terça-feira, 3 de julho de 2012

A visita - parte 3

Passei o resto do dia sentado na sala com o casaco na mão e olhando para porta esperando que a campainha tocasse outra vez, mas ela não tocou. Não fazia sentido.  Nada fazia sentido. Ou seria eu que não raciocinava direito? Não, eu não estava bêbado. Não ainda.  Fiquei lembrando da Ramona. Seria ela? Não, claro que não. Mudou pra Alemanha, Holanda, Rússia, sei lá, algum lugar frio.  Mandou um cartão postal. Na frente uma paisagem com neve, no verso dizia o quanto me odiava. Não li duas vezes. Piquei em pedaços e joguei pela janela. A mesma janela pela qual joguei o casaco. Fiquei lembrando de nós dois bebendo fanta com vodka, tang com vodka, qualquer porcaria líquida com vodka. Jovens, bobos e duros.  Agora ela deve estar tomando algo caro com algum velho rico de bigodes na frente de uma lareira.  Mas eu não tinha como reclamar, eu fui embora antes.

Fiquei com vontade de tomar uma merda dessas qualquer. Cuba Libre. Existe Cuba Libre ainda? Hi fi? Resolvi descer até o bar mais próximo e pedir hi fi, alguns deles, por saudosismo. O garçom já vinha trazendo o whisky de sempre quando informei a mudança. Claro que ele riu da minha cara. Meu fígado também, deve ter achado muito engraçado , ele e o meu estômago, mais a minha cabeça, uma grande chacota acontecendo no meu corpo.  Vodka sempre me fez mal assim ou eu que fiquei velho? A cabeça girando, a ex girando, o casaco girando e a carta girando, girando, girando, o sete de paus.  Abaixei a cabeça na mesa do bar. Não sei quanto tempo fiquei ali, de cabeça abaixada, mas quando a levantei não tinha mais nenhum cliente.  Só os funcionários e o barulho da TV mal sintonizada.

Reuni toda a experiência adquirida em situações como essa e me levantei com a destreza suficiente para ir até o caixa pagar a fatura. Estava tirando a carteira do bolso quando, para minha surpresa, fui informado que já estava tudo pago. Mas quem? Será que eu estava tão digno de piedade assim?  Uma ruiva, disseram.
-Ruiva? Mas eu não conheço nenhuma ruiva.
- Mas ela sabia seu nome. E deixou essa chave, ó.