domingo, 29 de março de 2015

como treinar o seu dragão ou o lobo de wall street

Quando algumas situações mostram-se complexas de compreender, faço uso de alguns filmes para desanuviar e sair daquela sensação de completa confusão ou incapacidade intelectual de absorver o que tentam explicar-me.

Tem um desenho muito criativo e sensível que basicamente trata da convivência com diferenças e defeitos que ajuda muito a discernir quando é o momento de fazer novas escolhas, sem medo. Refiro-me ao primeiro título.

Quando assisti fiquei encantada com o garoto feio, magrelo com pai gordo e com jeito estranho que ao longo de choros, fugas, amigos, treinos e conversas com o pai compreendeu que existem outras escolhas. Identificando que melhor é agregar e mostrar o equívoco de séculos do que continuar a matar dragões quando simplesmente pode treiná-los e conviver harmoniosamente.

Invejo quem teve a brilhante ideia de trabalhar temas tão complexos de forma tão simples através do desenho, para crianças sabe, pois se buscar inclusão vai encontrar se respeito às diferenças ainda mais e se quiser revolução é basicamente a centralidade do filme. Vejo revolução quando identifico que um menino com ausência da figura materna ensina algo para o pai, pertencente à geração de adultos com velhos princípios, e com certa dificuldade inicial acaba modificando toda uma cultura de séculos ao demonstrar que matar dragões não é divertido, honroso. E de forma alguma é símbolo de poder, mas decadência.

Não faço ideia quem seja o idealizador da estória e não quero procurar, mas posso dizer que gostei. Principalmente ao imaginar que o autor devia estar com os pakovás cheios e com muito tédio de histórias e contos bestas, com todas personagens perfeitas de tão magras ou musculosos, narizes finos, cabelos lisos, altos como varas paus, com aquele ar de monarquia e homens de guerra que travam lutas infindáveis para reafirmar tradições de séculos passados e vencem sem sofrerem nenhum arranhão ou desajuste no penteado.

Não veja a série que acaba sendo um pouco entediante para sábados de manhã, assista ao filme. Só não tente fazer qualquer semelhança com esta sociedade ou o século XXI. Aviso que encontrar algo parecido principalmente com o final é praticamente impossível porque em terra de homens os dragões são seres malignos apenas mencionados no livro do Apocalipse quando surgirá dos mares com uma mulher usando diademas na cabeça para devastar as nações. E assim dizem amém e comparecem ao ato.

Neste século não espero a reconsideração de velhos conceitos e princípios geracionais, nada disso. E perdão por ser tão cética, mas prefiro compreender deste modo a entregar-me a desilusão e processo depressivo da atual conjuntura. A prova mais fiel e cabal está na comemoração do domingo dia 15, aliás, achei que fosse ter hoje, pois teve jogo do Brasil. Então, não foram para as ruas por quê?

Não disponibilizaram as sacadas do escritório da paulista para comemorar o jogo de hoje por quê? O metrô não liberou as catracas? Poxa vida, que tal fazer uma reclamação, talvez atenda ao pedido para o próximo ato.

Entendo a necessidade de tempo para discernir e compreender algumas coisas, mas vamos combinar que desde junho de 2013 pra cá, um ano e oito meses é o suficiente para compreender o básico.

Na verdade pouco importa, pelo menos por aqui, se para ir à manifestação a cor da sua roupa é amarelo da cor da seleção, rosa pink, verde oliva, azul turquesa, se é cantado o hino nacional ou do Palmeiras, do Corinthians, do São Paulo, do Flamengo, da igreja ou dos loucos (ou anarco-comunista-cristão) o que de fato interessa é a pauta, reivindicação e finalidade coletiva.

