domingo, 22 de junho de 2014

A Copa de 94 e Eu...


Aos 8 anos eu não entendia nada de futebol. Minha mãe, muito preocupada com aquele meu defeito, espalhava bolas pela casa toda na esperança de que eu esbarrasse em alguma e - tomara Deus - tomasse gosto pela coisa. Não adiantava. Na escola eu declarava a todos que não tinha time e logo mudava de assunto quando alguém começava com aquele assunto que eu não dominava.

O tempo foi passando e minha mãe foi perdendo as esperanças. Ela passou a se conformar com o fato de que o filho dela não tinha os mesmos interesses de todos os meninos daquela idade e deixou de tentar remediar o irremediável. Deus haveria de cuidar de mim e me dar amigos, ainda que eu fosse daquele jeito. 

***

Aos que não gostam de futebol, devo dizer que esta história não acaba bem. Eu não passaria ileso aquele ano de 94. 

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O ano ia se aproximando da metade e meu irmão mais velho estava de namoradinha nova. Eu, que não sabia nada de futebol, entendia menos ainda de namoros, de modo que alugava a pobre moça para brincar comigo, sem me importar com o infortúnio que aquilo representava a ele que, afinal, não tinham lá muito tempo para ficar junto dela. 

O fato é que até mesmo ela parecia se interessar bastante por aquele esporte. Aliás, naquele mês de junho todos ao meu redor só falavam disso. Era a Copa do Mundo, ela me explicava, um campeonato que acontece a cada 4 anos e que o Brasil não ganhava há mais de 20! Opa, aquilo começava a ganhar ares desafiadores e, consequentemente, a me interessar. Essa coisa de competição era algo que me atraia bastante naquela época.

Os dias foram passando e eu fui me interessando por aquelas conversas. O Brasil, diziam, tinha um time apenas regular e dificilmente iria muito longe naquela Copa, o que só aumentava minha recém adquirida ansiedade futebolística. Por fim, o primeiro jogo. Me lembro da família reunida na sala e do gol do Raí, de pênalti, contra a Rússia. Nesse jogo, eu aprendi o que era um pênalti. Com a minha futura cunhada, como a essa altura já se supõe.

No jogo seguinte eu aprendi o que era uma goleada e também aprendi que havia um país chamado Camarões. Contra a Suécia eu aprendi que aquele tal de Romário era bom mesmo e que se podia contar com ele em jogos difíceis como aquele. O Brasil havia se classificado para as oitavas de final, minha didática e tão solicita cunhada me explicava, e agora não poderia mais perder se quisesse ser campeão. Foi nesse dia que aprendi o que era uma prorrogação e disputa por pênaltis. Aquilo estava ficando cada vez mais interessante! 

Os donos da casa estavam em nosso caminho. Os Estados Unidos eram os anfitriões e disputavam aquela partida justamente no dia em que comemoravam o aniversário da independência do país, mas naqueles tempos eu pouco entendia da importância daquilo tudo e só queria saber qual era a dificuldade de se enfiar uma bola minúscula num gol daquele tamanho. Naquele dia, pela primeira vez uma partida de futebol me deixou nervoso. Avançamos com Bebeto e enfrentaríamos a Holanda!

Ah, a Holanda! Eles conseguiram empatar um jogo que parecia ganho e fizeram do gol do Branco, no fim do jogo, um acontecimento épico em minha memória futebolística. Foi nesse dia que Bebeto inventou a icônica comemoração do bebê sendo embalado e que seria muito imitada por mim em meus gols infantis, eu que ainda nem tinha filhos. O Brasil estava na semifinal e jogaria novamente contra a Suécia.

Contra os suecos eu aprendi que meu nervosismo poderia atingir níveis estratosféricos e que um baixinho de 1,68 poderia fazer um gol de cabeça e levar o Brasil à final. 

Àquela altura eu já estava mergulhado naquele mundo e já não dependia tanto dos ensinamentos de minha cunhada, já podíamos torcer de igual pra igual naquele jogo contra a Itália. E foi o que fizemos. Por 3 angustiantes horas...

***

Já se vão 20 anos daquela final, mas ainda me lembro de minha avó, com um terço na mão, rezando por cada jogador durante o hino nacional, da angústia da prorrogação e das cobranças de pênaltis, da alegria que atingiu a todos em minha casa naquela noite e dos pulos que iam mais altos que a bola de Roberto Baggio! 

Aos 8 anos eu não entendia nada de futebol. Não sabia que os jogadores eram milionários e que trocavam de time conforme a conveniência financeira. Não sabia que muita gente se digladiava por causa do futebol e que, naquela mesma Copa, um jogador colombiano fora assassinado em seu país por ter tido a infelicidade de ter feito um gol contra. Não entendia nada de xenofobia, racismo e machismo e muito menos a relação disso tudo com o futebol. Não sabia que o futebol era um negócio e que ele poderia movimentar tanto dinheiro. Não sabia o que era máfia e nem corrupção. Pensava que o futebol era apenas um esporte.

Em 94 eu gostava bem mais de futebol do que eu gosto hoje. Não porque em 94 o futebol fosse mais inocente. Mas porque eu era...