domingo, 6 de junho de 2010

Memória Cinematográfica



















      Sexta-feira faz chuva e sol, as raposas estão se acasalando e não querem que ninguém as perturbe, mais uma vez acordei atrasado para ir trabalhar, o relógio da porcaria da televisão estava errado, acordei vinte minutos mais tarde com a moça do tempo falando em nuvens, neblinas, sombras, dia da marmota e outras coisas que não faziam o menor sentido na minha cabeça que latejava. Minha sobrinha de um ano e meio não me deixou dormir, chorava, esperneava e se debateu até que seu carrinho descesse as escadas e encontrasse meu vizinho, um senhor que essa semana irá receber uma honraria na universidade que leciona, por seus anos, aliás, décadas de carreira, é alguma efeméride, acho que são cinqüenta anos. Ninguém se machucou apesar de meu vizinho ter achado que tinha quebrado o fêmur, mas, já esperava algo semelhante vindo dele, hipocondríaco irritante que uma vez causou tumulto porque pensara que uma mancha escura em sua camisa se tratava de um melanoma.

      Apressado, preferi ir tomar café ao lado de uma joalheria que tem perto do trabalho,  já na empresa percebi um clima de agitação, era dia de entrevistas para contratar novos empregados. Lembro me bem como foi minha entrevista...Uma serie de perguntas estúpidas e invasoras, logo de início a pessoa quis saber a minha data de nascimento, eu lhe informei, aí então o cretino inquiriu: “qual a sua idade?”, não agüentei e depois de um “faça as contas oras”  ,  preferi responder da maneira mais protocolar possível os outros questionamentos, afinal, precisava do emprego.
     Saí para almoçar um pouco mais tarde que o habitual, o restaurante já estava cheio, achei que mesmo assim conseguiria almoçar sozinho quando vi uma mesa vazia, mas, logo depois de eu me acomodar, veio um casal que pediu licença e se sentou na minha frente.  Não satisfeitos em compartilhar somente a mesa começaram a discutir sua relação, até o marido dizer: “E aquele caso que você teve não conta?”, a esposa retrucou: “Caso? Não foi um caso, foi apenas um breve interlúdio de infidelidade, e, aconteceu há anos!”, depois disso preferi deixar os dois a sós, guardei meu chocolate para o jantar e voltei pro serviço.
     Pouco antes de ir embora tive que protocolar um documento no palácio dos bandeirantes, nunca havia entrado lá, muito bonito, uma moça chamada Silvana me acompanhou até a sala em que eu deveria ir, uma excursão que me lembrou o filme “A Arca Russa”, um lugar enorme, com muitas estátuas e ornamentos, tudo muito branco e brilhante, além disso, havia uma escada bem parecida com a do hotel de “O Iluminado” (versão Kubrick).     
     Bom finalmente após isso pude voltar para casa e assim terminar de ler “Adeus Meninos”, não sei se sou aquele que sabe viver e se isso foi interessante mas é assim que me lembro do dia de ontem, e, poderia lembrar bem mais e melhor se não tivesse doente e me sentindo frágil tal como Abacuc em sua ultima jornada.

                                                              Sábado, 25 de Maio de 2010

Por Vlad Galli