Em junho de 2013 foram diversas bandeiras, muita insatisfação e não se tratava apenas com o governo federal, tanto que todos correram para aprovar isso aquilo outro. O pavor de todos os políticos era evidente, pasmados ao reduzir as tarifas e aceitar a vontade popular. Significa que antes acostumados apenas a impor foram obrigados a obedecer, na prática as estruturas políticas e institucionais em todas as esferas foram abaladas para benefício coletivo e isso é o mais importante e o que de fato interessa.

Sendo, tratar apenas da corrupção e saída da presidenta não altera muito coisa principalmente quando determinado investigado reafirma várias vezes que essa conversa de doação para campanhas eleitorais não existe, o que existe é empréstimo, seja pago antes ou depois, doação é conversa fiada. Então isso vale apenas para um partido?

Engraçado é que ninguém observou ou atentaram-se quando alguns candidatos disseram várias vezes nas eleições de 2014 o propósito e programa, enfatizando que não eram financiados por nenhuma construtora. Por acaso receberam muitos votos? De fato nos preocupamos com a corrupção?

Será que todos querem mesmo acabar com o que tanto arrotam? Posso entender que todos estão dispostos a eliminar com a ilegalidade de todas as fronteiras da cidade? E finalmente torná-la legal por todas as vias. A começar em não sonegar imposto e desviar sagazmente dinheiro para bancos europeus (HSBC) e Alpes Suíços? Em vetar o contrabando ali, bem próximo de nós na rua mais famosa da cidade a Vinte e Cinco que coincidentemente é de Março. Ao não subornar ninguém para ter privilégios, seja para fins de segurança, saúde ou patamar social, como exemplo o guarda quando vai multá-lo.

Ninguém nunca se perguntou por que de fato existiu o mensalão? Por que foi preciso comprar o congresso para trabalhar ou como queiram dizer manter-se no poder e formar uma ditadura petista? (ri alto quando li tem filosofo que a cada fala na tevê ou no jornal é um flash né?)

Por que as construtoras brasileiras simplesmente preferem comprar licitações ao invés de concorrer [inclusive] com as estrangeiras que são mais econômicas e dispõem de recursos mais modernos? Será incompetência ou desvantagem?

Acredito na segunda opção, mas não aceito ok, por que na reprodução das relações de trabalhos os capitalistas dizem que a concorrência é inteiramente saudável e produtiva, normalmente elimina os fracos, desinteressados, preguiçosos e incompetentes.

Então posso compreender que o fato de empresas com selo de qualidade e/ou auditorias ter o enorme interesse no mercado brasileiro justifica-se por querer investir e participar ativamente desta economia, quer dizer boquinha? Ou comer deste bolo? Saem às brasileiras entram as estrangeiras? 

Fala sério, quando começa a guerra do capital interno e externo? Notei que foi identificado potencial na saúde, agora por onde mais? O petróleo? Mas poxa, essa já é velha vai, quando não participaram do leilão do pré-sal ficou evidente, ainda mais quanto divulgado a espionagem americana, com ênfase na empresa brasileira tornou-se marca registrada a estratégia desvalorizar para comprar.

Não parece um filme de péssimo gosto? Sei, mas o importante mesmo é indignar-se apenas e somente com a corrupção, sem avaliar por que permitem que exista e qual a finalidade capitalista para deixá-la evidente apenas quanto é benéfico para alguns setores, normalmente o financeiro.

Mas podemos também identificar outras alucinações, fruto de muitos filmes. Por exemplo que não existe crise, o euro é hiper valorizado a negociação da dívida grega é birra, afinal não existe risco para demais países afundarem, o Japão não está com a economia decadente, a China continua dominando e ultrapassará os EUA conforme previsto daqui uns 5/10 anos (só que não) e vejam apenas a moeda americana é valorizada. E por quê? Ora eles são competentes, trabalhadores e terrivelmente honestos. De novo, só que não, são racistas, machistas, homofóbicos, corruptos e terrivelmente capitalistas, mas o culpa é só do presidente?  

