou de chegar.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Tudo é só saudade

Entre panos surrados, estampas desbotadas, paredes descascadas e panelas pretas pelo tempo eu ainda vejo borboletas. Ainda é o único lugar no qual eu as vejo voando. Alguns representantes dos coloridos insetos que eu capturava quando pousavam nos capitães também coloridos, na feliz infância.

Quando volto, meu reino tem rainha. E ela reina.

- Não precisava por tudo isso de óleo para fazer arroz.

- Se não por, o arroz fica seco e seu avô precisa de energia.

- A energia não vem do óleo, ele precisa de carboidrato.

E ela não está nem aí para os meus cientificismos de revista e programas de saúde na TV. É o melhor arroz com quiabo, com salada, bife e feijão de todo o mundo.

- Por quê você plantou um alho-poró no meio do jardim e não na horta?

- É planta também e aqui é minha horta.

Manjericão, jurubeba, manga, goiaba, pimenta, pitanga, banana, caju, dália, rosa, pé de cana, acerola, orquídia, boldo, cebolinha,couve, jaboticaba, salsinha.

Desde cedo aprendi que aquele era o jardim mais plural e democrático que conhecia. Tudo ainda está lá e tem para todo mundo.

Hoje quando bebi um suco do limão que ela não deixou colher antes, que estava reservado para mim, pude ver que realmente no meu reino ele tem outro gosto. Não azedo como encontrei por aí.

- Quer açúcar no suco de laranja?

- Não, só tomo natural agora.

- Se quiser eu coloco um pouco, com gelo porque você sabe que eu gosto de tudo bem docinho.

Sei sim, e como eu cresci amando tudo que era tão docinho, feito de um néctar especial, de fonte única.

Pensei: Nossa! Como o limão ta com um gosto diferente. E é bom.

O bolor chegou na cozinha, em alguns cantos da parede. Há bibelôs mancos que ainda lutam com a gravidade e ocupam quase que a mesma posição. Há acúmulo de coisas no quintal.

Digo: - Por quê você junta tanta coisa que não usa? Penso: faço a mesma coisa.

A falta do reboco na parede, a ferrugem na porta e a madeira apodrecida me incomodam; mas o cheiro de dama da noite ainda entra todos os dias pela janela e toma conta da casa sem pedir licença.

Cada vez que vou embora tenho mais medo que o tempo pese sobre esse reino que eu deixei. Não sobre o bolor, sobre a ferrugem, sobre a tinta das paredes ou sobre os panos envelhecidos.

No abraço do reencontro ela pergunta: - O que você achou lá que não volta de vez?

Eu sem saber o que responder, digo:

- Eu não posso voltar.

Volto. Bebo suco de limão que não é limão. Como o pior arroz, caro e sem gosto pra saber que no meu reino tudo é tão diferente.

E mesmo com o medo enorme do tempo me castigar com a ausência dela, eu parto. Minha ausência já a castiga; mesmo sabendo que preciso ir ela finge irracionalidade e pergunta por que eu não fico mais.

- come um chocolate.

- eu acabei de almoçar.

- toma um iogurte então.

- mas eu acabei de comer.

- vou por um copo de vinho pra você.

Sentada numa cadeira no jardim, em meio a tanto verde e sob um céu ardentemente azul com nuvens de paina, ela sempre vai reinar.

Quando o portão bate; tudo é só saudade.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Onde mora a felicidade

Conta ela uma história de uma terra que aos nossos ouvidos parece muito distante. Uma terra quase de fantasia. E narra tudo com um saudosismo estampado no rosto que em momento algum é escondido pelas marcas que o tempo deixou.

Terra essa que pode ficar em algum lugar entre Minas e Amazonas, entre Pasárgada e Macondo. Terra em que os campos iam até onde a vista se perdia e o povoada era cercado de uma floresta grande e carregada de mistérios e bichos que careciam de nomes e eram batizados de forma arbitrária entre ela e seus irmãos.

Insiste ela em dizer que comia melado todo dia e todo o tipo de comida preparada em gordura de porco com farinha e que ainda sim tinha saúde de ferro e que não existia nessa época as doenças que existem hoje.

Diversão era desbravar o mato, nadar nos açudes – era uma exímia nadadora – e dia feliz era quando fazia frio e sua mãe dava a ela e a suas irmãs canequinhas de leite com melado de cana. Nesses dias, mal dormiam ansiosos para verem o efeito do frio sobre as canequinhas de ferro deixadas no sereno ao lado do poço para que pudesse virar um picolé. Isso sim era ser feliz.

Conta ainda história de onças que tinham suas patas decepadas por invadirem as casas feitas de palha, no meio da noite, para comerem as crianças recém nascidas e de cobras que no silêncio da madrugada, rastejavam sem nenhum sibilar e mamava na teta das mulheres que ainda amamentavam seus filhos.

Havia ainda, narrativa de longos passeios em cavalos até o entardecer nos campos ao redor do sítio que causava a ira de seu pai. Aventuras dentro da mata com animais que grudavam nas roupas e jamais soltavam; histórias de lobisomens que amedrontava todas as crianças da vizinhança.

Triste apenas, conta com lágrimas nos olhos, sobre seu irmão preferido que, em sonho, veio se despedir dela com um beijo gélido e molhado e dizer que agora estava tudo bem e que não a queria triste, antes mesmo de receber a notícia na manhã seguinte, de sua morte por afogamento no mar.

Nessa terra, povoada de magias e perigos, faz nosso pensamento ir longe para tentar achar onde ela se situa. Todo encantamento que lá existia é fácil perceber no brilho dos olhos de uma criança mesmo que tenham se passado mais de 50 anos.

Mesmo com os questionamentos de dúvida e as nossas caras de descrença ela continua a contar essas e muitas outras, sempre jurando e atestando a veracidade de cada uma delas. Todas, ela conta e lembra com enorme saudade, ainda mais quando na presença de sua irmã que voltou a ser criança, mesmo num corpo de velha.

Essa terra na qual mora a felicidade, eu ainda não encontrei, mas feliz sou eu de escutar essas e outras tantas histórias, podendo olhar nos olhos dela e viajar nesse mundo que se perdeu no tempo e no espaço.