sexta-feira, 27 de março de 2015

Bailarina



A bailarina gira, salta, faz graça no ar. Ela segue por instinto o que tem vontade de fazer e é feliz. Para ela, ver outros bailarinos hesitantes ou parados é um enigma, ela não faz ideia de como se pode ter medo de algo tão simples quanto brincar e seguir em frente. Ela não se detém em observá-los, pois o gozo da dança é mais sedutor do que a tristeza alheia.

Certo dia, entre um giro e outro, a bailarina se deu conta de que estava sob cordas num abismo. O seu olhar perdeu o horizonte e, desde então, o precipício tem sido mais atraente. Ela conheceu o medo e o prazer que emana dele. O mistério agora era como alguém podia saltar, girar, seguir em frente, sendo que abaixo de si havia um abismo, um passo fora da corda e a imensidão absoluta pronta para devorar.

Então, quando não entorpecida pela falta de ar do pânico de cair, ela dá passos curtos e cuidadosos, mas nem um pouco emocionantes. Ela sabe que não pode continuar assim, pois já não é mais feliz. Mas sabe também que uma vez que se olha para o abismo, impossível ignorar a sua existência e voltar ao que era antes.

Podia ser um dia qualquer, mas como costuma ser com os dias fabulosos, começou despretensioso para subitamente se revelar paradigmático. A bailarina olhava para baixo pensativa, quando num impulso suicida saltou alto, com braços e pernas esticados, pronta para enfrentar o vazio. Mas o que ela não podia imaginar era que havia outros níveis de cordas, abaixo, acima, ao lado. O vento assopra por todas as direções.