segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A desmemória da goiaba

Tenho medo da velhice.

Não medo de olhar pro espelho e ver minha cara murcha. Mas tenho medo de não poder confiar mais na minha memória. Um amigo me disse uma vez que nossa vida é memória, e estabeleceu um diálogo mais ou menos assim:


Ele - O que você não gosta?

Eu – De comer? Do que?

Ele – É, pode ser.

Eu – Goiaba.

Ele – Mas como você sabe que não gosta de goiaba?

Eu – Porque comi e não gostei.

Ele – E você só sabe que não gosta porque tem memória. Se não tivesse, poderia comer a goiaba com uma ‘boca nova’ e quem sabe, né?


E pronto. Ficou na minha cabeça. Vocês perceberam que as coisas se alojam na minha cabeça e eu posso pensar nisso o resto da vida, né? Como na história do ridículo lá.

Enfim, voltando à velhice. Minha vovó (Deus a tenha!) faleceu com 81 anos. Muito linda, cara boa, forte e lúcida. Mas tinha falhas na memória, como era de se esperar. Confundiu por muitas vezes eu com minha mãe. “Neuzinha, sabe quem eu vi hoje? A Simone, sua amiga da igreja”. Eu sorria e a corrigia. Ela, envergonhada, pedia desculpa. Falava que a gente era muito parecida nessa idade, coisa e tal. E um dia que ela me disse que andou, andou, andou e quando deu por si estava a 3 km de casa? É, tenho medo disso. Ela pegou um taxi, fez a gata, voltou bonita pra casa e rindo da história. Mas eu fiquei assustada. Coisa assim, que pode acontecer com qualquer um.

Digo qualquer um porque é qualquer um mesmo! Não adianta fazer curso de memorização aqui, ler demais ali, fazer chá de não sei o que, misturar livros com, sei lá, brócolis? Bom, digo isso pela minha avó, que leu mais que qualquer pessoa que eu conheça. E faleceu com uma cruzadinha do lado da cama, coisa que ela tinha um vício insuperável.

Guardamos muitas coisas na memória. Tenho vontade de escrever tudo o que tem aqui dentro, pra saber do que gosto, do que não gosto, do que estimo, de que lado da cama eu durmo, se como farofa de boca aberta, se faço as unhas em casa ou pago manicure, se tenho dor de estômago de comer tomate com semente, se gosto de som baixo, enfim. Muita coisa pra guardar.

Mas seria até bom esquecer das coisas de vez em quanto. Quem sabe o gosto pela vida não seria mais sincero, não é mesmo? Com um ‘boca nova’ você prova aquela laranja azeeeeda, que te fez entortar o nariz a vida inteira e... gosta? É, você gosta do azedo. Você gosta porque experimentou sem um conceito predeterminado sobre aquilo. Não é seu paladar que tem problema em gostar das coisas azedas, é você quem o obrigou a não gostar disso. O problema é seu, na verdade. Ou meu, no caso da goiaba.

Mas seria até bom, né? Esquecer desavenças, desrespeitos. Passar por aquela pessoa que você cismou em brigar a vida inteira sem motivo e sorrir pra ela. Ou ter suas lástimas perdoadas também. Vale pros dois lados.

Uma vez, passeando internet afora, li uma coisa interessante. Falando sobre uma tal de desmemoria. Se não me engano, escrita por Eduardo Galeano. E, caramba! Parece que o cara me adivinhou.

“O bebê sorri porque ainda não tem memória; o velho porque já não tem nenhuma. Eis aí a felicidade perfeita. Não a quero.”

E não é? É lindo. Mas eu não quero, não! Não quero perder isso que levei anos para construir. Não quero acordar um dia e ficar em dúvida se eu prefiro leite morninho (urgh!) ou gelado, ou se eu não como chiclete porque não gosto ou porque tenho alergia fatal.

É legal esquecer das coisas, e vou me esforçar um pouco pra isso. É um exercício. Esquecer daquilo que não faz bem pra gente. Comer com ‘boca nova’ o que vem por aí. Ainda pretendo comer a goiaba com uma ‘boca nova’. Só não sei quando. Mantenho-os informados.




Imagem: Alex Silva


twitter: @tabataaa