E as empresas e os investidores que apenas priorizam a especulação quando não citados a identificação do tal imperialismo torna-se superficial e acaba sendo direcionado ao presidente, mesmo que ameaçado pelo congresso nos dizeres que iria arrepender-se de governar através de decretos. Não sei por que mas lembrei da situação do Maduro, mas ao contrário sabe. E no quesito política empresarial/estado são corruptos igual ou mais, vide a concorrência pela espionagem.

Será que basta simplesmente aderir à manifestação que se diga tem ótimas intenções como todo inferno, mas sem saber de fato quem são os organizadores, o que desejam e principalmente se recebem ajuda de custo ou são financiados.

Também achar que a sigla MBL uma replica descarada do MPL – Movimento Passe Livre são a mesma coisa e defendem as mesmas causas e bandeiras é o suficiente para adesão do ato?

E que se diga falta de criatividade infinita e ao quadrado em coleguinhas?!

Mas vamos combinar que o movimento social imitado não se importou muito, porque sem nota de esclarecimento de não participação (somente após o ato, mencionado no twitter que não compartilham das ideias e manifestação conservadora, não sei se houve notas noutras redes) ou repúdio na descarada imitação. E como a sigla é semelhante com certeza afeta o inconsciente e pra quem não tem hábito é tudo jogado no mesmo balaio.

A título de esclarecimento, pois não custa tentar, o MPL- Movimento Passe Livre de fato é um movimento social, com sete anos de estrada composto por estudantes que defendem necessidades e demandas de estudantes e trabalhadores na questão do transporte público e às vezes apoiam demais causas sociais que são negligenciadas pelo estado mínimo ou para fácil entendimento pela sociedade capitalista.

O MBL sabe-se lá quem é e o que defende e sinceramente não quero saber, uma coisa é certa ao escolher o tema genérico como a corrupção sem qualquer proposta de alteração estrutural, mas apenas individual e de interesse próprio e com caráter de movimento social para não dizer outra coisa é no mínimo esquisito. 

E prefiro gentilmente colocá-los no patamar de mobilização social e só, tratá-los como movimento social conforme nomeado pela mídia é ridículo e desrespeitoso com quem reivindica ações coletivas e de fato realizam enfrentamentos de ordem política e econômica, e na maioria das vezes tratados como vândalos.

Não aceito. Somos roubados em quase tudo na vida, agora até as características da esquerda querem tomar pra si? Ora poupe-me!

Pior ainda julgar que tirar a presidenta do cargo e eliminar o seu partido resolverá uma questão estrutural como é a corrupção. Ainda sabendo que a corrupção é muito necessária para manutenção do capital e sem mencionar outros partidos tão participantes quanto é falácia e conversinha fiada!

Os Lobos de Wall Street quem o digam, aliás, outro filme interessantíssimo, mas que não é desenho, é baseado em fatos reais. Enfatiza que quando os lobos agem com certeza não estão interessados em demandas como transporte público, exploração do trabalho, terceirização de setores da indústria, habitação e demais assuntos sociais.

O filme  vale muito a pena apesar das três horas de duração, é a história do corretor da Bolsa de Valores americana condenado há vinte anos de prisão pelos crimes de fraude bancária e sonegação de imposto ao estado, a meu ver o principal motivo pela prisão e prova contundente da “seriedade do estado americano” quando se trata de sonegação de imposto ao estado.

Os assuntos de consumo de drogas, compra deste ou daquele empregado ou empresa (corrupção) e prostituições são tratados no filme como assuntos secundários, a relevância está no fato de sonegar ao estado americano sendo o principal motivo da prisão.   

Enquanto isso, os desavisados ou ingênuos ou inocentes ou tolos aceitam o coro destes “movimentos sociais” atuais que não arriscam reivindicações de enfrentamentos do capital e seguem no coro do vem pra rua que estamos interessados em combater a corrupção e limpar o país do mar de lama. 


Seguimos. Sem depressão, com pouca fé, alguma esperança e música, neste caos cabe apenas a Lola do Rock.