sábado, 28 de março de 2015

Sangue e instagram

Durante a semana fiz várias anotações dos possíveis temas de hoje. De Paraisópolis e sua estruturação dentro da cidade (e isto enquanto uma condição física, a favela se desenvolve paralelamente à cidade), a questionamentos sobre as manifestações que ocorrem agora, em comparação às de junho de 2013 (e que muita gente acha que são a mesma coisa, mas não, não são).

Entretanto deixarei esses temas bacaninhas em segundo plano, o que chamou a atenção, no final, foi Rupi Kaur e sua foto excluída do instagram.

Afinal, nada é mais aterrorizante e ofensivo para as pessoas do que uma mulher com uma marca de sangue de menstruação nas roupas. Algo pra ser jogado embaixo do tapete. Ao menos é isso o que foi dado a entender.



Estudante da Universidade de Waterloo, Rupi Kaur estava realizando uma série de fotografias para um trabalho acadêmico, e utilizando o instagram como meio. Entretanto, esta foto foi excluída pelo servidor, por “violar suas normas de conduta”. 

A estudante não se calou, ao contrário, repostou a foto, com os dizeres:
“Thank you @instagram for providing me with the exact response my work was created to critique. You deleted a photo of a woman who is fully covered and menstruating stating that it goes against community guidelines when your guidelines outline that it is nothing but acceptable. The girl is fully clothed. The photo is mine. It is not attacking a certain group. Nor is it spam. And because it does not break those guidelines I will repost it again. I will not apologize for not feeding the ego and pride of misogynist society that will have my body in an underwear but not be okay with a small leak. When your pages are filled with countless photos/accounts where women (so many who are underage) are objectified. Pornified. And treated less than human. Thank you. ⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀
This image is a part of my photoseries project for my visual rhetoric course. You can view the full series at rupikaur.com⠀⠀
I bleed each month to help make humankind a possibility. My womb is home to the divine. M source of life for our species. Whether I choose to create or not. But very few times it is seen that way. In older civilizations this blood was considered holy. In some it still is. But a majority of people. Societies. And communities shun this natural process. Some are more comfortable with the pornification of women. The sexualization of women. The violence and degradation of women than this. They cannot be bothered to express their disgust about all that. But will be angered and bothered by this. We menstruate and they see it as dirty. Attention seeking. Sick. A burden. As if this process is less natural than breathing. As if it is not a bridge between this universe and the last. As if this process is not love. Labour. Life. Selfless and strikingly beautiful.”

Tradução (livre e com falhas, mas feita com amor e carinho <3):
“Obrigada, @instagram, por me fornecer a resposta exata ao que meu trabalho foi criado para criticar. Vocês deletaram a foto de uma mulher que está completamente coberta e menstruada, alegando que isto vai contra as normas de conduta, quando esta foto não é nada além de aceitável. A garota está totalmente vestida. A foto é minha. Não está atacando um determinado grupo. Tampouco é spam. E, justamente por não ir contra nenhuma destas políticas, irei postá-la novamente. Eu não iriei me desculpar por não contribuir com o ego e orgulho desta sociedade misógina que teria meu corpo em trajes mínimos, mas não está ok com um pequeno vazamento. Enquanto suas páginas estão recheadas com inúmeras fotos/contas onde mulheres (e tantas menores de idade) são objetificadas. Erotizadas. E tratadas como menos do que um ser humano. Obrigada.
Esta imagem é parte do meu projeto de série de fotos para meu curso de retórica visual. Você pode ver a série completa em rupikaur.com.
Eu menstruo todo mês para que a humanidade seja uma possibilidade. Meu útero é lar para o sagrado. Uma fonte de vida para nossa espécie. Escolha eu criá-la ou não. Mas poucas vezes é visto desta maneira. Em civilizações mais antigas, este sangue era considerado sagrado. Em algumas ainda é. Mas a maioria das pessoas, sociedades e comunidades evitam este processo natural. Algumas ficam mais confortáveis com a erotização da mulher. A sexualização da mulher. A violência e degradação da mulher. Mais confortáveis do que com isto. Eles não se importam em manifestar seu desgosto em relação a estas coisas, mas ficam irritados e incomodados por isto. Nós menstruamos e eles veem como uma sujeira. Falta de atenção. Doença.  Um fardo. Como se este processo fosse menos natural do que respirar. Como se isto não fosse uma ponte entre este universo e o outro. Como se este processo não envolvesse amor. Trabalho. Vida. Algo altruísta e de uma beleza impressionante.”

O Instagram deletou a foto novamente, e houve outra repostagem (confira a saga aqui).

Enfim, a pertinência desta postagem não reside apenas no texto escrito pela universitária, mas  em sua repercussão, a atitude do servidor e, sobretudo, a reflexão acerca da visão do corpo feminino. Até onde uma mulher vai para ignorar ou suprimir o funcionamento natural do próprio corpo, como se o organismo estivesse errado? Seja para se adequar à uma visão de sociedade, seja para se enquadrar no mercado de trabalho.

No caso da imagem e sua exclusão, o útero e sua manifestação foram tratados como algo de ofensa moral pública. Como se fosse extremamente repulsivo e perigoso. Anti-ético, praticamente.

Entretanto, como alega a autora, há séries de imagens e contas que priorizam a objetificação feminina, enquanto um elemento de atração sexual – e, reforçando, muitas delas com garotas menores de idade. “É interessante apontar como o sangue de menstruação pode deixar tanta gente desconfortável em um mundo onde há uma exposição constante que são sexualmente explícitas, violentas e beiram a repulsão. Assistimos jornais e reportagens sobre guerra e maratonas de ‘Law & Order: SVU’ sem nem piscar, mas não há uma única propaganda de absorvente que utilize o vermelho para simbolizar o sangue da menstruação”, disse a estudante, em entrevista ao Huffington Post.

Na mesma reportagem, ela ainda afirma que não é uma questão de começar a idolatrar o sangue e fazer um círculo para honrar nossas deusas interiores e fingir que menstruar é uma coisa linda e mágica – as cólicas são um saco. Mas sim diminuir a vergonha que rodeia a menstruação é um objetivo válido, e que necessita nossa aceitação de que sangue acontece. Todo mês. “Nossos corpos são esquisitos e confusos, mas são os únicos que temos, então seria uma boa se aprendêssemos a amá-los”.