segunda-feira, 7 de junho de 2010

Oração para o trabalhador dormir em paz

Texto de Gilberto Amendola, nosso colaborador do dia 04, postado extraordináriamente no dia de hoje:




Ó Deus do Trabalho, das horas extras extraviadas do nosso futuro, aceito meu direito de permanecer calado com a boca cheia de palavras tontas. Sou filho do silêncio e servo da satisfação. O que me pagas é o que me cabe. Nem mais um tostão, amém.

Ó Deus do Trabalho, da labuta infinita, das mãos calejadas, dos olhos cansados e da Lesão por Esforço Repetitivo, faça de mim seu funcionário padrão. Conceda-me a graça de uma foto pendurada no panteão dos competentes, amém.

Ó Deus do Trabalho, ensina-me os meandros do seu coração e das pequenas congratulações. Mostre-me com que mãos de luva posso me pendurar em suas delicadas partes. Deixe-me balançar feito uma criança feliz. Serei capaz de puxar sem machucar? Sim, serei. Amém.

Ó Deus do Trabalho, faça com que eu nunca me atrase, afaste de mim o cálice envenenado das distrações gratuitas, das redes sociais, do Twitter, do Facebook, do Orkut e do MSN. Proteja nossas caixas de e-mail contra a fofoca dos descontentes. Livrai-me das línguas ferinas que dizem coisas maldosas sobre o senhor, amém.

Ó Deus do Trabalho, guia minha mão até a fria ferramenta com que criaste teu império. Quero que minhas costas suportem tua ambição, que eu possa servir de base, cavalinho alazão. Ó, se precisares, não se furte em pedir, concedo-lhe o direito de três bicas no meu traseiro desferir. Obrigado por me fazer não sentir dor, amém.

Ó Deus do Trabalho, me ocupe, me preencha, me domine, me sodomize (se assim desejar). Só não deixes que as horas mortas contaminem meu espírito altruísta, minha obediência espartana e meu dócil jeitinho de curvar-me em reverência plena, amém.

Ó Deus do Trabalho, proteja-me das tentações e dos advogados sem pudor. Como bem me ensinaste, em todos esses anos de sincera amizade, ações trabalhistas são primas de Satanás e só trazem desarmonia às boas companhias, amém.

Ó Deus do Trabalho, poupe-me dos domingos e feriados. Almoços com a família? Namoro no cinema? Não, não, não. Imploro de joelhos, não permita que eu caia nesse tipo de armadilha. Mantenha-me no emprego, junto do seu colo quente e acolhedor. Não desejo sair deste ninho, nem da frente do computador. Transborde-me de tarefas, missões e desafios e, se possível, encurte meus prazos. Só quero ser eficiente, amém.

Ó Deus do Trabalho, saiba que a criatividade espreita feito um porco espinho em pânico. Não dê asas aos meus devaneios, não permita sequer que eu ouça música durante as horas de louvor. Faça com que eu decore e adore o meu próprio holerite - e, e isso é muito importante, não inveje o holerite do próximo. Por mais que me esforce, nunca trabalharei tanto (e tão bem) como o senhor, amém.

Ó Deus do Trabalho, perdoai meu cafezinho, meu cigarrinho em horas impróprias e até aquele desvio (que horror, que horror) denominado almoço. Faça com que eu engula minha ração diária em, no máximo, 15 minutos, amém.

Ó Deus do Trabalho, inspire-me a produzir e produzir de forma constante, contínua e concentrada. Faça de mim uma criança asiática, daquelas empregadas em fábricas de tênis ou em confecções de moda. Quero ser sua imagem e semelhança. Embora nunca, em nenhum instante, sonhe em almejar seu cargo. Serei sempre o seu servo, amém.

Porém, ó Deus do Trabalho, chegará o dia em que, carcaça cansada, vísceras retorcidas e sangue aguado, não servirei mais aos seus propósitos. Cumprirei então a profecia da sarjeta, do pires na mão e do abençoado Fundo do Poço de Garantia - que, espero, tenha sido depositado religiosamente, amém.