terça-feira, 1 de março de 2011

Este não é um conto erótico

eu tinha certeza de que não seria o mesmo depois de ter saído pela porta daquele apartamento enorme e sujo da rua augusta. o cheiro de café da manhã, a tostadeira ligada, os pêlos dos gatos no sofá e toda aquela roupa jogada no chão me causou um certo enjoo quando atravessei a recepção e ouvi um bom dia safado do porteiro.

talvez não deveria ter aceitado o primeiro convite, uma espécie de brincadeira, fetiche, não sei, mas na hora não vi problemas em sair com alguém por dinheiro. claro que eu não precisava, mas a sensação de estar fazendo algo proibido, entre todas as coisas proibidas que eu vinha fazendo, só aumentava a vontade.

mas aquela vez (a primeira e última) foi estranha. primeiro, uma troca de mensagens diretas numa destas redes sociais por aí. depois, a troca de emails, msn, sms, cel. o almoço nos dias seguintes e depois o jantar e aquela festa familiar num tal sítio. até aí nada aconteceu, mas estava óbvio que havia algo no ar. quanto mais eu achava aquilo normal (um passeio com amigos, qual o problema?), mais ele pensava que eu queria algo a mais. e eu, naquela ingenuidade que me é notável, fingia que nada acontecia.

até que veio a proposta: quanto você quer?

como assim quanto eu quero? ué, quanto você quer pra gente ficar o dia todo junto, eu faço tudo o que você quiser. nunca cobrei por uma coisa que eu faria de graça sem problema algum, desde que houvesse o mínimo interesse comum, eu disse, mas já que você está sugerindo, quanto você costuma pagar? eu pago 400 reais por uma mulher. 700 se ela for muito exigente e até 1.000, talvez, dependendo da fantasia que ela vai satisfazer.

e de repente a risada, seguida de culpa, seguida de alguma coisa que não sei o que é. era o começo de uma vida de prostituição? logo eu, tão sério, inteligente, nerd. 600 reais por uma hora, eu falei. ok, ele falou.

no carro, o disco do caetano. a música, aquela que eu não queria ouvir:

"Talvez haja entre nós o mais total interdito
Mas você é bonito o bastante
Complexo o bastante
Bom o bastante
Pra tornar-se ao menos por um instante
O amante do amante
Que antes de te conhecer
Eu não cheguei a ser

Eu sou um velho
Mas somos dois meninos
Nossos destinos são mutuamente interessantes
Um instante, alguns instantes

O grande espelho
E aí a minha vida ia fazer mais sentido
E a sua talvez mais que a minha,
Talvez bem mais que a minha
Os livros, filmes, filhos ganhariam colorido
Se um dia afinal
eu chegasse a ver que você vinha"

daí foi só fazer o que já estava acostumado, só que com uma diferença. cada minuto com aquele senhor casado, pai de 3 filhos, avô de um neto e pastor da igreja custava 10 reais. não que eu estava preocupado com o dinheiro, que ele deixou sobre o criado mudo como diz o figurino, mas porque eu, que sempre tive medo do amor e fugi dele, me deixei levar pelo prazer de ser usado como um objeto.

e eu tinha certeza de que não seria o mesmo depois de ter saído pela porta daquele apartamento enorme e sujo da rua augusta.

este não é um conto erótico, mas poderia ser. é só um aperitivo pra você que gosta de boas histórias (muito melhores que esta, garanto). então te convido a passar por aqui durante o mês de março, em que o blog se dedica ao sexo. enjoy...

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