quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Convites de casamento

Os convites de casamento se acumulavam sobre a mesa da sala: “Virgílio e família”. Os anos de dedicação e carinho aos tios, primos, sobrinhos, amigos e vizinhos renderam uma boa coleção de caligrafias, pedaços de tules, e papéis cartão em tons diferentes de bege. Na cozinha, o único som era o da geladeira, que mesmo sendo um modelo novo e silencioso, era mais barulhento que os próprios pensamentos.

Na sala, sentava-se de frente para a televisão, mas não ousava tocar no controle remoto. Mantinha-a sempre desligada. A programação era sempre a do seu próprio reflexo. Quando estava escuro, as únicas imagens eram a de suas memórias.

Sua rotina era composta por quatro principais eventos: acordar, ir ao banheiro, comer e dormir. Não necessariamente nessa ordem, e com repetições de ações. Fora isso, tentava andar de um lado para o outro no corredor da casa após o almoço para fazer a digestão. Às sextas-feiras, tinha fisioterapia.

Em suas viagens diárias ao passado, lembrava-se especialmente de sua mãe. Às vezes, em visita da neta, nos momentos em que seus caminhos se bifurcavam, ou quando suas sinapses já não funcionavam, agarrava a mão daquela moça que estava ali à frente e chamava por sua mãe. “Mamãe, mamãe, mamãe”. Voltava à realidade quando entendia quem era ali – “Tudo bem, vô?”, perguntavam os olhos gigantes, porém delicados, e as mãos firmes. Respondia que sim com a cabeça. E logo voltava-se para a programação normal.

Morreu dormindo, logo depois de ter chamado pela mãe, como insistentemente fazia nos últimos anos. Aparentemente, dessa vez ela havia ouvido seus chamados. Deixou a esposa sem rumo, que acabou tomando seu lugar no sofá.

Mais ativa que era, ela ainda estendia as caminhadas até o mercado do centro, para buscar sua marmita diária na hora do almoço – não fazia mais sentido fazer comida para si mesma – fazia seu croché e caçava palavras nas revistinhas de bancas de jornal.

Agora, o neto mais novo fora morar com ela, mas ainda tinha dúvidas frequentes de quem era ele – o neto ou o filho? Dizia, sempre risonha para o resto da família em suas visitas semanais: “dessa vez eu juro que paro de chama-lo de Lúcio. É o Ju.” Segundos depois, desistia da sua proposição. Era o filho. Ao telefone, dizia à neta: “hoje fui almoçar com o Tio Lúcio”.

Mantinha suas tentativas frustradas de acertar. Sempre tivera medo daquele cara alemão que saía por aí roubando as memórias e os afetos. Era o Alzheimer, lhe diziam. Por isso, pegava firme nas caça-palavras.

Essa semana se sentiu estranha pois visitou um lugar que há muito não ia. Viu pessoas que há muito não encontrava. Teve a impressão de que fora ao velório de algumas delas. Visitou o melhor carnaval de rua da sua cidade, na época dos grandes bailes e das marchinhas. Dançou até dar calo nos pés, paquerou o marido, que estranhamente ainda tinha as feições jovens, tomou um porre de vinho, o único da vida. Pensando bem, agora eram dois, já que o havia tomado de novo. Quando voltou para casa, o neto (ou o filho?) lhe levava uma xícara de café e já não tinha mais certeza de onde estava.

Outro dia resolveu passar uns dias com a irmã mais nova, essa tinha Alzheimer, coitadinha. Uma moça tomava conta dela durante o dia. Tomavam café juntas e assistiam televisão. Mas, frequentemente era interrompida pela pergunta: “O Virgílio já morreu?”. E tinha que, com paciência, responder que sim, todas as vezes. Uma pontada no coração, um frio na barriga e uma lágrima acompanhavam a paciência que tinha ao responder a irmã.

Mas seguia de cabeça em pé. “Estou ficando caduquinha”, dizia à neta, “mas ainda tenho muita vontade de viver”. E no seu andar corcunda, caminhava confundindo suas memórias, embaralhando passado e presente. Uma pena é que as fotos digitais já não trazem a materialidade do passado, mas pelo menos, os mais de vinte porta-retratos no móvel de entrada traziam algum conforto. A foto de seu próprio casamento. Como estava bonita! E o Virgílio, tão novo. Isso a fez lembrar de algo: olhou para uma pilha de papéis na mesa da sala e começou a escrever a lista de presentes a serem comprados.