quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Pour Elise

Aos oito anos comecei a fazer aulas de piano. Dona Maria Amélia era a minha professora. As aulas eram pela manhã na casa dela, na ladeira, em cima da loja de quinquilharias do marido libanês. Eu subia as escadas e lá estava ela, volumosa, ao lado do piano: não tinha sobrancelhas e no lugar fazia um traço vermelho com lápis, usava roupas floridas, se abanava com um leque. Eu me sentava tímida no banquinho do piano e então a aula começava: dó-ré-mi-fa-sol-la-si-la-sol-fa-mi-ré-dó. Depois do aquecimento, as valsinhas. Os olhos ficavam atentos tentando ler a partitura corretamente e as mãozinhas de dedos curtos tocavam desordenadamente. "Disciplina nos dedos", dizia. "Atenção ao ritmo! Toque mais uma vez! Mais uma vez! Mais uma vez! Mais uma vez! Outra vez!" Até que um relógio cuco anunciava o fim da aula: "lembre-se de estudar mais", ela advertia, "como você que tem piano em casa, não há desculpas para não estudar". E ela comentava para me provocar: "a próxima aluna, a coreaninha, não tem piano e estuda mesmo assim em casa; com fita crepe ela faz as teclas na mesa e treina o movimento dos dedos. Ela já toca maravilhosamente!". Na época, eu morava com a minha avó e ela tinha um piano. Mesmo tendo o instrumento e uma avó pianista, abandonei as aulas de piano com a Dona Maria Amélia. Faltava-me talento e, principalmente, disciplina. Nunca mais estudei música. Não consigo distinguir um dó de um ré. Nem mesmo as letras das canções eu consigo decorar. A única música que aprendi a tocar  - muito mas muito mal - com a Dona Maria Amélia foi Pour Elise, do Beethoven. Essa é, segundo o Tom Zé, a música que mais identifica São Paulo porque toca no caminhão de gás em todo canto da cidade. Para mim, Pour Elise é o hino do meu fracasso musical.