terça-feira, 22 de setembro de 2015

Meu Aurélio particular

A língua portuguesa conta hoje com quase meio milhão de palavras. Qualquer um diria que com esse número de palavras dá pra bater um lero bom. Há sinônimos para uma infinidade de adjetivos e o sujeito mais preciosista pode dizer, sem margem para imprecisão, se está triste, infeliz, desgostoso, consternado ou, em alguns casos mais preocupantes, lúgubre. 

Dia desses, entretanto, ouvi uma frase com a qual não posso deixar de concordar: "O dicionário é o cemitério da língua". Sim, a língua é fluida como as águas de um rio (como diria Marcos Bagno) e as palavras novas e mesmo os significados atribuídos às palavras antigas mudam a cada dia, dependendo de variáveis como região geográfica, contexto ou até mesmo a idade do sujeito que a pronuncia. Um dicionário, por sua vez, se não acompanhar o fluxo dessas mudanças, será somente um depósito de palavras caquéticas.

Pensando na fluidez da língua, um fenômeno interessantíssimo de se observar é a existência de léxicos familiares, ou seja, um apanhado de palavras que só são inteligíveis dentro da unidade familiar e que, se utilizado fora desse contexto, é encarado como esquisitice. Dito isso, quero compartilhar com vocês parte do léxico de minha família de origem, o nosso "Aurélio particular".

Gostaria de iniciar pelos termos mais pudendos porque creio que é aqui em que reside o cerne da questão, porque acredito que as famílias não se distinguem pelo sobrenome, mas pelo modo como nomeiam suas partes pudendas. O órgão feminino é, sem sombra de dúvida, aquele que mais atenção recebeu por aqueles de minha laia. A forma mais popular para designá-lo é o curioso monossilabo tchó, que se pronuncia de maneira análoga à palavra tchau. O uso era (é) tão forte que as mulheres de minha familia de origem, ao quererem exprimir preguiça ou impaciência, diziam "não tô com tchó pra isso hoje" (e jamais utilizavam a palavra "saco" nestes casos). Um outro vocábulo para referir-se à tchó é o não menos curioso dissílabo pota (lê-se "póta"), mais largamente utilizado pelas gerações mais antigas e invariavelmente num contexto mais pejorativo do que aquele em que o inocente tchó está presente. A expressão pota lisa (em tradução livre: tchó sem pêlos) pode ser entendida, por exemplo, como alguém que quer se aparecer ou, para utilizar outra expressão de meu léxico familiar, alguém que quer nome.

O órgão masculino, por seu turno, também recebeu entre os meus alcunhas memoráveis. Os mais antigos referiam-se a ele por malacha (malatcha) ou simplesmente mala. Os de minha geração adotaram o vocábulo benga e, os mais jovens, referem-se ao ditoso membro por badola, demonstrando que o léxico familiar também está envolto por conflitos geracionais.

Mas não só de partes baixas vivia nosso léxico familiar. Assim, deixo as partes pudendas para compartilhar com vocês o mais importante e multifuncional dos vocábulos de minha família, a conhecidíssima palavra colega, que em minha casa sempre foi um grande enigma. A palavra colega sempre era utilizada para designar algo que se queria ocultar. O colega gelado, por exemplo, queria dizer sorvete e era usada nesses termos quando utilizada próximo a crianças para que estas não ficassem com vontade ou algo do tipo. Um adulto poderia dizer no meio do almoço em família, por exemplo: "Alguém comprou um colega gelado para a sobremesa?". O mesmo valia para a pizza que era a colega redonda: "Vamos pedir a colega redonda hoje ou deixamos para outro dia?". E por ai vai. O colega, era sempre alguém tacitamente conhecido pelos interlocutores mas cuja pronúncia do nome era indesejável, geralmente pela existência de um terceiro na cena. Inevitavelmente volto às partes pudendas: "estou com coceira no(a) colega" ou "Não esqueça de lavar o colega cheiroso" eram outras aplicações bem frequentes do coleguismo.

O mais interessante é que este vocabulário próprio saía com naturalidade. Aliás, eu jurava que algumas dessas palavras eram de domínio público até muito tarde. Foi só quando algumas pessoas passaram a me olhar meio torto que eu fui percebendo que era só em casa que eu podia dizer que tinha sobe (dó) de alguém ou que alguém era bocolão (bobão) sem ser taxado de estranho. E mesmo hoje, após tanto tempo de imersão no mundo público, sempre que escuto alguém referindo-se a outro por  "colega", dentro de mim se forma instantaneamente um sorrisinho de cumplicidade.